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Três anos sem Marielle Franco

Quem mandou matar Marielle? Qual a motivação do crime?

Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Era uma quarta-feira, 14/03, jantávamos em um pequeno restaurante em Salvador depois de um dia intenso de atividades no Fórum Social Mundial que em sua 13ª edição, em 2018, acontecia naquela cidade, na Universidade Federal da Bahia. Na tv do restaurante o Jornal Nacional noticiou: A vereadora Marielle Franco foi assassinada à tiros, quando saía de uma atividade na Casa das Pretas, região central do Rio de Janeiro.

Um reboliço se instalou em nossa mesa. As pessoas alí presentes (defensoras e defensores de Direitos Humanos), passados alguns minutos de torpor, algumas já chorando, levantavam-se para correr para o aeroporto e ir para o Rio de Janeiro.

Foi assim que recebi a notícia da morte de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Eu não conheci Marielle Franco pessoalmente, tinha essa expectativa pois, em abril daquele fatídico ano, participaríamos de um evento organizado pela ALARI – Afro-Latin American Research Institute, na Universidade de Harvard, sobre Racismo e Movimentos Negros no Brasil, onde eu representaria o Geledés-Instituto da Mulher Negra numa mesa para discorrer sobre Movimentos Sociais e Estado e ela estaria lá na mesa sobre Direito à biodiversidade, à cidade e a outras territorialidades.¹

Hoje, passados três anos da morte de Marielle Franco, sem que tenhamos respostas para as perguntas: “Quem mandou matar Marielle? Qual a motivação do crime? pensei escrever sobre esse brutal assassinato sob a minha perspectiva, neste pequeno relato.

A dica de leitura para hoje é UPP – A redução da favela à três letras: Uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro (Marielle Franco – UFF).

#MariellePresente

#QuemMandouMatarMarielleFranco                                              

#3anossemrespostas

#MarielleVive

#JustiçaporMarielleEAnderson

 

¹Universidade de Harvard recebe evento sobre racismo e movimentos negros no Brasil – Uneafro Brasil

Por Maria Sylvia de Oliveira – Presidenta de Geledés-Instituto da Mulher Negra

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NOTA PÚBLICA – O Brasil está a disposição dos turistas. Nós, mulheres, NÃO!

Para: Senhor Presidente da República

(Foto: Imagem retirada do site Petição Pública)

O Coletivo MPT Mulheres, movimento integrado por membras do Ministério Público do Trabalho, Rede Feminista de Juristas – DeFEMde, Movimento da Mulher Negra Brasileira – MMNB, Mulheres pela Justiça, ColetivA de Mulheres Defensoras Publicas do Brasil, Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, Federação das Mulheres Paulistas, Confederação das Mulheres do Brasil, Coletivo Mais Respeito, Coletivo de Mulheres do SINTRAJUD, Associação de Juízes pela Democracia – AJD, Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD, Coletivo MP Transforma, Defensores pela Democracia, ANPT – Associação Nacional de Procuradores do Trabalho, Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas – ABRAT, Instituto de Pesquisas e Estudos Avançados da Magistratura e do Ministério Público do Trabalho – IPEATRA, juristas, professoras, pesquisadoras, profissionais, estudantes e pessoas abaixo assinadas, vêm manifestar repúdio à declaração pública do Presidente da República Jair Messias Bolsonaro, durante café da manhã com jornalistas, no dia 25/04/2019, no Palácio do Planalto, em que afirma: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro”.

A declaração do Chefe de Estado, que pode ser considerada violação da honra, da imagem e da dignidade de mulheres e pessoas LGBTI+, parece exortar a comunidade internacional para uma imagem estereotipada do Brasil, como paraíso sexual, em que mulheres estariam à disposição de homens estrangeiros, como objetos sexuais, desconstruindo décadas de trabalho de organizações e instituições no combate ao turismo sexual, à exploração sexual comercial, à violência de gênero e à discriminação por orientação sexual, bem assim contrariando as políticas de promoção e valorização da cultura brasileira como fomento ao turismo no país.

Mais de 250 mil crianças e adolescentes são vítimas de exploração sexual no Brasil, segundo dados da UNICEF. A Organização das Nações Unidas calcula que o tráfico de seres humanos para exploração sexual movimenta cerca de 9 bilhões de dólares no mundo, e só perde em rentabilidade para o mercado ilegal de drogas e armas. Se somarmos somente quatros anos de 2012 a 2016 de denúncias feitas (53.151) ao Disque 100, e considerarmos as estimativas do canal de denúncia, chegaremos a uma média assustadora de crianças exploradas sexualmente no Brasil: 513 vítimas a cada 24 horas. Segundo o Disque 100, apenas 7 em cada 100 casos são notificados.

O tráfico internacional para fins de exploração sexual tem como principais alvos mulheres e meninas, tendo o aliciamento objetivo de fins de exploração, tais como, a prostituição, a exploração sexual, trabalhos escravos, tráfico de órgãos, dentre outras diversas hipóteses. De acordo com o Escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) para Drogas e Crime (UNODC), as mulheres representam entre 55 e 60% das vítimas. Estudos ainda apontam que mulheres e meninas negras são as maiores vítimas da exploração sexual (Unicef e SINAM 2013)

No Brasil, de acordo com dados apresentados pela Organização das Nações Unidas (ONU), o tráfico de pessoas atinge cerca de 2,5 milhões de vítimas, e, no mundo, obtém lucro médio de 32 bilhões de dólares anual, do qual 85% advêm da exploração sexual. Estudo realizado entre os anos de 2005 e 2011 aponta ainda que cerca de 475 vítimas do tráfico de pessoas identificadas pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), 337 sofreram exploração sexual.

Por todo o exposto, a presente nota é assinada por todas as pessoas, movimentos e coletivos a seguir, em repúdio às declarações do Senhor Presidente da República.

 

São Paulo, 28 de abril de 2019.

Assine o Abaixo-Assinado

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Pesquisa aponta motivos para agressores cometerem crimes contra mulheres

Com base em um estudo de mais de 1,7 mil casos de mortes de mulheres ocorridas no Brasil nos últimos três anos, pesquisadora da UnB traça o perfil do agressor e aponta os motivos apresentados por eles para cometer crimes.

Lourdes Bandeira: mulher é vista como “pertencimento” do homem (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

A professora Lourdes Bandeira, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), estudou mais de 1,7 mil casos de mortes de mulheres no país nos últimos três anos. O resultado será um livro publicado como tese de pós-doutorado em feminicídio. A visão da especialista é que, em 70% dos casos, o assassinato é tratado como crimes de paixão ou de honra. As motivações dos crimes costumam se dividir em três: mulheres querem se separar e o companheiro não aceita; suspeita de adultério ou dificuldade de aceitar que a ex-esposa possa seguir a vida de solteira.

“É notada uma crueldade nos crimes. Espancamentos, diversas facadas e tiros. Para o homem, a mulher não o querer é um ataque contra a sua virilidade. Eles sentem que falharam diante de uma sociedade sexista e patriarcal onde a mulher ainda é vista como parte do pertencimento do homem”, opina Lourdes.

Em casos como o do policial militar Epaminondas Silva Santos, que se suicidou após matar a esposa, Lourdes acrescenta que se trata de um ato de covardia. “Ele quer desaparecer, e tem um ato em que decide destruir tudo junto dele. Isso mostra o quanto o homem não respeita a mulher, pois ele decide que, por escolha própria, a companheira não terá direito de liberdade e nem de existir. É o pensamento de ‘ou ela me pertence, ou não será mais de ninguém”, classifica.

Voz às vítimas

Especialista em violência doméstica, a antropóloga Lia Zanotta, da UnB, acredita que o aumento no registro de feminicídios é o reflexo de uma construção histórica que colocou a mulher abaixo do homem. Para ela, a visibilidade de casos faz aumentar as denúncias e torna o processo judicial mais eficaz, mas ainda há um caminho longo a ser percorrido para desconstruir essa tradição. “A mulher é uma válvula de escape. Se o homem passa por uma crise econômica, desconta nela. Se passa por um momento difícil, bebe e bate nela. Isso vem de uma idealização lá do Brasil Colônia, em que, ao casar, a mulher passava a ser um ser totalmente submisso, obediente ao marido”, comenta, em relação a casos em que o agressor é o companheiro.

Para Zanotta, tanto o feminicídio quanto a Lei Maria da Penha, que completou 12 anos ontem, são enormes vitórias, mas precisam se tornar mais incisivas. “São raras as vezes em que agressões, humilhações verbais e constrangimentos não eram notados anteriormente. O feminicídio é o fim de um ciclo violento, e o Judiciário precisa trabalhar para impedir que se chegue a esse ponto. É necessário que agressões e denúncias sejam tratadas como atos sérios, passíveis de prisão, medida protetiva e um longo período de reflexão psicossocial para os agressores”, defende a especialista.

Secretário de Segurança Pública do DF,  Cristiano Barbosa considera a denúncia um dos primeiros mecanismos para romper o ciclo de violência contra a mulher. “É um crime covarde, hediondo, que muitas vezes a vítima sozinha não tem coragem de tomar atitude e se sacrifica, seja por causa dos filhos, seja pela dependência financeira, o que torna o ciclo vicioso e se agrava”, observa. Ele sugere que vizinhos e familiares possam prestar assistências. “Essas pessoas podem incentivar a vítima a fazer o registro necessário e realizar a denúncia. Só assim podemos mapear e agir. A sociedade inteira sofre com isso. Precisamos pedir socorro e dar luz a esse problema”, reforça.

Para a juíza Theresa Karina de Figueiredo, do Juizado Criminal do Recanto das Emas, organizadora do livro Mulher e a Justiça e autora do texto A violência doméstica sob a ótica dos direitos humanos, que atuou na Vara de Família e de Violência Doméstica, deveriam haver políticas públicas de dar voz às vítimas para elas compartilharem suas histórias com outras mulheres. “Às vezes, a mulher só é ouvida na sala de audiência”, reforça.

Cadeia por descumprimento

Ontem, o Senado aprovou o projeto (PLC 4/2016) que manda para a cadeia quem descumprir as medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. A proposta vai agora à sanção presidencial e prevê penas de dois meses a três anos de prisão para quem deixar, por exemplo, de manter distância das vítimas de violência por determinação judicial.

Por Pedro Grigori e Isa Stacciarini, do Correio Braziliense

 

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Violência contra a mulher: duas jovens são encontradas mortas em Petrolina

As vítimas foram encontradas amarradas em um matagal nas proximidades do Distrito Industrial.

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Segundo informações, na manhã desta terça-feira, 05, as jovens Bruna Souza Torres, 19 anos e Taiane de Souza Costa, também de 19 anos saíram para trabalhar por volta das 06h 30min da manhã, em uma empresa da cidade onde trabalhavam como jovens aprendizes, mas não chegaram à empresa.

Os familiares ficaram preocupados e saíram procurando, foi quando o tio de uma das vítimas fazendo o percurso que elas faziam encontrou os corpos, por volta das 10h, e chamou a polícia.

As jovens estavam despidas e amarradas com as próprias roupas e várias perfurações de ‘arma branca’. Há suspeitas que as garotas tenham sido violentadas sexualmente. Os corpos foram removidos para o IML e a perícia ainda não foi divulgada.

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Conscientização sobre violência psicológica é avanço da Lei Maria da Penha

A lei completa dez anos no próximo domingo, 07.

986724-25112015_9870A Lei Maria da Penha completa dez anos no domingo (7) e um dos seus principais avanços foi a conscientização sobre a violência psicológica, avalia Marisa Sanematsu, diretora de Conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, organização social sem fins lucrativos que atua no direito das mulheres.

Para Marisa, a lei é bem formulada e completa, uma vez que define claramente as formas de violência doméstica como moral, sexual ou patrimonial. “Muita gente nem sabia que violência psicológica era um crime enquadrado, passou a saber com a divulgação da lei. Antes, a sociedade só considerava a violência contra a mulher aquela violência física. E não bastava ser simples, tinha que deixar a mulher com muitas marcas para as pessoas aceitarem que, dessa vez, o marido exagerou”, disse.

Levantamento da secretaria estadual de Assistência Social aponta que 36.925 mulheres no estado de São Paulo foram vítimas de diferentes formas de violência física, psicológica ou sexual no ano passado. Desse total, 3 mil foram encaminhadas para os centros de Referência Especializados da Assistência Social (CREAS). O estado mantém 41 abrigos institucionais de mulheres, ao custo de R$ 1,8 milhão por ano.

Historicamente, avalia Marisa, as violações contra mulheres sempre existiram. Com o passar dos anos, a mulher ganhou independência, sobretudo em termos socieconômicos, com a sua entrada no mercado de trabalho. “Só que, nas relações pessoais, essa desigualdade continua muito forte. Antes da lei, a sociedade não tinha uma noção clara de que a violência contra a mulher dentro de casa era um crime”, disse ela.

Disque-denúncia

O Disque-denúncia nacional (pelo telefone 180) indica aumento de 44,7% no número total de registros relacionados à violência contra a mulher. Foram 76.651 ligações em 2015 e 42.388 em 2014. Para a especialista, esse aumento tem mais a ver com a conscientização das vítimas, que dispõem hoje de mais informações, do que com um efetivo aumento no número de casos.

“O aumento de denúncia tem a ver com uma maior divulgação e a população que está mais informada sobre os seus direitos. Claro que não dá para dimensionar violência contra a mulher só pelos registros, pois a maior parte dos casos não vai para a estatística”, disse Marisa

Segundo dados do Disque-denúncia, 72% dos casos de violência foram cometidas por homens com quem as vítimas tinham vínculo afetivo. Em 74% dos casos, a violência ocorreu com uma frequência muito alta (diariamente ou semanalmente).

As denúncias podem ser feitas também pelos telefones 181 (disque-denúncia do Estado de São Paulo) e 180 (disque denúncia nacional). Todos esses canais de atendimento funcionam durante 24 horas e garantem anonimato. (Ag. Brasil).

Leitura Crítica

Bolsonaro e a naturalização da violência contra a mulher

Ontem (21) o Supremo Tribunal Federal aceitou denúncia contra o deputado Jair Bolsonaro por incitação ao crime de estupro, em declaração contra deputada Maria do Rosário.

Ontem (21), o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia contra do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PRG) e queixa-crime da deputada Maria do Rosário do (PT-RS) por incitação ao crime de estupro.

No dia 9 de dezembro de 2014 o deputado alegou que só não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela “não merece”. No mesmo dia, esta declaração foi repetida pelo mesmo em entrevista ao jornal Zero Hora.

Com a decisão do STF, o deputado Jair Bolsonaro passa ser réu por injúria e incitação a violência, ao crime de estupro.  O ministro Luiz Fux entende que a fala do parlamentar teve sim caráter de estimular a violência contra a mulher, com o uso do termo “merecer” confere ao crime o caráter de “prêmio, favor ou uma benesse”.

A defesa alega que o parlamentar apenas reagiu a ofensas proferidas pela deputada contra as Forças Armadas durante uma cerimônia em homenagem aos direitos humanos. Para os advogados, o embate entre Maria do Rosário e Bolsonaro ocorreu dentro do Congresso e deve ser protegido pela regra constitucional da imunidade parlamentar, que impede a imputação criminal quanto às suas declarações.

A atitude do deputado em uma cerimônia em homenagem aos direitos humanos mostra a naturalização da violência contra a mulher, em um país em que a cada onze minutos uma mulher é estuprada, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Aqui o encorajamento e a naturalização desta violência vem sob o disfarce de embate político.

De acordo com o ministro Luiz Fux o deputado não se encontra blindado pela regra constitucional que garante ao parlamentar imunidade criminal em relação às suas declarações, porque as afirmações foram feitas também em entrevista ao jornal Zero Hora, fugindo ao contexto do embate político.

Larissa Mota Calixto, Ponto Crítico.

Especiais

O agressor dorme no homem comum

O repórter da Agência Pública foi ao único grupo reflexivo para homens enquadrados pela Lei Maria da Penha existente na cidade de São Paulo; ele esperava ver monstros, mas viu homens constrangedoramente comuns

por Ciro Barros, para a Agência Pública

Por Em silêncio, espero a chegada do grupo junto dos psicólogos Tales Furtado Mistura e José Luiz Querido. Na salinha de cor creme, quase só cabem a mesa, as cadeiras, um quadro branco e uma estante. “Acho que hoje não vai ter muita gente não”, eles comentam enquanto a chuva caía naquela segunda-feira estranhamente fria para o começo de ano em São Paulo.

Esse seria o primeiro de três encontros de grupos reflexivos para homens enquadrados na Lei Maria da Penha que eu pude presenciar. Eles se reúnem toda semana na sede do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, um casarão vermelho situado numa rua pacata próxima ao largo da Batata, zona oeste de São Paulo. Uma equipe de psicólogos do coletivo oferece esse serviço de forma voluntária, e os encontros são gratuitos.

A casa do coletivo é o único espaço que acolhe grupos desse tipo na capital paulista. O outro espaço que sediava encontros como esse era a Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo (Acadepol), mas, segundo a Pública apurou, o curso está suspenso. Os relatos de quem foi a esse grupo dão conta de que a coisa andava mais à base da ameaça do que como uma reflexão conjunta legítima, como acontece na casa.

Os que participam dos grupos são homens enquadrados legalmente como agressores (não necessariamente culpados), para quem foi determinado, conforme o artigo 45 da Lei Maria da Penha, o “comparecimento obrigatório a programas de recuperação e reeducação” mesmo antes do fim do processo. Frequentar esse tipo de grupo não isenta os supostos agressores de responder a seus processos, mas a assiduidade é considerada pelos juízes na hora de bater o martelo e determinar as penas. A presença de mulheres é proibida nas sessões, e eles devem ir a no mínimo 16 encontros.

A lei prevê também, para a efetiva realização de programas como esse, a criação de “centros de educação e de reabilitação para os agressores” por todos os entes federativos, conforme o artigo 35. A realidade, porém, é que, em todo o país, existem pouquíssimos espaços assim.

Aos poucos, as cadeiras vão sendo preenchidas por homens bem diferentes uns dos outros. Nas seis horas que passei na salinha durante os três encontros, quebrei todos os meus preconceitos. Esperava encontrar monstros agressores, sádicos contumazes, malfeitores violentos próximos ao “estereótipo Datena”. Encontrei homens constrangedoramente comuns, uma amostra masculina fidedigna de toda a pirâmide social brasileira como raramente vi. O “homem brasileiro” estava ali em todas as suas nuances.

Estiveram comigo homens altos, baixos, magros, gordos, brancos, pardos, negros, ricos, pobres, barbudos e barbeados de 20 a 60 anos. De profissões igualmente diversas como empresários, músicos, representantes comerciais, zeladores, autônomos, vendedores, psicólogos, engenheiros. Também havia os desempregados e aposentados.

“Acho que seu enfoque não tá muito correto”

Quase todos vão chegando atrasados e dando as mesmas justificativas: a chuva, o trânsito caótico de São Paulo, o trabalho que os segurou mais do que gostariam. Alguns não falam nada, como um rapaz com nariz de lutador que chegou acompanhado do pai.

Ao atingir uns 90% do quórum esperado para o primeiro dia, os psicólogos pedem que eu me apresente. “Boa tarde, o meu nome é Ciro Barros, sou repórter da Agência Pública. Estamos fazendo uma matéria sobre violência contra a mulher e queríamos ver de perto como funcionam esses grupos reflexivos previstos na lei.” Desde a primeira frase, notei todos os olhares na minha direção, um estranho naquele ninho de reflexão. A única condição era não identificar nenhum interlocutor.

Os psicólogos perguntam se ninguém se opõe à minha presença e ninguém responde. Um senhor de fala pausada e cabelos brancos já bem “desmatados” quebra o silêncio. “Eu só acho que o seu enfoque não tá muito correto. Você falou em violência contra a mulher, mas é preciso averiguar quando essa violência é contra o homem também. Essa lei existe para proteger todas as mulheres e, a partir do momento em que elas denunciam, você vira réu. É uma lei esdrúxula, mal formulada, feita na base de um toma lá da cá, quem sabe na base do Mensalão”, sentencia.

A estranha contestação desata um chororô sem fim contra a Lei Maria da Penha. Eles reclamam de que a lei protege demais as mulheres, nivela os homens por baixo, permite injustiças. Um outro senhor grisalho bate o tempo todo na mesa e pede pelo menos umas três vezes para eu anotar com precisão o que ele diz. “Escreve aí. Só com essas leis, não vai resolver o problema. Pode escrever. Vai morrer cada vez mais mulher. Eu moro no centro, vejo todo dia o que acontece naquelas pensões de lá. Elas vão continuar apanhando.”

Os protestos soam como negação, resistência desses homens em admitir seus erros diante do grupo (e da própria consciência). Faz parte dessa “masculinidade tóxica” assumir a postura do machão competitivo que nunca erra. Tales Furtado Mistura, um dos psicólogos que orienta semanalmente os grupos, descreve em sua tese de mestrado a respeito desse tema os estágios emocionais mais comuns entre os homens que frequentam os grupos reflexivos: vergonha, punição, vitimização, revolta, perplexidade “e, mesmo, estranhamento em relação aos outros participantes do grupo”, ele escreve.

O arco descrito por Tales se encaixa nas reações que eu observei no primeiro dia. Por trás das falas irônicas e exaltadas transparece uma vergonha tremenda de estar ali, um deslocamento da culpa para a vitimização – é a legislação que é cruel, injusta. A revolta e a perplexidade aparecem em falas como: “Eu nem sabia que isso dava cana”; “O cara rouba bilhões da Petrobras e não vai preso e eu tô aqui”.

A casca vai se quebrando e, quando reparo, eles já estão à vontade para contar suas versões das histórias de agressão que os levaram ali. O músico alternativo diz que começou a brigar “por questões particulares”. “Aí ela veio pra cima de mim e eu agarrei ela. Só que eu peguei firme. Sou baixista, né?”, diz. Outro representante da “ala de injustiçados”, um rapaz de cabelo descolorido, alega que estava na casa dos pais com o filho quando a ex-esposa entrou e começou a agredi-lo, tentando tomar o filho dele. Mais de um afirma que a agressão foi mútua. O pai do nariz de lutador conta que ele havia terminado com a namorada e a ameaçado de agressão nas redes sociais. “Mas só isso?”, ouço alguns protestos.

Para muitos, a própria noção do que é violência é bem primária; só existe se o homem agredir fisicamente uma moça e a deixar sangrando no chão desfalecida. Agressões verbais, ameaças, não são violência. Muitos valorizam esse espaço, onde podem falar de dor, culpa, perplexidade, sentimentos que os homens não estão acostumados a compartilhar. Outros não estão dispostos a refletir sobre nada. Veem o grupo de forma instrumental, quase como uma “consultoria jurídica”: querem saber dos que passaram por audiência como se portar no tribunal, como negar as acusações contra eles.

Saio desse primeiro encontro com a impressão de que homens capazes de leituras mais refinadas em outros aspectos da vida sucumbem como selvagens diante dos conflitos com suas mulheres. O machismo emburrece, eles não veem saídas além da violência. Quando a mulher desafia o lugar subalterno socialmente determinado, a força física é o trunfo, a garantia de segurança, a possibilidade de voltar à ordem simples, hierárquica e violenta da opressão de gênero.

Comento esse pensamento com o coordenador dos grupos reflexivos, o psicólogo Leandro Feitosa Andrade. Ele parece concordar. “A maior parte dos homens envolvidos em episódios de violência tenta fazer a manutenção de uma lógica patriarcal e machista para os seus relacionamentos. Essa lógica, por princípio, é hierarquizada: o homem está no topo e a mulher é subalterna. Quando a mulher reivindica igualdade, ou simplesmente se ela não quer se submeter ao que o homem coloca como modelo, acontece o choque”, explica.

“A socialização primária do homem é machista. Ela é competitiva, hierarquizada”, continua o psicólogo. “Quando a gente cresce, até coloca em xeque essa perspectiva; só que isso, para o homem, é um exercício. Isso não está na formação básica. Enquanto a gente está numa dimensão racional, tudo bem. Só que quando a gente chega no limite dessa dimensão racional, em situações de confronto, por exemplo, a gente regride para essa primeira socialização machista”, conclui.

“Você acha que eu não quis meter a mão na cara de uma mulher de novo?”

Encontrei o mesmo grupo na minha segunda visita ao casarão de Pinheiros. Dessa vez, a recepção é bem mais calorosa: eles me tratam pelo primeiro nome e sorriem antes de me cumprimentar. Um empresário de camisa polo e gel no cabelo começa o papo dizendo o quanto foi importante para esses homens tomar conhecimento da lei. Ele enaltece o tempo todo a consciência que o grupo lhe deu a respeito das punições a que pode estar sujeito caso volte a agredir uma mulher. As reflexões dele parecem mais restritas a aspectos práticos. “Você acha que eu não senti vontade de meter a mão na cara de uma mulher depois do que aconteceu?”, ele pergunta ao grupo. “Mas eu não vou fazer isso porque eu sei que eu vou me foder, cara. Eu posso acabar caindo numa cadeia, como aconteceu com alguns aqui.”

É a deixa para o depoimento de dois senhores presos em flagrante por agressões às companheiras. Pergunto aos dois como foi a experiência da cadeia. Um senhor negro falante e engraçado, já nos seus 50 anos, toma a iniciativa. “Eu fiquei no meio de um monte de ladrão num corró [cela] do 2º DP. Eu entrei lá meio dia com seis homens. Quando foi cinco horas da tarde, nós estávamos em um X [cela] com 28 pessoas, num lugar menor que essa sala aqui. Só o banheiro e o X. E o carcereiro empurrando ladrão lá dentro o tempo todo, desafiando, ameaçando arriar a madeira em mim”, conta.

Para ele, foi ameaçador dividir a cela com ladrões de banco, enquanto ele “só” agrediu a mulher. “A cadeia não serviu pra nada, só pra dar o medo de voltar pra lá. Aqui você aprende como lidar com a situação, lá você só se revolta com a situação. Lá não dá tempo de refletir, você quer sobreviver. A partir do momento que eu entrei naquele dia lá, já veio na minha mente: ‘Se eu sair daqui pra um CDP, eu não vou ser mais um trabalhador. Eu vou ser um marginal’. E a primeira coisa que eu ia matar era a minha mulher. E depois ia matar o filho dela, porque, se eu matasse ela, o filho ia se envolver. Eu só mudei de ideia porque eu aprendi aqui a me reeducar”, diz.

O outro tiozinho de boné, 57 anos, é mais sisudo, fica de braços cruzados o tempo todo. Ele conta que ficou numa cela no CDP de Pinheiros com 48 pessoas, no “meio de tudo: ladrão de banco, assassino… Todo mundo esperando ser julgado. O que que isso corrige? Nada.” O psicólogo Tales, coordenador do grupo, entra na conversa. Ele diz que, quando preparava seu mestrado na USP sobre o grupo, pensou em usar como recorte homens que haviam sido presos. “Os homens que foram presos são muito mais revoltados do que os que não foram presos. Eu coordeno o grupo já faz cinco anos. Os homens que são presos entram na cadeia com raiva das mulheres que agrediram e saem de lá com raiva de todas as mulheres do mundo, de todos os policiais do mundo, de todo o sistema prisional. Com essa revolta, a chance deles agredirem a mesma mulher ou outras eleva-se ao extremo. O cara fala: ‘Meu, passei seis meses só pensando em como eu vou matar aquela filha da puta’”, ele relata. Ou seja, a eficácia dos grupos parece maior do que a da prisão.

“Tinha medida protetiva, mas mesmo assim ela me deu abrigo”

Era a véspera do Dia Internacional da Mulher quando compareci ao meu terceiro encontro com o grupo. O psicólogo Leandro apresenta um novo integrante, Milton*, e pede que ele conte sua história. Ele tem 39 anos, é vigilante e conta ter passado três meses no CDP de Pinheiros após ter ameaçado a mulher de morte com uma faca. “Em outubro passado, nós tivemos uma última briga e eu ameacei ela com uma faca, fiz um risco no pescoço dela. Fui preso em flagrante e saí agora em janeiro”, ele relata. “Eu tive um choque muito grande, foi a primeira vez que eu fui preso. Quando eu bati lá dentro, tive de conviver com tudo que eu detestava. Paguei minha língua, tive de conviver com homossexuais, pessoas de cor, traficantes. E na casa de detenção, quem é Maria da Penha é como se fosse nada, o assaltante, o assassino é como se fosse patente, uma pessoa bem vista. Maria da Penha, ladrãozinho de farol, quem tá lá por pensão alimentícia, é visto como nada”, relata.

Milton diz que saiu do inferno do cárcere decidido a buscar apoio psicológico. E foi justamente a esposa agredida a única pessoa que o apoiou, conta. Como ele não tinha para onde ir, a esposa chegou a passar por cima de uma medida protetiva, um dispositivo da Lei Maria da Penha que impede que o agressor se aproxime da vítima. “Eu tinha medida protetiva até contra o meu filho, mas mesmo assim a minha esposa me deu abrigo, me colocou para dormir dentro de casa”, diz. Foi ao psiquiatra dela, que lhe receitou remédios, mas ele queria tratamento psicológico. Ela então sugeriu que ele frequentasse os grupos reflexivos na sede do coletivo, conta. Eu vi quando ele chorou um pouco.

Após a fala de Milton, foi a vez de outro homem, que se apresentou como zelador de um prédio no centro de São Paulo há seis anos. É a primeira vez que ele conta a sua história, diz. “A gente bebia muito junto, eu e a minha esposa. Só que um dia ela parou de beber, pediu pra eu parar e eu continuei naquela rotina. Depois que ela parou, toda vez que eu chegava em casa bêbado a gente brigava, era várias treta sempre. Aí um dia eu cheguei em casa, saí pra ir cortar o cabelo, voltei louco, né, meu. Ela começou a falar um monte e eu comecei a quebrar tudo dentro de casa.” Ele conta que, quando a esposa começou a correr para sair de casa, jogou uma televisão nela. Ainda assim ela conseguiu sair, trancar a porta e pedir ajuda da uma viatura de polícia enquanto ele arrombava a porta com um martelo e uma chave de fenda. “No que eu desci e saí pra rua, ela tava chorando com a viatura. E eu com o martelo e a chave de fenda na mão. O policial me viu e me perguntou: ‘Que que você vai fazer?’. E eu respondi: ‘Vou matar ela’. Eu loucão, né? Aí ele subiu na minha casa, viu o que tinha acontecido, me levou pro DP e eu fui preso em flagrante”, resume.

Ele ficou um dia no 2º DP do Bom Retiro e no dia seguinte, diz, “cantou o bonde” e o nome dele estava escalado para o CDP de Pinheiros. “Fiquei dez dias lá, os piores da minha vida. Nunca tinha passado por nada parecido. Perdi 10 quilos lá dentro porque eu não conseguia comer a marmita azeda de lá.” Depois de sair da cadeia, ele parou de beber e conseguiu que a esposa retirasse a medida protetiva. “Hoje não bebo mais nada. Quando tem churrasco na casa dos meus tios, todo mundo já compra cerveja sem álcool pra mim. Não quero voltar ali nunca mais. Não é vida pra ser humano não. É fome, frio. Nunca mais. Falei pra juíza que ela nunca mais ia me ver lá”, diz.

As histórias que terminam em cadeia chocam os que não passaram por isso, aqueles que ainda aguardam audiência. Eles falam o tempo todo o quanto poderia haver um espaço como esse, de reflexões, mas de maneira preventiva, para evitar que fizessem o que os levou até ali.

Eu penso o quanto a roda no bar, o futebol, os espaços tidos como “masculinos” não poderiam servir no dia a dia para a desconstrução dessa masculinidade tóxica. E o quanto os homens poderiam ser mais felizes se dentro deles não vivesse esse macho da era da pedra lascada.

Notícias

Homem agride esposa e filha de 9 meses em Petrolina-PE

A Autoridade Policial lavrou em desfavor do acusado um Auto de Prisão em Flagrante Delito.

Ontem (10), por volta das 18h50, Policiais Militares do 5° Batalhão da Policia Militar (5ºBPM) quando participavam da Operação Combate ao CVLI foram acionados pela Central de Operações para verificar denúncia anônima de agressão.
Ao chegar ao local do fato os policiais militares constataram que Alexandre de S. Tavares de 33 anos, residente no bairro Vila Eulália agrediu fisicamente sua companheira R.C.S.C. de 30 anos. Segundo informações, o acusado também agrediu a sua filha de 9 (nove) meses de idade que apresentava hematomas no rosto e boca.
De acordo com o 5ºBPM, Alexandre de S. Tavares passou a desacatar o policiamento momento em que foi algemado e preso. Diante dos fatos os envolvidos foram conduzidos para a Delegacia de Plantão onde foram apresentados e entregues à Autoridade Policial que lavrou em desfavor do acusado um Auto de Prisão em Flagrante Delito.
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5ºBPM de Petrolina-PE prende homem acusado de agredir a sogra

O acusado foi conduzido até a Delegacia de Plantão onde foi autuado em Flagrante Delito.

Mais uma mulher foi vítima de agressões e ameaça de morte esse ano em Petrolina-PE. Segundo informações do 5º Batalhão da Polícia Militar (5ºBPM), no último sábado (9),  por volta das 16h40 o seu efetivo foi solicitado em Nova Descoberta.

A vítima informou que seu genro Fabrício Jaquison de Souza de 28 anos, residente nessa mesma localidade, invadiu a sua residência e a agrediu, causando-lhe lesões superficiais.

Ainda de acordo com a vítima, Fabrício Jaquison de Souza também quebrou alguns objetos da sua casa e apedrejou o seu veículo. Não conformado, ainda a ameaçou de morte.

O acusado foi conduzido até a Delegacia de Plantão onde foi autuado em Flagrante Delito.

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Estudante de 14 anos é estuprada em Araripina, no Sertão de Pernambuco

Crime ocorreu depois que a menina consumiu bebida alcoólica.
Suspeito de estuprar a jovem ainda não foi encontrado pela polícia.

Uma estudante de 14 anos foi estuprada neste domingo (27) em Araripina, no Sertão de Pernambuco. O caso ocorreu na Travessa Israel, depois que a vítima teria consumido bebida alcoólica.

Para a polícia, a estudante disse que após a ingestão da bebida acabou adormecendo. Quando acordou encontrou o suspeito já sem roupa. O homem abusou sexualmente da adolescente e logo depois fugiu.

A Polícia Militar (PM) realizou buscas na região, no intuito de prender o homem, mas até o momento o suspeito não foi encontrado.

Informações: G1 Petrolina