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Presidentes da Capes e do CNPq apelam a deputados por mais verba para pesquisa

“Teto de Gastos” impede ampliação da verba de ciência e tecnologia; governistas e opositores debateram tema nesta quarta

Audiência sobre verba para agências de pesquisa reuniu parlamentares, especialistas e interlocutores do governo / Lula Marques/PT na Câmara

O presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Anderson Correia, fez um apelo aos deputados, nesta quarta-feira (11), para que ampliem a verba destinada a pesquisas científicas em 2020. A entidade sofreu contingenciamento de R$ 819 milhões dos R$ 4,2 bilhões previstos para 2019. 

“Esperamos que esta Casa apoie uma recomposição orçamentária para o ano que vem”, disse, na Câmara dos Deputados, em meio a um contexto de pressão popular e acadêmica sobre os parlamentares. A discussão sobre os cortes orçamentários na área de pesquisa envolveu especialistas, deputados e interlocutores do governo Bolsonaro (PSL).

A pauta da defesa da ciência e tecnologia tem ajudado a estimular a oposição ao presidente, assim como tem ocorrido com a bandeira da educação, também asfixiada pela agenda liderada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.  

A Capes mantém mais de 92 mil bolsas de pesquisa, entre mestrado, doutorado e outros níveis, em 3,6 mil programas de pós-graduação em todo o país. Correia afirma que hoje, no entanto, essa cadeia está comprometida devido ao contingenciamento, que levou a agência a investir em ações temporárias e emergenciais, com congelamento de bolsas, descontinuidade de programas, adiamento de projetos, entre outras medidas.   

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também afirma que vive um contexto difícil. O presidente, Manoel da Silva, conta que não há verba para pagar as bolsas dos pesquisadores a partir de outubro. Ao todo, cerca de 80 mil pesquisadores podem ser diretamente afetados.

Silva disse que o contingenciamento põe em xeque um elemento central para o desenvolvimento da ciência brasileira. “O CNPq atua em níveis 1, 2 3, ou seja, ele é a academia, o início de tudo. Se a gente não consegue fazer pesquisa básica, a gente não consegue desenvolver o produto. É assim no mundo todo. Então, é básico investir no nascedouro. É ali que nascem as ideias, os projetos. E o CNPq é importante também porque é a única agência de fomento que tem estrutura para operar em escala e em todo o território nacional, com todos os atores do sistema nacional de ciência e tecnologia”, argumentou o presidente da entidade.

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira, disse, em audiência na Comissão de Educação da Casa, que “não se sabe aonde vai parar o fundo do poço”. A entidade, que representa 144 sociedades científicas, expôs as dificuldades relacionadas à asfixia orçamentária imposta pelo governo e chamou atenção para a verba do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC), que teve contingenciamento de 42% no orçamento este ano.

“O Brasil cresceu muito em produção científica nos últimos tempos, pode melhorar mais e deve fazer isso. Chegamos a um ponto importante na escala mundial. Estamos no 13º lugar, mas agora podemos cair”, alertou Moreira. 

O presidente ressaltou que a falta de verba desencadeia um processo de desestímulo aos jovens que poderiam se interessar pela área científica.

“A evasão está crescente, e o desânimo que isso passa aos jovens é imenso. Seus sonhos estão ameaçados. Vale lembrar que, sem ciência básica, não tem desenvolvimento. No mundo inteiro é assim. Espero que os parlamentares se deem conta de que eles podem ajudar a mudar essa situação”, conclamou.

Os parlamentares lembraram que os cortes tendem a repercutir no cotidiano da população brasileira. “Temos visto a ascensão de uma era anticientífica. Esses cortes do governo afetam pesquisadores do Ministério da Saúde que têm feito pesquisa para criar uma vacina para chikungunya, que provavelmente vai parar”, exemplificou o deputado Professor Israel (PV-DF). 

Governo

José Ricardo Galdino e Clayton Luiz Montes, que estiveram na Câmara como representantes do Ministério da Economia, afirmaram que o governo está tentando “resolver a questão do orçamento de 2019”.

“Este é o momento em que a gente tem a oportunidade de rever contas. O Ministério da Educação (MEC) e o MCTIC já estão em discussão para que o orçamento aprovado por esta Casa tenha um tratamento para ser descontingenciado. Os indicadores estão dizendo que pode haver uma melhoria na arrecadação, então, isso vai permitir um pequeno descontingenciamento. Essa é a nossa perspectiva”, disse Montes.

O governo também fez referência a dificuldades financeiras na gestão, afirmando que o país se encontra “numa difícil situação fiscal”. 

Reação

O posicionamento do governo ajudou a fortalecer o coro de oposicionistas contra a emenda do “Teto de Gastos”, que congela durante 20 anos as despesas públicas nas áreas sociais, como é o caso da educação. “O que estamos definindo aqui é se este país vai ser uma nação ou uma colônia. Ou se revoga essa emenda constitucional ou não se terá discussão séria sobre dotação orçamentária pros próximos anos”, disse o deputado Pedro Uczai (PT-SC).

A oposição também comparou as decisões do governo na área de ciência e tecnologia com os movimentos que têm sido feitos para aprovar a reforma da Previdência, que tramita no Senado.

“Eu queria ver essa preocupação intensa de vocês com os gastos na hora em que liberaram as emendas para os parlamentares pra conseguir verba pra aprovar a reforma da Previdência. Esse cuidado todo vocês não tiveram. Liberaram essas emendas em valor astronômico e imoral pra aprovar a reforma”, criticou o deputado Marcelo Freixo (RJ), vice-líder do Psol.

Em conversa com o Brasil de Fato, a pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Talita Ferreira, que foi à Câmara para acompanhar a audiência, também questionou as prioridades orçamentárias da gestão Bolsonaro.  

“Economizar R$ 30 milhões em um ano com bolsas de cientistas, independentemente de ser das ciências humanas, da saúde ou de outras áreas, faz parte de um projeto não mais de governo, mas de Estado, para acabar com qualquer tipo produção soberana de ciência no país e também de formulação de pensamentos críticos. Trinta milhões não são nada perto do que se gasta no Judiciário, por exemplo, com o auxílio-moradia”, comparou.

 

 

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Weintraub diz que pode rever corte nas universidades se Previdência passar

‘Se a economia tiver um crescimento com aprovação da nova Previdência, retomamos’, diz o ministro da Educação

Foto: Reprodução.

O ministro da educação Abraham Weintraub atrelou a reversão do corte de 30% das verbas para universidades federais à aprovação da reforma da Previdência. Aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no mês passado, a proposta deve seguir para análise de uma Comissão Especial e depois seguirá para o plenário.

Durante participação em uma audiência na Comissão de Educação no Senado, nesta terça-feira 7, para apresentar as diretrizes e programas prioritários do MEC, o ministro negou que haja corte para as instituições. “Não houve corte, há um contingenciamento. Se a economia tiver um crescimento com aprovação da nova Previdência, se retomarmos a dinâmica de arrecadação, revertemos. Precisamos cumprir a lei de responsabilidade fiscal”, afirmou.

Questionado sobre a situação das universidades federais, que já anunciaram dificuldades de manter as atividades em andamento com o bloqueio em seus orçamentos, o ministro questionou: “Nada foi cortado da folha de salários. O país inteiro está apertando o cinto, não dá pra cortar nada? É sacrossanto o orçamento? Uma universidade custa, na média, um bilhão de reais, não dá pra buscar nada?”. Ele sugeriu que os reitores das universidades abram seus números para mostrar as dificuldades e se dispôs a uma conversa entre os reitores, junto ao ministro da economia, Paulo Guedes, e ao presidente Jair Bolsonaro.

Durante sua explanação, o ministrou voltou a afirmar a intenção da pasta de “priorizar” os investimentos na educação básica, sobretudo com base nos indicadores do Ideb para o Ensino Médio – “estamos estagnados há dez anos” – e na situação do ensino técnico que, segundo ele, vem diminuindo no Brasil. [A educação básica já sofreu congelamento da ordem de 2,4 bilhões segundo levantamento da Andifes.]

“Metade das vagas do Ensino Médio no mundo é técnica. Quem aprende um ofício não passa necessidade. Um técnico em contabilidade, TI, enfermagem, um marceneiro, um torneiro mecânico, sai da escola com um ofício para se virar, ajudar a família”, declarou. Ele afirmou que uma das estratégias é fortalecer a educação profissional e tecnológica com articulações e parcerias que vão contemplar a rede privada e empresas.

Weintraub voltou a comparar a situação do País à da Coreia. “Lá, eles começaram na educação básica, alfabetizaram todo mundo, depois que universalizaram, diminuíram o nível técnico e aumentaram os engenheiros. Se começa com a base, com as paredes e só depois se chega no telhado”, disse, afirmando que o Brasil pulou etapas nesse sentido. “Colocamos muito recurso no telhado, antes de ter a base. ”

O ministro afirmou que o MEC hoje direciona a maior parte dos recursos para a Educação Superior e que a expansão do setor foi impulsionada pela rede privada: “75% veio da rede privada, não foi a rede pública que expandiu”. Também colocou como justificativa para as diretrizes do ministério, a concessão de bolsas via Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que tem como objetivo expandir e consolidar a pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) em todos os estados da Federação.

“90% da produção científica nacional, medida não pela publicação apenas, mas pelo impacto na produção científica, com reutilização, vêm da Saúde, Biológicas, Exatas, Engenharia Agrária e Multidisciplinar. 13% que têm relevância científica vêm de Sociais Aplicadas, Humanidades e Linguística”. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que Weintraub estuda descentralizar investimentos em Faculdade de Filosofia e Sociologia.

 

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Leitura Crítica

“Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica” Por Rosana Pinheiro Machado

Combater o mito da genialidade, a perversidade dos pequenos poderes e os “donos de Foucault” é fundamental para termos uma universidade melhor.

d1db5d95-5229-4c3a-8cd9-7d0a658df172A vaidade intelectual marca a vida acadêmica. Por trás do ego inflado, há uma máquina nefasta, marcada por brigas de núcleos, seitas, grosserias, humilhações, assédios, concursos e seleções fraudulentas. Mas em que medida nós mesmos não estamos perpetuando essemodus operandi para sobreviver no sistema? Poderíamos começar esse exercício auto reflexivo nos perguntando: estamos dividindo nossos colegas entre os “fracos” (ou os medíocres) e os “fodas” (“o cara é bom”).

As fronteiras entre fracos e ‘fodas’ começam nas bolsas de iniciação científica da graduação. No novo status de bolsista, o aluno começa a mudar a sua linguagem. Sem discernimento, brigas de orientadores são reproduzidas. Há brigas de todos os tipos: pessoais (aquele casal que se pegava nos anos 1970 e até hoje briga nos corredores), teóricas (marxistas para cá; weberianos para lá) e disciplinares (antropólogos que acham sociólogos rasos generalistas, na mesma proporção em que sociólogos acham antropólogos bichos estranhos que falam de si mesmos).

A entrada no mestrado, no doutorado e a volta do doutorado sanduíches vão demarcando novos status, o que se alia a uma fase da vida em que mudar o mundo já não é tão importante quanto publicar um artigo em revista qualis A1 (que quase ninguém vai ler).

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dizíamos que quando alguém entrava no mestrado, trocava a mochila por pasta de couro. A linguagem, a vestimenta e o ethosmudam gradualmente. E essa mudança pode ser positiva, desde que acompanhada por maior crítica ao sistema e maior autocrítica – e não o contrário.

A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio.

O primeiro cenário engloba vários tipos de pessoas (1) aqueles que migraram para uma área completamente diferente na pós-graduação; (2) os que retornaram à academia depois de um longo tempo; (3) os alunos de origem menos privilegiada; (4) ou que têm a autoestima baixa ou são tímidos. Há uma grande chance destas pessoas serem trituradas por não dominarem o ethos local e tachadas de “fracos”.

Os seminários e as exposições orais são marcados pela performance: coloca-se a mão no queixo, descabela-se um pouco, olha-se para cima, faz-se um silêncio charmoso acompanhado por um impactante “ãaaahhh”, que geralmente termina com um “enfim” (que não era, de fato, um “enfim”). Muitos alunos se sentem oprimidos nesse contexto de pouca objetividade da sala de aula. Eles acreditam na genialidade daqueles alunos que dominaram a técnica da exposição de conceitos.

Hoje, como professora, tenho preocupações mais sérias como estes alunos que acreditam que os colegas são brilhantes. Muitos deles desenvolvem depressão, acreditam em sua inferioridade, abandonam o curso e não é raro a tentativa de suicídio como resultado de um ego anulado e destruído em um ambiente de pressão, que deveria ser construtivo e não destrutivo.

Mas o opressor, o “foda”, também sofre. Todo aquele que se acha “bom” sabe que, bem lá no fundo, não é bem assim. Isso pode ser igualmente destrutivo. É comum que uma pessoa que sustentou seu personagem por muitos anos, chegue na hora de escrever e bloqueie.

Imagine a pressão de alguém que acreditou a vida toda que era foda e agora se encontra frente a frente com seu maior inimigo: a folha em branco do Word. É “a hora do vâmo vê”. O aluno não consegue escrever, entra em depressão, o que pode resultar no abandono da tese. Esse aluno também é vítima de um sistema que reproduziu sem saber; é vítima de seu próprio personagem que lhe impõe uma pressão interna brutal.

No fim das contas, não é raro que o “fraco” seja o cavalinho que saiu atrasado e faça seu trabalho com modéstia e sucesso, ao passo que o “foda” não termine o trabalho. Ademais, se lermos o TCC, dissertação ou tese do “fraco” e do “foda”, chegaremos à conclusão de que eles são muito parecidos.

A gradação entre alunos é muito menor do que se imagina. Gênios são raros. Enroladores se multiplicam. Soar inteligente é fácil (é apenas uma técnica e não uma capacidade inata), difícil é ter algo objetivo e relevante socialmente a dizer.

Ser simples e objetivo nem sempre é fácil em uma tradição “inspirada” (para não dizer colonizada) na erudição francesa que, na conjuntura da França, faz todo o sentido, mas não necessariamente no Brasil, onde somos um país composto majoritariamente por pessoas despossuídas de capitais diversos.

É preciso barrar imediatamente este sistema. A função da universidade não é anular egos, mas construí-los. Se não dermos um basta a esse modelo a continuidade desta carreira só piora. Criam-se anti-professores que humilham alunos em sala de aula, reunião de pesquisa e bancas. Anti-professores coagem para serem citados e abusam moral (e até sexualmente) de seus subalternos.

Anti-professores não estimulam o pensamento criativo: por que não Marx e Weber? Anti-professores acreditam em lattes e têm prazer com a possibilidade de dar um parecer anônimo, onde a covardia pode rolar às soltas.

O dono do Foucault

Uma vez, na graduação, aos 19 anos, eu passei dias lendo um texto de Foucault e me arrisquei a fazer comparações. Um professor, que era o dono do Foucault, me disse: “não é assim para citar Foucault”.

Sua atitude antipedagógica, anti-autônoma e anti-criativa, me fez deixar esse autor de lado por muitos anos até o dia em que eu tive que assumir a lecture “Foucault” em meu atual emprego. Corrigindo um ensaio, eu quase disse a um aluno, que fazia um uso superficial do conceito de discurso, “não é bem assim…”.

Seria automático reproduzir os mecanismos que me podaram. É a vingança do oprimido. A única forma de cortamos isso é por meio da autocrítica constante. É preciso apontar superficialidade, mas isso deve ser um convite ao aprofundamento. Esquece-se facilmente que, em uma universidade, o compromisso primordial do professor é pedagógico com seus alunos, e não narcisista consigo mesmo.

Quais os valores que imperam na academia? Precisamos menos de enrolação, frases de efeitos, jogo de palavras, textos longos e desconexos, frases imensas, “donos de Foucault”. Se quisermos que o conhecimento seja um caminho à autonomia, precisamos de mais liberdade, criatividade, objetividade, simplicidade, solidariedade e humildade.

O dia em que eu entendi que a vida acadêmica é composta por trabalho duro e não genialidade, eu tirei um peso imenso de mim. Aprendi a me levar menos a sério. Meus artigos rejeitados e concursos que fiquei entre as últimas colocações não me doem nem um pouquinho. Quando o valor que impera é a genialidade, cria-se uma “ilusão autobiográfica” linear e coerente, em que o fracasso é colocado embaixo do tapete. É preciso desconstruir o tabu que existe em torno da rejeição.

Como professora, posso afirmar que o número de alunos que choraram em meu escritório é maior do que os que se dizem felizes. A vida acadêmica não precisa ser essa máquina trituradora de pressões múltiplas. Ela pode ser simples, mas isso só acontece quando abandonamos o mito da genialidade, cortamos as seitas acadêmicas e construímos alianças colaborativas.

Nós mesmos criamos a nossa trajetória. Em um mundo em que invejas andam às soltas em um sistema de aparências, é preciso acreditar na honestidade e na seriedade que reside em nossas pesquisas.

Transformação

Tudo depende em quem queremos nos espelhar. A perversidade dos pequenos poderes é apenas uma parte da história. Minha própria trajetória como aluna foi marcada por orientadoras e orientadores generosos que me deram liberdade única e nunca me pediram nada em troca.

Assim como conheci muitos colegas que se tornaram pessoas amargas (e eternamente em busca da fama entre meia dúzia), também tive muitos colegas que hoje possuem uma atitude generosa, engajada e encorajadora em relação aos seus alunos.

Vaidade pessoal, casos de fraude em concursos e seleções de mestrado e doutorado são apenas uma parte da história da academia brasileira. Tem outra parte que versa sobre criatividade e liberdade que nenhum outro lugar do mundo tem igual. E essa criatividade, somada à colaboração, que precisa ser explorada, e não podada.

Hoje, o Brasil tem um dos cenários mais animadores do mundo. Há uma nova geração de cotistas ou bolsistas Prouni e Fies, que veem a universidade com olhos críticos, que desafiam a supremacia das camadas médias brancas que se perpetuavam nas universidades e desconstroem os paradigmas da meritocracia.

Soma-se a isso o frescor político dos corredores das universidades no pós-junho e o movimento feminista que só cresce. Uma geração questionadora da autoridade, cansada dos velhos paradigmas. É para esta geração que eu deixo um apelo: não troquem o sonho de mudar o mundo pela pasta de couro em cima do muro.

 RETIRADO DE: Carta da Capital.
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Diferença da nota de corte de cotistas e não cotistas do Sisu é no máximo de 4%

O ministro Aloizio Mercadante diz que não cotistas também enfrentam forte concorrência.

A diferença entre as notas de corte entre candidatos cotistas e não cotistas nos cursos oferecidos no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), este ano, foi de no máximo 4% nos dez cursos mais concorridos. O índice é considerado baixo pelo Ministro da Educação, Aloizio Mercadante. “Os cotistas, como são das escolas públicas, representam 80% dos candidatos. Eles têm uma concorrência muito forte também”, disse o ministro.

A nota de corte é a mínima necessária para o estudante ter a chance de ficar entre os potencialmente selecionados para o curso.

Um exemplo proximidade das notas está entre os candidatos ao curso de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que tem a maior nota de corte do Sisu: a nota de corte da ampla concorrência foi 824,74, enquanto a do sistema de cotas foi 801,19, uma diferença de 2,9%. Ciências econômicas da UFRJ apresentou a maior diferença, de 4%.

Ao todo, 2.712.937 candidatos se inscreveram para 228.071 vagas em 131 instituições públicas de ensino superior. Os selecionados deverão fazer a matrícula nos dias 22, 25 e 26 de janeiro. “Não tem reserva de vaga. Quem não apresentar a documentação nesse prazo perde a vaga”, alertou Mercadante.

O Sisu usa as notas do Enem para preencher vagas em instituições públicas de educação superior em todo o país.

Aqueles que não foram selecionados na primeira opção de curso poderão participar da lista de espera, que tem as inscrições abertas de hoje até o dia 29 de janeiro. É preciso acessar o portal do Sisu e clicar na opção que confirma a inscrição na lista de espera.

O resultado dos selecionados na lista de espera será divulgado no dia 4 de fevereiro. Caberá ao estudante procurar a instituição de ensino e fazer a matrícula.

Leitura Crítica

Violência contra a mulher na universidade: um problema invisível

Qualquer política universitária adotada na área deve ter como requisito indispensável a transparência sobre os processos de recebimento e encaminhamento das denúncias

MULHERES-UNIV3-440x250Foram dez denúncias de estupro, que resultaram em três aberturas de sindicâncias e em apenas uma punição.

Os números acima fazem parte do levantamento da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Trote, instaurada na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) para investigar abusos em instituições de ensino do estado, e reforçam a tese de que a violência contra a mulher em universidades brasileiras segue sendo uma questão invisibilizada. A afirmação ganha força sobretudo se esses números forem comparados com os achados de uma recente pesquisa sobre o assunto.

Publicada em dezembro de 2015, a pesquisa “Violência contra a mulher no ambiente universitário”, realizada em parceria do Instituto Avon com o Data Popular, apontou que ao menos 56% das universitárias do país já sofreram assédio sexual. A enquete ouviu um total de 1.823 graduandos e pós-graduandos, sendo 1.091 mulheres e 732 homens.

Seguindo a mesma linha de trabalho, a ARTIGO 19 também buscou levantar dados sobre o tema. Dois pedidos de informação feitos pela entidade em setembro e outubro do ano passado junto a duas das mais prestigiosas universidades públicas do estado – a Unicamp e a Unifesp – receberam respostas reveladoras sobre a atual estrutura das instituições de ensino superior para lidar com a violência contra universitárias.

Os pedidos buscavam saber o número de denúncias de estupro recebidas pelas instituições nos anos de 2012, 2013 e 2014¹, questionando ainda se os denunciados foram penalizados e como o foram².

Tanto a Unicamp quanto a Unifesp, que possuem 15.580 e 9.772 alunos respectivamente³, responderam que apenas dois casos foram registrados durante todo o período em cada uma das universidades – sendo que em nenhum deles houve a abertura de processo administrativo e muito menos algum tipo de punição. Em sua resposta, a Unicamp chegou a dizer que “não é prerrogativa da Prefeitura Universitária a instituição ou aplicação de penalidades seja a alunos ou servidores”.

A enorme discrepância entre esses números e aqueles produzidos pela pesquisa do Instituto Avon e do Data Popular apenas comprova, de um lado, a existência do fenômeno da subnotificação, no qual um número muito reduzido de vítimas realiza denúncias formais às instâncias universitárias, e, de outro, a falta de canais efetivos nas universidades para o acolhimento de vítimas.

Para a eficácia de qualquer política pública, seja preventiva ou reativa, é indispensável a existência de uma consistente base de dados que venha a servir de norte para gestores públicos responsáveis pela sua formulação. No caso da Unicamp e da Unifesp, os baixos números de casos registrados claramente não condizem com a realidade, demonstrando a necessidade urgente de se rever a forma como as instituições de ensino superior têm lidado com a questão da violência contra a mulher.

“Apesar da frequência com que os crimes de violência contra a mulher acontecem nos campi universitários, a maior parte das instituições de ensino superior brasileiras ainda não criou políticas adequadas para combater a questão”, diz Bárbara Paes, assistente de projetos da área de Acesso à Informação da ARTIGO 19. Segundo ela, a subnotificação e a falta de dados detalhados, juntamente com a falta de canais institucionais preparados para lidar com a questão, geram um cenário de impunidade quando o assunto é crimes sexuais contra as mulheres.

“A realização de pesquisas como a do Instituto Avon e do DataPopular servem de alerta para que as instituições de ensino superior passem a construir políticas de combate à violência contra a mulher. É importante que essas instituições estejam preparadas para receber denúncias, para criar campanhas preventivas eficazes e para conduzir os eventuais casos apropriadamente”, afirma.

Para a ARTIGO 19, mais e melhores informações e dados sobre os casos de violência contra mulheres em universidades são uma necessidade urgente. Além disso, qualquer política universitária adotada na área deve ter como requisito indispensável a transparência sobre os processos de recebimento e encaminhamento das denúncias.

¹ Veja a íntegra do pedido de informação sobre a quantidade de denúncias de estupros entre os anos de 2012 e 2014 feito à Unifesp e à Unicamp
² Veja a íntegra do pedido de informação sobre a penalização a denunciados por estupros entre os anos de 2012 e 2014 feito à Unifesp e à Unicamp
³ Segundo números do Ranking Universitário da Folha

INFORMAÇÕES: ARTIGO 19

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Sisu tem mais de 2,7 milhões de candidatos inscritos

Como cada candidato podia registrar duas opções de curso, o total de inscrições chegou a 5,2 milhões.

O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) tem 2.712.937 candidatos inscritos às 228.071 vagas em 131 instituições públicas de ensino superior. O prazo para que os estudantes indicassem suas opções às oportunidades nas universidades terminou às 23h59 da última quinta-feira (14).

Como cada candidato podia registrar duas opções de curso, o total de inscrições chegou a 5.275.613. O resultado da chamada única será divulgado na próxima segunda-feira, 18, na página do programa.

Os candidatos selecionados farão a matrícula nos dias 22, 25 e 26 de janeiro. Os não selecionados terão a opção de manifestar interesse em participar da lista de espera, no período de 18 a 29 do mesmo mês. Nesta primeira edição de 2016, o Sisu ampliou em 10,9% o número de vagas ofertadas em relação à primeira edição de 2015, quando foram ofertadas 205.514 vagas.

O Sisu utiliza as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para selecionar candidatos às vagas em instituições públicas de educação superior em todo País. Podem se inscrever estudantes que tenham participado do exame em 2015 e não tenham tirado nota zero na redação.

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Quase 60% das faculdades incluem sexualidade e gênero na formação de professores

A pesquisa revelou que o debate sobre o assunto ainda é limitado por questões de ordem religiosa, ou por acreditar que a legislação não permite a abordagem dos temas, pela falta de preparo de docentes e de fomento de políticas públicas.

Pesquisa feita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) mostrou que 58,27% das faculdades brasileiras incluem os temas sexualidade e relação de gênero no currículo básico da formação de professores. O estudo foi apresentado hoje (26), em seminário na capital paulista.

Entre as instituições consultadas, 19,42% informaram que não adotam os assuntos na grade curricular, 11,15% incluem apenas relação de gênero, 5% trabalham apenas sexualidade e 6,42% não souberam responder.

Mariana Braga, oficial de projetos da Unesco no Brasil, disse que o ambiente educacional do país apresenta uma violência de gênero muito forte. “A educação de relação de gênero e sexualidade é importante para que não tenhamos mais uma segregação, uma evasão, provocada por gênero ou discriminação por orientação sexual dentro das escolas”, disse à Agência Brasil.

A pesquisa revelou que o debate sobre o assunto ainda é limitado por questões de ordem religiosa, ou por acreditar que a legislação não permite a abordagem dos temas, pela falta de preparo de docentes e de fomento de políticas públicas.

Para Mariana, os resultados surpreenderam positivamente. “A gente começou pensando que a maioria das faculdades não trabalhava [sexualidade e relação de gênero], a nossa hipótese é que aquelas que reponderam aos nossos questionários são as que mais trabalham essas questões”, declarou.

O estudo começou no ano passado e os dados divulgados hoje são preliminares. Das 2.276 instituições de ensino superior que oferecem cursos na área de formação docentes no Brasil, foram consultadas 300 instituições. O estudo ouviu um representante legal de cada universidade, como professores, coordenadores e reitores.

Segundo Mariana, em uma próxima etapa do estudo, um dos pontos a serem questionados  serão  eventuais parcerias com os serviços de saúde, como por exemplo na distribuição de preservativos, quando abordada a questão do sexo e doenças sexualmente transmissíveis. “Não há um dado nacional de que os profissionais de saúde estão dentro da escola”, apontou.

A maioria das instituições ouvidas são particulares; 40% privadas com fins lucrativos, 37% privadas sem fins lucrativos, 2,7% privadas beneficentes, 11,56% universidades federais, 4,75% universidades estaduais e 1,36% universidades municipais.

Na comparação por graduações em licenciatura, pedagogia respondeu por 66% do total de cursos que incluem a temática nos currículos dos professores. Educação Física registrou 21,7%, Letras respondeu por 19,2%, Biologia teve 16,7%, Antropologia 14,3% e História 13,3%.

Da Agência Brasil