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Adolescente desaparecido em ação policial é encontrado morto no Rio de Janeiro

João Pedro brincava no quintal quando foi alvejado e levado, sem a ciência da família, por helicóptero da Polícia Civil

O adolescente João Pedro, de 14 anos, levou um tiro na barriga dentro de casa, em Praia da Luz, São Gonçalo, região metropolitana do Rio – Arquivo pessoal

Um estudante de 14 anos foi morto durante uma operação da Polícia Federal (PF) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, na tarde da última segunda-feira (18). João Pedro Mattos Pinto foi atingido na barriga enquanto brincava no quintal de casa. O adolescente foi levado em um helicóptero da Polícia Civil após ser baleado. Até a manhã desta terça-feira (19), a família estava sem informações sobre o jovem.

Segundo o Corpo de Bombeiros, o corpo da vítima foi deixado na segunda-feira (18), às 15h, no Grupamento de Operações Aéreas (GOA), na zona sul do Rio. Na manhã desta terça-feira (19), familiares do adolescente estiveram no Instituto Médico Legal (IML) de São Gonçalo e reconheceram seu corpo. João Pedro foi descrito por amigos e familiares como um menino calmo e que frequentava a igreja.

Para a gestora de dados da plataforma Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto, nem mesmo os dois meses de pandemia da covid-19 e a quarentena decretada pelo governo estadual, que fazem com que menos pessoas estejam nas ruas, foram suficientes para amenizar as estatísticas sobre violência em ações policiais envolvendo crianças e jovens – quando se compara com o mesmo período de 2019.

“Em 2019, 38 adolescentes foram baleados no estado do Rio contra 24 neste ano. Em tese, seria algo positivo, mas já estamos há dois meses em quarentena e nesse período houve grande redução de pessoas nas ruas. Se formos além, veremos que a violência não diminuiu. Em 50% dos casos de adolescentes baleados neste ano havia ações policiais. No ano passado, foram 53% baleados na presença de policiais”, explica Maria Isabel ao Brasil de Fato.

Segundo a pesquisadora, os dados são claros em mostrar a falta de engajamento das polícias na proteção da vida das pessoas e atuação errada de agentes de segurança pública. Maria Isabel Couto chama a atenção ainda para o fato de que o Complexo do Salgueiro foi cenário recente de uma chacina em que a Core também estava presente.

 “Há um ano e meio, outra operação ainda mal investigada e sem respostas resultou em uma chacina. Agora, novamente, um caso envolvendo a Core termina de forma trágica. O caso do João Pedro é um caso absurdo de um adolescente baleado e morto dentro de casa, levado pelo socorro, que morre e a família não é notificada disso. É um descaso muito grande com os familiares dessa vítima, é preciso alertar para isso”, avalia a gestora do laboratório de dados.

#procurasejoaopedro

No Twitter, um dos trend topics que despontou nesta terça-feira (19), pela manhã, foi a hastag #procurasejoaopedro. Diversas figuras públicas e lideranças comunitárias compartilharam a hashtag pedindo respostas sobre o menino desaparecido após ser baleado.

Em sua conta, Guilherme Boulos, liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), questionou o episódio. “No meio da pandemia, o Rio de Janeiro tem mais um menino negro desaparecido, depois de ter sido baleado pela polícia em São Gonçalo. Onde está João Pedro?”.

Pouco tempo depois, quando soube que o corpo do menino havia sido identificado no Instituto Médico Legal (IML), de São Gonçalo, Boulos novamente se manifestou na rede social, responsabilizando o governador do estado, Wilson Witzel (PSC), que chefia a Core: “O corpo do garoto João Pedro foi localizado agora no IML após ser morto pela PM do Rio. Mais uma vítima da política de segurança genocida contra pobres e negros. Witzel posa de ‘defensor da vida’ na pandemia, mas é agente da morte nas favelas cariocas”, disse.

A deputada federal Talíria Petrone (PSol) também se manifestou na rede social. “Depois de horas sem saber do filho, a família de João Pedro, jovem de 14 anos baleado dentro de casa, descobre que ele está no IML. Triste. Avassalador. Até quando o Estado vai enxugar sangue de jovens, pretos e favelados?”.

A hashtag que questiona o desaparecimento de João Pedro foi iniciada pelo seu primo, Daniel Blaz, na noite da última segunda-feira (18). O compartilhamento e a mobilização na rede social foi atingindo diversas contas além dos conhecidos da família, até chegar a figuras públicas. Por meio do Twitter, Daniel também compartilhou as atualizações sobre o caso. Em sua última postagem ele confirmou que a família identificou o corpo do primo no IML e se despediu. “Que Jesus te receba de braços abertos, meu campeão”.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

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Dia Internacional de Combate à LGBTfobia é marcado por ato simbólico em praia do Rio

Neste ano, os atos públicos e manifestações não puderam reunir pessoas devido à pandemia. Uma pesquisa internacional divulgada na última terça-feira (12), noticiada pela Fundação Thomson Reuters, realizada com 3,5 mil homens gays, bissexuais e transexuais por um aplicativo de relacionamentos apontou que 30% dos entrevistados responderam que não se sentem seguros em casa durante o isolamento.

Foto: Reprodução

O Dia Internacional de Combate à LGTBfobia foi celebrado no Rio de Janeiro, neste domingo (17), de forma silenciosa, mas simbólica.

Neste ano, os atos públicos e manifestações não puderam reunir pessoas devido à pandemia. Mas, mesmo assim, a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio lembrou o dia 17 de maio que marca o calendário da diversidade no mundo, estendendo nas areias da praia de Ipanema, na zona sul da capital fluminense, um bandeirão arco-íris de 30 metros, que representa o orgulho da comunidade LGBT.

De acordo com o coordenador especial da Diversidade Sexual, Nélio Georgini, a comunidade LGBT se uniu na luta contra o coronavírus, atuando em várias frentes, principalmente nas necessidades sociais. Mesmo com o momento difícil, a luta contra a LGBTfogia precisa sempre ser lembrada, diz o coordenador.

Uma pesquisa internacional divulgada na última terça-feira (12), noticiada pela Fundação Thomson Reuters, realizada com 3,5 mil homens gays, bissexuais e transexuais por um aplicativo de relacionamentos apontou que 30% dos entrevistados responderam que não se sentem seguros em casa durante o isolamento.

Mesmo que a LGBTfobia já tenha sido declarada crime pelo Supremo Tribunal Federal em junho do ano passado, muitas vítimas relatam dificuldades em denunciar familiares próximos e se veem sem ter onde buscar abrigo após uma denúncia.

Por essas e outras situações é que a comunidade LGBT destaca a importância de manter viva a luta contra o preconceito e a violência.

https://radioagencianacional.ebc.com.br

 

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Gravado no Vale do São Francisco e eleito melhor curta de terror em festival de cinema do RJ, “Necropolis” já está disponível na internet

O filme narra a história de Milena, única sobrevivente de um ambiente devastado por uma infecção causada por um fungo.

Foto: Reprodução

Eleito como “melhor curta de terror” em um importante festival nacional de cinema da cidade de São Gonçalo/RJ, “Necropolis”, curta-metragem de zumbis produzido e gravado na região do Vale do São Francisco, já está disponível na internet. O filme do coletivo de audiovisual NU7 Produções já foi selecionado para cerca de 20 festivais de cinema e arte de todas as regiões do Brasil.

O filme narra a história de Milena, única sobrevivente de um ambiente devastado por uma infecção causada por um fungo. Em meio a um mundo caótico com uma horda desumanizada, Milena precisa superar desafios e renúncias para continuar trilhando a sua jornada, onde a luta pela vida é diária.

“Quando comecei a idealizar Necropolis, sempre quis que a trama fosse globalizada e que o semiárido nordestino fosse o centro da narração. Roteirizar um filme de terror é um desafio, pois tratar de crise sanitária, isolamento e medo, pode soar premonitório. A ambientação foi pensada para ser verossímil com realidade. No meio disso tudo, Milena surge representando a ancestralidade nordestina, reforçando a força do povo sertanejo. Esses elementos reafirmaram a força impulsionadora para torná-la uma sobrevivente nesse mundo pós-apocalíptico”, diz Ítalo Oliveira, diretor e roteirista do filme.

Necropolis, em menos de um ano após seu pré-lançamento, realizado em março de 2019 em Petrolina-PE, foi selecionado para cerca de 20 festivais de cinema e arte em todas as regiões do nordeste. Entre eles destaca-se o IV Festival POE de Cinema Fantástico do Vale do Paraíba (São José dos Campos/SP); 9º Cinefantasy – Festival Internacional de Cinema (São Paulo/SP); IV Cine Tamoio – Festival de Cinema de São Gonçalo (São Gonçalo/RJ), onde venceu como “melhor curta de terror”; e o I Festival de Cinema do Vale do Pindaré (Santa Inês/MA), onde conquistou prêmios nas categorias de “melhor direção” e “melhor imagem”.

Foto: Reprodução

Cinema em casa

Esse é o sexto filme da NU7 Produções disponibilizado na internet. A iniciativa do Coletivo de Audiovisual visa contribuir para o entretenimento do público, que, devido às políticas de isolamento social, diante do cenário de pandemia por causa da covid-19, está com opções de lazer restritas. “A Conversa que não tivemos”, “Matinal”, “Adentro”, “Coração Noturno” e “Encomenda” também já estão disponíveis na internet.

NU7

A Nu7 é coletivo audiovisual que surgiu com o intuito de fazer cinema no Vale do São Francisco, para fomentar esse tipo de produção na região. Criada em 2015, possui seis filmes produzidos, sendo que alguns já foram exibidos em importantes eventos de cinema, em âmbito regional, nacional e internacional. Foi responsável por produzir e roteirizar videoclipes musicais de artistas da região do Vale do São Francisco, a exemplo de Andrezza Santos, Tio Zé Bá e Made In Quebrada, e também diversas peças comerciais de eventos culturais da região do Vale do São Francisco.

Assista Necropolis: https://vimeo.com/324599157

 

Ascom/Thiago Santos

 

 

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Movimento negro organiza ato em protesto e memória a Evaldo dos Santos

Homem foi assassinada por militares com 80 tiros de fuzil ao lado dos familiares

Evaldo dos Santos: Foto: Reprodução.

Organizações dos movimentos negro e das periferias articulam uma manifestação em memória a Evaldo dos Santos, assassinado no dia 7 de Abril, em Guadalupe, Rio de Janeiro. O ato tem início às 14h do dia 14 de abril, domingo, e ocorre no vão livre do MASP, Avenida Paulista (SP).

Os manifestantes pedem que os participantes levem as famílias, vistam-se de preto e tragam velas para simular uma missa de sétimo dia para Evaldo dos Santos.

Músico, Evaldo foi executado por agentes do Exército com 80 tiros de fuzil quando ia com a família para um chá de bebê. De acordo com o relato de seus familiares, os militares debocharam deles enquanto tentavam alertá-los de que o homem não era criminoso.

Os grupos que convocam a manifestação são a Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, Uneafro Brasil, Marcha das Mulheres Negras, Afronte, Kilombagem, Movimento Negro Unificado (MNU), entre outros.

 

https://almapreta.com

 

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80 Tiros: Delegado diz que ‘tudo indica’ que Exército fuzilou carro de família por engano no Rio

Militares que dispararam mais de 80 vezes contra carro e mataram músico de 51 anos prestaram depoimento ao Exército, que informa que o caso está sendo investigado.

O delegado Leonardo Salgado, da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, disse neste domingo (7) que “tudo indica” que os militares do Exército que mataram Evaldo dos Santos Rosa em uma ação durante a tarde em Guadalupe, Zona Norte do Rio, atiraram ao confundirem o carro com o de assaltantes.

O automóvel de uma família foi atingido por mais de 80 disparos, segundo perícia realizada pela Polícia Civil. As cinco pessoas que estavam no carro iam para um chá de bebê: Evaldo, a esposa, o filho de 7 anos, o sogro de Evaldo (padastro da esposa) e outra mulher.

Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, morreu na hora. O sogro dele, Sérgio, foi baleado nos glúteos. Seu quadro era estável. A esposa, o filho de 7 anos e a amiga não se feriram. Um pedestre que passava no local também ficou ferido ao tentar ajudar. Ainda não há informações sobre seu estado de saúde.

A Polícia Civil realizou a perícia no local porque os militares tiveram dificuldade em realizá-la, segundo o delegado, devido à revolta dos moradores que testemunharam o crime. Os envolvidos foram ouvidos em uma delegacia militar.

“Foram diversos, diversos disparos de arma de fogo efetuados, e tudo indica que os militares realmente confundiram o veículo com um veículo de bandidos. Mas neste veículo estava uma família. Não foi encontrada nenhuma arma [no carro]. Tudo que foi apurado era que realmente era uma família normal, de bem, que acabou sendo vítima dos militares”, afirmou o delegado em entrevista.

A família estava em um carro branco que, segundo testemunhas, foi confundido com um veículo da mesma cor que passou momentos antes.

Evaldo era músico e segurança. Ele estava no carro com a mulher, o filho de 7 anos, o sogro e uma amiga da família e morreu na hora — Foto- Reprodução:Facebook

Investigação militar

Os militares envolvidos no caso foram ouvidos, segundo a Polícia Civil, pelo próprio Exército – que entendeu que a investigação deveria ser militar. A Polícia Civil, no entanto, vê indícios para prisão em flagrante.

“Fica muito difícil tomar uma decisão diferente desta [prender], não vejo uma legítima defesa pela quantidade de tiros que foi. Os indícios apontam para uma prisão em flagrante”, afirmou o Salgado.

Comando militar fala em ‘injusta agressão’ de ‘assaltantes’

Logo após a morte de Evaldo dos Santos Rosa, o Comando Militar do Leste (CML) negou que tenha atirado contra uma família e disse que respondeu a uma “injusta agressão” de “assaltantes”. À noite, em outra nota, informou que o caso estava sendo investigado pela Polícia Judiciária Militar com a supervisão do Ministério Público Militar.

‘Continuaram atirando’

Uma amiga da família, que estava dentro do carro, contestou a versão do Exército e disse que os militares não fizeram nenhuma sinalização antes de abrir fogo contra o veículo.

“Eu não vi onde foi o tiro, mas eu acho que foi nas costas. Só que a gente pensou que ele tinha desmaiado no volante […] A gente saiu do carro, eu corri com a criança e ela também. A gente saiu do carro e mesmo assim eles continuaram atirando “, afirmou por telefone à TV Globo a amiga da família.

O que diz o Comando Militar do Leste

“A fim de realizar uma apuração preliminar da dinâmica dos fatos ocorridos, foi determinado pelo Comandante Militar do Leste que sejam coletados os depoimentos de todos os militares envolvidos, bem como ouvidas todas as testemunhas civis, o que está em andamento, nesse momento, na Delegacia de Polícia Judiciária Militar ativada na Vila Militar. O Ministério Público Militar já foi informado e está supervisionando a condução dessas oitivas”.

 

 

Via Geledés

 

 

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Em 10 estados, atos contra o assassinato de jovem negro paralisam atividades do Extra

Ativistas mantêm boicote ao supermercado, que pertence à rede varejista Pão de Açúcar, segunda maior do Brasil

Para o Movimento Negro Unificado, os supermercados são focos de racismo estrutural / Luciana Araújo (MNU)

Em dez estados brasileiros, milhares de manifestantes foram às ruas no domingo (17) e na segunda-feira (18) em protesto contra a rede de supermercados Extra, do Grupo Pão de Açúcar (GPA), por conta do assassinato por estrangulamento do jovem Pedro Gonzaga, de 19 anos, em uma unidade da rede na Barra da Tijuca, área nobre do Rio de Janeiro (RJ), no último dia 14. O GPA é vice-líder do setor supermercadista no Brasil, que fatura o equivalente a 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Os cinco maiores grupos, entre eles o GPA, abocanham mais de 40% do faturamento do setor.

Os atos aconteceram em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Sergipe, Ceará, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Bahia, Goiás e Pernambuco. Em cada localidade, os manifestantes se concentraram em frente a uma unidade de supermercado Extra e atuaram para impedir o atendimento enquanto ocorria o protesto.

Gonzaga foi morto pelo segurança Davi Amâncio, por volta do meio-dia, diante da mãe que gritava alertando sobre o estrangulamento do filho. O segurança diz que o jovem tentou tirar a arma dele e, por isso, foi necessário imobilizá-lo. Imagens do assassinato divulgadas na internet não sustentam a versão do segurança. A polícia considera a hipótese de homicídio doloso, quando há a intenção de matar.

“Temos o histórico de que os corpos negros não merecem respeito, não merecem estar na sociedade nos lugares onde estão o povo branco e a elite. E é mais ou menos assim a orientação dada em todas as redes de mercados”, lamenta Regina Lúcia dos Santos, 64 anos, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), que existe desde 1978.

Em 2017, último dado disponibilizado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o setor faturou R$ 353,2 bilhões, um crescimento de 4,3% em relação aos R$ 338,7 bilhões de 2016. O GPA registrou faturamento de R$ 44,9 bilhões em 2016 e de R$ 48,4 bilhões em 2017.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 54,9% da população do país é negra ou parda. Ou seja, são cerca de 110 milhões de consumidores de supermercados, que mantêm em alta o faturamento do setor.

“A morte de Pedro Gonzaga é mais uma gota no caldo do genocídio da população negra no nosso país. Ela demonstra muito o que a nossa população vive cotidianamente quando entra numa loja, quando entra em um supermercado, quando ocupa territórios que, por conta do racismo estrutural, não seriam seus”, afirma Luka Franca, militante do MNU em São Paulo (SP).

O ator e escritor Oswaldo Faustino vê como positiva a adoção do boicote contra o Extra – como símbolo do boicote ao racismo estrutural.

“Resta-nos agora boicotar o Extra, o Pão de Açúcar, esse grupo que contrata uma empresa de segurança e não prepara e não abre o olhar desses profissionais para entendimento de suas

limitações enquanto atuação, que cumpram o seu dever que é garantir a nossa segurança. E a segurança deles, muitas vezes é a morte dos nossos”, analisa.

(Foto: Luciana Araújo)

O cineasta Thiago Fernandes, dono da produtora Toco Filmes, de Diadema, na região metropolitana de São Paulo, lançou em 2018 o filme “Eu Pareço Suspeito?, sobre a história do jovem negro Ulisses Araújo, que estava pagando boletos em uma casa lotérica quando testemunhou um assalto. Assim como os outros clientes, ele tentou procurar um abrigo, mas foi atingido pela polícia. O rapaz agonizou na calçada, sem socorro médico, porque foi confundido com um assaltante. Fernandes vê semelhanças com o caso de Gonzaga.

“Os olhos são voltados para nos acusar, para não ficarmos sossegados. Tem um sinal de alerta de que o negro vai roubar, de que o negro causa perigo. Nesses lugares não vemos negros. Onde estão os negros na chefia? Mesmo sendo consumidor, mesmo pagando impostos, mesmo tendo direito ao voto, não temos o direito de estar em determinados lugares sem sermos incomodados”, questiona.

A única resposta possível, segundo Fernandes, é “incomodar” também. “O Extra emitiu uma nota pedindo desculpas. Isso não basta. Quando o Movimento Negro e outras organizações populares pararam o mercado, mesmo que por alguns minutos, isso abala. Isso causa incomodo. Diminui o lucro deles, mexe no bolso dos caras”, interpreta o cineasta, que também faz parte da UneAfro, rede popular de cursinho pré-universitário, e da rede de proteção ao genocídio da população negra.

O Brasil de Fato entrou em contato com a Abras e com o Grupo Pão de Açúcar para repercutir os protestos contra o assassinato de Pedro Gonzaga.

Os questionamentos sobre a atuação dos seguranças e vigilantes não foram respondidos. O Extra enviou uma nota à reportagem ressaltando que “repudia toda forma de racismo”, “que não vai se eximir das responsabilidades” e que instaurou uma sindicância interna para apurar o caso. O texto acrescenta que o supermercado se solidariza com os familiares de Pedro Gonzaga neste “momento de perda e dor”.

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Intervenção militar: 10 meses depois, medida segue sem solução para a segurança no RJ

Estatísticas apontam aumento de 59% no número de tiroteios e crescimento de 40,5% de pessoas mortas pela polícia

Foto: Reprodução.

Neste mês de dezembro, a intervenção militar no estado do Rio de Janeiro completa dez meses. A ação, que inicialmente foi vista como promissora por boa parte da população, não trouxe resultados satisfatórios para aqueles que esperavam a implantação de uma nova política de segurança pública no estado.

Dados do último relatório apresentado pelo Observatório da Intervenção, uma iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (CESeC/Ucam), mostram que o número de tiroteios entre os meses de fevereiro e novembro na região metropolitana do Rio aumentou 59% se comparado com o mesmo período de 2017. Além disso, o número de pessoas mortas pela polícia também cresceu 40,5% segundo a entidade.

Para Silvia Ramos, que é coordenadora do Observatório da Intervenção, a medida de força do governo federal, prevista na Constituição, intensificou problemas estruturais na área de segurança pública que já existiam no estado do Rio de Janeiro.

“Os problemas da segurança pública do Rio de Janeiro que já existiam nos últimos anos e suscitou na intervenção, não foram alterados, pelo contrário, alguns desses problemas se acentuaram, como a política de segurança baseada em tiroteios, operações, mortes decorrentes de ação policial, presença e expansão de controle de territórios por grupos armados ilegais, como a milícia, problemas de corrupção policial. Esses problemas, que são estruturais da segurança do Rio, não foram alterados”, destacou a pesquisadora.

A intervenção nas favelas

A análise de Silvia é compartilhada também pela Comissão Popular da Verdade, organização composta por entidades da sociedade civil e movimentos populares que se dedica a monitorar violações de direitos humanos dentro da intervenção militar no Rio. Há oito meses a Comissão vem promovendo atividades públicas para denunciar o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e Anderson Gomes, as megaoperações em favelas cariocas que afetam o dia a dia dos moradores das comunidades e também um relatório com dados sobre os impactos sociais da intervenção.

Ana*, que integra a Comissão Popular da Verdade, afirma que a população negra e periférica tem sido a mais atingida após o Exército assumir a segurança pública no estado do Rio. Segundo ela, as megaoperações das forças de segurança nas favelas geraram mortes de inocentes, como foi o caso do adolescente Marcus Vinícius da Silva que foi morto a caminho da escola durante uma operação da Polícia Civil no Conjunto de Favelas da Maré, na zona norte da cidade do Rio.

“A política de confronto dentro das comunidades traz mais prejuízo para as pessoas que moram nas favelas e não têm mais paz e sossego. Claro que o crime deve ser combatido e deve ser feita a prisão de grandes traficantes de arma e drogas. (corta) Na nossa opinião, o que precisa ter é uma política de inteligência, quando essa política é efetuada, os resultados aparecem sem a necessidade de invasão e confronto”, explicou.

Quanto custa a intervenção?

A decisão do governo federal de intervir na autonomia do estado do Rio foi baseada no artigo 34 da Constituição Federal e está orçada, segundo o Portal da Transparência, em R$ 1,2 bilhão. A 26 dias do fim da ação, o Gabinete de Intervenção Federal no Rio de Janeiro, utilizou R$ 53,95 milhões em despesas de custeio e manutenção da atividade. Cerca de R$ 430 milhões do orçamento já estão comprometidos para o futuro.

No Portal da Transparência, é possível também identificar as empresas e órgãos que mais receberam recursos com a intervenção. De acordo com as informações do site ligado ao Ministério da Transparência e a Controladoria Geral da União, o Comando do Exército recebeu cerca de R$ 29 milhões para executar a ação.

Já do ponto de vista empresarial, a Verint Systems Inc, líder no fornecimento de soluções de segurança de dados e espionagem, presente em mais de 180 países, foi a maior favorecida. Até o momento, a Verint arrecadou mais de R$40 milhões com a intervenção militar no Rio de Janeiro.

A empresa se popularizou após a tendência mundial de controle e vigilância pelas redes. De acordo com a Associated Press, o governo peruano chegou a gastar US$ 22 milhões com a Verint para o desenvolvimento de um programa de espionagem. A companhia opera em países da América Latina e já realizou transações com Colômbia, Equador e México.

Silvia Ramos acredita que falta transparência no critério do uso dos recursos da intervenção. Ela questiona também que as Forças Armadas recebem um repasse maior do que a área de segurança pública do Rio de Janeiro. Segundo ela, as Forças Armadas já se beneficiam com repasses referentes à Garantia da Lei e Ordem (GLO).

“Quando vemos caminhões na Via Dutra e Pavuna para diminuir o roubo de carga o que estamos vendo são recursos da GLO utilizados. Cada operação dessas com mil ou dois mil homens custa mais de R$ 1 milhão. Nós, do Observatório da Intervenção, monitoramos 584 operações, usando 195 mil agentes com a apreensão apenas 695 armas. É quase a apreensão de uma arma por operação”, relatou.

A intervenção militar no Rio de Janeiro segue até o dia 31 de dezembro sem perspectiva de renovação por parte do novo governo federal de Jair Bolsonaro (PSL) que já disse não ter interesse em prorrogar a ação no estado. A ação segue também sem dar respostas, após nove meses, sobre o crime político que tirou a vida de Marielle Franco e Anderson Gomes.

*Ana é o nome fictício utilizado para preservar a identidade da fonte.

 

Via Brasil de Fato

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Márcia Tiburi, uma filósofa na praça pública

Como a professora gaúcha ficou amiga de Lula e foi lançada ao governo do Rio de Janeiro pelo PT

“Achei muito desconfortável ficar num partido que defende a Lava Jato”, disse Tiburi sobre sua saída do PSOL. Tomaz Silva/Abr

“Eu não tô feliz de estar aqui, participando desse debate, e nem de fazer política nesse campo partidário”, disse a candidata do PT ao governo do Rio de Janeiro, Márcia Tiburi, no primeiro debate de TV com seus adversários. “Embora eu esteja amando o PT, que é um partido lindo”, complementou.

A declaração sintetiza a situação de Tiburi. Aos 48 anos, ela nunca concorreu a nenhum cargo eletivo na vida. Recém-filiada ao PT, a filósofa caiu de pára-quedas na corrida pelo governo do estado após a desistência do ex-ministro de Relações Exteriores do governo Lula, Celso Amorim. (Ao partido, ele teria alegado problemas familiares para não concorrer.)

Tiburi, que não assiste televisão há vinte anos, achou seu debate de estreia “uma grande falsificação”. “As pessoas ficam ali espetacularizando, usando frases feitas e clichês. Fui muito sincera em relação a isso”, comentou por telefone. Ela diz lastimar que “a mídia defina tanto a pauta da política”. “Para mim, é tão importante falar no jornal de bairro quanto falar numa tevê com uma super audiência de uma grande corporação.”

Apesar do discurso, a candidata de primeira viagem está mais próxima da grande mídia do que de um jornal de bairro. Tiburi ficou conhecida nacionalmente ao integrar, durante cinco anos, o programa de comportamento Saia Justa, do GNT — um dos canais da Rede Globo na televisão paga.

Também ajudou a construir sua reputação seus livros na linha da filosofia pop, que traduzem conceitos da área para leigos. Não foge, no entanto, da abstração. “É meu outro eu que ali fala. Ou eu nenhum. O leitor que me diga se quiser”, diz a descrição de um de seus romances.

De tempo em tempo, saltam manchetes com declarações suas incomuns à maioria das figuras públicas — frequentemente tiradas de contexto. Tiburi já foi demonizada por afirmar que “o cu é laico” e que “os algozes de Lula são caras secos, sem tesão, e sem tesão não há solução”.

Mídia à parte, ela dá aulas de filosofia há mais de duas décadas e tem uma carreira acadêmica sólida. Licenciou-se recentemente da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) para concorrer; antes, lecionou no Rio Grande do Sul, seu estado de origem, e na faculdade particular Mackenzie, em São Paulo.

Vida pública

O primeiro partido de Márcia Tiburi foi o PSOL, a que se filiou em 2013 — mesmo ano em que se mudou para o Rio de Janeiro. A partir do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), no entanto, ela se aproximou da ala de intelectuais e artistas ligadas à legenda. Também ficou amiga pessoal de Dilma e Lula.

Márcia Tiburi com Lula, que diz considerar “um cidadão muito cativante” (Foto: PT)

“Achei muito desconfortável ficar num partido que defende a Lava Jato”, disse. “O PSOL era bom numa época, ou para aquelas pessoas que acham que é importante continuar fazendo a crítica moralista da esquerda. Eu não queria ficar mais só na teoria.” Ela se desfiliou no começo do ano.

Sua ficha de filiação ao PT foi assinada pelo próprio Lula, um mês antes de ele ser preso em São Bernardo do Campo (SP). Tiburi diz considerar o ex-presidente “um cidadão muito cativante” e “uma pessoa humana adorável”.

“Eles têm uma relação de afeto, de amizade, mas uma solidez de anos e anos não tem”, contou a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que também ficou amiga da filósofa a partir de 2016. “Assim que o Lula sair da cadeia, será algo muito bonito, muito legal.”

No Rio de Janeiro, o PCdoB foi o único partido que topou se coligar com o PT. Assim como no caso de Manuela D’Ávila, o ex-pré-candidato do partido, Leonardo Giordano, foi chamado para entrar como vice na composição. Ao contrário de Tiburi, Giordano já concorreu em seis eleições e foi duas vezes vereador em Niterói. O coordenador da campanha é Edson Santos, que foi deputado federal pelo PT em dois mandatos.

Muitos fatos corroboram com o argumento de que a função da candidatura da filósofa teria a função de dar palanque para o candidato do PT ao Planalto: ela é de fora do Rio, novata na política e foi chamada na condição de plano B. Como a nível nacional, o PT fluminense também tentou encabeçar uma candidatura de esquerda no estado, que incluiria o PDT e o PSB. Com esses planos frustrados, quadros do partido admitiram que a viabilidade da candidata ao governo — atualmente com 2% das intenções de voto, segundo a última pesquisa do Ibope — é menor que o ideal.

A campanha direta de Márcia Tiburi nega tudo.

“Claro que, quando ela foi pro PT, não imaginava ser candidata a governadora”, afirmou Feghali. “Não existe isso de esquentar lugar, até porque a gente acha que mulher não esquenta lugar de ninguém, muito menos candidatura laranja.”

A situação dos petistas no Rio não tende a ajudar o nome de Tiburi. A nível estadual, o partido enfrenta um paradoxo interessante. Por um lado, Lula tem 31% das intenções de votos no estado, segundo o último Datafolha — de acordo com sondagens internas do partido, seu nome é particularmente forte em regiões periféricas e na Zona Norte da capital.

Por outro lado, o PT não é o principal partido de esquerda entre os fluminenses. Segundo o cientista político João Feres, da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), há duas razões para isso.

“O PT foi fundado por três forças: igreja, sindicatos e intelectualidade. O Rio tem pouca base sindical se comparada a outros lugares. O cardeal aqui é conservador, ao contrário de São Paulo. E a intelectualidade do Rio é muito dividida entre o brizolismo e o partidão [antigo Partido Comunista]”, disse. “Então o PT entrou atrás disso, como uma terceira opção.”

Há também o fato de que, para sustentar sua aliança a nível nacional com o PMDB, o PT sacrificou a viabilidade de seus candidatos locais ao governo durante a última década e meia. O partido de Eduardo Cunha, Luiz Fernando Pezão e Sérgio Cabral se beneficiou disso, por ser muito localizado na região.

“O PT sempre sacrificou a agenda local, estadual, em prol da agenda federal. Isso foi importante na consolidação do PSOL aqui”, afirmou Feres. “O PSOL do Rio é basicamente um monte de gente ressentida com o PT. Com uma certa razão, inclusive.“

Os treze anos de alianças com o PMDB deixaram cicatrizes. A candidatura de Márcia Tiburi enfrenta resistências internas de quadros que ela chamou de “viúvas do Cabral e do Paes”.

Uma pessoa que tem feito campanha localmente com ela apontou que Tiburi teria se aborrecido, por exemplo, que o presidente estadual da legenda, Washington Quaquá, tenha feito um evento com o candidato ao governo Eduardo Paes — recém-saído do MDB — na cidade de Maricá (RJ), na semana passada. (Ano passado, Paes chamou Maricá de “merda de lugar” em conversa por telefone com o ex-presidente Lula, grampeada pela Polícia Federal.)

O petista Adilson Pires, que foi vice-prefeito de Paes e concorre à Câmara Federal em 2018, também está fazendo campanha indireta para o ex-prefeito da capital.

Por enquanto, as chances de Márcia Tiburi estão concentradas em sua associação com Lula. Ela sabe disso: do um minuto e vinte segundos que sua campanha dispõe em cada bloco de propaganda eleitoral na televisão, 40 segundos são dedicados a falar do ex-presidente.

“Esses 2% [de intenção de voto] não me assustam. Estou misturada no meio de um bando de cidadãos que também estão no contexto do empate técnico”, argumentou Tiburi. “A perspectiva está muito em aberto.”

Ela se compara frequentemente com Leonel Brizola: também um gaúcho, de esquerda, que concorreu ao governo do Rio mesmo estando desfalcado no início da campanha — e que ganhou. “Minha participação nessa eleição implica [no] meu dever como professora de filosofia: fazer com que a gente reflita”, concluiu.

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Matérias

Intervenção Militar no Rio não reduziu a violência, mas já custou R$ 46 milhões

Apesar de anúncios praticamente diários de megaoperações com milhares de militares e policiais, os resultados são pífios.

Foto: Reprodução

Semana passada os generais responsáveis pela intervenção federal na segurança no Rio convocaram uma coletiva de imprensa para anunciar que, até o momento, gastaram R$ 2,5 milhões das Forças Armadas para desencadear os primeiros trabalhos no estado. Mas o valor real das ações da intervenção são muito maiores e inversamente proporcionais aos efeitos alcançados.

Dados obtidos pelo Intercept com base na Lei de Acesso à Informação (confira aqui a íntegra do documento) revelam que do início da intervenção – em 16 de fevereiro – até 30 de junho, as operações das Forças Armadas custaram ao contribuinte cerca de R$ 46 milhões. Foram 70 operações com, em média, 530 agentes. Cada uma custou cerca de R$ 428 mil.

Mas o preço total é ainda maior, uma vez que a conta exclui outras 18 operações listadas no documento que ainda não tiveram seus custos estimados. O valor do auxílio das polícias estaduais também foi desconsiderado, e outros pedidos feitos pela Lei de Acesso, ignorados.

Apesar de anúncios praticamente diários de megaoperações com milhares de militares e policiais, os resultados são pífios. Foram apreendidos menos fuzis, metralhadoras e submetralhadoras durante os meses de intervenção (92) do que no mesmo período de 2017 (145). “Muito tiroteio e pouca inteligência”, como resumiu o Observatório da Intervenção, iniciativa da sociedade civil para acompanhar os desdobramentos da medida.

Vila Kennedy: O laboratório da intervenção

“O Exército não dá jeito! A quem recorrer?”, me pergunta um homem que viu 13 incursões pontuais das forças do interventor na sua região este ano. “O Exército não voltará. Só se algo muito terrível acontecer”, emenda outro, ambos moradores da Vila Kennedy, o bairro da cidade que é “vice-campeão” de tiros nestes cinco meses de intervenção, perdendo apenas para a Praça Seca — ambos na zona oeste da capital carioca. Os dois pediram que suas identidades fossem preservadas por motivo de segurança. Seus depoimentos são indicativos do consenso crescente em grupos de WhatsApp, reuniões de ativistas e páginas locais de notícias.

Vila Kennedy, escolhido como o “laboratório da intervenção“, é o melhor exemplo do ceticismo em relação aos efeitos da intervenção federal no Rio. No início de março, cinco horas após uma megaoperação no bairro — já pacificado —, traficantes voltaram a erguer as barricadas retiradas pelos soldados. Nos dias seguintes, houve tiroteios intermináveis entre grupos rivais. O garoto propaganda da intervenção sucumbiu.

Pior: sucumbiu, assim como todo o estado, custando muito caro. Só cinco dos 39 batalhões da PM do estado sob o comando do interventor alcançaram os objetivos de reduzir a violência estipulados pela Secretaria de Segurança no início do ano.

Só na Vila Kennedy, as 13 operações custaram mais de R$ 16 milhões: uma média de R$ 1,5 milhão cada uma. As ações se concentraram no início da intervenção. Nas primeiras seis semanas, ocorreram oito. Depois, foram minguando: três em abril, uma em maio e outra em junho. Por fim, tudo ficou como antes, sob o domínio do tráfico. Ao menos três pessoas foram mortas e outras cinco feridas no período.

Prioridades

A Vila Kennedy registrou 131 tiroteios/disparos de arma de fogo entre janeiro de 2017 e junho deste ano, de acordo com um levantamento feito pelo laboratório de dados sobre violência armada, Fogo Cruzado. No mesmo período, a Praça Seca — o campeão de tiros, 18 km ao leste — registrou 202, com uma diferença. Onze dos tiroteios duraram mais de duas horas seguidas, totalizando 72 horas e 42 minutos de fogo cruzado. Todos eles ocorreram no Bateau Mouche, favela disputada entre o Comando Vermelho e a milícia desde o fim do ano passado. Longe dos holofotes, porém, o interventor optou por realizar apenas cinco operação na área, a mais violenta da cidade.

Na Taquara, bairro vizinho que também sofre um conflito sangrento entre o Comando Vermelho e a milícia nenhuma operação das Forças Armadas aconteceu. Em Campo Grande, o berço da maior milícia do estado, o interventor fez um total de zero operações.

Ou seja, os dados mostram que apesar do interventor ter dito que agiria contra a corrupção na polícia, na prática as operações das Forças Armadas vêm ignorando as áreas dominadas por milícias.

Milícias são forças paramilitares que são compostas majoritariamente por agentes públicos de segurança, e que ampliaram seu domínio nos últimos anos para ao menos 37 bairros e 165 favelas da região metropolitana, abrangendo mais de 2 milhões de moradores.

“O que chegou da intervenção na Praça Seca, mesmo depois de muito esforço dos moradores para dar visibilidade, foram operações esporádicas do Exército. Parece que a presença da milícia inibe a atuação das forças armadas”, disse uma agora ex-moradora do bairro, que cresceu no local. Ela se mudou há alguns meses, quando começou a perder compromissos por que não conseguia mais sair de casa devido à violência, e pediu anonimato por questões de segurança já que sua família segue morando no bairro.

“Na minha infância, a Praça costumava ser um bairro tranquilo. Depois, começaram tiroteios esporádicos, mas nada parecido ao que vem acontecendo de uns meses pra cá, em intensidade e frequência. Nunca presenciei nada parecido com o que tem acontecido. Já saí pra trabalhar e me deparei com corpos desovados em frente a minha casa”, diz. Para ela, que precisa se deslocar até a região central da cidade todos os dias, “a Praça Seca parece um ponto cego da cidade”.

Costa Verde

Saindo pelo oeste da cidade do Rio, um pitoresco litoral com praias de acesso restrito, cenário de novelas de Manoel Carlos, mansões de férias e bucólicas casas de pescadores, se estende até São Paulo. Angra dos Reis, uma das principais cidades da Costa Verde, é um paraíso cuja economia gira em torno do turismo. Mas entrou no noticiário por outro motivo: 14 dias ininterruptos de tiroteios, escolas fechadas e ruas centrais interditadas. O índice de homicídios na região aumentou 41% entre janeiro e maio de 2018 em relação ao mesmo período do ano anterior devido ao confronto entre duas facções rivais.

A atenção do poder público ao local se resumiu a uma única operação com 700 homens ao custo de quase R$ 2 milhões, um mês e meio depois. Resultado: dois homens presos por tráfico de drogas e associação para o tráfico e 70 kg de maconha e 140 cápsulas de cocaína apreendidos.

Questionados sobre qual o critério de escolha de áreas para as megaoperações realizadas pelas Forças Armadas, o Comando Militar do Leste disse que apenas que “trata-se de uma informação sigilosa”.

O preço do improviso

Decretada em 16 de fevereiro, a intervenção demorou quase 40 dias para receber do governo federal uma autorização de gastos de R$ 1,2 bilhão. Mas o início da liberação do dinheiro esbarrou na falta de estrutura burocrática, o que fez com que o Comando Interventor operasse por medida provisória, furando o teto de gastos estabelecido pelo próprio governo para congelar vários gastos federais. De acordo com a ONG Contas Abertas, nos primeiros quatro meses, só R$ 8.582,92 em compras haviam sido autorizados, mas nenhum centavo havia sido pago. O dinheiro foi utilizado para adquirir duas máquinas de picar papel, dois cilindros para impressoras e 16 cartuchos de toner.

Passados cinco meses, R$ 719.741,40 de compras foram aprovados — o que representa menos de 1% do orçamento disponibilizado pelo governo foi utilizado.

A confusão vai mais fundo também. O Comando Militar do Leste sustenta que “não há nenhum impacto no orçamento das Forças Armadas”, por causa da intervenção, “pois as despesas são provenientes da Lei Orçamentária Anual, cujos dados estão disponíveis no Portal da Transparência”. Porém, não há referência a intervenção federal no Rio no documento. A lei é aprovada no ano anterior aos gastos. Isso significa que, apesar de poder prever gastos semelhantes, não havia como saber o que seria gasto com a intervenção— ou mesmo que iria ocorrer uma intervenção federal na segurança do estado.

O Plano Orçamentário também foi solicitado pela Lei de Acesso, mas o Gabinete de Intervenção Federal informou que ele ainda está em elaboração e “conterá a previsão e programação da utilização dos recursos orçamentários disponibilizados para Intervenção Federal no Estado do Rio de Janeiro”. Isto porque, “por se tratar de atividade inédita, sem disponibilidade de série histórica”, eles precisaram aguardar a conclusão de diagnósticos feitos pelo gabinete, “para definição dos investimentos a serem realizados”.

“Entendo que, cinco meses depois de ter sido decretada, a intervenção ainda está na fase de planejamento, o que deveria ter precedido a medida. Isso revela um improviso da intervenção que atendeu as necessidades políticas e não as necessidades do Rio de Janeiro”, analisou Pablo Nunes, o coordenador de pesquisa do Observatório da Intervenção.

“Somado a isso, é difícil avaliar a eficiência dos gastos da intervenção porque não há transparência sobre todas operações. As informações sobre o efetivo das polícias, por exemplo, são insuficientes”, continuou Nunes. “Mas, mesmo assim, me parece excessivo haver uma operação que mobilize milhares de militares e se apreenda uma pistola e poucos quilos de droga. Isso reflete a insanidade que é essa política de guerra às drogas”, disse Nunes.

Essa avaliação acadêmica também está refletida na pista. “Eu não sou contra o Exército e muito menos contra a polícia. Eu sei que melhorou em relação aos tiroteios, a bagunça, até barricadas nas ruas”, desabafou um morador da Vila Kennedy. “Mas o que eu fico bolado é porque isso vai acabar daqui a alguns dias ou meses e vai voltar como era antes. Ou seja, não vai mudar nada”, finalizou, desanimado.

 

Via The Intercept Brasil

Notícias

Comissão Popular da Verdade divulga relatório sobre intervenção militar no Rio

Relatório aponta crescimento de 60% no registro de tiroteios e de 28% no número de homicídios nos últimos cinco meses

Movimentos populares e mães de vítimas da violência do estado participaram da coletiva de impressa em que os dados foram divulgados. Foto: Reprodução.

A Comissão Popular da Verdade divulgou na manhã desta quarta-feira (25) o relatório dos primeiros cinco meses de intervenção militar no Rio de Janeiro. Em uma coletiva de imprensa realizada no Salão Nobre da Faculdade Nacional de Direto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foram divulgados dados alarmantes sobre as operações realizadas nas periferias do estado do Rio desde que foi anunciada a intervenção, no dia 16 de fevereiro deste ano. No evento, estiveram presentes representantes de movimentos populares, moradores das favelas e periferias da capital e mães de vítimas da violência do estado.

O relatório aponta o aumento das taxas de letalidade, tiroteios e chacinas em todo o estado. O número de tiroteios, por exemplo, cresceu 60% nos meses de intervenção, em relação ao mesmo período do ano passado, somando 4005 registros em 2018, frente aos 2503 registros em 2017. Outro dado alarmante é o aumento do número de homicídios decorrentes de intervenção policial. Em comparação com o mesmo período do ano passado, o crescimento foi de 28%.

A coletiva de imprensa que lançou o relatório seria seguida de uma audiência com o interventor, Braga Netto. No entanto, a programação teve que ser alterada porque o interventor comunicou não ser possível receber a Comissão. “Protocolamos um ofício com o pedido na semana passada. Na segunda feira (23) a assessoria do interventor me ligou, dizendo que não era possível fazer a audiência com ele hoje pela manhã, que foi o horário que nós sugerimos, porque eles tinham uma formatura lá”, explicou Virgínia Berriel, jornalista e integrante da Comissão Popular da Verdade.

O grupo sugeriu então que a audiência fosse adiantada para terça-feira (24) já que o teor do relatório ditou a urgência da reunião. “Mas eles disseram que estava muito perto, que não dava. Ou seja, eles estão se esquivando”, acrescentou

A comissão ainda espera uma resposta do gabinete da intervenção sobre uma nova data para a audiência. “Nós esperamos que o senhor interventor, Walter Braga Netto, tenha o bom senso, que nos respeite e nos receba. Nós só queremos  dialogar com ele e perguntar para ele se é normal tudo que está acontecendo nas operações. Se é normal um helicóptero atirar de cima para baixo, se é normal chutarem a porta das pessoas às 3h da manhã e espancar morador. Se é normal executarem alguém na frente de um caveirão como aconteceu na Maré. Não tem pena de morte no Brasil, mas isso aconteceu”, denunciou Berriel.

Via Brasil de Fato