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Políticas Públicas de Cultura são debatidas em Audiência Pública

O encontro reuniu cerca de 80 pessoas, entre elas: artistas, produtores/as culturais, lideranças comunitárias, representantes de entidades e movimentos, jornalistas, professores/as, estudantes, entre outros.

Foto: Fernando Pereira

Com a participação de diversos representantes dos múltiplos setores culturais de Petrolina, o vereador professor Gilmar Santos (PT) realizou, na última segunda-feira (02), no CEU das águas, bairro Rio Corrente, uma Audiência sobre as políticas públicas de cultura, a criação do Sistema Municipal de Cultura no município, bem como a aplicação das leis na área da cultura no Estado de Pernambuco e no Brasil.

Durante o debate foram apontadas as diversas deficiências na gestão dos recursos da cultura no município que atrapalham o desenvolvimento e desempenho das políticas públicas para o setor. Petrolina tem um histórico grave de negligência por parte do poder público, constado no pouco investimento na fomentação da cultura local. Além disso, a atual gestão pouco tem feito para reverter esse quadro de abandono e de redução da ideia de cultura à pratica de promoção de eventos que privilegiam o espaço da indústria cultural, e que em sua maioria são realizados nas áreas centrais da cidade, excluindo as periferias dos espaços culturais, fazendo o serviço inverso que deveria conferir a uma gestão pública, que é a democratização e descentralização dos recursos e bens culturais.

Foto: Fernando Pereira

A ausência de representantes da gestão, assim como dos demais parlamentares da Casa Plínio Amorim, foi criticada por Gilmar, pois, de acordo com ele, reafirma a falta de compromisso desses com a garantia dos direitos da população no campo na cultura.

Apesar da ausência dessas representações, a audiência cumpriu o seu papel ao promover um espaço de discussão e diálogo junto à população e aos mais variados representantes do campo artístico do município para pensar o aperfeiçoamento das políticas públicas de cultura que fomente, além da cultura de paz e de combate à violência e as desigualdades, também o desenvolvimento econômico da cidade.

Foto: Fernando Pereira

“A proposição e realização da audiência pública sobre política cultural trouxe ao debate a urgência de que os gestores municipais tomem a produção cultural como fator importante de construção de cidadania, de participação democrática de artistas, com suas diversas linguagens, e seus diferentes públicos. É compromisso de qualquer governo dar à cultura e a seus trabalhadores o investimento necessário e a liberdade de expressão, para que os produtos culturais continuem a atuar como ferramentas de crítica, de formação e de combate às formas de preconceito que persistem na sociedade petrolinense”, explicou o historiador e professor Elson Rabelo.

Luís Osete Carvalho, Mestre em Educação, Cultura e Territórios Semiáridos, que estava presente na audiência enquanto ouvinte, reforçou a importância do debate sobre as políticas de cultura na região enquanto um direito de cada cidadão/ã, conforme previsto na Constituição Federal, e apontou também a ausência do poder público nos incentivos à cultura.

“A importância de debater as políticas de cultura é entender que a cultura é um direito humano, como a saúde, a educação, a comunicação, a segurança, e que precisa de políticas públicas para que as pessoas tenham acesso à cultura, à produção cultural de modo geral, para que essas pessoas também produzam cultura. Para mim essa é a importância fundamental do debate, além de criar rede de solidariedade, de vínculo entre os grupos de cultura, sobretudo, dos grupos artísticos que estiveram muito bem representados. Temos dezenas de coletivos, grupos, companhias que precisam desse incentivo por parte do poder público, que está extremamente ausente do fomento à produção cultural local”, disse.

Foto: Fernando Pereira

Ademais, Osete comentou sobre a audiência ter sido realizada na periferia, no mesmo espaço em que Gilmar e outros jovens foram agredidos pela polícia, no dia 24 de novembro, quando acontecia um evento cultural no local.

“Fazer esse encontro aqui tem um componente muito simbólico, por que é um equipamento cultural que o município administra, embora tenha sido criado pelo governo federal, dentro de uma política de ampliação de equipamentos culturais no brasil, num local que é periferia da cidade e que é ocupado por grupos culturais daqui dessa periferia, onde recentemente, há uma semana, aconteceu o episódio da repressão policial dentro de uma organização sobre o novembro negro que estava ocorrendo aqui. Então essa é a importância de debater na periferia, pois, é a periferia o lugar que mais se produz arte dentro do município. Quando a gente vai mapear os grupos que existem aqui, a maioria deles estão na periferia, então nada mais justo de que um debate como esse aconteça também nesses espaços, oportunizando que mais pessoas possam participar, sobretudo essas pessoas que produzem cultura”, concluiu.

A estudante de artes visuais da Univasf, Rogéria Saraiva, aproveitou o momento para reforçar o papel da cultura enquanto formadora de conhecimento, inclusive diante a atual conjuntura política, que ataca e destrói as ferramentas de apoio à cultura, à educação e a tantos outros direitos que vem sendo veemente ameaçados.

“Esse debate tem uma importância muito grande por que vem mostrar que os artistas e os arte-educadores constroem pensamento, eles levam as pessoas a conhecer, através da arte, de onde vem, e isso é muito importante para a gente se reconhecer enquanto pessoa e para a gente reconhecer nosso lugar. Quando nós sabemos quem somos, fica mais difícil de alguém conseguir te agredir, por que você sabe quem você é, a palavra dele não tem força para você. Então quando a gente vê tanta gente junta, unida nesse tipo de discussão nós estamos nos fortalecendo e aprendendo a lutar por nossos direitos para que essas políticas sejam colocadas em prática”, pontuou Saraiva.

O encontro reuniu cerca de 80 pessoas, entre elas: artistas, produtores/as culturais, lideranças comunitárias, representantes de entidades e movimentos, jornalistas, professores/as, estudantes, entre outros.

 

 

http://gilmarsantos.org/

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Senado aprova Dandara dos Palmares e Luísa Mahin como ‘heroínas da pátria’

Os nomes das guerreiras Dandara dos Palmares e Luísa Mahin podem ser incluídos no livro “Heróis e Heroínas da Pátria”.

Dandara dos Palmares

Os nomes das guerreiras Dandara dos Palmares e Luísa Mahin podem ser incluídos no livro “Heróis e Heroínas da Pátria”. No caso da primeira, a sugestão foi do deputado baiano Valmir Assunção (PT-BA), mas as duas tiveram seus nomes aprovados em sessão do Senado, nesta quarta-feira (27). Com isso, a medida agora segue para sanção presidencial.

“Temos duas mulheres negras, de histórias de luta, fundamentais para nossa ancestralidade. Vamos acompanhar o trâmite final e celebrar, pois isso mostra a força da mulher, da luta por terra e por liberdade. Principalmente no período e a conjuntura política que vive o Brasil. Não tenho dúvida que a aprovação desse projeto será uma das muitas vitórias que teremos”, destaca Assunção.

Companheira de Zumbi dos Palmares, Dandara comandou um quilombo na luta contra a escravidão. Quando foi presa, a guerreira cometeu suicídio ao se jogar de uma pedreira ao abismo para não retornar à condição de escrava. Já Luísa Mahin nasceu na região da Costa Mina, na África, mas foi radicada no Brasil. A mãe do advogado abolicionista Luís Gama coordenou a articulação dos levantes de negros escravizados.

 

https://www.bahianoticias.com.br

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“O protagonismo feminino veio para ficar” por Benedita da Silva

Em artigo para a Fórum, deputada federal afirma que “o 8 de Março é o dia em que a mulher mostra para a sociedade a força de seu protagonismo e a legitimidade de sua luta”

Foto-Valter Campanato:Agência Brasil

O dia 8 de Março é celebrado como o Dia Internacional das Mulheres. Mas será apenas o dia em que os homens se sentem obrigados a dar flores às mulheres, como muitos pensam? Podem até continuar dando flores, mas não por elas serem supostamente o “sexo frágil”, e sim por admiração e respeito pela sua luta por direitos iguais aos dos homens.

O 8 de Março também não é simplesmente o dia de luta das mulheres, mas o dia em que as mulheres mostram para toda a sociedade pelo que lutam e por que querem se libertar da supremacia masculina imposta a elas pela tradição milenar do patriarcado.

São muitos os motivos de nossa luta, mas o fundamental é entender que o conjunto dos trabalhadores só vai se libertar da opressão do capital se junto as mulheres se libertarem da opressão machista e também do racismo, que atinge com mais força as mulheres negras.

A discriminação da mulher começa na família e na escola, se prolonga no mercado de trabalho e na sociedade se expressa na violência contra as mulheres, na desigualdade de direitos com os homens e no racismo.

Segundo a pesquisa feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1,6 milhão de mulheres relataram terem sido espancadas no ano passado – 185 a cada dia. Segundo o Instituto Geledés, mais de 60% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. No mercado de trabalho as mulheres brancas recebem cerca de 70% do salário do homem branco, e as mulheres negas, 40%.

A discriminação da mulher negra é tão forte que, às vezes, o feminismo negro precisa lutar muito para se tornar visível e denunciar como somos esmagadas pelo triplo preconceito: racial, de gênero e de classe social. A categoria profissional que mais emprega mulheres é a do emprego doméstico, e nele 61,7% são negras. O regime de trabalho doméstico é equivalente ao trabalho escravo e ainda se acrescenta a dupla jornada de trabalho para cuidar de seus filhos e de sua casa. Somente em 2013 é que os direitos trabalhistas dos trabalhadores domésticos foram equiparados aos dos demais trabalhadores.

No entanto, três anos depois, o golpe do impeachment contra a presidenta Dilma anulou essa conquista histórica.

Uma das faces mais visíveis da discriminação da mulher no Brasil é a sua pequena representação política. O poder branco e masculino faz de tudo para desestimular, dificultar e até mesmo impedir a entrada da mulher num espaço que ele considera historicamente seu. Registrando uma média de 10% na Câmara, somente no ano passado é que essa participação das mulheres subiu para 15%. Parte desse aumento se deve à reação das mulheres conscientes contra a misoginia, o machismo e o feminicídio, pautas que se tornaram bandeiras nas eleições de 2018.

A extrema polarização política da sociedade, alimentada artificialmente pela grande mídia e pelas fake news bolsonaristas, não conseguiu anular completamente da memória popular a lembrança de como se vivia no governo Lula. A geração de emprego, a inclusão social, o acesso à moradia e a política de cotas raciais na universidade permitiram uma significativa ascensão do poder feminino, em especial das estudantes e trabalhadoras negras. Foi esse poder social que se manifestou no protagonismo das mulheres brancas e negras contra o golpe do impeachment, no “Ele Não” e no voto em Haddad no segundo turno. É esse mesmo protagonismo feminino que começa a se mobilizar contra essa famigerada Reforma da Previdência de Bolsonaro, em que as mulheres são as mais prejudicadas, particularmente as professoras e as trabalhadoras do campo.

Portanto, o 8 de Março é o dia em que a mulher mostra para a sociedade a força de seu protagonismo e a legitimidade de sua luta. Com isso desmonta a invenção machista do “sexo frágil”, feita apenas para nos dominar e prova que a luta de classe dos trabalhadores não pode estar separada das lutas contra o racismo e pelos direitos das mulheres.

*Benedita da Silva é deputada federal (PT/RJ)

 

Via Geledés

Ébano

Votos Negros importam

Somos responsáveis por honrar cada uma dessas vidas.

É preciso esclarecer de uma vez por todas que as conquistas sociais que beneficiam a maioria da população não são concessões de governantes bondosos, mas resultado de intensas lutas, muitas das quais nunca soubemos, mas através delas muito sangue foi derramado para que hoje possamos decidir minimamente o nosso futuro.

Somos responsáveis por honrar cada uma dessas vidas.

Para que os donos do poder imponham a sua vontade sobre a maioria da população, é necessário convencê-los de que a injustiça social é algo natural e aceitável. E como eles fazem isso?

Criando teorias e discursos que nos diferenciam e inferiorizam. Essas teorias foram disseminadas por livros, TV, currículos escolares etc. Não à toa, quando essa violência material e simbólica começava a ser revista e uma compreensão mais adequada do papel da população negra principia no horizonte, há um recrudescimento da violência a nossos corpos, eliminando vidas: nossos jovens, nossas Marielles, nossos mestres Moas…

E ainda vão mais longe: colocam-nos uns contra os outros para que as divergências nos impeçam de enxergar nossa humanidade comum: a dor e a indignação.

A pergunta que devemos fazer é: QUEM GANHA COM ISSO?

É a população negra e/ou pobre?

Recentemente, o jornal El País publicou um estudo sobre concentração de renda e desigualdade social no Brasil, realizado em 2017, que constatou que as seis pessoas mais ricas do Brasil concentram 50% da riqueza do país. Se os ricos forem “conceder” vida digna a todos os pobres (que são os trabalhadores), terão que dividir sua riqueza e isso, claro, eles não admitem. E vão lutar a todo custo e com todas as armas (literalmente) para evitar que esse momento chegue um dia.

Para impor seus interesses, a população mais pobre precisa conquistar mais força e participar do exercício do poder político! Precisamos eleger em primeiro lugar representantes negras e negros, e aqueles políticos que incorporem nossos anseios e necessidades. E não podemos eleger ou nos neutralizar diante de falas e históricos de candidatos contra a nossa gente. Precisamos honrar esse sangue, essa luta, essa gente: NOSSA GENTE!

Não é admissível que entre nós negros haja quem vá votar em candidatos que reforçam o racismo e todo tipo de preconceito, desrespeitando nosso passado, agredindo nosso presente e ameaçando nosso futuro.

Ao contrário do que tentam nos convencer, vidas negras importam. E, em particular e todos sabem cada vez mais, VOTOS NEGROS IMPORTAM. Pelos que já foram, pelos que estão e pelos que virão.

 

Por Adriana Pinheiro, professora de Sociologia do IFBA e militante dos Movimentos Antirracistas do Vale, MAV.

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SELMA: Mostra de filmes Moa do Katendê

Numa parceria entre Galeria 4Ms e Movimentos Antirracistas do Vale, será realizada a exibição do filme SELMA.

Foto: Reprodução.

Numa parceria entre Galeria 4Ms e Movimentos Antirracistas do Vale, será realizada a exibição do filme SELMA.
A película trata da caminhada feita pelo movimento direitos civis dos negros nos Estados Unidos na cidade de Selma, nos Estados Unidos, com foco na atuação do pastor Martin Luther King Jr.
Mas essa atividade também é uma homenagem a Moa do Katendê.
Romualdo Rosário da Costa ou Moa do Katendê era músico, mestre de capoeira, compositor, artesão e ativista do movimento negro da Bahia. E teve sua brilhante trajetória interrompida por doze facadas pelas costas após afirmar seu candidato no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018.
Mestre Moa, PRESENTE!!!!

Sábado, 13/10, 19h.

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8 de março: Mulheres resistem ao custo social gerado pelo golpe

Virá das ruas, nesta quinta-feira (8), a resposta das mulheres brasileiras ao perverso efeito cascata gerado pelo golpe que tirou Dilma Rousseff da presidência da República em 2016. Em quase dois anos de governo Temer o Brasil testemunha um retrocesso de décadas, em especial nos direitos das mulheres. De outro lado, também cresce a movimentação das organizações feministas resistindo ao custo social gerado.

Foto: Cuca da UNE

As mulheres representam 51,1% da população brasileira, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2016, divulgada em novembro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ana Rocha (de branco), ex-secretária da Mulher do Estado do Rio de Janeiro no período de 2013 a 2016, afirmou em entrevista ao Portal Vermelho que foi sobre essa parcela da população que recaíram os primeiros efeitos do golpe que segue atacando conquistas.

“Trouxe um ônus muito grande para as mulheres. Um dos primeiros atos do atual governo foi atacar o Ministério da Mulher, conquista de muitos anos e que coordenava uma série de políticas e programas para as mulheres em todos os âmbitos. Foi uma sinalização do desmonte que ocorreria em cascata no Brasil inteiro acarretando o fechamento de outros organismos de mulheres pelo país afora”, relembrou Ana Rocha.

Em 2017 houve uma retração de 61% da verba para atendimento à mulher em situação de violência: O recurso passou de 42,9 milhões em 2016 para 16,7 milhões no ano passado. “Há uma queda livre das políticas. Sem orçamento não tem como viabilizar. Primeiro a Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres foi fundida com o Ministério de Direitos Humanos, o que diminui o orçamento sem falar o contingenciamento”, lembrou a médica Julieta Palmeira, secretária de Estado da Bahia de Políticas para Mulheres.

O que começou com o enfraquecimento da Secretaria Nacional das Políticas para Mulheres se concretizou em 2017 com a aprovação pelo Congresso Nacional de mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) assim como a aprovação da terceirização irrestrita e da Emenda Constitucional 95, que congelou por vinte anos recursos da saúde e educação.

“Essa agenda aprofundou um quadro de precarização historicamente vivido pelas mulheres no mundo do trabalho”, completou Ana Rocha. Julieta Palmeira acrescentou: “Não é só um problema de subtração da democracia é também uma questão como cidadãs porque (uma reforma trabalhista) afeta no seu direito conquistado de inserção no mercado de trabalho”.

Precarizar é negar direitos

Vanja Santos (foto), presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM), confirmou que os efeitos do golpe são sentidos de imediato pelas mulheres. “Quando um país passa por recessão, golpe as mulheres são as primeiras que sofrem porque foi a elas imposta a tarefa de organizar a casa, levar a família para o hospital, cuidar dos idosos, deficientes, se preocupar se tem comida ou não em casa”, comparou a dirigente.

“Negar o oferecimento ou precarizar esse serviço é engessar o nosso direito de cidadãs. O que sobra são as filas imensas nos postos, mulheres vítimas de violência submetidas ao sucateamento do atendimento, as longas esperas nas delegacias de mulheres.”, enumerou Vanja.

O programa Casa da Mulher Brasileira, projeto do governo de Dilma Rousseff, também foi afetado pelo golpe. Ana Rocha não vê perspectivas no atual governo para essa iniciativa que buscava humanizar o atendimento às mulheres vítimas de violência. “Foram implantadas algumas casas mas não sabemos se as demais que estavam no projeto vingarão. Da mesma forma não sabemos se vai ter orçamento nos equipamentos estaduais. Isso compromete a manutenção das casas abrigo e centros de atendimento para mulheres em situação de violência”, enfatizou.

Golpe com a marca do conservadorismo

Vanja Santos contou que esteve recentemente na Bahia para uma atividade em que havia muitas jovens negras doutorandas e mestrandas. Um grupo de mulheres que lançou mãos das políticas públicas dos governos Lula e Dilma para contrariar as estatísticas que as coloca como as principais vítimas do feminicídio.

“São jovens, bolsistas que experimentaram uma política de inclusão proporcionada por uma luta política comprometida há mais de uma década com as causas sociais. São essas conquistas que estão regredindo e podem impactar para os próximos anos se não lutarmos por elas”, exemplificou Vanja.

Julieta Palmeira (foto) afirmou que o golpe também impôs obstáculos ao esforço do movimento de mulheres pela desconstrução da cultura machista arraigada no país. “O golpe também provocou uma onda conservadora que desperta um clima de ódio. Isso atingiu o direito das mulheres discutirem a questão de gênero no plano nacional de educação, por exemplo. Vivemos numa cultura machista, sexista, misógina. Criamos homens para serem agressores. É preciso combater essa cultura no campo escolar. Quando se proíbe de discutir neste campo é crime de lesa humanidade porque o machismo e o sexismo é o que está por trás da violência contra a mulher”, criticou a médica baiana.

Ver o filho ou filha indo à escola em um Rio de Janeiro sob intervenção militar é mais um ônus para as mães das áreas sob o domínio do exército. Moradora do Rio de Janeiro, onde é secretária da mulher do PCdoB estadual, Ana Rocha afirmou que as mulheres das comunidades pobres enfrentam o medo da bala perdida e da bala dirigida. Em um dos episódios mais impactantes da intervenção militar no estado, iniciada em fevereiro deste ano, militares armados revistaram mochilas de crianças. “As mães temem que aumente a violência contra crianças e jovens e também aumenta nelas o medo de ir e vir”, enfatizou Ana.

Centralidade para as conquistas das mulheres

De acordo com Ana Rocha, a retomada das conquistas e a implementação das políticas públicas que tem sido atacadas passam pela compreensão de um novo projeto nacional de desenvolvimento que reconheça a diversidade, gere emprego e renda e revogue a reforma trabalhista. Ela vê as eleições de 2018 como um espaço estratégico para que mulheres possam eleger representantes entre elas e que sejam identificadas com as pautas progressistas do movimento.

“O retrocesso trazido pelo golpe aprofunda a sub-representação das mulheres na política e nos espaços de decisão. Estávamos caminhando para enfrentar a sub-representação das mulheres para destinar 5% do fundo partidário,10% do espaço de televisão, as cotas. Todas essas questões vão ser impactadas com o processo que tende a restringir a existência dos partidos, que tende a dificultar a participação eleitoral. Virão as consequências para as mulheres que já tem pouco espaço. O golpe atinge as mulheres se dá também no campo da representação política”, avaliou Ana.

Julieta vê na mobilização nas ruas e na luta por eleições livres o caminho para as mulheres recuperarem as conquistas sob ataque. Para ela a democracia a ser defendida precisa ter a marca feminista e incoporar amplos setores dos movimentos sociais e organizados. “Essa democracia precisa levar em conta os direitos conquistados pelas mulheres e subtraídos neste momento. Mas não vai acontecer se o caminho não contemplar a garantia dessas conquistas das mulheres”, defendeu.

Vanja considera que o movimento de mulheres tem se fortalecido, especialmente com a participação das jovens mulheres. “A cada dia mais as mulheres se sentem parte desse movimento que busca mudar esse momento de crise atual. O envolvimento é maior. Acredito que a resistência e a luta também vêm crescendo. Estamos nessa luta para mudar o quadro que penaliza mais de 50% da população brasileira e na defesa das conquistas para evitar um retrocesso histórico”, concluiu.

Por Railídia Carvalho

http://www.vermelho.org.br

Especiais

Não só de purpurina se faz carnaval, há espaco para lutas políticas

‘O Carnaval sempre foi um ato político. Na Primeira República, a população negra utilizou o Carnaval para afirmar sua autonomia. Hoje, é um grande espaço de crítica política e social.’

Por Juliana Gonçalves (The Intercept Brasil)

Purpurina, transgressão e resistência. No meio da folia carnavalesca, que já encena seus primeiros atos em 2017, a discussão política ganha espaço nos blocos de rua. Com o lema “Carnaval, folia e luta”, blocos não autorizados pela Prefeitura do Rio ocuparam as ruas do centro da cidade no primeiro domingo do ano, dia 8, em um ato festivo contra as imposições do governo, como o monopólio da cervejaria patrocinadora do evento oficial nas vendas de bebida.

O evento promovido pela Desliga do Blocos é apenas um dos exemplos da festa como espaço de protesto.  Durante os dias momescos, referências políticas aparecem em letras de samba de blocos de enredo,  blocos temáticos, fantasias e, até mesmo, na realização de uma prática cultural sem aceitação do poder público, como no caso dos blocos sem autorização para o desfile. Isso  que se observa tanto no Rio de Janeiro quanto em outras partes do país, como em Pernambuco.

“O Carnaval sempre foi um ato político. Na Primeira República, a população negra utilizou o Carnaval para afirmar sua autonomia. Hoje, é um grande espaço de crítica política e social. No Carnaval, o humor e o sarcasmo funcionam como arma de transgressão política. A brincadeira é uma forma de manifestação”, explica Eric Brasil, autor do livro “A corte em festa: experiências negras em carnavais do Rio de Janeiro”.

mulheres carnaval

[Foto:Erick Dau]

O caráter transgressor do Carnaval começa na ocupação da rua pelo folião, uma vez regiões como o centro da cidade e as praias – onde tradicionalmente ocorrem os desfiles – nem sempre são acessíveis a todas as camadas da população. “A rua é um espaço de disputa e a forma que você se coloca nela é uma forma de fazer política”, diz Camila De’Carli, instrumentista do Cordão do Boi Tolo, bloco que desfila sem autorização, sem trajeto definido e sem músicos fixos, adotando essa postura independente como posicionamento político.

A festa é vista como uma válvula de escape, um espaço de alienação ao cotidiano. No entanto, pelo perfil democrático da rua, a grande circulação cultural e o encontro de diferentes pessoas, existe a construção de um discurso que ultrapassa os dias de folia. “As pessoas entendem o carnaval como uma performance pública que atinge muita gente ao mesmo tempo. É um caminho de comunicação muito eficaz. Uma linguagem mais eficiente que muito texto formal, que não é só de harmonia e expõe conflitos”, completa Brasil.

Dentro deste contexto, é possível encontrar blocos que apresentam temáticas do universo LGBT, debatem o sexismo e expõem as lutas periféricas. “O Carnaval acaba se tornando um espaço contra diferentes tipos de opressão. Ele possui a qualidade de levante popular sem violência”, explica a coordenadora de instrumento de sopros do bloco feminista Mulheres Rodadas, Flávia Soares.

homens Carnaval

[Foto:Erick Dau]

“O Carnaval é um espaço político, porém não como um espaço de política partidária, mas sim como um local de mobilização popular para se discutir determinadas pautas”, diz Philippe Valentim, coordenador do Bloco APAfunk, que traz o funk para o Carnaval buscando reflexão para as questões da periferia.

Desta maneira, o Carnaval acaba ganhando um caráter de resistência através da negação da ordem do dia a dia. “É uma resistência ao cotidiano. O folião resiste socialmente, economicamente e culturalmente”, completa Valentim.