Leitura Crítica

Miguel explica o racismo escravagista da elite de Recife

“Talvez se esse animal [cachorro da patroa] tivesse caído do nono andar, muitas pessoas ficariam mais indignadas e ainda colocariam a culpa na doméstica.”

Miguel Otávio Santana da Silva voou do nono andar de um prédio de luxo no centro do Recife para um lugar reservado a anjos negros que saíram desse mundo pela omissão e descaso daqueles que deveriam protegê-los quando ainda estavam nesse mundo. O pequeno se encontrou com Ághatas e Joãos Pedros nesse canto. Se corpo foi de encontro ao mais amaldiçoado pedaço de chão da capital pernambucana.

Oficialmente, os dois edifícios de 41 andares se chamam Pier Maurício de Nassar e Pier Duarte, mas qualquer transeunte que passe pelas imediações do Cais de Santa Rita só se refere ao monstrengo de concreto como Torres Gêmeas. A construção do par de prédios se deu envolta a polêmicas urbanísticas e ambientais. O resultado é uma aberração arquitetônica no meio de umas das paisagens mais bonitas da cidade.

Projetado para ter como habitantes a alta classe recifense, o condomínio e seus moradores já foram destaque nos noticiários por diversos motivos. Seja por aqueles que jogaram dinheiro pelas suas janelas, tentando livrar o flagrante durante o uma operação da Polícia Federal, sejam as dezenas de trabalhadores chineses que se empilhavam dentro dos apartamentos de luxo.

A família que empregava a mãe de Miguel é um claro exemplo da aristocracia pernambucana desde que o estado era a capitania hereditária que dava mais lucro ao erário português. O marido é de uma família que domina a política dos municípios do Litoral Sul de Pernambuco, além de ter o nome envolvido em práticas ilegais, segundo a Carta Magna.

A elite local permanece com práticas escravocratas, como pôr em risco a vida da sua empregada obrigando-a a trabalhar mesmo em tempos de pandemia. Mirtes Renata Santana da Silva não teve direito a quarentena. Entre seus atributos no serviço estava passear com o cachorro da família. Talvez se esse animal tivesse caído do nono andar, muitas pessoas ficariam mais indignadas e ainda colocariam a culpa na doméstica.

Mas quem morreu foi um menino preto. Preto como as imagens que pipocaram nas redes sociais com a legenda de que vidas negras importam. Importam mesmo? Talvez até importem, mas menos do que fazer parte de uma tendência. No momento dizer-se antirracista é imprescindível, menos pela causa e mais pelo julgamento dos seus pares. “Como assim você não colocou #BlackLivesMatter nos seu Instagram?”

Se realmente a sua vontade é de se revoltar contra aqueles que menosprezam as vidas pretas, sugiro que se comece fazendo campanha contra Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. O sujeito que mais envergonha os negros brasileiros. O racismo bate à porta todos os dias. Porta de Bancos, porta de elevadores. De Minneapolis ao Recife. Preto é a cor que está no centro do alvo, seja da polícia ou daqueles que se recusam a limpar a sua própria sujeira. Parte deles terá muito trabalho para tirar o sangue de suas mãos.

Gil Luiz Mendes é escritor e jornalista. Apresenta o podcast Baião de 2 na webrádio Central3.

Fonte: Correio da Cidadania 

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“A gente precisa se ver nos lugares”: Iza critica meritocracia e racismo no Domingão do Faustão

“Por conta da minha profissão, essa questão do assédio, do racismo, não some, né? Ela fica velada”, comentou a cantora

Reprodução/Globo

Durante sua participação no Arquivo Confidencial, quadro do programa Domingão do Faustão, da Globo, a cantora Iza falou neste domingo (12), emocionada, sobre o sucesso de sua carreira. Para ela, apesar de ter uma profissão de destaque e ser respeitada em seu meio, o racismo e o preconceito persistem no dia a dia. A cantora também fez críticas à meritocracia e pediu por mais representatividade.

“Acho que todas as mulheres aqui já passaram por isso. Quantas vezes a gente é cantada no caminho para o trabalho? E aí, por conta da minha profissão, essa questão do assédio, do preconceito, a questão do racismo, não some, né? Ela fica velada”, comentou a artista.

“As pessoas têm aquele receio de se expressarem da forma que elas gostariam de se expressar, mas isso que aconteceu comigo não significa que o racismo acabou, por eu estar numa capa de revista, na TV, isso significa que estamos caminhando, mas que temos muita coisa pra fazer”, reforçou.

Em outro momento, a cantora destacou a importância da representatividade. “Eu quando era criança queria muito me ver na TV e hoje eu vejo muito mais de mim nos lugares e isso é importante, assim, isso é a história da representatividade. A gente precisa se ver nos lugares pra saber que a gente pode estar onde quiser estar e isso tá mudando”.

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Petrolina: participantes de evento cultural do Novembro Negro denunciam ação violenta da Polícia Militar

Participantes do evento, denunciam a ação violenta de policiais militares do 2º Batalhão Integrado Especializado (2º Biesp).

(foto: arquivo)

O encerramento de um evento em alusão ao Novembro Negro, que trazia exposição de produtos, música, e apresentações culturais como forma de enaltecer o processo de resistência e empoderamento da população negra, terminou em mais uma denúncia de agressão policial em Petrolina-PE. Participantes do evento, que acontecia no espaço Céu das Águas, no bairro Rio Corrente, na noite deste domingo (24), denunciam a ação violenta de policiais militares do 2º Batalhão Integrado Especializado (2º Biesp).

Segundo os participantes, tudo começou por volta das 20h, quando na praça onde o evento estava sendo realizado, os PMs chegaram em três motocicletas e abordaram um homem que segundo eles, era suspeito de estar portando uma arma de fogo – nada foi encontrado durante a revista. Incomodados com a forma como foi feita a abordagem na praça – segundo testemunhas, os policiais adentraram no espaço com arma em punho e não se intimidaram com a presença de crianças e adolescentes no espaço -, os organizadores tentaram dialogar com os agentes, que reagiram de forma abusiva.

Em conversa no programa Palavra de Mulher desta segunda-feira (25), o vereador Gilmar Santos (PT) contou que uma integrante da Associação das Mulheres Rendeira filmou o momento do conflito, o que teria incomodado os policiais, que ao perceberem que estavam sendo filmados, pediram que a jovem entregassem o celular. Karol Souza, que também é comunicadora da Central Popular de Comunicação, entretanto, se negou a entregar o aparelho telefônico.

“O policial disse ia apreender o celular e que iria detê-lá e arrola-lá como testemunha do suspeito que eles tinham liberado. Ela não estava cometendo nenhuma irregularidade”, contou o vereador que disse ainda que os policiais tentaram prender Karol.

Algumas pessoas que estavam no local, como o músico Maércio José (Tio Zé Bá) e o Poeta Nascimento, do Sertão Poeta, tentaram proteger a jovem, abraçando-a, e foram agredidos. “Tentei dialogar com os policiais, em vão. Eles usaram de mobilização bastante violenta em uma das jovens, um mata-leão, que quase estrangulou essa jovem. Quando nosso companheiro Máercio, junto com o Poeta Nascimento, abraçaram a Karol, para protege-lá e não deixarem que os policiais levassem (para a delegacia), eles disseram que iam levar os três. Me aproximei, abracei-os e falei que iam me levar também”, disse Gilmar que chegou a ser empurrado pelos agentes, e algemado.

Ainda segundo as testemunhas, cerca de oito viaturas da 2º Biesp foram acionadas. A polícia também usou spray de pimenta contra o público que estava presente no local.

O dançarino e DJ Thierri Oliveira, que se apresentava no evento no momento da ação da polícia, compartilhou em suas redes sociais, um desabafo sobre as cenas que presenciou. O artista se diz inseguro diante das denúncias de violência policial na cidade. “Todos que foram detidos são negros, em uma ação do Novembro Negro. Estava todo mundo tranquilo, se divertindo. Mas só os pretos foram agredidos. Me preocupa saber que quem deveria nos proteger, está nos agredindo. Se isso é segurança, eu não me sinto seguro, ainda mais sendo artista, negro, periférico e gay. A verdade é que não tem ninguém para nos proteger. Era a polícia que estava batendo nas pessoas. A quem eu iria pedir socorro?”, questionou.

Cris Crispim, atriz e coordenadora do evento, também presenciou toda a cena. “Estávamos fazendo um evento bonito, com intervenções na comunidade. Estávamos fazendo um trabalho que a gente sabe que o poder público falha em não fazer, que é de acesso à cultura, de levar às comunidades entretenimento e lazer saudável. Só queríamos festejar. De repente, nos deparamos com essa abordagem desproporcional e desrespeitosa. É uma convicção de que a nossa luta é necessária, e que nós ainda não temos um minuto de descanso”, considerou.

(foto: PNB)

Cerca de 50 artistas e representantes de entidades e organizações voltadas à luta contra o racismo de Juazeiro e Petrolina, se concentraram em frente a sede da 26º Delegacia Seccional da Polícia Civil, no bairro Ouro Preto, para onde Gilmar Santos, Karol Souza, Maércio José e o Poeta Nascimento foram encaminhados, prestando solidariedade às vítimas.

Com exceção do vereador, as vítimas realizaram exame de corpo delito no Instituto Médico Legal (IML), tendo em vista que apresentavam hematomas em partes do corpo devido a ação dos agentes policiais. Todos prestaram depoimento e foram liberados por volta das 4 horas da manhã.

“Estamos mobilizando todas as lideranças políticas do nosso campo e que têm pautado esse enfrentamento e a desigualdade social, e exigindo uma agenda com o governador, o senhor Paulo Câmara, e com o secretário de Defesa Social. Precisamos que essas autoridades façam uma interação eficaz junto ao comando local. Não podemos permitir que esses comportamentos se naturalizam, e que se crie esse estado de medo. Não vamos nos submeter ao medo, à covardia e a injustiça. O estado precisa ser pautado na sua estrutura. Vamos procurar os meios legais, inclusive políticos, para enfrentar essa situação”, garantiu o vereador Gilmar Santos.

Repúdio

Em nota, o Conselho Municipal de Cultura de Juazeiro-BA repudiou a ação dos policiais, considerando que essa “violência institucional é uma das faces mais perversas do Racismo no Brasil, que fere de morte o ideal de um Estado Democrático de Direito, de uma sociedade justa, igualitária e livre de qualquer forma de discriminação” (leia na íntegra abaixo).

Outro caso de agressão

Recentemente, a Polícia Militar de Petrolina também foi alvo de denúncia de outro caso de agressão policial. No último dia 9 de novembro, a estudante Camila Roque, diretora da União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (UESPE) e militante da União da Juventude Rebelião (UJR) foi agredida por quatro Policiais Militares, no Centro da cidade de Petrolina, quando se dirigia ao campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). A agressão aconteceu após os agentes encontrarem um livro de teoria marxista dentro da mochila da jovem, que estava com acompanhada de outras duas amigas.

Nota na íntegra

Nota de Repudio

O Conselho Municipal de Cultura de Juazeiro-BA vem por meio desta, repudiar veementemente a ação truculenta promovida por soldados da Policia Militar de Pernambuco lotados na 2º Biesp em Petrolina, quando da realização na noite de ontem (24/11) do encerramento da Mostra de Artes Novembro Negro promovida pela CIA Biruta de Teatro no CEU das Águas no Bairro Rio Corrente.

Na oportunidade, prestamos ainda nossos votos de solidariedade à CIA Biruta de Teatro, aos artistas Maercio José, Poeta Nascimento e a Karol Souza da Associação das Mulheres Rendeiras que foram violentados física e psicologicamente na ação dos policiais.

Não temos duvidas de que a ação de ontem não se configura como fato isolado, pelo contrario, representa o modus operandi de uma politica de segurança pública pautada no racismo e na repressão da população mais pobre. Ainda em novembro, a Estudante Camila Roque, dirigente da União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco, foi brutalmente violentada com um soco no rosto porque um policial se desagradou com um livro que a mesma carregava em sua bolsa.

Esse tipo de violência institucional é uma das faces mais perversas do Racismo no Brasil, que fere de morte o ideal de um Estado Democrático de Direito, de uma sociedade justa, igualitária e livre de qualquer forma de discriminação.

 

 

http://pretonobranco.org/

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Vereador e artistas são detidos após reagir a violência policial em Petrolina

Após registrar em vídeo abordagem truculenta da 2ª BIESP, quatro pessoas foram detidas

Polícia Militar usou spray de pimenta e apontou armas letais para a comunidade na ocasião / Reprodução

Neste domingo (24), o vereador Gilmar Santos (PT), a comunicadora popular Karoline Souza e os artistas Maércio José e Fabrício Nascimento foram agredidos e detidos no CEU das Águas, no bairro Rio Corrente. Na ocasião, acontecia o encerramento da Mostra de Artes Novembro Negro, organizada pela Cia Biruta de Teatro. De acordo com o parlamentar, a polícia havia feito uma abordagem violenta no local contra um jovem negro, que foi acusado pela polícia de estar portando uma arma no local. Durante a ação da polícia, Karoline Souza, comunicadora da Central Popular de Comunicação, registrou a abordagem em vídeo e foi repreendida pela polícia, que tentou apreender Karoline e o celular onde as imagens foram gravadas.

Os organizadores contestaram a decisão da polícia, que passou a usar spray de pimenta e apontar armas letais para a comunidade. Na tentativa de evitar a prisão de Karoline, Gilmar Santos, Maércio José e Fabrício Nascimento foram imobilizados e detidos. Para o parlamentar, a ostensividade foi desnecessária. “Eles nos algemaram, imobilizaram e um deles estava com uma soqueira e passou a nos socar na região do abdome e no rosto. Nesse momento já haviam no local mais ou menos oito guarnições da polícia. Era um cenário de guerra, porque partiram para cima de todos. Ainda no local cheguei a conversar com o Tenente Nascimento e argumentei que não era necessário o uso da força daquela maneira”, conta.

As quatro pessoas foram encaminhadas para 26º Delegacia Seccional da Polícia Civil, no bairro Ouro Preto. Muitas pessoas se dirigiram ao local para prestar solidariedade e às 04h Gilmar, Karoline, Maércio e Fabrício foram liberados. Agora, o parlamentar quer denunciar a ação do 2º Batalhão Integrado Especializado (2º Biesp) da Polícia Militar. “Vamos exigir uma correção no comportamento da polícia aqui em Petrolina e no estado, porque é generalizado. Estamos vendo a possibilidade de uma agenda com o governador Paulo Câmara e o Ministério Público para tratar da situação. Imagine a quantidade de violações que têm acontecido com pessoas que não têm nenhuma rede de proteção. Não podemos calar diante disso”, concluiu.

 

 

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Vereador Gilmar Santos e mais três militantes do Movimento Negro são detidos por reagirem a violência policial

O parlamentar foi detido por tentar defender os jovens que foram agredidos

CEU das àguas

O encerramento da Mostra de Artes Novembro Negro, com o tema: Liberdade é não ter medo de brilha, realizado neste domingo, 24, no Céu das Águas, bairro Rio Corrente, foi alvo de uma ação truculenta promovida por policiais do 2° Biesp.

O fato se deu por volta das 20h, quando a polícia chegou no evento, organizado pela Cia Biruta de Teatro, e abordou um rapaz que eles diziam ser suspeito de estar portando uma arma, porém, segundo os organizadores, a Polícia fez uma abordagem violenta e totalmente desrespeitosa.

Karol Souza, da Associação das Mulheres Rendeiras, estava filmando o momento do conflito, mas quando os policiais perceberam que estavam sendo filmados pediram seu celular da jovem, que ao negar entregar foi agredida juntamente com o músico Maércio José e o Poeta Nascimento, que estavam com ela e tentaram a proteger. Além disso, a polícia aspergiu spray de pimenta nas pessoas que estavam próximas, ignorando a presença de crianças no local.

O vereador Gilmar Santos, que estava no evento, também foi detido ao tentar proteger os demais que foram covardemente agredidos. Vários artistas estão na delegacia Ouro Preto prestando apoio aos colegas e reivindicando justiça sobre essa agressão racista.

 

 

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Jovem negra petrolinense, estudante do curso de medicina, desabafa nas redes sociais: “Durante a minha infância e adolescência eu tinha uma inquietação. Eu não me via”.

“Por isso, usamos datas como o 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, para relembrar e ressignificar toda a trajetória de luta, de privações e violência que meus antepassados sofreram e meus iguais ainda sofrem para que pessoas como eu possam ocupar lugares como esse”. Disse Caroline Aquino

Foto: Facebook

Estudante do curso de Medicina pela Universidade de Pernambuco – UPE, campus Garanhuns, prestes a concluir o curso, Caroline Aquino, 23 anos, jovem negra, natural da cidade de Petrolina, desabafou em seu perfil nas redes sociais, no último dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Caroline destaca o difícil caminho que a juventude negra percorre para ocupar espaços de maior privilégio na sociedade brasileira. Acompanhe no texto abaixo:

Durante a minha infância e adolescência eu tinha uma inquietação. Eu não me via. Fora do amparo do ambiente de casa, da família e vizinhança do meu bairro periférico, eu simplesmente não me via. Eu não me via nas salas de aula das escolas particulares onde estudava, sempre me sentindo deslocada sendo a única ou uma das únicas alunas negras da turma, a exceção. Eu não me via na imagem da maioria dos meus professores. Eu não me via nos papeis de protagonismo na TV, nas revistas de moda e beleza, naquilo que era considerado belo, aceito e desejável. E por fim, eu não me via naqueles que exerciam a tão honrosa e respeitável profissão médica nos atendimento pelos quais passei ou presenciei. E o motivo não é simples, mas é evidente. Eu não me via porque pessoas como eu não estavam chegando lá, não estavam sendo representadas, não na mesma proporção.

Conseguimos vários avanços. Atualmente, a filha de uma cabelereira/professora e de um técnico de enfermagem, a filha de uma FAMÍLIA PRETA, está se tornando médica e cenários como este finalmente estão se tornando mais comuns. Mas eu ainda sou uma exceção. Ainda não me vejo na grande maioria das turmas de Medicina, nos grupos de internos nos diversos rodízios pelos quais passei. Eu ainda não me vejo entre as equipes de staffs, residentes e preceptores dos serviços onde estagiei. Então posso afirmar por vivência e convicção que ainda estamos muito longe. Longe de recuperar todo o tempo, dignidade e oportunidades que nos foram negadas. Longe de ocupar plenamente espaços onde por séculos fomos barrados, excluídos e humilhados.

Por isso, usamos datas como o 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, para relembrar e ressignificar toda a trajetória de luta, de privações e violência que meus antepassados sofreram e meus iguais ainda sofrem para que pessoas como eu possam ocupar lugares como esse. Para somar forças e seguir resistindo a tudo e a todos que insistem em diminuir nossa existência. Para reafirmar que não aceitaremos nada menos do que aquilo que já deveria ser nosso por direito. E para desejar profundamente que toda criança preta e periférica tenha igual oportunidade de sonhar e de realizar seus sonhos!

A família de Caroline reside na periferia de Petrolina, no bairro Santa Luzia, região norte da cidade.

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“Tem mais negros no crime”, diz deputado Daniel Silveira em fala racista

O deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) discursou hoje no Plenário da Câmara dos Deputados negando a existência do genocídio da população negra, em um discurso de conteúdo racista feito às vésperas do Dia da Consciência Negra. Silveira contestou os dados do Ipea, afirmando que ele teve o “prazer e o desprazer” de atuar em todas as favelas do Rio de Janeiro e que se mais negros morrem é porque “tem mais negros com armas, mais negros no crime e mais negros confrontando a polícia”.

Imagem Rômulo Arruda/ Geledés

Silveira contestou os dados do Ipea, afirmando que ele teve o “prazer e o desprazer” de atuar em todas as favelas do Rio de Janeiro e que se mais negros morrem é porque “tem mais negros com armas, mais negros no crime e mais negros confrontando a polícia”.

O policial militar ficou conhecido após rasgar uma placa com o nome da vereadora Marielle Franco (PSOL).

O deputado falava sobre uma placa que denunciava o genocídio negro no Brasil e havia sido rasgada pelo deputado Coronel Tadeu (PSL-SP). Ele afirmou que gostaria de “apertar a mão” de Tadeu por ter rasgado a placa. Tadeu é coronel da Polícia Militar.

Entre 2017 e 2018, negros foram mais de 75% das vítimas de letalidade policial, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança 2019.

Em seguida, ele leu alguns dados contidos na placa que provavam a morte de pessoas negras nas periferias do Brasil, para depois refutá-los. O deputado criticava a imagem ilustrativa de um homem negro algemado sendo executado por um policial militar.

“Não venha atribuir à Polícia Militar do Rio de Janeiro as mortes porque um negrozinho bandidinho tem que ser perdoado”, afirmou o deputado.

*Com reportagem de Guilherme Mazieiro, do UOL, em Brasília.

 

 

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Racismo e machismo mantêm mulheres negras no grupo de menores salários do país

Intelectual Lélia Gonzalez se dedicou a explicar o impacto da combinação de racismo e sexismo sobre as mulheres negras

Lélia Gonzalez foi a penúltima filha de uma família de dezoito irmãos, de mãe indígena e pai negro, ferroviário / Gabriela Lucena/Brasil de Fato

Para a mulher negra, o lugar que lhe é reservado é o menor. O lugar da marginalização. O lugar do menor salário. O lugar do desrespeito em relação a sua capacidade profissional”. A análise é da intelectual negra Lélia Gonzalez em entrevista concedida a Mali Garcia para o documentário “As Divas Negras do Cinema Brasileiro”, de 1989.

Passados 30 anos, a avaliação da filósofa permanece atual. O estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do IBGE, divulgado no mês de novembro, espelha estes obstáculos e ressalta a vantagem dos homens brancos sobre os demais grupos populacionais.

O levantamento aponta uma maior distância entre os rendimentos dos homens brancos, quando comparados aos das mulheres pretas ou pardas, que recebem 44,4% menos do que eles.

Raça, gênero, classe

Historiadora, antropóloga e professora, Lélia Gonzalez observava não só os aspectos de classes para pensar a estrutura da sociedade e a complexidade das desigualdades sociais, mas também trazia as dimensões de sexo, raça e o legado colonial como estruturantes.

“A mulher negra é o grande foco das desigualdades [sociais e sexuais] existentes na sociedade. É nela que se concentram esses dois tipos de desigualdade, sem contar com a desigualdade de classe, com a desigualdade social”, disse na mesma entrevista.

Lélia Gonzalez na reunião da Diretoria do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras – IPCN – 1986 | 7Acervo JG/Foto Januário Garcia

Os aspectos destacados por Gonzalez agem como barreiras sociais. O estudo divulgado pelo IBGE revela que o segundo grupo de maior vantagem é o das mulheres brancas, cujos rendimentos são superiores aos dos homens pretos e pardos, que, por sua vez, estão a frente somente das mulheres de mesma cor ou raça.

Apesar dos avanços alcançados pela luta e resistência do povo negro, a desigualdade salarial entre brancos e pretos persiste e se repete na série histórica disponível. O estudo do IBGE explica essa diferença por fatores como: segregação ocupacional; menores oportunidades educacionais; e recebimento de remunerações inferiores em ocupações semelhantes.

Da casa grande ao trabalho doméstico

Flávia Rios, coautora da biografia Lélia Gonzalez – coleção Retratos do Brasil Negro, Selo Negro Edições – conta que a pesquisadora veio de uma tradição negra que existe desde o pós-abolição. A corrente de pensamento questiona a forma violenta e excludente com que a população negra foi tratada da passagem da escravidão para a mão de obra livre.

“Ela vai trazer a dimensão das mulheres que vivem nas casas grandes, das mulheres trabalhadoras, das mulheres negras, enquanto escravas, mas também como trabalhadoras domésticas, que tiveram papel fundamental na construção da cultura nacional brasileira”, diz.

A biógrafa afirma que a historiadora tirou do anonimato e valorizou mulheres que haviam sido relegadas a papéis subalternos, invisíveis. “Ela tem um foco muito importante na luta contra o racismo por via de figuras que são invisibilizadas na estrutura social, na cultura brasileira”.

Pesquisadora Flávia Rios | Arquivo pessoal.

Radicalização do feminismo

Rios aponta como uma importante contribuição da obra de Gonzalez a crítica ao feminismo branco, de classe média. O questionamento se deu por esse grupo pensar as liberdades das mulheres por um olhar específico, que não contemplava as reais condições das mulheres negras. Porém, ressalta: “É importante dizer que ela era feminista”.

“Enquanto as mulheres brancas buscavam sua inserção no mercado de trabalho, as mulheres negras eram – desde o período da escravidão – envolvidas com trabalho. Trabalhavam fora como empregadas domésticas, com trabalhos servis, com serviços urbanos… Enfim, era outra realidade”, relata.

Se, por um lado, as mulheres brancas questionavam a fragilidade atribuída às mulheres em geral, por outro, as mulheres negras foram brutalizadas seja na sociedade escravista, seja na de mercado. Flávia destaca que Lélia Gonzalez foi uma das pioneiras ao destacar essas contradições e radicalizar o feminismo.

“No Brasil, o emprego doméstico é estruturante das relações sociais econômicas. E muitas mulheres brancas estavam em busca de uma libertação social, de gênero… Essa suposta liberdade veio a custa de colocar uma outra mulher, uma mulher negra, na condição de trabalhadora na casa”, afirma.

Muitas das contradições do feminismo liberal, principalmente o eurocêntrico, foram expostas por Gonzalez. No livro Lugar de Negro, da editora Marco Zero, ela denuncia esse discurso incoerente: “Analisamos também a situação da mulher negra enquanto empregada doméstica no quadro da reprodução do racismo (inclusive por parte de muitas militantes brancas do movimento de mulheres)”.

Coautor da biografia, Alex Ratts, destaca a relevância do debate que relaciona raça, classe e gênero, colocado pela pesquisadora: “Quando ela traz um texto sobre a mulher do morro, que tem que pegar água da bica, que tem que trabalhar enquanto seu filho está sofrendo violência policial, enquanto seu marido está preso, ela está dizendo que toda família negra, pobre, tem questões de gênero, tem questões de raça”.

Ratts se refere a um trecho do artigo “Nega Ativa”, que pode ser encontrado no livro Vozes insurgentes de mulheres negras, publicado pela Fundação Rosa Luxemburgo.

“Então, essa era a perspectiva da Lélia. Uma perspectiva que aliava raça com gênero e com classe. E mesmo que os homens daquele período não se interessassem pela ideia de feminismo, podiam ver que essas questões estavam coligadas”, avalia.

Mito da democracia racial

Jurema Batista, especialista em políticas públicas, ex-vereadora e ex-deputada, conheceu a pesquisadora na década de 1980. Ela destaca que a militante do movimento negro fazia uma denúncia muito pesada do racismo.

“Quando a conheci, eu estranhei porque não tinha essa visão de como era o racismo no Brasil. Eu acreditava na tal democracia racial. E, através do contato com ela, isso foi desmontado”, diz.

“A democracia racial era muito badalada em 1970, 80. Dizia que o Brasil era um país multirracial, que nossa cultura era muito misturada e, por ser uma cultura misturada, todo mundo era respeitado… Mas isso era um mito. O mito da democracia racial, que dizia: ‘aqui é um país democrático, negros e brancos têm direitos iguais’”, explica.

Jurema Batista especialista em políticas públicas | Foto: Agência Patricia Galvão.

O mito da democracia racial era um dos principais alicerces de definição da identidade nacional no período. O conceito foi fortemente combatido pelo movimento negro.

“Na militância, a gente descobriu que era mentira.  Diziam assim: “O negro não acessa os locais de trabalho, ele não tem instrução”. Aí, os negros começaram a se formar, foram para as universidades, e quando foram para o mercado de trabalho, não eram bem recebidos”, conta Batista. Para ela, “existe um tipo de código de honra entre os brancos de dar vaga para os seus iguais”.

“A prática do racismo foi uma coisa muito bem montada e jogava para o negro a responsabilidade da sua própria miserabilidade, da falta de oportunidade. Essa é uma herança escravocrata de um país que tem lugares determinados para as pessoas”, explica.

Lélia Gonzalez identificou que esse mito se manifestava pela denegação do racismo. Isso acontecia na medida em que os brasileiros negavam sua existência, mesmo que o racismo tenha produzido privilégios para os brancos de todas as classes sociais.

No livro Lugar de Negro,  a escritora destaca que “esses mecanismos recobrem um amplo quadro de racionalização que vão desde um efetivo racismo às avessas (…) até atitudes ‘democráticas’ que negam a questão racial, diluindo-a mecanicamente na luta de classes (por aí se vê como certas posições de esquerda nada mais fazem do que reproduzir o mito da democracia racial, criado pelo liberalismo paternalista que eles dizem combater)”.

“Hoje, não dá mais para sustentar posições culturalistas, intelectualistas, coisas que tais, e divorciadas da realidade vivida pelas massas negras. Sendo contra ou a favor, não dá para ignorar essa questão concreta, colocada pelo MNU [Movimento Negro Unificado]: a articulação entre raça e classe”, conclui.

Lélia Gonzalez. Artigo “Racismo por Omissão”. Jornal Folha de São Paulo, São Paulo, 13 de agosto de 1983.

Lélia Gonzalez

Nascida em Belo Horizonte, em 1935, numa família de poucos recursos econômicos, Lélia Gonzalez foi a penúltima filha de uma família de dezoito irmãos, de mãe indígena e pai negro, ferroviário.

Graduada em História e Filosofia, pós-graduada em Comunicação e Antropologia, ela foi uma das militantes que fundou o Movimento Negro Unificado e do Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga.

Escreveu Festas populares no Brasil, premiado na Feira de Frankfurt, Lugar de negro, em coautoria com Carlos Hasenbalg, duas teses de pós-graduação, além de diversos artigos para revistas científicas e obras coletivas. Faleceu vítima de problemas cardíacos no Rio de Janeiro no dia 10 julho de 1994.

Lélia Gonzalez no dia 20 de novembro de 1988 | Reprodução.

 

 

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Deputado do PSL destrói quadro de exposição contra genocídio negro

O deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) violou uma obra do cartunista Carlos Latuff, que continha dados sobre a violência contra negros e negras

O Deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) quebrou quadro que continha dados sobre genocídio da população Negra pelo estado. Crédito: Redes Sociais

O deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) arrancou um quadro de uma exposição na Câmara dos Deputados que denunciava o genocídio da população negra no Brasil. A obra violada trazia dados sobre a violência do Estado contra negros e negras e tinha uma charge do cartunista Carlos Latuff. A ação foi denunciada no Twitter da deputada federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, Talíria Petrone. O ato acontece um dia antes da data em que se celebra o Dia Nacional da Consciência Negra.

O cartunista também criticou a atitude do parlamentar em suas redes sociais: “Se fazem isso contra um cartaz, imagine contra gente de carne, osso e pele negra!”, escreveu.

Parlamentares da oposição reagiram afirmando que a atitude do deputado viola o decoro parlamentar e ainda afirmaram que vão acionar o Conselho de Ética para que o deputado seja punido. A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ) afirmou que a ação reforça a necropolítica, o ethos fascismo e o racismo institucional.

 

 

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Vereador Gilmar Santos e equipe do Mandato Coletivo divulgam nota de repúdio contra agressão policial sofrida pela estudante Camila Roque, em Petrolina

“Em defesa da vida e de uma cultura de paz, sigamos em luta, e em resistência!”.

Foto: Reprodução

Em decorrência da agressão sofrida por Camila Roque, estudante e diretora da União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (UESPE) e militante da União da Juventude Revolucionária (URJ), que recebeu um soco no olho desferido por um policial militar, o vereador professor Gilmar Santos e equipe do Mandato Coletivo emitiram uma nota de repúdio. Confira:

É com profunda indignação e repúdio que, em pleno mês da Consciência Negra, o vereador Prof. Gilmar Santos (PT) — Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara Municipal de Petrolina — e o Mandato Coletivo, recebem a notícia da agressão policial sofrida pela companheira Camila Roque, mulher, negra, diretora da União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (UESPE) e militante da União da Juventude Revolucionária (UJR). O fato ocorreu no último dia 09 desse mês, quando quatro policiais abordaram a jovens e outras duas estudantes no centro da cidade de forma abusiva e com armas em punho.

Identificando material de formação marxista na bolsa das jovens, um dos policiais desdenhou, desqualificou o material e ameaçou apreendê-lo. Camila argumentou sobre a ilegalidade da ação e sobre o direito de liberdade de pensamento e expressão, previsto na Constituição Federal. Após o abuso de autoridade e tentativa de intimidação, as jovens foram liberadas. Porém, Camila foi seguida por um dos policias, que a agrediu com um soco no rosto, a xingou de “terrorista” e a ameaçou dizendo que “Bolsonaro vai acabar com isso tudo”.

Expressamos aqui nossa solidariedade à Camila e às demais jovens diante de tamanha covardia e truculência promovida por agentes do Estado que deveriam garantir segurança à nossa sociedade. Sabemos o quanto essa ação é representativa da estrutura racista, machista, misógina, sexista, desigual e opressora que permeia a nossa história e as nossas instituições, principalmente na atual conjuntura, estimulada por lideranças políticas reacionárias e fascistas, a começar pelo próprio presidente da República.

Reafirmamos nosso compromisso de continuarmos em luta contra toda e qualquer forma de violência, e pela promoção e defesa de políticas públicas que garantam igualdade e oportunidades para as minorias mais oprimidas da nossa sociedade e, de maneira particular, às mulheres negras.

Sabendo que esse tipo de prática não deve fazer parte do comportamento da maioria dos policiais e de que há profissionais sérios e comprometidos com os direitos humanos nos órgãos de segurança pública, exigimos as devidas providências e punições para esses maus policiais.

Em defesa da vida e de uma cultura de paz, sigamos em luta, e em resistência!

 

Vereador Professor Gilmar Santos- PT

Mandato Coletivo

http://gilmarsantos.org