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Bolsonaro poderá ser investigado por declaração preconceituosa contra nordestinos

PCdoB prepara representação à PGR; Presidente chamou Nordeste de “paraíba” e foi rechaçado por políticos da região

Jair Bolsonaro (PSL) justificou-se, no sábado, afirmando que declaração sobre governadores foi “uma crítica de 3 segundos”; – Créditos: Foto: Alan Santos/Presidência da República

A declaração dada na última sexta-feira (19) pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) a respeito dos governadores do Nordeste continua provocando reações no mundo político. O deputado Márcio Jerry (MA), um dos vice-líderes da bancada do PCdoB na Câmara, prepara uma representação para ser protocolada ainda esta semana na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o chefe do Executivo.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o parlamentar disse que irá pedir ao órgão uma apuração sobre possível prática de crimes contra a honra, ameaça e racismo. Na sexta, durante um café da manhã com a imprensa internacional, o presidente, sem saber que já estava com o microfone ligado, disse a Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, que “daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão”, Flávio Dino (PCdoB), e que “tem que ter nada com esse cara”.

O termo “paraíba” é costumeiramente utilizado de forma pejorativa para se referir a nordestinos, o que faz com que a expressão seja associada ao preconceito regional. Por esse motivo, Márcio Jerry disse que pretende pedir também, na representação junto à PGR, uma apuração sobre esse aspecto da declaração do presidente. 

“Acho que todos nós ficamos estupefatos com a grosseria, com o desrespeito, com a visão preconceituosa, rebaixada [da região]. Vem numa sucessão de atitudes que não compõem o figurino da instituição Presidência da República”, acrescenta, defendendo ainda uma reação do sistema de Justiça diante do caso.

O deputado aponta ainda que a conduta fere as diretrizes do pacto federativo, segundo o qual deve haver impessoalidade entre os entes federados (União, estados, Distrito Federal e municípios).

“A cada momento, ele [Bolsonaro] se excede nos desatinos. Desta vez, claramente, se manifestando de forma preconceituosa contra o Nordeste, não só do ponto de vista da expressão de racismo, como também expelindo ameaças, o que extrapola a responsabilidade institucional dele. Não é uma ameaça a uma pessoa. É uma ameaça institucional a estados da Federação”, sublinha.

Segundo ele, a representação deve ser protocolada na PGR até sexta-feira (25) e deverá contar também com a assinatura do líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Ressonância

Quando o áudio do presidente foi divulgado, a notícia gerou manifestações multilaterais.

Em carta pública assinada coletivamente, os governadores do Nordeste disseram que a declaração causou “espanto” e “indignação”. “Aguardamos esclarecimentos por parte da Presidência da República e reiteramos nossa defesa da Federação e da democracia”, acrescentaram os mandatários.

Parlamentares que representam o Maranhão no Congresso Nacional também se pronunciaram em relação ao caso.

Ao todo, 11 deputados federais e dois senadores soltaram nota conjunta lamentando a declaração do pesselista em relação ao estado e ao governador.  

“Não é aceitável, na democracia, que um presidente da República determine a um ministro de Estado perseguição a um ente federado e, por consequência ao seu povo, por questões políticas”, assinala o texto, assinado por membros de 12 siglas (PDT, PCdoB, DEM, PRB, Pros, PT, PP, PSB, PL, PTB, Cidadania e Patriotas).

O vice-líder do PCdoB aponta que a conduta do presidente ultrapassaria os limites das diferenças político-partidárias, o que teria permitido a formulação de um contraponto conjunto entre os signatários do documento. Na visão de Márcio Jerry, a declaração de Bolsonaro foi além das características do jogo político.

“Não dá pra gente achar que essas atitudes do presidente da República possam ser aceitas com naturalidade porque naturais não são. São atitudes ofensivas, grosseiras, antidemocráticas”, critica o comunista.

A afirmação de Bolsonaro tem como pano de fundo as divergências políticas entre o presidente e governadores do Nordeste, onde o pesselista registra a maior rejeição popular no país.

Procurado pela imprensa para comentar as reações a sua fala, o chefe do Executivo disse, no sábado (20), que foi “uma crítica de 3 segundos” e que a imprensa teria feito “uma festa” em cima do caso.

“Eu fiz uma crítica ao governador do Maranhão e da Paraíba. Vivem me esculhambando. Obras federais que vão para lá eles dizem que é deles. Não são deles, são do povo. A crítica foi a esses dois governadores, nada mais além disso”, disse.

Em resposta, Flávio Dino afirmou que pretende continuar dialogando “respeitosamente com as autoridades do governo federal e a colaborar administrativamente no que for possível”. Numa referência aos ditames constitucionais, o mandatário afirmou ainda que respeita “os princípios da legalidade e da impessoalidade”.

Já o governador da Paraíba, João Azevêdo (PSB), disse, após o episódio, que “a Paraíba e seu povo, assim como o Maranhão e os demais estados brasileiros, existem e precisam da atenção do governo federal independentemente das diferenças políticas existentes”. “Estaremos, neste sentido, sempre dispostos a manter as bases das relações institucionais junto aos entes federativos, vigilantes à garantia de tudo aquilo a que tem direito”, completou Azevêdo.

O caso gerou faíscas também em Alagoas. Por meio de suas redes sociais, o governador do estado, Renan Filho (MDB), deu a seguinte declaração: “Não ao preconceito ao Nordeste e ao nosso povo. Respeito, federação e democracia são conceitos amplos que não combinam com a visão pequena, mesquinha”.

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Evento LGBT, não é politico se é racista!

o Grupo de Estudos – Kabecilê, vem por meio desta nota repudiar a utilização de tal prática no evento “XXI Victor Victória 2019”, e a sua indisponibilidade para o diálogo a respeito de práticas racistas.

Foto: Divulgação.

É inaceitável que a prática do “Black Face” continue a ser perpetuada dentro dos meios artísticos e de comunicação. Historicamente utilizada para reprimir e ridicularizar o nosso povo, a prática volta a acontecer em um evento na cidade de Juazeiro-BA.

Dessa forma, o Grupo de Estudos – Kabecilê, após entrar em contato com a organização do evento para diálogo e ser ignorado e tratado com ironia e desacato, vem por meio desta nota repudiar a utilização de tal prática no evento “XXI Victor Victória 2019”, e a sua indisponibilidade para o diálogo a respeito de práticas racistas.

O evento levará ao palco uma Drag Queen chamada “Black Negona” que usa do “Black Face” como forma de construir sua performance artística, fato esse inconcebível em uma celebração LGBT, visto que viola identidades e válida uma violência histórica aos corpos de pessoas negras.  Um evento LGBT não pode, sob nenhuma circunstância, permitir que o racismo estrutural continue a ser propagado e/ou naturalizado na sociedade.  É passada a hora de entendermos, enquanto grupos oprimidos, a relevância de um pensamento interseccional. Não adianta tentarmos combater a LGBTfobia, se continuamos a compartilhar e perpetuar o racismo. As opressões se interseccionam, se interpassam e se interligam, e não podem excluir uma à outra em suas resistências.

A celebração da cultura LGBT deve vestir-se também de uma responsabilidade antirracista que não aceita e nem perpetua nenhum tipo de opressão. Vale repetir: os corpos de pessoas negras não são fantasias, e o racismo não pode ser utilizado como humor ou piada diante de uma realidade que continua a marginalizar e matar o povo negro em nosso país.

Exigimos um posicionamento da organização, e mudança da performance divulgada. * Kabecilê – Grupo de estudos interseccionais.

Também apoiam essa nota: * Movimentos Antirracistas do Vale;

* Antônio Veronaldo – Diretor da Cia biruta de teatro;

* Rede de Mulheres Negras;

* CACISO – Gestão Marielle Franco.

* Associação Atlética Acadêmica Aruana – CISO

* Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) de Juazeiro

* União de Negras e Negros Pela Igualdade-UNEGRO Juazeiro Bahia

 

 

Via Grupo de Estudos – Kabecilê

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Crispim Terral volta à CAIXA após ser humilhado e agredido

De cabeça erguida, com lágrimas nos olhos e sob aplausos, Crispim Terral comparece a protesto popular realizado dentro da agência da Caixa onde foi humilhado e estrangulado

Crispim Terral (reprodução)

O empresário Crispim Terral, 34, compareceu nesta quarta-feira (27) a um protesto na agência da Caixa Econômica Federal onde foi humilhado por gerentes e estrangulado por policiais.

Crispim, que é proprietário de uma farmácia em Salinas da Margarida, no Recôncavo baiano, chegou ao local de cabeça erguida e foi recebido sob aplausos e aclamação. Ele estava visivelmente emocionado.

A manifestação foi organizada pelo movimento negro e ocorreu de maneira pacífica. Crispim estava acompanhado da esposa, Geni Pimentel Lima. A filha de 15 anos que presenciou e filmou toda a violência permanece abalada.

“Todo esse apoio que recebo fez eu me sentir abraçado. Me emocionei ao chegar aqui. Não tenho palavras para dizer no local onde fui excluído pela cor. Nunca senti isso. Ouvia só relatos sobre o racismo. Mas eu vivi esse momento e é muito doloroso”, disse Crispim.

Rafael Manga, um dos organizadores da manifestação, ressaltou a importância do protesto.“Muitas vezes dizem que o racismo é ‘mimimi’. Isso, que povo branco tenta colocar na nossa cabeça, está matando cada vez mais”, alertou.

“Tínhamos que fazer hoje. Essa é uma das agências mais populares da cidade que tem uma quantidade enorme de negros, nós somos a maioria. Não podemos aceitar esse racismo institucionalizado, viemos dizer à sociedade que Crispim não está sozinho. O racismo mata o nosso povo de várias formas”, completou Hamilton Oliveira, que também encabeçou a manifestação.

O professor e psicólogo Walter Takemoto, de 64 anos, afirmou que um gerente da Caixa, a princípio, pediu que os manifestantes não entrassem na agência. Mas, ao perceber que o grupo não cederia, liberou a entrada.

“Se tivessem impedido nossa entrada, a gente ia bloquear as entradas, seria pior. Então, o que fizemos foi entrar pacificamente e explicar aos clientes o porquê de estarmos ali, e que o que aconteceu com o Crispim foi, sim, racismo. Nosso objetivo foi mostrar o descaso com o qual administram a agência e a importância de discutir o racismo”, comentou Takemoto.

“Não tem nem 15 dias que vimos coisa parecida com Pedro Gonzaga, no Supermercado Extra. E eu penso que se Crispim fosse mais jovem, mais franzino, quem sabe não poderia ter acontecido coisa pior. O golpe foi o mesmo”, lembrou o professor.

O gerente e as algemas

Um dia depois das agressões contra Crispim Terral, a Caixa Econômica Federal anunciou o afastamento do gerente que humilhou que Crispim. No vídeo, o gerente diz frases como “não negocio com esse tipo de gente” e “eu só vou para a delegacia se ele [Crispim] for algemado”.

André Cruz, advogado de Crispim, falou à imprensa. “A gente vai buscar o enquadramento ou no crime de racismo ou de injúria racial. Precisamos responsabilizar os efetivos culpados pelos constrangimentos sofridos por Crispim”, disse.

Jerônimo Mesquita, presidente da Comissão dos Direitos Humanos da OAB-B, destacou o fato de que a exigência por algemas, por parte do gerente da Caixa, já indica um ato exagerado para a situação.

“Antes mesmo de chegar à violência, aquilo já é absurdo. Há uma súmula no Supremo Tribunal Federal (STF) que diz que o uso de algemas deve ser excepcional. A vítima apenas reivindica direitos, quer esclarecimentos”, ressaltou.

Jerônimo também comentou que o PM não poderia ter cedido ao pedido do gerente da loja, que exigiu a prisão do empresário. “Um servidor público tem o dever de se recusar a cumprir esse tipo de ordem, que chamamos de manifestamente ilegal, o policial tinha que ter se negado a cumprir. Crispim não oferecia risco à vida de ninguém ali”, concluiu.

O momento em que o empresário Crispim Terral chegou no ato de denúncia do caso de racismo que ele sofreu. A ação foi realizada na Agência da Caixa Econômica Federal, no Largo do Relógio de São Pedro, Centro de Salvador, nesta tarde.O empresário foi imobilizado por um policial quando tentava solicitar um comprovante de pagamento de dois cheques pagos pela Caixa. Imagens: Rosalvo Neto / Correio Nagô

Publicado por Mídia Ninja em Terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Crispim Terral

Durante dois meses, Crispim Terral vem mantendo contato com a agência da Caixa para receber o comprovante de pagamento de dois cheques — um no valor de R$1 mil e outro no de R$1.056. Ambos foram devolvidos pela agência, em novembro do ano passado, sob alegação de que não havia saldo na conta para compensá-los.

Crispim relata que a confusão começou após um dos gerentes do banco o deixar por quase cinco horas à espera de atendimento no último dia 19 de fevereiro. Já era a oitava vez que ele ia ao banco e não recebia atendimento adequado.

Crispim, que é pai de 5 filhos, estava acompanhado da filha de 15 anos. Depois de se recusar a ser algemado como exigiu o gerente, o empresário acabou recebendo um estrangulamento de um dos PMs.

O empresário foi conduzido pelos policiais em uma viatura à Central de Flagrantes e autuado por desobediência e resistência. Em seguida, ele procurou uma unidade de saúde onde recebeu atendimento por sentir fortes dores no maxilar, cabeça, pescoço e ombro esquerdo.

Ele prestou uma queixa contra os PMs na Corregedoria da Polícia Militar na quarta-feira (20). Segundo o relato do empresário, registrado na Corregedoria e disponibilizado por ele em uma rede social, os soldados Roque da Silva e Rafaeal Valverde Nolesco iniciaram as agressões físicas contra ele.

A íntegra do relato de Crispim Terral pode ser vista AQUI.

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Caixa afasta gerente acusado de racismo em agência de Salvador

Em comunicado divulgado hoje, banco afirmou que vai realizar um treinamento com toda a rede de atendimento para coibir discriminações

Foto Reprodução

Após a repercussão de um vídeo no qual o autônomo Crispim Terral afirmou ter sido vítima de racismo por parte de um gerente da Caixa Econômica Federal em Salvador, o banco informou, em nota divulgada hoje (27), que uma apuração foi aberta pela Corregedoria e o empregado foi afastado da agência.

Ainda segundo o comunicado, a Caixa vai realizar um treinamento específico com toda a rede de atendimento para reforçar sua Política de Relacionamento com Clientes. “A CAIXA prima pelo respeito à diversidade de raça, origem, etnia, gênero, cor, idade, classe social ou qualquer tipo de diferença entre as pessoas”, diz o texto.

Confira a íntegra da nota:

“A CAIXA repudia práticas e atitudes de discriminação cometidas contra qualquer pessoa. Sobre o ocorrido na agência Relógio de São Pedro, em Salvador, informamos que o banco abriu uma apuração pela Corregedoria e afastou o empregado da agência. A CAIXA vai realizar amanhã (28) um treinamento específico com toda sua rede de atendimento para reforçar sua Política de Relacionamento com Clientes.

Ressaltamos que as relações da CAIXA com seus clientes e usuários são orientadas pela ética, com respeito aos direitos humanos universais. A CAIXA prima pelo respeito à diversidade de raça, origem, etnia, gênero, cor, idade, classe social ou qualquer tipo de diferença entre as pessoas. Outra diretriz da Política é o atendimento com zelo, presteza e prontidão aos clientes e usuários, de forma justa e equitativa.”

Por Juliana Rodrigues

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Em 10 estados, atos contra o assassinato de jovem negro paralisam atividades do Extra

Ativistas mantêm boicote ao supermercado, que pertence à rede varejista Pão de Açúcar, segunda maior do Brasil

Para o Movimento Negro Unificado, os supermercados são focos de racismo estrutural / Luciana Araújo (MNU)

Em dez estados brasileiros, milhares de manifestantes foram às ruas no domingo (17) e na segunda-feira (18) em protesto contra a rede de supermercados Extra, do Grupo Pão de Açúcar (GPA), por conta do assassinato por estrangulamento do jovem Pedro Gonzaga, de 19 anos, em uma unidade da rede na Barra da Tijuca, área nobre do Rio de Janeiro (RJ), no último dia 14. O GPA é vice-líder do setor supermercadista no Brasil, que fatura o equivalente a 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Os cinco maiores grupos, entre eles o GPA, abocanham mais de 40% do faturamento do setor.

Os atos aconteceram em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Sergipe, Ceará, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Bahia, Goiás e Pernambuco. Em cada localidade, os manifestantes se concentraram em frente a uma unidade de supermercado Extra e atuaram para impedir o atendimento enquanto ocorria o protesto.

Gonzaga foi morto pelo segurança Davi Amâncio, por volta do meio-dia, diante da mãe que gritava alertando sobre o estrangulamento do filho. O segurança diz que o jovem tentou tirar a arma dele e, por isso, foi necessário imobilizá-lo. Imagens do assassinato divulgadas na internet não sustentam a versão do segurança. A polícia considera a hipótese de homicídio doloso, quando há a intenção de matar.

“Temos o histórico de que os corpos negros não merecem respeito, não merecem estar na sociedade nos lugares onde estão o povo branco e a elite. E é mais ou menos assim a orientação dada em todas as redes de mercados”, lamenta Regina Lúcia dos Santos, 64 anos, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), que existe desde 1978.

Em 2017, último dado disponibilizado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o setor faturou R$ 353,2 bilhões, um crescimento de 4,3% em relação aos R$ 338,7 bilhões de 2016. O GPA registrou faturamento de R$ 44,9 bilhões em 2016 e de R$ 48,4 bilhões em 2017.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 54,9% da população do país é negra ou parda. Ou seja, são cerca de 110 milhões de consumidores de supermercados, que mantêm em alta o faturamento do setor.

“A morte de Pedro Gonzaga é mais uma gota no caldo do genocídio da população negra no nosso país. Ela demonstra muito o que a nossa população vive cotidianamente quando entra numa loja, quando entra em um supermercado, quando ocupa territórios que, por conta do racismo estrutural, não seriam seus”, afirma Luka Franca, militante do MNU em São Paulo (SP).

O ator e escritor Oswaldo Faustino vê como positiva a adoção do boicote contra o Extra – como símbolo do boicote ao racismo estrutural.

“Resta-nos agora boicotar o Extra, o Pão de Açúcar, esse grupo que contrata uma empresa de segurança e não prepara e não abre o olhar desses profissionais para entendimento de suas

limitações enquanto atuação, que cumpram o seu dever que é garantir a nossa segurança. E a segurança deles, muitas vezes é a morte dos nossos”, analisa.

(Foto: Luciana Araújo)

O cineasta Thiago Fernandes, dono da produtora Toco Filmes, de Diadema, na região metropolitana de São Paulo, lançou em 2018 o filme “Eu Pareço Suspeito?, sobre a história do jovem negro Ulisses Araújo, que estava pagando boletos em uma casa lotérica quando testemunhou um assalto. Assim como os outros clientes, ele tentou procurar um abrigo, mas foi atingido pela polícia. O rapaz agonizou na calçada, sem socorro médico, porque foi confundido com um assaltante. Fernandes vê semelhanças com o caso de Gonzaga.

“Os olhos são voltados para nos acusar, para não ficarmos sossegados. Tem um sinal de alerta de que o negro vai roubar, de que o negro causa perigo. Nesses lugares não vemos negros. Onde estão os negros na chefia? Mesmo sendo consumidor, mesmo pagando impostos, mesmo tendo direito ao voto, não temos o direito de estar em determinados lugares sem sermos incomodados”, questiona.

A única resposta possível, segundo Fernandes, é “incomodar” também. “O Extra emitiu uma nota pedindo desculpas. Isso não basta. Quando o Movimento Negro e outras organizações populares pararam o mercado, mesmo que por alguns minutos, isso abala. Isso causa incomodo. Diminui o lucro deles, mexe no bolso dos caras”, interpreta o cineasta, que também faz parte da UneAfro, rede popular de cursinho pré-universitário, e da rede de proteção ao genocídio da população negra.

O Brasil de Fato entrou em contato com a Abras e com o Grupo Pão de Açúcar para repercutir os protestos contra o assassinato de Pedro Gonzaga.

Os questionamentos sobre a atuação dos seguranças e vigilantes não foram respondidos. O Extra enviou uma nota à reportagem ressaltando que “repudia toda forma de racismo”, “que não vai se eximir das responsabilidades” e que instaurou uma sindicância interna para apurar o caso. O texto acrescenta que o supermercado se solidariza com os familiares de Pedro Gonzaga neste “momento de perda e dor”.

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Mais de 200 mulheres buscam MP de Goiás para denunciar João de Deus por abuso sexual

Promotoria do Estado criou força-tarefa para o caso, que veio à tona com depoimento de 13 pessoas em programa da TV Globo

João de Deus, durante atendimento em 2012. PEDRO LADEIRA AFP

Mais de 200 mulheres buscam MP de Goiás para denunciar João de Deus por abuso sexual Oito semanas e 500 quilômetros, a distância percorrida entre um estupro e o atendimento médico correto

O Ministério Público de Goiás realizou, até o final da tarde desta terça-feira, 206 atendimentos a mulheres que se apresentam como vítimas do médium João Teixeira de Faria, 76, conhecido como João de Deus. De acordo com a procuradoria, a maioria das possíveis vítimas – 156, até o momento – fizeram contato por e-mail, um canal criado exclusivamente para essa finalidade. Elas se identificaram como sendo de Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, além de duas que residem no exterior: uma, nos Estados Unidos, e outra, na Suíça.

As vítimas estão sendo orientadas a procurarem o Ministério Público de seus Estados. Nesta terça, o MP de Minas Gerais informou ter feito dois atendimentos sobre o caso. Em Goiás, cinco promotores e estão à frente da investigação sobre as supostas ocorrências, reveladas pelo Programa do Bial, da TV Globo, na sexta-feira, quando ao menos 13 mulheres relataram terem sido vítimas de crimes sexuais promovidos pelo líder religioso. Para coletar depoimentos que possam surgir de fora de Goiás, Estado onde o médium vive e trabalha, o MP anunciou uma coordenação nacional entre os promotores de outros Estados.

Antes mesmo de um balanço ser divulgado, o promotor Luciano Miranda Meireles, coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal (CAO) do MP-GO, já havia sinalizado que as supostas vítimas não se restringiriam somente a Goiás. “Sabemos que há vítimas no país inteiro e fora do país”, afirmou durante entrevista coletiva na manhã de segunda-feira. “Não será necessário que elas venham até aqui. Elas podem prestar depoimento no Ministério Público local”.

Desde que as denúncias se tornaram públicas, na madrugada do sábado para o domingo na TV, a repercussão do caso só cresceu. O médium, que nega todas as acusações, se tornou famoso internacionalmente por tratar celebridades e políticos, como o ex-presidente Lula, e já foi entrevistado por Oprah Winfrey.

De acordo com os relatos feitos pelas mulheres ao programa, os casos ocorreram entre 2010 e fevereiro de 2018. “Sabemos que muitas vezes as vítimas que sofrem esse tipo de violência demoram um tempo até denunciar”, afirmou a procuradora Patrícia Otoni, coordenadora do CAO de Direitos Humanos do MP de Goiás, que também faz parte da força-tarefa. Ela classificou as acusações como “gravíssimas”. Para facilitar o processo de coleta das eventuais denúncias, foi criado um e-mail para receber os relatos: denuncias@mpgo.mp.br. A promotoria afirmou garantir o sigilo dos depoimentos, não expor a vítima e, se necessário, providenciar segurança para elas. “Sabemos da influência que a pessoa que está sendo denunciada possui na localidade. Talvez a vítima que more aqui tenha menos coragem de denunciar”, reconheceu a promotora.

Absolvido em 2012

Os cinco promotores à frente do caso também contarão com o apoio de duas psicólogas para dar suporte às eventuais vítimas. Meireles explicou que os depoimentos podem ser suficientes para uma eventual condenação, já que se trata de um crime que muitas vezes não encontra provas materiais. “É claro que não vamos encontrar vestígios do crime, nem lesão corporal, ou algum tipo de ferimento na mulher. Principalmente se já passou algum tempo”, diz. “Então, o depoimento da vítima em algumas situações pode sim ser o único meio a levar a uma condenação. E não há por que duvidar de uma mulher que venha até o Ministério Público, que corre o risco de se expor, a troco de nada”.

A promotoria explica que, a partir dos depoimentos, será possível definir os rumos do processo e as eventuais medidas cautelares a serem tomadas, como intimar o acusado a depor ou até mesmo interditar o templo do médium, mantido em Abadiânia (GO). “Se for verificado que aquele ambiente era um ambiente voltado para a prática do crime, a interdição do estabelecimento vai ser uma dinâmica necessária”, afirmou Meireles.

Ao portal G1, o advogado Alberto Toron, que defende o médium, afirmou que seu cliente nega as acusações “enfaticamente”, e que ele está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos. Toron também disse que o “padrão” de atendimento de João de Deus é em grupo e não individualmente, ao contrário do que as supostas vítimas apontaram nos relatos.

Caso um inquérito seja aberto, esse não será o primeiro envolvendo denúncias por abusos sexuais contra João de Deus. Em 2012, o médium chegou a ser denunciado por assédio sexual, mas foi absolvido na sequência, por falta de provas. Agora, se virar réu, ele pode responder por estupro, violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável.

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Entrevistas

O racismo da medicina no Brasil

A medicina brasileira tem um passado racista; erradica-lo ainda é um desafio imenso

Formandos em Medicina pela UFRJ em 2015: encontre um negro, se puder – Youtube

Eugenia era uma teoria muito na moda na virada do século 19 para o 20, que defendia a não miscigenação de raças, como solução para fortalece-las. Sua popularidade seguiu intensa até meados do século passado, quando os horrores praticados pelo nazismo e a descoberta do DNA – mostrando que o código genético de indivíduos não é determinado pela cor da pele – a levou ao ostracismo.

Antes disso, no entanto, ela era tão respeitada que ajudou a forjar a forma como a medicina brasileira foi estruturada. Pior: muitos de seus cacoetes racistas perduram até hoje. São comuns os casos de denúncias de preconceito racial envolvendo médicos. E essas ideias, lamentavelmente, costumam receber os futuros médicos logo que entram nas faculdades: são frequentes os episódios de trotes racistas em alunos recém ingressos nas instituições.

“A saúde foi a porta de entrada das teorias eugenistas no Brasil e se o racismo brasileiro tem uma certa forma, quem deu essa configuração foi o campo da saúde”, afirma a mestre em saúde pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP Mônica Gonçalves, autora da tese “Raça e saúde: concepções, antíteses e antinomia na atenção básica” sobre os impactos do preconceito no atendimento médico.

Tais teorias chegaram no Brasil em 1914, de acordo com a historiadora Lilia Schwarcz, e foram estudadas e aprimoradas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Por ali passaram Renato Kehl – posteriormente nomeado o pai da eugenia no Brasil – e o famoso Doutor Arnaldo (que virou nome de uma importante avenida em São Paulo), fundador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro da sociedade eugenista do estado.

O apoio dado por Doutor Arnaldo a teoria é simbólico e ilustra as raízes da ciência médica do país. Mônica Gonçalves, mestre em psicologia, conversou com CartaCapital sobre os impactos que o racismo e a desigualdade social tem na medicina no Brasil até hoje e afirma que não é possível “descolar a medicina do lugar histórico que ela ocupa”

CartaCapital: O que mais te marcou no resultado da pesquisa?

Mônica Gonçalves: Algumas coisas chamam bastante atenção.Uma é que as pessoas ainda entendem a raça como uma coisa biológica. As pessoas acreditam também que a raça influencia na medida em que pessoas negras e brancas vivem em condições sociais diferentes. Ao mesmo tempo, elas não deixam de acreditar que a raça é algo inerente e que as pessoas pretas tenham características “constitutivas”, biológicas, diferentes. Por exemplo, no trabalho, aparece a crença de que existe uma constituição arterial e óssea diferente entre brancos e negros, assim como diferenças genéticas que justifiquem diferentes incidências de doenças nesses grupos. E outra coisa que chama a atenção é que não há espaços de discussão na formação em saúde que permitam que esses profissionais pensem ou repensem a raça. Nessa lacuna, o repertório para atuar diante das pessoas negras é o senso comum, essa aprendizagem de todo dia, permeada por muitas noções racistas. É disso que os profissionais dispõem, já que a raça está sempre presente, não há como fugir. Mas não há uma contestação na formação dessas noções equivocadas sobre a raça, criadas pelo racismo.

CC: E como essas práticas racistas acontecem?

MG: Por exemplo, um homem negro ser entendido como ludibriador, “drogado”, sedutor. Ele não recebeu assistência porque acreditava-se que estava mentindo quanto a sua queixa. Se ninguém numa equipe de saúde for capaz de entender que sedutor, mentiroso, ludibriador, são significantes que estão acoplados ao homem negro a partir da invenção dos sistemas raciais, isso vai passar desapercebido, como se se tratasse desse sujeito, e não da ideia do que seja o grupo, do que sejam as pessoas negras como um todo.

CC: E por que você acha que o racismo persiste?

MG: A nossa sociedade é estruturada pelo racismo. A saúde é apenas mais um espaço, e o profissional da saúde é só um nessa cadeia. Ele pode operar pela cadeia ou não, e de modo geral eles operam. Além disso tem um tanto de desconhecimento também. E tem gente que é racista mesmo e pronto. Um dado importante do meu trabalho que o racismo opera de maneira insidiosa, sem se revelar explicitamente. Há sempre uma desculpa, um pretexto que justifica. Se as pessoas não forem capazes de ler isso, não serão capazes de decifrar que se trata de racismo, como no caso deste rapaz. Isso ajuda que o racismo persista, porque permite que ele continue silenciosamente, de um jeito sorrateiro.

CC: E como você enxerga o racismo na saúde?

MG: Os relatos dos profissionais que eu entrevistei mostram que o racismo acontece pela articulação das esferas estrutural, institucional e interpessoal. Essas pessoas pretas, por estarem longe geograficamente, já estariam excluídas. E quando entra, junto a isso, a ação direta de um profissional, os impactos são mesmo implacáveis. E essa ação não acontece pela discriminação direta e ativa. Acontece, principalmente, pela negligência e pela omissão. O racismo, as vezes, determina os destinos das pessoas em relação à morte ou vida. Mesmo quando as pessoas brancas e negras tem o mesmo quadro, as mesmas possibilidades de melhora, o racismo atuar e alterar as possibilidades de tratamento.

CC: Como essa diferença de tratamento acontece?

MG: O relato sobre esse jovem que, por exemplo, eu citei. Ele chega com uma queixa de insônia, e não é atendido por 5 anos. Depois desse tempo, ele se suicida. Trata-se de um homem negro, deprimido, com a queixa mais inicial de depressão. Ele busca ajuda, mas é sistematicamente barrado, por discursos muitas vezes contraditórios, mas sustentados pelo racismo. Um dado importante do meu trabalho é evidenciar que o racismo opera também em reverso, pela discriminação positiva, com a escolha de pessoas brancas a serem assistidas. Há um relato de um homem branco em situação de rua que, em cinco meses, está em recuperação de uma cirurgia de hérnia, cuja fila é de dois anos. O que justifica que ele passe a frente, quando há uma população de rua em torno de 80% negra esperando pelo mesmo atendimento? A médica que relata este caso conta que a equipe toda se mobilizou para atendê-lo, que o médico reservou a sala de cirurgia fora da espera. E ela afirma que ele teve a simpatia da equipe por ser branco também. É um caso que o racismo opera, mas pela via da branquitude, das alianças entre os brancos.

CC: O você acha que vai acontecer com a saúde no governo Bolsonaro?

MG: Eu não tenho nem palavras. É uma tragédia anunciada. A distância entre a população preta e a população branca vai aumentar ainda mais e nós vamos voltar a morrer de coisas que a gente não morria mais. É um governo de morte.

CC: Mas você acha que o Sistema Único de Saúde estava avançando nos últimos anos?

MG: Não. O SUS é um grande projeto. Ele pretende ser universal, atender a todos igualitariamente, conforma a necessidade de cada um. Isso não é pouca coisa, e, neste sentido, o grande avanço do SUS foi ter sido criado. E nós tivemos avanços, como a política de saúde mental, o tratamento de HIV, Aids e hepatite, por exemplo. Nós temos uma das melhores políticas de transplante do mundo. Mas são políticas que não funcionam sem investimento e o financiamento do SUS não aumentou. O SUS é sistemática e historicamente atacado pelo sub-financiamento, e não é possível sustentar uma política desta envergadura sem financiamento. Temos que fazer a defesa do SUS, mas não pode ser acrítica. É necessário também mudar o foco, que sempre esteve na atenção hospitalar, que é muito lucrativa porque tem muito equipamento, para a atenção primária, onde você precisa de gente, conhecimento e de transformação social. E é onde se resolvem a maior parte dos problemas de saúde da nossa população.

CC: E você acha que os profissionais brasileiros estão preparados para praticar uma medicina que precisa mais de gente do que de equipamentos?

MG: De modo geral, os profissionais de saúde não estão preparados pra isso. Alguns mais, como os de enfermagem. E os médicos estão entre os menos preparados, definitivamente. E o Mais Médicos só foi pensado por causa disso. Os médicos não só estão despreparados do ponto de vista da formação acadêmica e técnica, mas também da formação simbólica. A medicina ainda é uma profissão de elite e essas pessoas, assim como as instituições, têm na medicina um projeto de vida, não um projeto de estado. De modo geral, se faz medicina porque se quer ganhar dinheiro, status ou pertencer a um grupo. As instituições oferecem isso, e os sujeitos desejam isso. Não que elas não queiram ajudar as pessoas, mas não sem abrir mão desse precedente. A medicina e os médicos precisam fazer o enfrentamento de como essa profissão de constitui, historicamente. Sem isso, me parece impossível rever este lugar e atuar conforme as necessidades da nossa população.

CC: E qual é o papel das cotas na mudança do perfil do médico brasileiro?

MG: É muito importante, eu acredito muito nas cotas. A cotas mudaram radicalmente o perfil das universidades, colocaram os conflitos raciais em evidencia, fizeram o racista e seu discurso saírem do armário. E isso é bom, porque radicaliza o enfrentamento do racismo. Quem está na universidade sabe que o caráter da pesquisa mudou radicalmente. São as pessoas negras que estão, majoritariamente, produzindo sobre o racismo e as desigualdades. São temas que dialogam com os problemas da nossa população, mas que eram pouco contemplados e que ganham fôlego quando os pretos estão na universidade. Na medicina, um curso de elite, difícil de entrar e tão atravessado por um pensamento racista, elas são ainda mais importantes. Promover as cotas nos cursos de medicina é uma forma de combater o racismo na saúde lá na formação, na porta de entrada. Tem quem critique dizendo que as pessoas só são jogadas lá. É isso mesmo. Você joga as pessoas lá. A gente não foi jogado no navio negreiro? É isso. Agora a gente tá aqui e foi jogado na universidade. Bem melhor, entendeu?

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Notícias

Estudante que pregou morte a “negraiada” é suspenso do Mackenzie

O universitário também foi dispensado do estágio em um escritório de advocacia paulistano

O universitário ataca negros e “vermelhos”. Foto: Reprodução

Apoiador de Jair Bolsonaro, o estudante Pedro Belintani Baleotti decidiu expressar seus sentimentos e sua euforia em vídeos racistas e ameaçadores. O mais notório foi gravado no domingo 28, enquanto o universitário vestido com uma camiseta no qual se via uma imagem do candidato do PSL dirigia.

“Estou indo votar ao som de Zezé, armado com faca, pistola, o diabo, louco para ver um vadio, vagabundo com camiseta vermelha e já matar logo”.

Em outro ponto do vídeo, gravado na cidade de Londrina, interior do Paraná,  Baleotti filma dois negros em uma motocicleta e afirma: “Tá vendo essa negraiada? Vai morrer. Vai morrer. É capitão, caralho”.

As imagens viralizaram e revoltaram colegas da Universidade de Mackenzie, na qual o jovem cursa Direito. Centenas de estudantes protestaram na sede da faculdade e obrigaram a direção a se posicionar. Novas manifestações estavam programadas para a noite da terça 30.

Em nota, o reitor Benedito Aguiar Neto anunciou a suspensão do estudante por um período não informado. Embora tenha sido gravado “fora do ambiente da universidade”, afirma o texto, “o discurso incita a violência, com ameaças e manifestações racistas”.

Aguiar Neto acrescentou: “Tais opiniões e atitudes são veementemente repudiadas por nossa instituição que, de imediato, instaurou processo disciplinar, aplicando preventivamente a suspensão”.

Não bastasse, novos vídeos vieram à tona. Em um deles, sem camisa e com uma arma na mão, o universitário enaltece Bolsonaro. Segundo Baleotti, o “povo precisa” do presidente eleito.

O estudante também foi dispensado do estágio no escritório de advocacia DDSA, de São Paulo. Em nota, os sócios declararam que o escritório “repudia veementemente qualquer manifestação que viole direitos e garantias estabelecidos pela Constituição Federal”.

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Notícias

O racismo nosso de cada dia, por Gustavo Roberto Costa e Dina Alves

Mais de trezentos anos de escravidão. Trezentos anos de sofrimento, de humilhação, de agressões, de açoites e de mortes (nos navios, nas senzalas, nas casas grandes). De superioridade branca, de enriquecimento à custa da força negra, de um verdadeiro moinho de gastar gente (Darcy Ribeiro). De hierarquia social, do tratamento de seres humanos como animais, como objetos, como bens. De um passado que não passa. Trezentos anos que não se apagam.

Foto: Reprodução/GGN

A abolição fez com que o povo negro fosse jogado nas ruas, nos morros, nas favelas, malocas, cortiços e mucambos. Sem reparação, sem condição digna de vida, sem indenização – a única indenização da qual se falou foi a dos antigos senhores, que não poderiam ficar no prejuízo. Desde então, a criminalização do negro é e continua sendo implacável. Ainda antes de 1888, crime sujeito até mesmo à pena de morte era a fuga. Depois, crime gravíssimo era a capoeira. Posteriormente, o motivo da perseguição dos “poderes constituídos” aos negros era o samba. Hoje, a criminalização se dá basicamente em razão da “guerra às drogas” – cuja comercialização é considerada, assim como o foi a capoeira e o samba, um crime gravíssimo (familiar, não?).

Como herança, a naturalização da exclusão social, da segregação, da frequência nas piores escolas, da utilização de escassos serviços públicos, dos piores empregos e piores salários, de precárias condições de moradia, da perseguição e desconfiança em lojas e mercados, da abordagem policial constante, do encarceramento massivo e da morte. “E a fome, o cansaço, a sede… Ai! Quanto infeliz que cede, E cai p’ra não mais s’erguer!… Vaga um lugar na cadeia, Mas o chacal sobre a areia Acha um corpo que roer” (Navio Negreiro – Castro Alves).

Comparar afrodescendentes a animais, dizer que “o mais leve pesa sete arrobas”, que “não fazem nada” e não “servem nem para procriar”, referindo-se a remanescentes de comunidades quilombolas, não configura crime de “induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor ou etnia” (art. 20 da Lei n. 7.716/1989), mas apenas “grosseria”, “vulgaridade” e “infelicidade”; nada a ver com discurso de ódio, incitação ao racismo ou xenofobia. Trata-se do legítimo exercício da liberdade de expressão, segundo a 1ª Turma da nossa suprema corte (com iniciais minúsculas).

O ocorrido com a advogada Valéria Lucia dos Santos, detida durante uma audiência judicial, em Duque de Caxias (RJ), e a posterior decisão do Tribunal de Justiça carioca, segundo a qual não teria havido desvio de função ou abuso de autoridade por parte da juíza (leiga) que deu a ordem, revelam um diagnóstico da insidiosa persistência do racismo estrutural na administração da justiça no Brasil. A atitude de solicitar a força policial para algemar uma advogada no exercício das suas funções demonstra como os corpos das mulheres tem sido objeto do estado penal e locus da violência perpetrada pelas instituições de justiça. O fato é emblemático, na medida em que demonstra uma constelação de políticas, práticas e crenças no imaginário social que afetam as formas com as quais o sistema de justiça é gerenciado.

Às manifestações e homenagens emocionantes a favor da advogada nas ruas e redes sociais seguiu-se a perplexidade frente a uma decisão que relativizou a violência, e mais uma vez criminalizou a mulher negra e sua profissão. A lamentável decisão do tribunal do Rio de Janeiro revela como imagens sociais de “perturbadoras da ordem pública” são associadas a atributos raciais e de gênero. Algemar e arrastar uma mulher negra, ainda que advogada (no exercício de suas funções e portadora de prerrogativas legais), é algo absolutamente naturalizado, como o foram no passado os açoites e as perseguições.

A crescente participação de mulheres negras nas estatísticas prisionais, a hipervigilância policial nos territórios racializados, os altos índices de letalidade policial, a militarização das comunidades pobres e as torturas, tudo isso confirma e revela as sucessivas violências históricas contra os negros que, sem dúvidas, são as principais vítimas do gerenciamento punitivista da política de segurança pública.

Os negros continuam sendo os alvos preferenciais das agências de controle social. Valéria, Marielle e Janaína são, portanto, exemplos vivos e por excelência do regime de dominação racial presente tanto na sociedade como no sistema de justiça no Brasil.

Resistir, mais do que nunca, é preciso.

 

*Gustavo Roberto Costa – Promotor de Justiça em São Paulo. Membro fundador do Coletivo por um Ministério Público Transformador e da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia e membro do Movimento LEAP-Brasil – Agentes da Lei contra a Proibição.

Dina Alves – Advogada. Coordenadora do departamento de justiça e segurança pública do IBCCRIM. Feminista negra.

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Entrevistas

“O projeto Jair Bolsonaro é uma deformação ideológica”, diz Silvio Ameida

Para intelectual, o candidato à presidência pelo PSL cria divisões e separações, criando um mundo dividido pela cor da pele, pelo gênero, pela maneira de vivenciar a sexualidade.

(Foto: Divulgação/Faculdade 28 de Agosto)

“O projeto Jair Bolsonaro é uma deformação ideológica. Assim como o racismo e os racistas são resultados dessa mesma deformação.” Assim Silvio Almeida define a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República. Para o escritor, doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e professor universitário. Em entrevista à Fórum, Almeida explica por que não basta combater o candidato, mas o projeto que Bolsonaro e seus apoiadores estão sustentando. “Tudo isso vai servindo aos projetos de poder, dos mais variados, mas fundamentalmente serve à perpetuação das desigualdades que nós observamos na vida social contemporânea”, diz Almeida, que acaba de lançar a obra O que é racismo estrutural?, da coleção Feminismos Plurais (Editora Letramento).

Fórum – Qual sua avaliação sobre as afirmações do candidato Jair Bolsonaro: “Os portugueses nem pisavam na África, os próprios negros que entregavam os escravos” e “Que dívida histórica é essa que temos com os negros”?

Silvio Almeida – Para responder essa questão eu vou relembrar uma conversa que tive ontem mesmo (quinta-feira, 2) com o professor Luiz Felipe de Alencastro, que é um dos maiores historiadores do mundo, um dos maiores especialistas na questão da escravidão, da história econômica do Brasil colonial. E, ao comentar as declarações do Bolsonaro, ele falou uma coisa que eu achei muito curiosa: desconstruir algo dito com esse nível de ignorância, de desfaçatez e até de torpeza moral equivale a você emagrecer. É muito mais fácil engordar e muito mais difícil emagrecer. O que ele quis dizer com isso é que, ao mesmo tempo em que alguém faz uma afirmação dessa, muito fácil de fazer, é extremamente difícil, depois, conseguir desconstruir essa mesma afirmação. Isso porque se exige um nível de elaboração que a maioria das pessoas, sequer, tem tempo para ouvir. Então, é muito fácil você fazer esse tipo de afirmação sem conteúdo, imoral, esse tipo de afirmação sem qualquer tipo de fundamento histórico. Agora, a gente que se vire para tentar desconstruir. E é uma tarefa a qual a gente se entrega.

Como diz o Achille Mbembe (historiador e cientista político), a África só existe no imaginário dos racistas. Existe, sim, o continente africano e toda uma série de conflitos e contradições.

Fórum – Essas afirmações ganham mais gravidade na medida em que foram feitas por um candidato à presidência da República?

Silvio Almeida – Ainda em relação ao conteúdo da afirmação, eu acho que tem muita gente boa já falando sobre isso. A professora Lilia Schwarcz escreveu um artigo, recentemente, na Folha de S.Paulo a respeito do tema. Mas, só para a gente colocar os termos do debate, a afirmação dele de que os portugueses não pisaram na África é absurda. Os portugueses pisaram e muito na África. Tiveram colônias na África, colonizaram a África. Então, não é possível que eles não tenham pisado na África. E sobre a questão da escravidão, entre os povos africanos, a gente tem que pensar o seguinte: são povos, nações africanas, que tinham entre si inúmeros conflitos e contradições, tais como os europeus. Ou seja, me parece, por exemplo, que o nazi-fascismo, as guerras mundiais, foram conflitos entre europeus e, também, que envolveram os seus descendentes nos Estados Unidos. Ou seja, não existe uma África, a não ser dentro de um imaginário racista. Como diz o Achille Mbembe (historiador e cientista político), a África só existe no imaginário dos racistas. Existe, sim, o continente africano e toda uma série de conflitos e contradições. Agora, o que a gente tem que lembrar é que a escravidão, do ponto de vista econômico, na sua relação com o capitalismo, foi um empreendimento todo conectado ao sistema econômico e ao sistema político europeus.  Ou seja, havia um sistema escravista, que perdurou durante muito tempo, e que até os seus estertores, até seu limite, esteve em relação direta com o processo de industrialização, que ocorreu na Europa no século 19. Em resumo, a afirmação do candidato é de alguém que, não apenas não conhece nada sobre história, mas também não tem nenhum interesse em conhecer. É de uma ignorância à toda prova. E só merece ser discutida por um nível de desinformação que esse sujeito destila e, também, pela repercussão que tem por ser um candidato a presidente da República muito bem colocado nas pesquisas.

Fórum – Em sua avaliação, Bolsonaro realmente pensa isso, por ignorância, ou ele faz uma espécie de número para alcançar mais popularidade com o eleitorado?

Silvio Almeida – Quando você me pergunta se o candidato faz por ignorância ou se ele é uma espécie de “clown” tentando alcançar popularidade, eu acho que são as duas coisas. São reflexos do que a gente está vivendo hoje no mundo da política. Não estou comparando diretamente os dois, mas estou colocando como par de um mesmo fenômeno, que são Bolsonaro e Donald Trump. Ele não é Trump por uma série de razões. A máquina que coloca os dois na posição de políticos viáveis dentro do sistema funciona de maneira diferente. Mas ambos são parte do mesmo fenômeno, que é este momento em que a economia pós-fordista, a economia neoliberal, as políticas de austeridade, enfim, começam a entrar em crise. Ou seja, a reprodução do sistema capitalista, tal como se encontra hoje, está em crise já há algum tempo. O ano de 2008 foi o ápice disso e a única maneira de você manter o sistema funcionando, tal como ele funciona, é aplicar medidas de restrição, da distribuição econômica, medidas de austeridade, cortes de impostos para ricos, cortes de direitos sociais. Assim você vai manter a lucratividade de certos grupos. Só que não dá para você fazer isso no contexto de hoje, com verniz democrático multiculturalista. Você tem toda uma ideologia neoconservadora, que se conecta, também, com essas práticas que são típicas da economia. Por isso, muita gente está dizendo o seguinte: ‘O neoliberalismo, enquanto ideologia pautada no universalismo, na globalização, na existência de uma razão universal que a tudo e a todos conecta, está no fim’. O que a gente tem hoje é esse tipo de sistema reprodutivo da economia, que tem que ser gerido com violência, com restrição de democracia, de participação de grupos sociais, com encarceramento em massa. E são esses sujeitos que são porta-vozes disso. Mas não pense que isso é fruto apenas de ignorância. A ignorância desses indivíduos é colocada a esse patamar por conta de um projeto político ancorado em um projeto econômico. O que temos que combater não é o indivíduo, tão somente, mas o projeto que torna possível pessoas como ele, como aqueles que se declaram que não são políticos e que são gestores e coisas do gênero. Há que se combatê-los, mas há de se combater o projeto que eles estão sustentando.

Fórum – Bolsonaro já declarou várias vezes ser contra a política de cotas para negros. O senhor, como professor universitário, já observou que alunos negros, por conta de cortes de investimentos do governo Temer, estão deixando de frequentar os bancos universitários?

Silvio Almeida – A violência institucional, que é exigida para manter sob controle todos os desarranjos provocados pela crise econômica, exige, também, um ataque às minorias, um ataque à democracia, a projetos políticos democráticos ou à democratização do espaço de privilégios, como é o caso da política de cotas. Isso tudo vem ancorado no racismo. O racismo, que eu afirmo em alguns textos que escrevi, é uma tecnologia de poder, uma tecnologia de controle social, que sempre que for necessário será utilizada. De uma forma mais ou menos ostensiva, a depender do contexto. Então, o governo do Michel Temer e a ascensão de projetos políticos muito afinados com práticas fascistas são faces da mesma moeda ou, apenas, fenômenos que estão diretamente relacionados.

O racismo funciona como uma ideologia deformando e, ao mesmo tempo, conformando as nossas consciências a um mundo em que as pessoas são divididas pela cor da pele, pelo gênero, pela maneira de vivenciar a sexualidade.

Fórum – O senhor já disse que “racismo é político, porque, a depender do jogo de força, se constitui uns como negros, outros como brancos. Racismo é a lógica da confusão. Não é para explicar nada: é para confundir as pessoas, dividir as pessoas, fazer com que as pessoas adoeçam física e mentalmente. É para isso que serve o racismo”. O senhor vê relação entre essa ideia e a candidatura de Bolsonaro?

Silvio Almeida – O modo como o racismo cria divisões, separações, como ele obscurece a nossa possibilidade de ver as relações concretas que amparam as ideias explicativas do mundo tem relação com Bolsonaro. O projeto Jair Bolsonaro é uma deformação ideológica. Assim como o racismo e os racistas são resultados dessa mesma deformação. O racismo funciona como uma ideologia deformando e, ao mesmo tempo, conformando as nossas consciências a um mundo em que as pessoas são divididas pela cor da pele, pelo gênero, pela maneira de vivenciar a sexualidade. Tudo isso vai servindo aos projetos de poder, dos mais variados, mas fundamentalmente serve à perpetuação das desigualdades que nós observamos na vida social contemporânea.

Fórum – Ainda é impossível separar a questão racial com a luta de classes? Como se posiciona uma candidatura como a de Bolsonaro nesse cenário?

Silvio Almeida – Não é possível separar uma dimensão da outra. A pergunta raça ou classe é retórica, não visa uma resposta capaz de modificar a percepção e o entendimento de quem fez a pergunta, mas apenas levantar a possibilidade de uma discussão para quem já tem posições sobre isso. Porque do ponto de vista científico, filosófico, da teoria econômica, historicamente e logicamente sempre houve uma relação intrínseca entre os processos de racialização e a constituição das classes sociais. Sempre, desde os primórdios. A gente não tem como falar do capital e do domínio do capital na forma do capitalismo sem entender também que houve a criação da raça como elemento de controle social, rebaixamento da vida das pessoas. Nesse sentido, é só a gente ver a declaração dos empresários no momento em que havia uma certa dúvida sobre a viabilidade de um candidato que sustentasse as pautas neoliberais, as pautas de aprofundamento da crise ou da desigualdade no Brasil, o que interessa para algumas pessoas. Então, veja que alguns empresários não só aplaudiram, mas como consideraram, de fato, a hipótese de apoiar Jair Bolsonaro contra o “perigo” de um candidato de esquerda vir a ganhar a eleição. Temos que fazer toda essa conexão: a maneira como se desenvolve a luta de classes no Brasil, sua conexão com o restante do mundo. Temos que conectar tudo isso com os interesses que estão em jogo no Brasil, na luta institucional brasileira, o racismo, como algo que faz parte do panorama e de uma maneira muito específica da sociedade brasileira e a ascensão de um político como Jair Bolsonaro, que diversas vezes deu declarações racistas, preconceituosas e, mesmo assim, recebe apoio de parte, é bom destacar, do empresariado brasileiro.

 

Por Lucas Vasques

 

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