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Ibope: 73% dos brasileiros são contra liberação do porte de armas

Maioria da população também repudia discurso segundo o qual o armamento tornaria a sociedade mais segura

Discordância com decreto de Bolsonaro é maior na região Nordeste e entre as mulheres / Agência Brasil

Pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira (3) mostra que 73% da população brasileira é contra a liberação do porte de armas, bandeira de campanha do então candidato Jair Bolsonaro e um de seus primeiros atos como presidente.

Em janeiro deste ano, um decreto de Bolsonaro liberou o porte (uso da arma nas ruas) e facilitou as regras para a posse (uso dentro de casa). Este segundo ponto também é desaprovado por 61% dos entrevistados.

Apenas 26% são favoráveis ao porte e 37% à facilitação da posse. Foram ouvidas 2.002 pessoas de 143 cidades entre 16 e 19 de março.

A medida de Bolsonaro tem mais apoio na região sul (48%) e entre homens (50%). Na outra ponta, 66% do Nordeste são contrários, bem como 73% das mulheres.

Além disso, a maioria da população também discorda da assertiva segundo a qual o “aumento de pessoas armadas torna a sociedade mais segura”, repetida por Bolsonaro e seus seguidores.

 

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14 governadores pedem revogação do decreto de Bolsonaro que flexibiliza porte de armas

Para o grupo, o decreto que amplia o direito do cidadão à arma vai aumentar a violência no país.

Cerimônia de Assinatura do Decreto da Nova Regulamentação do Uso de Armas e Munições | Foto: Marcos Corrêa/PR

Governadores de 13 estados e do Distrito Federal divulgaram uma carta aberta se mostrando contrários ao decreto de armas, editado por Jair Bolsonaro no começo deste mês. Para o grupo, o decreto que amplia o direito do cidadão à arma vai aumentar a violência no país. O Ministério Público Federal, em Brasília, pediu a suspensão do decreto. Atualmente, existem três ações contra o decreto na Justiça Federal e três no Supremo Tribunal Federal (STF).

Leia a carta na íntegra:

Carta dos Governadores sobre o Decreto Presidencial n. 9.785 (07 de maio de 2019) e a Regulação Responsável de Armas e Munições no País

Como governadores de diferentes estados do país, manifestamos nossa preocupação com a flexibilização da atual legislação de controle de armas e munições em razão do decreto presidencial n. 9.785 (07 de maio de 2019) e solicitamos aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da União que atuem tanto para sua imediata revogação como para o avanço de uma efetiva política responsável de armas e munição no país.

Sabemos que a violência e a insegurança afetam grande parte da população de nossos estados e que representam um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento humano e econômico do Brasil. Nesse contexto, a grande disponibilidade de armas de fogo e munições que são usadas de maneira ilícita representa um enorme desafio para a segurança pública do país e é preciso enfrentá-lo.

Por essa razão, é urgente a implementação de ações que melhorem a rastreabilidade das armas de fogo e munições durante toda a sua existência, desde sua produção. Também é fundamental aumentar os meios de controle e fiscalização para coibir os desvios, enfrentar o tráfico ilícito e evitar que as armas que nascem na legalidade caiam na ilegalidade e sejam utilizadas no crime. Reconhecemos que essas não são soluções mágicas, mas são condições necessárias para a melhoria de nossa segurança pública.

Diante deste cenário, e a partir das evidências disponíveis, julgamos que as medidas previstas pelo decreto não contribuirão para tornar nossos estados mais seguros. Ao contrário, tais medidas terão um impacto negativo na violência – aumentando por exemplo, a quantidade de armas e munições que poderão abastecer criminosos – e aumentarão os riscos de que discussões e brigas entre nossos cidadãos acabem em tragédias.

As soluções para reverter o cenário de violência e insegurança no país serão fortalecidas com a coordenação de esforços da União, Estados e Municípios para fortalecer políticas públicas baseadas em evidências e para implementar o Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, fortalecendo a prevenção focalizada nas populações e territórios mais afetados pela violência e a repressão qualificada da criminalidade.

Reforçamos nosso compromisso com o diálogo e com a melhoria da segurança pública do país. Juntos, podemos construir um Brasil seguro para as atuais e futuras gerações.

 

IBANEIS ROCHA

Governador do Distrito Federal

FLÁVIO DINO

Governador do Estado do Maranhão

WELLINGTON DIAS

Governador do Estado do Piauí

PAULO CÂMARA

Governador do Estado de Pernambuco

CAMILO SANTANA

Governador do Estado do Ceará

JOÃO AZEVEDO

Governador do Estado da Paraíba

RENATO CASAGRANDE

Governador do Estado do Espírito Santo

RUI COSTA

Governador do Estado da Bahia

FÁTIMA BEZERRA

Governadora do Estado do Rio Grande do Norte

RENAN FILHO

Governador do Estado de Alagoas

BELIVALDO CHAGAS

Governador do Estado de Sergipe

WALDEZ GÓES

Governador do Estado do Amapá

MAURO CARLESSE

Governador do Estado do Tocantins

HELDER BARBALHO

Governador do Estado do Pará

Matérias

“Liberação do porte de armas é um tiro no pé”, aponta sociólogo

Para Daniel Misse, a relação que Bolsonaro faz entre mais armamento e segurança vai na contramão de diversas pesquisas

Foto: Reprodução.

Com o aumento dos índices de violência e homicídio no Brasil, a sociedade cobra medidas efetivas de reversão desse quadro alarmante, que já ultrapassa 62 mil pessoas assassinadas por ano, segundo o Atlas da Violência 2018. Com a aproximação do segundo turno, o eleitorado brasileiro tem até o dia 28 de outubro para conhecer melhor e mais profundamente os programas de governo dos candidatos à presidência da República para a área da segurança pública. “O Brasil Feliz De Novo”, com as propostas de Fernando Haddad (PT), e “O Caminho Da Prosperidade”, de Jair Bolsonaro (PSL), estão disponíveis para download na internet.

No plano de governo do PT, a intervenção militar no Rio de Janeiro é colocada como mau exemplo do desvirtuamento do papel do Exército – que foi levado a assumir a função das forças de segurança pública. Em contrapartida, assume que a atuação do Estado sobre o tema precisa ser aprimorada com articulações de políticas sociais de forma integrada, controle de armas e o Plano Nacional de Redução de Homicídios.

Do outro lado, as previsões de Bolsonaro aparecem em formato PowerPoint, com mapas pintados de vermelho em alusão a Estados governados por partidos como PT e PCdoB. Em seguida, o documento mostra países que aboliram o controle de armas de fogo como EUA, Inglaterra, Noruega e seus baixos níveis de homicídio sem considerar que eles possuem planos públicos de proteção social e combate à desigualdade. A correlação inversa é feita com países da América Latina.

Para Daniel Misse, Professor Adjunto do Departamento de Segurança Pública do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (InEAC) da Universidade Federal Fluminense (UFF) a relação estatística entre intenção de voto e regiões mais ou menos violentas do Brasil deve ser feita com muita cautela, visto que é uma interpretação feita a partir de uma pesquisa que não tem essa finalidade.

“Na verdade, se tem uma percepção de violência que é difusa, não tem como controlar as variáveis sem um estudo sério e específico sobre o tema e as sondagens eleitorais não servem para isso. Mesmo porque o grupo estudado é sempre pequeno, de dois mil eleitores espalhados normalmente em capitais. Não se tem uma visão do país todo”, explica.

Segundo o pesquisador, o problema dessa interpretação continua sendo em tentar relacionar a percepção da violência com o cenário político atual, no qual questões complexas vêm sendo tratadas de forma simplista com o apoio de setores conservadores da sociedade com o objetivo de reforçar uma polarização em relação a um adversário. “Esse tipo de interpretação não explicaria porque regiões muito violentas e pouco violentas dentro de uma mesma cidade acabam escolhendo o mesmo candidato”, complementa.

Na primeira pesquisa de intenção de voto no segundo turno do Instituto Datafolha, Bolsonaro mantém vantagem sobre Haddad, apesar da política de segurança do PSL pregar o armamento

irrestrito como solução para a crescente violência no país. Bolsonaro descreve em suas propostas de segurança que as armas são meros instrumentos, “objetos inertes que podem ser utilizadas para matar ou para salvar vidas. Isso depende de quem as está segurando: pessoas boas ou más”.

O professor Daniel Misse aponta que a relação entre mais armamentos e uma sociedade mais segura vai na contramão das muitas pesquisas de avaliação de impacto de políticas públicas sobre o desarmamento no Brasil e no mundo. A busca pela redução da violência passa não só pela restrição da venda, mas também pelo controle rígido das armas e munições, “reforçando o rastreamento por meio de marcações rigorosas e controle com entidades que possam ser responsabilizadas em caso de qualquer malfeito”, completa.

Violência e desigualdade social

O sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves chama atenção para o somatório de informações sem fundamento e sem aplicação de estudos claros no programa de governo de Jair Bolsonaro. “A primeira sensação é que você está diante de uma Fake News do tipo das várias que vem sendo divulgadas no Brasil ao longo desses últimos dias”, comenta.

“A violência aumentou porque as pessoas estão se matando em busca de alternativa de sobrevivência diante de um Estado que não lhes dá proteção alguma, e o candidato sequer cita isso. Na América Latina a desigualdade é um fosso brutal e as populações empobrecidas não tem acesso a políticas públicas nem formas de proteção frente à violência e a criminalidade. Os habitantes de países que liberaram as armas têm alternativas reais dentro da situação de desemprego e vulnerabilidade.”

José Cláudio ainda ressalta que há uma tendência desse pensamento de promover uma batalha de “todos contra todos” quando propõe em escala nacional o que já é uma realidade nas favelas militarizadas do Rio de Janeiro. “Se hoje a polícia já possui carta branca para matar a rodo como ocorre e sofre as consequências disso que é ser morto também, porque é disso que se trata: a polícia mais homicida e suicida do mundo. Ele [Bolsonaro] quer elevar isso a sua enésima potência numa escalada que é um banho de sangue”, conclui.

 

Via Brasil de Fato