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A Universidade Brasileira em Debate

A Universidade Brasileira. por Gênesis Naum*

Foto: Arquivo Gênesis Naum

Introdução as Primeiras Questões

Quando pensamos em Educação no Brasil logo somos transportados à legítima noção de que os saberes docentes refletem os pressupostos filosóficos que norteou todo o pensamento do Educador Paulo Freire rumo a tal almejada transformação da sociedade. Para entendê-la é preciso primeiro saber o que foi feito da formação dos educadores no período Pós–Ditadura Militar; que tipo de profissionais se formou quando a devassa do terror político abriu suas portas e arquivos para uma democracia tardia, quando os interesses já não eram transformar a nação nem consolidar nenhum estado de direito, mas outorgar as infrações e propinas antidemocráticas para afirmar a máxima que nos ponteia como um país colonizado. A ideia é terrível porque cria uma imagem surreal que diz que uma nação que nasce colonizada morre colonizada.

Nas discussões a respeito do futuro da universidade, seja no Brasil ou em países europeus que passam atualmente por grave crise financeira, é comum identificarmos uma estranha sensação no processo que beira a um profundo mal-estar provocado por ações pedagógicas que não se conecta com a realidade criando um intenso isolamento junto à sociedade2 O que há por trás dessa infinda falta de sintonia? Certamente temos aqui uma convergência de fatores que levam essa mesma sociedade a se sentir órfão, sendo que um desses fatores é, sem sombra de dúvida, a incapacidade de fazer a pesquisa produzida dialogar com as ansiedades e demandas da modernidade que se divulga nos meios de comunicação, ao tempo em que a marca principal que define hoje a universidade é sua posição, digamos, cômoda e defensiva diante das imposturas elaboradas pelo sistema capitalista que se renova, a cada dia, tecendo seus anelos para definir não só o modelo de mentalidade, mas a forma de consumo, seus derivados e suas equações.

O contexto expõe ainda, uma questão preponderante com relação ao ensino superior formal; é notório que ele tem se propagado numa sistematicidade bem confusa, pois não tem conseguido impor estratégias para organizar os saberes, por meio dos novos currículos, para enfrentar o cenário político que insiste em desqualificar a infraestrutura das universidades, deslocando, por sua vez, o seu papel social, pois a mesma tem se fechado de forma a cumprir objetivos previamente estabelecidos por profissionais do ensino, evidenciando que a atuação proposta para as salas de aula já não consegue dialogar nem impor um modelo de avaliação que reflita de forma prática os sintomas requerentes pela situação da política atual, ao tempo em que a mesma, também não sabe divulgar suas pesquisas nem analisar a concretude do seu isolamento social.

[1] Pesquisador da Universidade Estadual do Piauí – UESPI/ Coordenador do Núcleo de Estudos Foucaultiano.

[2] Ver DOSSIÊ: O conflito das universidades. [et al]. In: Revista Cult – São Paulo: Editora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 44-64.

Esse estado de coisas tende apenas a se agravar, ainda mais, quando se percebe quais transformações econômicas vão impactar diretamente a autonomia desses organismos de ensino, já bastante ameaçados. As palavras do renomado sociólogo Laymert Garcia dos Santos evidencia tais fatos: “A principal questão é a conjunção de neoliberalismo com sociedade da informação. Deve ficar bastante claro que essa articulação entre economia e tecnologias da informação não precisava ser fatal, como está ocorrendo. Esse contexto está de certa maneira aposentando a universidade, pois a produção de conhecimento não mais se dá fundamentalmente no âmbito universitário 3.”

Outra questão enfática é o visível descaso em formar indivíduos capazes de exercer o pensamento crítico. A sensação de segurança alcançado por meio da estabilidade profissional pode ser uma das causas para explicar algumas dessas questões. Que estabilidade é essa que se propaga como direito adquirido e não se projeta para consolidar os processos de ensino-aprendizagem, quando é visível que não há estabilidade emocional nem segurança para se trabalhar, estudar e vivenciar a universidade perante a tirania doutrinal de profissionais positivistas que na era da Pós-colonialidade demarcam territórios blindados, e atendem ao público com foro privilegiado. As perguntas que ficam no ar se acentuam sem respostas: Profissionais de quase todos os campos do saber se dobraram aos financiamentos das agências de fomento de pesquisa? Estas empresas por sua vez enquadram os saberes e atrelam o domínio pela pesquisa a instituições sem autonomia política para fazer o enfrentamento necessário através da formação crítica nas salas de aula? Os interesses estão sempre na ordem do dia!

Essa recorrência pode ser atribuída tanto à sua organicidade funcional de gestão, como a sua composição conflituosa, onde força e interesses demarcam a ressonância das tensões e expõe uma série de contradições. Nesse sentido, algumas especificidades sobre a crise atual não parecem destituídas de certo interesse do capital em querer desforrar a universidade para revelar para além dos seus inúmeros muros, uma realidade política que ficou velha e desgastada com o tempo, pois talvez outras grandes reflexões ajudem esclarecer os por quês de tanta ineficiência em participar das decisões propostas para o mundo contemporâneo.

Ao ser perguntado, em entrevista a Revista Cult, sobre a atual crise no ensino superior e sua adequação às exigências da acumulação de capital, o pesquisador Ricardo Musse traça um panorama histórico da crise universitária até chegar ao contexto atual: “Nos anos áureos do capitalismo de Estado, as ciências humanas ganharam uma inesperada sobrevida. É verdade que abdicaram, com raras exceções, da indagação acerca dos rumos civilizatórios, pauta obrigatória da tradição filosófica. Porém, com suas tensões e contradições, conseguiram se equilibrar entre a elaboração de técnicas de controle social e a crítica do mundo administrado, a construção de ideologias de identidade nacionais e a desconstrução do nacionalismo, a justificação da concentração do poder no Estado e a demanda por novos direitos sociais, tarefa facilitada pela disputa pela hegemonia cultural travada entre burguesia e proletariado, parceiros rivais do pacto que forjou o Estado do bem-estar social no centro do capitalismo. (…) As modificações nas três culturas, por sua vez, indicam que o conflito decisivo, o combate a ser travado não é mais entre razão cientifica, cultura literária e ciências humanas, mas sim entre esses saberes e a predominante lógica econômica que dita cada vez mais os rumos tanto da sociedade como da universidade 4.”

Uma infinidade de debatedores sobre os problemas do ensino superior na contemporaneidade é taxativa em dizer que a educação universitária vai de mal a pior porque os educadores, principalmente os das ciências humanas, já chegam da formação stricto sensu cansados, e, de certa forma, amargurados com o processo, frutos de uma universidade indolente, perseguidora, frustrada, carrasca, intolerante e quase totalmente improducente, onde pesquisa, ensino e extensão não dialogam entre si, e, são na verdade, um delírio utópico de poucos. Alguns, mais comprometidos com outros enleios, se excluem, cotidianamente, por falta de espaço em instâncias colegiadas; outros, por falta de compromisso mesmo, e, nisto a maioria dos estudantes e professores comprometidos ficam desgovernados diante da autoridade doutoral promovida pelo crescente grau de protecionismo do funcionalismo público.

Ante esses lampejos reflexivos, cabem algumas indagações: O que vem ocorrendo, de fato produz democracia ou é massificação de ideias isoladas? É evidente que na chamada sociedade da informação e do conhecimento o não entendimento do papel que esta sociedade exerce sobre os fins do capitalismo contemporâneo mascara o processo, deixando a questão muito fragmentada. O fato é que a universidade, cotidianamente, se mostra desarticulada da política –; não àquela que se faz panfletária, por meio de partidos políticos e suas associações, mas daquela que se mostra entumecida, que cria novas percepções para o que é definido para a realidade como abrangência do social –, e, aos poucos, vai sendo engolida pelo ultraconservadorismo que se alija há muito nos palanques da política nacional e impõe suas decisões, propondo-se na manutenção dos interesses da elite que, grosso modo, precisa de quem a salve da absoluta estupidez.

Enfim, a universidade tem se mostrada lenta para reagir à altura porque a própria formação tem sido colocada de forma fragmentada, e, portanto, lenta para entender aquilo que lhe afirma no campo das intervenções. O pesquisador Moacir Gadotti parte da premissa que toda universidade é essencialmente política, não necessariamente politizada. Isto é, “(…) toda universidade defende certos interesses, que numa sociedade de classes são os interesses da classe economicamente dominante. Em outras palavras: toda universidade é, no plano ideológico, o reflexo da política e da economia de uma sociedade dada 5.”

É este entendimento que norteará a investigação que esta sendo realizada acerca do papel da universidade frente aos enlaces que determinam o que é democratização ou o que se coloca como massificação, tendo em vista o importante trabalho desenvolvido pela universidade brasileira para gerir desenvolvimento e garantir progresso tecnológico e avanço científico, ao tempo em que é importante celebrar como as primeiras instituições de ensino superior elaboraram modelos de ensino e formação de professores com o fim específico de formar novos educadores preparados dentro do arcabouço social pelas normas pedagógicas e psicológicas para o magistério.

[3] SANTOS, Laymert Garcia dos. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 46. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa).

[4] MUSSE, Ricardo. “A Universidade de resultados”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 58.

[5] Nesta reflexão, feita pelo professor Moacir Gadotti no artigo “A Universidade Brasileira: Funções, Estrutura de Poder, Perspectivas”, ele tece uma série de observações pertinentes, mas insiste em defender a universidade, declarando ser fiel à tradição filosófica desta, sem deixar de refletir sobre os impasses recorrentes ao que vem sendo proposto pelo neoliberalismo como imposição a uma nova renovação do espírito do capitalismo. Para se contrapor a está primeira tese, ele anuncia uma antítese: “Entre a servidão da universidade à ordem classista e a rebelião contra essa ordem, abre-se na universidade um espaço de luta, de conflito entre essas tendências. Haverá sempre uma tendência dominante que acompanha a evolução da sociedade: o conflito da universidade reflete o conflito existente na sociedade. Esse conflito será tanto mais agudo quanto mais agudo e intenso for o processo de mudança social.”. Ver Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito. Moacir Gadott, 2005, p. 112.

Democratização ou Escolarização de Massa?

Desse modo, entende-se o processo histórico, no qual foi fundada a universidade brasileira, como um produto de sujeitos em ação e de sentidos em marcha, sendo uma das formas que tornaram públicos os desafios de se criar e interiorizar escolas nas distâncias dos sertões para se alcançar os mais distantes na luta pela prosperidade social.

No entanto, entende-se também que certas ambivalências situadas na pobreza da população, com a alarmante miséria mantida pelas estruturas sócio-políticas não escolhem marginalizar-se, por isso a universidade, com seus inúmeros pressupostos filosóficos, tem sido produzida principalmente pelos movimentos de singularidades que se estabeleceram pela racionalidade utilizada para elaborar a própria lógica da escolarização no tempo pedagógico.

Diante do exposto, os cientistas da educação são colocados frente a frente com os enredos históricos elaborados no Regime Militar. Afinal, foram vinte e um anos de ditadura e o cenário tardio dessas mudanças, na política, se impõe latente, numa democracia ultrajada pelo sistema político, onde a corrupção aflora em todos os meios, ficando várias perguntas que exigem respostas, a começar pela ideia de uma celebração ufanista vista nas ruas depois das últimas eleições presidenciais. Mas o que se tem a comemorar? O fim da neutralidade política com engajamento social e o surgimento de uma educação servil? Feita esta sucinta provocação, é hora de voltar ao problema inicial: Qual é a função real da universidade?

A resposta a esta questão vem do próprio Moacir Gadotti, que ressalta: “(…) Sua função real, como foi descrita acima, está permeada de ambiguidades: ela também faz parte da sociedade e como tal, no seu seio também se revelam as mesmas contradições existentes na sociedade (em menor proporção na universidade, pois nela já se operou uma ‘depuração’ social e nela, portanto, há maior homogeneidade do que na sociedade). (…) A universidade como um universo preservado, uma ilha de pureza, é uma ilusão. É isso, contudo, que a classe dominante nos quer fazer crer para poder utilizar a escola, a universidade a seu favor. A universidade faz parte do mundo, da sociedade, mesmo que queiram cada vez mais afastá-la, isolá-la, nos seus ‘campi’… A universidade fora da sociedade não existe. Por isso que existe uma unidade entre as lutas pedagógicas e as lutas sociais 6.”

A provocação do professor Moacir Gadotti nos remete a outra observação importante, visto que a universidade brasileira vai resistir a todos esses desmandos porque seu significado requer pensá-la como uma instituição formadora de conhecimento. A principal questão é a conjunção imposta pelo neoliberalismo à sociedade da informação. Esse contexto está de certa forma embrutecendo a universidade, ao aposentar as valentes vanguardas do ensino, e, realocá-las para um canto, onde, talvez a cantilena seja somente impulsionar uma retórica ideológica, sem efeito para a produção de novas realidades e de sujeitos capacitados para usar as armas da intervenção da realidade como ferramenta de produção de um conhecimento ordenado em rede. Por outro lado, tem-se verificado e analisado a invasão do capital privado no financiamento de pesquisas educacionais mostrando que a lógica do lucro já se sobressaiu à construção do pensamento crítico.

 O renomado intelectual Laymert Garcia dos Santos, professor da Unicamp e estudioso das múltiplas relações entre sociedade, educação, arte e meio ambiente, em entrevista ao mesmo Dossiê organizado pela Revista Cult para falar sobre o conflito das universidades adverte: “(…) O obstáculo está no outro lado, pois as empresas não têm interesse em desenvolver inovação. Por quê? Porque há o capital financeiro, que permite ganhar mais sem correr riscos. É muito mais interessante especular no mercado financeiro do que correr o risco de fazer inovação. A articulação universidade-empresa no Brasil é muito mais fantasmática do que efetiva, embora do ponto de vista do discurso seja completamente igual ao que acontece fora do país. Não podemos falar que a universidade está dominada pela força do mercado porque o mercado não se interessou por ela. (…) Com relação à permissividade da universidade pública permitir maior democratização sem perder a excelência do ensino acredito que a palavra democratização com relação à universidade está viciada. Afinal, todo mundo é a favor da democratização, mas seria preciso perguntar: Em que termos? Qual o sentido da democratização? Democratização do quê? Da degradação da universidade? Porque no fundo é isso que estão propondo. Eles propõem que vão democratizar, mas piora. É bom isso só porque é democratização? É um acesso demagógico e anacrônico, porque não corresponde às necessidades da sociedade. Há um descompasso enorme em relação ao problema de fato 7.”

Os críticos da educação superior bancária, têm mostrado que esse modelo proposto pelo capital, ao desarticular as ciências humanas para fomentar o ensino privado, é indulgente, e, muitas vezes, perverso e intolerante, pois de forma sintomática, amarra os professores-pesquisadores aos desmandos dessas instituições de fomento privado, que autorizam e desautorizam, quando querem, doutrinariamente, os futuros doutores, a se curvarem ao chamado lobby do terceiro setor, ao consumo e aos desejos de vigilância e punição quando sua autoridade institucional não reflete os interesses pretendidos, revelando a incompetência moral e institucional para fazer o trabalho docente gerir desenvolvimento 8.

Por outro lado, o advento do ensino à distância amplia o entrave que expõe o conflito entre a democratização e a massificação, tornando a educação um elemento interessante para se especular no mercado financeiro, porque esse modelo de educação nem promove inovação tecnológica, nem tão pouco é fator de tantos riscos. Pelo contrário, a injeção de capital público nessa proposta de ensino tem favorecido o capital privado. Nesse contexto, são perceptíveis que em função dos interesses privados, a universidade, ou uma parte dela, está dominada pela reprodutibilidade técnica da força do mercado; neste caso específico, seus professores passam a ser vistos como formadores de mão de obra, que ao serem “capacitados” passam a ocupar um lugar no pensamento terceiro mundista, e, tornam-se reféns da moral do caso, em um tempo, onde a democracia de democrática, só possui o termo 9.

As pesquisas apontam que as instituições particulares são responsáveis por setenta por cento das vagas oferecidas no ensino superior no Brasil. Essa máxima leva a outras perguntas de pesquisa que ainda podem ser feitas diante desse dado exposto: Qual o papel delas na formação de novos paradigmas profissionais? Qual é o nível de produção de conhecimento? Encontra-se em um mesmo patamar frente às universidades públicas?

[6] Ver Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito. Moacir Gadott, 2005, p. 114-115.

[7] Ver SANTOS, Laymert Garcia dos. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 47. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa).

[8] A chamada Lei de Inovação Tecnológica (Lei nº 10.973/95) é um exemplo dessa orientação política baseada em ajustes e contingenciamentos progressivos. “(…) Por meio dessa lei, o Estado brasileiro promoveu a criação e a consolidação de laços entre universidades, institutos tecnológicos e empresas, estimulando a participação de institutos de ciência e tecnologia no processo de inovação empresarial. Além disso, a Lei de Inovações criou todo um arcabouço jurídico capaz de viabilizar a incubação de empresas no espaço público ao estimular a utilização da infraestrutura pública para fins de desenvolvimento tecnológico privado. Em termos globais, essa lei coroou o processo pelo qual o poder da acumulação de capital sob o domínio das finanças e consequente pressão sobre o sistema nacional de produção e difusão de conhecimento científico aprofundaram a alienação das atividades acadêmicas. A instrumentalização do financiamento público da pesquisa científica pelos oligopólios domésticos e o deslocamento do controle estatal para o controle do mercado implicaram alterações significativas no nível, nos objetivos, nas prioridades e no horizonte de tempo dos investimentos relacionados à pesquisa.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 54/55.

[9] “(…) Empresas privadas canalizam seletivamente recursos para essas instituições obtendo como contrapartida direitos sobre os resultados de pesquisa. Fundações semiprivadas recebem esses recursos e os utilizam sem prestar contas de acordo com os critérios de transparência que regem a administração pública. Os correntes escândalos nos quais essas fundações se encontram envolvidas revelam uma pequena parte dos obscuros negócios dos quais tomam parte.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 54.

 

Os Desafios da Universidade Brasileira

As observações feitas apontam para outros desafios propostos para a universidade. Um deles, diz respeito ao crescente avanço do mecanismo privado autorizado pelo Estado para gerir a formação no âmbito particular; o outro diz respeito aos contingenciamentos de gastos públicos, utilizado como discurso para outorgar medidas de privatização e terceirização, desencadeando tanto o decadentismo como a censura institucional. Mas a universidade, como espaço de produção e orientação de conhecimento, onde o novo dá espaço para a excelência crítica, se defasou em sua conjuntura, e, em bloco, está se deteriorando do ponto de vista epistemológico e prático. A impressão que se tem é que no fluxo da temporalidade, a mesma perdeu força e, aos poucos, deixou de atuar nas mudanças sociohistóricas. Claro que nas universidades estatais a pesquisa fundamental conta com o apoio de verbas do Estado, pois do contrário, não haveria pesquisa em tempo integral. Porém a questão que se faz urgente diz respeito à forma como ela tem exercido seu papel frente aos dilemas encontrados na realidade, posto que as inúmeras dificuldades financeiras enfrentadas, com a frequente insuficiência em infraestrutura, têm gerado a precarização que tanto já fora denunciado pela comunidade científica 10

Ainda questionado sobre os problemas que envolvem as instituições privadas e a falta de democratização do acesso à universidade pública o professor Edgard de Assis Carvalho acrescenta: “A universidade brasileira é um produto tardio sem tradição consolidada. É bom jamais esquecer que a USP foi criada em 1935. Temos que levar também em conta que o golpe de 1964 ceifou a universidade no que ela tinha de mais relevante, tanto nas ciências da cultura quanto nas ciências da natureza. Essa dicotomia é perversa – natureza/cultura – impede até hoje a formação de especialistas policompetentes e de cidadãos imbuídos na necessidade de reformar a cultura, esse vasto acervo multimilenar criado pelo homem. Talvez por isso, as instituições privadas experimentaram um grande crescimento exponencial no período de 1964. Aprovadas sem critérios rígidos de excelência espalharam-se por todo o país, algumas delas já contam com participação majoritária de capital externo. Trata-se de uma distorção de proporções gigantescas. Para superá-las o Estado deve redirecionar sua política e incluir as particulares de qualidade comprovada num tipo de planejamento mais amplo de caráter democrático. Isso porque pensar os saberes no século 21 implica enfrentar as crises da escola, entrelaçar conhecimentos, aprender de outro modo. Precisamos ser contaminados pela lógica da audácia e não deixar que a lógica da convenção impeça a emergência da criatividade em todos os setores da universidade, seja ela estatal, comunitária ou privada 11.”

O cenário das políticas educacionais voltadas para o campo da cibernética vai aos poucos oficializando a descrença imposta a tudo e a todos, sempre permeada pela regulação oficial dos organismos estatais. No entanto, é preferível perceber a educação como o elo de transformação da realidade porque assim o desanimo não se disseminará, já que é chegado o tempo do fim das conquistas de direitos pela afirmação e pela regulamentação econômica, numa nação onde a Carta Magna impele liberdade, mas repele cidadania para todos. Nesse estado de coisas, onde ao cidadão comum é negado o direito de usufruir as benesses dos bens simbólicos, o sistema entra em colapso porque não há como saber como está se dando a transformação, entre a cultura e a tecnologia, sem a participação coletiva, e, como se pode utilizar essa democratização como referência para potencializar uma produção inovadora. 12

[10] Ver CARVALHO, Edgard. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 52. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa).

[11] O professor Laymert Garcia dos Santos sintetiza: “Quando se analisa na verdade o que é esse projeto de universidade virtual em São Paulo, nota-se como foi feito de maneira completamente estanque e burocratizada. Inclusive a própria visão da tecnologia é miserável porque a visão é instrumental, mas do pior ponto de vista, em seu nível mais baixo. Ou seja, vamos massificar mais. Usa-se a tecnologia para colocar um número elevado de pessoas nas universidades, para se dizer que há muita gente integrada ao sistema.”.  Ver SANTOS, Laymert Garcia dos. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 47. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa).      

[12] Ao ser perguntado sobre a avaliação da produção do conhecimento nas instituições privadas de ensino superior o professor Edgard Carvalho foi enfático: “As instituições privadas não podem ser colocadas no mesmo plano. Temos as comunitárias, como as PUC’s, que se destacam no cenário da ciência feita no país, temos os centros universitários que se dedicam apenas ao ensino e assim por diante. Temos também aquelas faculdades isoladas que formam para o imediato. A avaliação da produção é, portanto, assunto delicado. Poder-se-ia perguntar, por exemplo, quem avalia os avaliadores. Todos sabemos que comitês avaliativos, que julgam as particulares quando as estatais, são dominados pela fragmentação, mesmo que haja comitês denominados interdisciplinares. O problema da representação pode ser agregado a isso. As instituições privadas raramente são representadas nesses setores da tecnocracia estatal. Há produção de excelente qualidade por toda parte. É sempre prudente não generalizar de modo abusivo. Há estatais improdutivas, o Estado não é o único balizador do conhecimento científico, o capitalismo neoliberal não é o bode expiatório do descalabro instalado na universidade.”. Ver CARVALHO, Edgard. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 50-51. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa).

Nesse contexto, onde a educação é vista como a mão única para desregulamentar a experiência do atraso, outras questões poderiam ser feitas para elucidar o emaranhado de situações que envolvem a educação formal versus a educação privada e seus educadores: O que dizer de cientistas que trocam a obediência pública pela subserviência privada? O que dizer de professores que trabalham em regime de dedicação exclusiva no setor público, mas desvirtuam a finalidade de suas obrigações e recebem os “favores” do setor privado, quando deveriam produzir conhecimento na esfera pública? Existe a possibilidade de que, mesmo em face de certo descaso, a produção científica nas universidades siga na direção errada, pois a estrutura do sistema como um todo, tenciona para favorecer o ambiente privado, e, neste caso a educação básica ou superior passa a ser um produto da regulação econômica que deverá ser capitalizado. 13 Antes da promulgação da Lei Nº 10.973/95, 14 outra lei já tinha introduzido essa mentalidade de incorporação do público pelo privado. A Lei Bresser escrita pelo economista e cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira, já antes, havia introduzido esse modelo de organização social que mantinha não só a estrutura pública a serviço do elemento privado, como também eram utilizadas verbas públicas para a manutenção de tais propósitos econômicos.15

[13] Lei de Inovação Tecnológica (Lei nº 10.973/95).

[14] Ver SGUISSARDI, Valdemar. “O Desafio da Educação Superior no Brasil: Quais são as perspectivas”. In: Educação Superior: velhos e novos desafios. [et al]. – São Paulo: Xamã, 2000, p. 09-46.

[15] O professor Ricardo Musse esclarece: “A tensão é decorrente da imposição de uma lógica mercantil às atividades de ensino e pesquisa. Os critérios de eficácia quantitativa e monetariamente avaliada imperam no mercado. Esses critérios já mostraram mais de uma vez que podem servir para orientar a aquisição de fortunas, mas apresentam graves problemas quando se trata de avaliar bens intangíveis ou inquantificáveis, como o bem-estar, o prazer e a felicidade. São também inapropriados para orientar a produção do conhecimento e as atividades de pesquisa e ensino associadas a essa produção. (…) Empresas privadas canalizam seletivamente recursos para essas instituições obtendo como contrapartida direitos sobre os resultados de pesquisas. Fundações semiprivadas recebem esses recursos e os utilizam sem prestar contas de acordo com os critérios de transparência que regem a administração pública. Os correntes escândalos nos quais essas fundações se encontram envolvidas revelam uma pequena parte dos obscuros negócios dos quais tomam parte.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 54.

O ato conclusivo intui a todos detectar que tem faltado mais fiscalização do poder público, para conter, e, até exigir que certos setores da iniciativa privada deixem de pautar certos desmandos institucionais, deixando de fortalecer os poderes que são criados, paralelamente, entre o público e o privado, ao tempo em que esses setores forjam retóricas de qualidade educacional e institucional sem o ditame lógico do discurso público que autoriza uma dada instituição a pensar a sociedade e buscar transformá-la nos seus diversos tipos de atividades laborais. De quem é a culpa? Quem paga a conta? Quem salvará o povo brasileiro da exploração do capitalismo pelo capitalismo? Como fechar essa conta sem cortar direitos sociais conquistados historicamente? E a mais-valia, como interpretar esse conceito?

A Ditadura Militar destruiu, num primeiro momento, os anseios de muitos dos grandes pensadores da educação brasileira, tais como Florestan Fernandes, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e tantos outros, com o objetivo de produzir seu próprio biótipo de intelectual tecnocrata. No entanto, as ideias elaboradas por esses educadores não foram totalmente esquecidas e continuam fazendo a diferença quando o assunto é escolarização de massa ou escola pública de qualidade. Apesar de políticas públicas como as Cotas sociais e até mesmo o Reuni terem sido pensadas para dar uma cara nova ao que se pode chamar, num primeiro momento, de políticas de interiorização do ensino superior, muito ainda precisa ser feito para alavancar o processo de inclusão. O fato é que essas políticas públicas foram necessárias e até vitais para retroalimentar o espírito público do ensino superior.

O exposto conecta outras preocupações para o mesmo cenário imposto pelo Regime Militar, pois quem manda nos órgãos de fomento para a pesquisa são hoje os mesmos formadores de opinião que nasceram nas docas do referido regime, e, de alguma forma, ainda engendram políticas institucionais frias e sem nenhum alento social para ampliar o desenvolvimento, porque a questão é ter acesso a espaços onde o financiamento econômico fale mais alto podendo referendar toda a impotência de pesquisadores que escrevem apenas o que lhe mandam ou apenas aquilo que está na ordem dos acontecimentos, e, que reproduza a episteme da moda, ou o axioma paradigmático que o jogo dominante determina a todos, sem a responsabilidade política com causas maiores.

O negócio é rentável, porque ainda se usa as credenciais das universidades públicas para receber o aval do financiamento público por meio de projetos que atendem a uma finalidade engrandecedora: formar cartéis acadêmicos e propagar o poder de quem manda a quem se submete a obedecer. Ou seja, empresas privadas são criadas por entre os interesses da universidade com um único objetivo, fraudar ou negligenciar os interesses dos senhores da Ciência Moderna buscando lucratividade em curto prazo. 16 Esses são os efeitos causados pelas inovações nas ditas leis que regulam interesses e ampliam o fosso entre o correto universo das transformações e a legalização dos direitos sociais mais urgentes. Essas brechas deixadas pelos dispositivos legais de controle aperfeiçoam o poder da corrupção. É importante lembrar que a corrupção generaliza aquilo que concorre para desarticular a luta organizada da classe trabalhadora. Esse contexto de crises que passam pela a educação evidencia a enorme paralisia na qual se submete os intelectuais da educação, quando não conseguem mais responder ao chamado para a luta por mais cidadania, justiça e igualdade de oportunidades, e, mais dignidade para todos. A universidade brasileira está em crise 17 porque insiste em manter cartéis econômicos ligados a partidos políticos aparelhados por intelectuais desarticulados dos seus princípios básicos, que não sabem realmente o papel que tem diante dos fatos e dos acontecimentos do cotidiano. O resultado desses acordos políticos “desinteressados” em questões maiores é que teremos num futuro bem próximo uma massa deseducada e pouco esclarecida, que servirá de massa de manobra para atender aos instintos dos donos dos meios de produção, sem se ater aos direitos que tem no amplo papel que exercem na sociedade civil. O que dizer deste universo de coisas se não sabemos nem “podemos” nominá-los nem criticá-los. 18

Portanto, é justo pensar a universidade brasileira como o local que interage com o global e intervém para mudar os rumos dos acontecimentos. No entanto, não é justo pensá-la apenas como um órgão regulador de saberes e poderes. O Brasil ainda é o que outrora Paulo Freire pensava: um bolsão de miséria que não consegue falar de suas próprias mediações. Isto, porque, não consegue mediar nem suas próprias relações profissionais com respeito, quando é dever de todo cidadão ter acesso aos bens simbólicos para poder gozar do livre pensamento, pretendendo vir a compreender as consequências tardias dos ditames que engendram politicamente suas vidas através do conhecimento. 19

[16] “Atualmente, quer estejamos analisando laboratórios de empresas públicas voltadas para a inovação, quer estejamos estudando o processo de incubação de empresas tecnológicas financiadas por agências de fomento à pesquisa em universidades de excelência, encontraremos a mesma lógica produtivista que controla as corporações privadas regulando o trabalho científico e acadêmico por meio da aceleração dos ciclos, do estabelecimento de metas, da organização por ‘unidades de negócios’, da formação de equipes e da flexibilidade do trabalho intelectual. Isso sem falar na pressão quase ‘taylorista’ exercida sobre os pesquisadores para patentear novos processos e produtos ou publicar dezenas de artigos em revistas indexadas.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 55.

[17] “(…) Ao final de um certo período, contabiliza-se o total produzido: ou toneladas de carvão ou artigos publicados. No caso da ciência, os resultados obtidos poderão encher de satisfação a burocracia acadêmica, mas dizem muito pouco sobre o conhecimento realmente produzido no Brasil. A seleção dos destinatários dos recursos disponíveis segundo essa lógica mercantil e produtivista poderá condenar a produção científica feita no Brasil à irrelevância.”. Ibidem, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 55.

[18] “Enquanto prevalecer essa tensão no sistema superior de ensino e a pesquisa for produzida pela lógica mercantil finaceirizada e globalizada, a evidente crise da universidade não terá fim e o conto de duas universidades não chegará a seu desfecho. Para que a universidade brasileira reencontre o caminho que a torne relevante tanto em termos sociais quanto em termos científicos, ela precisa urgentemente se reconciliar com o conhecimento crítico, reflexivo e, por isso mesmo, insubmisso aos interesses mercantis. Caso contrário, estaremos condenados a simplesmente reproduzir as desigualdades que historicamente marcaram a universidade brasileira,”. Ibidem, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 55.

 

*Gênesis Naum de Farias – Pesquisador da Universidade Estadual do Piauí – UESPI/ Coordenador do Núcleo de Estudos Foucaultiano.

Referências BIBLIOGRAFICAS:

ARENDT, Hannah. A condição humana. – Rio de Janeiro: Fourense – Universitária, 2001.

BENTHAM, Jeremy. O Panóptico. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.

CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. – São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

DOSSIÊ: O conflito das universidades. [et al]. In: Revista Cult – São Paulo: Editora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 44-64.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Foucault e a Análise do Discurso em Educação. Cadernos de Pesquisa, N.º 114, p.197-223, novembro de 2001.

FOUCAULT, Michel, As Palavras e as Coisas: Uma arqueologia das ciências humanas / Michel Foucault; tradução Salma Tannus Muchail. – 8ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999. – (Coleção tópicos).

______. Vigiar e Punir: O Nascimento da Prisão. – Petrópolis: RJ: Vozes, 2014

______. O Enigma da Revolta – Entrevistas inéditas sobre a Revolução Iraniana. – São Paulo: Nº 01 edições, 2019.

GADOTTI, Moacir. “A Universidade Brasileira: Funções, Estrutura de Poder, Perspectivas”. In: Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito. – São Paulo: Cortez, 2005.

GUATTARI, Felix. As três ecologias; tradução Maria Cristina F.Bittencourt. – Campinas. São Paulo: Papirus, 1990.

LAKATOS, Eva Maria et al. Fundamentos da Metodologia Científica. – São Paulo: Atlas, 2010.

LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos: Ensaio de antropologia simétrica. – São Paulo: Editora 34, 2013.

SGUISSARDI, Valdemar. “O Desafio da Educação Superior no Brasil: Quais são as perspectivas”. In: Educação Superior: velhos e novos desafios. [et al]. – São Paulo: Xamã, 2000.

YOURCENAR, Marguerite. A Obra em Negro. – Rio de Janeiro: Editora Rio Gráfica Ltda, 1986, p. 332.

 

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Djamila Ribeiro escreve carta para Lula

“Saiba que você está em meus pensamentos e que a injustiça que se passa na carceragem da Polícia Federal de Curitiba é percebida por milhões aqui fora, sem contar internacionalmente, onde sua prisão é tida como um dos grandes absurdos políticos em curso.”, diz na carta, confira:

Estimado Presidente Lula,

Expresso nesta carta minha profunda solidariedade frente às injustas condenações e perseguições judiciais sofridas por você e sua família. Acompanho desde o início a farsa jurídica posta em curso para legitimar o antipetismo, a deterioração de empresas nacionais e a alteração no curso eleitoral brasileiro, farsa cada vez mais escancarada agora com o juiz como ministro da justiça do candidato favorecido pelo seu afastamento na disputa.

Não o conheço para além de um cumprimento uma única vez na quadra do Sindicato dos Bancários em São Paulo, em 2016, bem como, embora tenha sido Secretária Adjunta de Direitos Humanos na gestão de Fernando Haddad, não faço parte de partido político. Nem por isso, deixo de admirar as conquistas de seus mandatos para o país; pelo contrário, sou de família de trabalhadores que o apoiaram desde minha infância.

Meu pai, Joaquim Ribeiro dos Santos, estivador do porto de Santos, uma semana antes de falecer no hospital da cidade, folheava o jornal que trazia sua foto como Presidente da República. Havia acabado de acontecer aquele dia apoteótico em Brasília, que tanto encheu as pessoas de esperanças. Olhando a foto, com os olhos marejados, Seu Joaquim disse “vivi para ver um trabalhador ser Presidente”. Sua eleição foi um último presente antes da morte de meu pai.

Naquela época tinha 22 anos, mais à frente ia ser mãe, a vida me traria tantos outros desafios até que me vi com 27 anos e inquieta para fazer uma Faculdade e ter uma carreira diferente daquela que vivia como secretária numa empresa no Porto de Santos. Fui então ao vestibular e passei em Filosofia na Universidade Federal de São Paulo, no campus do Bairro dos Pimentas, criado durante sua gestão. Fui uma adolescente negra nos anos 90, sabia da falta de perspectiva que havia para pessoas como eu, e as mudanças promovidas pelo seu governo possibilitaram uma outra realidade para mim e para tantas pessoas. Saí em 2015, mestra em Filosofia Política, e desde então tenho me saído muito bem. Oportunidades mudam vidas.

Por isso, embora tenha ficado brava com você algumas vezes, não deixo jamais de reconhecer a importância do seu governo para pessoas do meu grupo social, sendo eu mesma um exemplo disso. Reverencio as mulheres negras que fizeram parte decisiva de políticas públicas para as pessoas negras, como a grande Luiza Bairros, Matilde Ribeiro, Nilma Lino Gomes, na certeza de que será apenas quando o campo progressista entender a pauta racial para além de um ministério que haverá maturidade suficiente para entender os novos tempos e o povo brasileiro.

Como feminista negra, me alio a Joice Berth, Juliana Borges, Carla Akotirene, as mais velhas e mais novas, uma legião de mulheres negras que pensam o mundo, a economia, as cidades, os esportes, a saúde, a educação e que estão em outro patamar de afirmação política, muito além da visão de gabinete de pessoas brancas que não aceitam a reconfiguração de espaço e de poder frente às mudanças estruturais da sociedade, graças, em boa parte, às políticas públicas formuladas pelo governo.

Convenhamos, senhor Presidente, há uma série de fatos que mostram o quanto o setor progressista tem que evoluir e coexistir com outros campos. Coexistir com pessoas negras que são independentes da tutela e aprovação de pessoas brancas, indomesticáveis, e que ditam o mundo a partir de suas experiências em comum e luz própria. Senhor presidente, é isso que o futuro pede. Uma política de drogas totalmente diferente da que foi feita nos anos de superlotação carcerária, uma representatividade real aliada à consciência crítica no Judiciário brasileiro, uma reformulação do pensamento colonizado da elite progressista do país. A disputa além da branquitude de esquerda e de direita produz mudanças radicais na sociedade brasileira, mas se percebe uma grande dificuldade em entender isso de fato, materialmente.

Espero trocar outras cartas, Presidente Lula. Saiba que você está em meus pensamentos e que a injustiça que se passa na carceragem da Polícia Federal de Curitiba é percebida por milhões aqui fora, sem contar internacionalmente, onde sua prisão é tida como um dos grandes absurdos políticos em curso. Tenho ido bastante ao exterior, e explicar o que se tornou o Brasil tem sido um grande desafio aos olhos incrédulos de quem já viu o porte deste país, quando as pessoas tinham orgulho e eram respeitadas por serem brasileiras. Era no seu governo e no de Dilma essa realidade.

Fique bem, fique em paz. Peço a Oxalá que tranquilize seu caminho.

Um abraço,

Djamila Ribeiro

http://midianinja.org

 

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A ética da solidariedade feminista

Se é preciso ouvir antes de falar, é também nosso dever falar com responsabilidade sobre as injustiças que assolam as mulheres e meninas. * Por Debora Diniz e Giselle Carino.

Jovens cruzam a fronteira da Venezuela em direção a Medellín, na Colômbia, em 28 de fevereiro. JOE RAEDLE GETTY IMAGES

Não há homem universal que represente as lutas de direitos humanos, assim como não há “mulher universal” para o feminismo. Quanto mais rica a nossa diversidade, maior a multiplicidade de identificações. É importante termos movimentos de mulheres rurais, deficientes, indígenas, negras, afro-latinas, migrantes, e tantos quantos forem necessários para representar formas de desamparo impostas pelas políticas da vida classistas, racistas e patriarcais. Em regiões de extrema desigualdade, como é o caso da América Latina e do Caribe, as vulnerabilidades das mulheres e das meninas se complexificam. Uma menina indígena em nomadismo involuntário pela crise humanitária na Venezuela carrega camadas de fragilidade existencial: da condição étnica à idade, da migração ao risco de violência.

Quem fala por essa menina? As organizações internacionais humanitárias ou as políticas governamentais do país que a acolhe? Sua comunidade indígena ou sua família? Nós começaríamos respondendo que ela deve ser a primeira a falar, caso seja capaz de expressar algumas de suas necessidades mais imediatas a serem protegidas. Nosso dever é ouvi-la, reconhecendo-a como o centro de nossos esforços de proteção. Mas há muito o que ela desconhece. Como uma menina desamparada, é uma sobrevivente —t alvez, sua vida tenha sido uma sequência de espoliação de direitos, fazendo-a ignorar o que seja uma vida digna. Somente ouvi-la é novamente abandoná-la. É preciso estar ao seu lado para falar junto com ela sobre o que é ser uma menina em nomadismo involuntário em crise humanitária, porém com direitos a serem garantidos.

Falar com essa menina, e não apenas por ela ou sobre ela, é o primeiro passo para a consolidação de uma solidariedade feminista. Mas não é suficiente. Desde que Gayatri Spivak lançou a pergunta “pode o subalterno falar?”, discussões sobre os rituais de fala de populações vulneráveis, em particular as mulheres, inundaram o feminismo acadêmico e os movimentos sociais. A expressão “lugar de fala”, comum ao feminismo latino-americano, é tanto um reclame de reconhecimento de vozes subalternizadas, como também um convite ao silêncio conivente das elites. Como nós, duas mulheres latinas originárias de países dentre os mais ricos da região, poderíamos falar de crise humanitária na Venezuela ou no Haiti? Nosso lugar de fala é ambíguo — não vivemos o nomadismo, o conhecemos porque decidimos ir ao encontro dessa menina e nomear como injusta sua situação de vida. Mas qual nossa autoridade para falar com ela e sobre ela?

Se é preciso ouvir antes de falar, é também nosso dever falar com responsabilidade sobre as injustiças que assolam as mulheres e meninas. O silêncio sobre as desigualdades e vulnerabilidades experimentadas por aquelas distantes de nós é cúmplice da desigualdade. Só quem vive a tranquilidade dos direitos protegidos ou dos privilégios herdados pode se confortar na apatia do silêncio. A autoridade da experiência ou da existência são formas de reconhecimento das narrativas políticas que importam às lutas pela igualdade, mas não são as únicas. As mulheres com deficiência devem ser ouvidas em políticas de saúde sobre seus corpos, devem ser parte dos movimentos de luta pela descriminalização do aborto, devem estar em igualdade de condições às mulheres sem deficiência em todas as esferas da vida. Isso não significa, no entanto, que mulheres sem deficiência devam se silenciar sobre as violações de direitos vividas pelas mulheres cegas ou surdas, por não compartilharem biografias semelhantes.

Nossos rituais de fala e de escuta precisam ser diversos. Só que a diversidade não é suficiente para a garantia da justiça. É possível compor rituais de fala que se adequem ao mandado da diversidade sem que se alterem os regimes de desigualdade em que vivem as mulheres. Este é o pêndulo que precisamos mover com delicadeza — ouvir antes de falar, reconhecer a anterioridade do vivido nos rituais de fala, e não permitir que a fórmula da representatividade como autoridade silencie quem se conforta nos privilégios. É a ética da solidariedade feminista o que nos aproxima dessa menina para ouvi-la, mas também para ajudá-la a entender que o desamparo não é um destino.

 

Debora Diniz é antropóloga brasileira e pesquisadora da Universidade de Brasília e Brown University

Giselle Carino é cientista política argentina, diretora da International Planned Parenthood Federation/Western Hemisphere

https://brasil.elpais.com

 

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A violência vai crescer na classe média

“Nas periferias, tanto fez como faz se passarmos de 63 para 100 mil mortes por armas de fogo ao ano. Mortes de pobres e pretos não contam”. *Por Roberto Malvezzi (Gogó)

Roberto Malvezzi “Gogó”

Reza a lenda policial que um menino de 13 anos, filho de um casal de policiais militares de São Paulo, pegou a arma do pai, matou o pai, a mãe, a avó, uma tia e no dia seguinte foi à escola. Quando voltou para casa, cometeu suicídio. É o caso da família Pesseghini. No dizer de Onix Lorenzoni, ele literalmente “liquidou” sua família.

Mais armas vão trazer mais violência para a classe média, assim como nos Estados Unidos. Vamos ter mais acidentes e assassinatos dentro de casa, mais chacinas em shoppings, cinemas, escolas, shows, enfim, lugares públicos frequentados pela classe média.

Crentes e devotos, vai aumentar também a violência nas igrejas, como já aconteceu na Catedral de Campinas. No meio de mil, basta uma pessoa armada e com desejos de matar.

Nas periferias, tanto fez como faz se passarmos de 63 para 100 mil mortes por armas de fogo ao ano. Mortes de pobres e pretos não contam.

Vários irmãos e irmãs de Pastoral da Terra tiveram suas vidas podadas por arma de fogo: Padre Josimo, Irmã Dorothy, Padre Ezequiel Ramin, Irmã Adelaide Molinari, tantos outros e outras. Eles não tinham armas, sabiam do risco de vida que corriam, morreram mesmo não querendo morrer.

Dizem os amigos do Pará que, quando os assassinos de Dorothy a encontraram nas estradas da floresta, lhe perguntaram: “que arma você tem na bolsa?” Ela respondeu, abrindo a bolsa e tirando uma bíblia: “minha arma é essa”. Seguiu viagem e levou seis tiros pelas costas.

José Rodrigues, bispo aqui em Juazeiro da Bahia e já falecido, muito perseguido, teve oferta da polícia para uma equipe de segurança. Ele respondeu: “prefiro levar um tiro que andar preso por uma equipe de segurança”.

Entrar para o time dos pacifistas ou violentos é também uma escolha.

 

OBS: Nabhan, Secretário de Assuntos Fundiários do atual governo, já avisou que vai sobrar também para a CPT e o CIMI.

 

Por Roberto Malvezzi (Gogó)

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O Evangelho Segundo o Poder

“Conhecereis a verdade e ela os libertará” (Jo. 8,32)
Esse é o Evangelho do Poder atual no Brasil. Mas essa é uma frase sacada de um contexto e sozinha ela não faz sentido algum, ao contrário, pode ser manipulada para defender os interesses mais escusos do coração humano. É interessante ler todo o capítulo oito, o contexto no qual Jesus a cita. Um bom entendedor saberá discernir o que Jesus quis dizer.* Por Roberto Malvezzi (Gogó).

Foto: Reprodução

“Conhecereis a verdade e ela os libertará” (Jo. 8,32)

Esse é o Evangelho do Poder atual no Brasil. Mas essa é uma frase sacada de um contexto e sozinha ela não faz sentido algum, ao contrário, pode ser manipulada para defender os interesses mais escusos do coração humano. É interessante ler todo o capítulo oito, o contexto no qual Jesus a cita. Um bom entendedor saberá discernir o que Jesus quis dizer.

1 Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras.

2 Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo.

3 Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos

4 e disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério.

5 Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz?

6 Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo.

7 Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”.

8 Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão.

9 Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando pelos mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele.

10 Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”

11 “Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”.

12 Falando novamente ao povo, Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida”.

13 Os fariseus lhe disseram: “Você está testemunhando a respeito de si próprio. O seu testemunho não é válido!”

14 Respondeu Jesus: Ainda que eu mesmo testemunhe em meu favor, o meu testemunho é válido, pois sei de onde vim e para onde vou. Mas vocês não sabem de onde vim nem para onde vou.

15 Vocês julgam por padrões humanos; eu não julgo ninguém.

16 Mesmo que eu julgue, as minhas decisões são verdadeiras, porque não estou sozinho. Eu estou com o Pai, que me enviou.

17 Na Lei de vocês está escrito que o testemunho de dois homens é válido. [46]

18 Eu testemunho acerca de mim mesmo; a minha outra testemunha é o Pai, que me enviou.

19 Então lhe perguntaram: “Onde está o seu pai?” Respondeu Jesus: “Vocês não conhecem nem a mim nem a meu Pai. Se me conhecessem, também conheceriam a meu Pai”.

20 Ele proferiu essas palavras enquanto ensinava no templo, perto do lugar onde se colocavam as ofertas[47]. No entanto, ninguém o prendeu, porque a sua hora ainda não havia chegado.

21 Mais uma vez, Jesus lhes disse: “Eu vou embora, e vocês procurarão por mim, e morrerão em seus pecados. Para onde vou, vocês não podem ir”.

22 Isso levou os judeus a perguntarem: “Será que ele irá matar-se? Será por isso que ele diz: “Para onde vou, vocês não podem ir”?”

23 Mas ele continuou: Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo.

24 Eu lhes disse que vocês morrerão em seus pecados. Se vocês não crerem que Eu Sou[48], de fato morrerão em seus pecados.

25 “Quem é você?”, perguntaram eles. “Exatamente o que tenho dito o tempo todo”, respondeu Jesus.

26 “Tenho muitas coisas para dizer e julgar a respeito de vocês. Pois aquele que me enviou merece confiança, e digo ao mundo aquilo que dele ouvi.”

27 Eles não entenderam que lhes estava falando a respeito do Pai.

28 Então Jesus disse: Quando vocês levantarem o Filho do homem, saberão que Eu Sou, e que nada faço de mim mesmo, mas falo exatamente o que o Pai me ensinou.

29 Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, pois sempre faço o que lhe agrada.

30 Tendo dito essas coisas, muitos creram nele.

31 Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos.

32 E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará.

33 Eles lhe responderam: “Somos descendentes[49] de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. Como você pode dizer que seremos livres?”

34 Jesus respondeu: Digo-lhes a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado.

35 O escravo não tem lugar permanente na família, mas o filho pertence a ela para sempre.

36 Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres.

37 Eu sei que vocês são descendentes de Abraão. Contudo, estão procurando matar-me, porque em vocês não há lugar para a minha palavra.

38 Eu lhes estou dizendo o que vi na presença do Pai, e vocês fazem o que ouviram do pai de vocês[50].

39 “Abraão é o nosso pai”, responderam eles. Disse Jesus: “Se vocês fossem filhos de Abraão, fariam[51] as obras que Abraão fez.

40 Mas vocês estão procurando matar-me, sendo que eu lhes falei a verdade que ouvi de Deus; Abraão não agiu assim.

41 Vocês estão fazendo as obras do pai de vocês”. Protestaram eles: “Nós não somos filhos ilegítimos[52]. O único Pai que temos é Deus”.

42 Disse-lhes Jesus: Se Deus fosse o Pai de vocês, vocês me amariam, pois eu vim de Deus e agora estou aqui. Eu não vim por mim mesmo, mas ele me enviou.

43 Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo.

44 Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.

45 No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade!

46 Qual de vocês pode me acusar de algum pecado? Se estou falando a verdade, porque vocês não crêem em mim?

47 Aquele que pertence a Deus ouve o que Deus diz. Vocês não o ouvem porque não pertencem a Deus.

http://robertomalvezzi.com.br

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Casei com uma feminista

(…)enquanto a ideologia patriarcal persistir, quanto maiores forem as conquistas coletivas do movimento feminista e mais significativas as conquistas pessoais de cada mulher (e no caso das mulheres negras, isso fica ainda mais evidente), maior será o ódio direcionado a elas. *Por Rubens Casara.

Para Marcia Tiburi, com amor.

Para Lili, Schuma, Vilma e todas as que lutam

Performance de Marina Abramovic e Ulay, “Relação no tempo”, em 1977 (Reprodução/ Arte Revista CULT)

Comunismo e feminismo: o demônio reside na ignorância

Em 1998, o escritor Philip Roth publicou o livro Casei com um comunista, no qual aborda os traumas do pós-guerra, a paranoia anticomunista, o fenômeno do macarthismo e as perseguições político-ideológicas que destruíam o laço social e a perspectiva de mudança radical na sociedade norte-americana. No romance, um célebre ator de rádio (Ira), de origem humilde e defensor de causas progressistas, passa a ser perseguido em razão das suas opções político-ideológicas a partir de um livro intitulado Casei com um comunista, escrito pela atriz de cinema mudo e antissemita com quem se casou (Eve). Trata-se de uma história sobre traição, crueldade e vingança, mas, sobretudo, sobre o medo da liberdade, do pensamento e da diferença.

Ainda hoje, há quem explore os preconceitos, a ignorância e o medo ligados ao significante “comunismo”. Demonizou-se o comum, demonizaram-se pessoas. Ainda hoje, homens e mulheres são atacados por serem etiquetados de “comunistas”. A paranoia anticomunista permite que pessoas maliciosas criem e apontem inimigos imaginários para pessoas ignorantes que se deixam contaminar pelo ódio, afeto que tem inegavelmente funcionalidade política. Não é difícil perceber que o ódio contra a “esquerda” e os “esquerdistas”, reais ou imaginários, incentivado em um país profundamente desigual como o Brasil, atende aos interesses daqueles que querem manter a desigualdade.

Com relação ao feminismo, não é muito diferente. O ódio que a palavra desperta está intimamente ligado a um sistema de privilégios que resiste e à posição daqueles que não querem ver esse estado de opressões, que se dão nos registros do real (naquilo que não encontra palavras), do simbólico (da linguagem) e do imaginário (da imagem que se tem do mundo), desaparecer. No que diz respeito ao medo que gera, à demonização de seus militantes, à ignorância sobre a causa, às certezas delirantes de seus opositores e ao preconceito, não há muita diferença entre o comunismo e o feminismo. Compreendi isso ao casar com uma feminista.

Feminismo, informação e transformação

Não era alienado ao ponto de deixar de perceber as diferenças de tratamento entre homens e mulheres. Sabia que o feminismo era a politização contra uma forma de opressão que alguns chamavam de dominação masculina. Mas isso era muito pouco, e eu não reconhecia a minha ignorância sobre o feminismo, com suas variações, teorias e práticas.

Ao conviver com Marcia e suas amigas feministas passei a compreender melhor os jogos de poder cunhados no ambiente patriarcal. Com as leituras que elas me estimularam a fazer, percebi que “mulher” (e o mesmo acontece com “negro”) é uma heteromarcação que o homem branco inventou para etiquetar seres, fabricar diferenças e justificar tratamentos diferenciados, diversas formas de opressão e a objetificação/mercantilização desses corpos.

Ao compreender o que para a Marcia significa ser feminista, para além da ideia de que ser “mulher” é o resultado de um processo de construção, como já dizia Simone de Beauvoir, me dei conta de que não havia casado com uma mulher, mas com uma feminista. Ela nunca se conformou em ocupar o espaço historicamente reservado às mulheres. E isso me encantou. Não seria capaz de admirar uma pessoa que aceita posições subalternas ou finge acreditar em uma falsa igualdade que, em concreto, não existe. Graças a ela, abandonei visões essencialistas ou leituras simplistas e mistificadas sobre o gênero e o sexo.

Em casa, aprendi com Marcia sobre a política da escuta. As mulheres, pelo menos as que perceberam a necessidade de politizar a questão de gênero, ensinam que é preciso saber ouvir, em especial aquelas que normalmente são silenciadas. Correlato ao direito de falar, apreendi que há o poder-dever de ouvir. Ao levar o homem a descobrir que é impossível falar por ou como fala aquela que sente na pele a opressão (e o feminismo negro fala do local de quem sente dupla opressão – daí a importância da expressão “dororidade” cunhada por Vilma Piedade), o feminismo produz uma saudável ferida narcísica e ajuda a desconstruir o “eu idealizado”, culturalmente pensado no ocidente como “branco” e “heteronormativo”.

Com as feministas também se aprende que não há hierarquia de opressão. Mais do que isso. Aprende-se a importância da “interseccionalidade”, termo cunhado para dar conta de que as pessoas, e em especial as pessoas marcadas como “mulheres”, experimentam a opressão em diversas configurações e em diferentes graus de intensidade, por diversos motivos. O feminismo é (ou, pelo menos, deveria ser) radicalmente contra qualquer forma de opressão.

A partir da ético-poética feminista, que leva à preocupação com todas as formas de opressão enquanto quer construir um mundo melhor, passei a perceber o potencial altamente revolucionário daquilo que antes eu reduzia a uma mera luta por questões “das mulheres”. O feminismo está vocacionado a atingir a todos, todas e todes (na medida em que a sociedade necessita de um “feminismo em comum”, ou seja, capaz de modificar a sociedade, homens, mulheres e aqueles que se libertaram da necessidade de se identificar necessariamente como “mulher” e “homem”), e isso porque a tradição patriarcal efetivamente torna a todos piores, homens ou mulheres que pensam e agem no mundo da vida a partir da pré-compreensão e do repertório cultural cunhados no contexto patriarcal.

Pensamento autoritário vs feminismo

Nos últimos tempos, marcados pelo crescimento do pensamento conservador, entre homens e entre mulheres, o feminismo de Marcia e de suas companheiras me permitiu perceber com mais clareza o caráter funcional do machismo e a criação da mulher, em particular da “mulher empoderada”, como uma inimiga/concorrente a ser destruída. O machismo, como toda forma de preconceito e opressão, sempre cresce em momentos de ignorância, confusão e mistificação como este em que estamos lançados.

A necessidade de etiquetar “mulheres” como “incompetentes”, “burras”, “loucas” ou “histéricas”, para além da evidente funcionalidade política de conter tanto o surgimento de novas potências políticas quanto a construção de uma nova sociedade mais igual, também se explica pelo medo e a incapacidade de reflexão daqueles que se acostumaram a pensar através de estereótipos, chavões argumentativos e de fórmulas mágicas para todos os problemas da sociedade (o que, em certos casos, ajuda a explicar algumas soluções simplistas para os graves problemas de desigualdade e os discursos que colocam a culpa na vítima pelas agressões sexuais protagonizadas por homens)  e pelo ressentimento de mulheres que, lançadas na tradição patriarcal, internalizaram o ideal que lhes reserva o sistema de dominação: na melhor das hipótese, a condição de “bela, recatada e do lar”.

Também não pode ser desconsiderado o sentimento de “usurpação” daqueles que, cada vez mais impotentes, querem preservar o único “privilégio” que lhes resta: o de serem homens. Homens impotentes, ao longo da história, disfarçaram essa impotência, e o correlato medo do sujeito-político “mulher”, com a agressividade machista ou com a versão cínica dessa agressividade (o que chamam de “brincadeiras de homens”).

Ao olhar com mais atenção às agressões dirigidas contra as mulheres, e as direcionadas à Marcia em particular, ficou claro para mim que, enquanto a ideologia patriarcal persistir, quanto maiores forem as conquistas coletivas do movimento feminista e mais significativas as conquistas pessoais de cada mulher (e no caso das mulheres negras, isso fica ainda mais evidente), maior será o ódio direcionado a elas.

Ódio que parte tanto de homens quanto de mulheres (impressionante, para o olhar estrangeiro de um homem, que mulheres gastem mais tempo atacando outras mulheres do que preocupadas em superar o sistema de dominação construído pelo e para o homem branco que se identifica com os paradigmas europeus). Ódio que vem acompanhado de violência moral, de caráter sexista, que aparece exteriorizado em xingamentos que, em regra, se referem à sexualidade feminina. Como lembrou a poeta Alice Ruiz em recente entrevista, a mulher é normalmente chamada de “piranha”, “puta”, “histérica”, “vaca”, “vagamundo” e, não raro, sobra até para as respectivas mães. Xingamentos que dizem muito mais de quem os faz do que daquelas a quem essas agressões são dirigidas.

No campo acadêmico, não é muito diferente, a inveja, o ressentimento e o sentimento de ter sido “usurpado” de uma posição de poder faz com que mulheres intelectuais tenham que conviver com ataques que buscam desqualifica-las e às suas pesquisas. Mulheres brilhantes, durante toda a história do pensamento, foram desqualificadas como “burras”, “loucas” ou “despreparadas”, quando não silenciadas ou invisibilizadas.

No caso da Márcia e da Djamila Ribeiro, para citar apenas duas mulheres que assumiram a posição de intelectuais públicas (outro conceito mal compreendido em um Brasil que glorifica a ignorância), alguns ataques poderiam ser cômicos, se não fossem o trágico retrato de um país que não valoriza o conhecimento e as mulheres: pessoas com produção acadêmica insignificante ou que são incapazes de entender textos, deslocamentos de sentido e falas mais complexas ou sensíveis sentem-se autorizados a tentar desqualificar a obra e as posturas públicas das duas; posturas, vale dizer, sempre comprometidas com a construção de uma sociedade mais justa. Mas, não é só. Mulheres que atuam como intelectuais e procuram o diálogo com a sociedade são atacadas também por outros intelectuais movidos pelo ódio que esconde a inveja, a impotência e o medo de falar para além dos limites da academia.

Por evidente, meu local de fala (outro conceito fundamental da epistemologia feminista) não me permite ir além de expor o que apreendi e o estranhamento que ainda sinto diante de conceitos e categorias que, por não serem adequadamente compreendidos, ainda são demonizados. Nunca senti, e nem vou sentir, a dor (“e a nem sempre delícia”, diria a Vilma Piedade a partir da letra de Caetano Veloso) de ser marcada como mulher, uma dor que homens e até muitas mulheres preferem fingir que não existe. Mas, por experiência própria, posso afirmar que é possível aprender com as pessoas que produzem conhecimento e práticas a partir dessa dor e que mostram, todos os dias, da luta contra a desigualdade doméstica à luta pela redução da violência de gênero, que vale a pena lutar.

 

RUBENS CASARA é juiz de Direito do TJRJ, escritor, doutor em Direito e mestre em Ciências Penais. É professor convidado do Programa de Pós-Graduação da ENSP-Fiocruz, membro da Associação Juízes para a Democracia e do Corpo Freudiano

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Notícias

Vídeos que simulam cenas são nova ameaça à informação

Até pouco tempo, o fenômeno se restringia ao mundo de filmes adultos.

Existe a preocupação entre especialistas de que filmagens falsas possam comprometer também o processo eleitoral (Reprodução)

Imagine o seguinte cenário: o ano é 2020 e a situação diplomática entre Estados Unidos e Coreia do Norte é tensa. Uma rede de TV recebe um vídeo inédito, de fonte anônima, que mostra o líder Kim Jong-un discutindo com generais o lançamento de um ataque nuclear. Na Casa Branca, o vídeo é analisado, mas a inteligência não consegue verificar a autenticidade. O presidente americano tem de agir – e ordena um contra-ataque. Uma guerra começa.

O pesquisador Giorgio Patrini, da Universidade de Amsterdã, na Holanda, imaginou o cenário acima para alertar sobre uma preocupante modalidade de informação falsa: os deepfakes. São vídeos que simulam cenas aplicando técnicas de inteligência artificial a imagens existentes. Até pouco tempo, o fenômeno se restringia ao mundo de filmes adultos. Mas, com a criação de novas tecnologias, existe a preocupação entre especialistas de que filmagens falsas possam comprometer também o processo eleitoral e outros aspectos da vida moderna.

“Se houver incentivo financeiro ou político suficiente para que atores mal-intencionados façam isso, é inteiramente possível que a fabricação de vídeos seja usada em futuras campanhas políticas”, diz Patrini, que trabalha no Delta Lab (Deep Learning Technologies Amsterdam), da Universidade de Amsterdã e Bosch.

Patrini afirma que, de tão forte o impacto de um vídeo falso, a mensagem manipulada tende a ser aceita por quem quer acreditar nela – mesmo que comprovada a falsidade. “Os psicólogos nos advertem de duas falácias humanas: a tendência a acreditar em informações falsas após exposição repetida (efeito de verdade ilusório) e a acreditar em informações falsas quando apenas confirmam nossas crenças anteriores.”

O cientista da computação brasileiro Virgilio Almeida, professor associado de Harvard, alerta, no entanto, que a produção de vídeos falsos sem grande refinamento já é acessível hoje. “Se pensarmos que já em 2014 usaram bots (redução de robôs em inglês), isso certamente vai ser utilizado. Mas as pessoas acreditam muito no que veem. Muitos não vão acreditar, mas muitos vão. O processo eleitoral passa a ser muito levado por isso”, afirmou ele.

Se as eleições deste ano já podem ter o rebuliço do compartilhamento de vídeos falsos, Patrini salienta que as possíveis repercussões da manipulação audiovisual vão além da política. Considere, por exemplo, o uso de áudios e vídeos como provas em processos criminais. Se não pudermos mais confiar em sua autenticidade, como poderemos aceitá-los como evidência?

Soluções

Se o prognóstico das deepfakes é pessimista, isso se dá, em grande parte, porque ainda não há técnica desenvolvida para identificar os audiovisuais falsos. “É muito difícil descobrir vídeos falsos e não existe detectores em larga escala. As técnicas de perícia digital estão muito atrás”, aponta Almeida.

Patrini sugere que a tecnologia de defesa contra deepfakes siga dois caminhos. O primeiro seria a criação de uma assinatura digital em vídeos – análoga a marcas d’água em notas de dinheiro -, que garantiria a autenticidade da câmera que deu origem a um filme e a ausência de edições. No entanto, uma assinatura digital seria invalidada por qualquer tipo de edição, mesmo os “benignos” – incluindo mudança de contraste e pequenos cortes. Além disso, não haveria como assegurar a veracidade de vídeos antigos, anteriores a uma possível implementação de assinaturas.

Outra solução vai na linha do “feitiço contra o feiticeiro”: usar inteligência artificial e machine learning para criar detectores de vídeos falsos. A ideia é treinar computadores para identificar sinais de adulteração que seriam invisíveis a olhos humanos. O pesquisador considera esta a melhor opção.

“Assim como o aprendizado de máquina nos possibilita meios poderosos de manipulação da mídia, ele pode resgatar e trabalhar como um discriminador, informando-nos quando o conteúdo audiovisual parece ser uma falsificação.”

 

Espaço do Leitor

A maldição do forró da espora

“Pagamos caro o IPTU e esperamos um governo que ouça os cidadãos e que respeite leis públicas”. *Por Elisabet Moreira.

Foto: Reprodução

Há décadas morando ao lado do estádio de futebol de Petrolina, o evento público chamado forró da espora, finalizando as comemorações do São João na cidade, tornou-se uma tortura para os moradores das imediações, um bairro majoritariamente residencial. O que inclui também a Casa Geriátrica, com idosos carentes de repouso.

Não se consegue dormir, o som a todo volume, a noite inteira. Ano passado encaminhei um ofício/abaixo-assinado para a Secretaria de Cultura do município e, perplexa, vi agora a limpeza das calçadas ao redor do estádio. A confirmação de que o forró da espora será ali mesmo veio certeira.

Tenho cópias do abaixo-assinado. Reitero aqui os itens principais expostos no documento.

  1. Existe um local retirado do centro, o pátio de eventos, próprio para festejos desta natureza e que, por razões desconhecidas ou interesses comerciais, não é considerado. Queremos deixar bem claro que não somos contra o evento, uma “tradição” dos festejos juninos na cidade, mas contra o local.
  2. Nós, moradores, estamos também à espera das praças neste entorno ao longo de décadas, sem qualquer atenção. Espaços públicos, cercados por cordas, que são utilizados como estacionamentos de ocasião, cobrando-se o “serviço”.
  3. Existe a Lei do Silêncio depois das 22 horas, o que não é absolutamente respeitada. Por onde anda a fiscalização ou o Ministério Público para checar tais infrações e abusos?

Enfim, não pudemos contar com a compreensão dos planejadores do evento como esperávamos. Nem com nossos representantes na Câmara Municipal. Os argumentos para que o forró da espora seja no estádio sempre foram absolutamente inconsistentes, atendendo a interesses subjetivos. Não seria muito melhor que este forró fosse no Capim, onde já acontece a jecana, ou outro local mais adequado?

Aliás, seria interessante perceber quem são os vaqueiros de hoje? A maioria, basta observar, são vaqueiros de vaquejadas e não representantes do ofício.

Fica aqui registrado mais uma vez nosso protesto. Ouvidos moucos ou indiferentes fazem parte desta história de reinvindicações dos munícipes. Pagamos caro o IPTU e esperamos um governo que ouça os cidadãos e que respeite leis públicas.

 

Petrolina, 14 de junho de 2018.

Elisabet Gonçalves Moreira

Notícias

Sobre a polêmica da retirada do intertravado da orla de Petrolina

“Os cidadãos de Petrolina deveriam ter sido informados e bem informados do andamento daquela obra, e, especialmente quando de sua ineficiência por parte do agente privado. Por isso, ainda esperamos um pedido de desculpa da Administração Municipal, e, portanto, uma publicidade eficiente a cerca de toda a obra, para que novamente não sejamos tomados por surpresas equivocadas”. *Por Moisés Almeida

Gerou impacto e surpresa a retirada do intertravado da Orla de Petrolina na última sexta feira, dia 08. Não é costume geral nos depararmos com atitude de desfazimento de uma obra, que, aliás, já se arrasta há muito tempo. Existia uma calçada e as máquinas arrancaram-na, desde as imediações da UPE até depois do IATE Clube. Achei, inclusive, muito estranho a forma como as máquinas retiraram o passeio, de muita serventia para quem pratica atividade física. Porém, como existia a promessa da revitalização do espaço, ficamos aguardando as obras iniciarem. Não houve publicidade a respeito da extensão daquela obra. Lembro que foi realizada uma intervenção desde a rotatória do trevo, passando em frente ao 72 BI até a esquina da FACAPE. A princípio, até pensei que a obra continuaria, mas ficou paralisada. É bom lembrar que na esquina da UPE, quase em frente ao Colégio Motivo, existem duas placas indicativas de uma obra, que deve ser a da Orla. Contudo, as obras não iniciaram naquele local e sim depois do Iate Clube. Fiquei mais uma vez com dúvidas e questionamentos a cerca daquela intervenção. Por que iniciaram a obra do meio para o fim? Até hoje não deram explicação.

Chegamos, pois, a “trapalhada” do desfazimento do intertravado. Segundo informações que ouvi nos programas de Rádio e li nos Blogs da região, houve a retirada dos intertravados porque foram colocados fora das especificações técnicas, apesar de a empresa ter sido notificada algumas vezes. Só depois da metade do serviço realizado? Pelo pouco entendimento que tenho, não seria o caso da fiscalização embargar a obra no início? Quando a administração pública quer, embarga uma obra privada com tanta agilidade e eficiência, porque não embargou essa? Mesmo com os argumentos colocados pelos setores responsáveis da Prefeitura de Petrolina, logo após a retirada do material, não tem como convencer do contrário: houve falha sim na fiscalização. Claro que a Prefeitura está agindo correto ao quebrar o contrato, mas depois de quase metade do serviço feito? E os transtornos à população que usa aquele espaço diuturnamente? Sequer ouvi um pedido de desculpas por partes dos gestores públicos. Aliás, houve um apelo ao “agir corretamente”, no sentido de justificar tal acometimento.

A população de Petrolina e especialmente a que utiliza aquele espaço deveria ao menos ser informada com antecedência do que se passava, já que haviam várias notificações à empresa responsável pela obra, segundo ouvi do representante da secretaria de obras, num programa de rádio. Fico pensando no respeito que Administração Pública deve ter ao princípio PUBLICIDADE, contido no Artigo 37 da Constituição Federal. Pois, na “publicidade, o gerenciamento deve ser feito de forma legal, não oculta. A publicação dos assuntos é importante para a fiscalização, o que contribui para ambos os lados, tanto para o administrador quanto para o público. Porém, a publicidade não pode ser usada de forma errada, para a propaganda pessoal, e, sim, para haver um verdadeiro controle social”.

Os cidadãos de Petrolina deveriam ter sido informados e bem informados do andamento daquela obra, e, especialmente quando de sua ineficiência por parte do agente privado. Por isso, ainda esperamos um pedido de desculpa da Administração Municipal, e, portanto, uma publicidade eficiente a cerca de toda a obra, para que novamente não sejamos tomados por surpresas equivocadas.

*Prof. Ms. Moisés Almeida – Doutorando em História pela UFPE

Professor Assistente – Colegiado de História

Campus UPE – Petrolina

Notícias

MARINGONI: A conjuntura mudou. Para melhor

Para o jornalista e professor de Relações Internacionais Gilberto Maringoni, uma série de fatores se confluíram para a queda de Pedro Parente na Petrobras; “Ironicamente, pode-se dizer que a queda de Parente foi uma vitória da conciliação de classes, pois frente é o nome científico desse fenômeno”.*Por Gilberto Maringoni.

Houve uma combinação de interesses que tornou insustentável a permanência de Pedro Parente à testa da Petrobrás.

O PRIMEIRO e mais evidente deles foi a abrangência de um maciço movimento de massas policlassista que paralisou o país por dez dias. Os efeitos da mobilização dos caminhoneiros foram os de uma verdadeira greve geral nacional.

O SEGUNDO se deve à espantosa receptividade e acolhida popular do movimento. É algo extremamente avançado: mesmo prejudicada em sua mobilidade e com sérios problemas de abastecimento, a maioria da população brasileira – vide sondagem do DataFolha – apoiou os bloqueios nas estradas. É como se as pessoas dissessem: “a situação geral está tão ruim que alguma coisa precisa ser feita, mesmo que isso me prejudique momentaneamente”. Greve vitoriosa é greve com sustentação social para além da categoria.

EM TERCEIRO, houve um descolamento de um setor da burguesia do bloco dominante golpista. Os donos do agronegócio já vinham há meses se colocando contra a política de comercialização da Petrobrás. Os constantes aumentos no preço do diesel representam um irrefreável aumento de custos de produção que – apesar da altíssima produtividade do setor – lhes tira competitividade internacional. No interior do agronegócio, o ramo de abate – em especial o de frango, como mostrou o Jornal Nacional – teve prejuízos expressivos ao longo da semana de paralisação.

Formou-se assim, tacitamente, uma frente que vai da base dos caminhoneiros – funcionários, terceirizados e autônomos – ao patronato da indústria agrícola de exportação, passando pelo empresariado de transportes.

Ironicamente, pode-se dizer que a queda de Parente foi uma vitória da conciliação de classes, pois frente é o nome científico desse fenômeno.

DOIS PONTOS ADICIONAIS:

UM: Os céticos afirmam que de nada adianta tirar Parente se a Petrobrás seguir adiante com sua diretriz de exportar óleo cru e importar refinados. Sim, há essa possibilidade. Arrisco dizer que essa não é a mais provável, numa quadra de virtual dissolução da gestão Temer.

O embate entre agronegócio e governo não é brincadeira e os caminhoneiros podem retomar a mobilização.

De mais a mais, o paliativo da isenção tributária para o diesel tem limites orçamentários e políticos numa situação de valorização do dólar e do barril do petróleo no mercado mundial. É possível que se chegue a uma saída mista, como chegou a aventar Moreira Franco há alguns dias. De toda forma, a política pura e dura de Pedro Parente parece ter saído do mapa.

DOIS: A semana que passou foi pródiga para os arautos do apocalipse, que viram golpe até embaixo da cama. A visão é distorcida: o golpe já aconteceu. O que há é uma disputa de rumos no interior da coalizão que o dirige.

O fato de desequilibrados e desinformados entre a massa de caminhoneiros e de populares clamarem por intervenção militar é ruim.

Mas nada é mais emblemático da confusão mental dessa gente do que a cena vista em uma manifestação no interior de Minas.

Após brados pela volta dos fardados, a turba em uníssono cantou “Pra não dizer que não falei das flores”, quase um hino contra a ditadura, composto por Geraldo Vandré, em 1967.

A conjuntura mudou. Para melhor.

 

Gilberto Maringoni – Professor do Bacharelado em Relações Internacionais (BRI), Membro corpo docente da Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – Universidade Federal do ABC (UFABC)

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