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Divisão social, racial e de gênero confinou negra no mercado informal

Não há análise e política pública que possam avançar sem a compreensão das raízes da opressão.

Djamila Ribeiro é autora do best-seller ‘Quem tem medo do feminismo negro’ Foto- Marcos Alves : Agência O Globo

Entender as raízes coloniais do Brasil é compreender fatos históricos que contribuíram na estruturação de desigualdades. Para citar alguns, a lei de Terras de 1850 foi um divisor importante, pois a partir daquele momento a aquisição de terras somente poderia ser feita mediante compra com Estado e não mais por ocupação, o que criou uma elite fundiária.

Mulheres negras, no pós-abolição, sem acesso a oportunidades e políticas do Estado, saíram da condição de escravizadas para o trabalho doméstico. Essa relação direta entre a escravidão —considerada um crime contra a humanidade, segundo tratado assinado pelo Brasil na Conferência de Durban de 2001— e os tempos atuais é patente.

Essa divisão social, racial e de gênero do trabalho confinou a mulher negra no mercado informal, sobretudo no serviço doméstico, contribuindo para o que se conhece como “feminização da pobreza”. Apontamento recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) calcula que no país há 6,2 milhões de empregadas domésticas, a maioria mulheres negras, uma profissão historicamente tratada à margem.

Segundo pesquisa do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) e dados colhidos pelo Instituto Ethos, mulheres negras ostentam os maiores dados de exclusão e precarização. Ganham menos da metade da renda do homem branco e, entre suas ocupações, um quinto está em serviço doméstico, mais precisamente 19,1%. Na segunda colocação, serviço de limpeza.

Nos cargos de executivo das “500 Empresas mais admiradas”, 0,4% é composto por mulheres negras. Os dados piores de mulheres negras na economia são seguidos pelos dados de homens negros, mulheres brancas e homens brancos no topo.

Sendo as mais precarizadas, mulheres negras sofrem o maior impacto com os impostos, os quais carregados no consumo oneram desproporcionalmente grupos da base da pirâmide.

Na reforma da Previdência, verdadeiro desastre, as mulheres negras serão mais afetadas, por conta da própria informalidade, de uma relação descontínua no mercado de trabalho e os próprios lugares do que significa experienciar diversos vetores de opressão.

Quem são as mulheres responsáveis, muitas vezes unicamente, pela criação de filhos, por lutar por creche, ir trabalhar, atravessar a cidade de transporte público? Quantas são as mulheres negras que não tem qualquer condição de contribuir com o INSS. O que a reforma da Previdência fará com elas?

Sem contar a reforma trabalhista flexibilizou os direitos trabalhistas, liberou a terceirização e afastou as pessoas de buscarem suas reparações na Justiça do Trabalho. Quais são os grupos sociais mais enfraquecidos com essas medidas?

São perguntas que mostram a inviabilidade de qualquer análise ou política econômica de êxito sem antes entender as opressões postas no país.

Por Djamila Ribeiro, da Folha de S.Paulo

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Entrevistas

A força negra da compositora paraibana Cátia de França

Conheça a arte da filha de Adélia de França, que compõe sem impor fronteiras entre literatura e música.

Foto: Reprodução.

Cátia de França tem 71 anos e saiu da Paraíba em busca de mostrar sua arte pelo Brasil afora quando tinha apenas 19 anos. Tem em sua bagagem um encontro de letras, sons e sonhos. Suas canções já foram gravadas por grandes nomes da MPB, como Elba Ramalho, Amelinha e Xangai. Tem 6 discos gravados: 20 Palavras ao Redor do Sol (1979), Estilhaços (1980), Feliz  Demais (1985), Avatar (1996), No Bagaço da Cana: Um Brasil Adormecido (2012) e Hóspede da Natureza (2016). Essa mulher forte representa bem o momento político que estamos vivendo, na necessidade de resistir a preconceitos e ao ódio, “mas com o poder do humor” e da arte.

Confira a seguir a conversa entre o BdF e a lenda viva da música brasileira.

BdF: Fala um pouco da sua origem e da influência da sua mãe, a primeira professora negra da Paraíba, Adélia de França, na constituição do que é Cátia de França hoje?

Cátia de França: Você focar Cátia de França, você tem que saber as origens, o tronco, as raízes, quem foi essa pessoa que me gerou, então tem a presença dela. Minha mãe era uma figura irrequieta para a época, as pessoas que me dizem, andava bem vestida, morava na Rua da República, depois Rua da Pedra, ensinou em Itabaiana, Rio do Peixe, Pedras de Fogo, Guarabira. No entanto, as pessoas acessavam a internet e não tinha nada sobre minha mãe, aí uma universitária daqui de João Pessoa, Simone Cavalcanti, pesquisou sobre ela e passaram a saber quem era ela. Eu estou trabalhando para que essa dissertação seja publicada com a história dela! Tem uma escola aqui em João Pessoa, em Valentina, com o nome dela, mas não tem a foto dela. Era para ter um pôster dela para as crianças saberem quem era ela. Porque meu trabalho é todo em cima de livros? Porque mamãe me deu livros, eu me lembro faltava manteiga, mas não faltava livros, então essa era a figura revolucionária. Na certidão de nascimento dela não dizia que ela era negra, dizia que ela era parda, ela ficava o cão porque botaram parda, ela dizia isso não é coisa nenhuma, eu sou negra, porque não colocaram no meu registro? E o grande senão dela era o não reconhecimento do meu avô, que era um comerciante altamente conhecido no interior, e não assumiu ela, então na certidão dela ficou só o nome da minha avó, que era lavadeira, Severina de França. Mas ela tirou isso de letra, começou a ensinar, era requisitada. A escola dela era na Almeida Barreto, rua do mercado central, de um lado era a casa de hospedagem para rapazes, filhos de fazendeiros do interior da Paraíba, e do outro, eram de moças, e eu convivia com aquele povo todo, entendeu? E ela logo de pequena, ela me deu um piano, com 4 anos de idade, me deu um pianinho de brinquedo, mas saía o som né? Para eu amar aquela coisa, para não ser você tem que ser isso. Com 12 anos, eu recebi um piano caríssimo para a época, imagine com o salário de professora primária, ela me deu um piano alemão, imagino o quanto ela não penou para pagar aquilo! E eu tenho ele até hoje. Eu quero ver se eu faço aqui uma fundação para eu colocar tudo meu, meus papéis, retratos, discos, telas, tudo isso eu quero ver se fica tudo em um canto só, com toda a segurança possível. Tem muito material meu na estação ciência, que eu tenho que retirar de lá e colocar em um canto que ninguém mexa mais. Eu tenho que conseguir isso junto de algum órgão para me dar essa salvaguarda.

Sobre a política cultural, como você acha que os governos se comportam frente à arte e à música?

Parece que cultura é uma coisa descartável, mas cultura é a digital de um povo. Você sente como é que se trata as artes populares através disso, e agora está todo mundo meio de cabelo em pé, como é que vai ser depois de janeiro de 2019, como é que vai ser encarado isso? Porque já estavam tentando quebrar o Ministério do Trabalho, você já sente como é que vai ser e o que é que vai vir aí pra a gente, então está todo mundo colocando as fichas todas em 2018, entendeu? Nesse tempo assim a gente vê quem é quem, a gente anda nas ruas e a gente já vê a digital do que vai vim. Onde eu moro, em São Pedro da Serra (RJ) você já vê a ódio. É uma violência contida, uma coisa contra o negro, contra o índio, contra a população LGBT, as máscaras estão caindo, estou chocada!

Em 2017, durante entrevista à Revista Trip, você se definiu como uma mulher que tem sangue nas ventas, negra, índia, cigana, bruxa, candomblecista, aquariana, como você enfrenta os preconceitos? Na música também tem preconceito?

Eu ainda me defino assim e ainda mais, sou de esquerda. Na música também tem preconceito, daqui da Paraíba eu fui a primeira mulher a toca guitarra, eu já comecei daí, é uma coisa surda. Os garçons, as atores e atrizes das novelas que são babás, empregadas domésticas, motoristas são, eram sempre de negros, não havia um advogado negro, e no cinema, o racismo é muito mais visível, porque tem grandes roteiristas negras e não são chamadas, diretoras negras e não são chamadas, então é um movimento de amordaçar esse povo. Mas quando isso vem à tona e é publicado, não tem como esconder mais, não tem como segurar esse grito, uma coisa do povo negro com a ajuda dos orixás e dessa gana de sobreviver isso vem à tona. Então está latente!

Como você define sua arte, você é escritora, multi-instrumentista, compositora?

Eu escrevi um cordel sobre Zumbi em 5 volumes, mas não sigo a métrica do cordel, o meu jeito de escrever cordel eu classifico como “catarinesca”, que é do meu nome Catarina, entendeu? Eu inventei uma modalidade! Está em vias de sair, acho que em 2019 sai, o infantil, o Natureza Naturalmente, e o Zumbi e tem o manual da sobrevivência, que é sobre as pessoas que se separam, como sobreviver a um descasamento?

Com 71 anos, como você avalia a sua trajetória?

Foi preciso muita coragem e minha mãe já preparou para isso porque eu me lembro que com 15 anos ela me mandou para um colégio interno em Pernambuco, aí a família toda ficou em polvorosa, mamãe dizia: eu preparei ela para a vida, ela vai e não vai acontecer nada, eu não posso ir e não tenho tempo porque tudo depende de mim e do meu trabalho, da sobrevivência da gente e meu marido é um homem doente, não vai levar ela. Então eu fui e já comecei com 15 anos pegando 2 ônibus e indo estudar em Pernambuco, saí com 19 anos, formada professora e daí ela começou a dizer que eu saí para ser uma coisa e voltou outra, porque eu me converti a religião evangélica e mamãe não era de religião nenhuma. Mamãe dizia: isso vai criar um obstáculo para o tipo de arte que a minha filha vai exercer, porque tudo não é de Deus, é do demônio e eu não quero isso. Aí mamãe me colocou para andar com o jornalista Diógenes Brayner sair comigo e começar a compor, daí eu comecei, tirei carteira de músico por imposição dela, para eu ficar profissional, e daí eu não parei mais. Quando fui para o Rio, aí já tinham pessoas me esperando que arrumaram emprego para mim, mas não na área de música. Aí Elba chega, precisa de músicos aí chama eu, Pedro Osmar, Damilton Viana, Vital Farias, e a gente foi requisitado para fazer teatro, a parte de música junto para ir para São Paulo e daí não parei mais. Então eu peguei os anos de chumbo de São Paulo, em 1975.

Sobre esses tempos que não podiam falar de política, do que você se lembra?

Eu me lembro que a música chegava a partir de corais, os estudantes liam partituras nas escolas e isso na época foi tudo retirado durante a ditadura. E a tendência é isso mesmo eles não querem que as pessoas se expressem, uma certa liberdade que pode dar vazão aquele grito que precisa sair, isso é retirado. Então na época em 1975, onde tinha nordestino, a polícia caía logo em cima. Ficam por ali os olheiros, quando sabia, a gente ficava num canto que tinha papéis dizendo que a gente estava trabalhando no teatro em frente, mas mesmo assim fomos colocados em um camburão, juntou bastante gente e para não observarem isso, fomos soltos na rua de trás. Foi um negócio muito estranho.

E qual o papel da arte para sobrevivermos a tempos de ódio e intolerância?

Sempre, não precisa nem cantar, entendeu? Um traço que você dê num muro, o grafismo, qualquer manifestação artística você pode desmembrar e desmascarar e criar um coágulo nesse organismo que se instalou por causa de inércia da gente. Isso veio não foi de uma hora para a outra, sabe aquela coisa de ir deixando, permitindo, entendeu? A mesma coisa da igreja católica, a igreja católica se achando com aquela coisa, de repente outras religiões tomaram a frente e agora é o agronegócio e as igrejas que não sejam de matrizes católicas, tomaram o poder. No Rio de Janeiro a gente sente isso e a tendência é essa. Se você for ler a bíblia, com um olhar de abertura, em momento algum, esse ensinamento diz que é para pegar as armas. Não!  Bíblia é amor, condescendência, então quando Jesus fez o Ministério dele, ele não foi pegar cabeças coroadas na Sinagoga, ele não pegou doutores, ele pegou pescadores, lavradores, foi numa casta mais humilde que ele pousou a igreja dele, então existe toda uma mentira, o gesto de arma na mão, isso não vem da Bíblia, na Bíblia não tem isso. Se quiser ler da maneira correta, ali na bíblia não se ensina isso, então usam para querem mascara, confundir e é tudo em cima de coisas mentirosas, é o tal do fake news. Vi tios mandar fotos de fuzil para o sobrinho dizendo: olha aqui para você! Então gente tem que mais do que nunca que dar as mãos e se preparar porque temos mais 4 anos pela frente.

Muitos jovens redescobriram Cátia de França, como foi isso?

Foi a internet. A internet é uma faca de dois gumes, tanto pode usar para porcaria, como pode usar para ter acesso. No momento que acabaram as lojas, não se vendem mais discos, os meninos baixam tudo na internet. Onde eu chego predomina só jovens cantando junto, no Circo Voador, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, recentemente, foi assim. Então a internet me colocou de novo no topo, enquanto que a mídia burra quer me amordaçar porque não interessa uma meia dúzia que tem na mão o monopólio da mídia, a eles não interessa uma negra, com ideias de esquerda, lésbica e de macumba, não querem, é muita minoria em cima, então a internet que me colocou no meu devido lugar, onde merecidamente eu teria que estar.

Como Cátia de França quer ser conhecida, como você quer que as pessoas te conheçam, como você quer ser lembrada?

É o poder do humor, faz rir, mas também faz pensar. O poder da dança, meu trabalho é todo suinguado mas ali pelo meio, se você ver o texto que eu estou dizendo, daquela capoeira, “sustenta a pisada”, eu aliada à literatura cortante como de João Cabral de Melo Neto, de José Lins do Rego, que é aqui da Paraíba, Guimarães Rosa, a coisa da criança que existe dentro da gente, que é o Manoel de Barros. Você pode dizer grandes coisas, mas não pode deixar essa criança, a gente não pode deixar de rir e de dançar, porque enquanto há vida, há reação e há esperança. E não esquecer nunca que a minha mãe lá trás, Adélia de França, ela é uma pessoa do humor, uma vez ela estava dando aula e o côco caiu na cabeça dela, ela riu, e disse: – Levei agora mesmo um cascudo de Deus! Então minha mãe e minha parte negra da família tinham muito humor, minha tia Celina era muito engraçada. Então eu quero ser lembrada, a filha da Adélia, que tinha como livro de cabeceira Geografia da Fome, de Josué de Castro e tinha na parece de casa, de um lado Dom Hélder Câmara e do outro, Che Guevara, minha mãe era assim, e eu quero sempre que lembrei disso.

 

Via Brasil de Fato

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Caso Marielle: PF vai investigar se agentes públicos atuam para impedir resolução do crime

Polícia Federal entra no caso após testemunhos de que uma organização criminosa tem obstruído as investigações.

© Renan Olaz/CMRJ

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, anunciou nesta quinta-feira (1º) que a Polícia Federal vai entrar no caso Marielle para apurar denúncias de que uma organização criminosa estaria atuando para obstruir a investigação e impedir a resolução do crime.

A vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSol) e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados a tiros em 14 de março deste ano, na capital fluminense.

De acordo com o ministro, a suspeita é que façam parte dessa organização criminosa agentes públicos envolvidos na investigação do caso, milicianos e o crime organizado.

“São denúncias extremamente graves, que falam de uma organização criminosa para impedir, obstruir e desviar a elucidação dos homicídios”, disse Jungmann em entrevista coletiva, em Brasília.

A investigação dos assassinatos está hoje sob responsabilidade do Ministério Público Estadual e da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O ministro, no entanto, não revelou a que instituições pertencem os agentes públicos que serão investigados.

A abertura do inquérito que será delegado à PF foi um pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a partir de dois depoimentos colhidos recentemente — um deles há cerca de um mês e o outro há aproximadamente 15 dias. Segundo Jungmann, a partir de agora serão duas investigações em paralelo.

“Estamos criando outro eixo, que vai investigar aqueles que estão dentro da máquina pública ou dentro do crime organizado”, disse Jungmann, que considera a Polícia Federal “uma das melhores polícias investigativas do mundo”.

“Evidentemente a PF vai procurar a colaboração do Ministério Público Estadual e daqueles agentes públicos que julgar conveniente. Se essa investigação levar luz sobre quem matou Marielle e Anderson, é uma possibilidade, mas não é esse o objeto”, completou.

O ministro ainda lembrou que o crime completará 8 meses nos próximos dias.

“O que nos preocupa até aqui, passado todo esse tempo, é que não há um claro encaminhamento, uma resolutividade (…) Estamos diante de um crime que, sem sombra de dúvida, fere a democracia, os direitos humanos e a própria representação popular.”

Por Débora Melo, do HuffPost Brasil

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Entrevistas

Djamila Ribeiro: ‘Não tem problema maior hoje no Brasil do que discutir o racismo’

Djamila Ribeiro talvez seja a principal referência intelectual negra da atualidade. Autora de dois best sellers que estiveram entre os mais vendidos nas recentes edições da Bienal do Livro de São Paulo e Flip — Quem tem medo do feminismo negro? (2018) e O Que é Lugar de Fala? (2017) –, Djamila tem se tornado uma fala cobiçada no circuito nacional de palestras. Nesta sexta-feira (17), o Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa, lotou para ouvir sua conferência “Lugar de Fala: discutindo subjetividades e grupos sociais”, no Encontro Gaúcho da Psicologia.

O Sul21 conversou com a filósofa e escritora Djamila Ribeiro antes de conferência no Encontro Gaúcho de Psicologia | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Em conversa de cerca de 20 minutos com o Sul21 no camarim do teatro antes do evento, Djamila responde quem tem medo do feminismo negro? Para a filósofa, classificar as questões de raça, gênero e sexualidade como “pautas identitárias” já parte, por um lado, de uma posição de silenciamento do outro e, por outro, de uma recusa de, geralmente, homens brancos entenderem a si mesmo como pertencentes a uma identidade. “Acho interesse apontar a identidade do outro, mas isso mostra o quanto que pessoas brancas não estão acostumadas, historicamente, a se enxergar como pessoas brancas marcadas socialmente. Elas se enxergam como o universal”, diz.

Para Djamila, não há como a esquerda falar de classe sem falar de opressões de raça e gênero. “Sempre é essa questão, ‘a gente vai discutir os problemas maiores e depois a gente discute essa questão’, sem entender que não tem problema maior no Brasil hoje do que discutir o racismo, que acaba gerando várias desigualdades. Num País em que a cada 23 minutos um jovem é assassinado, num País em que aumenta em 54% o feminicídio de mulheres negras, o que é a grande questão?”

Confira a seguir a íntegra da entrevista.

Djamila é autora de dois best sellers recentes. O último, lançado esse ano, Quem Tem Medo do Feminismo Negro? | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Quem tem medo do feminismo negro?

Djamila Ribeiro: Essa é uma pergunta provocativa, vem de um dos artigos que está no livro. Na verdade, são as pessoas que têm que dizer. Se elas ainda têm medo, se elas desconhecem o que é. É um convite para conhecer, porque infelizmente tem muitas deturpações quando a gente fala sobre os feminismos negros. Há ainda um desrespeito, uma deslegitimação das condições intelectuais das mulheres negras. As pessoas simplesmente falam sem conhecer, sem ler, sem saber quem são. Então, acho que é um título provocativo. Quem tem medo, quem se sentir de alguma maneira afrontado com isso, precisa conhecer, ler, saber do que a gente está falando, o que a gente está de fato discutindo, que são bases para um novo marco civilizatório.

Sul21 – O que as pessoas não entendem quando se fala em representatividade?

Djamila: Acho que num País como o nosso, que foi fundado no mito da democracia racial, as pessoas têm dificuldade de entender inclusive o que é racismo. A gente ainda acha que o racismo é algo do campo individual, da moral, e não entende o racismo como um sistema político que impede que as populações negra e indígena acessem direitos básicos. Então, geralmente as pessoas quando veem alguém famoso sofrendo um caso de racismo, se espantam com aquilo, achando que racismo é só aquilo, mas não se espantam sobre o porquê nunca tiveram um professor negro, por que na empresa em que trabalham não tem pessoas negras, porque não conseguem entender racismo como um sistema. Acho que esse é o nosso grande problema. Se as pessoas entendessem de fato o que é racismo e como ele vem historicamente minando oportunidades e negando direitos básicos, elas entenderiam porque a gente julga importante ter representatividade, ter pessoas negras e indígenas ocupando espaços que historicamente foram impedidas de estar.

Sul21 – Nesse sentido de ocupação de espaços, como é para ti ter tido um dos livros mais vendidos da Bienal de São Paulo, a mesma coisa na Flip? Qual a importância disso?

Djamila: Eu acho que isso mostra o quanto que isso é um movimento, não um momento. Quer dizer, tem pessoas que acham que é uma onda. Eu acho que isso é um movimento que vem sendo construído há muitos anos, que não começou comigo, muito pelo contrário. A gente tem a Maria Firmina dos Reis, que foi a primeira pessoa a escrever um romance no Brasil, o Úrsula, que vai ser reeditado agora. Você teve grandes escritores e escritoras negras produzindo. Eu acho que sou um pouco fruto dessas pessoas e, hoje, esse momento de ter dois livros best sellers, acho que mostra o quanto as pessoas estão cansadas das velhas narrativas e o quanto que as pessoas também estão querendo descobrir outras perspectivas do mundo. Porque a gente, como mulher negra, está elaborando o mundo também. Então, acho que isso mostra um desejo e um cansaço da sociedade de sempre ter imposto a ela as mesmas narrativas.

Sul21 – Hoje, tu és uma referência intelectual no Brasil, está sempre na mídia. Que responsabilidade isso te traz?

Djamila: Tem um peso muitas vezes. Eu nunca me coloquei nesse lugar, é um lugar que as pessoas acabam te colocando. Mas, ao mesmo tempo, eu também acho importante, sempre falo isso nas minhas palestras, de me humanizar, porque eu sou uma pessoa como outra qualquer. Enfim, para estar aqui hoje tive que contar com alguém para cuidar da minha filha. Eu chego em casa, vou fazer a lição com ela. Acho que é importante as pessoas entenderem que nós somos pessoas comuns, vivendo a vida, lutando por uma sociedade mais justa, assim como tantas outras. Então, ao mesmo tempo que eu acho que é bacana, eu costumo também dizer que não pode ter uma romantização em cima disso, nem uma glamourização em cima disso, porque, na verdade, a gente luta, trabalha muito, para conseguir conquistas esses espaços.

Djamila fala do incômodo que a ascensão dos negros trouxe para parte da sociedade brasileira | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Hoje a gente tem muito mais intelectuais negros, se é que a gente pode colocar pessoas nessa caixa, do que há 20, 30 anos. A ascensão de intelectuais negros incomoda muita gente?

Djamila: Acho que incomoda. Eu acho que, na verdade, a gente teve bastante intelectuais negros que foram invisibilizados ao longo da história, claro que com as ações afirmativas a gente acaba tendo uma maior entrada de pessoas negras na universidade. Isso incomoda porque, numa sociedade racista, ela cria lugares. Para as pessoas negras, sempre são os lugares de subalternidade e de submissão.

Quando a gente sai desses lugares, gera um incômodo na sociedade, mas acho que é um incômodo necessário. As pessoas que estão incomodadas, que fiquem incomodadas mesmo e comecem a refletir a partir desse incômodo. Mas, sem dúvida nenhuma, isso vai acabar acontecendo porque a gente está disputando poder e, a partir do momento em que se disputa poder, a gente começa a perceber o quanto vai incomodar certos setores que estão querendo só a manutenção dos lugares e não a transformação.

Sul21: O que tu acha do conceito “pautas identitárias”?

Djamila: Eu acho interessante quando as pessoas falam “identitárias” para pessoas negras, ou para mulheres ou pessoas gays, porque geralmente são homens brancos que falam, e eles também não percebem que branquitude e masculinidade também são identidades. Acho interessante apontar a identidade do outro, mas isso mostra o quanto que pessoas brancas não estão acostumadas, historicamente, a se enxergar como pessoas brancas marcadas socialmente. Elas se enxergam como o universal.

Quando ele aponta para mim e diz que eu sou identitária, ele automaticamente está se colocando como universal. Acho importante a gente entender que todos esses debates das identidades não são debates que se encerram em si mesmos. Quando a gente está discutindo identidades, a gente está discutindo como o poder se institui e reifica, oprime, certas identidades em detrimento de outras. Sem fazer esse debate, a gente não consegue discutir projetos maiores de sociedade. Então, as pessoas costumam dizer classe trabalhadora, mas essa classe é marcada por raça e por gênero. A gente precisa dessa marcação para poder entender qual é esse lugar social e quais são as condições materiais que essas pessoas têm de fato para conseguir transcender certas situações.

Ela diz que não é possível falar de classe sem falar das opressões de raça, gênero e sexualidade | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21: Tu acha que, mesmo dentro da esquerda, existe um momento calculado para colocar o que se chama de “pautas identitárias” dentro de uma caixinha também com o objetivo de suprimir, silenciar essas vozes?

Djamila: Acredito que sim e é uma coisa antiga. O meu pai foi militante comunista e isso já acontecia na época dele, acontecia na época da Aurélia Gonzalez, de sempre tentar tratar as questões raciais, e a questão de gênero, como questão menor. O nosso entendimento enquanto feministas negras é que essas pautas são indissociáveis. Não tem como discutir classe no Brasil sem discutir raça, porque o racismo impede a mobilidade social da população negra, gerando um problema de classe. A população negra é pobre porque é negra. Então, na nossa perspectiva, é impossível discutir raça sem discutir classe e sem discutir gênero. Essas três opressões estão imbricadas, estruturam a sociedade e a gente precisa pensar nelas de um modo indissociável, o que é a grande dificuldade de parte da esquerda de querer eleger classe como o mais importante, sem entender que raça e gênero fazem parte e são entrecruzadas com a questão de classe. Então, sempre é essa questão, ‘a gente vai discutir os problemas maiores e depois a gente discute essa questão’, sem entender que não tem maior problema maior no Brasil hoje do que discutir o racismo, que acaba gerando várias desigualdades. Num País em que a cada 23 minutos um jovem é assassinado, num País em que aumenta em 54% o feminicídio de mulheres negras, o que é a grande questão?

Sul21: A gente também tem uma grande fragmentação entre os vários movimentos feministas. Em outras entrevistas, tu já falaste que essa fragmentação não é necessariamente ruim, mas tem que haver um diálogo. Como pode ser feito esse diálogo entre ideias diferentes e também com pessoas que não legitimam o feminismo negro e outros movimentos que não sejam de ‘mainstream’?

Djamila: Eu acho que a sociedade já é dividida. Racismo, opressões de classe e machismo já dividem a sociedade, colocando o homem branco no topo e a mulher branca na base. Essa divisão não é feita por nós, até porque a gente nem teria poder institucional e estrutural para promover essas divisões. Acho que esse é o primeiro equívoco dessa leitura de que a gente está dividindo. Quando a gente nomeia essas opressões, a gente está justamente querendo combater uma divisão que já está posta, já está dada. Nós somos diferentes. A gente tem está tentação por universalidade, uma coisa homogênea, que eu acho perigoso, porque nós somos diferentes. O problema é como a gente lida com essa diferença e interliga as nossas lutas para pensar um projeto maior de todos e todas. Mas sem priorizar a vida daqueles que são mais vulneráveis, é impossível pensar um projeto maior no Brasil, em que a maioria da população está apartada de acessos básicos a direitos. Eu acho que é importante a gente tentar, sim, sempre dialogar, mas entendendo que nem sempre isso vai ser possível. Infelizmente, existem pessoas que já estão convictas, mas acho importante dialogar com as pessoas que estão reproduzindo essas questões por ignorar de fato. Às vezes, eu acho que a esquerda peca nisso porque parte de uma arrogância muito grande de achar que todo mundo tem que saber ou de achar que não tem que dialogar com certos setores da sociedade. Por exemplo, evangélicos. Como que você não discute com evangélicos, sendo que a religião negra no Brasil não é o candomblé, é a evangélica. Você tem um grande número de mulheres pobres, tem aumentando o número de feministas cristãs, da Frente Evangélica pela Descriminalização do Aborto, de mulheres evangélicas que fazem trabalho dentro das igrejas e muitas vezes aquilo é olhado com o desdém. Então, acho que, às vezes, ficam meia dúzia de pessoas falando para si mesmas e não encontram uma maneira de se comunicar com as pessoas para fazer elas entenderam a própria realidade. O fato de você ser pobre não significa que você consegue refletir criticamente sobre aquilo. Então, acho que é um pouco criar mais pontes de diálogo e sair dos grupinhos de poder, de ficar falando só para si.

Sul21 – O brasileiro conhece o Brasil?

Djamila: Não conhece o Brasil. Em geral, o brasileiro não conhece o próprio País. Um País que a gente tem uma educação pública que não é de qualidade e que as pessoas não sabem refletir criticamente sobre o próprio País. É um País extremamente Europa-desejante, que nega as suas próprias fundações como um País negro e indígena, que teve uma política oficial de branqueamento, que negou historicamente essas diversas contribuições. A gente vem mudando, claro, a mentalidade de uns anos para cá, mas ainda é tudo muito incipiente. De maneira geral, as pessoas não sabem, por exemplo, quem foi de Dandara, não sabem de todas as revoltas indígenas que ocorreram durante o período da colonização. Se a gente perguntar para uma pessoa se ela sabe o nome de cinco etnias indígenas, ela não vai saber responder. Trata os povos indígenas como se fosse uma coisa só. Não vai saber as lutas quilombolas. Enfim, porque é um País que tentou se embranquecer e instituiu uma visão eurocêntrica de mundo e de conhecimento.

Djamila critica a falta de espaço e recursos para candidaturas negras dentro de partidos de esquerda | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – A gente falou da esquerda, mas mudando o lado. A gente vê uma ascensão do ressentimento, para não falar de ódio, pessoas que se incomodam com a ascensão dos negros, de pautas progressistas. Como se lida com o ressentimento das pessoas que já se afastam do diálogo dizendo que é ‘tudo mimimi’?

Djamila: É difícil. Muitas vezes são pessoas de classe média e não entendem que são classe trabalhadora, pessoas que ainda não entenderam a classe a qual elas pertencem Brasil. Tem uma ilusão de riqueza. Essa ascensão de várias pessoas das classes C e D fez com que essas pessoas de classe média percebessem que elas não são ricas, que elas também são classe trabalhadora. Eu acho muito difícil, o Marx tem toda a razão no sentido de como que o capitalismo aliena as pessoas. Eu penso que, pelo menos, é necessário a gente tentar o diálogo com essas pessoas para elas perceberem que são tão trabalhadoras como todas as outras e que medidas como as que estão acontecendo hoje no Brasil, como a reforma trabalhista, a PEC 55 e todos esses retrocessos vão prejudicar essas pessoas que estão muitas vezes numa política do ressentimento, mesmo pertencendo à classe trabalhadora, sem se perceber como tal. Então, acho que é todo um trabalho de tentar disputar essas narrativas, sabendo que nem sempre isso vai ser possível. Acho que é importante não perder, como se perdeu nos últimos anos, a questão do trabalho de base, de dialogar com as pessoas, de construir espaços onde existam trocas, enfim.

Sul21 – Muito tem se falado que essas eleições vão ser a da reeleição das velhas caras. Os movimentos para que negros votem em negros e mulheres votem em mulheres pode ser uma das fontes de novidades na política?

Djamila: Esses movimentos para colocar mais pessoas na política são extremamente importante. Mas, por outro lado, qual é o apoio real que essas pessoas estão tendo até dos próprios partidos? Quanto de verba está sendo destinada do fundo partidário para essas candidaturas? A gente sabe que, sem dinheiro, não se elege nesse País. Enfim, acompanhando candidatas, companheiras nossas, negras e negros em partidos de esquerda — eu sou uma pessoa de esquerda e faço a crítica de esquerda justamente por isso — muitos não conseguiram nada do fundo partidário, outras conseguiram quantias ínfimas, estão tendo que fazer campanhas e mais campanhas para conseguir dinheiro. Então, ao mesmo tempo que eu julgo que é importante, sim, esses companheiros e companheiras se organizarem para fazer a disputa institucional, por outro lado, sem o apoio financeiro e econômico a gente sabe que fica difícil. E, sem uma reforma política em que o poder econômico não determine quem vai vencer ou não, fica muito mais difícil. Então, acho que é importante sim, mas eu questiono qual é o apoio de fato que esses partidos estão dando de fato para essas candidaturas, para além de usar elas para dizer ‘olha, nós somos diversos’, mas sempre colocando dinheiro e dando peso para as mesmas caras de sempre na política.

Sul21 – Uma das grandes novidades em termos de força política, infelizmente, vem da morte da Marielle. Te incomoda a superexposição e que muitas pessoas têm usado a figura da Marielle para colocar pautas que não necessariamente seriam dela?

Djamila: Acho que isso incomoda mulheres negras de maneira geral, pelo que a gente tem conversado. Esse uso político que algumas pessoas vêm fazendo da Marielle, não percebendo que mesmo o fato de ela ser uma parlamentar não a impediu de ser assassinada de uma maneira brutal, como ela foi. O que mostra que os nossos corpos são vulneráveis, independente da posição que a gente ocupe. Aí, claro, por esse ano ser eleitoral, muitas pessoas que não são comprometidas, que muitas vezes nem entendiam as pautas da Marielle que chamavam ela de identitária, pós-moderna, estão se aproveitando disso em vez de entender que, para nós, o legado dela é outro. É essa questão de uma mulher que veio da onde ela veio, chegar onde ela chegou, das lutas que ela fazia. Então, para nós, isso tem outro significado e, de fato, tem sido usado de maneira muito desrespeitosa e eleitoreira.

Por Luís Eduardo Gomes

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Mulheres negras são o principal alvo de discurso de ódio na internet

Estudo de universidade inglesa conclui que maior parte dos comentários depreciativos nas redes sociais brasileiras são para mulheres negras

Discurso de ódio nas redes sociais é muitas vezes voltado a mulheres negras Foto: Kagenmi / iStock

Um estudo recém-concluído mostra que as mulheres negras são o principal alvo de comentários depreciativos nas redes sociais. Os dados estão na tese de doutorado defendida na Universidade de Southampton, na Inglaterra, pelo pesquisador brasileiro e PHD em Sociologia Luiz Valério Trindade. Ele analisou mais de 109 páginas de Facebook e 16 mil perfis de usuários.

O levantamento também incluiu 224 artigos jornalísticos que abordaram dezenas de casos de racismo nas redes sociais brasileiras entre 2012 e 2016. Luiz Valério constatou que 65% dos usuários que disseminam intolerância racial são homens na faixa de 20 e 25 anos. Já 81% das vítimas de discurso depreciativo nas redes sociais são mulheres negras entre 20 e 35 anos.

De acordo com Luiz Valério, as mulheres negras causam muito incômodo em um modelo de construção social machista e racista. As principais vítimas de agressões nas redes são médicas, jornalistas, advogadas e engenheiras negras.

“A partir do momento em que essas mulheres negras ascendem socialmente, adquirem maior escolaridade, elas se engajam em profissões de maior visibilidade e maior qualificação. Isso entra em choque com aquele modelo que diz que a mulher negra tem que estar associada ou engajada em atividades subservientes e de baixa qualificação“, afirmou o pesquisador.

Combate à violência

Luiz Valério chama a atenção para a importância do Poder Público e das empresas que administram as redes sociais de combater a violência contra as mulheres negras na internet. O pesquisador, que é negro, defende o aprimoramento das políticas de privacidade das redes sociais, com mais punição para usuários que disseminam discurso de ódio.

“As atitudes que as pessoas têm no mundo virtual elas têm, sim, que responder civilmente por suas atitudes. Elas não estão protegidas por trás da tela do computador da forma como elas imaginam. As escolas de ensino médio e fundamental precisam preparar os jovens para que, na sua vida adulta, não repliquem esse tipo de comportamento”.

A agressão pelas redes têm o potencial de se transformar em violência verbal e física fora do mundo virtual. A blogueira maranhense Charô Nunes já vivenciou essa situação e hoje, radicada em São Paulo, coordena o Blogueiras Negras, plataforma colaborativa de publicação de textos de mulheres negras de todo o país.

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O verdadeiro peso do racismo no dia a dia

Diante do cenário do país, não tem como ignorá-lo. Para que a gente se una ao coro contra a discriminação, a COSMO convida você a ler estes textos.

reprodução/Cosmopolitan

“Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas.” No dia 14 de março, a vereadora Marielle Franco (Psol) usou essa frase da escritora e ativista americana Audre Lorde para encerrar sua participação na roda de conversa “Mulheres Negras Movendo Estruturas”, que ajudou a organizar na Casa das Pretas, no Rio de Janeiro. Horas depois do evento, ela foi assassinada a tiros dentro de seu carro na Rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio. O motorista Anderson Pedro Gomes também foi baleado e morreu.

Marielle faz parte de uma triste estatística. Nasceu no país em que a mortalidade das mulheres negras vem crescendo – 22% em dez anos, enquanto a mortalidade de mulheres brancas diminuiu 7,4% no mesmo período, de acordo com o Atlas da Violência 2017, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Oriunda do Complexo da Maré, mãe, lésbica, ativista política.

Marielle era muitas em uma só, mas há um traço de identificação imediata para a maioria das brasileiras, que é sua negritude. Ela não pôde escapar de suas próprias amarras enquanto tentava libertar outras de nós. Mas, mesmo não estando presente fisicamente, deixou uma lição, como boa professora que era, sobre a importância de ouvir, compreender e acolher mulheres negras no feminismo. Pensando nisso, convidamos outras mulheres negras que atuam em diferentes vertentes para falar sobre racismo, luta e desafios que enfrentam.

Quem disse que o Brasil não é racista?

Talíria Petrone, 32 anos, vereadora do PSOL e amiga de Marielle Franco, Niterói (RJ)

“Se existisse igualdade racial, não seria necessário afirmar que a vida das negras e negros importa, costuma dizer Angela Davis [feminista e ativista americana dos direitos civis dos negros] àqueles que acusam haver suposto sectarismo na expressão `black lives matter¿ [`vidas negras importam¿, em tradução livre] como alternativa a `all lives matter¿ [`todas as vidas importam¿, em tradução livre]. A situação do Brasil é exemplar do racismo que elimina as vidas negras. Vivemos num país onde o Estado racista promove a exclusão social, o encarceramento e o genocídio dos negros. São negros dois terços dos mais de 700 mil encarcerados, como são negras 71% das pessoas assassinadas. A miséria no Brasil é negra. Não por acaso, era preta a pele da vereadora do Psol Marielle Franco, assassinada junto de Anderson Pedro no Rio de Janeiro, na noite de 14/3. Foi um crime político. Marielle denunciava o Estado racista em um Rio de Janeiro sob intervenção federal militar na segurança pública. Ela temia o incremento do encarceramento e do genocídio num Rio de Janeiro onde são negros 78% dos mortos pela polícia e 72% da população carcerária. Marielle era relatora da comissão da Câmara Municipal para acompanhar a intervenção federal no Rio. O mandato socialista e libertário da mulher negra, favelada e lésbica era uma ofensa àquele ambiente conservador, machista e LGBTfóbico da Câmara. Se existisse igualdade racial no Brasil, Marielle não teria sido assassinada. Se não houvesse racismo, Marielle estaria viva. Assim como estariam vivas e livres gerações e gerações de jovens negros no nosso país. Por Marielle e pelos milhares de negros e negras executados por ano em nosso país e no mundo é que ainda se faz tão necessário afirmar que a vida das negras e negros importa, sim.”

Cotas: por que precisamos?

Larissa Santiago, 30 anos, publicitária, feminista e coordenadora do site Blogueiras Negras, Salvador

“A história começa lá na escravidão: quando a população negra passou pelo processo de libertação (protagonizado por ela própria, diga-se de passagem). Apesar da abolição, não houve nenhuma medida que reparasse os anos de cativeiro. Ao contrário, imposições como a lei de terras, a do sexagenário e outras foram escritas para que a população negra não tivesse acesso a bens essenciais para sua sobrevivência. A educação foi um dos grandes pontos estratégicos: uma lei complementar à Constituição de 1824 proibia pessoas negras de frequentar escolas porque eram consideradas doentes, com moléstias contagiosas. Essa lei funcionou até 1889 (data da Proclamação da República), impedindo o acesso da população negra a avanços que só a educação pode dar. Isso tem reflexo na nossa posição na sociedade brasileira e o porquê das cotas. Elas nada mais são do que reparação por longos anos de exclusão de acesso a um direito básico, que é a educação. E aí você diz: `Mas então por que não há luta por melhoria e acesso na educação pública básica?¿ Sim, há! Essa reivindicação é, sobretudo, nossa, já que são nossos filhos pretos que frequentam as creches e as escolas públicas. Mas o nosso desejo não fica na base: foram anos de exclusão, e precisamos garantir acesso em todos os níveis. Então, as cotas na universidade são o pagamento dessa dívida que o Brasil tem com a população negra. É esse o pensamento, e por isso é importante mantermos a discussão, cumprirmos a lei e denunciarmos as fraudes que têm sido tão recorrentes pelo Brasil afora. Fraude nas cotas é crime!”

A apropriação cultural explicada

Rosa Luz, 22 anos, graduada em Teoria, Crítica e História da Arte pela UnB e youtuber do canal Barraco da Rosa, Brasília

“A apropriação cultural pode ser vista como um apagamento de determinada cultura a partir de uma relação vertical de poder, em que a cultura dita `dominante¿ inferioriza costumes de outros grupos considerados inferiores por ela mesma. Praticar a descolonização do nosso corpo e ideias é fundamental para entendermos nosso lugar de fala que, por sua vez, é fundamental para que possamos enxergar a cultura do outro com respeito, pois, se você entende o seu espaço na sociedade de maneira crítica, dificilmente irá objetificar e inferiorizar outras culturas diferentes da sua. Assim, é possível não praticar a apropriação para diminuirmos o apagamento de identidade que muitas pessoas sofrem. Eu, enquanto travesti negra da periferia e artista, peço que vocês tenham respeito pelas identidades e culturas que são diferentes das suas para não cometermos os mesmos erros que artistas brancos europeus cometeram ao retratar a colonização em países do continente africano e da diáspora de maneira romantizada. Colocaram a cultura da branquitude como ideal. Provocaram o genocídio de culturas e línguas consideradas `inferiores¿ para o branco colonizador. Hoje, mulheres brancas usando turbante são consideradas estilosas e lindas, enquanto mulheres negras com a mesma peça são marginalizadas e sofrem até mesmo preconceito religioso. Outro exemplo de apropriação cultural atual é como o grafite vem sendo incorporado nas galerias e narrativas burguesas das artes visuais. É só olharmos para a exposição incrível do artista Jean-Michel Basquiat que rola nas grandes capitais brasileiras: enquanto a crítica burguesa aplaude de pé seus trabalhos que dialogam com o grafite, expostos em espaços aos quais a maioria branca tem acesso, vemos, ao mesmo tempo, uma demonização da mesma arte quando é nas ruas.”

Ofensas ao nosso cabelo é racismo

Preta Araújo, 25 anos, youtuber de beleza negra, São Paulo

“As pessoas podem não entender a necessidade de afirmação da beleza do cabelo crespo, mas ela é muito importante. Desde muito jovem, uma criança negra de cabelo crespo é submetida a vários procedimentos para deixá-lo `bom¿ na tentativa de ser mais aceita pela sociedade. Essa mesma criança sempre escuta `Prende esse cabelo¿, `Abaixa um pouco¿, `Está muito armado¿, dentre tantas falas que, embora socialmente sejam vistas como `inofensivas¿, são, na verdade, racistas e fundamentais para a não aceitação da pessoa como negra. É muito fácil falar que a diversidade de cabelos na mídia não é necessária quando você sempre se viu representada esteticamente e nunca sofreu esse tipo de discriminação. O racismo desumaniza, nos faz criar rejeição ao nosso próprio corpo. É importante reafirmar a beleza do cabelo crespo para que cada vez menos negros sofram por causa de algo genético, é importante saber que termos como `cabelo de palha de aço¿, `cabelo ruim¿ ou `cabelo duro¿ são racistas e que assumir os cabelos naturais vai além da estética. É questão de resistência e autoafirmação da beleza na diversidade. Cabelos não precisam ser domados. Cabelos precisam mais de liberdade e de menos racismo.”

O reverso não existe

Amarílis Costa, 25 anos, mestranda em Humanidades, Direito e outras Legitimidades na USP e cofundadora do projeto Preta e Acadêmica, São Paulo

“O racismo tem muitos significados. Específica e cientificamente, é uma estrutura ideológica, social e até mesmo política que discrimina e segrega alguns indivíduos em detrimento de outros. Especialmente ao que se refere à população negra, o racismo é um sistema perverso, que tem vários reflexos e que chega até esse grupo de diversas formas. As relações sociais de um indivíduo negro são marcadas pelo racismo desde o início de sua vida. Por isso é importante apontar que é uma ferramenta para a manutenção de poder, de dinheiro e de um status quo de privilégios. Portanto, para que a palavra `reversão¿ possa ser usada dentro do mote do racismo, uma série de violências e opressões deveria estar sendo também vivida por pessoas brancas. As questões do dia a dia estabelecem um paralelo perfeito para justificar a inexistência do racismo reverso: pessoas brancas jamais são tolhidas do mercado de trabalho por terem traços africanos, não são perseguidas por seguranças em lojas por representarem um perigo, não têm sua religião, fé e crenças tidas como o mal do mundo. A ideia do racismo reverso é falaciosa e também violenta, pois dizer que os brancos poderiam padecer do mesmo racismo histórico, supostamente direcionado dos negros a elas, é mais uma forma de silenciar a narrativa das pessoas negras e nunca observar suas dores.”

Tem que ter mais representatividade

Jéssica Queiroz, 24 anos, cineasta, diretora premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro por Peripatético (2017), São Paulo

“Não tem como falar de representatividade na frente das câmeras sem falar como funciona todo o sistema por trás da imagem que vemos no cinema, TV e publicidade. Dos 142 filmes lançados comercialmente (filmes que foram para salas de cinema), 74,4% foram dirigidos por homens brancos, 19,7% por mulheres brancas, 2,1% por homens negros e 0,0% por mulheres negras, de acordo com dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Se olharmos só para o Brasil e consideramos que, segundo o IBGE, 54% da população brasileira é negra, a porcentagem de diretores deveria estar errada, não é? O problema se estende para a produção do filme, que, se não tiver pessoas negras nos locais de decisão, corre risco de ter um elenco majoritariamente branco, ou teremos negros com papéis estereotipados, como bandido, empregada doméstica, favelado, escravo. Não acho que não devemos ter esses personagens, mas como eles são criados? Qual a complexidade? Costumo falar que um bom personagem tem características de alguém que você conhece a fundo, que trazem aquela identificação no cinema: `Nossa, essa mina parece com fulana!¿ No nosso cinema e na TV, eu nunca consegui ter esse grau de empatia e conexão com personagens negros na tela. Por quê? Porque são escritos e dirigidos por pessoas que não estão inseridas naquele universo e não têm o grau de empatia (ou pesquisa) necessário para escrever personagens não estereotipados. Temos diretoras, roteiristas, fotógrafas, atrizes negras competentes e queremos espaço para contar nossas histórias, para que sejam vistas, e que a sensação do `Nossa, parece comigo!¿ seja mais frequente. E essa coisa de se ver na tela é uma necessidade do público. Pantera Negra, filme com maioria de negros no elenco, diretor negro, equipe técnica predominantemente negra, arrecadou mais de 1 bilhão de dólares no mundo todo; no Brasil, foram 25 milhões de dólares. Consumir? Consumimos. Queremos nos ver? Obviamente esses dólares não mentem.”

Não use estereótipos para representar os negros

Cristiane Sobral, 43 anos, atriz e escritora, autora do livro Não vou mais lavar os pratos (Dulcina), Brasília

“Estereótipos incrustados no imaginário social do que representam pessoas negras, tais como empregadas domésticas, motoristas, porteiros, cozinheiras, seguranças, sambistas – só para citar alguns -, são originários das concepções racistas de desumanização e subalternização de pretos e pardos que vigoram no país desde o término oficial do escravismo, ocorrido há apenas 130 anos. Estereótipos desumanizam pessoas. São generalizantes, superficiais e têm bases irracionais. Pessoas possuem identidades múltiplas e móveis, mas a população negra ainda não está inclusa na vida pública, morre mais e de forma violenta, possui péssimas condições de empregabilidade, educação, saúde e acesso aos bens culturais. Pensando assim, dá pra entender o termo `minoria¿. Aprendemos a ver e tratar os afro-brasileiros de maneira depreciativa. Quantos pretos e pretas estão nas salas de aula das escolas particulares? Quantos médicos negros você conhece? Parlamentares negros? Juízas negras? Escritoras negras? Poderia elencar um sem-fim de perguntas a confirmar a alarmante condição de invisibilidade dos descendentes de africanos sistematicamente desumanizados e com escassas oportunidades de contar sua versão da história e mudar a própria realidade. Concepções de inferioridade racial ainda povoam o imaginário pautado por um referencial de brancura como sinônimo da ascensão social: o estereótipo.”

Blackface é racismo, não homenagem

Natália Romualdo, 25 anos, e Maristela Rosa, 26 anos, jornalistas e youtubers do canal Papo de Preta, Juiz de Fora (MG)

“Quantas vezes você já viu a personagem `Nega Maluca¿? Ela é uma mulher negra, encarnada por homens brancos, que se pintam de preto e a boca de vermelho, colocam enchimentos de peito e bunda enormes, usam perucas black power e, não raramente, uniforme de empregada. Em Juiz de Fora, Minas Gerais, existe um bloco de Carnaval chamado Domésticas de Luxo. Nele, homens brancos se vestem de Nega Maluca e desfilam, há 60 anos, com o respaldo de toda a sociedade racista. Esse mesmo bloco foi tombado como Patrimônio Cultural da cidade. A Nega Maluca traz uma mensagem clara: mulheres negras não são bonitas, seu corpo e traços são dignos de gargalhadas! Como se sentir representada ou homenageada pela personagem? A fantasia racista ainda revela uma prática antiga e perversa: o blackface. O termo é em inglês, porque ele teve início nos Estados Unidos, no século 19. Se tornou popular em teatros de variedades, onde atores brancos pintavam a pele com carvão para interpretar personagens negros preguiçosos, trapaceiros, burros e de caráter duvidoso. A prática racista se popularizou, chegando à TV e ao cinema. Além da ridicularização, o blackface é cruel, pois tira as escassas oportunidades que teríamos de ocupar esses espaços de arte, onde poderíamos representar a nós mesmos, minando nossas chances de trabalho. Não temos nada contra o humor, mas ele deve ser usado para divertir, sem ofender ou ridicularizar qualquer um. Afinal, corpos negros não são piada e racismo não tem graça!”

Racismo disfarçado de elogio

Xan Ravelli, 38 anos, youtuber do canal Soul Vaidosa, São Paulo

“Segundo a ONU, o racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado. Ele perpassa todas as nossas relações sociais, naturalizando comportamentos e dizeres carregados de herança escravocrata. Quando criança, os adultos próximos à minha família tinham hábito de elogiar minha irmã, que é negra de pele mais clara, chamando-a de `mulata¿ e enfatizando quanto ela estava ficando bonita e `encorpada¿. `Mulata¿ não é elogio, e a hipersexualização de crianças negras não tem nada de lisonjeiro. Comigo era diferente: tenho a pele bem escura e, como a maioria das negras retintas, não me enquadro no estereótipo da `mulata¿. Os `elogios¿ eram: `Você tem traços finos¿, `Não, você não é negra, é uma morena bem escura¿. Para a sociedade, eu devo ficar feliz, grata e entender como elogio o enaltecimento de tudo aquilo que me faz ser lida como `não tão negra¿. Temos o famoso `Você é uma negra muito bonita¿, sendo que uma mulher branca é apenas uma mulher bonita, deixando nítido que o padrão de beleza normalizado é a branquitude. Nunca se falou tanto sobre representatividade e quebra de padrões, mas é importante nossa presença não apenas em situações de serviço mas ocupando todos os espaços com proporcionalidade relevante para que nossa estética, beleza, cabelo e cor de pele sejam naturalizados. Mulheres negras querem ser elogiadas como mulheres, e apenas isso.”

Morena não, negra

Helaine Martins, 37 anos, jornalista, criadora do projeto Entreviste um Negro e cofundadora da Idánimo Comunicação (consultoria negra, feminista e LGBTQ+), Belém

“`Ah, mas você nem é tão negra assim¿. Eu levei um susto ao ouvir isso da minha chefe quando pedi que retificassem a minha cor nos documentos de admissão no trabalho. Ao lado da minha foto, que não deixa dúvidas, dizia branca. E essa não foi a primeira vez. Nem será a última. Passei a vida ouvindo que eu era `morena¿, `marrom bombom¿, `da cor do pecado¿… Todos os tipos de eufemismo que suavizassem ou minimizassem o peso do que acreditam ser uma ofensa: ser negra. Cresci com esse sentimento internalizado. De que ser negra – e todo o pacote que vem junto, como meu nariz largo e meus cachos que cresciam para cima – era feio, ruim. Logo, ser chamada de morena era um elogio e, portanto, mais agradável aos olhos dos outros. E essa é uma forma de racismo tão velada e perversa que por muito, muito tempo nada disso me pareceu um problema. Somente cinco anos atrás, com o comentário da minha ex-chefe e quando comecei os estudos sobre gênero e raça, é que despertei para a minha negritude e, principalmente, para o que significa ser uma mulher negra na nossa sociedade. Hoje, tenho muito orgulho de saber que o meu corpo negro é um corpo político. Eu não aceito mais ser tolerada. Eu não sou morena, sou negra.”

A mortalidade de negras no brasil cresceu 22% em dez anos, enquanto a de brancas diminuiu 7,4% no mesmo período

Fonte: Atlas da Violência 2017

Também houve aumento na proporção de mulheres negras entre o total de mulheres vítimas de mortes por agressão: 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil são negras

Fonte: Atlas da Violência 2017

Por Karoline Gomes no Cosmopolitan

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Suspeito de envolvimento na morte de Marielle é preso no Rio

Thiago Bruni Mendonça, conhecido como Thiago Macaco, 33 anos, foi preso, nessa terça-feira (29), por policiais da Delegacia de Homicídios da Capital.

© Renan Olaz/CMRJ

Um dos suspeitos de envolvolvimento na morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, Thiago Bruni Mendonça, conhecido como Thiago Macaco, 33 anos, foi preso, nessa terça-feira (29), por policiais da Delegacia de Homicídios da Capital. Ele é acusado de executar a tiros o colaborador do vereador Marcello Siciliano (PHS), Carlos Alexandre Pereira Maria, o Cabeça, assassinado no dia 8 de abril, na Zona Oeste do Rio.

De acordo com informações do O Globo, Thiago Macaco, citado por uma testemunha-chave do caso Marielle, foi detido dentro do Shopping Nova América, em Del Castilho, Zona Norte da capital fluminense, graças ao mandado de prisão expedido pela 2ª Vara Criminal. Um ex-miliciano revelou que Thiago seria ligado a Orlando de Curicica, chefe da milícia da Boiúna, que está preso.

A motivação do crime que vitimou a parlamentar é que ela estaria atrapalhando os negócios do grupo paramilitar na Zona Oeste. Confrontado sobre o assunto, Siciliano nega as acusações sobre interesse nesses negócios. A testemunha também contou à polícia que Thiago Macaco clonou a placa do Colbat prata, utilizado pelos criminosos para matar Marielle e Anderson, no dia 14 de março, no centro do Rio.

Pelo mesmo delito, já havia sido preso Rondinele de Jesus da Silva, o Roni, no último dia 19. Agora, a corporação está à procura de Ruy Ribeiro Bastos, 38 anos, que seria um dos executores do duplo homicídio. A polícia não descarta a possibilidade de haver um quarto autor como mandante do crime.

 

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Testemunha liga morte de Marielle a vereador e ex-PM, dizem fontes

A testemunha, que procurou a polícia em troca de proteção, conta que esteve presente em encontros entre os dois.

As investigações sobre a morte da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) estão se aproximando de descobrir os responsáveis pelo crime, que teria sido cometido por milicianos e que teria o suposto envolvimento de um colega da parlamentar na Câmara Municipal do Rio, disseram fontes depois de quase dois meses de investigação.

Segundo duas fontes com conhecimento das investigações ouvidas pela Reuters, o vereador Marcello Siciliano (PHS), colega de Marielle na Câmara, está entre os investigados suspeitos de envolvimento na morte a tiros da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes, em março.

Siciliano foi citado em depoimentos e foi um dos vários vereadores ouvidos pela polícia fluminense. Além dele, um ex-policial militar conhecido como Orlando da Curicica, ligado a milícias da cidade e que está preso no complexo de Bangu, seria outro envolvido nos assassinatos, disseram as fontes.

As informações foram reveladas inicialmente pelo site do jornal O Globo na terça-feira e confirmadas à Reuters por duas fontes.

“Isso está correto e no caminho certo… não há dúvidas de que o crime foi cometido por milicianos”, disse à Reuters uma das fontes. “A Marielle estaria atrapalhando os planos de milicianos com a sua atuação”, acrescentou uma segunda fonte.

O vereador citado nas investigações negou qualquer tipo de envolvimento no crime. “Expresso aqui meu total repúdio à acusação de que eu queria a morte de Marielle Franco. Ela é totalmente falsa. Não conheço “Orlando da Curicica”, disse o vereador em nota.”

“Eu acho uma covardia tentarem me incriminar dessa forma. Marielle, além de colega de trabalho, era minha amiga. Tínhamos projetos de lei juntos. Essa acusação causa um sentimento de revolta por não ter qualquer fundamento. Eu, assim como muitos, já esperava que esse caso fosse elucidado o mais rápido possível. Agora, desejo ainda mais celeridade”, acrescentou.

Siciliano está em seu primeiro mandato parlamentar e tem seu reduto eleitoral em bairros da zona oeste da capital onde há a presença de milicianos. Durante as investigações, um colaborador do vereador foi executado com vários tiros na zona oeste.

Na terça-feira, parlamentares federais estiveram reunidos com policiais ligados à investigação sobre a morte de Marielle e deixaram o encontro esperançosos com o andamento das apurações.

“O cerco aos criminosos está se fechando… não só os executores, mas também em relação aos mandantes”, disse a repórteres o deputado federal Jean Wyllis (PSOL-RJ).

Marielle, ativista dos direitos humanos e que denunciava as milícias e abusos em ações da polícia em favelas locais, foi morta na noite de 14 de março, aos 38 anos. A vereadora foi perseguida após deixar um encontro de mulheres na Lapa até o bairro do Estácio, onde ocorreu o crime que provocou comoção nacional e até no exterior.

 

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A 1ª mulher negra eleita como vice-presidente de um país latino

Nesse domingo (1), Epsy Campbell Barr tornou-se vice-presidente da Costa Rica e está fazendo história.

Foto: Partido Acción Ciudadana (Costa Rica)/Divulgação

Epsy Campbell Barr, tornou-se nesse domingo (1) a primeira mulher negra a alcançar o posto de vice-presidente de um país latino-americano. Ela foi eleita pela chapa de Carlos Alvarado, que tornou-se presidente da Costa Rica.

Candidatos da centro-esquerda pelo Partido Acción Ciudadana (PAC), Carlos e Epsy levantaram a bandeira da tolerância e dos direitos igualitários na corrida presidencial. Dentre as propostas apresentadas na campanha, eles defendem com afinco o direito dos homossexuais ao casamento – o que ainda não é previsto por lei na Costa Rica.

Epsy Campbell Barr tem 54 anos e é formada em economia. Ela foi deputada entre 2002 e 2006 e, em 2014, tentou concorrer à presidência, mas o PAC acabou escolhendo outro candidato. No mesmo ano, ela voltou a trabalhar junto ao legislativo da Costa Rica.

Em 2018, Epsy voltou a demostrar interesse na corrida presidencial e acabou sendo escolhida para a chapa de Carlos Alvarado. Ambos serão empossados no mês que vem.

Por Júlia Warken, do MdeMulher

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Winnie Mandela, militante sul-africana contra o apartheid, morre aos 81 anos

Ela é ex-esposa do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela

Winnie Madikizela-Mandela, ex-mulher de Nelson Mandela (Foto: Siphiwe Sibeko/ Reuters)

Winnie Madikizela-Mandela, militante sul-africana que lutou contra o apartheid, morreu aos 81 anos nesta segunda-feira (2) . Ela era ex-esposa do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, que se tornou um ícone na defesa da igualdade racial.

O porta-voz da família, Victor Dlamini, disse em comunicado que ela morreu em um hospital de Joanesburgo depois de “uma longa doença”, que a obrigou a ser internada várias vezes desde o início do ano. “Ela sucumbiu pacificamente nas primeiras horas da tarde desta segunda-feira cercada por sua família e entes queridos.”

Winnie e Nelson se casaram em 1958, seis anos antes de ele ser condenado à prisão perpétua pelo regime de minoria branca.

Durante os 27 anos de prisão de Mandela, Winnie continuou com a luta anti-apartheid, passou pela prisão, por prisões domiciliares, e confinamentos em uma localidade afastada de todos. O casal se divorciou em 1996 – dois anos depois que Mandela se tornou o primeiro presidente negro do país.

Nelson Mandela e Winnie caminham de mãos dadas após Nelson deixar a prisão na Cidade do Cabo, na África do Sul, em 11 de fevereiro de 1990 (Foto: Associated Press)

Winnie ressaltava a sua importância na luta do ex-marido enquanto ele esteve preso. “Se eu não tivesse lutado, Mandela não teria existido, o mundo inteiro o teria esquecido e ele teria morrido na prisão como queriam as pessoas que o prenderam”, declarou em entrevista concedida ao jornal francês “Le Journal du Dimanche”, em 2013.

Em 1991, ela foi condenada por cumplicidade no sequestro de um jovem militante à pena de prisão comutada por uma multa. Também foi condenada por fraude em 2003.

Conhecido como “Madiba” na África do Sul, Nelson Mandela foi foi um dos principais responsáveis pelo fim do regime racista do apartheid, vigente entre 1948 e 1993. Mandela ficou no poder de 1994 a 1999 e morreu aos 95 anos, em Pretória.

Derrota na Justiça

No começo de 2018, o Supremo Tribunal de Apelações da África do Sul arquivou um processo movido por Winnie, que pretendia assumir a casa familiar de Nelson Mandela em Qunu, no leste do país.

A ex-mulher de Nelson Mandela, Winnie (esq.), e sua filha Zindzi chegam para a cerimônia em Soweto (Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters)

Ela afirmava que, de acordo com a jurisprudência local, a residência pertencia a ela, já que a comprou em seu nome em 1989, quando Nelson Mandela estava preso e o casal ainda estava junto.

Nelson Mandela deixou seus bens a sua última esposa (Graça Machel), seus filhos e netos, bem como colaboradores, escolas e seu partido, o Congresso Nacional Africano (ANC). Ele não deixou nada para Winnie.

Do G1

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