Crítica em Movimentos

A fome em grandes plantações

Sobre o desmonte das políticas de Abastecimento, Agricultura Familiar e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. *Por Rogério Neuwald e Samuel Carvalho

Em campanha contra a volta da fome no país, o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra já doou durante o período de pandemia mais de 3.400 toneladas de alimentos em todo o país – Wellington Lenon

As políticas de um governo podem ser medidas pelo seu comprometimento com o bem-estar da população, principalmente dos setores mais vulneráveis e que mais necessitam do Estado como garantidor de seus direitos. A garantia de acesso a emprego, renda, educação, cultura, segurança, moradia, saúde e alimentação são algumas das condições básicas para um presente e um futuro com dignidade para todos e todas. 

Desde a redemocratização, e sobretudo a partir dos governos Lula e Dilma, o Brasil vinha avançando na garantia do acesso pela população a todos esses direitos, com ênfase numa política robusta de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, apoiada no fortalecimento da agricultura familiar e na estruturação de uma política de abastecimento de alimentos, a ponto de sair pela primeira (e única vez) na história, do Mapa Mundial da Fome, adotado pela FAO/ONU a partir do legado de Josué de Castro.

Porém, o desmonte das políticas públicas iniciado a partir do golpe de 2016 no Brasil para atender aos interesses do mercado financeiro internacional, trouxe consigo efeitos tão imediatos como cruéis para a população que apenas experimentava o início de uma vida com um mínimo de dignidade. O estrangulamento das políticas sociais implementado por Temer, através da Emenda Constitucional n° 95, estabelecendo o Teto dos Gastos Públicos, bem como a redução drástica dos investimentos nas políticas para agricultura familiar e camponesa, a cada dia apresenta sua face destrutiva ao país. 

O governo Bolsonaro, por sua vez, acelera e aprofunda esse desmonte em várias frentes – todas com consequências tenebrosas para o presente e o futuro do país. Na produção e acesso aos alimentos básicos, o impacto é evidente e ostensivo, estampado no aumento violento dos preços do varejo, e sentido na pele pelas famílias, principalmente aquelas com maior vulnerabilidade de emprego e renda. A face mais cruel dessa aceleração de Bolsonaro no desmonte das políticas da produção de alimentos básicos pela agricultura familiar é o comprometimento da saúde, da vida e do futuro das crianças – os mais vulneráveis à tragédia da fome. Um governo que elimina as políticas públicas para a produção de alimentos básicos, construídas ao longo de décadas pela agricultura familiar e camponesa, em diálogo com toda a sociedade, mostra outra face de seu governo, entre tantas desastrosas. Desastre intencional que Bolsonaro acreditava que não seria percebido pela população, confiante no diversionismo das fake news com que seus filhos e séquitos apoiadores inundam as redes sociais, e pela blindagem disfarçada com polêmicas fúteis pela mídia nas TVs e jornais. 

A realidade nua e crua do Brasil é que a fome voltou – e não foi somente como consequência da pandemia no novo coronavírus. Como dizia Hebert de Souza, o Betinho, “a fome não pode esperar” – e não esperou. Os dados de 2017 e 2018 do IBGE deixam bem claro que a tragédia era anunciada, e a aceleração de Bolsonaro do desmonte das políticas para a Agricultura Familiar e Camponesa, incluindo a paralização e retrocesso na reforma agrária, mostram com clareza o que nenhuma fake news pode esconder. A falsa premissa do livre mercado que a tudo resolve, infelizmente está levando a população a sentir na mesa de suas casas, os impactos da política ultra-neoliberal e irresponsável de Guedes, Tereza Cristina e Bolsonaro para o abastecimento de alimentos no país. 

Tão irresponsável quanto a desregulamentação ambiental e a política do “passa a boiada” de Salles e Bolsonaro, promovendo a destruição acelerada do meio ambiente, seja no incentivo ao desmatamento e a propagação sem precedentes de queimadas pelo agronegócio na Amazônia, cerrado, mata atlântica e demais biomas, seja na paralisia e desmonte das instituições de proteção diante de desastres ambientais, como o derramamento de óleo no litoral do nordeste e a invasão de terras indígenas e reservas ambientais por grileiros de terras, madeireiros e mineradores ilegais.

A seguir, apresentamos de forma objetiva alguns dos fatos e suas consequências em relação a políticas públicas para a produção de alimentos pela agricultura familiar e camponesa e ao acesso a alimentos pela maioria da população. Ao final apresentamos alguns dados oficiais, que comprovam estes fatos e suas consequências. 

Janeiro de 2019

FATO ZERO 1

Presidente Bolsonaro e Ministra da Agricultura, Teresa Cristina, EXTINGUEM a Secretaria Especial do Desenvolvimento Agrário.

Temer já havia extinguido o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), rebaixado a uma Secretaria Especial. O MDA era responsável pelas políticas públicas para a agricultura familiar e camponesa e pela política fundiária e reforma agrária.

CONSEQUÊNCIA

A Agricultura Familiar e camponesa, responsável pela produção da maior parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros e brasileiras, fica sem um espaço institucional próprio e autônomo para a elaboração e gestão de políticas públicas ou para receber as suas demandas.

FATO ZERO  2

Bolsonaro e Ministra da Agricultura EXTINGUEM o CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) e o Condraf (Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário)

CONSEQUÊNCIA

A Sociedade Civil e os movimentos sociais ficam sem canais abertos de participação e diálogo com o governo para elaboração e monitoramento das políticas públicas.

FATO ZERO  3

Presidente Bolsonaro e Teresa Cristina, TRANSFEREM responsabilidades do MDA para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

CONSEQUÊNCIA

A prioridade do MAPA é claramente o agronegócio exportador e a produção commodities para a exportação, como a soja e a carne. A Agricultura Familiar e Camponesa é abandonada e a Reforma Agrária ficam paralisada. O discurso do governo é que o “mercado” garante o equilíbrio na produção e disponibilidade de alimentos.

Julho de 2019

FATO ZERO 4

No lançamento do Plano Safra 2019/2020, o Governo Bolsonaro e Ministra da Agricultura EXTINGUEM o “Plano Safra da Agricultura Familiar”     .

CONSEQUÊNCIA

A Agricultura Familiar que desde 2003 tem um plano safra próprio fica à mercê de um plano desenhado para anteder prioritariamente aos interesses do agronegócio. Enquanto os grandes produtores de soja, milho e carne para exportação tem disponibilidade R$ 240 bilhões, a agricultura familiar, que produz para os brasileiros se alimentarem, tem R$ 30 bilhões.

SITUAÇÃO NO FINAL DE 2019

  • Exportação recorde de milho => 44,9 milhões de toneladas
  • Exportação recorde de carne suína => 750 mil toneladas
  • Exportação recorde de carne bovina => 1,84 milhões de toneladas
  • inflação dos alimentos de 6,36 %: dezembro de 2019 teve o maior salto de inflação desde dezembro de 2002
  • Inflação da carne bovina foi de 32,40 %
  • Presidente Bolsonaro diz para a população comer ovos no lugar da carne.

Março de 2020

FATO ZERO 5

Pandemia do novo Coronavírus / Covid-19. Governo decreta situação de calamidade pública. Movimentos Sociais do Campo, das Florestas e das Águas apresentam uma Plataforma Emergencial para mitigar os impactos da pandemia no desabastecimento e inflação dos alimentos, entre as quais se destaca:

  • 2 bilhões de reais para o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA, para a execução de associações e cooperativas da agricultura familiar;
  • e a retomada do Plano Safra da Agricultura Familiar.

CONSEQUÊNCIA

Governo não apresenta um “Plano Safra da Agricultura Familiar”.

Disponibiliza apenas 25% da demanda apresentada pelos movimentos ao PAA (500 milhões), e cooperativas e associações tem valores de projetos limitados a 320 mil reais.

FATO ZERO 6

Ministra da Agricultura afirma que o Brasil não corre risco de desabastecimento. Governo está com estoques de alimentos praticamente zerados. O estoque de arroz do governo dá para o consumo de um dia da população.

CONSEQUÊNCIA

O governo continua incentivado a e exportação e deixando o “mercado” responsável pelo abastecimento dos alimentos a população.

FATO ZERO 7

Parlamentares do Núcleo Agrário do PT e Movimentos Socais do Campo iniciam a elaboração o PL-735. Debate com todos os setores da Câmara, com líderes do governo. Apresentam iniciativas relacionadas ao crédito, auxílio emergencial, fomento, comercialização e apoia as mulheres trabalhadores rurais. Diálogo vai até junho. São 16 artigos para incentivar a produção de alimentos para a agricultura familiar. A Câmara dos Deputados e Senado aprovam praticamente por unanimidade.

CONSEQUÊNCIA

Bolsonaro veta 14 artigos do PL 735, alegando não serem de interesse público as medidas de incentivo à produção de alimentos pela agricultura familiar.

Setembro de 2020

FATO ZERO 8

Supermercados apresentam ao Presidente o problema do abastecimento de arroz e seus reflexos sobre a alta nos preços dos alimentos;

CONSEQUÊNCIA

Bolsonaro acusa os donos de supermercados de falta de patriotismo, mas se recusa a “intervir no mercado”

FATO ZERO 9

IBGE publica estudo sobre a alimentação em 2017 e 2018 (PNDA Segurança Alimentar)

CONSEQUÊNCIA

10,3 milhões de brasileiros em situação insegurança alimentar grave. (FOME). 84,9 milhões de brasileiros tem algum grau de insegurança alimentar.

FATO 10

INFLAÇÃO DOS ALIMENTOS DISPARA.

Inflação de alimentos e bebidas atinge 8,21%,

Chegando a 9,75 % nos domicílios.

CONSEQUÊNCIA

Governo ZERA tarifa de importação de arroz, soja e milho.

  • Ao fim ao cabo, portanto, Bolsonaro INTERVÉM NO MERCADO, mas beneficiando apenas as grandes empresas importadoras de alimentos;

O Brasil passa a importar os produtos em que lidera a produção mundial.

Sabemos que a complexidade dos fatos aqui tratados vai muito além do que este documento se propõe a analisar – existem outras variáveis passíveis de serem relacionadas, como variações cambiais, preços nos mercados internacionais, demanda internacional, produção x área plantada, utilização de  produtos alimentares na produção de combustíveis (soja » biocombustível / milho » etanol etc.), renda e consumo da população, enfim, uma multiplicidade de fatores, que um governo   precisa analisar e gerir,  o que não acontece  no Brasil.

O que pretendemos demonstrar, no entanto, é que apoios a setores estratégicos como a agricultura familiar camponesa e a reforma agrária para a produção de alimentos básicos são fundamentais. Os 10 fatos apresentados acima deixam claro que os impactos da pandemia não explicam sozinhos a situação atual da carestia dos alimentos. Finalmente apresentamos a seguir três exemplos ancorados em dados oficiais que demonstram o descaso do governo Bolsonaro com a agricultura familiar, o abastecimento alimentar e a inflação. 

  1. Cortes da proposta de orçamento para a Agricultura Familiar do governo Bolsonaro.

 

  • Promoção e fortalecimento da estrutura produtiva da agricultura familiar de pequenos e médios produtores

      2019: R$ 168.279.292

      2020: R$ 16.641.211

      2021: R$ 14.041.326

     Variação: corte de 91%

 

  • Promoção e fortalecimento da Comercialização e acesso aos mercados

      2020: R$ 18.664.082

      2021: R$ 9.542.922

      Variação: corte de 49%

 

  • Programa de Aquisição de Alimentos – PAA

     2019: R$ 251.630.000

     2020: 151.630.000

     2021: 101.677.800

     Variação: corte de 60%

*Cabe ressaltar que em 2012, o Governo Federal   investiu 1,2 bilhões de reais na aquisição de alimentos da agricultura familiar pelo PAA para doar à população em situação de insegurança alimentar, beneficiando 13 milhões de brasileiros e brasileiras.

  1. Redução da execução do orçamento para formação de estoques de alimentos pelo Governo Bolsonaro.

O orçamento do Governo para Formação de Estoques Públicos (AGF*) em 2019 foi de 1,4 bilhões, valor que se manteve em 2020. Porém os valores efetivamente pagos pelo governo (% executado) foram de 182 milhões em 2019 (apenas 13 %); e em 2020 (até o mês de setembro), 98 milhões (apenas 7%).

III. Aumento do preço dos alimentos pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor, que mede a inflação para quem tem renda de 1 a 5 salários-mínimos). 

A variação nos preços de alguns de alimentos básicos entre janeiro e setembro de 2020 teve um aumento, em média, de 28%, sendo quase todos acima dos 10% e chegando em alguns casos a mais de 50% e até 70%, como verifica-se a seguir:

Feijão Fradinho:…………..70,03%                                      

Óleo de Soja:……………….51,35%

Limão:………………………..51,35%

Arroz:…………………………40,48%

Manga:……………………….45,10%

Cenoura:……………………..36,27%

Feijão Preto:………………..34,50%

Cebola:……………………….34,24%

Leite Longa Vida:…………29,91%

Tomate:………………………26,90%

Fígado Bovino:…………….22,52%

Alface:………………………..15,74%

Farinha de Trigo:………….14,94%

Açúcar Cristal:……………..14,65%

Costela Bovina:……………13,68%

Carne de Porco:……………12,42%

Carne Seca e de Sol:……..12,18%

Farinha de Mandioca:….. 11,10%

Frango em Pedaços:………8,21%

Ovos de Galinha:…………..8,04%

Porcentagem de aumento nos preços de alimentos de janeiro a agosto de 2020 / Newuald

Certamente há muitos outros fatores para além dos exemplos aqui apresentados, mas a ambição deste documento não é apresentar um estudo minucioso, mas tão somente provocar a reflexão e responsabilização pela situação insegurança alimentar que o Brasil infelizmente volta a viver. É preciso mais do que nunca denunciar a tragédia da volta da fome em nosso país como consequência do golpe de 2016 e a implementação de uma agenda ultra-neoliberal pelo governo Bolsonaro. 

*AGF => Aquisição do Governo Federal. É o que o governo federal compra para armazenar e formar estoques estratégicos para momentos de falta de alimentos. Em 2019 e 2020 os armazéns da Conab tem apenas arroz para o consumo de um dia da população brasileira. 

*Rogério Neuwald é engenheiro agrônomo; Samuel Carvalho é cientista político.

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Acampamento do MST em MG é alvo de despejo em meio à pandemia

Forças policiais realizam ação contra famílias do Quilombo Campo Grande na madrugada de quarta (12)

As famílias seguem no local e tentam negociar a permanência na área – Foto: MST

O acampamento Quilombo Campo Grande, que reúne 450 famílias sem-terra no município de Campo do Meio, localizado no sul de Minas Gerais, é alvo de despejo iniciado na madrugada desta quarta-feira (12). A ação conta com dezenas de viaturas e policiais de outras cidades.

A reintegração de posse, que prevê a retirada da vila de moradores e da estrutura da Escola Popular Eduardo Galeano, foi emitida pela Justiça estadual mesmo sob decreto de calamidade pública em Minas Gerais devido à pandemia do novo coronavírus. As famílias seguem no local e tentam negociar a permanência na área. Até o momento, apenas a área da Escola foi reintegrada.

Famílias permanecem no local e denunciam gravidade da reintegração em meio à pandemia / Foto: MST

Integrantes da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) denunciam que a responsabilidade por feridos ou mortes em decorrência de um conflito direto com as forças policiais são de responsabilidade do governador Romeu Zema (Novo), que permitiu o despejo em meio à crise de saúde pública sem precedentes no país.

Segundo o MST, a decisão descumpre acordo firmado em mesa de diálogo sobre o conflito, para que as famílias permanecessem no local ao menos enquanto houvesse necessidade de isolamento social.

Ainda de acordo com o movimento, a ostensividade policial é frequente contra os acampados. Em 30 de julho, por exemplo, mais de 20 policiais invadiram casas no acampamento e prenderam o sem-terra Celso Augusto, conhecido como Celsão, que foi liberado no mesmo dia.

Conforme relataram os acampados, os agentes entraram nos imóveis armados de fuzis e pistolas, quebrando portas e janelas. O MST denuncia ainda que, no dia anterior ao despejo, a polícia rondou o acampamento com viaturas e drones, intimidando as famílias.

Histórico

Os acampados vivem na área da usina falida Ariadnópolis, da Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo (Capia), que encerrou as atividades em 1996.

As famílias do Quilombo Campo Grande ocupam o terreno desde 1998 e são referência na produção agroecológica. A região do sul de Minas, conhecida por ser a maior produtora de café do Brasil, é berço do café orgânico e agroecológico Guaií. Os agricultores também desenvolvem atividades como plantio de cereais, milho, hortaliças e frutas.

MST ressalta responsabilidade do governador Zema, que permitiu que as famílias fossem alvo do processo de reintegração / Foto: MST

MST ressalta responsabilidade do governador Zema, que permitiu que as famílias fossem alvo do processo de reintegração / Foto: MST

Com a iminência da reintegração de posse, o Quilombo recebeu dezenas de vídeos e manifestações de solidariedade. Cartas foram enviadas ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais e uma petição online contra o despejo envolveu representantes de 24 países, 32 entidades internacionais e nacionais, e outros 98 coletivos.

Outras entidades como o Conselho Estadual de Direitos Humanos (Conedh), a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM), a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedese) alertaram, sem obter respostas do Tribunal de Justiça, para os riscos da reintegração em meio à pandemia.

“Essa é a realidade quando se coloca fascistas no governo. Mesmo sendo de conhecimento de todos a manobra corrupta feita com um juizeco local, nenhum órgão público conseguiu interceder para que as famílias ficassem em suas casas, mesmo no meio da pandemia. Mas nós aprendemos sempre a voltar mais fortes. E eles podem esperar, vai ter retorno. Essa terra é nossa por direito e não abrimos mão de nenhum centímetro dela”, afirma Tuíra Tule, da direção estadual do MST.

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Justiça suspende reintegração de posse do Centro Paulo Freire, em Caruaru (PE)

Decisão que impede o despejo do espaço de formação foi publicada na noite de terça-feira (15)

O Centro de Formação Paulo Freire está há 20 anos sob gestão da associação de assentados de Normandia / Foto: Arquivo MST

O pedido de reintegração de posse do Centro Paulo Freire, maior espaço de formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no Nordeste, foi suspenso na noite desta terça-feira (15) pelo desembargador Manoel de Oliveira Erhardt, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região.

Em seu despacho, ele defende a possibilidade de conciliação entre o Assentamento Normandia e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), autor do pedido de despejo.

A ordem de reintegração de posse foi emitida em setembro e deveria ser cumprida até a última quinta feira (10), mas uma nova decisão judicial adiou por mais 30 dias o despejo, agora suspenso pelo desembargador.

Na sentença, Erhardt ressaltou que há a efetiva utilização da área comunitária do Assentamento Normandia, que gere o centro de formação, com atuação em diversas áreas de interesse social. O desembargador destacou a formação acadêmica e a produção da associação dos trabalhadores do assentamento (Atranor).

Incra pediu a reintegração em 2008, após um desacordo envolvendo quatro famílias assentadas a respeito do uso da área. No entanto, segundo o MST, passados 11 anos, a divergência deixou de existir.

Na decisão, Erhardt alertou para a gravidade do despejo. “Há fundado perigo de produção de danos irreparáveis na imediata reintegração de posse, sendo recomendável a prévia tentativa de resolução amigável do conflito”, registrou, afirmando ainda que, “em caso de insucesso na via conciliatória”, o Incra poderá recorrer.

A área de 15 hectares onde se encontra o Centro de Formação Paulo Freire está há 20 anos sob gestão da associação de assentados de Normandia, nome da antiga Fazenda Normandia, que foi ocupada pelos trabalhadores rurais em 1º de maio de 1993.

Após um longo período de resistência, houve, em 1998, a desapropriação para fins de reforma agrária e indenização ao antigo proprietário.

Na área, vivem 41 famílias, que têm como espaço coletivo o centro de capacitação, três agroindústrias, 52 alojamentos, salas de aula, auditório para 700 pessoas, centro comunitário, quadra esportiva, academia pública para atividades físicas, creche e refeitório.

Procurado pela reportagem, o Incra afirmou não ter informações sobre a decisão.

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Simpósio proporciona vivências relacionadas à Agroecologia no Vale do São Francisco

Proposta é aliar teoria e prática, com oficinas, apresentações e vivências em áreas de referência

Durante o simpósio, os participantes conhecerão experiências desenvolvidas na região relacionadas a vários temas / GAU Agroecologia

O I Simpósio Transdisciplinar em Agroecologia (I SITRAG) acontecerá entre 08 e 10 de novembro na região do Vale do São Francisco. O evento é organizado pela parceria entre  grupos de agroecologia, organizações não governamentais (ONG’s), movimentos populares  e universidades da região, como o Grupo de Agroecologia Umbuzeiro (GAU), Universidade do Estado da Bahia (UNEB),  Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), Sertão Agroecológico, Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Rede Territorial de Agroecologia.

O objetivo do Simpósio é relacionar e aprofundar diversos temas de várias áreas de estudo relacionados à Agroecologia, como a medicina, comunicação e pedagogia. Além das inscrições para ouvintes, é possível apresentar trabalhos durante a programação do evento. As inscrições para apresentação de trabalhos vão até a próxima sexta (26) e custam apenas 10 reais.

O evento contará com um momento de aprendizado através de oficinas sobre regularização fundiária, segurança alimentar, medicina popular, educomunicação, metodologias participativas, agrobiodiversidade e várias outras temáticas. Haverão também visitas para conhecer experiências relacionadas aos temas em comunidades quilombolas, assentamentos, Escolas Família Agrícola (EFAs) e centros de formação.

As inscrições na modalidade ouvinte ou monitor/a e poderão ser feitas através do site https://comunicacaogau.wixsite.com/umbuzeirogau/inscricao, onde também é possível conferir a programação completa. Outras dúvidas e informações podem ser resolvidas entrando em contato pelo número 74) 99137-9217.

Por Vanessa Gonzaga

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Crítica em Movimentos

Marcha Lula Livre homenageia Tereza de Benguela, Ligas Camponesas e Prestes

Movimentos da Via Campesina caminharão em três colunas que se encontrarão em Brasília.

Marchantes montam acampamento em Luziânia / Foto: Joyce Fonseca

A Marcha Lula Livre, organizada por movimentos populares que integram a seção brasileira da Via Campesina, homenageia a partir desta sexta-feira (10) personagens e processos históricos das lutas do povo brasileiro: Tereza de Benguela, as Ligas Camponesas e Luís Carlos Prestes.

A manifestação, que ocorrerá entre os dias 10 e 15 de agosto, parte organizada nas colunas Tereza de Benguela, Ligas Camponesas e Luís Carlos Prestes, dos municípios de Formosa, Engenho das Lajes e Luiziânia, em Goiás, rumo a Brasília, onde se encontrarão no próximo dia 15. No último dia, quando deve ocorrer o registro de candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, um ato político está previsto.

Além da defesa do direito de Lula ser candidato, a marcha tem como objetivo denunciar o contexto político brasileiro, marcado, segundo os organizadores, por retrocessos sociais e ataques à soberania nacional. É o que explica Marina dos Santos, integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“É uma marcha em defesa dos direitos da classe trabalhadora, do campo e da cidade. Hoje nosso pessoal está chegando, com ônibus do Brasil inteiro. Teremos a participação de 24 estados. Amanhã, sairemos as três colunas em marcha, com duas fileiras cada. Todos os movimentos que fazem parte da Via Campesina Brasil farão parte e estarão conosco”, disse.

Marcas da resistência

Tereza de Benguela foi uma liderança da resistência quilombola durante o século 18. O dia 25 de Julho é legalmente dedicado a ela e às mulheres negras. A coluna, em sua homenagem, será composta majoritariamente por militantes das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil.

As Ligas Camponesas foram um importante movimento pela reforma agrária, com atuação a partir de 1945 até o golpe militar de 1964. Militantes nordestinos marcharão em sua memória.

Já Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, foi um líder tenentista e, mais tarde, quadro comunista. Ele será celebrado por marchantes do Sul e Sudeste.

Alexandre Conceição, também do MST, explica que a Marcha é uma iniciativa dos trabalhadores em um “grave contexto” que se soma a outras frentes de luta, como o Dia Do Basta, a Greve de Fome e festivais culturais pedindo a liberdade de Lula.

“A crise política no Brasil nos trouxe até aqui. Marchar novamente é preciso para manter a esperança. Nós estamos em mobilização permanentemente para que se liberte o presidente Lula e, ao mesmo tempo, o povo tenha direito a seu voto e de escolher livremente o seu candidato. Aquilo que eles prometeram com o golpe, a Ponte para o Futuro, a população já entendeu que foi a ponte para a miséria, para a volta da fome e do desemprego”, afirma.

Durante a Marcha, cada integrante caminhará em média 12 quilômetros por dia.

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Acesso a terra, educação e lazer: os desafios que os jovens enfrentam no campo

2º Acampamento Nacional da Juventude Sem Terra denuncia falta de políticas e cortes no Pronera

Brigada de Agitação e Propaganda Carlos Marighella, encena o leilão das riquezas nacionais para o “Tio Sam”. TÁ TUDO À PREÇO DE BANANA / Foto: Luiz Fernando

O 2º Acampamento Nacional da Juventude Sem Terra, em Corumbá de Goiás (GO), ocorre no estado onde a proporção de jovens e idosos no meio rural, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é a mais desigual. O estado registra 17 produtores idosos para cada produtor jovem.

O dado é do último Censo Agropecuário, publicado há duas semanas. A pesquisa mostrou a desproporcionalidade entre as faixas etárias dos produtores rurais: apenas 5,4% têm menos de 30 anos.

Comparado com o Censo de 2006, os dados apontam para um processo de envelhecimento da população do campo: em 2017, a participação de idosos de 65 anos de idade ou mais na direção das propriedades rurais foi de 21,41%; há 11 anos, eles correspondiam a 17,52%.

São Paulo e Minas Gerais seguem o ranking dos estados com a população rural mais velha, proporcionalmente, com 16 e 12 produtores acima de 60 anos para cada produtor jovem com menos de 30.

Os desafios que a juventude enfrenta para permanecer no campo foi um dos temas do acampamento nesta terça-feira (7).

Aniele de Souza Alves, de 20 anos, cresceu no Assentamento Antônio Conselheiro, no município de Theobroma (RO). Ela conta que, ao longo dos anos, viu muitos colegas saírem da cidade em busca de oportunidades de emprego, principalmente nas grandes capitais.

Ane, como é conhecida, estuda e auxilia a família na produção de derivados de leite. Ela afirma que a grande dificuldade para os jovens que decidem ficar é a falta de um sistema de educação contextualizado com as necessidades locais.

“A escola que tem lá [em Rondônia] não é voltada para a realidade do campo. Se fosse uma escola onde as pessoas, desde criancinhas, já aprendessem que o campo é um lugar bom para se viver e que eles não teriam que ir para as cidades para trabalhar, talvez eles não teriam esse pensamento”, diz a sem-terra.

É o mesmo que afirma Renata Menezes da Silva, do Assentamento São Bento II, localizado no Pontal do Paranapanema, interior de São Paulo.

“Tem muito jovens que saem dos assentamentos para estudar. Isso é muito bom para gente, porque é juventude se formando; mas é ruim que eles tenham que sair do assentamento para que isso se concretize. A ideia é que, nós jovens do campo, possamos ter acesso à educação e ensino superior a partir da nossa perspectiva”, afirma a militante.

Renata defende políticas públicas como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), projeto de acesso à educação superior a jovens camponeses.

O programa do governo federal, no entanto, sofreu cortes drásticos nos últimos três anos. Em 2015, os recursos para o Pronera somavam R$ 32,5 milhões, mas, em 2017, caíram para R$ 14,5 milhões. Já em 2018, o orçamento destinou apenas R$ 7,7 milhões ao programa – uma queda de 76% quando comparado a 2015.

Identidade camponesa

Para o jovem paraibano Diones Lopes, de 22 anos, o processo do êxodo rural está relacionado com a falta de identificação dos jovens com o campo. Ele mesmo só passou a se identificar como camponês quando teve contato com o movimento popular, há apenas três anos. Hoje, ele integra a Pastoral da Juventude Rural.

“Eu era um jovem rural que tinha como intuito estudar para sair do campo e morar na cidade porque o sistema, de certa forma, nos impõe isso desde o início. Depois que conheci a Pastoral, eu mudei essa perspectiva, me identifiquei como jovem e hoje busco agregar esse espaço para que a juventude camponesa possa continuar lutando para continuar no campo”, diz.

O rapaz pondera que faltam políticas públicas voltadas para quem decide permanecer no campo. “A juventude camponesa tem muita dificuldade de conseguir crédito juvenil, para que o jovem possa ter uma autonomia financeira no campo. E tem outra questão, que é a reforma agrária. Nós não temos terra. A maioria da juventude não consegue permanecer no campo porque não tem terra para produzir e estar nela, morando nela.”

Campo sem gente

O professor de Educação no Campo da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Melquisedeque Fernandes, afirma que é recorrente os estudantes reclamarem, também, da falta de opção de lazer no campo.

“O campo tem se tornado muito pouco um lugar de vida e muito mais um cenário de investimento de vários setores”, lamenta o professor. “O projeto de vida de permanecer no campo implica se render a essas pouquíssimas opções do que é o entretenimento.”

De acordo com ele, os projetos para as áreas rurais são prioritariamente produtivos e não pensam, por exemplo, a dimensão cultural do campo. “As políticas públicas que, de fato, pretendem alterar esse cenário de esvaziamento da juventude do campo tem que considerar, primeiramente, o campo como espaço de vida – não um espaço de empreendimento, meramente”, adiciona.

Além da falta de políticas públicas estruturais para manter a juventude no campo, Paulo Henrique Campos, do Coletivo Nacional da Juventude Sem Terra, do MST, pontua o avanço do agronegócio – e, consequentemente, a expansão da mecanização do trabalho, da monocultura, da concentração de terras e do uso extensivo de agrotóxicos – como o principal fator para a saída dos jovens do campo.

“Esse modelo de produção do agronegócio, na sua própria gênese e proposta, é para tirar e expulsar as famílias do campo. Ele não gera emprego no campo, apesar da mídia e os grandes meios de comunicação venderem essa ideia de que o agronegócio gera emprego no campo. Isso é uma falácia”, diz.

Ele pontua que os movimentos populares ligados à Via Campesina, como o MST, têm construído alternativas como as agroindústrias e cooperativas de produção, no âmbito do trabalho e renda.

“É uma luta e uma disputa permanente para ter esses espaços nos assentamentos de reforma agrária no meio rural brasileiro”, completa Paulo Henrique.

Acampamento

Com o lema “Juventude Sem Terra: organizando a rebeldia pro projeto popular”, o acampamento nacional da Juventude Sem Terra teve início nesta segunda-feira (6) e ocorre até quarta-feira (8). O encontro antecede a Marcha Nacional Lula Livre, no dia 10 de agosto. Cerca de 500 jovens do MST e outras organizações estão presentes no evento.

Por Rute Pina

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Matérias

Polícia se retira do Pontal e trabalhadores e trabalhadoras seguem reocupando a área

Segundo um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Florisvaldo Araújo, as famílias estão mais fortalecidas e articuladas e não sairão do local. “Reivindicamos 2 mil hectares dessa área para assentar as famílias que estão acampadas aqui”, afirmou.

Presença da polícia mo assentamento Dom Tomás – Pontal – Petrolina- PE, na tarde de sábado 26/05/18. Foto: WhatsApp

Depois de terem sido expulsos pela polícia no último dia 08, dos assentamentos Dom Tomás e Democracia, na região do Pontal, município de Petrolina, PE, atendendo ação movida pela Codevasf, e após reocupação do assentamento Dom Tomás, ocorrida na manhã de sábado, 26, os trabalhadores e trabalhadoras rurais passaram por mais um momento de tensão. É que a polícia foi novamente ao local ontem, tentar retirar as famílias que lutam pela posse de parte da terra que tem mais de 30 mil hectares.

Florisvaldo Araújo – Coordenador do MST na região. Foto: Angela Santana

Segundo um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Florisvaldo Araújo, as famílias estão mais fortalecidas e articuladas e não sairão do local. “Reivindicamos 2 mil hectares dessa área para assentar as famílias que estão acampadas aqui”, afirmou.

Momento em que a polícia chegou no assentamento Democracia – Pontal. Foto: WhatsApp

Conforme informações de Cleidimar Souza, uma das assentadas e líderes do movimento, os policiais não tinham mandado de reintegração de posse e foram convencidos pelos organizadores do movimento a se retirarem do local.

Nesse momento os trabalhadores e trabalhadoras prosseguem construindo os barracos para abrigarem as mais de 300 famílias oriundas dos assentamentos Dom Tomás e Democracia, que resolveram se juntar em um só local para fortalecer a luta pela terra.

As famílias ficaram revoltadas depois que foram expulsas e viram, na primeira etapa da licitação do Pontal, uma lista de pessoas ricas contempladas em detrimento dos trabalhadores e trabalhadoras, que tiveram suas plantações destruídas e  sem o direito sequer de retirarem os seus pertences dos barracos.

 

Matérias

Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais reocupam terras do Pontal em Petrolina, PE e polícia tenta retirá-los novamente

“Terra não é mercadoria, nós vamos lutar contra isso, queremos reabrir esse debate, a sociedade de Petrolina já entendeu que essa licitação que está aí é fajuta, atende a famílias, a grupos empresariais e políticos de Petrolina, em vez de atender aos trabalhadores e trabalhadoras que residem nessa área”, protestou coordenador do MST. Veja vídeo

Assentamento Dom Tomás – Pontal. Foto: Angela Santana

Na manhã deste sábado, 26, aproximadamente 300 famílias voltaram a ocupar as terras do Projeto Pontal no município de Petrolina, PE. Segundo Florisvaldo Araújo um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) da região, a reocupação do pontal tem vários objetivos: primeiro a garantia de que essa terra com mais de 30 mil hectares possa servir para produção de alimentos produzidos pelos trabalhadores e trabalhadoras da nossa região, onde em sua maioria são nativos do Pontal;  retomar o debate do Pontal e impedir que a terra seja entregue de mão beijada. “ Terra não é mercadoria, nós vamos lutar contra isso, queremos reabrir esse debate, a sociedade de Petrolina já entendeu que essa licitação que está aí é fajuta, atende a famílias, a grupos empresariais e políticos de Petrolina, em vez de atender aos trabalhadores e trabalhadoras que residem nessa área”, protestou.

Florisvaldo Araújo (MST) – Foto: Angela Santana

De acordo com Florisvaldo hoje é um dia importante em que os trabalhadores e trabalhadoras, que tiveram toda sua plantação esmagada, reocupam a área do assentamento Dom Tomás, junto com as famílias do assentamento Democracia com intuito de recomeçar o processo produção e a partir disso se fortalecer e continuar lutando pela reocupação e colocar o debate do Pontal. “A gente convoca toa a população para dar apoio e entender a importância dessa reocupação e colocar o debate do Pontal para a sociedade”, disse.

Foto: Angela Santana

Ainda conforme Florisvaldo são mais de 300 famílias que estão retornando ao Pontal depois da ação truculenta da Codevasf, impedindo que os trabalhadores tirassem sua produção, inclusive os seus pequenos bens. “Hoje retomamos, a princípio vamos reorganizar as famílias, reconstruir os barracos e para semana reiniciar o processo de produção”, afirmou.

Foto: Angela Santana

Repressão

Questionamos o coordenador do MST sobre a possibilidade de nova expulsão das famílias. “Esperamos que não aconteça novamente, aquela ação foi equivocada a Codevasf usou de muita truculência, com toda aquela estrutura de repressão, até de helicóptero, esperamos que isso não venha a se repetir. Dessa vez as famílias estão mais fortalecidas e preparadas, a população está dando apoio, dessa vez a conjuntura é outra. E está provado que essa licitação é imoral e nós vamos continuar lutando, defendendo essas terras e se a Codevasf continuar fazendo que que vinha fazendo, transformando essa área em mercadoria vai ser mais um erro e o sonho do Pontal pode virar pesadelo para toda a população”, concluiu.

A pouco nossa redação recebeu um telefonema de uma das assentadas, Cleidimar Souza, dando conta de que a polícia está no local, bastante armada, querendo novamente expulsar as famílias do Pontal.

É esperado que as autoridades tomem providência no sentido de garantir a integridade das famílias que estão no Pontal, principalmente as crianças e idosos.

Veja vídeo com entrevista de Florisvaldo Araújo coordenador do MST

 

 

Notícias

Cartilha ilustra quem e como se lucra com o mercado dos agrotóxicos

Com tiragem de 3 mil exemplares, material apresenta de forma didática as consequências do uso de veneno em escala global

Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxico e essa situação pode se agravar no futuro – Créditos: Rafael Stedile

Quem são os atores mais interessados em flexibilizar o uso dos agrotóxicos em escala global? Quem lucra com os US$ 57 bilhões por ano que o mercado de veneno movimenta? Dar essas respostas de maneira simples é a proposta da cartilha Rotas do Veneno, lançada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) neste domingo (6).

O evento ocorreu durante a 3ª edição da Feira Nacional da Reforma Agrária, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Luz González Escalona, assessora da secretaria de Meio Ambiente da CUT Nacional, explica que a cartilha é resultado de um seminário realizado no ano passado pela entidade sobre o tema em parceria com a Fundação Friedrich Ebert, que também apoiou o projeto.

“Ela trata de uma forma bem didática, com ilustrações e textos que levam para outras referências e falam de como o mercado de agrotóxicos impacta em diversos aspectos da vida do trabalhador”, afirma Escalona.

O documento também explica as consequências das grandes fusões das empresas multinacionais e o oligopólio das seis principais empresas do setor: Monsanto, DuPont, Bayer, Syngenta, Dow e Basf — que respondem a cerca de 75% do mercado mundial de agrotóxicos.

Outro ponto da cartilha é a articulação dos parlamentares que compõe a bancada ruralista no Congresso Nacional para pressionar por alterações na legislação dos agrotóxicos, como o PL 6.299/2002, apelidado de PL do Veneno.

Campo e cidade

A CUT integra a Campanha Permanente contra os Agrotóxico e pela Vida, frente de mobilização e articulação de organizações que atuam para a denúncia dos efeitos do uso do veneno na agricultura e reivindicam o fortalecimento da Política Nacional de Redução dos Agrotóxicos (PNaRA).

Janeslei Aparecida Albuquerque, secretária nacional de relação com os movimentos sociais da CUT, condições de vida dos trabalhadores nas cidades e, por isso, é um debate que extrapola o campo.

“Não é só questão da doença, mas que tipo de sociedade e de relações que a gente estabelece com a comida na medida em que se aceita e se naturaliza comer veneno. Quem adoece mais é justamente quem tem menos acesso a um atendimento de saúde de qualidade e que também é quem está consumindo a comida mais envenenada”, afirmou.

O documento refuta a ideia que a produção em larga escala só pode ser feita com a utilização de agrotóxicos. Para Janeslei, os sem-terra mostram que é possível fazer diferente com a comercialização de mais de 1,2 mil itens de todo o país em São Paulo e com a democratização dos alimentos orgânicos.

A primeira tiragem da cartilha é de 3 mil exemplares, mas a edição também está sendo distribuída gratuitamente pela internet. Você pode fazer o download do material aqui.

Por Rute Pina

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Notícias

Marcos Tiaraju: 1º bebê nascido em um acampamento do MST e médico formado em Cuba

Hoje, aos 32 anos, o filho de Roseli Seleste Nunes da Silva e José Correa da Silva é um dos 10 médicos que atuam pelo MST no Estado. Nas últimas semanas, percorreu milhares de quilômetros e visitou mais de 20 cidades acompanhando a caravana do ex-presidente Lula pela região Sul.

Marcos Tiaraju conversou com a reportagem durante a parada da Caravana de Lula em Pontão, terra da Fazenda Annoni, onde sua mãe foi morta | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Em 31 de outubro de 1985 nascia na Fazenda Annoni, um latifúndio de 9 mil hectares ocupado dois dias antes por pelo menos 1,5 mil famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o primeiro bebê a vir ao mundo em um assentamento do MST no Brasil. Diante de todo simbolismo que aquela ocupação e aquele nascimento significavam para o movimento, o nome dele não seria definido por pai e mãe, mas pelo voto das famílias daquela comunidade que se formava. A escolha foi homenagear um guerreiro que havia lutado contra impérios pela preservação de seu território em um Rio Grande do Sul ancestral e cujo nome significava “raio de luz” em guarani: Marcos Tiaraju.

Hoje, aos 32 anos, o filho de Roseli Seleste Nunes da Silva e José Correa da Silva é um dos 10 médicos que atuam pelo MST no Estado. Nas últimas semanas, percorreu milhares de quilômetros e visitou mais de 20 cidades acompanhando a caravana do ex-presidente Lula pela região Sul.

Marcos Tiaraju conversou com a reportagem durante a parada da Caravana de Lula em Pontão, terra da Fazenda Annoni, onde sua mãe foi morta | Foto: Guilherme Santos/Sul21

O filho de Rose

A ocupação da Fazenda Annoni, à época pertencente ao município de Ronda Alta – hoje, Pontão -, no noroeste do Estado, era algo que jamais tinha se visto. Logo em seus primeiros dias, chegou a abrigar 7,5 mil pessoas. Era uma demonstração de força de um movimento que havia conseguido organizar, nacionalmente, a luta pela terra, que, historicamente no Brasil, ocorria de forma isolada.

O cenário chamou a atenção da documentarista carioca Tetê Moraes, que resolveu contar essa história, costurando-a pela narrativa de uma mulher, uma liderança sem terra, que chegara ao local no dia da ocupação com o marido e os dois filhos, uma menina de quatro anos e um menino de quase dois, grávida e prestes a dar à luz. Roseli Nunes daria nome ao documentário “Terra para Rose”, lançado em 1987.

Rose, mesmo com três filhos pequenos, cumpriria o papel de organizar a luta, o que a levou a estar, no dia 31 de março de 1987 – 31 anos completados ontem -, em um trevo de acesso à cidade de Sarandi, na BR-386, junto com outros integrantes do movimento e um grupo de pequenos agricultores que compartilhava o anseio por melhores condições para plantar. Ali, ela e outros 13 pessoas seriam atropeladas por um caminhão de uma empresa agrícola carregado com barras de ferros. Aos 33 anos, morreria, juntamente com Vitalino Antonio Mori, 32, e Iari Grosseli, 23. Em junho de 1988, a CPI da Violência da Assembleia Legislativa, presidida pelo então deputado estadual Adão Pretto (PT), que ajudara a fundar o MST no Estado, concluiria que não se tratava de um acidente, mas de um crime acidental. A perícia apontou que, a 400m de distância de onde ocorria a manifestação, o motorista já tinha visibilidade e, portando, tempo hábil para frear e parar o caminhão. Ninguém seria preso, mas a empresa proprietária do caminhão seria condenada a indenizar as famílias das vítimas.

Coube a José criar Marcos, então com 1 ano e meio, e os irmãos, com 6 e 3 anos. Um homem que junto com a esposa havia tentado trabalhar no campo em Ronda Alta e Rondinha, mas sem nunca ter tido casa própria. Com três filhos pequenos, decidiu tomar o ruma da cidade. Em Sarandi, começou a trabalhar como pintor. Pintava casas para sustentar a família. Mas essa era uma lida difícil. No verão, havia emprego. Quando as chuvas e o frio tomavam conta do noroeste do Estado, o emprego minguava. Faltava dinheiro e alimento na mesa. Vendo os filhos revirarem o lixo em busca de comida, foi obrigado a migrar pela região.

Rose e Marcos ainda bebê em imagem do filme de Tetê Moraes | Foto: Reprodução ‘Terra para Rose’

Foi nesse contexto que Tetê Moraes voltaria a encontrar a família para continuar a contar a história do movimento, mais uma vez pelos olhos de Rose, dando origem a um novo documentário que viria a se chamar “O Sonho de Rose”. “Ela nos encontra nessa realidade no município de Rondinha. Em condições bastante precárias do ponto de vista social, econômico”, conta Marcos, que na época tinha entre 10 e 11 anos. “O nome da minha mãe acabou sintetizando aquela luta que era de várias mulheres, de várias famílias, várias Roses e vários Josés. E, quando ela nos encontra, naquela realidade, o documentário ajuda a estimular um debate dentro do movimento sem terra de que era necessário que a família da Roseli Nunes, que iniciou o processo de luta pela terra, que morreu, que deu a vida por essa causa e que não conseguiu acesso à terra, também cumprisse o sonho de Rose.”

E assim José e os filhos voltariam a conviver com o movimento. Em 1998, ele e o filho mais velho haviam migrada para Porto Alegre em busca de melhores condições de trabalho, ainda atuando como pintor. Marcos ficara em Rondinha, junto com a madrasta, para terminar a 7ª série e à espera de uma notícia de que a vida do pai melhorara. O que veio, em 1999, foi um pequeno pedaço de terra em um assentamento do MST em Viamão. Adolescente e ainda no colégio, Marcos não teria um local propício para ficar. “Então, uma família me convidou para morar no assentamento de Nova Santa Rita. É o primeiro contato que eu venho a ter com um assentamento, com 14 anos. Eu nasci num acampamento, minha mãe perdeu a vida na luta pela terra, porém até os meus 14 anos era uma história que em casa não se comentava. Talvez pelo trauma, pela dor da lembrança, meu pai também não comentava sobre isso. Então eu venho a conhecer as minhas origens aos 14 anos.”

Por outro lado, todos os conheciam. Era o Marquinhos, o Tiarajuzinho, o filho de Rose, sem ainda entender direito o que aquilo significava. Ao mesmo tempo em que começava a tomar parte da luta pela reforma agrária, Marcos também passou a buscar informações sobre a sua história e sua mãe, sobre a qual aquelas pessoas sabiam mais do que ele. Foi assim que passou a entender que Rose não tinha sido acometida por uma fatalidade. “A minha mãe não havia simplesmente falecido, ela havia sido morta, assassinada”. Marcos conta que sentiu uma mistura de raiva, tristeza e revolta quando finalmente conheceu a história de sua mãe. Sentimentos que transformou em vontade de saber mais, conhecer mais da realidade que poderia ter sido a sua desde criança.

Placa homenageia à memória de Roseli Celeste Nunes da Silva, no cemitério onde está enterrada, na Fazenda Annoni | Foto: Gerson Costa Lopes/Especial para o Sul21

“Ao chegar em Nova Santa Rita, ver como era a vida de quem morava nesse assentamento e comparar com a minha, que morava na vila, ao escutar as pessoas falando de como a minha mãe era, que era uma liderança, que era uma mulher à frente do tempo dela, que puxava as outras mulheres, que era respeitada, que lutava, que foi morta, aí eu comecei a fazer a ligação e entender que a morte dela não era simplesmente um falecimento, era um assassinato decorrente de um processo de luta de classes. Então, aquela raiva, aquela tristeza, aquela revolta foram se convertendo em combustível para a minha decisão de que aquele era o caminho que eu queria seguir para mim e para minha família mudar de vida. E, me veio a compreensão que, se essas famílias hoje conseguem estender a mão para eu vir morar no assentamento, é porque elas fizeram um processo de luta e não esqueceram dos que ainda não conquistaram a terra. Aí vem a segunda compreensão, eu não posso lutar só por mim, só pela minha família, mas eu tenho que entrar nesse processo de luta pela transformação da sociedade”, relata Marcos.

E foi assim que o primeiro bebê nascido em um assentamento do MST, aos 14 anos, passava a militar no movimento, participando de acampamentos, ocupações de terra, marchas, protestos.

Tornando-se médico em Cuba

A chegada de Marcos Tiaraju à militância ocorre num momento em que o MST começa a se transformar – mudança que se acentuaria a partir do governo Lula. Se no princípio o movimento era uma coalizão de pessoas que não tinham propriedade alguma e lutavam pela reforma agrária, agora já possuíam acampamentos, se organizavam em assentamentos. A luta passava a ser a de conquistar melhores condições de vida para as famílias assentadas – acesso à moradia, saúde, escola, sementes, crédito, estradas, formas de escoamento da produção, etc. – e construir um modelo novo de sociedade. “O MST com o tempo vai aprendendo, vai crescendo em consciência social, em consciência política, em consciência organizativa e vai surgindo esse terceiro elemento, que é o da transformação da sociedade. A conquista pela terra não era mais o capítulo final da história”, diz Marcos, ressalvando, porém, que a luta pela reforma agrária ainda está longe de terminar.

Foi nesse contexto que Marcos partiu, em 2 de maio de 2005, junto com milhares de outros membros do MST, em uma marcha de Goiânia (GO) a Brasília (DF) para cobrar do governo Lula maior celeridade na distribuição de terras e melhorias nos assentamentos que duraria 17 dias. Quando a marcha já batia às portas da Capital Federal, em uma data que não recorda com exatidão, um companheiro do movimento visita a sua barraca à meia-noite para lhe avisar que Cuba estava oferecendo uma vaga ao movimento no curso de Medicina criado para abrigar jovens de países pobres no mundo e que, por decisão da coordenação do movimento, a vaga era dele, se assim quisesse. Marcos, que nunca tinha pensado em ser médico na vida, tinha até as 7h da manhã seguinte para decidir se tomaria o rumo da ilha caribenha dali a seis dias.

“Eu nunca sonhei em ser médico, porque não fazia parte da minha realidade. A minha cabeça, e a de todos os jovens, pensava de acordo com o local onde os pés estavam pisando. A minha realidade era assentamento, acampamento, luta pela terra”, conta. “Eu pensei: ‘Como é que o médico se encaixa nesse negócio? Eu não sabia de Medicina, era um jovem de 19 anos. Mas sabia que o médico cura, não deixa a pessoa morrer. Se ele não deixa a pessoa morrer, então ele também defende a vida. Então, se como ser humano eu quero me dedicar a salvar vidas, lutando por melhorias materiais na vida dessas pessoas e está surgindo a oportunidade de estudar, me qualificar, para salvar vidas também de outra forma e eu entendo que buscar o conhecimento é importante, eu digo: ‘Eu vou estudar Medicina’”.

Marcos durante o período em que viveu em Cuba | Foto: Arquivo Pessoal

Em Cuba, Marcos conheceu uma sociedade que, por um lado, havia alcançado educação e saúde públicas universais e de qualidade – uma realidade ainda distante no Brasil de hoje. Por outro, vivenciou as dificuldades materiais de um país que, há décadas, está mergulhado em um regime sob embargo econômico dos Estados Unidos e uma democracia com liberdades restritas.

Percebeu que as pessoas mais velhas, que haviam vivido sob a ditadura de Fulgêncio Batista, eram defensoras do regime castrista porque haviam vivenciado uma profunda transformação material de qualidade de vida. Já os jovens, queriam ter direito a outras coisas. Se no princípio via esses críticos do regime como contrarrevolucionários, como ‘gusanos’ (vermes, na tradução do espanhol), a partir da metade de sua estadia passou a compreender que eles não queriam destruir as conquistas da revolução cubana, mas sim avançar. “Eu entendi que, por mais que as melhorias sociais venham, por mais que as conquistas venham, a geração que nasce com aquilo conquistado em algum momento não vai se contentar com aquilo, vai querer chegar mais longe”.

O mesmo que ele acabaria vendo dentro do próprio movimento sem terra. Afinal, se tinha sido o primeiro a nascer em um assentamento, fora seguido por milhares. “Meu pai trabalhou como pintor uma época da vida, foi sem terra, agricultor, assentado e hoje o filho dele é médico. Você vê que aquilo que no início bastava para os meus pais, para minha geração já não é suficiente, nós queremos e podemos chegar mais longe, e temos direito a isso, então eu compreendo os jovens cubanos nessa lógica, de que eles querem chegar mais longe porque é natural do ser humano querer progredir”.

No entanto, entende que é preciso fazer uma separação entre querer ter acesso a mais coisas e progredir como resultado de um processo de luta coletiva, em que há um direito a ser conquistado. “A maioria das pessoas quer ser alguém na vida, ter acesso a coisas materiais, quer estudar. Nós também queremos, mas não é só isso, queremos avançar em conjunto, queremos debater com a sociedade, queremos melhoria para todos”.

Para Marcos, atuar na Caravana de Lula foi uma tarefa política e uma obrigação moral | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Marcos se formou em 2012, mesmo ano em que foi aprovado no Revalida. Em 2013, se apresentou ao MST com o diploma e apto para exercer medicina no Brasil. Por decisão do movimento, retorna à Nova Santa Rita e se soma a outros nove médicos do movimento, colocando-se à disposição para atuar em acampamentos, assentamentos e nas demais atividades do movimento, como o acompanhamento médico de marchas, protestos, etc. E é assim a sua trajetória se cruza com a do ex-presidente Lula. Neste março de 2018, foi escalado para participar como auxílio médico da caravana pelo Sul do País.

A caravana e a luta política

Militante em diversas atividades do MST e supervisor acadêmico do programa Mais Médicos ligado à Universidade Federal da Fronteira Sul, Marcos já havia participado de eventos com os ex-presidentes Lula e Dilma. Mas desta vez coube a ele cumprir uma tarefa política, que entende como a defesa do direito de o ex-presidente concorrer novamente ao cargo.

“É uma obrigação moral com o governo que mais fez a defesa da vida, que mais deu moradia, que mais permitiu que jovens pobres como eu pudessem acessar a universidade, que permitiu às pessoas comerem três vezes ao dia, que permitiu que as pessoas pudessem sonhar com uma vida melhor e, portanto, ter vida de verdade. Não tem como eu não me comprometer a ajudar. Então, vim para a atividade assumir a tarefa delegada a mim pelo MST e pela Frente Brasil Popular”.

Marcos vê no processo jurídico contra Lula um mesmo movimento que acostumou-se a ver contra o MST, isto é, um processo acompanhado de uma campanha midiática de criminalização, de disseminação de histórias negativas. “Criaram uma história, inventaram fatos para desmoralizar, que é o que fizeram a vida inteira com o nosso movimento. Baderneiros, vagabundos, pegam as terras para vender, um bando de bêbados, só querem roubar, uma série de coisas negativas. Mas não se fala que a maior produção de arroz orgânico da América Latina é no assentamento de Viamão, do MST; que as áreas de proteção ambiental de maior envergadura são nas áreas de assentamento; que as áreas onde se faz um debate para não usar veneno, para não usar agrotóxicos para não agredir o meio ambiente, para ter um desenvolvimento sustentável, estão nos assentamentos”.

Morando em Sério, um pequeno município no Vale do Taquari, interior do RS, com a mulher Karen, costarriquenha também formada em Medicina em Cuba, e a filha de 1 ano e 3 meses do casal, Bianca Seleste – uma homenagem à Rose -,Marcos segue à disposição do movimento.

“Se hoje eu tenho essa história, não é graças a mim, não é porque eu sou mais inteligente, porque eu sou mais bonito. Eu não queria ter perdido minha mãe, eu preferia que ela estivesse viva. Eu não pedi para ser médico, a história me delegou isso. Nós não determinamos o surgimento da revolução cubana, mas ela surgiu e pensou em formar médicos pobres. Então, a história foi evoluindo de uma maneira que me colocou nesse caminho. Há alguns meses, essa tarefa da caravana não existia. Mais uma vez a história cobra uma atitude e me coloca nessa situação. O que vem depois? Não será decisão minha, estou à disposição do grupo social ao qual pertenço, que é o grupo dos pobres, apesar de ser médico, dos sem terra, apesar de já ser assentado, por uma consciência social e não por uma condição social”.

Por Luís Eduardo Gomes

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