Entrevistas

1ª Mostra de Cinema dos Quilombos dá voz à resistência de comunidades históricas

Projeto mineiro busca catalogar a filmografia quilombola e incentivar a produção

Cena do filme Blackout, de 2016, dirigido coletivamente (MCQ?Divulgação)

Liberdade é palavra particular para os negros e, em especial, para os quilombolas, herdeiros de tradições seculares e de resistência centrais na constituição da nação chamada Brasil. A diversidade desta cultura é tema da 1ª Mostra de Cinema dos Quilombos, que se inicia neste sábado (22), com uma live às 17h, quando será lançado Nove águas, de Gabriel Martins realizado comunitariamente com o Quilombo Marques. A mostra segue em cartaz, virtualmente, até 5 de setembro, com a exibição online e gratuita de sete filmes. É a primeira seção de um projeto gestado e realizado em Minas Gerais e que, entretanto, tem alcance e importância nacional.

Inédita, a mostra é fruto de longa pesquisa e do desejo de pesquisadores de reunir, tornar pública e incentivar uma produção específica, porém muito necessária, de e sobre este território denominado quilombo. Desdobramento do Cine Cipó – Festival do Cine Insurgente, existente desde 2011, essa mostra é um primeiro passo de um projeto bem mais amplo.

Cardes Amâncio, doutor em Estudos de Linguagem (Cefet-MG) e coordenador da iniciativa, conta que “a pesquisa surgiu a partir da necessidade de se fazer um levantamento sobre os filmes realizados em quilombos, sobre quilombos, por quilombolas e por não quilombolas aliados na luta”. Embora a produção referente a esse universo já circule por festivais, ele relata que ainda é incipiente e dispersa, por isso, decidiu criar uma plataforma para reuni-la e exibi-la.

“A ideia é fazer um levantamento do maior número de filmes possíveis, por isso a gente optou pelo formato de fazer um chamado de fluxo contínuo, ou seja, o chamado vai ficar aberto por tempo em indeterminado”, explica, confessando ser “um admirador da resistência da força dos quilombos brasileiros”. Para tanto, se uniu a duas pesquisadoras – Alessandra Brito e Maya Quilolo -, que também assinam a curadoria. “É muito importante também esse olhar feminino e esse olhar negro para essa curadoria”, pontua Cardes.

Num momento em que o atual governo brasileiro insiste em desprezar a cultura de povos historicamente vilipendiados, a proposta ganha mais relevância. Para os curadores, o projeto não é apenas tornar pública a realidade quilombola, o que já é um ato político relevante, mas há um cuidado em participar, fomentar e dar voz a essas comunidades.

A antropóloga, comunicadora e realizadora Maya Quilolo explica que a mostra “abarca diversos olhares sobre as comunidades quilombolas, uma vez que é de entendimento que a inserção do audiovisual e a acessibilidade do cinema nessas comunidades ainda é muito precária”. Ela insiste na necessidade de “ampliar as ações de formação audiovisual nas comunidades, tendo em vista a diversidade dessas comunidades e a riqueza cultural que oferecem ao Brasil”. Explica que o levantamento “abarca diversas produções realizadas por pessoas quilombolas e não quilombolas”.

Cardes Amâncio afirma que “o desejo do Cinemas dos Quilombos é ser um guarda-chuva para esses filmes (quilombolas), servir de arquivo, de catálogo, de fonte de pesquisa para que tanto expectadores quanto pesquisadores possam encontrar uma grande variedade de títulos num lugar só”. Sobre a linguagem desta produção, ele acredita que, a partir dessa reunião de filmes, num tempo de médio ou longo prazo, será possível “perceber um pouco se existe uma linha em comum”. “A gente vai descobrindo isso ao longo das próximas mostras, e da ampliação da circulação desses filmes.”

Maya diz que, nessa mostra, a prioridade foi dada “às produções feitas a partir de uma direção quilombola, de um olhar quilombola sobre sua própria comunidade”. E adianta que, nos bate-papos – online, diante das atuais circunstâncias – com os realizadores, haverá espaço para discutir sobre essa experiência do fazer e sobre esse olhar próprio, além de “como o cinema pode contribuir na luta por direitos dessas comunidades”.

A diversidade de linguagem, gêneros e olhares são inerentes quando se reúne uma produção vasta, porém pouco catalogada, o que torna inútil buscar, ainda, traços em comum para qualquer classificação, o que, geralmente, reduz justamente a beleza da diversidade. No entanto, Cardes aponta alguma direção – embora insuficiente de ser rotulada: “Uma temática em comum é a liberdade, a busca da liberdade”. “Desde a época da escravidão, a busca e manutenção dessa liberdade alcançada agora e sempre, desde a abertura da época democrática, mas durante a época da ditadura também, tantos os quilombolas – comoo os indígenas e a população rural em geral – sofrem preconceitos raciais, étnicos e precisam estar em constante luta. Por isso é importante que todos nós nos engajemos numa luta antirracista ampla.”

ENTREVISTA COM OS CURADORES DA MOSTRA:

Qual a importância de se discutir as questões sobre a herança africana neste momento atual?

Maya Quilolo – Recentemente, no Brasil, as comunidades quilombolas e indígenas vêm sofrendo uma série de ataques aos seus direitos constitucionais. Um dos objetivos da mostra é dar visibilidade às pautas dessas comunidades, pensando na importância das comunidades quilombolas na própria formação do Brasil e também na preservação dos valores de cultura africana. A gente vive um momento em que o Brasil está abraçando o ideal de nacionalidade, que exclui essas comunidades e que as violentam de uma maneira muito explícita. Então, um dos objetivos da mostra é divulgar a diversidade dessas comunidades, suas pautas, o modo de vida dessas pessoas e a importância do legado das comunidades quilombolas para preservação do patrimônio cultural, natural e a própria história do Brasil, numa perspectiva, não eurocêntrica.

Como os filmes da mostram lidam ou evidenciam a questão da territorialidade?

Alessandra Brito – O Fábio Martins, um dos diretores que terão filmes exibidos na mostra, comentou que o território ainda é o tema sobre o qual muitas produções audiovisuais feitas nos quilombos se debruçam. Isso é latente, até porque a ameaça aos povos quilombolas, e também aos povos indígenas, se dá com o avanço sobre suas terras, e consequentemente, seus modos de vida. Então, a territorialidade está evidenciada na materialidade da luta. A territorialidade passa por outros elementos sensíveis, como ancestralidade, o narrar sobre as origens dos quilombos, sobre os mais velhos, o desejo de contar a história dos quilombos. A noção de territorialidade é sobre essa memória, que, por sua vez, se entrelaça completamente com o presente, pois, defender um território é defender também essa memória. É importante ressaltar que a luta é mais que pela moradia em si. Há um desejo de enfrentar a História oficial – assim com H maiúsculo -, que foi muito negligente com a história dos quilombos.

E qual é o futuro do ‘filme quilombola’?

Cardes Amâncio – Acho que os filmes vão acompanhar a diversidade dos quilombos do Brasil, que são tanto urbanos quantos rurais. E o cinema dos quilombos ainda é um cinema em nascimento. Tem muito filme bom aí já realizado e muito filme ainda por ser feito. Podemos citar o Fábio Martins, que está com dois filmes, nesta primeira rodada da mostra e está preparando o primeiro longa dele; l Danilo Candombe, que está com um curta também – Sonhos de um negro (2004) – e que talvez seja uma das primeiras ficções realizadas por um quilombola. Tem outros projetos, por exemplo, Quanto Vale, que foi um documentário sobre o crime ambiental da Vale (do Rio Doce) e tem outros filmes que ele está querendo produzir.

1ª MOSTRA DE CINEMA DOS QUILOMBOS

De 22 de agosto a 5 de setembro

Disponível em: https://cinecipo.com.br/cinema-dos-quilombos/

Gratuito

Programação:

Sonhos de um negro (Danilo Candombe, 2004)

(Rafaela Araujo, Marina Albino, Alexandro kuary, Patricia, Bianca Lucio, Eduardo xexeu, Antonio Garcia, Fabio Martins, Rafael Guedes, 2018)

A Sússia (Lucrécia Dias, 2018)

As contas do Rosário (Maycol Mundoca, 2020)

Blackout (Adalmir José da SIlva, Felipe Peres Calheiros, Francisco Mendes, Jocicleide Valdeci de Oliveira, Jocilene Valdeci de Oliveira, Martinho Mendes, Paulo Sano, Sérgio Santos, 2016)

Nove águas (Gabriel Martins e Quilombo dos Marques, 2019)

LIVES:

Lançamento online do filme Nove águas com a participação dos moradores do Quilombo dos Marques Delei, Dione, Maria Eunice, Wiliam, Delmiro, José de Nego, Aristóteles

22 de agosto, às 17h

Mediação: Gabriel Martins e Cardes Amâncio

Encontro de realizadores quilombolas: Danilo Candombe, Fábio Martins, Lucrécia Dias e Maycol Mundoca

27 de agosto, às 17h

Mediação: Alessandra Brito e Maya Quilolo

Por Pablo Pires Fernandes

https://domtotal.com/

 

 

Notícias

Petrolina recebe Mostra de Cinema “Nueva Mirada”

Festival Internacional de Cinema “Nueva Mirada”

Foto: Reprodução.


De 21 a 23 de maio, o Sesc traz para Petrolina a 2ª Mostra Itinerante do Festival Internacional de Cinema “Nueva Mirada”, voltada para a infância e juventude. As exibições são gratuitas e ocorrerão no Cineteatro CEU das Águas, sempre às 17h, no bairro Rio Corrente. A Mostra Itinerante é resultado de uma parceria entre o Departamento Nacional do Sesc e da associação civil sem fins lucrativos Nueva Mirada. Em Petrolina, a iniciativa tem o apoio da Prefeitura Municipal.

A programação conta com curtas e longas-metragens que estão fora dos circuitos comerciais de TV e cinema e que priorizam a diversidade cultural e o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Na terça-feira (21/5), ocorre a abertura com a exibição de oito animações de diversos países. Entre elas, estão “Ormie, o porquinho”, dirigida por Rob Silvestri (Canadá); “Rodas, Band-Aids e Pirulitos”, de Maria Medel (Espanha); e “A Aula de Natação”, de Danny de Vent (Bélgica).

No dia seguinte, o público poderá conferir mais nove curtas, entre eles “O relógio de areia”, de Pierre Schwarz (França); “A campainha”, de Dustin Rees (Suíça); e “Sou Redondo”, de Mario Adamson (Suécia). Na quinta-feira (23/5), a programação será encerrada com o longa “O Galo de São Victor”, dirigido por Pierre Greco (Canadá). A animação conta a história do prefeito de São Victor, que se orgulha da ordem e do dinamismo econômico da cidade, atribuído ao seu mascote, um galo que desperta todos os aldeões às quatro horas da manhã com precisão.

Nueva Mirada – é uma associação civil sem fins lucrativos, especializada em cultura, indústria cultural e comunicação, declarada de interesse cultural e educativo nacional pelo governo da Argentina. É membro da Aliança Global para a Diversidade Cultural e da Unesco e do Centro Internacional de Cinema para a Infância e a Juventude (Cifej). O objetivo da Nueva Mirada é contribuir para o desenvolvimento cultural e educativo de crianças, adolescentes e jovens, mediante a capacitação audiovisual em matéria de novas tecnologias de informação e comunicação, de formação de valores, promoção de direitos, conhecimento e compreensão da diversidade cultural.

Sesc – O Serviço Social do Comércio (Sesc) foi criado em 1946. Em Pernambuco, iniciou suas atividades em 1947. Oferece para os funcionários do comércio de bens, serviços e turismo, bem como para o público geral, a preços módicos ou gratuitamente, atividades nas áreas de educação, saúde, cultura, recreação, esporte, turismo e assistência social. Atualmente, existem 20 unidades do Sesc do Litoral ao Sertão do estado, incluindo dois hotéis, em Garanhuns e Triunfo. Essas unidades dispõem de escolas, equipamentos culturais (como teatros e galerias de arte), restaurantes, academias, quadras poliesportivas, campos de futebol, entre outros espaços e projetos.

Programação:

Dia 21

“Ormie, o porquinho”, dirigida por Rob Silvestri (Canadá)

“Rodas, Band-Aids e Pirulitos”, de Maria Medel (Espanha)

“A Aula de Natação”, de Danny de Vent (Bélgica)

“Lumi”, de Martin Piana (Argentina)

“Kostya”, de Anton Dyakov (Rússia)

“Grande Prêmio”, de Marc Ribas e Anna Solanas (Espanha)

“O Príncipe Rato”, de Albert Radl (Alemanha)

“Corrida”, de Jãnis Cimermanis (Letônia).

Dia 22

“O relógio de areia”, de Pierre Schwarz (França)

“A campainha”, de Dustin Rees (Suíça)

“Sou Redondo”, de Mario Adamson (Suécia)

“Sinfonia monstruosa”, de Kiana Naghshineh (Alemanha)

“Rising Hope”, de Milen Vitanov (Alemanha)

“O Caçador de Frangos”, de Pascale Hecquet (Bélgica)

“Lágrimas de um Palhaço”, de Claudio Sá (Portugal)

“Sinalizador”, de Adrian Flückiger (Suíça)

“Tarde ou Cedo, de Jadwiga Kowalska (Suíça).

Dia 23

“O Galo de São Victor”, dirigido por Pierre Greco (Canadá)

Serviço – Mostra “Nueva Mirada”

Local: Cineteatro do CEU das Águas, Endereço: Rua do Tamarindo, s/n

De 21 a 23 de maio, às 17

Entrada gratuita

Informações: (87) 3866-7454

 

Via Sesc Pernambuco

Notícias

Petrolina recebe Mostra Sesc de Cinema

Mostra circula por sete cidades, com 18 curtas e 2 longas que terão exibição gratuita

Neste mês de junho, a produção cinematográfica pernambucana vai circular por sete cidades do estado, indo da Região Metropolitana do Recife ao Sertão. Dezoito curtas e dois longas vão integrar a Mostra Sesc de Cinema, que vai ter exibição gratuita nas unidades de Garanhuns, Caruaru, Arcoverde, Goiana, Belo Jardim, Casa Amarela e Petrolina, onde os filmes serão exibidos de 7 a 9 de junho.

É a primeira edição do projeto nacional, que selecionou trabalhos inéditos de cada estado e vai eleger seis para representar o Nordeste na próxima etapa. As produções, de ficção e documentário, foram vencedoras da seleção realizada no início deste ano, com 55 inscrições. Como prêmio, vão circular pelas sete cidades e, após a última temporada, em Petrolina, serão anunciados os destaques da etapa estadual, sendo Melhor Roteiro e Melhor Direção, tanto para os curtas quanto para os longas-metragens, e ainda os filmes que foram indicados para a etapa regional e premiados com o licenciamento em Pernambuco. Serão 4 curtas e 2 longas que vão representar a região na etapa nacional do projeto, que acontecerá no segundo semestre em vários estados, inclusive em Pernambuco.

“É uma ferramenta em que apostamos para difundir nossa produção, valorizar o olhar local e continuar referendando Pernambuco como um grande polo de produção e formação de público”, explica a instrutora de atividades artísticas do Sesc em Pernambuco, Naruna Freitas.

As produções selecionadas foram “O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras”, de Petrônio Lorena; “Ramo”, de Hugo Coutinho, João Lucas, Pedro Andrade e Rafael Amorim; “Abigail”, de Isabel Penoni e Valentina Homem; “História natural”, de Júlio Cavani; “Homens e caranguejos”, de Pedro Andrade; “Um brinde”, de João Vigo; “Quarto para alugar”, de Enock e Carvalho e Matheus Farias; “Autofagia”, de Felipe Soares; “João Heleno dos Brito”, de Neco Tabosa; “Nosztalgia”, de Vanessa Malheiros e Wayner Tristao; “Fora de quadro”, de Txai Ferraz; “Milagres”, de Adalberto Oliveira; “Avenida Presidente Kennedy”, de Adalberto Oliveira; “Olhos de botão”, de Marlom Meireles; “Catimbau”, de Lucas Caminha; “Lá vem”, de Chia Beloto; “Noites traiçoeiras”, de João Lucas; “FotogrÁfrica”, de Tila Chitunda; “Cheiro de Melancia”, de Maria Cardozo; e “Soledad”, de Flávia Vilela, Daniel Bandeira e Joana Gatis. A programação varia de acordo com a cidade.

“Estamos sendo uma ponte entre alguns jovens diretores, que terão a oportunidade de apresentar seus primeiros trabalhos, como Felipe Soares (Autofagia), e de nomes já reconhecidos, como Petrônio Lorena (O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras), ressalta Naruna. A classificação é variada, tendo opções livres, e a programação varia de acordo com a unidade que sediará a Mostra Sesc de Cinema. Informações podem ser obtidas nas unidades ou no site www.sescpe.org.br.

Sesc e audiovisual – Além de possuir equipamentos nas unidades para exibições sistemáticas de filmes para crianças e adultos, o Sesc tem se voltado para expandir sua atuação no audiovisual no estado. Em 2016, realizou o Circuito Sesc do Cinema Pernambucano, que realizou 81 exibições em cinco cidades, atingindo mais  de 5mil espectadores. Além disso, apoia iniciativas como a Mostra Canavial de Cinema, o FestCine e o Festival de Cinema de Triunfo.

Programação

Sesc Petrolina – a partir das 19h

7 de junho: Abigail | O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras

8 de junho: História natural | Fora de quadro | Um brinde | Autofagia

9 de junho: FotogrÁfica | Homens e caranguejos | Olhos de botão

Texto Fabiano Barros