Coluna K

Sobre o novo ativismo de direita

Esse texto debate a existência de um novo ativismo de direita no Brasil. Ele toma como base de argumentação as movimentações existentes a partir de 2013 (jornadas de junho) e explora seus atores principiais.

 

Gabriel Pugliese[1]

 

É comum imaginar para os mais jovens e também para uma parte dos intelectuais de esquerda portadores de uma “síndrome de oráculo com lapso de memória”, que o fenômeno atual – amparado nas redes sociais e nas ruas – da ascensão do novo ativismo de direita deve-se a inépcia de uma parte da classe trabalhadora (a famigerada classe média) ao pensamento e ao mesmo tempo a sua manipulação por meio da mídia oficial brasileira. De um lado, a inépcia ao pensamento levaria um conjunto de trabalhadores com um acesso maior ao consumo de massas não se reconhecer enquanto classe trabalhadora e, de outro, como isca fácil das grandes corporações de mídia (principalmente a Rede Globo) essas pessoas seriam levadas a defender interesses que não são os seus, mas os do capital financeiro e do empresariado por meio da manipulação. De fundo, o que se espera, é a redenção, um grande despertar – quase religioso –  de uma classe que encontrar-se-á consigo mesma e se realinhará com os seus próprios interesses no futuro, quando se libertar das amarras de um poder finalmente denunciado.

Gostaria de colocar o problema de maneira um tanto diferente. Pois aprendi com uma incrível professora um preceito importante para a vida política: para combater um adversário político com destreza é preciso, sobretudo, levá-lo a sério enquanto adversário e conhecer seu argumento e suas artimanhas. Para tanto é necessário de uma vez só livrar-se dessas duas teses simplistas e antiquadas (falta de consciência e poste de manipulação) que orientam o modo como a intelectualidade da esquerda majoritária lida com a força que a direita vem readquirindo. Como entusiasta da democracia, essa velha senhora caprichosa, convido a todos a tentar compreender esse fenômeno por outros meios, em nome mesmo da pluralidade que é a condição humana da política.  Porque, afinal, não há nada pior para a democracia do que a grosseria de manter ouvidos moucos para os adversários com o pretexto de que não sabem o que estão dizendo, pensando e agindo.   Em tempos em que é reinante o discurso antipolítico, é imperativo não ser à esquerda a primeira a jogar a pedra, pois, para lembrar Samuel Butler “não existe pior perseguidor de um grão de milho, do que outro grão de milho quando está identificado com uma galinha”.

A direita brasileira tem uma história longa e bem diversa, que se manifesta também hoje nas diferentes concepções e ações dos atores que se envolveram na derrubada da presidenta Dilma Rousseff.  Da década de 30 do século passado para cá, podemos lembrar de alguns como a Ação Integralista Brasileira; o Movimento Eugênico Brasileiro; os think tanks anticomunistas e ligados ao empresariado e a inteligência norte-americana que corroboraram fortemente com o golpe de 64, a saber, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais[2]; Tradição, Família e Propriedade da Igreja Católica; a própria Ditadura Militar e seus correligionários; os caçadores de marajás; o malufismo; os olavisistas etc. Tudo isso para ficar somente com alguns e sem tocar em partidos conservadores.

Portanto, é fato, que boa parte das bandeiras levantadas na atualidade – principalmente após os primeiros momentos das jornadas de junho de 2013 – são mais históricas do que parecem à primeira vista, quando tratadas como “pura alienação”. O ódio aos “esquerdopatas comunistas”, o nacionalismo, a defesa dos militares, o grito “é sem partido”, as posições contarias a todas as minorias, o elogio ao “Tio Sam” apoiado financeira e logisticamente por ele, o combate a corrupção e o padrão FIFA, a ROTA na rua acompanhada pelo soneto “bandido bom é bandido morto”, a guerra contra o marxismo cultural universitário etc, são bandeiras históricas da própria política brasileira recente.

Para compreender essa colcha de retalhos de posições, tão distintas entre si e que ganham uma certa coalização embreante em 2013, é preciso destacar dois protagonismos, antigos em suas demandas, mas novos em relação aos meios estratégicos utilizados para angariar força. O primeiro deles é o Deputado Jair Bolsonaro, e o segundo o Movimento Brasil Livre, que só se mantiveram próximos durante o período que foi conveniente.  Basta dizer, acerca de Bolsonaro, que ele coagula os interesses militares, nacionalistas, de combate as minorias e, por fim, e mais importante, o combate a corrupção como estandarte moral. Ou seja, os extratos da direita mais radical que encontravam eco recente em um malufismo com a vantagem moral do combate a corrupção. Nos últimos anos, com as denúncias em relação a Paulo Maluf (aquele que rouba mas faz) e a Celso Pitta, a força do malufismo esvaneceu-se, sendo absorvido por uma estratégia das alas mais conservadoras do PSDB até encontrar um catalizador ainda mais pertinente. Como já escrevi um texto sobre Bolsonaro em 2017[3], me dedicarei ao MBL no presente texto.

O Movimento Brasil Livre é resultado de uma estratégia de um conjunto de jovens brasileiros que montaram no país uma filial do think tank Studants for Liberty em 2012, o Estudantes pela Liberdade, para poderem participar dos movimentos das jornadas de junho de 2013 que depois desembocaram nos movimentos que culminaram no golpe parlamentar que ainda estamos vivendo. Como demonstrou Marina Amaral[4], os então diretores do think tank no Brasil, Juliano Torres e Fabio Ostermann, para escapar a legislação norte-americana que proíbe a atuação política de suas fundações, criaram um nome fantasia para participar das jornadas de 2013: o MBL.

O Studants for Liberty é uma instituição que visa no mundo todo, propagar as ideias econômicas neoliberais radicais, principalmente, mas não exclusivamente da Escola Austríaca de Economia. Daí o bordão mil vezes repetidos: “menos Marx e mais Misses” (em referência a Ludwig Von Misses, patrono de tal escola e autor de, entre outros livros, “A mentalidade anticapitalista” e “ Marxismo Desmascarado”).  Para atingir tais objetivos o SPL forma através de cursos no Brasil e nos EUA, há algum tempo, lideranças jovens com capacidade de oratória e de conhecimento técnico mínimo, para transmitir as noções de libertarismo pró mercado, livre concorrência, meritocracia, eficácia, produtividade, empreendedorismo etc.  Ao mesmo tempo afia seus formandos no combate a tradição da esquerda europeia socialdemocrata, que hoje são majoritárias na esquerda mundial, com propostas como regulação moderada da economia, transferência de renda, impostos progressivos, bem-estar social em saúde e educação etc. Tradição esta que nada mais é do que um tipo de liberalismo que pretendeu humanizar o capitalismo e todos os seus sistemas de desigualdades, muito distante de perspectivas comunistas e revolucionárias. Se olharmos para a história do  Partido dos Trabalhadores no Brasil não é difícil ver a convergência à essas pautas sociais-democráticas, apoiadas nesse tipo de liberalismo europeu, mas que estrategicamente do ponto de vista neoliberal é equiparado com o comunismo. De modo que, qualquer ator político que inicie um discurso sobre regulação da economia, é mandado a cuba[5].

Os Studants for Liberty são financiados por uma meta think tank, a Atlas Economic Research Foundation, capitaneada por grandes empresários americanos, como os irmãos Koch do petróleo, a John Templeton Fundation que é uma gigante do mercado financeiro em Wall Street, entre outras[6]. A propósito, em abril de 2015 Alejandro Chaufuen, presidente da Atlas Network, esteve no Brasil para participar do Fórum da Liberdade, organizado pelo Instituto de Estudos Empresariais (outro instituto financiado pela Atlas com o mesmo objetivo), e não perdeu a oportunidade de vestir a amarelinha e posar com Fabio Ostermann, criador do MBL, durante as manifestações pró-golpe. Disse em entrevista “que o Brasil se tornaria modelo para os outros países da américa latina”[7]. Um dejavú de outros golpes brasileiros e internacionais.  É evidente que as empresas que financiam esses think tanks tem propósitos econômicos em todas as partes do mundo em que atuam. Nessa experiência mundial essas empresas forjaram um ativismo de direita no mundo árabe durante a primavera, que em seguida assumiu cargos públicos com a linha mestra da economia de mercado. E esse foi um passo mais largo para lucrar, na medida em que se depuseram governos com estratégias econômicas que constituam um entrave para à atuação das empresas financiadoras.

Os meninos do MBL não são diferentes.  Os mais ativos, lançados a título de celebridades nas redes sociais, são treinados por essas instituições e delas recebem amparo. Defendem o neoliberalismo ao mesmo tempo que esbravejam o “fora Petralha”. Apoiam a Lava-Jato e o fim da corrupção e simultaneamente, sentaram-se a mesa com Eduardo Cunha para lavrar o pedido de impeachment.  Apoiaram bravamente o golpe para a conquista das reformas do governo Michel Temer e seu ministério de ilustres (corruptos), que tomaram a frente da agenda neoliberal de destruição do Estado de Direito por meio de suas próprias instituições, que não se sustentaria nas urnas. Aplaudem as privatizações do pré-sal, mesmo quando os compradores são empresas estatais de outros países. Hoje são políticos e candidatos a cargos na República brasileira, e além disso disputados por diversos partidos como PSDB, DEM, PSL etc.  Recentemente, o vencedor do leilão eleitoral do MBL majoritariamente foi o DEM, antigo PFL, descendente direto da Arena, partido com um grande número de denúncias de corrupção e articulador do centrão – conjunto de partidos que trocam apoio por benefícios no governo.

Mais que treinados por essas instituições norte-americanas eles são financiados com cifras muito altas e suporte empresarial e logístico. Suas manifestações são profissionais, organizadas, limpas, pacíficas, nada de povo. Tem produtos, ícones do pixuleco (lula vestido de presidiário), camisetas com dizeres antipetistas, apoio televisivo etc, tudo numa velocidade que qualquer sindicato demoraria anos para reunir. Dispõem também de um bom uso das redes, de seus algoritmos, para propagar notícias duvidosas com proposito de destruir reputações[8]. A prova disso é que recentemente o Facebook desativou várias páginas do MBL, que disseminavam notícias falsas. Mas não se tratavam de páginas aleatórias, mas um ecossistema de contas que visavam atingir um maior número de perfis[9]. Tratavam-se de uma engenharia de comunicação robusta que agiu durante as campanhas do golpe e continuará agindo. Esses ecossistemas fazem com que um assunto pareça relevante para muita gente e o algoritmo do facebook dispara para os usuários sem parar.  Com toda essa articulação e estrutura, o MBL esconde suas fontes de financiamento a sete chaves, sob o pretexto de imunidade aos doadores.

A única diferença dos think tanks atuais daqueles que atuaram no golpe 64 e tantos outros golpes mundo a fora é a velocidade da comunicação via internet, suas vicissitudes técnicas e, crucialmente suas finalidades. As estratégias continuam as mesmas: construir uma direita organizada por meio de instrumentos de formação de um sujeito calcado nas pautas neoliberais que são apresentadas como neutras no espectro político. Enfim, um modo de vida que é apresentado como uma ética não mais do trabalho, mas da liberdade – independente do que isso significa. Eficiência, transparência, meritocracia, produtividade, orgulho dos frutos do trabalho são seus mantras, todo um vocabulário que pretende criar um sujeito-empresa que independe de partidos políticos e suas ideologias[10] – que são os dois grandes baluartes (ainda que degradados) da democracia moderna.

Desse modo, não existe nova direita, tampouco um novo ativismo de direita, mas é a batalha que mudou de estilo e encontrou novas territórios: o alvo é a democracia, é a própria política e os modos de vida. É isso que a vanguarda da direita mundial percebeu e tomou para si. Afinal, o capital nunca foi tão móvel e multilocalizado. Assim, ela luta não pelo controle dos Estados (políticos medíocres ficam com esse ônus), mas para dirimi-lo por meio de suas próprias instituições até sobrar somente os dispositivos de segurança; não é pela via dos partidos políticos e das disputas ideológicas, mas pela via das redes de disseminação desse modo de vida antipolítico através da “filantropia” organizada das redes internacionais de think tanks; não é pela força e a violência militar, mas pelo controle das formas de existência. A dupla questão da destruição de direitos tratados como privilégios e a propagação de uma tecnologia concorrencial de sujeito, são os novos campos. O Estado, os partidos e a guerra são meros instrumentos nessas batalhas, não mais os meios centrais de disputa ideológica.

Àqueles da esquerda majoritária que insistem que esse ativismo de direita é um retrato espontâneo de uma ignorância conservadora de classe, manipulada por sua própria fatalidade, fazem de um engano uma enganação. Trabalham na esperança de um despertar redentor. Essa esquerda, além disso, tem tudo para perder a luta política (e pela política) mais uma vez, sem sequer ver a forma do adversário. Nesse caso, a frase de Marx faz todo o sentido: “a história se repete, a primeira vez como tragédia a segunda como farsa”, também para a esquerda. Por outro lado, e enquanto isso, não é difícil um vizinho qualquer, reproduzir todo esse discurso neoliberal com orgulho. Ele trata a política como um negativo, um mal a ser extirpado e reprimi argumentos contrários brandindo a cínica neutralidade: “você está politizando o debate”.

[1] Doutor em antropologia pela USP, professor da UNIVASF e membro do Krisis.

[2] Esses institutos fizeram uma série de campanhas radiofônicas, televisivas e na imprensa escrita com conteúdo anticomunista com objetivo de minar o governo João Goulart e eleger deputados com posições liberais e conservadoras. Com financiamento de empresas americanas e auxilio da Interpol esses institutos tiveram grande importância na difusão dos valores norte americanos no Brasil durante a Guerra Fria. Para saber mais ver:

https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/O_Instituto_Brasileiro_de_Acao_Democratica.

[3] Pugliese, Gabriel. “Bolsonaro 2018!”. Coluna K.  Disponível em https://pontocritico.org/20/03/2017/bolsonaro-2018/. O mais interessante desse texto, como sempre, são os comentários de seus leitores. Nem todos os leitores, é obvio, são eleitores convictos de Bolsonaro, somente a maioria que comentou o texto sem ler e perceber as referências ao próprio Deputado – como sempre indignados com a “esquerdopatia”, essa doença não investigada. A característica mais comum é sempre um esbravejamento virulento, daqueles que cospem ao gritar um argumento pronto e não meditado. Caros colegas bolsonaristas, antes de juntar a trupe e comentar um texto sem ler e discutir os pontos que ele coloca, tal como um tiozão em jantar de família, utilizem seus esforços para extrair uma reflexão sobre a política que não seja um bordão. Tenham um pouquinho de coragem para aceitar o debate ao invés de expor alguns de seus ressentimentos.

[4] Amaral, Marina. “Jabuti não nasce em arvore: como o MBL se tornou lider das manifestações pelo impeachment” in Kim Doria, Murilo Cleto (orgs), “Por que gritamos golpe?” para entender o impeachment e a crise política no Brasil. Boitempo editorial, 2016.

[5] Eis um ponto importante: a estratégia de combate de Von Misses, mas também de Hayek e Friedman, já muito cedo foi clara nesse domínio. Ela aproximou esse liberalismo social com o perigo do comunismo com o discurso de que qualquer intervenção estatal no mercado leva a socialização dos modos de produção e é, portanto, comunista de início ao fim, porque implica em maior ou menor grau na confiscação das liberdades que produzem a competição natural e a riqueza. Para contra argumentar basta observar o número de intervenções estatais feitas nos Estados Unidos – o centro neoliberal do mundo e modelo de sociedade –  para salvar empreendimentos financeiros, industrias e grupos multinacionais, que não foram execradas como ressentidas ações socialistas. Por outro lado, o Obamacare, projeto liberal clássico que pretendia acesso a saúde por meio de uma bolsa (afinal o trabalhador é um capital humano!), foi rapidamente tratado como socialista pelo governo de Donald Trump e contrário a tradição americana. O que vale retoricamente para a mentalidade anticapitalista, deveria valer primeiro para a mentalidade anticomunista porque, do contrário, a pretexto de justificar desigualdades, o discurso transforma-se em uma dissimulação retorica falaciosa.

[6] Amaral, Marina. A nova roupa da direita. Publica, 23 de junho de 2016 disponível em: https://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/. Nesse texto é possível encontrar uma tabela de um dos canais de transparência norte-americanos com os financiadores e os valores astronômicos recebidos por essas fundações para tais objetivos.

[7] Op.cit.

[8] Como se pode perceber não gosto da expressão Fake News por pelo menos duas razões. A primeira é porque ela se apresenta como uma novidade. Nos brasileiros, pelo menos, já conhecemos essas estratégias da imprensa há tempos, pois somos o país da Veja, da Globo, e de práticas coronelistas.  Segundo porque, apesar da mentira deliberada, seus efeitos são reais e irreversíveis a reputação das pessoas atingidas, não sendo possível aviltar a mentira uma vez publicada.

[9] Para saber mais, ver https://oglobo.globo.com/brasil/facebook-derruba-rede-de-fake-news-usada-pelo-mbl-22917346

[10]  Pugliese, Gabriel; Marques, Delcides; Marques, Adalton. Duas ou três palavras sobre a neutralidade política. Coluna K. disponível em: https://pontocritico.org/28/11/2016/duas-ou-tres-palavras-respeito-de-neutralidade-politica/

Notícias

Breve análise sobre o fracasso do MBL no último domingo

O MBL foi às ruas pela primeira vez desde que Dilma saiu do governo e fracassou. Envolvido com Temer, o grupo poupou o atual presidente no protesto. Não é fácil explicar os movimentos duradouros da sociedade brasileira. É mais difícil ainda explicar fenômenos transitórios. Por Fábio de Oliveira Ribeiro, GGN

mbl
Imagem divulgada pelo MBL e por seus líderes para convocar para as manifestações do último domingo (26)

Neste domingo o movimento liderado por Kim Kataguiri foi submetido novamente ao teste das ruas e falhou. O surpreendente sucesso das manifestações contra Dilma Rousseff e a favor do Impedimento se transformou num fracasso.

Não é fácil explicar os movimentos duradouros da sociedade brasileira. É mais difícil ainda explicar fenômenos transitórios.

O conceito de luta de classes, por exemplo, não pode ser ajustado aos 350 anos de escravidão. O sucesso da escravidão no Brasil não teria sido tão grande e duradouro sem o apoio dos próprios escravos. Portanto, a colusão de classes foi mais importante do que a luta de classes.

Aquilo que chamamos de “conciliação das elites”, fenômeno que permitiu a permanência quase inalterada da mesma estrutura de poder sob o regime Colonial, Imperial e Republicano é a expressão máxima desta colusão de classes. Em nosso país as diferenças regionais (tão marcantes nas variedades linguísticas e nos hábitos alimentares) nunca foram capazes de provocar rupturas permanentes entre as elites das diversas regiões. Ocorreu no Brasil algo diferente do que ocorreu entre os espanhóis, cuja colônia sul-americana se transformou em diversos países após os movimentos de independência.

Até a década de 1970, todas rebeliões populares ocorridas no Brasil foram insurgências localizadas e transitórias. Nenhuma delas conseguiu se propagar por todo o território nacional. O PT se consolidou como partido a partir da insurgência dos trabalhadores contra a Ditadura. Findo o regime de exceção, o partido de Lula se ajustou perfeitamente ao cotidiano político nacional e até atraiu o respeito dos militares e a simpatia de uma parte das elites tradicionais.

O sucesso do MBL foi mais imediato do que o do PT, mas o movimento de Kim Kataguiri não conseguiu construir algo duradouro após derrubar Dilma Rousseff. Após unir nas ruas os insatisfeitos que estavam dispersos em torno de um programa mínimo (o Impedimento), o MBL esfarelou justamente porque foi visto (por uma parcela dos descontentes com o PT) como instrumento para um fim e não como um autêntico recomeço.

Após uma meteórica elevação de seu status (de rebelde desconhecido a colunista de um grande jornal), Kataguiri foi rapidamente descartado pelo seu novo empregador. Os interesses financeiros da Folha de São Paulo são atendidos pelo PMDB de Michel Temer e Kataguiri não tem nada além de problemas a oferecer a dono do jornal. Aqueles que não abandonaram o MBL porque tiveram seus interesses atendidos pelo usurpador se afastaram do movimento porque perceberam que a queda de Dilma Rousseff não se traduziu em melhorias e sim em perda de direitos.

Apesar de ser liderado por jovens brancos de classe média do sudeste, o MBL encontra seu paradigma histórico na Revolta dos Malês. Os sucessos imediatos do movimento construíram as condições para sua derrota, pois as estruturas de poder consolidadas eram maiores e mais fortes do que os revoltosos imaginaram. Os poderosos amigos que o MBL fez não precisam do movimento para continuar existindo. Os adversários dos moleques liderados por Kataguiri recuperaram as ruas. O  PT pode ter perdido a presidência, mas não foi destruído. Após o golpe contra Dilma Rousseff a liderança de Lula cresceu ao invés de eclipsar.

Outra explicação pode ser dada pela natureza impermanente das relações construídas pelo MBL. O movimento cresceu na internet e se propagou para rua em razão de uma determinada conjuntura (as rupturas que ocorreram dentro do PMDB e entre o PMDB e o PT). Ele seguiu o movimento inverso daquele que foi realizado pelos adversários da Ditadura.

A resistência à Ditadura começou nas ruas e só se transformou em fenômeno virtual algumas décadas depois quando a própria rede mundial de computadores se tornou uma realidade no Brasil. Portanto, a esmagadora maioria dos militantes de esquerda mais velhos já tinham uma experiência que o MBL não teve tempo de adquirir e de transmitir aos seus novos simpatizantes. Isto explica tanto o sucesso das recentes manifestações contra as reformas de Michel Temer quanto o fiasco deste domingo.

Numa de suas últimas entrevistas Zygmunt Bauman disse que:

“No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando.

Não temos ainda uma visão de longo prazo, e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão, uma é substituída por outra, as manchetes de hoje amanhã já caducam, e as próximas manchetes apagam as antigas da memória, portanto, desordem, desordem.”

http://www.fronteiras.com/entrevistas/a-fluidez-do-mundo-liquido-de-zygmunt-bauman

As palavras dele parecem ter sido confirmadas pelo que ocorreu com o MBL. A marolinha surfada por Kataguiri arrebentou na praia e os líderes do movimento não foram capazes de perceber que a espuma não é o oceano, mas um delicado subproduto que ele deposita na areia. Os militares deles voltaram a navegar… ainda não sabemos onde é que eles estão navegando, mas alguns deles já demonstraram arrependimento no Facebook.

O MBL nasceu num momento de interregno e caducou rapidamente porque uma nova forma de organização política e social ainda não foi capaz de suplantar aquela que verdadeiramente pode controlar os rumos do Brasil. Como a direita virtual européia, o MBL fracassou no seu test drive nas ruas. Em pouco tempo a memória da passagem de Kataguiri pela Folha de São Paulo será esquecida até pelo próprio jornal.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/