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Coaf mostra depósito de R$ 100 mil em outubro na conta de suspeito de matar Marielle

PM reformado Ronnie Lessa, preso por assassinato da vereadora, teve bloqueio de bens declarado

Élcio Queiroz (esq.) e Ronnie Lessa (dir.) são principais suspeitos de executarem o crime. Foto: Reprodução.

O policial reformado Ronnie Lessa, de acordo com um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), recebeu R$ 100 mil em dinheiro, no dia 9 de outubro de 2018, em um depósito de boca de caixa, sete meses após o crime que vitimou a vereadora carioca Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, segundo divulgou na manhã desta sexta-feira (15) reportagem do G1.

O relatório faz parte de um pedido de bloqueio dos bens — para garantir a indenização das famílias das vítimas — de Lessa e do ex-PM Élcio Queiroz. Ambos foram presos nesta terça-feira (12) e são apontados pelas investigações como principais suspeitos de executarem o crime.

Da parte de Lessa, que morava em uma mansão no condomínio Vivendas da Barra, na zona oeste do Rio de Janeiro, próximo ao presidente Jair Bolsonaro, serão bloqueados: uma lancha em Angra dos Reis registrada em nome de um “laranja”, a casa e um carro de R$ 150 mil. Para o Mìnistério Público, os bens são incompatíveis com a renda de um policial militar reformado.

Nesta sexta-feira, Élcio Queiróz e Ronnie Lessa irão depor sobre o crime. Ambos negam o crime. Eles estão presos em flagrante por posse ilegal de arma em suas residências. Além disso, na casa de um amigo de Lessa, foram encontrados 117 fuzis desmontados.

 

Via Brasil de Fato

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Segunda fase de investigação sobre crime de Marielle terá novo delegado

Governador Wilson Witzel afirmou que Giniton Lages está “cansado” e deve passar um tempo na Itália

O delegado Giniton Lajes, que cuidava do caso Marielle.. Foto: Reprodução.

A segunda fase das investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes terá um novo comando na Polícia Civil do Rio de Janeiro. Segundo o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, a troca será pelo “cansaço” do delegado Giniton Lages, responsável por apontar o policial militar da reserva Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz como autores do crime ocorrido em 14 de março de 2018.

Witzel nega que Lages esteja sendo afastado por alguma insatisfação com relação às investigações e explicou que as apurações que duraram um ano até chegarem nos autores desgastaram o delegado, que sairá em férias. Posteriormente, poderá realizar um intercâmbio entre a corporação e a polícia da Itália, com o objetivo de aprender procedimentos adotados contra a máfia local e adaptá-los à realidade carioca.

“Estamos com vários intercâmbios para fazer. Como ele [Giniton] está com a experiência adquirida e nós estamos com o intercâmbio com a Itália exatamente para estudar a máfia, os movimentos criminosos, ele vai fazer essa troca de experiência com a polícia italiana. Ontem (terça-feira, 12 de março) fiz o convite a ele, se ele poderia ser esse elemento de ligação”, explicou o governador.

Fontes ligadas à DH (Divisão de Homicídios) da Polícia Civil do RJ, liderada por Lages, confirmam à Ponte que ele aceitou o convite feito pelo governo. Extraoficialmente, pessoas ligadas à Polícia Civil do Rio de Janeiro apontam que a saída é para promover a efetiva troca geral de comandos dentro das divisões da corporação, o que não foi possível na DH em meio às investigações do Caso Marielle.

Já informações do jornal O Dia creditam a saída de Giniton da delegacia por uma insatisfação de seus superiores dentro da Polícia Civil. O entendimento é de que Lages não repassou informações dos processos de apuração feitos sobre a execução de Marielle e Anderson, como uma reconstituição ocorrida em 26 de fevereiro. Daniel Rosa, atualmente na DH da Baixada Fluminense, ocupará a vaga, ainda segundo O Dia.

O delegado esteve na DH durante a manhã desta quarta-feira, um dia antes do crime completar um ano. Ele não prestou esclarecimentos para a imprensa nem sobre o convite feito por Witzel, nem sobre a suposta insatisfação de seus superiores.

Integrantes do PSOL criticam o apontamento tanto da Polícia Civil quanto do MP de que a ação teria sido motivada por “ódio”, conforme dito em entrevista coletiva nesta terça-feira, à figura de Marielle Franco. Membros do próprio MP questionam a tese do crime de ódio, afirmando que seria muito “amadorismo” um matador profissional agir com raiva.

Rumos da Investigação

A Polícia Civil e o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do MPRJ (Ministério Público Estadual do RJ) prenderam o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, ambos acusados de participarem da execução de Marielle e Anderson. Lessa teria atirado com uma submetralhadora, enquanto Queiroz dirigia o carro. Agora, a Polícia Civil e o Gaeco investigam quem ordenou o assassinado de Marielle nesta segunda etapa.

Os dois permanecem presos preventiva na própria DH do Rio de Janeiro. Lessa foi preso em sua casa em um condomínio rico na Barra da Tijuca, mesmo local no qual o presidente Jair Bolsonaro possui uma residência. Segundo Giniton Lages, o filho mais novo de Bolsonaro teria namorado uma filha de Ronnie, informação que, segundo ele, é irrelevante para as investigações do Caso Marielle.

O PM da reserva Ronnie confessou ter sido avisado de que seria preso, motivo pelo qual a DH e o Gaeco anteciparam a operação que o prendeu. Tanto ele quanto Élcio, preso em sua casa, no Engenho de Dentro, zona norte da capital fluminense, não resistiram à prisão.

Além deles, Alexandre Mota de Souza também está preso ao ter 117 fuzis encontrados em sua casa – a maior apreensão deste tipo de arma na história da corporação fluminense. A vistoria é parte das 32 ações cumpridas de busca e apreensão, divididas entre terça (12/3) e quarta-feira (13/3). A Polícia Civil interrogou Alexandre e Ronnie sobre as armas, que seriam de posse do PM. Eles passarão por audiência de custódia nesta quinta-feira com o juiz, que vai decidir se eles devem ir presos pr

Após a audiência, ambos retornarão para a DH e, só aí, Lessa será interrogado em relação ao assassinato de Marielle e Anderson Gomes, do qual é acusado formalmente pelo MP. Sua defesa nega participação e descarta delação premiada, dispositivo que o governador Wilson Witzel por conta própria afirmou que poderia ser realizado. “[Meu cliente] nega de forma veemente ter feito o crime e, por isso, é impossível confessar algo que não fez”, alegou o advogado, Fernando Santana.

O mesmo acontece com a defesa de Elcio Queiroz. De acordo com o advogado Luís Carlos Cavalcanti Azenha, o cliente “não deve nada e não tem nada a delatar” e que delação premiada é para “criminoso confesso que está querendo algum benefício, como redução de pena. Meu cliente não, não há a menor hipótese de fazer delação”.

 

Via El País

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Arma com inscrição dos Fuzileiros Navais dos EUA é encontrada no arsenal da milícia

Apreensão foi feita pela Polícia Civil como desdobramento de investigações sobre assassinato da vereadora do PSOL

Na foto do material apreendido, consta um componente de um fuzil M27 com inscrição dos Fuzileiros Navais dos EUA. Foto: Reprodução.

A Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil do Rio de Janeiro apreendeu 117 armas na residência de um amigo do policial militar Ronnie Lessa, suspeito de ter executado a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes, há um ano. Em uma foto divulgada do material apreendido, consta um componente de um fuzil M27 com inscrição dos Fuzileiros Navais dos EUA [USMC, em inglês].

Armamento apreendido durante as investigações. Foto: Reprodução.

Mais de cem fuzis do modelo M-16 foram encontrados na casa, localizada no Méier, zona norte do Rio de Janeiro. Segundo a Polícia Civil, um endereço anotado ligado a Lessa também foi encontrado na casa.

O M27 é produzido pela Heckler & Koch, empresa de armas alemã que também tem fábricas nos EUA, na França e no Reino Unido. O modelo se tornou o fuzil padrão dos Fuzileiros Navais dos EUA em 2018.

Foto: Reprodução.

O dono da casa, Alexandre Mota de Souza, confirmou aos investigadores que Lessa é seu amigo de infância e pediu que ele guardasse as caixas sem abri-las.

Acompanhe no Brasil de Fato os desdobramentos da investigação do crime, que completa um ano no próximo dia 14.

 

Via Brasil de Fato

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Ainda não responderam o mais importante: quem mandou matar Marielle, enfatiza viúva

Para Monica Benício, a prisão de dois suspeitos nessa terça (12) é passo importante, mas não é suficiente

O policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, foram detidos nesta terça (12). Foto: Reprodução.

Próximo à data que marca um ano do assassinato de Marielle Franco, dois suspeitos pela execução da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes, foram presos na manhã desta terça-feira (12).

O policial militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, foram detidos por uma força tarefa da Operação Buraco do Lume, composta por policiais da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro e por promotores do Ministério Público. A investigação do Ministério Público e da Polícia Civil aponta que os policiais são responsáveis pelo crime.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Monica Benício, companheira de Marielle, conta que soube da prisão dos suspeitos na madrugada, ao receber a ligação de uma das promotoras.

“Considero um passo muito importante na investigação. Parabenizo as promotoras, sobretudo, e a DH (Delegacia de Homicídios). Mas não podemos esquecer que daqui há dois dias completamos um ano da execução. [Precisou de] Um ano para ter essa resposta, que tinha que ser respondida há muito tempo”, pontua Monica.

A viúva da vereadora afirma ainda que o resultado da investigação não é suficiente. “Não podemos esquecer que a resposta mais importante ainda não nos foi dada: Quem mandou matar Marielle e qual a motivação desse crime? Mais importante do que termos ratos mercenários serem responsabilizados pelo que fizeram, é a questão urgente e necessária, que é saber quem foi que mandou matar Marielle”, enfatiza Benício.

Segundo a denúncia das promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile, assinada pelo juiz substituto do 4º Tribunal do Júri Gustavo Kalil, Lessa teria sido responsável pelos disparos enquanto Queiroz seria o motorista do Cobalt prata que perseguiu o carro da vereadora. Como a investigação aponta que o crime foi meticulosamente planejado ao longo de 3 meses, a operação também está apreendendo documentos, celulares, computadores, armas dos suspeitos. Há indícios de que Lessa monitorava eventos que a vereadora participa através de um celular “bucha”.

Sobre a continuidade das investigações para identificar o mandante da execução, Monica espera que não demore tanto quanto as primeiras respostas oficiais que foram dadas no dia de hoje. “Sinceramente, espero que não tenhamos que aguardar mais um ano para chegar a essa resposta. Mas não podemos deixar de olhar que finalmente algo concreto está acontecendo a respeito dessas investigações, isso tem que ser ressaltado”.

Legado

No último 8 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, Marielle Franco foi homenageada por milhares de mulheres em atos por todos os estados do país. Mulher negra, periférica e lésbica, Marielle se tornou um grande símbolo de resistência contra todas as formas de opressão.

Para Monica, Marielle é um símbolo de referência e inspiração, “para que sigamos na resistência e na luta”.

“De forma positiva, podemos compreender que a noite do 14 de março não pode ser vista só como uma noite de barbárie e violência, mais uma noite onde podemos ressignificar a esperança. Ressignificar a resistência”, disse.

“Marielle se tornou um símbolo de resistência uma vez que vemos a imagem dela sendo replicada pelo mundo inteiro, que se indignou com a violência, mas que também reconheceu o trabalho dela enquanto defensora dos direitos humanos, e não só o trabalho dela, mas o que ela representava. O que ela simbolizava, que é uma construção coletiva muito maior do que a própria imagem dela”, ressalta Monica.

Mobilizações em todos os estados do país estão sendo articuladas para o próximo 14 de março, data que marca um ano da execução da vereadora.

 

Via Brasil de Fato

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PM e ex-PM suspeitos de matar Marielle Franco são presos no Rio de Janeiro

Ronie Lessa teria feito os disparos e Elcio Vieira de Queiroz, conduzido o veículo usado no crime

Ato no Dia Internacional da Mulher pela Justiça pela morte da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro. Foto: Reprodução.

Uma operação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu na madrugada desta terça-feira dois suspeitos de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes no dia 14 de março de 2018. Ronie Lessa é policial militar reformado e Elcio Vieira de Queiroz foi expulso da Polícia Militar.

Segundo o Ministério Público, os dois foram denunciados depois de análises de diversas provas. Lessa teria sido o autor dos disparos de arma de fogo e Elcio, o condutor do veículo usado na execução. O crime teria sido planejado nos três meses que antecederam os assassinatos.

De acordo com informações do jornal O Globo, a polícia e o Gaeco chegaram às 4h na casa dos investigados. Lessa mora no condomínio Vivendas da Barra, o mesmo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). O jornal destaca, no entanto, que a investigação não aponta nenhuma relação entre o policial e o presidente.

Operação

Além dos mandados de prisão, a chamada Operação Lume cumpre mandados de busca e apreensão em endereços dos dois suspeitos, para apreender documentos, telefones celulares, computadores, armas e acessórios.

Na denúncia apresentada à Justiça, o MP também pediu a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa, a indenização por danos morais aos familiares das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor de Anderson até completar 24 anos de idade.

Segundo o MP, o nome da operação é uma referência a uma praça no Centro do Rio, conhecida como Buraco do Lume, onde Marielle desenvolvia um projeto chamado Lume Feminista. No local, ela também costumava se reunir com outros defensores dos direitos humanos e integrantes do seu partido, o PSOL. “Além de significar qualquer tipo de luz ou claridade, a palavra lume compõe a expressão ‘trazer a lume’, que significa trazer ao conhecimento público, vir à luz”, informa a nota.

 

Via El País

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Dez meses depois, assassinato de Marielle Franco segue sem respostas

Ministério Público afirma não ter dúvidas de ligações com milícias, mas não aponta suspeitos

Foto: Reprodução

Dez meses após o assassinato da vereadora e defensora dos direitos humanos Marielle Franco,  junto de seu motorista Anderson Gomes, o caso segue sem um desfecho. O procurador-geral de Justiça do estado do Rio de Janeiro, Eduardo Gussem, disse hoje (14) não ter dúvidas de que o assassinato da Marielle e Anderson está relacionado a grupos de milicianos, mas ainda não comprovou, contudo, quem são os assassinos e a motivação do crime.

Gussem discursou ao ser reconduzido ao cargo para mais dois anos de mandato à frente do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

“Não tenho dúvidas em afirmar que o caso Marielle e Anderson Gomes está relacionado a essas organizações criminosas”, disse ele. O assassinato completa hoje dez meses e segue em investigação sigilosa na Polícia Civil e no próprio Ministério Público estadual.

Gussen afirmou que as milícias representam “uma forma perversa de plantar o terror e o medo na sociedade” e destacou que, quando confrontadas pelo aparato estatal, elas reagem “com severos ataques a bens públicos e ameaças a autoridades”.

O procurador-geral de Justiça lembrou ainda o ataque a tiros sofrido ontem pela delegada e deputada estadual Martha Rocha (PDT), que não se feriu com os disparos contra seu carro, mas teve o motorista baleado. A parlamentar relatou ter sofrido ameaças de milicianos .

“Espero que o lamentável episódio ocorrido ontem com a deputada estadual Martha Rocha não seja mais um capítulo dessa triste e grave história”, disse.

Duas linhas

Ao fim da cerimônia de recondução ao cargo, o procurador-geral de Justiça explicou que o ministério público estadual e a Polícia Civil trabalham em duas linhas de investigação distintas no caso Marielle. Enquanto os promotores cruzam dados do caso com outros processos e organizações criminosas identificadas, a Polícia Civil se debruça sobre o crime de forma mais específica.

“Elas necessariamente não são divergentes, podem até ser convergentes. São linhas que, com o andar dessa análise, podem desembocar na mesma organização criminosa”, disse ele, que ponderou que a investigação da Polícia Civil necessariamente vai passar pela avaliação do Ministério Público quando concluída.

O governador Wilson Witzel (PSC) disse que não teve acesso ao processo, que está em segredo de justiça, mas defendeu que uma resposta seja apresentada à sociedade rapidamente.

“Me parece que as duas têm que andar juntas. Se não for possível, aquela que estiver mais adiantada que dê a resposta pra sociedade. Se você tem uma investigação mais adiantada na policia, que a policia já apresente logo o resultado”, disse ele, que o que se espera do direito penal é uma resposta rápida à sociedade: “É muito melhor apresentar muitas vezes um resultado parcial de uma investigação. O inquérito pode ser cindido e continuar a investigação em outros fatos”.

https://www.cartacapital.com.br

 

 

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Caso Marielle: PF vai investigar se agentes públicos atuam para impedir resolução do crime

Polícia Federal entra no caso após testemunhos de que uma organização criminosa tem obstruído as investigações.

© Renan Olaz/CMRJ

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, anunciou nesta quinta-feira (1º) que a Polícia Federal vai entrar no caso Marielle para apurar denúncias de que uma organização criminosa estaria atuando para obstruir a investigação e impedir a resolução do crime.

A vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSol) e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados a tiros em 14 de março deste ano, na capital fluminense.

De acordo com o ministro, a suspeita é que façam parte dessa organização criminosa agentes públicos envolvidos na investigação do caso, milicianos e o crime organizado.

“São denúncias extremamente graves, que falam de uma organização criminosa para impedir, obstruir e desviar a elucidação dos homicídios”, disse Jungmann em entrevista coletiva, em Brasília.

A investigação dos assassinatos está hoje sob responsabilidade do Ministério Público Estadual e da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O ministro, no entanto, não revelou a que instituições pertencem os agentes públicos que serão investigados.

A abertura do inquérito que será delegado à PF foi um pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a partir de dois depoimentos colhidos recentemente — um deles há cerca de um mês e o outro há aproximadamente 15 dias. Segundo Jungmann, a partir de agora serão duas investigações em paralelo.

“Estamos criando outro eixo, que vai investigar aqueles que estão dentro da máquina pública ou dentro do crime organizado”, disse Jungmann, que considera a Polícia Federal “uma das melhores polícias investigativas do mundo”.

“Evidentemente a PF vai procurar a colaboração do Ministério Público Estadual e daqueles agentes públicos que julgar conveniente. Se essa investigação levar luz sobre quem matou Marielle e Anderson, é uma possibilidade, mas não é esse o objeto”, completou.

O ministro ainda lembrou que o crime completará 8 meses nos próximos dias.

“O que nos preocupa até aqui, passado todo esse tempo, é que não há um claro encaminhamento, uma resolutividade (…) Estamos diante de um crime que, sem sombra de dúvida, fere a democracia, os direitos humanos e a própria representação popular.”

Por Débora Melo, do HuffPost Brasil

http://www.geledes.org.br

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Anistia Internacional vai reivindicar acompanhamento externo do caso Marielle/Anderson

A ONG considera grave o fato do crime permanecer em aberto, o que “demonstra ineficácia, incompetência e falta de vontade das instituições em resolver o caso”.

(Foto: Reprodução Facebook)

A Anistia Internacional marcou para esta quinta-feira (12) um encontro com os pais de Marielle Franco. Juntos, eles vão reivindicar o acompanhamento externo das investigações sobre o assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes, que está prestes a completar quatro meses, ainda sem solução.

A Anistia considera grave os autores do crime não terem sido encontrados. Isto “demonstra ineficácia, incompetência e falta de vontade das instituições do Sistema de Justiça Criminal brasileiro em resolver o caso”.

“Como se sabe, o caso Marielle tem forte indício de envolvimento de agente público. É necessário um mecanismo de acompanhamento externo para que tudo fique claro. A Câmara dos Deputados criou uma comissão para fazer o monitoramento, mas ela não segue todos os itens de independência, porque está inserida num aparato estatal. Além disso, é necessário ter membros com especialização na área, como peritos”, disse Renata Neder, coordenadora de Pesquisa da Anistia Internacional Brasil.

“Quem matou Marielle e Anderson?”

Países como Honduras e Nicarágua já adotaram acompanhamentos externos para monitorar investigação de crimes.

“Há vários modelos que podem ser seguidos. Na Nicarágua, por exemplo, adotaram um sistema com peritos independentes, recomendado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que faz parte do Sistema Interamericano de Direitos Humanos, ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA)”, afirmou a coordenadora da Anistia. Ela acrescenta ainda que o fato de a investigação estar correndo sob sigilo não impede o acompanhamento externo. “É óbvio que entendemos o sigilo, mas isso não pode significar o total silêncio das autoridades”, completou.

Além de cobrar respostas para a pergunta “Quem matou Marielle e Anderson?”, a Anista diz que esse acompanhamento externo poderia ajudar a esclarecer questões que ficaram perdidas ao longo dos últimos quatro meses.

“A própria imprensa divulgou informações sobre o crime que não foram esclarecidas até hoje pelas autoridades. Por exemplo, como ficou a história de a munição usada pelos criminosos pertencer a um lote restrito? Não falaram mais nada sobre isso. E a arma usada, uma submetralhadora também de uso restrito? E as câmeras do local do crime? Foram desligadas na véspera? Todas essas informações, que surgiram logo após as mortes, não foram completamente esclarecidas”, disse Renata.

Para a diretora executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck, é “fundamental não apenas identificar e responsabilizar os autores dos disparos, mas também os autores intelectuais dos homicídios, bem como a motivação do crime”.

http://www.revistaforum.com.br/

 

 

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Vereadores governistas de Petrolina aprovam Projeto Escola Sem Partido e reprovam projeto de Direitos Humanos

O comportamento dos vereadores, na sua maioria da bancada do Governo Miguel Coelho, deixa transparecer que o poder econômico e os interesses particulares são mais importantes do que os direitos e os interesses da população de Petrolina.

Foto: Angela Santana

Na sessão dessa terça-feira, 19, na Câmara de Petrolina, foram votados 13 projetos do legislativo. O PL 072/2018, de autoria do vereador Gilmar Santos, que institui o Prêmio Marielle Franco de apoio as iniciativas de Promoção dos Direitos Humanos e da Cidadania para o município de Petrolina, chamou atenção de diversos edis que teceram comentários favoráveis ou depreciativos ao PL.  O projeto  expressa como objetivo “apoiar a valorização da vida, a igualdade racial, o combate à violência contra a mulher e de gênero, à discriminação, o preconceito e à proteção das minorias”.

Antes da votação Santos afirmou, “esse projeto é uma conquista das pessoas e movimentos sociais que dedicam suas vidas na defesa dos direitos humanos. Estimular a sociedade para a superação das mais variadas formas de violências, inclusive aquelas promovidas pelo próprio Estado é um compromisso do nosso mandato e esperamos que esse movimento se fortaleça”.

Foto: Wesley Lopes

Na mesma sessão, e na contramão das lutas pela democracia, um outro projeto levantou  grande polêmica. Trata-se do PL de 067/18, de autoria do vereador Osinaldo Sousa (PTB), que cria no âmbito do sistema de ensino do município, o programa Escola Sem Partido.

Representantes de Movimentos Sociais, Sindicatos, Professores e Estudantes Universitários e Secundaristas se fizeram presentes e protestaram contra a aprovação do projeto que segundo eles é de grande prejuízo para a educação no município e cerceia as liberdades e manifestações políticas nas escolas.

O Projeto que deu entrada na casa em 14/04, recebeu o parecer favorável das Comissões de Educação, Cultura, Esporte e Juventude, que tem como presidente a vereadora Cristina Costa, (PT), Relator vereador Gaturiano Pires da Silva (PRP) e secretário vereador Cícero Freire Cavalcante (PR) e da Comissão de Justiça, Redação e Legislação Participativa presidida pelo vereador Ronaldo Luiz de Souza (PTB), relator vereador Ronaldo José da Silva (PSDB) e secretário Zenildo Nunes da Silva (PSB). A vereadora Cristina Costa (PT), apresentou durante a sessão, parecer desfavorável ao projeto.

No seu artigo 1º PL 067/18 defende que o município tenha “neutralidade política e ideológica” e reconhece os estudantes como a “parte mais fraca na relação de aprendizado”. Nos demais artigos apresenta uma série de normas que limitam e intimidam a liberdade do professor no seu exercício profissional.  Contrário ao que orienta os planos e leis nacionais da educação e sem consultar ou debater com as diversas instituições educacionais da região, o projeto do  vereador Osinaldo ressoa as vozes reacionárias que atacam a democracia em todo o país. Vale destacar que o projeto é uma cópia integral de uma versão disponível na internet e  que se espalhou por dezenas de câmaras municipais e estaduais com conteúdos que atacam a Constituição.

Foto: Angela Santana

Em entrevista à imprensa, Souza desafiou alguém a mostrar um projeto mais democrático do que Escola Sem Partido. Ele negou que o projeto fosse inconstitucional, pois recebeu o parecer da Comissão de Justiça da Câmara e .“O projeto simplesmente vem confirmar o que a Constituição brasileira reza sobre liberdade política e religiosa. Me estranha é que alguém queira jogar para a platéia, jogar para a opinião pública, que tivesse qualquer vício de inconstitucionalidade, ou qualquer coisa que fosse ruim para a sociedade, pelo contrário, esse projeto dá direito a todos. Você não pode permitir que um professor por ter um pensamento político ou religioso de uma forma venha impor seu pensamento ao aluno. Ele pode ensinar sim sobre religião, sobre política em todas suas vertentes ideológicas, agora impor o seu partido como se for a única verdade, é isso que esse projeto de lei proíbe. Portanto, eu quero dizer que nunca existiu e talvez nunca vá existir um projeto tão democrático como o que foi aqui aprovado hoje por maioria absoluta dos vereadores dessa casa”, disse.

Osinaldo Sousa, que é presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania, acusou professores de quererem doutrinar os alunos e agrediu verbalmente os representantes dos movimentos sociais acusando-os de serem promotores de violência. “Esses que estão aí são os mesmos 15 de sempre, que se dessem um fuzil saiam matando todo mundo na sala de aula e no meio da rua, pode ter certeza, dê um fuzil para testar”, provocou.

Em oposição contundente ao PL Escola Sem Partido o vereador Gilmar Santos acusou os vereadores governistas de jogarem no lixo as conquistas do seguimento de educação no município, a exemplo do Plano Municipal de Educação, aprovado em 2012 pela própria Câmara: “É um retrocesso, uma afronta às liberdades de professores e estudantes, um ataque à democracia nas nossas escolas.  Ficará na história dessa Casa o dia em que os vereadores usaram do autoritarismo e disseram não a educação,  a uma escola inclusiva, diversa e democrática. É preciso que a sociedade luta contra esses ataques”.

Ao final da sessão, o PL dos Direitos Humanos foi reprovado por 13 votos a 5, com 01 abstenção. Já o projeto Escola Sem Partido foi aprovado por 15 votos a 3, com 01 abstenção.  O comportamento dos vereadores, na sua maioria da bancada do Governo Miguel Coelho, deixa transparecer que o poder econômico e os interesses particulares são mais importantes do que os direitos e os interesses da população de Petrolina.

Confira como ficou a votação dos vereadores nos dois Projetos:

Projeto de Lei nº 067/2018 de autoria do vereador Osinaldo Sousa (PTB) que cria no âmbito do sistema de ensino do Município, o Programa Escola Sem Partido.

CONTRA:

1. GILMAR SANTOS (PT)

2. CRISTINA COSTA (PT)

3. ZENILDO NUNES (PSB)

A FAVOR:

1.GABRIEL MENEZES (PSL)

2. RONALDO SILVA (PSDB)

3. DOMINGOS SÁVIO (PSL)

4.ELIAS JARDIM (PHS)

5. GATURIANO PIRES (PRP)

6. MANOEL ANTÔNIO COELHO (PTB)

7. OSINALDO SOUSA (PTB)

8. GILBERTO MELO (pr)

9. ALEX DE JESUS (PRP)

10. RODRIGO TEIXEIRA (PSC)

11. AEROLANDE CRUZ (PSB)

12. IBAMAR FERNANDES (PRTB)

13. RONALDO SOUZA (PTB)

14. MAJOR ENFERMEIRO (PMDB)

15. OSÓRIO SIQUEIRA (PSB)

ABSTENÇÃO: 

1. MARIA ELENA (PRTB)

AUSENTES:

1. PAULO VALGUEIRO (PMDB)

2. CÍCERO FREIRE (PR)

3. ELISMAR GONÇALVES (PMDB)

4. RUY WANDERLEY (PSC)

Projeto de Lei nº 0072/2018 de autoria do vereador Gilmar Santos (PT), que institui o Prêmio Marielle Franco de apoio as iniciativas de Promoção dos Direitos Humanos e da Cidadania para o município de Petrolina.

A FAVOR:

1. GILMAR SANTOS (PT)

2. RONALDO SOUZA (PTB)

3. MARIA ELENA (PRTB)

4. GABRIEL MENEZES (PSL)

5. CRISTINA COSTA (PT)

CONTRA:

1. CÍCERO FREIRE (PR)

2. RONALDO SILVA (PSDB)

3. ELIAS JARDIM (PHS)

4. OSINALDO SOUSA (PTB)

5. GATURIANO PIRES (PRP)

6. MANOEL ANTÔNIO COELHO (PTB)

7. GILBERTO MELO (PR)

8. MAJOR ENFERMEIRO (PMDB)

9. IBAMAR FERNANDES (PRTB)

10. RODRIGO ARAÚJO (PSC)

11. AEROLANDE CRUZ (PSB)

12. ALEX DE JESUS (PRB)

13. OSÓRIO SIQUEIRA

ABSTENÇÃO:

1. ZENILDO NUNES (PSB)

AUSENTES:

1. PAULO VALGUEIRO (PMDB)

2. ELISMAR GONÇALVES (PMDB)

3. RUY WANDERLEY (PSC)

4. DOMINGOS SÁVIO (PSL).

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O verdadeiro peso do racismo no dia a dia

Diante do cenário do país, não tem como ignorá-lo. Para que a gente se una ao coro contra a discriminação, a COSMO convida você a ler estes textos.

reprodução/Cosmopolitan

“Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas.” No dia 14 de março, a vereadora Marielle Franco (Psol) usou essa frase da escritora e ativista americana Audre Lorde para encerrar sua participação na roda de conversa “Mulheres Negras Movendo Estruturas”, que ajudou a organizar na Casa das Pretas, no Rio de Janeiro. Horas depois do evento, ela foi assassinada a tiros dentro de seu carro na Rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio. O motorista Anderson Pedro Gomes também foi baleado e morreu.

Marielle faz parte de uma triste estatística. Nasceu no país em que a mortalidade das mulheres negras vem crescendo – 22% em dez anos, enquanto a mortalidade de mulheres brancas diminuiu 7,4% no mesmo período, de acordo com o Atlas da Violência 2017, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Oriunda do Complexo da Maré, mãe, lésbica, ativista política.

Marielle era muitas em uma só, mas há um traço de identificação imediata para a maioria das brasileiras, que é sua negritude. Ela não pôde escapar de suas próprias amarras enquanto tentava libertar outras de nós. Mas, mesmo não estando presente fisicamente, deixou uma lição, como boa professora que era, sobre a importância de ouvir, compreender e acolher mulheres negras no feminismo. Pensando nisso, convidamos outras mulheres negras que atuam em diferentes vertentes para falar sobre racismo, luta e desafios que enfrentam.

Quem disse que o Brasil não é racista?

Talíria Petrone, 32 anos, vereadora do PSOL e amiga de Marielle Franco, Niterói (RJ)

“Se existisse igualdade racial, não seria necessário afirmar que a vida das negras e negros importa, costuma dizer Angela Davis [feminista e ativista americana dos direitos civis dos negros] àqueles que acusam haver suposto sectarismo na expressão `black lives matter¿ [`vidas negras importam¿, em tradução livre] como alternativa a `all lives matter¿ [`todas as vidas importam¿, em tradução livre]. A situação do Brasil é exemplar do racismo que elimina as vidas negras. Vivemos num país onde o Estado racista promove a exclusão social, o encarceramento e o genocídio dos negros. São negros dois terços dos mais de 700 mil encarcerados, como são negras 71% das pessoas assassinadas. A miséria no Brasil é negra. Não por acaso, era preta a pele da vereadora do Psol Marielle Franco, assassinada junto de Anderson Pedro no Rio de Janeiro, na noite de 14/3. Foi um crime político. Marielle denunciava o Estado racista em um Rio de Janeiro sob intervenção federal militar na segurança pública. Ela temia o incremento do encarceramento e do genocídio num Rio de Janeiro onde são negros 78% dos mortos pela polícia e 72% da população carcerária. Marielle era relatora da comissão da Câmara Municipal para acompanhar a intervenção federal no Rio. O mandato socialista e libertário da mulher negra, favelada e lésbica era uma ofensa àquele ambiente conservador, machista e LGBTfóbico da Câmara. Se existisse igualdade racial no Brasil, Marielle não teria sido assassinada. Se não houvesse racismo, Marielle estaria viva. Assim como estariam vivas e livres gerações e gerações de jovens negros no nosso país. Por Marielle e pelos milhares de negros e negras executados por ano em nosso país e no mundo é que ainda se faz tão necessário afirmar que a vida das negras e negros importa, sim.”

Cotas: por que precisamos?

Larissa Santiago, 30 anos, publicitária, feminista e coordenadora do site Blogueiras Negras, Salvador

“A história começa lá na escravidão: quando a população negra passou pelo processo de libertação (protagonizado por ela própria, diga-se de passagem). Apesar da abolição, não houve nenhuma medida que reparasse os anos de cativeiro. Ao contrário, imposições como a lei de terras, a do sexagenário e outras foram escritas para que a população negra não tivesse acesso a bens essenciais para sua sobrevivência. A educação foi um dos grandes pontos estratégicos: uma lei complementar à Constituição de 1824 proibia pessoas negras de frequentar escolas porque eram consideradas doentes, com moléstias contagiosas. Essa lei funcionou até 1889 (data da Proclamação da República), impedindo o acesso da população negra a avanços que só a educação pode dar. Isso tem reflexo na nossa posição na sociedade brasileira e o porquê das cotas. Elas nada mais são do que reparação por longos anos de exclusão de acesso a um direito básico, que é a educação. E aí você diz: `Mas então por que não há luta por melhoria e acesso na educação pública básica?¿ Sim, há! Essa reivindicação é, sobretudo, nossa, já que são nossos filhos pretos que frequentam as creches e as escolas públicas. Mas o nosso desejo não fica na base: foram anos de exclusão, e precisamos garantir acesso em todos os níveis. Então, as cotas na universidade são o pagamento dessa dívida que o Brasil tem com a população negra. É esse o pensamento, e por isso é importante mantermos a discussão, cumprirmos a lei e denunciarmos as fraudes que têm sido tão recorrentes pelo Brasil afora. Fraude nas cotas é crime!”

A apropriação cultural explicada

Rosa Luz, 22 anos, graduada em Teoria, Crítica e História da Arte pela UnB e youtuber do canal Barraco da Rosa, Brasília

“A apropriação cultural pode ser vista como um apagamento de determinada cultura a partir de uma relação vertical de poder, em que a cultura dita `dominante¿ inferioriza costumes de outros grupos considerados inferiores por ela mesma. Praticar a descolonização do nosso corpo e ideias é fundamental para entendermos nosso lugar de fala que, por sua vez, é fundamental para que possamos enxergar a cultura do outro com respeito, pois, se você entende o seu espaço na sociedade de maneira crítica, dificilmente irá objetificar e inferiorizar outras culturas diferentes da sua. Assim, é possível não praticar a apropriação para diminuirmos o apagamento de identidade que muitas pessoas sofrem. Eu, enquanto travesti negra da periferia e artista, peço que vocês tenham respeito pelas identidades e culturas que são diferentes das suas para não cometermos os mesmos erros que artistas brancos europeus cometeram ao retratar a colonização em países do continente africano e da diáspora de maneira romantizada. Colocaram a cultura da branquitude como ideal. Provocaram o genocídio de culturas e línguas consideradas `inferiores¿ para o branco colonizador. Hoje, mulheres brancas usando turbante são consideradas estilosas e lindas, enquanto mulheres negras com a mesma peça são marginalizadas e sofrem até mesmo preconceito religioso. Outro exemplo de apropriação cultural atual é como o grafite vem sendo incorporado nas galerias e narrativas burguesas das artes visuais. É só olharmos para a exposição incrível do artista Jean-Michel Basquiat que rola nas grandes capitais brasileiras: enquanto a crítica burguesa aplaude de pé seus trabalhos que dialogam com o grafite, expostos em espaços aos quais a maioria branca tem acesso, vemos, ao mesmo tempo, uma demonização da mesma arte quando é nas ruas.”

Ofensas ao nosso cabelo é racismo

Preta Araújo, 25 anos, youtuber de beleza negra, São Paulo

“As pessoas podem não entender a necessidade de afirmação da beleza do cabelo crespo, mas ela é muito importante. Desde muito jovem, uma criança negra de cabelo crespo é submetida a vários procedimentos para deixá-lo `bom¿ na tentativa de ser mais aceita pela sociedade. Essa mesma criança sempre escuta `Prende esse cabelo¿, `Abaixa um pouco¿, `Está muito armado¿, dentre tantas falas que, embora socialmente sejam vistas como `inofensivas¿, são, na verdade, racistas e fundamentais para a não aceitação da pessoa como negra. É muito fácil falar que a diversidade de cabelos na mídia não é necessária quando você sempre se viu representada esteticamente e nunca sofreu esse tipo de discriminação. O racismo desumaniza, nos faz criar rejeição ao nosso próprio corpo. É importante reafirmar a beleza do cabelo crespo para que cada vez menos negros sofram por causa de algo genético, é importante saber que termos como `cabelo de palha de aço¿, `cabelo ruim¿ ou `cabelo duro¿ são racistas e que assumir os cabelos naturais vai além da estética. É questão de resistência e autoafirmação da beleza na diversidade. Cabelos não precisam ser domados. Cabelos precisam mais de liberdade e de menos racismo.”

O reverso não existe

Amarílis Costa, 25 anos, mestranda em Humanidades, Direito e outras Legitimidades na USP e cofundadora do projeto Preta e Acadêmica, São Paulo

“O racismo tem muitos significados. Específica e cientificamente, é uma estrutura ideológica, social e até mesmo política que discrimina e segrega alguns indivíduos em detrimento de outros. Especialmente ao que se refere à população negra, o racismo é um sistema perverso, que tem vários reflexos e que chega até esse grupo de diversas formas. As relações sociais de um indivíduo negro são marcadas pelo racismo desde o início de sua vida. Por isso é importante apontar que é uma ferramenta para a manutenção de poder, de dinheiro e de um status quo de privilégios. Portanto, para que a palavra `reversão¿ possa ser usada dentro do mote do racismo, uma série de violências e opressões deveria estar sendo também vivida por pessoas brancas. As questões do dia a dia estabelecem um paralelo perfeito para justificar a inexistência do racismo reverso: pessoas brancas jamais são tolhidas do mercado de trabalho por terem traços africanos, não são perseguidas por seguranças em lojas por representarem um perigo, não têm sua religião, fé e crenças tidas como o mal do mundo. A ideia do racismo reverso é falaciosa e também violenta, pois dizer que os brancos poderiam padecer do mesmo racismo histórico, supostamente direcionado dos negros a elas, é mais uma forma de silenciar a narrativa das pessoas negras e nunca observar suas dores.”

Tem que ter mais representatividade

Jéssica Queiroz, 24 anos, cineasta, diretora premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro por Peripatético (2017), São Paulo

“Não tem como falar de representatividade na frente das câmeras sem falar como funciona todo o sistema por trás da imagem que vemos no cinema, TV e publicidade. Dos 142 filmes lançados comercialmente (filmes que foram para salas de cinema), 74,4% foram dirigidos por homens brancos, 19,7% por mulheres brancas, 2,1% por homens negros e 0,0% por mulheres negras, de acordo com dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Se olharmos só para o Brasil e consideramos que, segundo o IBGE, 54% da população brasileira é negra, a porcentagem de diretores deveria estar errada, não é? O problema se estende para a produção do filme, que, se não tiver pessoas negras nos locais de decisão, corre risco de ter um elenco majoritariamente branco, ou teremos negros com papéis estereotipados, como bandido, empregada doméstica, favelado, escravo. Não acho que não devemos ter esses personagens, mas como eles são criados? Qual a complexidade? Costumo falar que um bom personagem tem características de alguém que você conhece a fundo, que trazem aquela identificação no cinema: `Nossa, essa mina parece com fulana!¿ No nosso cinema e na TV, eu nunca consegui ter esse grau de empatia e conexão com personagens negros na tela. Por quê? Porque são escritos e dirigidos por pessoas que não estão inseridas naquele universo e não têm o grau de empatia (ou pesquisa) necessário para escrever personagens não estereotipados. Temos diretoras, roteiristas, fotógrafas, atrizes negras competentes e queremos espaço para contar nossas histórias, para que sejam vistas, e que a sensação do `Nossa, parece comigo!¿ seja mais frequente. E essa coisa de se ver na tela é uma necessidade do público. Pantera Negra, filme com maioria de negros no elenco, diretor negro, equipe técnica predominantemente negra, arrecadou mais de 1 bilhão de dólares no mundo todo; no Brasil, foram 25 milhões de dólares. Consumir? Consumimos. Queremos nos ver? Obviamente esses dólares não mentem.”

Não use estereótipos para representar os negros

Cristiane Sobral, 43 anos, atriz e escritora, autora do livro Não vou mais lavar os pratos (Dulcina), Brasília

“Estereótipos incrustados no imaginário social do que representam pessoas negras, tais como empregadas domésticas, motoristas, porteiros, cozinheiras, seguranças, sambistas – só para citar alguns -, são originários das concepções racistas de desumanização e subalternização de pretos e pardos que vigoram no país desde o término oficial do escravismo, ocorrido há apenas 130 anos. Estereótipos desumanizam pessoas. São generalizantes, superficiais e têm bases irracionais. Pessoas possuem identidades múltiplas e móveis, mas a população negra ainda não está inclusa na vida pública, morre mais e de forma violenta, possui péssimas condições de empregabilidade, educação, saúde e acesso aos bens culturais. Pensando assim, dá pra entender o termo `minoria¿. Aprendemos a ver e tratar os afro-brasileiros de maneira depreciativa. Quantos pretos e pretas estão nas salas de aula das escolas particulares? Quantos médicos negros você conhece? Parlamentares negros? Juízas negras? Escritoras negras? Poderia elencar um sem-fim de perguntas a confirmar a alarmante condição de invisibilidade dos descendentes de africanos sistematicamente desumanizados e com escassas oportunidades de contar sua versão da história e mudar a própria realidade. Concepções de inferioridade racial ainda povoam o imaginário pautado por um referencial de brancura como sinônimo da ascensão social: o estereótipo.”

Blackface é racismo, não homenagem

Natália Romualdo, 25 anos, e Maristela Rosa, 26 anos, jornalistas e youtubers do canal Papo de Preta, Juiz de Fora (MG)

“Quantas vezes você já viu a personagem `Nega Maluca¿? Ela é uma mulher negra, encarnada por homens brancos, que se pintam de preto e a boca de vermelho, colocam enchimentos de peito e bunda enormes, usam perucas black power e, não raramente, uniforme de empregada. Em Juiz de Fora, Minas Gerais, existe um bloco de Carnaval chamado Domésticas de Luxo. Nele, homens brancos se vestem de Nega Maluca e desfilam, há 60 anos, com o respaldo de toda a sociedade racista. Esse mesmo bloco foi tombado como Patrimônio Cultural da cidade. A Nega Maluca traz uma mensagem clara: mulheres negras não são bonitas, seu corpo e traços são dignos de gargalhadas! Como se sentir representada ou homenageada pela personagem? A fantasia racista ainda revela uma prática antiga e perversa: o blackface. O termo é em inglês, porque ele teve início nos Estados Unidos, no século 19. Se tornou popular em teatros de variedades, onde atores brancos pintavam a pele com carvão para interpretar personagens negros preguiçosos, trapaceiros, burros e de caráter duvidoso. A prática racista se popularizou, chegando à TV e ao cinema. Além da ridicularização, o blackface é cruel, pois tira as escassas oportunidades que teríamos de ocupar esses espaços de arte, onde poderíamos representar a nós mesmos, minando nossas chances de trabalho. Não temos nada contra o humor, mas ele deve ser usado para divertir, sem ofender ou ridicularizar qualquer um. Afinal, corpos negros não são piada e racismo não tem graça!”

Racismo disfarçado de elogio

Xan Ravelli, 38 anos, youtuber do canal Soul Vaidosa, São Paulo

“Segundo a ONU, o racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado. Ele perpassa todas as nossas relações sociais, naturalizando comportamentos e dizeres carregados de herança escravocrata. Quando criança, os adultos próximos à minha família tinham hábito de elogiar minha irmã, que é negra de pele mais clara, chamando-a de `mulata¿ e enfatizando quanto ela estava ficando bonita e `encorpada¿. `Mulata¿ não é elogio, e a hipersexualização de crianças negras não tem nada de lisonjeiro. Comigo era diferente: tenho a pele bem escura e, como a maioria das negras retintas, não me enquadro no estereótipo da `mulata¿. Os `elogios¿ eram: `Você tem traços finos¿, `Não, você não é negra, é uma morena bem escura¿. Para a sociedade, eu devo ficar feliz, grata e entender como elogio o enaltecimento de tudo aquilo que me faz ser lida como `não tão negra¿. Temos o famoso `Você é uma negra muito bonita¿, sendo que uma mulher branca é apenas uma mulher bonita, deixando nítido que o padrão de beleza normalizado é a branquitude. Nunca se falou tanto sobre representatividade e quebra de padrões, mas é importante nossa presença não apenas em situações de serviço mas ocupando todos os espaços com proporcionalidade relevante para que nossa estética, beleza, cabelo e cor de pele sejam naturalizados. Mulheres negras querem ser elogiadas como mulheres, e apenas isso.”

Morena não, negra

Helaine Martins, 37 anos, jornalista, criadora do projeto Entreviste um Negro e cofundadora da Idánimo Comunicação (consultoria negra, feminista e LGBTQ+), Belém

“`Ah, mas você nem é tão negra assim¿. Eu levei um susto ao ouvir isso da minha chefe quando pedi que retificassem a minha cor nos documentos de admissão no trabalho. Ao lado da minha foto, que não deixa dúvidas, dizia branca. E essa não foi a primeira vez. Nem será a última. Passei a vida ouvindo que eu era `morena¿, `marrom bombom¿, `da cor do pecado¿… Todos os tipos de eufemismo que suavizassem ou minimizassem o peso do que acreditam ser uma ofensa: ser negra. Cresci com esse sentimento internalizado. De que ser negra – e todo o pacote que vem junto, como meu nariz largo e meus cachos que cresciam para cima – era feio, ruim. Logo, ser chamada de morena era um elogio e, portanto, mais agradável aos olhos dos outros. E essa é uma forma de racismo tão velada e perversa que por muito, muito tempo nada disso me pareceu um problema. Somente cinco anos atrás, com o comentário da minha ex-chefe e quando comecei os estudos sobre gênero e raça, é que despertei para a minha negritude e, principalmente, para o que significa ser uma mulher negra na nossa sociedade. Hoje, tenho muito orgulho de saber que o meu corpo negro é um corpo político. Eu não aceito mais ser tolerada. Eu não sou morena, sou negra.”

A mortalidade de negras no brasil cresceu 22% em dez anos, enquanto a de brancas diminuiu 7,4% no mesmo período

Fonte: Atlas da Violência 2017

Também houve aumento na proporção de mulheres negras entre o total de mulheres vítimas de mortes por agressão: 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil são negras

Fonte: Atlas da Violência 2017

Por Karoline Gomes no Cosmopolitan

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