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Marcha das Margaridas termina com demonstração de força e união de 100 mil camponesas

Maior mobilização de trabalhadoras rurais da América Latina evidencia a força das mulheres contra os retrocessos

A mobilização teve a participação da Marcha das Mulheres Indígenas / Andressa Zumpano/CPT

Foi com brilho nos olhos que a agricultora Maria Anecy Martins, de 45 anos, chegou a Brasília (DF) esta semana para participar da Marcha das Margaridas 2019. A mobilização reuniu mais de 100 mil mulheres camponesas e foi encerrada nesta quarta-feira (14), com um grande ato que tomou as ruas da capital. Vinda do interior do Maranhão, Anecy ela viajou durante mais de dois dias, enfrentou problemas na estrada e o cansaço físico para participar do evento, que é um símbolo da luta popular no Brasil.

Depois de décadas de trabalho na roça e na militância política, esta foi a primeira vez que a agricultora tem a oportunidade de conhecer a marcha. A ansiedade para chegar era tanta que não teve cansaço no mundo que fosse capaz de abalar a energia vibrante que a mobilizou para chegar até aqui.

(Foto: Andressa Zumpano via Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)

“Sempre quis vir e não dava certo. Nem sei se tenho uma palavra pra descrever [isso]. Quando você vê tantas mulheres assim, unidas, em busca de melhorias, de melhores políticas, chega a arrepiar. Eu venho pra participar, pra unir forças com as mulheres. Se perguntarem se eu estou cansada, não estou. Quando a gente vê isso daqui, cada conversa, a gente se arrepia. É lindo”, se emociona. 

A maranhense foi uma das cerca de 30 mil pessoas que se aglutinaram na noite de terça (13) no Parque da Cidade para celebrar a abertura oficial do evento, que aconteceu sob o lema “Margaridas na Luta por um Brasil com Soberania Popular, Democracia, Justiça, Igualdade e Livre de Violência”. A comemoração reuniu caravanas de todas as regiões do país e representantes de cerca de 25 países de diferentes continentes, num verdadeiro mosaico de forças populares. Também se somaram à multidão artistas, deputados federais, senadores e outros parceiros políticos. 

(Foto: Eduardo Di Napoli via Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)

O evento trouxe como debate político uma plataforma que reforça a luta por direitos, como a defesa dos serviços de saúde e educação públicas, o combate à violência contra a mulher, a preservação da Previdência social, entre outros. Nesse sentido, a marcha é também uma forma de compartilhar anseios comuns e reforçar o horizonte da luta popular.

Na ocasião da abertura, diferentes vozes fizeram referência à importância da união das mulheres para combater as múltiplas formas de violência de gênero e o contexto de retirada de direitos.

“O novo vem do povo, vem do poder popular, desse povo que é mulher. É por todas que vieram antes de nós, Luizas, Dandaras, Marielles, Margaridas, e por uma geração que será livre. Só pararemos de marchar quando todas forem livres”, bradou a deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ).

A marcha, que ocorre a cada quatro anos, reúne, tradicionalmente, mulheres do campo, da floresta e das águas. Nesta edição, o evento contou com um reforço especial das participantes da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, como é o caso de Nena Funi-ô, que veio de Águas Belas, em Pernambuco.

“Eu estou me sentindo muito satisfeita com a manifestação das mulheres.Temos que lutar pelos nossos direitos porque, se não fizermos isso, não vai ter como resolver. A gente está juntas nessa luta e não vai desistir nunca”, disse.

(Foto: Andressa Zumpano via Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)

E o mar de mulheres que tomou conta de Brasília esta semana surpreendeu também a ala masculina, que fica de espectadora diante da articulação das integrantes da marcha. É o caso do professor de história Edson Cazuza, do Rio Grande do Norte. Participando do evento pela segunda vez, ele conta que se sente inspirado diante da mobilização massiva das trabalhadoras.

“Mesmo a gente vivendo um momento tão difícil, como esse dos últimos tempos no Brasil, as mulheres fazem parte da trincheira nessa luta por democracia, por justiça social, por igualdade de direitos. Eu vejo com alegria imensa”, complementa.

Empolgada com a primeira experiência na Marcha das Margaridas, a agricultura Maria Anecy conta que a vinda a Brasília serviu de aperitivo para as próximas edições do evento e também para dar oxigênio à articulação política popular nos estados.

Marcha das Mulheres Indígenas se junta à Marcha das Margaridas. (Foto: Mídia Ninja)

“Venho quantas vezes for possível e eu tiver oportunidade. Além da energia boa dessas mulheres, eu vou levar um pouco de cada estado, uma conversa, a garra dessas mulheres. A gente se fortalece pro enfrentamento na nossa base, pra vida pessoal e pro movimento sindical também”, destaca.   

Na mesma linha de raciocínio, Nena Funi-ô conta que o evento deixa “um saldo muito positivo”.

“Eu faria tudo de novo. Estou cansada, cantei o dia todo, dancei. Mas, valeu a pena”.

Marcha das Margaridas é maior marcha de mulheres da América Latina (Foto: Mídia Ninja/Cobertura Colaborativa)

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Marcha das Margaridas leva 100 mil mulheres do campo a Brasília

6ª edição tem como temas a agroecologia e o enfrentamento da violência contra a mulher no campo

MARCHA DAS MARGARIDAS DE 2015, EM BRASÍLIA. (FOTO: MÍDIA NINJA)

No dia 14 de agosto, às 7h, um grupo de mulheres sairá do Pavilhão do Parque da Cidade, em Brasília, para marchar em direção à Esplanada dos Ministérios, um centro de decisões chave para o País. Segundo estimativas, elas serão mais de 100 mil. O horário não assusta: para mulheres rurais, da floresta e das águas, o nascer do sol é rotina em seus trabalhos, que se concentram em setores da agricultura familiar e da agroecologia.

A Marcha das Margaridas é a maior ação de mulheres da América Latina e entrará em sua sexta edição a partir desta terça-feira 13, em que será feita uma sessão solene na Câmara dos Deputados para trazer a temática das camponesas. Outras atividades estratégicas devem tomar corpo ao longo do dia, mas é apenas no dia 14 que elas colocarão nas ruas as vozes, os corpos e os chapéus de palha pelas demandas. Por acontecer a cada quatro anos, a Marcha pode escapar do calendário tradicional de atos – como o 8 de março, outra data importante para o movimento das mulheres -, mas contará com o suporte e a presença de indígenas, quilombolas e mulheres urbanas.

A coordenadora nacional da Marcha, Maria José Morais, explica que o movimento foi criado em homenagem a Maria Margarida Alves, sindicalista assassinada em 1983 por enfrentar barões do açúcar em Alagoas. Entre as principais pautas que unem as trabalhadoras rurais, a coordenadora destaca uma “luta de classes” pela manutenção de direitos, como a aposentadoria.

“Por mais que nós não fomos atingidos diretamente [pela reforma aprovada na Câmara, que teve a alteração da aposentadoria rural vetada], têm outras categorizas com as quais a gente se solidariza”, explica Morais, que também é Secretária de Mulheres da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). Nascida em Batalha, município piauiense localizado a 165 km de Teresina, Maria José é ligada desde os 16 anos à causa sindical. “Trabalhava com a juventude em programas que garantissem a permanência no campo, que ficassem não por obrigação, mas por se sentirem à vontade porque teriam educação, saúde, esporte, cultura e lazer”, explica.

MULHERES NA MARCHA DAS MARGARIDAS DE 2015. (FOTO: MÍDIA NINJA)

Agricultoras familiares, camponesas, sem-terra, acampadas, assentadas, assalariadas, trabalhadoras rurais, artesãs, extrativistas, quebradeiras de coco, seringueiras, pescadoras, ribeirinhas, quilombolas, indígenas e quem mais estiver no cenário rural.  As 100 mil que chegam à Brasília são diversas, mas encaram realidades palpáveis no cenário atual, como o avanço histórico do desmatamento na Amazônia, a liberação de agrotóxicos em um ritmo jamais visto e demais ameaças à integridade das trabalhadoras.

A questão da violência contra a mulher nos interiores brasileiros é, para Maria José, a questão que mais lhe tira o sono. “Não dão a importância necessária, fica invisibilizado. A gente não tem, infelizmente, um instrumento para ter esse diagnóstico, para saber como que é essa violência. Mas acontece feminicídio também no campo, e ele precisa ser visto.”, completa.

A defesa pelo modo de vida das margaridas é um ponto permanente, que passa, também, pelo direito à terra e à denominação na titulação conjunta da propriedade – uma demanda conquistada pelas mulheres na Marcha de 2003, no governo do ex-presidente Lula. Maria José explica que a articulação com todas as camadas vêm de, pelo menos, 2 anos de trabalho antes do ano da próxima edição, um trabalho de base minucioso.

QUEBRADORA DE COCO EM MARCHA DAS MARGARIDAS DE 2015. (FOTO: MÍDIA NINJA)

“A gente trabalha com 10 eixos temáticos que são extremamente importantes. Dentre eles, está a questão da previdência, da saúde, da educação, da terra, da água, da agroecologia. Desde o final de 2017, viemos fazendo esse debate com cada uma de nossas companheiras, para que todas as mulheres que vêm a Brasilia saibam o significado politico da Marcha das Margaridas e qual o impacto da Marcha na vida das mulheres.”, explica Maria José.

Em 2019, porém, uma tradição será quebrada: elas não entregarão ao governo as pautas de debate – pelo menos, não antes da Marcha acontecer, de fato. Maria José Morais diz que os ‘retrocessos reais’ do atual governo deixam a Marcha com um caráter de pressão, e não primeiramente de negociação. Na Esplanada, mesmo sem serem avisados, os políticos estarão cientes de que as margaridas estarão por lá. Em uma de suas canções, elas clamam:

“Terra sadia pra lucrar/ Canja na mesa no jantar / Um mínimo para se ter / Direito à paz e ao prazer”

 

 

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Conheça Margarida Alves, símbolo da luta das trabalhadoras do campo por direitos

Assassinada a mando de latifundiários, líder sindical inspirou a Marcha das Margaridas, que começa nesta terça (13)

Marcha das Mulheres surge após assassinato da militante

A Marcha das Margaridas, que acontece nos dias 13 e 14 de agosto, em Brasília (DF), é a maior ação conjunta de mulheres trabalhadoras da América Latina. A mobilização foi realizada pela primeira vez no ano 2000 e leva o nome de um símbolo da luta pela igualdade de direitos para as mulheres do campo: Margarida Maria Alves.

A cada segundo domingo do mês, a assembleia do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, se enchia de camponeses insatisfeitos com as condições de trabalho. Ausência de direitos trabalhistas, longas jornadas nos canaviais, baixa remuneração, trabalho infantil. Esse era o cenário ao longo da década de 1980.

Em meio às falas de revolta, uma maioria de homens. A realidade surpreendia quando se olhava para a presidência do sindicato. À frente, estava uma mulher, a combativa paraibana Margarida. Aqueles que conviveram com a sindicalista lembram de seu legado ainda hoje, 36 anos após seu assassinato.

“Margarida era uma mulher forte, de fibra, muito corajosa e uma grande lutadora. Ela enfrentou uma luta ferrenha contra os latifundiários, os perseguidores dos trabalhadores, porque não era fácil naquela época.”

O depoimento é de Maria da Soledade Leite, hoje com 77 anos, que conviveu com a líder sindical por quase uma década. Também natural de Alagoa Grande, a repentista viajava o Nordeste tocando. Regressou para a terra natal em 1975, com a viola, as duas filhas e sob os olhares de preconceito por ser uma mulher recém-separada. Foi na filiação ao sindicato e no apoio de mulheres como Margarida que reencontrou seu caminho.

As lutas de Margarida

Entre as lutas travadas pela sindicalista estão a busca pela contratação com carteira assinada, o pagamento do décimo terceiro salário, o direito das trabalhadoras e dos trabalhadores de cultivar suas terras, a educação para seus filhos e filhas e o fim do trabalho infantil no corte de cana. A atividade era marcante na região, em especial pela existência da Usina Tanques — a maior do estado da Paraíba naquela época — contra a qual Margarida movia mais de cem ações trabalhistas.

“Isso era uma facada no cofre dos patrões. Eles queriam os trabalhadores escravos, as filhas dos trabalhadores sendo as ‘negrinhas de cozinha’ deles até serem violentadas, seja por eles ou pelos seus filhos, caladas. Foi aí que surgiu a perseguição contra Margarida e contra todos os que defendiam os direitos dos trabalhadores”, conta Soledade.

Caçula de nove irmãos e natural da periferia paraibana, Margarida Alves tinha na história de sua própria família a experiência de ser expulsa de suas terras por latifundiários, episódio que vivenciou ainda na infância.

Foi somente depois de mais velha que completou a quarta série do ensino primário. A pouca escolaridade, porém, não impediu que Margarida lutasse para que outras pessoas pudessem estudar. Durante sua gestão no sindicato foi criado um programa de alfabetização para adultos através dos métodos de Paulo Freire. Uma das educadoras foi Luzia Soares Ferreira .

“Os trabalhadores todos eram analfabetos, tanto homens quanto mulheres. A gente ia pegar a assinatura deles, mas eles não sabiam escrever o próprio nome. Margarida então dizia: ‘minha gente, vamos botar uma escola aqui para esse povo aprender’. Juntamos eu, ela e Carmelita, e montamos uma escola dentro do próprio sindicato”, relembra Luzia.

As duas se conheceram em um curso de corte e costura oferecido pelo sindicato para a capacitação profissional das mulheres. Hoje com 67 anos, Dona Luzia é presidenta do Movimento de Mulheres Trabalhadoras da Paraíba (MMT/PB), organização que criou ao lado de Margarida em 1981.

As ameaças constantes

Em função de sua luta por direitos, não tardou para que começassem as intimidações à atuação combativa de Margarida. Os próprios trabalhadores contavam para a líder sobre as ameaças que ouviam de seus patrões e feitores. Dona Luzia lembra que, no entanto, a paraibana resistia.

“Eu via quando os trabalhadores rurais chegavam para contar sobre as ameaças. Ela estava sentada no birô dela, se levantava com o chapéu na cabeça, aquela sandália no pé, aquele vestido comprido franzido, também de manga comprida, e dizia: ‘meu filho, isso não vai acontecer, não. E eu não tenho medo. Eu não tenho medo de falar.’”

Porém, a resistência de Margarida não superou a tirania dos latifundiários. A vida de uma das primeiras líderes sindicais do país foi cruelmente encerrada por matadores de aluguel a mando de fazendeiros da região de Alagoa Grande. Margarida foi assassinada em 12 de agosto de 1983, aos 50 anos, em sua casa, na frente do único filho e do marido.

O crime segue impune, mas seu legado permanece vivo. A cada dois anos, a luta de Margarida Maria Alves mobiliza milhares de mulheres das cinco regiões do país rumo à marcha que leva o seu nome.

 

 

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