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Lula: “Não podemos permitir que os milicianos acabem com o país que construímos”

Em seu discurso, o ex-presidente criticou o governo de Jair Bolsonaro e reafirmou sua disposição em lutar por justiça

Ex-presidente discursou neste sábado para uma multidão de apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC / João Pompeo

Em um discurso duro contra Jair Bolsonaro (PSL), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu as medidas de distribuição de renda de sua gestão e atacou as medidas liberais do atual governo.

Ele convocou a multidão que se aglomerou em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), a se mobilizar contra o desmonte do Brasil.

“Não tem ninguém que conserte esse país, se vocês não quiserem consertar. Não adianta ficar com medo das ameaças que ele faz na tevê, que vai ter miliciano, que vai ter AI-5. A gente que ter a seguinte decisão: esse país é de 210 milhões de habitantes e não podemos permitir que os milicianos acabem com esse país que construímos.”

Lula questionou a capacidade de Bolsonaro e Paulo Guedes em dar respostas à economia do país. “O que vejo é que o povo ficou mais pobre, com menos saúde, menos casa, menos emprego. Mais de 40 milhões, 50% da população está ganhando R$ 423 por mês. Seria importante que ele fizesse o que vocês fazem: pegar R$ 423 e sustentar a família, pagar transporte para trabalhar. Queria que ele fosse pro médico, comprar remédio. Eu acho que não tem outro jeito”, argumentou.

O ex-presidente também criticou a postura de Bolsonaro em seus pronunciamentos públicos e lamentou o desrespeito do atual presidente com mulheres, negros, LGBTs e com as pessoas mais frágeis da sociedade.

Segundo Lula, essa postura de Bolsonaro também se traduz em suas ações de governo. “Quero saber porque esse cidadão que se aposentou muito jovem quis tirar aposentadoria do povo brasileiro. Quero saber porque esse cidadão que nunca ganhou salário mínimo quer congelar o salário, que nunca teve a carteira profissional azul quer criar a carteira verde amarela que vai ter empregos intermitentes. Não vai ter registro em carteira. Eles estão apresentando um projeto econômico que vai empobrecer cada vez mais a sociedade brasileira”.

Lula iniciou seu discurso atacando a Rede Globo de Televisão e lembrando a rotina que tinha durante o período em que ficou preso. “Foram 580 dias numa solitária”, declarou. O ex-presidente defendeu a decisão de se entregar à Polícia Federal no dia 7 de abril de 2018.

“Quero repetir algo que falei: o homem e a mulher, quando tem clareza do que quer na vida, do que eles representam e que seus algozes estão mentindo – e eu poderia ter ido a uma embaixada, outro país –, mas eu tomei a decisão de ir lá. Preciso provar que o juiz Sérgio Moro não era um juiz, era um canalha. Dallagnol não representa o Ministério Público, que é uma instituição séria. Ele montou uma quadrilha na força-tarefa da Lava Jato. Quem fez inquérito contra mim, mentiu em cada palavra. Se eu saísse seria um fugitivo.”

Justiça para Marielle

O ex-presidente cobrou justiça no caso de Marielle. Lula disse que Bolsonaro foi eleito para governar para o povo brasileiro e não para os milicianos do Rio de Janeiro. “Não é a gravação do filho dele que vale. É preciso que haja uma perícia séria para que a gente saiba definitivamente quem matou Marielle.”

Multidão ocupou as ruas do entorno do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, neste sábado (9)

“Tesão de 20”

Lula reafirmou a posição de não agir movido pelo ódio. “Aos 74 anos, eu não tenho direito mais de ter ódio em meu coração. Eu não sabia que ia me apaixonar aos 74 anos de idade. Eu estou com 74 anos, energia de 30 anos e tesão 20 anos. Eu estou de bem com a vida e vou lutar por esse país”, apontou.

Ele relembrou as políticas afirmativas do seu governo. “A única coisa que me motiva nesse país é que nós já provamos que é possível governar para o povo mais necessitado. É possível colocar pobre na universidade, o povo nas escolas técnicas. Provamos que em 12 anos geramos 22 milhões de empregos com carteira assinada”, apontou.

Inocência

Lula agradeceu os advogados Valeska e Cristiano Zanin e lembrou que sua luta é para que os processos contra ele sejam anulados. “O que nós queremos agora é que seja julgado o habeas corpus que demos entrada nos STF [Supremo Tribunal Federal] anulando todos os processos feitos contra mim. Existe argumento suficiente para provar. Não sem rancor: [Sergio] Moro é mentiroso, [Deltan] Dallagnol é mentiroso. Não é por causa do que foi publicado pelo The Intercept, é pelo que escreveram na minha defesa. Só tem uma explicação para o que fizeram no processo, foi para me tirar da disputa eleitoral.”

América Latina

Lula ressaltou a importância dos resultados recentes nas eleições em países vizinhos. Ele comemorou a vitória da chapa de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner, na Argentina, e manifestou sua torcida por Daniel Martínez, da Frente Ampla, no Uruguai, “para evitar a volta do neoliberalismo”.

Sobre a Bolívia, o ex-presidente denunciou a pressão golpista da oposição contra o presidente reeleito Evo Morales. “Estão fazendo o que o Aécio fez quando Dilma ganhou dele.”

O petista pediu solidariedade à luta do povo chileno contra o neoliberalismo e ao povo venezuelano na luta contra o bloqueio econômico e às ameaças estadunidenses. “Podemos fazer críticas a qualquer governo do mundo, mas quem decide sobre os problemas do país é o povo do país. O [Donald] Trump que resolva o problema dos americanos. Ele não foi eleito para ser o xerife do mundo. Ele que governe os Estados Unidos e cuide da pobreza de lá.”

Por fim, Lula contestou a iniciativa de Trump em construir um muro separando os Estados Unidos do México. “Eles que celebraram a queda do muro de Berlim estão construindo um muro contra pobres. Não podemos aceitar isso”, assinalou.

“Estou de volta”

No final do discurso, o ex-presidente voltou a convocar os brasileiros a reagir às medidas neoliberais de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. “Um povo como vocês não depende de uma pessoa, dependem do coletivo. Cassaram Lula e [Fernando] Haddad quase é eleito presidente da República. Tenho certeza de que se a gente tiver juízo, se souber trabalhar direitinho, em 2022 a esquerda, que Bolsonaro tem tanto medo, vai derrubar a ultradireita. Esse país não merece o governo que tem. Não merece um governo de um presidente que manda os filhos todos os dias contar mentiras, através das fake news”.

 

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Senado aprova Dandara dos Palmares e Luísa Mahin como ‘heroínas da pátria’

Os nomes das guerreiras Dandara dos Palmares e Luísa Mahin podem ser incluídos no livro “Heróis e Heroínas da Pátria”.

Dandara dos Palmares

Os nomes das guerreiras Dandara dos Palmares e Luísa Mahin podem ser incluídos no livro “Heróis e Heroínas da Pátria”. No caso da primeira, a sugestão foi do deputado baiano Valmir Assunção (PT-BA), mas as duas tiveram seus nomes aprovados em sessão do Senado, nesta quarta-feira (27). Com isso, a medida agora segue para sanção presidencial.

“Temos duas mulheres negras, de histórias de luta, fundamentais para nossa ancestralidade. Vamos acompanhar o trâmite final e celebrar, pois isso mostra a força da mulher, da luta por terra e por liberdade. Principalmente no período e a conjuntura política que vive o Brasil. Não tenho dúvida que a aprovação desse projeto será uma das muitas vitórias que teremos”, destaca Assunção.

Companheira de Zumbi dos Palmares, Dandara comandou um quilombo na luta contra a escravidão. Quando foi presa, a guerreira cometeu suicídio ao se jogar de uma pedreira ao abismo para não retornar à condição de escrava. Já Luísa Mahin nasceu na região da Costa Mina, na África, mas foi radicada no Brasil. A mãe do advogado abolicionista Luís Gama coordenou a articulação dos levantes de negros escravizados.

 

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“O protagonismo feminino veio para ficar” por Benedita da Silva

Em artigo para a Fórum, deputada federal afirma que “o 8 de Março é o dia em que a mulher mostra para a sociedade a força de seu protagonismo e a legitimidade de sua luta”

Foto-Valter Campanato:Agência Brasil

O dia 8 de Março é celebrado como o Dia Internacional das Mulheres. Mas será apenas o dia em que os homens se sentem obrigados a dar flores às mulheres, como muitos pensam? Podem até continuar dando flores, mas não por elas serem supostamente o “sexo frágil”, e sim por admiração e respeito pela sua luta por direitos iguais aos dos homens.

O 8 de Março também não é simplesmente o dia de luta das mulheres, mas o dia em que as mulheres mostram para toda a sociedade pelo que lutam e por que querem se libertar da supremacia masculina imposta a elas pela tradição milenar do patriarcado.

São muitos os motivos de nossa luta, mas o fundamental é entender que o conjunto dos trabalhadores só vai se libertar da opressão do capital se junto as mulheres se libertarem da opressão machista e também do racismo, que atinge com mais força as mulheres negras.

A discriminação da mulher começa na família e na escola, se prolonga no mercado de trabalho e na sociedade se expressa na violência contra as mulheres, na desigualdade de direitos com os homens e no racismo.

Segundo a pesquisa feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1,6 milhão de mulheres relataram terem sido espancadas no ano passado – 185 a cada dia. Segundo o Instituto Geledés, mais de 60% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. No mercado de trabalho as mulheres brancas recebem cerca de 70% do salário do homem branco, e as mulheres negas, 40%.

A discriminação da mulher negra é tão forte que, às vezes, o feminismo negro precisa lutar muito para se tornar visível e denunciar como somos esmagadas pelo triplo preconceito: racial, de gênero e de classe social. A categoria profissional que mais emprega mulheres é a do emprego doméstico, e nele 61,7% são negras. O regime de trabalho doméstico é equivalente ao trabalho escravo e ainda se acrescenta a dupla jornada de trabalho para cuidar de seus filhos e de sua casa. Somente em 2013 é que os direitos trabalhistas dos trabalhadores domésticos foram equiparados aos dos demais trabalhadores.

No entanto, três anos depois, o golpe do impeachment contra a presidenta Dilma anulou essa conquista histórica.

Uma das faces mais visíveis da discriminação da mulher no Brasil é a sua pequena representação política. O poder branco e masculino faz de tudo para desestimular, dificultar e até mesmo impedir a entrada da mulher num espaço que ele considera historicamente seu. Registrando uma média de 10% na Câmara, somente no ano passado é que essa participação das mulheres subiu para 15%. Parte desse aumento se deve à reação das mulheres conscientes contra a misoginia, o machismo e o feminicídio, pautas que se tornaram bandeiras nas eleições de 2018.

A extrema polarização política da sociedade, alimentada artificialmente pela grande mídia e pelas fake news bolsonaristas, não conseguiu anular completamente da memória popular a lembrança de como se vivia no governo Lula. A geração de emprego, a inclusão social, o acesso à moradia e a política de cotas raciais na universidade permitiram uma significativa ascensão do poder feminino, em especial das estudantes e trabalhadoras negras. Foi esse poder social que se manifestou no protagonismo das mulheres brancas e negras contra o golpe do impeachment, no “Ele Não” e no voto em Haddad no segundo turno. É esse mesmo protagonismo feminino que começa a se mobilizar contra essa famigerada Reforma da Previdência de Bolsonaro, em que as mulheres são as mais prejudicadas, particularmente as professoras e as trabalhadoras do campo.

Portanto, o 8 de Março é o dia em que a mulher mostra para a sociedade a força de seu protagonismo e a legitimidade de sua luta. Com isso desmonta a invenção machista do “sexo frágil”, feita apenas para nos dominar e prova que a luta de classe dos trabalhadores não pode estar separada das lutas contra o racismo e pelos direitos das mulheres.

*Benedita da Silva é deputada federal (PT/RJ)

 

Via Geledés

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Dia da Mulher: respeito não é presente, é direito.

Nossos apelos parecem trilha sonora para as barbaridades que continuam sendo noticiadas todos os dias. *Por Nathalí Macedo

Imploramos pelo mínimo todos os dias do ano:  parem de nos matar. Tirem seus rosários de nossos ovários. Parem de desfigurar nossos rostos, de nos queimar vivas, de nos atirar do alto de prédios, de nos culpar quando somos estupradas, parem de ver nossos corpos como parques de diversão ou espólios de guerra.

Nossos apelos parecem trilha sonora para as barbaridades que continuam sendo noticiadas todos os dias. Só este ano, mais de dez mil mulheres foram estupradas no Brasil – fora as que não denunciam por medo, ou são desencorajadas por um judiciário canalha. Também este ano, os registros de feminicídios aumentaram, apesar de terem diminuído os registros de homicídios.

A impressão que tenho é de que nossos esforços didáticos são inúteis diante de uma sociedade que ainda não consegue nos oferecer o mínimo: escuta.

Quando dizemos “nesse oito de março, não dê flores, dê respeito!, parece que precisamos de um dia especial para cordialmente solicitarmos o que é nosso por direito. Respeito não é presente: é direito de todas as mulheres e dever de todo ser humano decente.

Presente é convidá-la para jantar o seu prato preferido. Passar o dia com ela numa praia de azul tão infinito quanto a sua força. Aprender a tocar aquela música que ela adora. Comprar-lhe uma roupa nova, um vinho, ingressos pro cinema.

Aliás, pode dar flores no oito de março, sim. Não está proibido, que eu saiba. Mas em todos os outros dias do ano, trate-nos como seres humanos.

Temos solicitado cordialmente há décadas isso que ninguém deveria hesitar em nos oferecer: o direito de existirmos, de permanecermos vivas e inteiras. Se, para nós, nada vem de graça – a não ser os buquês do nosso dia internacional – levantamos e vamos buscar.

Exigimos, quando necessário. Tomamos à força.

Respeitar ou não respeitar mulheres não é mais uma questão de escolha: nós somos o futuro, e não há outro caminho. Mais do que maioria numérica, somos a potência vital do universo. Nossos ventres guardam a vida, e ninguém pode chegar a este planeta a não ser dentro de uma de nós.

E sabe o melhor?

A gente se deu conta disso.

E foi quando entendemos que não precisamos implorar pelo óbvio que vocês passaram a nos verem em todos os espaços (e aviso que continuaremos ocupando-os).

Toda vez que matarem, estuprarem, vandalizarem uma de nós, brotarão outras centenas de milhares, fazendo um escândalo. Toda vez que tentarem culpar uma mulher pelo mau-caratismo de um homem adúltero, estaremos lá para dizer que a culpa da traição é de quem trai. Cuspiremos em todas as manchetes que tentarem nos culpar quando formos vítimas e continuaremos em marcha até que todas sejamos livres.

O respeito que queremos não será solicitado no dia oito de março ou em qualquer outro dia: exigiremos.

Não há de ser fácil, mas um dia eles vão aprender.

Nem que seja na marra.

 

Via Diário do Centro do Mundo

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A força negra da compositora paraibana Cátia de França

Conheça a arte da filha de Adélia de França, que compõe sem impor fronteiras entre literatura e música.

Foto: Reprodução.

Cátia de França tem 71 anos e saiu da Paraíba em busca de mostrar sua arte pelo Brasil afora quando tinha apenas 19 anos. Tem em sua bagagem um encontro de letras, sons e sonhos. Suas canções já foram gravadas por grandes nomes da MPB, como Elba Ramalho, Amelinha e Xangai. Tem 6 discos gravados: 20 Palavras ao Redor do Sol (1979), Estilhaços (1980), Feliz  Demais (1985), Avatar (1996), No Bagaço da Cana: Um Brasil Adormecido (2012) e Hóspede da Natureza (2016). Essa mulher forte representa bem o momento político que estamos vivendo, na necessidade de resistir a preconceitos e ao ódio, “mas com o poder do humor” e da arte.

Confira a seguir a conversa entre o BdF e a lenda viva da música brasileira.

BdF: Fala um pouco da sua origem e da influência da sua mãe, a primeira professora negra da Paraíba, Adélia de França, na constituição do que é Cátia de França hoje?

Cátia de França: Você focar Cátia de França, você tem que saber as origens, o tronco, as raízes, quem foi essa pessoa que me gerou, então tem a presença dela. Minha mãe era uma figura irrequieta para a época, as pessoas que me dizem, andava bem vestida, morava na Rua da República, depois Rua da Pedra, ensinou em Itabaiana, Rio do Peixe, Pedras de Fogo, Guarabira. No entanto, as pessoas acessavam a internet e não tinha nada sobre minha mãe, aí uma universitária daqui de João Pessoa, Simone Cavalcanti, pesquisou sobre ela e passaram a saber quem era ela. Eu estou trabalhando para que essa dissertação seja publicada com a história dela! Tem uma escola aqui em João Pessoa, em Valentina, com o nome dela, mas não tem a foto dela. Era para ter um pôster dela para as crianças saberem quem era ela. Porque meu trabalho é todo em cima de livros? Porque mamãe me deu livros, eu me lembro faltava manteiga, mas não faltava livros, então essa era a figura revolucionária. Na certidão de nascimento dela não dizia que ela era negra, dizia que ela era parda, ela ficava o cão porque botaram parda, ela dizia isso não é coisa nenhuma, eu sou negra, porque não colocaram no meu registro? E o grande senão dela era o não reconhecimento do meu avô, que era um comerciante altamente conhecido no interior, e não assumiu ela, então na certidão dela ficou só o nome da minha avó, que era lavadeira, Severina de França. Mas ela tirou isso de letra, começou a ensinar, era requisitada. A escola dela era na Almeida Barreto, rua do mercado central, de um lado era a casa de hospedagem para rapazes, filhos de fazendeiros do interior da Paraíba, e do outro, eram de moças, e eu convivia com aquele povo todo, entendeu? E ela logo de pequena, ela me deu um piano, com 4 anos de idade, me deu um pianinho de brinquedo, mas saía o som né? Para eu amar aquela coisa, para não ser você tem que ser isso. Com 12 anos, eu recebi um piano caríssimo para a época, imagine com o salário de professora primária, ela me deu um piano alemão, imagino o quanto ela não penou para pagar aquilo! E eu tenho ele até hoje. Eu quero ver se eu faço aqui uma fundação para eu colocar tudo meu, meus papéis, retratos, discos, telas, tudo isso eu quero ver se fica tudo em um canto só, com toda a segurança possível. Tem muito material meu na estação ciência, que eu tenho que retirar de lá e colocar em um canto que ninguém mexa mais. Eu tenho que conseguir isso junto de algum órgão para me dar essa salvaguarda.

Sobre a política cultural, como você acha que os governos se comportam frente à arte e à música?

Parece que cultura é uma coisa descartável, mas cultura é a digital de um povo. Você sente como é que se trata as artes populares através disso, e agora está todo mundo meio de cabelo em pé, como é que vai ser depois de janeiro de 2019, como é que vai ser encarado isso? Porque já estavam tentando quebrar o Ministério do Trabalho, você já sente como é que vai ser e o que é que vai vir aí pra a gente, então está todo mundo colocando as fichas todas em 2018, entendeu? Nesse tempo assim a gente vê quem é quem, a gente anda nas ruas e a gente já vê a digital do que vai vim. Onde eu moro, em São Pedro da Serra (RJ) você já vê a ódio. É uma violência contida, uma coisa contra o negro, contra o índio, contra a população LGBT, as máscaras estão caindo, estou chocada!

Em 2017, durante entrevista à Revista Trip, você se definiu como uma mulher que tem sangue nas ventas, negra, índia, cigana, bruxa, candomblecista, aquariana, como você enfrenta os preconceitos? Na música também tem preconceito?

Eu ainda me defino assim e ainda mais, sou de esquerda. Na música também tem preconceito, daqui da Paraíba eu fui a primeira mulher a toca guitarra, eu já comecei daí, é uma coisa surda. Os garçons, as atores e atrizes das novelas que são babás, empregadas domésticas, motoristas são, eram sempre de negros, não havia um advogado negro, e no cinema, o racismo é muito mais visível, porque tem grandes roteiristas negras e não são chamadas, diretoras negras e não são chamadas, então é um movimento de amordaçar esse povo. Mas quando isso vem à tona e é publicado, não tem como esconder mais, não tem como segurar esse grito, uma coisa do povo negro com a ajuda dos orixás e dessa gana de sobreviver isso vem à tona. Então está latente!

Como você define sua arte, você é escritora, multi-instrumentista, compositora?

Eu escrevi um cordel sobre Zumbi em 5 volumes, mas não sigo a métrica do cordel, o meu jeito de escrever cordel eu classifico como “catarinesca”, que é do meu nome Catarina, entendeu? Eu inventei uma modalidade! Está em vias de sair, acho que em 2019 sai, o infantil, o Natureza Naturalmente, e o Zumbi e tem o manual da sobrevivência, que é sobre as pessoas que se separam, como sobreviver a um descasamento?

Com 71 anos, como você avalia a sua trajetória?

Foi preciso muita coragem e minha mãe já preparou para isso porque eu me lembro que com 15 anos ela me mandou para um colégio interno em Pernambuco, aí a família toda ficou em polvorosa, mamãe dizia: eu preparei ela para a vida, ela vai e não vai acontecer nada, eu não posso ir e não tenho tempo porque tudo depende de mim e do meu trabalho, da sobrevivência da gente e meu marido é um homem doente, não vai levar ela. Então eu fui e já comecei com 15 anos pegando 2 ônibus e indo estudar em Pernambuco, saí com 19 anos, formada professora e daí ela começou a dizer que eu saí para ser uma coisa e voltou outra, porque eu me converti a religião evangélica e mamãe não era de religião nenhuma. Mamãe dizia: isso vai criar um obstáculo para o tipo de arte que a minha filha vai exercer, porque tudo não é de Deus, é do demônio e eu não quero isso. Aí mamãe me colocou para andar com o jornalista Diógenes Brayner sair comigo e começar a compor, daí eu comecei, tirei carteira de músico por imposição dela, para eu ficar profissional, e daí eu não parei mais. Quando fui para o Rio, aí já tinham pessoas me esperando que arrumaram emprego para mim, mas não na área de música. Aí Elba chega, precisa de músicos aí chama eu, Pedro Osmar, Damilton Viana, Vital Farias, e a gente foi requisitado para fazer teatro, a parte de música junto para ir para São Paulo e daí não parei mais. Então eu peguei os anos de chumbo de São Paulo, em 1975.

Sobre esses tempos que não podiam falar de política, do que você se lembra?

Eu me lembro que a música chegava a partir de corais, os estudantes liam partituras nas escolas e isso na época foi tudo retirado durante a ditadura. E a tendência é isso mesmo eles não querem que as pessoas se expressem, uma certa liberdade que pode dar vazão aquele grito que precisa sair, isso é retirado. Então na época em 1975, onde tinha nordestino, a polícia caía logo em cima. Ficam por ali os olheiros, quando sabia, a gente ficava num canto que tinha papéis dizendo que a gente estava trabalhando no teatro em frente, mas mesmo assim fomos colocados em um camburão, juntou bastante gente e para não observarem isso, fomos soltos na rua de trás. Foi um negócio muito estranho.

E qual o papel da arte para sobrevivermos a tempos de ódio e intolerância?

Sempre, não precisa nem cantar, entendeu? Um traço que você dê num muro, o grafismo, qualquer manifestação artística você pode desmembrar e desmascarar e criar um coágulo nesse organismo que se instalou por causa de inércia da gente. Isso veio não foi de uma hora para a outra, sabe aquela coisa de ir deixando, permitindo, entendeu? A mesma coisa da igreja católica, a igreja católica se achando com aquela coisa, de repente outras religiões tomaram a frente e agora é o agronegócio e as igrejas que não sejam de matrizes católicas, tomaram o poder. No Rio de Janeiro a gente sente isso e a tendência é essa. Se você for ler a bíblia, com um olhar de abertura, em momento algum, esse ensinamento diz que é para pegar as armas. Não!  Bíblia é amor, condescendência, então quando Jesus fez o Ministério dele, ele não foi pegar cabeças coroadas na Sinagoga, ele não pegou doutores, ele pegou pescadores, lavradores, foi numa casta mais humilde que ele pousou a igreja dele, então existe toda uma mentira, o gesto de arma na mão, isso não vem da Bíblia, na Bíblia não tem isso. Se quiser ler da maneira correta, ali na bíblia não se ensina isso, então usam para querem mascara, confundir e é tudo em cima de coisas mentirosas, é o tal do fake news. Vi tios mandar fotos de fuzil para o sobrinho dizendo: olha aqui para você! Então gente tem que mais do que nunca que dar as mãos e se preparar porque temos mais 4 anos pela frente.

Muitos jovens redescobriram Cátia de França, como foi isso?

Foi a internet. A internet é uma faca de dois gumes, tanto pode usar para porcaria, como pode usar para ter acesso. No momento que acabaram as lojas, não se vendem mais discos, os meninos baixam tudo na internet. Onde eu chego predomina só jovens cantando junto, no Circo Voador, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, recentemente, foi assim. Então a internet me colocou de novo no topo, enquanto que a mídia burra quer me amordaçar porque não interessa uma meia dúzia que tem na mão o monopólio da mídia, a eles não interessa uma negra, com ideias de esquerda, lésbica e de macumba, não querem, é muita minoria em cima, então a internet que me colocou no meu devido lugar, onde merecidamente eu teria que estar.

Como Cátia de França quer ser conhecida, como você quer que as pessoas te conheçam, como você quer ser lembrada?

É o poder do humor, faz rir, mas também faz pensar. O poder da dança, meu trabalho é todo suinguado mas ali pelo meio, se você ver o texto que eu estou dizendo, daquela capoeira, “sustenta a pisada”, eu aliada à literatura cortante como de João Cabral de Melo Neto, de José Lins do Rego, que é aqui da Paraíba, Guimarães Rosa, a coisa da criança que existe dentro da gente, que é o Manoel de Barros. Você pode dizer grandes coisas, mas não pode deixar essa criança, a gente não pode deixar de rir e de dançar, porque enquanto há vida, há reação e há esperança. E não esquecer nunca que a minha mãe lá trás, Adélia de França, ela é uma pessoa do humor, uma vez ela estava dando aula e o côco caiu na cabeça dela, ela riu, e disse: – Levei agora mesmo um cascudo de Deus! Então minha mãe e minha parte negra da família tinham muito humor, minha tia Celina era muito engraçada. Então eu quero ser lembrada, a filha da Adélia, que tinha como livro de cabeceira Geografia da Fome, de Josué de Castro e tinha na parece de casa, de um lado Dom Hélder Câmara e do outro, Che Guevara, minha mãe era assim, e eu quero sempre que lembrei disso.

 

Via Brasil de Fato

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Decisão da Câmara não abaterá a luta pela democracia, diz Cardozo

Advogado-Geral da União garante que Dilma continuará a batalha em defesa de seu mandato no Senado

e77a35a7-e9d0-42fe-97f9-df6678468348O advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, disse, no início desta segunda-feira (18), que a decisão tomada pela Câmara dos Deputados, admitindo a instauração do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, não abaterá a luta da presidenta pela democracia.

“Ela não é das pessoas que tem apegos a cargos, mas a princípios. Dedicou sua vida a luta por certos princípios. Se alguém imagina que ela se curvará, se enganou. Ela lutará com todos aqueles que querem a manutenção do Estado de Direito no Brasil”, afirmou Cardozo.

O AGU afirmou que recebeu o resultado da votação com indignação e tristeza, e que nenhum parlamentar proclamou seu voto considerando os objetos da acusação. “As falas e debates giraram sobre tudo, mas não sobre os argumentos e sobre as falhas do relatório. Isso nos mostra com muita clareza que a decisão foi puramente política e não é isso que a nossa Constituição prescreve no caso de impeachment”, afirmou Cardozo.

Ele destacou que a falta de identificação de crime de responsabilidade no relatório pode ser considerada uma ruptura com a Constituição brasileira, e, portanto, um golpe contra a democracia. “Um golpe nos 54 milhões que elegeram Dilma e um golpe na Constituição. O golpe de abril de 2016, que, se consumado, ficará como vergonhoso na história brasileira”, analisou.

Na avaliação do advogado-Geral da União, os parlamentares acabaram induzidos a uma confusão no processo contra a presidenta, uma vez que muitos deles desconsideraram o objeto da denúncia apresentado no relatório. Cardozo disse ainda que Cunha seria o executor e mentor do processo de impedimento, o que gera indignação, uma vez que o processo de impedimento foi movido por um sentimento de vingança.

Senado

A principal estratégia do governo no Senado deverá ser a de ressaltar a fragilidade do processo admitido na Câmara. “O relatório é insustentável, ele não para de pé. Não tenho a menor dúvida de que há chances de ganhar no Senado, porque a razão está do nosso lado”, afirmou Cardozo.

O AGU lembrou que o julgamento não pode ser realizado considerando apenas os aspectos políticos, uma vez que trata-se de um procedimento político-jurídico. “Não é o fato de que um julgamento é feito por políticos que a Constituição não deve ser levada a sério. É claro que não são magistrados, mas não pode se desprezar o que diz o texto constitucional”, afirmou.

Fonte: Portal Brasil