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Coronavírus varre a América Latina

Brasil é o país mais afetado na região, destaca a Organização Mundial da Saúde (OMS)

VISÃO AÉREA DO CEMITÉRIO NOSSA SENHORA APARECIDA, EM MANAUS, CAPITAL DO AMAZONAS. FOTO: MICHAEL DANTAS/AFP

O coronavírus continua seu avanço inexorável na América Latina, que se tornou o novo “epicentro” da pandemia, principalmente no Brasil, o segundo país com mais casos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Pela terceira vez em quatro dias, o Ministério da Saúde brasileiro anunciou na sexta-feira 22 um balanço diário de mortes superior a 1.000.

O Brasil registra um total de 21.048 vítimas fatais, o que o coloca na sexta posição no mundo. Com um total de 330.890 contaminações, incluindo 20.803 nas últimas 24 horas, substituiu a Rússia (326.488 casos) na 2ª posição em termos de número de casos identificados.

A América do Sul é “um novo epicentro” da pandemia de coronavírus, informou na sexta a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Vimos o número de casos aumentando em muitos países da América do Sul (…), mas claramente o mais afetado nesse estágio é o Brasil”, disse Michael Ryan, responsável das situações de emergência da OMS.

O Peru, que foi o primeiro país latino-americano a impor restrições, também luta para conter a propagação do vírus, que continua a se espalhar, principalmente nos mercados e bancos que permaneceram abertos, com um sistema de saúde frágil, economia informal e pobreza endêmica.

O presidente peruano Martin Vizcarra estendeu na sexta-feira até 30 de junho o confinamento em vigor desde 16 de março e o “isolamento social obrigatório”.

O país contabiliza mais de 3.100 mortes e mais de 110.000 casos desde 6 de março.

Com números provavelmente subestimados, a pandemia afetou oficialmente mais de 5,1 milhões de pessoas em todo o mundo. E matou pelo menos 335.538 desde sua aparição em dezembro na China, de acordo com um balanço da AFP estabelecido de fontes oficiais na sexta-feira.

Locais de culto

País com mais casos, os Estados Unidos (1,6 milhão), também é o que contabiliza mais vítimas fatais, 95.921, incluindo 1.260 nas últimas 24 horas.

Para homenagear as vítimas, as bandeiras ficarão a meio mastro até domingo.

Apesar desses números, os 50 estados americanos iniciaram um desconfinamento parcial e progressivo, mantendo algumas restrições a respeito das aglomerações.

Os bares reabriram no Texas, sujeitos a uma limitação de um quarto de sua capacidade.

Donald Trump, muito popular entre os cristãos evangélicos, defendeu fortemente a reabertura imediata dos locais de culto no país.

“Considero os locais de culto – como igrejas, sinagogas e mesquitas – lugares essenciais que prestam serviços essenciais”, disse o presidente americano na sexta-feira, ressaltando que gostaria que o país “normalizasse” rapidamente.

Especialmente porque algumas empresas americanas emblemáticas estão sofrendo um forte impacto: centenária e mundialmente conhecida, a empresa de aluguel de carros Hertz colocou suas atividades nos Estados Unidos e no Canadá sob o regime de falência americano.

O PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS, DONALD TRUMP. FOTO: BRENDAN SMIALOWSKI/AFP

A Europa, onde a pandemia matou mais de 171.000 pessoas, continua seu lento retorno à normalidade, tomando precauções, por medo de um ressurgimento epidêmico.

Na França, o quinto país do mundo em número de mortos (28.289), as cerimônias religiosas poderão ser retomadas neste sábado, desde que os fiéis respeitem a distância física, usem máscara e desinfetem as mãos.

Na entrada dos locais de culto, o fluxo deverá ser regulado para não exceder uma capacidade máxima.

Na Finlândia, a flexibilização permitiu que os trabalhadores estonianos transfronteiriços, retidos por dois meses, voltassem para casa.

A Islândia reabrirá a partir de segunda-feira boates, bares e academias. E na Itália, o famoso Duomo de Florença, a Catedral de Santa Maria del Fiore, reabriu ao público hoje.

O Chipre, muito dependente do turismo, reabrirá seus aeroportos para voos comerciais de cerca de vinte países a partir de 9 de junho.

Quarentena britânica

Por outro lado, os viajantes que chegarem do exterior no Reino Unido serão colocados em quarentena por catorze dias. Raras exceções estão previstas, mas não para aqueles que chegarem da França, como Londres e Paris haviam sugerido recentemente.

O governo francês, que lamentou essa decisão, ameaçou Londres com uma “medida de reciprocidade”.

Na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, muitas pessoas recorrem a contrabandistas e certificados falsos para se juntarem aos seus entes queridos, como no final de cada Ramadã, apesar da proibição deste ano.

Enquanto isso, apesar das críticas, a China, berço pandemia, que apareceu em dezembro na cidade de Wuhan (centro), comemorou na sexta-feira “um grande sucesso estratégico” em sua “resposta à COVID-19”, na abertura da sessão plenária do parlamento.

Menos de 24 horas depois, Pequim anunciou que não havia identificado nenhuma nova contaminação com o novo coronavírus, pela primeira vez desde janeiro.

O último balanço na China aponta quase 83.000 contaminações, incluindo 4.634 fatais.

Mas Washington acusa as autoridades chinesas de terem demorado em alertar o mundo sobre a epidemia e de terem ocultado a magnitude dela, o que Pequim nega vigorosamente.

*Por Aymeric Vincenot

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“Vida é feita de escolhas e eu escolhi sair”, diz Teich, em discurso apressado

Ministério da Saúde passa por mais uma troca de comando em plena pandemia do novo coronavírus

Nelson Teich deixou o Ministério da Saúde após discordância com o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Júlio Nascimento/PR

Nelson Teich realizou uma coletiva de imprensa nesta sexta-feira 15, para se despedir do comando do Ministério da Saúde. Em seu discurso, ele agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro por ter sido convidado ao cargo, mas reafirmou sua decisão de sair da pasta.

“A vida é feita de escolhas, e eu escolhi sair”, disse o agora ex-ministro da Saúde.

Teich afirmou que deixou um plano de trabalho pronto para ser seguido, após realizar visitas em cidades atingidas pelo coronavírus. Ele ressaltou que o trabalho do Ministério da Saúde deve ser feito em conjunto com governadores, prefeitos, secretários estaduais e secretários municipais.

“A gente iniciou as visitas nas cidades mais atingidas, e é fundamental estar na ponta para entender o que acontece no dia a dia, ver o que está sendo feito. Esse entendimento foi fundamental para o desenho de ações que foram implementadas em seguida. E isso é uma preparação para outras cidades”, declarou.

Teich também fez uma série de agradecimentos ao empenho de profissionais de saúde que trabalham no atendimento às vítimas de covid-19. O ex-ministro elogiou o Sistema Único de Saúde (SUS) e destacou que foi “criado pelo sistema público”, por ter cursado medicina e feito residências em faculdades federais. Ele frisou ainda que sua intenção ao assumir o posto foi ajudar o país durante a crise.

“Eu não aceitei o convite pelo cargo. Eu aceitei porque achava que podia ajudar o Brasil e ajudar as pessoas”, disse.

A saída do ministro acontece um dia depois de uma reunião via teleconferência realizada entre o presidente Jair Bolsonaro e empresários do país. No encontro, Bolsonaro questionou o protocolo do Ministério da Saúde sobre o uso da hidroxicloroquina e afirmou que a diretriz iria mudar.

A pasta autoriza o uso da medicação para pacientes em estado grave, mas não assegura a eficácia, por falta de embasamento científico. O protocolo é o mesmo de quando o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta estava à frente ao cargo. A posição foi endossada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

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Ministro Celso de Mello abre inquérito no STF contra Jair Bolsonaro

Decisão autoriza investigação de denúncias feitas pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro

Celso de Mello também autorizou a convocação de Moro para explicar suas declarações – Evaristo Sa/AFP

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello determinou, na noite dessa segunda-feira (27), a abertura de inquérito para investigar as acusações que Sergio Moro fez contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao pedir demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública. “O objetivo é apurar se foram cometidos os crimes de falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de Justiça, corrupção passiva privilegiada, denunciação caluniosa e crime contra a honra”, diz o despacho do decano da Corte.

Na sexta-feira (24), Moro afirmou que Bolsonaro exonerou o diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, porque queria ter alguém no cargo que fosse “contato pessoal dele, para poder ligar e colher relatórios de inteligência”. Disse ainda que, “o presidente me falou que tinha preocupações com inquéritos no Supremo, e que a troca seria oportuna por esse motivo, o que gera uma grande preocupação.”

Celso de Mello também autorizou a convocação de Moro para explicar suas declarações. A oitiva deve a ser realizada em até 60 dias. O agora ex-ministro pode ter cometido crime de denunciação caluniosa e contra a honra, caso as investigações não confirmem as acusações que fez ao presidente.

Na decisão, o decano afirma que os fatos narrados por Moro revelam “práticas alegadamente delituosas que teriam sido cometidas pelo senhor presidente da República em contexto que as vincularia ao exercício do mandato presidencial”. O ministro também ressalta que não é necessária autorização do Congresso para investigar o presidente. O Legislativo tem de autorizar, porém, a abertura de ação penal caso a investigação tenha como consequência a apresentação de denúncia da PGR contra Bolsonaro.

O ministro do Supremo solicitou ainda que a PGR se manifeste sobre pedido feito pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) para que seja apreendido e periciado o celular da deputada Carla Zambelli (PSL-SP), que teve mensagens trocadas com Moro divulgadas pelo próprio ex-ministro.

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Bolsonaro diz que Moro concordaria em trocar chefe da PF se fosse indicado ao STF

Ministro da Justiça deixou o governo alegando interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal. ‘Autonomia não é soberania’, afirmou Bolsonaro em pronunciamento no Planalto.

Bolsonaro diz que Moro não tem compromisso com o Brasil, mas apenas com seu próprio ego

O presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento no final da tarde desta sexta-feira (24) no qual afirmou que o ex-ministro da Justiça e Segurança Sérgio Moro disse a ele que aceitaria a substituição do diretor-geral da Polícia Federal, mas somente em novembro, depois que fosse indicado para uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal.

Mais cedo, nesta sexta, Sérgio Moro anunciou  demissão do cargo demissão do cargo porque, segundo o ex-ministro, Bolsonaro tentou interferir politicamente na Polícia Federal ao decidir demitir o diretor-geral da Polícia Federal, Mauricio Valeixo. Moro não aceitou.

Resumo

  • No pronunciamento, em resposta à manifestação de Sergio Moro pela manhã, Bolsonaro afirmou que:
  • Sergio Moro condicionou a substituição de Mauricio Valeixo à indicação dele, Moro, para ministro do STF; após o pronunciamento do presidente, Moro contestou essa afirmação;
  • não tem de pedir autorização a ninguém para trocar algum ocupante de cargo no Poder Executivo;
  • pedia a Moro, mas nunca obteve, um relatório diário das atividades da PF para poder tomar decisões de governo;
  • durante a gestão de Moro, a PF estava mais preocupada em investigar o assassinato da vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro, que o atentado sofrido por ele durante a campanha eleitoral;
  • pediu à Polícia Federal para investigar o porteiro do condomínio onde mora, no Rio de Janeiro, que disse ter falado por interfone com “seu Jair” antes de autorizar a entrada no local de um dos acusados do assassinato de Marielle Franco; de acordo com laudo da Polícia Civil, a pessoa que autorizou a entrada foi o policial reformado Ronnie Lessa, morador no mesmo condomínio;
  • se Moro queria ter independência e autoridade deveria se candidatar.

STF

Sobre a suposta proposição de Sergio Moro, de aceitar a demissão de Mauricio Valeixo, mas somente em novembro, depois que fosse indicado para uma vaga de ministro no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro afirmou:

“Mais de uma vez, o senhor Sergio Moro disse para mim: ‘Você pode trocar o Valeixo sim, mas em novembro, depois que o senhor me indicar para o Supremo Tribunal Federal’. Me desculpe, mas, não é por aí”, declarou Bolsonaro.

A partir de novembro, com a aposentadoria do ministro Celso de Mello, o presidente da República terá de indicar um novo ministro para o tribunal.

Após o pronunciamento de Bolsonaro, Moro escreveu em uma rede social: “A permanência do Diretor Geral da PF, Maurício Valeixo, nunca foi utilizada como moeda de troca para minha nomeação para o STF. Aliás, se fosse esse o meu objetivo, teria concordado ontem com a substituição do Diretor Geral da PF”.

Exoneração ‘a pedido’

Pela manhã, Moro disse ter sido surpreendido com a publicação no “Diário Oficial da União” da demissão de Mauricio Valeixo. A publicação era assinada por Bolsonaro e por Moro.

“Eu não assinei esse decreto, em nenhum momento isso foi trazido, em nenhum momento o diretor da Polícia Federal fez um pedido formal de exoneração”, afirmou o ex-ministro.

No início da noite, o decreto com a exoneração de Valeixo foi republicado pelo “Diário Oficial” sem o nome de Moro.

Bolsonaro afirmou no pronunciamento que Valeixo estava “cansado” e que comunicou Moro, na manhã de quinta-feira, que seria publicada a exoneração do diretor-geral da PF “a pedido”.

“Eu falei que amanhã, dia de hoje, o ‘Diário Oficial da União’ publicaria a exoneração do senhor Valeixo, e pelo que tudo indicava, a exoneração a pedido”, disse Bolsonaro.

Segundo o presidente, Moro relutou. Bolsonaro disse ter sugerido que eles conversassem sobre um outro nome para comandar a PF.

“Bem, ele relutou, o senhor Sergio Moro, e falou: ‘Mas o nome tem que ser o meu’. Eu falei: ‘Vamos conversar. Por que que tem que ser o seu, e não o meu?’ Ou então vamos pegar, já que não vai ter interferência política, técnica ou humana, pegar os que têm condições e fazer um sorteio. Por que tem que ser o dele e não possivelmente o meu? Ou um de consenso entre nós dois?”, indagou Bolsonaro.

Bolsonaro disse ter conversado na noite de quinta (23) com Maurício Valeixo por telefone, ocasião em que, segundo ele, foi acertada a exoneração do diretor-geral da PF a pedido porque este estava se sentindo cansado.

“A exoneração ocorreu após uma conversa minha com o ministro da Justiça, pela manhã de ontem. À noite, eu e o doutor Valeixo conversamos por telefone, e ele concordou com a exoneração a pedido. Desculpe, senhor ministro, o senhor não vai me chamar de mentiroso. Não existe uma acusação mais grave para um homem como eu, militar, cristão, ser acusado disso. Essa foi a minha conversa com o doutor Valeixo”, disse Bolsonaro.

Crítica ao ‘ego’ do ex-ministro

Para Bolsonaro, Moro tem compromisso “com o próprio ego”, “consigo próprio” e “não com o Brasil”.

Antes de fazer o pronunciamento, o presidente da República afirmou em uma rede social que iria restabelecer “a verdade” na fala à imprensa.

“Sabia que não seria fácil. Uma coisa é você admirar uma pessoa. A outra é conviver com ela, trabalhar com ela. Hoje pela manhã, por coincidência, tomando café com alguns parlamentares eu lhes disse: ‘Hoje, vocês conhecerão aquela pessoa que tem compromisso consigo próprio, com seu ego e não com o Brasil'”, declarou.

Bolsonaro comenta decisão de Moro: ‘uma coisa é você admirar uma pessoa, outra é conviver’

Bolsonaro fez a manifestação no Palácio do Planalto, de pé, acompanhado de ministros do governo.

“Hoje, essa pessoa vai buscar uma maneira de botar uma cunha entre eu e o povo brasileiro. Isso aconteceu há poucas horas”, disse, em referência a Moro.

O ex-ministro assumiu em 2019 o posto de ministro da Justiça e da Segurança Pública a convite de Bolsonaro. Para isso, renunciou à carreira de 22 anos como juiz federal – ele era o responsável pelos processos da Operação Lava Jato na Justiça Federal em Curitiba.

Polícia Federal

Bolsonaro disse no pronunciamento que pedia a Moro um relatório diário sobre atividades da

“Sempre falei para ele: ‘Moro, não tenho informações da Polícia Federal. Eu tenho que todo o dia ter um relatório do que aconteceu, em especial nas últimas 24 horas, para poder bem decidir o futuro desta nação’. Eu nunca pedi a ele o andamento de qualquer processo, até porque a inteligência, com ele, perdeu espaço na Justiça, quase que implorando informações. E assim eu sempre cobrei informações dos demais órgãos de inteligência oficiais do governo, como a Abin, que tem à frente um delegado da Polícia Federal”, declarou.

Ele afirmou que não precisa de autorização para trocar qualquer ocupante de cargo no Executivo.

“Falava-se em interferência minha na PF. Oras bolas, se posso trocar ministro, por que não posso, de acordo com a lei, trocar o diretor da PF? Não tenho que pedir autorização para ninguém para trocar diretor ou qualquer outro que esteja na pirâmide hierárquica do Poder Executivo”, declarou.

Segundo o presidente, a Polícia Federal se preocupou mais em identificar os autores do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) que investigar o atentado que ele, Bolsonaro, sofreu durante a campanha eleitoral.

“A PF de Sérgio Moro mais se preocupou com Marielle do que com o seu chefe supremo. Cobrei muito dele isso aí, não interferi. Eu acho que todas as pessoas de bem no Brasil querem saber – entendo, me desculpe senhor ex-ministro, entre o meu caso e o da Marielle, o meu está muito menos difícil de se solucionar”, afirmou. “Acredito que a vida do presidente da República tem um significado. Que afinal de contas é o chefe de Estado. Isso é interferir na Polícia Federal?”, complementou.

Sobre a acusação de Moro, segundo a qual Bolsonaro pediu para trocar o diretor-geral da PF a fim de ter acesso a investigações e inquéritos, o presidente contestou. “Nunca pedi para ele para que a PF me blindasse onde quer que fosse”, disse.

Em um trecho do pronunciamento, Bolsonaro reforçou que a indicação do diretor-geral da PF cabe a ele e que, se um dia ele se “submeter a qualquer subordinado”, deixará de ser presidente.

“Acertamos, como fiz com todos os ministros, vai ter autonomia no seu ministério. Autonomia não é sinal de soberania. A todos os ministros, e a ele também, falei do meu poder de veto. Os cargos-chave teriam que passar pelas minhas mãos, e eu daria ao sinal verde ou não. Para todos os ministros, foi feito dessa maneira. Mais de 90% desses cargos que passaram pelas minhas mãos eu dei o sinal verde. Assim foi também com o senhor Valeixo”, declarou.

No pronunciamento, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que jamais procurou Moro com o objetivo de interferir em investigações que estavam em andamento.

No entanto, o próprio presidente afirmou ter entrado em contato com o ex-juiz para tratar das apurações envolvendo o porteiro do condomínio em que mora, o filho Jair Renan e Adélio Bispo de Oliveira, autor da facada em Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.

O presidente afirmou não ter visto esse ato como interferência, mas como uma “súplica”.

“O senhor Sergio Moro sabe que jamais lhe procurei para interferir nas investigações que estavam sendo realizadas, a não ser aquelas. Não vi [como] interferência, as quais foram uma súplica sobre o Adélio, o porteiro, e meu filho 04”, declarou o presidente.

‘Candidato’

Bolsonaro disse ainda não ter “mágoa” de Moro, mas ressaltou que, aos deputados, disse que eles iriam saber quem não o quer “na cadeira presidencial”.

O presidente afirmou também que, se Moro gostaria de ter “independência e autoridade”, deveria ser candidato.

“Eu não posso conviver – ou fica difícil a convivência – com uma pessoa que pensa bastante diferente de você”, acrescentou.

Por Guilherme Mazui, Gustavo Garcia e Laís Lis, G1 — Brasília

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STF autoriza abertura de processo para investigar atos pró-golpe com participação de Bolsonaro

Alexandre Moraes acatou pedido da PGR e inquérito vai investigar a “existência de organizações e esquemas de financiamento de manifestações contra a democracia e a divulgação em massa de mensagens atentatórias ao regime republicano”

Jair Bolsonaro no ato golpista (Montagem)

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta terça-feira (21) a abertura de um inquérito para investigar os atos pró-golpe ocorridos no último domingo (19), que tiveram a participação de Jair Bolsonaro, com base na Lei de Segurança Nacional.

O pedido de investigação foi feito pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, para apurar “atos contra o regime da democracia brasileira por vários cidadãos, inclusive deputados federais, o que justifica a competência do STF”.

“O Estado brasileiro admite única ideologia que é a do regime da democracia participativa. Qualquer atentado à democracia afronta a Constituição e a Lei de Segurança Nacional”, afirmou o procurador-geral, sem citar Bolsonaro.

Para Moraes, a investigação se faz necessário por ser uma questão “gravíssima”, “pois atentatório ao Estado Democrático de Direito brasileiro e suas Instituições republicanas”.

“São inconstitucionais, e não se confundem com a liberdade de expressão, as condutas e manifestações que tenham a nítida finalidade de controlar ou mesmo aniquilar a força do pensamento crítico, indispensável ao regime democrático”, afirma o ministro

A investigação deve apurar ainda “existência de organizações e esquemas de financiamento de manifestações contra a democracia e a divulgação em massa de mensagens atentatórias ao regime republicano, bem como as suas formas de gerenciamento, liderança, organização e propagação que visam lesar ou expor a perigo de lesão os direitos fundamentais, a independência dos Poderes instituídos e ao estado democrático de direito, trazendo como consequência o nefasto manto do arbítrio e da ditadura”.

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“Lamentável”, diz coordenadora de sindicato sobre humorista em coletiva de Bolsonaro

Para o Sindicato dos Jornalistas do DF, atitude desrespeita o conjunto da sociedade e fere o direito à informação

Comediante Márvio Lúcio ofereceu bananas a jornalistas na saída do Palácio do Alvorada, encenando ao lado do presidente – Reprodução Facebook – Jair Bolsonaro

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quarta-feira (4) que o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 1,1% em 2019, o pior desempenho em três anos. No mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) levou o humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, ao Palácio da Alvorada para responder às perguntas de jornalistas. “O que é PIB? Tem que ver com o Paulo Guedes”, ridicularizou o humorista.

“Bolsonaro colocou um humorista para oferecer bananas a jornalistas e para responder perguntas. Tentamos fazer perguntas a Bolsonaro. Como ele não quis responder, viramos as costas e fomos embora”, relatou Daniel Gullino, repórter do jornal O Globo, em suas redes sociais.

Juliana Cézar Nunes, da coordenação do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF), explica que a atitude de Bolsonaro é “lamentável”, mas que não surpreende, e cita o relatório da Fenaj que monitora a recorrência das agressões do presidente aos profissionais da imprensa.

Segundo Nunes, ao conduzir o humorista para a coletiva e fazer uma “dobradinha” com ele de forma desrespeitosa com os jornalistas, o presidente também desrespeita o conjunto da sociedade.

“Esse momento de entrevista é muito importante, é quando as autoridades públicas eleitas pela população prestam contas à sociedade. Bolsonaro se eximiu de dar informações e optou por chancelar o desrespeito aos profissionais da imprensa”, afirma.

Direito à informação

A presença de Bolsonaro na entrevista coletiva com jornalistas se limitou a risos e adulação de apoiadores. Quando esteve ao lado de Márvio Lúcio, seu apoiador público desde a campanha eleitoral, sugeriu que o humorista respondesse às perguntas dos jornalistas com a assertiva: “fala que é conspiração”.

A ação do humorista, fantasiado de presidente e carregando um cacho de bananas, foi gravada por cinegrafistas da emissora do pastor Edir Macedo, a TV Record, da qual Márvio Lúcio é contratado, e transmitida ao vivo pelo perfil de Bolsonaro no Facebook.

Murilo Fagundes, jornalista do site Bloomberg News, também postou um relato no Twitter: “Hoje, fui ao Palácio destinado a perguntar ao presidente sobre o fraco resultado do PIB, divulgado hoje. Mas eu e todos os colegas fomos surpreendidos pelo humorista Carioca, que veio em um carro junto ao comboio. Carioca nos ofereceu bananas. Bolsonaro não comentou o PIB”.

A coordenadora do SJPDF diz ainda que a entidade vai tomar as medidas jurídicas cabíveis em relação ao caso. “Jornalistas devem ter garantido o direito do seu exercício profissional e ter sua imagem respeitada, já que estavam cumprindo seu trabalho que é fundamental para o direito à informação da sociedade brasileira”, finaliza.

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Juca Ferreira: “Regina Duarte integrará equipe que tem declarado guerra à cultura”

Atriz aceitou a nomeação para a pasta da Cultura após demissão de Roberto Alvim, que citou discurso nazista

“Ela vem há muito tempo se posicionando muito mal nas questões políticas do país”, avalia ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira / Arquivo/Agência Brasil 

“Não tenho expectativa sobre essa nomeação. Ela vem há muito tempo se posicionando muito mal nas questões políticas do país, sempre apoiando o lado errado, e agora fará parte de uma equipe que tem declarado guerra à cultura.” O comentário, feito à Rede Brasil Atual, é do ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, sobre o fato de a atriz Regina Duarte ter aceitado a nomeação para a Secretaria da Cultura de Jair Bolsonaro.

A atriz, que já foi conhecida como “a namoradinha do Brasil”, substitui o ex-secretário Roberto Alvim, demitido após divulgar vídeo em que citou uma fala de Joseph Goebbels, chefe de propaganda de Adolph Hitler. “Ele foi demitido porque deu bandeira. Mas foi nomeado dentro da perspectiva de fazer uma governança semelhante ao que os nazistas fizeram com a cultura: censura, manipulação, uso do Estado para perseguições políticas de setores críticos”, continua Ferreira.

Para o ex-ministro, Alvim “não podia ter feito uma cena nazista com uma fala do Goebbels e a música preferida de Hitler ao fundo, com toda uma mise-en-scène. Bolsonaro tinha acabado de elogiá-lo.”

Para o ex-presidente do PSB Roberto Amaral, a questão não é Regina Duarte ou o ex-secretário Roberto Alvim. “Isso é uma questão secundária. A política deste governo é de desconstituição da cultura brasileira. Estão tentando destruir a Casa de Rui Barbosa, por exemplo. Até agora ninguém disse que o plano lançado por Alvim vai ser alterado”, diz.

A historiadora Maria Victoria Benevides lembra o posicionamento político de Regina Duarte. “Para quem disse que tinha muito medo de uma vitória de Lula, agora não apenas não tem medo como apoia e vai participar de um governo que defende tortura e torturador? É chocante”, avalia.

Em sua página do Twitter, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) também lembrou o medo da atriz. “Quem tinha ‘medo’ no passado o perdeu para contribuir com um projeto que não se constrange de sua faceta corrupta e fascista”, escreveu.

Para Maria Victoria, participar deste governo, em qualquer área, “depõe muito contra a pessoa”. “Um presidente que homenageia milicianos, homenageia torturador como brilhante Ustra, e que disse que o regime de 64 matou pouco. É absolutamente horroroso. Esse episódio terrível de um secretário de Cultura com uma fala nazista é um elemento a mais no quadro de horror desse governo”, conclui a historiadora. Em entrevista à rádio Jovem Pan em julho de 2016, Bolsonaro afirmou que “o erro da ditadura foi torturar e não matar.”

A atriz, agora nova secretária da Cultura, disse à coluna de Mônica Bergamo, do jornal  Folha de S. Paulo, que vai “noivar” com o governo e que pretende fazer uma “gestão para pacificar a relação da classe com o governo”.

Segundo matéria do Congresso em Foco, usuários do Twitter encontraram uma foto de Regina Duarte ao lado do ex-presidente de Cuba Fidel Castro, em uma visita que ela fez a Cuba, com seu ex-marido, o diretor Daniel Filho.

Para o jurista Pedro Serrano, Bolsonaro não é conservador, é reacionário. “E quem apoia Bolsonaro também não é conservador. Está apoiando um governo reacionário.” Leia aqui.

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Bolsonaro diz que pegou áudio das ligações da portaria “antes que fosse adulterado”

Material poderia provar envolvimento do presidente na morte da vereadora Marielle Franco (PSOL)

Jair Bolsonaro é presidente da República desde 1º de janeiro de 2019 / Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) admitiu à imprensa neste sábado (2) que pegou o áudio das ligações da portaria de seu condomínio, no Rio de Janeiro (RJ), para que impedir que o material fosse “adulterado”. As gravações, segundo reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, veiculada na última terça-feira (29), poderiam provar o envolvimento do capitão reformado com o assassinato de Marielle Franco, então vereadora pelo PSOL, em março de 2018.

“Nós pegamos, antes que fosse adulterada, ou tentasse adulterar, pegamos toda a memória da secretária eletrônica que é guardada há mais de ano. A voz não é a minha”, declarou Bolsonaro.

Segundo a TV Globo, um porteiro do condomínio de Bolsonaro contou à polícia que, horas antes de participar do assassinato de Marielle, o ex-policial militar Élcio de Queiroz esteve no local e disse que iria à casa 58, que pertence ao presidente. O “seu Jair” teria atendido à ligação e autorizado a entrada. Naquele dia, o então deputado Jair Bolsonaro estava em Brasília (DF).

Reações

A declaração de Bolsonaro neste sábado causou espanto e indignação em políticos da oposição.

Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL, questionou por meio das redes sociais: “Como o principal suspeito teve acesso às provas? Essa história está muito estranha. Golpista é capaz de tudo. Por que o porteiro se meteria com milicianos?”.

Marcelo Freixo, também companheiro de partido de Marielle Franco, afirmou: “A declaração de Bolsonaro sobre ter obtido os áudios é uma estratégia para federalizar as investigações, que passariam a ficar sob o controle do presidente, através de Moro e Augusto Aras. A apuração do crime tem que permanecer com o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio”.

O advogado Paulo Teixeira, que é deputado federal pelo PT, fez um alerta: “Bolsonaro pode ter destruído provas, ao pegar as gravações do condomínio”.

Na quarta-feira (30), o Ministério Público negou a versão do porteiro e disse que foi o PM aposentado Ronnie Lessa, outro suspeito do assassinato da vereadora, quem liberou a entrada de Queiroz no Condomínio Vivendas da Barra em março de 2018. Ambos estão presos há sete meses.

No dia seguinte, veio à tona a informação de que Carmen Eliza, uma das promotoras que investigava a morte de Marielle Franco, é admiradora de Bolsonaro e fez várias postagens nas redes sociais contra a esquerda e em defesa do capitão reformado. Na última sexta-feira (1º), ela pediu afastamento do caso.

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Entrevistas

“Trata-se de um governo extremista e sectário, que busca o conflito”

O governador do Maranhão, Flávio Dino, comenta os ataques do presidente, os rumos da oposição e suas pretensões eleitorais

O governador Flávio Dino acabara de saber das ofensas de Jair Bolsonaro ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, filho de um desaparecido político durante a ditadura. Antes de iniciar a conversa, pediu um tempo para expressar no Twitter sua solidariedade a Felipe Santa Cruz. “O presidente escolheu governar para poucos, para um grupo”, desabafou.

“Nitidamente, ele optou pelo conflito.” Brindado com uma menção particular de Bolsonaro, Dino afirma não ter medo e que não abrirá mão do exercício à crítica e à oposição. Na entrevista a seguir, o governador maranhense também fala de suas pretensões eleitorais e dos desafios de administrar um dos estados mais pobres e desiguais do Brasil, sem deixar de pontuar a prisão arbitrária de Lula.

CartaCapital: Como o senhor se sente por receber uma menção especial de Jair Bolsonaro?

Flávio Dino: O mais grave é que a agressão não se restringe a mim. Foi a expressão de um infame preconceito do presidente da República contra uma região e um quarto da população do País. Se pensarmos nos descendentes de nordestinos, podemos falar em um terço dos brasileiros. Esse menosprezo, infelizmente, gera um efeito multiplicador, não só no círculo mais íntimo de Bolsonaro, mas entre aqueles que o seguem e se sentem autorizados e estimulados a praticar no cotidiano esse preconceito. Sou governador, tenho como me defender, verbalizar minha indignação. Imagine, porém, quem não tem essa mesma condição e sofre humilhação não é de hoje. É uma violência simbólica, psicológica, que naturaliza desigualdades. E por isso é inaceitável.

CC: O senhor teme por sua integridade física?

FD: Não tenho medo de nada e de ninguém. Não balizo minha atuação política pelas opiniões do presidente. Só espero uma relação respeitosa entre os poderes e entre governo e oposição, nos termos da Constituição. E que cada um faça a sua parte.

CC: O ataque de Bolsonaro é também uma afronta à Constituição, não?

FD: Sem dúvida. Se por parte de qualquer cidadão esse tipo de declaração é condenável, pior ainda se ela sai da boca do chefe da Nação. Até por força do juramento que fez na posse, Bolsonaro é obrigado a zelar pela integridade do País. O artigo 19 da Constituição veda a discriminação de qualquer natureza.

“Ele é naturalmente agressivo, mas esse comportamento serve de cortina de fumaça para os reais problemas do país”

CC: O comportamento de Bolsonaro é uma patologia ou uma estratégia?

FD: O Bolsonaro é naturalmente agressivo. Portanto, vejo, e lamento, uma coerência que se mantém desde os tempos em que ele era deputado. Se pegarmos os raros pronunciamentos durante os 30 anos de atuação inexpressiva no Congresso, as declarações do agora presidente só repercutiam por força da verbalização do discurso de ódio. O espantoso é a sequência inesgotável, que se intensificou do Carnaval em diante e teve como mais recente episódio o ataque ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. São 20, 30 agressões contra segmentos diversos: nordestinos, artistas, ambientalistas, LGBTs, indígenas, quilombolas, mulheres. Nitidamente, ele escolheu atuar dessa maneira. Em vez de governar para todos, ele escolhe poucos. Trata-se de um governo extremista e sectário, que busca o conflito o tempo todo.

FD: Vejo duas razões: ele e seus ideólogos acreditam que desta maneira é possível atualizar a sua legitimidade. Além disso, serve de cortina de fumaça para os reais problemas do Brasil. Enquanto ele se ocupa de modo desprezível a atacar o presidente da OAB, assistimos a um episódio de extrema violência em uma penitenciária do Pará e à invasão de um território indígena, entre outros casos. Em vez de cuidar desses problemas ou de tentar combater o desemprego, ele gasta tempo e energia com o intuito de desviar a atenção da sociedade para as confusões que ele mesmo cria.

CC: Trata-se de uma escalada autoritária, certo? Mas com qual objetivo?

FD: Vivemos uma escalada autoritária, não há dúvida. E isso normalmente ocorre quando segmentos políticos e jurídicos acham que os fins justificam os meios, pregam o vale-tudo. Não começou ontem. Essa estratégia teve início com a defesa do impeachment sem motivos de Dilma Rousseff e desembocou na condenação sem provas do ex-presidente Lula. É claramente uma escalada autoritária, degrau por degrau, que pode levar a uma ruptura violenta do que resta de ordem democrática. Não acho provável neste momento, mas é possível.

“Passou da hora de anular as condenações de Lula”

CC: A oposição entende a gravidade da situação?

FD: Há uma compreensão exata do que está em curso, tanto por parte da oposição quanto por um largo setor da sociedade. Não era assim. No impeachment inconstitucional da ex-presidenta Dilma e na prisão arbitrária do ex-presidente Lula, faltou reação. Mais: muitos que se dizem defensores das regras democráticas ou que deveriam zelar por elas lavaram as mãos. Todas as sociedades que viveram sobre o tacão de experiências autoritárias no início achavam normal o que acontecia ou acreditavam que as coisas mudariam em um curto espaço de tempo, que haveria um freio. Grave engano. Acho, porém, que cada vez mais brasileiros entendem os riscos dessa aventura.

CC: A operação contra os hackers de Araraquara se encaixa nesse conceito?

FD: É precoce qualquer diagnóstico. Neste momento, deve-se exigir uma investigação técnica, séria e isenta, para que essa história misteriosa seja elucidada. Não por causa dos diálogos vazados, mas pelo fato de a atuação dos hackers ser ilegal, representar uma invasão de privacidade. A investigação desses crimes em nada invalida a divulgação dos diálogos entre o ex-juiz Sérgio Moro e integrantes do Ministério Público. A Constituição garante a liberdade de expressão e o sigilo das fontes. Acho que a apuração começou mal. O ministro da Justiça, que formalmente nada tem a fazer ou a dizer sobre a investigação, revelou uma indevida intromissão ao divulgar não só o acesso a uma apuração que não está sob seu controle, mas a intenção de destruir provas. O Moro praticou mais uma usurpação de função.

CC: O senhor dizia até recentemente que a liberdade de Lula não invalidava a Lava Jato. Mudou de opinião após as revelações do site The Intercept? A operação não está toda sob suspeita?

FD: A melhor forma de dirimir as dúvidas continua a ser uma análise de caso a caso. Em muitos dos processos, é indiscutível a prova documental, cabal, de graves atos de corrupção. Essas condenações não devem ser invalidadas. Mas temos casos em que as provas não eram consistentes, que houve o uso de processos judiciais como arma de luta política e que não havia isenção por parte do julgador. E isso é muito evidente nos julgamentos de Lula. As condenações do ex-presidente, nos termos do Código de Processo Penal, precisam ser anuladas e ele deve ter o direito de ser julgado novamente, com respeito à lei. Só assim se fará justiça, seja qual for.

“O mandato de Bolsonaro mal começou e parece que vai terminar, tal o desejo de largos setores da sociedade de se verem livres dessa situação”

CC: O senhor é candidato à Presidência da República?

FD: É eloquente que de forma tão precoce a discussão sobre as eleições presidenciais se imponha. É um sintoma do vazio de poder no País. O mandato de Bolsonaro mal começou e parece que vai terminar, tal o desejo de largos setores da sociedade de se verem livres dessa situação. Sempre tenho a cabeça nos sonhos, mas os pés fixos na realidade. Sei que a eleição presidencial está muito distante. Comecei em janeiro o segundo mandato em um estado com enormes desafios e estou focado nas minhas responsabilidades como governador. Esse debate tem espaço e tempo para acontecer. Não será agora. O importante é a gente continuar a exercer o livre direito de oposição, no meu caso, de governar o Maranhão, e de criar um ambiente de unidade. É uma pré-condição para se pensar em 2022. A união do campo progressista é vital.

CC: Em que ponto a oposição falha no diálogo com a sociedade?

FD: Acho que ainda não conseguimos apontar um novo caminho. Temos exercido o direito de crítica e resistido bravamente a iniciativas deletérias do ponto de vista social e econômico, mas é nossa obrigação fazer mais. Como muitos setores despertaram para os riscos reais que o governo Bolsonaro representa, estamos em melhores condições do que em janeiro. Há uma marcada divisão no Brasil. De um lado situa-se o bolsonarismo e, de outro, aqueles que respeitam a Constituição.

CC: Seria o caso de criar uma frente progressista, nos moldes do Uruguai?

FD: Sem dúvida, a união política é imprescindível. Resta discutir o modelo jurídico mais adequado. Para mim, o conceito de federações partidárias é bem interessante. A chance de a oposição vencer em 2022 depende de um projeto nacional desenhado em conjunto, acima dos interesses partidários.

CC: Como tem sido administrar um estado com tantos problemas em um momento particularmente difícil da economia do País?

FD: De 2015 para cá, houve uma profunda degradação das condições econômicas do Brasil. E Dilma Rousseff, digamos a verdade, foi impedida de governar durante o ano e meio do segundo mandato, constrangida pela atuação do ex-deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e de outros. As condições atuais estão substantivamente piores do que quando assumi o primeiro mandato. O governo do Maranhão, nestes anos, adotou uma série de medidas para evitar o caos. E conseguimos até aqui. De um modo geral, os serviços públicos não só estão em funcionamento, como foram ampliados. Temos mais policiais, mais leitos hospitalares, mais vagas nas universidades, mais restaurantes populares, escolas em tempo integral. Foram conquistas muito valiosas, principalmente por conta da hostilidade do ambiente econômico e social no País, desde o início do meu primeiro mandato. No caso do Maranhão, apesar das restrições, atingimos o menor índice de mortalidade materna da história e a maior média de notas dos alunos da rede estadual no Ideb. Mantemos um saldo positivo de empregos formais desde 2017, a despeito do aumento do desemprego no restante do Brasil. Conseguimos pacificar a Penitenciária de Pedrinhas e interferir naquela realidade degradante, a taxa de homicídio na Região Metropolitana recuou 63%. Poderia citar várias outras conquistas. Mas o País atingiu um teto e estamos cada vez mais ameaçados pelo retrocesso. Para se manter um ciclo virtuoso, é vital que a economia brasileira volte a crescer. Caso contrário, os estados não vão conseguir sustentar os serviços públicos mais básicos.

 

 

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Notícias

Bolsonaro poderá ser investigado por declaração preconceituosa contra nordestinos

PCdoB prepara representação à PGR; Presidente chamou Nordeste de “paraíba” e foi rechaçado por políticos da região

Jair Bolsonaro (PSL) justificou-se, no sábado, afirmando que declaração sobre governadores foi “uma crítica de 3 segundos”; – Créditos: Foto: Alan Santos/Presidência da República

A declaração dada na última sexta-feira (19) pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) a respeito dos governadores do Nordeste continua provocando reações no mundo político. O deputado Márcio Jerry (MA), um dos vice-líderes da bancada do PCdoB na Câmara, prepara uma representação para ser protocolada ainda esta semana na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o chefe do Executivo.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o parlamentar disse que irá pedir ao órgão uma apuração sobre possível prática de crimes contra a honra, ameaça e racismo. Na sexta, durante um café da manhã com a imprensa internacional, o presidente, sem saber que já estava com o microfone ligado, disse a Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, que “daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão”, Flávio Dino (PCdoB), e que “tem que ter nada com esse cara”.

O termo “paraíba” é costumeiramente utilizado de forma pejorativa para se referir a nordestinos, o que faz com que a expressão seja associada ao preconceito regional. Por esse motivo, Márcio Jerry disse que pretende pedir também, na representação junto à PGR, uma apuração sobre esse aspecto da declaração do presidente. 

“Acho que todos nós ficamos estupefatos com a grosseria, com o desrespeito, com a visão preconceituosa, rebaixada [da região]. Vem numa sucessão de atitudes que não compõem o figurino da instituição Presidência da República”, acrescenta, defendendo ainda uma reação do sistema de Justiça diante do caso.

O deputado aponta ainda que a conduta fere as diretrizes do pacto federativo, segundo o qual deve haver impessoalidade entre os entes federados (União, estados, Distrito Federal e municípios).

“A cada momento, ele [Bolsonaro] se excede nos desatinos. Desta vez, claramente, se manifestando de forma preconceituosa contra o Nordeste, não só do ponto de vista da expressão de racismo, como também expelindo ameaças, o que extrapola a responsabilidade institucional dele. Não é uma ameaça a uma pessoa. É uma ameaça institucional a estados da Federação”, sublinha.

Segundo ele, a representação deve ser protocolada na PGR até sexta-feira (25) e deverá contar também com a assinatura do líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Ressonância

Quando o áudio do presidente foi divulgado, a notícia gerou manifestações multilaterais.

Em carta pública assinada coletivamente, os governadores do Nordeste disseram que a declaração causou “espanto” e “indignação”. “Aguardamos esclarecimentos por parte da Presidência da República e reiteramos nossa defesa da Federação e da democracia”, acrescentaram os mandatários.

Parlamentares que representam o Maranhão no Congresso Nacional também se pronunciaram em relação ao caso.

Ao todo, 11 deputados federais e dois senadores soltaram nota conjunta lamentando a declaração do pesselista em relação ao estado e ao governador.  

“Não é aceitável, na democracia, que um presidente da República determine a um ministro de Estado perseguição a um ente federado e, por consequência ao seu povo, por questões políticas”, assinala o texto, assinado por membros de 12 siglas (PDT, PCdoB, DEM, PRB, Pros, PT, PP, PSB, PL, PTB, Cidadania e Patriotas).

O vice-líder do PCdoB aponta que a conduta do presidente ultrapassaria os limites das diferenças político-partidárias, o que teria permitido a formulação de um contraponto conjunto entre os signatários do documento. Na visão de Márcio Jerry, a declaração de Bolsonaro foi além das características do jogo político.

“Não dá pra gente achar que essas atitudes do presidente da República possam ser aceitas com naturalidade porque naturais não são. São atitudes ofensivas, grosseiras, antidemocráticas”, critica o comunista.

A afirmação de Bolsonaro tem como pano de fundo as divergências políticas entre o presidente e governadores do Nordeste, onde o pesselista registra a maior rejeição popular no país.

Procurado pela imprensa para comentar as reações a sua fala, o chefe do Executivo disse, no sábado (20), que foi “uma crítica de 3 segundos” e que a imprensa teria feito “uma festa” em cima do caso.

“Eu fiz uma crítica ao governador do Maranhão e da Paraíba. Vivem me esculhambando. Obras federais que vão para lá eles dizem que é deles. Não são deles, são do povo. A crítica foi a esses dois governadores, nada mais além disso”, disse.

Em resposta, Flávio Dino afirmou que pretende continuar dialogando “respeitosamente com as autoridades do governo federal e a colaborar administrativamente no que for possível”. Numa referência aos ditames constitucionais, o mandatário afirmou ainda que respeita “os princípios da legalidade e da impessoalidade”.

Já o governador da Paraíba, João Azevêdo (PSB), disse, após o episódio, que “a Paraíba e seu povo, assim como o Maranhão e os demais estados brasileiros, existem e precisam da atenção do governo federal independentemente das diferenças políticas existentes”. “Estaremos, neste sentido, sempre dispostos a manter as bases das relações institucionais junto aos entes federativos, vigilantes à garantia de tudo aquilo a que tem direito”, completou Azevêdo.

O caso gerou faíscas também em Alagoas. Por meio de suas redes sociais, o governador do estado, Renan Filho (MDB), deu a seguinte declaração: “Não ao preconceito ao Nordeste e ao nosso povo. Respeito, federação e democracia são conceitos amplos que não combinam com a visão pequena, mesquinha”.

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