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Na luta contra as opressões atuais, mulheres camponesas se aprofundam na história do feminismo

Com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o movimento de mulheres por igualdade e direitos, a segunda etapa da Formação Continuada Gênero e Agroecologia da Rede Mulher do Sertão do São Francisco teve como tema a história do feminismo.

Foto: IRPAA

Luiza Mahin, Teresa de Benguela, Sojourner Truth, Olympe de Gouges, Emily Davison. Esses nomes que são desconhecidos para muitos/as correspondem a mulheres que fizeram parte da história das lutas femininas, no Brasil e no mundo, mas, que muitas vezes são esquecidas. Com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o movimento de mulheres por igualdade e direitos, a segunda etapa da Formação Continuada Gênero e Agroecologia da Rede Mulher do Sertão do São Francisco teve como tema a história do feminismo.

A Formação, que tem como público mulheres camponesas, aconteceu nos dias 29 de fevereiro e 1º de março, no Centro de Formação Dom José Rodrigues, em Juazeiro – BA. No encontro, agricultoras, pescadoras e apicultoras conheceram a origem do feminismo através dos marcos históricos – a exemplo da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (1791) e do movimento sufragista -, das heroínas negras e das chamadas “ondas feministas”, momentos históricos que abrangem um conjunto de reivindicações e conquistas do movimento organizado de mulheres.

Foto: IRPAA

A militante do movimento feminista negro de Juazeiro Luana Rodrigues foi uma das facilitadoras do primeiro dia da Formação. Luana destacou a importância da luta feminista como necessária para romper o silêncio e denunciar as opressões que as mulheres sofrem. “Uma das pautas que os movimentos feministas mais se ocupam é a da violência. A luta feminista busca igualdade, mas, também garantir o direito a vida das mulheres, principalmente, das mulheres negras”, comentou.

Partindo do entendimento de que há uma pluralidade de feminismos e do conceito de interseccionalidade, da americana Kimberlé Crenshaw, Luana Rodrigues ressaltou que para compreender e combater as opressões é preciso observar as mulheres a partir das suas especificidades. “O movimento feminista negro traz isso, a gente precisa observar o gênero, a raça e a classe pra gente saber qual lugar que essa mulher tá ocupando. Enquanto um grupo luta pelo direito a vestir e ocupar os espaços que quiserem, as mulheres negras ainda lutam para garantir a sua vida e a dos filhos”, afirmou a militante.

Foto: IRPAA

História da Rede Mulher

Depois de discutirem sobre a história do movimento feminista, as participantes da Formação Continuada se dedicaram sobre a sua própria história enquanto movimento de mulheres organizado no território baiano do Sertão do São Francisco. A agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Marina Rocha relatou sobre a origem da Rede Mulher Regional, criada nos anos 2000.

“O machismo sempre foi muito forte na nossa região. Nas décadas de 1970 e 1980, as mulheres rurais não tinham nenhuma autonomia e seu trabalho não era reconhecido”, disse Marina. De acordo com a agente pastoral, as organizações que trabalhavam com esse público começaram a ouvir os clamores dessas mulheres e, a partir daí, passaram a atuar em conjunto, resultando no surgimento da Rede Regional. “Os primeiros objetivos da Rede eram a participação efetiva das mulheres nas organizações de trabalhadores e a luta por direitos trabalhistas e previdenciários”, destacou.

Foto: Irpaa

Formação Continuada

A Formação Continuada Gênero e Agroecologia da Rede Mulher Regional teve início em novembro do ano passado, com a temática do patriarcado. Os encontros são realizados com o apoio do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), do Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) e CPT.

Para Raimunda Ferreira, moradora de um assentamento do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) do município de Sento Sé, a Formação tem sido um momento de aprendizado e fortalecimento. “Muitas vezes, as dificuldades que a gente passa no dia a dia a gente não consegue expressar. E são esses momentos [Formação] que nos fortalecem e revigoram”, comentou. A próxima etapa da Formação Continuada será no mês de maio.

Texto: Comunicação CPT Juazeiro

Fotos: Comunicação IRPAA

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Produção coletiva de forragens gera bons resultados em Juazeiro

A prática, chamada de Ensaio Forrageiro Agroecológico, está sendo desenvolvida em uma área de meio hectare, doada por um dos moradores da comunidade. Foram plantadas gliricídia, sorgo, moringa, palma, guandu, mandacaru, leucena e gergelim, sendo que este último tem características repelentes, o que ajuda a proteger a plantação.

Agricultoras e agricultores da comunidade de Fundo de Pasto Cachoeirinha, no município de Juazeiro, estão experimentando, de maneira coletiva, a produção e o armazenamento de alimento para os animais.

A prática, chamada de Ensaio Forrageiro Agroecológico, está sendo desenvolvida em uma área de meio hectare, doada por um dos moradores da comunidade. Foram plantadas gliricídia, sorgo, moringa, palma, guandu, mandacaru, leucena e gergelim, sendo que este último tem características repelentes, o que ajuda a proteger a plantação.

De acordo com o agricultor Iremar Conceição, após a limpeza da área e plantio, o grupo fez a distribuição de responsabilidades com o cuidado da área. São diversas atividades desenvolvidas e tudo de maneira planejada. “Essa divisão foi feita por família… Para molhar a gente já fez o cronograma anual. Todo mundo sabe sua data”, pontua Iremar.

Dois meses e meio após o plantio do sorgo o grupo já colhe os “frutos” do trabalho. O primeiro corte do sorgo rendeu 1.600 kg de forragem, que foram totalmente triturados e armazenados em sacos e bombonas para serem utilizados em momentos de escassez de alimento na Caatinga. “A gente está muito satisfeito, porque a gente começou a pouco tempo esse trabalho e a gente já está começando a colher frutos. A tendência é a gente ir melhorando aquela área”, comemora Iremar.

Metodologia

A colaboradora do Irpaa Daiane Dantas conta que tudo começou durante uma roda de aprendizagem, quando as famílias apresentaram suas limitações, possibilidades e experiências na criação de animais. “Não veio nada pronto. A gente construiu tudo com o território, que são as quatro comunidades: Lagoa do Meio, Cachoeirinha, Canoa e Curral Novo”, explica Daiane. A principal limitação apresentada pelas famílias foi o alto valor gasto com a alimentação do rebanho. Diante disso, o grupo construiu com o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – Irpaa e a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional – CAR a proposta do Ensaio Forrageiro Agroecológico.

As rodas de aprendizagem têm base em sugestões das/dos agricultoras/es e informações contidas nos diagnósticos realizados pela/o técnica/o que assessora a comunidade, afirma Victor Leonan, Técnico em Desenvolvimento da CAR. De acordo com o representante da CAR, “o técnico tem um papel problematizador. Por exemplo, tem uma área de palma que tem três espaçamentos diferentes [entre as fileiras de plantio]: o que nós propomos [CAR e Irpaa], o que eles propuseram e um espaçamento que a gente mesclou”, explica.

Segundo Victor, após a roda de aprendizagem cada técnica/o faz um relato de experiência, onde sistematiza o evento e depois socializa com demais integrantes da equipe. Victor afirma que as rodas de aprendizagem proporcionam aos técnicos/as trocar experiência com agricultores/as e colegas. A metodologia também possibilita que “as famílias reflitam a partir de sua prática, com base na concepção dialógica proposta por Paulo Feire”, completa Victor.

De acordo com a colaboradora do Irpaa, a ideia é que as famílias agricultoras “tenham como exemplo esse ensaio e peguem as sementes e mudas dessa área para multiplicar em suas áreas individuais”, projeta Daiane Dantas.

Organização comunitária e trabalho coletivo

A colaboradora do Irpaa destaca a organização da comunidade como um fator essencial para o resultado positivo do experimento. Segundo Daiane, com os mutirões a comunidade fez a limpeza da área, reforma da cerca, plantio, montagem do sistema de irrigação e tem cuidado dos plantios.

Daiane também enfatiza a importância econômica de produzir a alimentação animal na propriedade e ainda chama atenção para a necessidade de diversificação dos alimentos. “Essas plantas são muito importantes, porque você vai aproveitar o que está na propriedade, não precisa comprar e vai ter a diversidade. Os animais precisam dessa diversidade, precisam de vários nutrientes encontrados nessa alimentação”, detalha a técnica do Irpaa na comunidade.

O Irpaa executa o Pró-Semiárido em Cachoeirinha e em outras comunidades do Território Sertão do São Francisco. O projeto é fruto de um acordo de empréstimo entre o Governo do Estado da Bahia e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola – Fida, com execução da companhia de desenvolvimento e ação regional – CAR, órgão da Secretaria de Desenvolvimento Rural – SDR.

 

Texto: Comunicação Irpaa

Fotos: Iremar Conceição e Alane Naiara

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Simpósio proporciona vivências relacionadas à Agroecologia no Vale do São Francisco

Proposta é aliar teoria e prática, com oficinas, apresentações e vivências em áreas de referência

Durante o simpósio, os participantes conhecerão experiências desenvolvidas na região relacionadas a vários temas / GAU Agroecologia

O I Simpósio Transdisciplinar em Agroecologia (I SITRAG) acontecerá entre 08 e 10 de novembro na região do Vale do São Francisco. O evento é organizado pela parceria entre  grupos de agroecologia, organizações não governamentais (ONG’s), movimentos populares  e universidades da região, como o Grupo de Agroecologia Umbuzeiro (GAU), Universidade do Estado da Bahia (UNEB),  Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), Sertão Agroecológico, Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Rede Territorial de Agroecologia.

O objetivo do Simpósio é relacionar e aprofundar diversos temas de várias áreas de estudo relacionados à Agroecologia, como a medicina, comunicação e pedagogia. Além das inscrições para ouvintes, é possível apresentar trabalhos durante a programação do evento. As inscrições para apresentação de trabalhos vão até a próxima sexta (26) e custam apenas 10 reais.

O evento contará com um momento de aprendizado através de oficinas sobre regularização fundiária, segurança alimentar, medicina popular, educomunicação, metodologias participativas, agrobiodiversidade e várias outras temáticas. Haverão também visitas para conhecer experiências relacionadas aos temas em comunidades quilombolas, assentamentos, Escolas Família Agrícola (EFAs) e centros de formação.

As inscrições na modalidade ouvinte ou monitor/a e poderão ser feitas através do site https://comunicacaogau.wixsite.com/umbuzeirogau/inscricao, onde também é possível conferir a programação completa. Outras dúvidas e informações podem ser resolvidas entrando em contato pelo número 74) 99137-9217.

Por Vanessa Gonzaga

http://www.brasildefato.com.br

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Riquezas da Agricultura Familiar da Caatinga e Cerrado serão evidenciadas na 27ª Fenagri

A Vila da Agricultura Familiar tem como objetivo fortalecer o novo modelo de produção baseado no trabalho sustentável e coletivo, promovendo o comércio justo e solidário através da comercialização de produtos da agricultura familiar. A Vila reunirá “empreendimentos que trabalham com a produção agroecológica, com artesanato e fortalecimento dos agricultores e agricultoras tanto no Bioma Caatinga como Bioma Cerrado.

Foto: Divulgação

Você já experimentou a linguiça de bode? Tomou a cerveja do Umbu? Já saboreou a geleia do maracujá do mato? Esses e muitos outros produtos beneficiados a partir de matérias primas presentes nos Biomas Caatinga e Cerrado serão expostos e comercializados na Vila da Agricultura Familiar e Economia Solidária durante a 27ª Feira Nacional da Agricultura Irrigada –  Fenagri,  que acontecerá entre os dias 11 e 14 de Julho, na área externa do Juá Garden Shopping, em Juazeiro – BA.

A Vila da Agricultura Familiar tem como objetivo fortalecer o novo modelo de produção baseado no trabalho sustentável e coletivo, promovendo o comércio justo e solidário através da comercialização de produtos da agricultura familiar. A Vila reunirá “empreendimentos que trabalham com a produção agroecológica, com artesanato e fortalecimento dos agricultores e agricultoras tanto no Bioma Caatinga como Bioma Cerrado… e esse ano a Vila ganha um  maior destaque dentro na Fenagri”, pontua Gizeli Maria, colaboradora do Irpaa, uma das responsáveis pela organização do espaço.

A novidade dessa edição é a participação da Central do Cerrado, que reúne 35 organizações comunitárias de sete estados brasileiros (MA, TO, PA, MG,MS,MT e G0) e desenvolve atividades produtivas a partir do uso sustentável da biodiversidade desse bioma. A Central do Cerrado foi um dos espelhos para a formação da Central da Caatinga, que reúne cooperativas e grupos comunitários do bioma Caatinga com o objetivo de apoiar agricultores/as familiares na comercialização e valorização dos produtos locais, destaca Gizeli.

Nos empreendimentos serão comercializados alimentos in natura, produtos beneficiados, bebidas e artesanato. A cultura popular também estará presente através das apresentações do Samba de Véio do Rodeadouro, em Juazeiro, e grupo Galeota das Artes, de Curaçá. Outro destaque da Vila será o Espaço Gourmet, com alimentos e bebidas que poderão ser apreciados durante a visita, pratos oriundos da agricultura familiar, a exemplo do espetinho de carne de bode, escondidinho com carne de bode, cerveja de Umbu, Frozem de cachaça, entre outros.

A Vila da Agricultura Familiar e Economia Solidária funcionará a partir das 17h, encerrando às 22h, durante todos os dias da Fenagri 2018 e as/os visitantes terão 30 stands repletos de sabores, cheiros e cores, representando a vida que pulsa no Semiárido.

A 27ª Fenagri, que  também evidenciará o potencial da caprinovinocultura no Semiárido Baiano, tem como tema “Cultivando Sabores e Valores do Vale”, e é realizada pela Prefeitura Municipal de Juazeiro e da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Juazeiro (ACIAJ), contando com a parceria do Sebrae, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Uneb, Univasf, IFBA, IF Sertão entre outras entidades, sendo o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – Irpaa uma das co-realizadora da Vila da Agricultura Familiar.

Serviço:

O quê: Vila da Agricultura Familiar e Economia Solidária.

Quando: 11 a 14 de julho.

Onde: 27º Fenagri – Juazeiro – BA.

http://www.irpaa.org/

 

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Iniciativa do IRPAA estimula Caprinovinocultura durante a Fenagri 2018

“O IRPAA foi criado em Juazeiro – BA há aproximadamente 30 anos objetivando a convivência com o Semiárido – uma região de muitos recursos e possibilidades. Durante a Fenagri 2018 apresentaremos muitas dos projetos e soluções eficazes que vem ajudando a manter o povo do Semiárido nesta terra prometida”, disse Gizeli de Oliveira Colaboradora do IRPAA.

A Caprinovinocultura será um dos temas da Feira Nacional da Agricultura Irrigada – Fenagri 2018, que vai movimentar o município de Juazeiro – BA, entre os dias 11 e 14 de julho próximo.

Considerado um dos mais importantes sistemas produtivos do Semiárido brasileiro, a Caprinovinocultura estará presente no maior evento de fruticultura irrigada da América Latina como tema principal da Feira de Economia Solidária e de um seminário.

Os eventos serão realizados pelo IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada, que também é responsável pela oferta do minicurso sobre ‘A Captação da Água de Chuva’ e da palestra ‘Terra e Territorialidade’.

De acordo com a gestora ambiental e colaboradora do IRPAA, Gizeli de Oliveira, o instituto (Organização Não Governamental), já participa da Fenagri há mais de 10 anos e nesta edição vai reunir na parte externa do Juá Garden Shopping 30 empreendimentos de agricultores familiares. “A Feira de Economia Solidária vai apresentar e comercializar, seguindo a linha do preço justo, artigos em couro, alimentos e bebidas de representantes de cinco territórios, vindos de mais de 30 municípios da região”, adiantou.

Gestora Ambiental e Colaboradora do IRPAA, Gizeli de Oliveira

Lembrando que os empreendimentos vão expor principalmente os produtos da Caprinovinocultura, Gizeli destacou a participação dos grupos organizados pela Central da Caatinga, uma organização responsável pela comercialização de cooperativas e associações do Território Sertão do São Francisco.

O seminário de ‘Caprinovinocultura no Semiárido Baiano’ está agendado para os dias 12 e 13 de julho, também no Juá Garden Shopping. Começando às 8h até às 17h, o encontro vai debater avanços e entraves da atividade no território Sertão do São Francisco.

Ainda de acordo com a técnica do IRPAA, o minicurso sobre ‘Manejo e Captação de Àgua de Chuva’ irá acontecer também no shopping no dia 14 durante toda a manhã e será ministrado pelo zootecnista, André Azevedo. E à tarde no mesmo local, o agrônomo Judenilton Oliveira ministrará a palestra ‘Terra e Territorialidade’.

“O IRPAA foi criado em Juazeiro – BA há aproximadamente 30 anos objetivando a convivência com o Semiárido – uma região de muitos recursos e possibilidades. Durante a Fenagri 2018 apresentaremos muitas dos projetos e soluções eficazes que vem ajudando a manter o povo do Semiárido nesta terra prometida”, concluiu Gizeli de Oliveira.

São destaques ainda da programação técnico-científica da Fenagri 2018, o Seminário ‘Mangicultura no Vale do São Francisco: desafios e oportunidades’, além de uma série de seminários, palestras, minicursos, visitas técnicas e uma rodada negócios.

A 27ª edição da Feira Nacional da Agricultura Irrigada terá como tema ‘Cultivando Sabores e Valores do Vale’. A previsão da Prefeitura de Juazeiro e Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Juazeiro (ACIAJ) organizadores do evento, é que sejam realizados negócios na ordem de R$ 5 milhões e o evento receba a visita, nos quatro dias, de 40 mil pessoas.

Mais informações: www.fenagri.com.br

(74) 99976 1050/ 3611 6481

Irpaa@irpaa.org

Comercialização: (87) 3862- 1892 e

(87) 99611 – 0400

Ascom.

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No Dia mundial da água, Juazeiro debate sobre água da chuva

O evento pretende abordar o potencial da água de chuva na região, sua importância e qualidade, tendo como público-alvo pesquisadores/as, educadores/as, estudantes/as, profissionais, técnicos/as, representantes de órgãos governamentais e não-governamentais.

cisterna-credito-arquivo-sajucDe acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), garantir a segurança hídrica é assegurar o acesso à água em qualidade, quantidade e regularidade pela população. Um dos caminhos para garantir esse acesso é a captação e armazenamento da água da chuva. Esse ano, a semana da água vai discutir a necessidade de desbloquear o potencial da água da chuva no Brasil.

Em comemoração ao Dia mundial da água, dia 22 de março, o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – Irpaa e a Associação Brasileira de Captação e Manejo de Água de Chuva – ABCMAC realizarão o seminário “Em defesa da Água de Chuva”. O evento acontecerá na manhã da próxima quarta-feira (22), no auditório Antônio Carlos Magalhães, na Universidade do Estado da Bahia – Uneb, em Juazeiro.

O evento pretende abordar o potencial da água de chuva na região, sua importância e qualidade, tendo como público-alvo pesquisadores/as, educadores/as, estudantes/as, profissionais, técnicos/as, representantes de órgãos governamentais e não-governamentais. Visando instigar a adesão de mais agentes de pesquisa e difusão de tecnologias de captação e manejo, bem como fortalecer a cultura do uso de água de chuva no Semiárido brasileiro, o seminário vai contar com dois painéis temáticos: “Desbloquear o potencial da água de chuva” e ”A água da chuva é boa e confiável”.

O colaborador do Irpaa, João Gnadlinger, que vai mediar um dos painéis, defende que para desbloquear o potencial de aproveitamento da água da chuva no Brasil primeiro é preciso “desbloquear nosso entendimento da captação da água de chuva, a chuva cai em cima da terra em todo lugar… então tem que desbloquear a mente, a visão, a política, o conhecimento, os meios financeiros para a captação de água se tornar uma realidade no Brasil inteiro”, pontua João.

O seminário conta com parceria da Uneb e com apoiágua da chuvao de entidades e movimentos da sociedade civil. Já em Curaçá, o grupo Galeota das Artes está percorrendo bairros da cidade com apresentações de música e teatro refletindo estas temáticas. Essa programação vai até o dia 22 e é uma ação que conta com apoio da Paróquia, Pastoral do Meio Ambiente e Irpaa.

O quê: Seminário “Em defesa da Água de Chuva”

Quando: 22 de março de 2017

Onde:  Auditório Antônio Carlos Magalhães na Universidade do Estado da Bahia – Uneb em Juazeiro.

 

Texto: Comunicação Irpaa  Foto: Arquivo Sajuc

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Protagonismo das mulheres é destaque em Feira durante o II ENAFA

Evento foi realizado pela Univasf, com o apoio do Irpaa e do Sebrae e, além da Feira, contou também com palestras, mesas redondas e muita troca de informações.

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II Encontro da Agricultura Familiar – Enafa

A criatividade, o empreendedorismo e o conhecimento acerca da viabilidade da Convivência com o Semiárido estiveram presentes nas dependências do Campus da Univasf, em Juazeiro (BA), nos dias 27 e 28 deste mês, período que ocorreu o I Encontro e Feira de Empreendedorismo de Mulheres dos Teritórios Sertão do São Francisco (PE/BA), Piemonte Norte de Itapicuru (BA) e Serra da Capivara (PI).

Uma variedade de produtos como doces de diversos tipos, cosméticos, bebidas, sequilhos, bolos, frutas, verduras, legumes, mel, artesanato em tecido, madeira, barro, couro, etc chamou atenção das/dos participantes do II Encontro da Agricultura Familiar – Enafa, que acontecia paralelamente à Feira. O evento foi realizado pela Univasf, com o apoio do Irpaa e do Sebrae e, além da Feira, contou também com palestras, mesas redondas e muita troca de informações.

Mulheres empreendedoras

A oportunidade de expor, pela primeira vez, o mel de abelhas nativas em uma Feira foi o que trouxe as jovens Nilmária Gomes e Rosângela Gonçalves, das comunidades de Sítio Lages e Melosa, em Remanso (BA), para participarem da Feira de Mulheres. As jovens mantém em área de Fundo de Pasto 47 caixas povoadas de abelhas e afirmam que hoje a meliponicultura (criação de abelha sem ferrão) tem sido uma fonte de renda para ambas. Uma tradição comum em diversas comunidades do Semiárido, a captura e venda do mel da abelha mandaçaia, que é nativa da Caatinga, agora acontece de forma mais organizada. Com o incentivo do Sebrae, a dupla aprimorou o trabalho, desenvolvendo inclusive a marca “Flores do Sertão”.

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II Encontro da Agricultura Familiar – Enafa

Quem também aproveitou a oportunidade de divulgar e comercializar seus produtos foi Maria Aurenita de Souza, de Santa Maria da Boa Vista (PE). Membro da Associação Aroma do Vale, ela produz derivados do leite de cabra, com destaque atualmente para sabonetes e hidratante de pele. Inicialmente o leite era usado para produzir o queijo coalho e iogurte mas nos últimos dois anos a aposta nos cosméticos tem sido também uma opção viável, contou Aurenita. “É minha renda principal, estudo de filho, despesa de casa, tudo é através disso: do queijo e dos sabonetes”, conta Aurenita, que chega a lucrar uma média R$ 2.500 por mês.

Quem esteve na Feira ainda pode adquirir alimentos in natura livre de venenos como uva, melão, , tomate, maracujá, batata doce, macaxeira, hortaliças, beterraba, cenoura, entre outros. Todos esses alimentos são resultados de programas de reforma agrária ou de hortas comunitárias, como é o caso dos produtos que a agricultora Raimunda Januária da Silva estava comercializando. Raimunda integra a Associação de Produtores Orgânicos do Vale – Aprovasf e conta que iniciou o trabalho em uma horta escolar. Com a criação da Associação, a produção aumentou com o objetivo de produzir alimentos saudáveis, hoje comercialziados em feiras e em outros locais de Petrolina, como o Parque Josefa Coelho, onde a feira acontece toda sexta-feira a partir do meio dia. “Além da gente levar alimento, a gente leva conhecimento e saúde”, diz a agricultora Raimunda, afirmando ser um bom negócio trabalhar com alimentos orgânicos.

Todas as temáticas presentes nas experiências expostas na Feira estiveram em discussão no encontro, a exemplo de meliponicultura, associativismo e cooperativismo, produção orgânica, acesso à terra e água, qualidade de vida, elementos essenciais ao bem viver no Semiárido. Mais informações sobre os produtos expostos podem ser acessadas através das instituições organizadoras do evento.

 

Texto: Comunicação Irpaa

Fotos: ImburanaTec

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Educação libertadora é resistência para a vida no Semiárido

Por escolas que contextualizam a vida e partidarizam pela humanidade.

2015050708-cisterna-nas-escolas-igaci-ana-lira-0101A educação é futuro, presente e passado do país. Como um direito, a escola pode contextualizar a vida humana no emaranhado de histórias que foram contadas e contribuir para que muitas outras sejam recontadas de forma autônoma, diversa e plural. Por outro lado, os movimentos que pregam uma educação que apenas repassa informações, e estimula o individualismo, defendem a história exclusiva da submissão ao controle e poder social dominante. É nessa disputa política que se lançam as chaves para, por exemplo, ignorar, reforçar ou combater a Indústria da Seca.

Aos doze anos de idade, a reflexão crítica da própria história influenciou um processo de libertação para Florisval Antônio Costa. Na época, em 1966, se iniciava o longo período do regime militar. As conquistas e direitos sociais estavam sendo extintos. Na educação não era diferente. O cancelamento do Programa Nacional de Alfabetização, idealizado por Paulo Freire, era um exemplo de retrocesso social. No interior de Alagoas, a escola não chegava até Florisval. Mas a consciência crítica sobre o poder político e social da educação conduziu Florisval a protagonizar um processo de transformação.

“Fiz uma viagem com um amigo meu, e vi que todos os garotos e garotas do local estavam estudando. O pessoal tinha uma linguagem e uma forma de expressão diferente. Eu não sabia nem ler o itinerário do ônibus. Foi terrível para mim. Quando voltei para casa decidi procurar alguém que pudesse me ajudar nesse sentido”, relembra Seu Florisval, aos 62 anos, no sítio Santa Rosa, em Craíbas (AL), onde mora.

Hoje, Seu Flor, como é conhecido, é um Educador Popular. O diploma impresso é um atestado. A ação social permanece como algo ainda mais importante. Ainda na adolescência, o agricultor organizou a comunidade para conquistar o direito de ler e escrever. Sem escolas próximas, articulou, com mais cinco amigos, a presença diária de um educador que viajava 25 quilômetros de bicicleta, para apresentar o domínio das primeiras letras ao grupo. Décadas depois, muitas andanças com a educação libertária foram dadas. Outras vão sendo planejadas e renovadas. Seu Flor faz parte da ASA Alagoas e participou recentemente da direção do vídeo-documentário A Grande Seca, estratégia para favorecer uma educação para a Convivência com o Semiárido.

A história de Seu Flor é uma das muitas que se juntam e se misturam numa grande bandeira coletiva pela permanente modificação do Semiárido, sobretudo, pela ótica pedagógica. A perspectiva de transição do combate à seca para a convivência com o Semiárido surge da conscientização de mulheres e homens sobre um novo olhar para a região, quando os fluxos de vivências e saberes populares compartilhados exigem mudanças sociais e definição de políticas públicas específicas para a região.

Entretanto, há interesses contrários às viagens de bicicleta por uma educação libertária nas comunidades ou mesmo pela efetivação de uma ampla rede de educação no Semiárido. Manter o status quo é interessante para quem se alimenta das moedas, antigas ou atuais, do capitalismo mais selvagem. Neste olhar, a educação não pode libertar, mas sim alienar.

“A Indústria da Seca necessita de mão de obra barata, quando não, gratuita ou escrava. A Indústria da Seca é pensada em função de alguns empresários, que antigamente a gente chamava de ‘coronéis’. Hoje esses ‘coronéis’ são os grandes empresários capitalistas. Essa perspectiva da Indústria da Seca necessita que se mantenham as pessoas na ignorância e na pobreza. É pensada para que as pessoas que não lutem pelos seus direitos para, então, se manter o seu sistema de produção de riquezas. Essas riquezas são construídas com o trabalho das pessoas, mas o acúmulo vai para quem detém os meios de produção”, destaca Cleusa Alves, assessora da Cáritas Regional Nordeste III.

Escola sem Partido – Os donos dos meios de produção monopolizam também o poder de narrativa social. Há cinquenta anos, Seu Florisval vivenciou uma experiência que descortinou a necessária democratização do poder da expressão, fruto do acesso à educação. A educação libertária é, sobretudo, um caminho para pluralizar a voz política através da linguagem e da conscientização. No sentido contrário, o anteprojeto da chamada “Escola sem Partido” (PLS 193/2016) é uma estratégia partidarizada pelo conservadorismo político e hegemônico que há séculos concentra bens, sejam eles materiais ou simbólicos.

O PLS 193/2016 estabelece “deveres” para o corpo docente das escolas. Ao utilizar termos como “professor não é educador”, o anteprojeto quer desconstruir o pensamento crítico nas escolas. A autoria do PLS 193/2016 é do senador Magno Malta (PR-ES) e está aberta a consulta pública. Além do âmbito nacional, alguns estados e municípios estão seguindo a tendência da chamada “Lei da Mordaça” nas escolas.

Em Alagoas, a Assembleia Legislativa foi a primeira a promulgar um projeto com as proposições de uma “Escola sem Partido”. No dia 10 de maio deste ano, foi aprovada a Lei 7.800/2016, conhecida como “Escola Livre”, de autoria do deputado Ricardo Nenzinho (PMDB). O projeto está sendo questionado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que ajuizou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), no Supremo Tribunal Federal, no último dia 24 de agosto.

No Rio Grande do Sul e no Distrito Federal, as “ideologias conservadoras” da Escola sem Partido estão com projetos em tramitação nas respectivas assembleias legislativas. No âmbito municipal, o município paranaense de Santa Cruz do Monte Castelo foi a primeira a fixar os deveres dos professores nas salas de aula. Em Feira de Santana, a candidatura do policial Jeferson Almeida (PSDC-BA) defendeu uma “educação sem doutrinação” na campanha para a Câmara de Vereadores deste ano. Os 318 votos computados não foram suficientes para que Jeferson Almeida ocupasse uma cadeira da na Câmara.

Silenciar a ideologia e cortar as possibilidades diversas de conteúdos contextualizados nas escolas é uma clara manipulação contra um princípio constitucional: a pluralidade de ideias. Considerando a escassez de materiais didáticos que hoje contextualizem o Semiárido, e sem a liberdade de expressão, educandos e educandos estariam proibidos, por exemplo, de considerar as opressões da Indústria da Seca ou os contextos sociais, além dos números da exportação, que estão por trás do agronegócio.

No campo, a “Escola sem Partido” poderia ser associada, por exemplo, a perspectiva da assistência técnica que segue “de cima para baixo”, numa difusão “neutra” de um padrão que esquece uma essência fundamental nos processos educativos: o saber popular. As propostas de uma metodologia por uma “conhecimento desumanizado” ganharia mais força nas escolas.

“Paulo Freire desconstruiu o padrão em que foram pensados os subalternos e os oprimidos. Isso porque ao longo da nossa história, desde o período colonial, quando se gritava ‘Terra à vista’, alguém deve ter dito a Cabral que tinha gente atrás da moita. Mas não se considerava gente. Decretaram que os índios não eram humanos”, ressalta Miguel Arroyo, sociólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais.

À luz da teoria Freiriana, é possível relacionarmos a educação com vários outros direitos humanos. Negar a humanidade dos índios foi uma estratégia de se negar o direito à terra aos habitantes de origem do território brasileiro. Ao contrário de dissimular uma “neutralidade” para as escolas, a educação contextualizada para o Semiárido, necessariamente, é uma forma de alimentar uma escola partidarizada – sem a necessidade de partidos políticos – com a cidadania.

Contextualizar um olhar sistêmico do Semiárido, por exemplo, é uma das preocupações de Seu Florisval nas atividades de educação popular: “Por que não sabemos que 40% do planeta é de regiões semiáridas? Quais as riquezas que existem na nossa região semiárida?”. Além disso, o educador popular lembra a importância de gestão das muitas formas de informação existentes. Hoje, além dos poucos materiais didáticos que são produzidos por organizações sociais, Seu Flor destaca as possibilidades de aproveitamento didático de ferramentas virtuais e eletrônicas, como as redes sociais e os smartphones nos processos educativos pelo Semiárido rural.

Por outro lado, além da dimensão metodológica, os temas da educação e da comunicação estão associados quando se pensa o agendamento público pelo modelo de escola no país. A “Escola sem Partido” impõe um processo que tenta desconsiderar as pautas populares nas instituições de ensino, seja no campo ou na cidade. Há um atropelamento da democracia. Curiosamente, ao mesmo tempo em que as “Escolas sem Partido” tentam ditar alguns deveres aos professores, os direitos de alunos e alunas que ocupam escolas em vários estados do país são ignorados na opinião pública.

Ao mesmo tempo em que a “Escola sem Partido” prega uma “neutralidade” no ensino, as grandes empresas de comunicação ainda se intitulam como “imparciais” no jornalismo. Apesar desse “casamento de isenção” das instituições de ensino e comunicação, o debate sobre temas como sucateamento das escolas, privatizações, qualidade de ensino e condições de trabalho dos docentes não ocupou espaço manchetes nos jornais e nas TVs.

“A educação como repasse de informações não é feita de forma despretensiosa. Ela não é feita de forma ingênua. Ela também tem uma intenção. Essa educação que não educa, que apenas repassa conteúdos é feita de forma intencional porque para o sistema capitalista não é interessante que as classes trabalhadoras, que os empobrecidos pensem, analisem, reajam, reflitam, tenha capacidade de proposição”, destaca Cleusa Alves.

Uma experiência de Política pública – A Lei Municipal 041/2014 de Tamboril, no Semiárido Cearense, é uma importante referência de luta popular. Desde 2007, toda rede de educação de Tamboril é composta por escolas de educação contextualizada. Para manter e ampliar as conquistas locais, a Lei 041/2014 obriga que as políticas de educação contextualizadas sejam obrigação do serviço público, independente das gestões municipais. Tamboril possui 4.987 educandos e educandas, além de 418 educadores e educadoras vivenciando processos educativos de forma integral, incluindo técnicas e tecnologias que vão além dos muros das escolas. A escola está aberta a vivenciar o mundo ao redor, dialogando com as pessoas em sua totalidade de vida.

“A gente avalia essas conquistas que alcançamos até hoje como muito positivas. É válido dizer que é fruto de um processo de organização, de unidade dos movimentos sociais que demandaram e vêm demandando e assumindo de fato essa proposta educativa”, avalia Antoniel Silva, da secretaria municipal de educação de Tamboril e membro da Rede de Educação do Semiárido Brasileiro pelo Estado do Ceará (RESAB-CE).

A universalização da educação contextualizada em Tamboril é fruto de muitas vozes de mulheres e homens que participaram de uma movimentação política, que ganhou mais eco, sobretudo, com a chegada do primeiro bispo da Arquidiocese de Crateús, em 1964, Dom Antônio Batista Fragoso. Além de uma referência metodológica, a educação contextualizada em Tamboril conta com estruturação para o desenvolvimento de uma pedagogia de convivência com o Semiárido.

Uma experiência de Cultura Popular – Apesar da Lei Federal 10.639/2003, não há uma política pública efetiva sobre o ensino da História e Cultura Afro-brasileira nos ensinos fundamental e médio do país. Em Paquetá (PI), as cores, cantorias, passos e brincadeiras do Reisado da Custaneira é um processo pedagógico que resiste e resgata ancestralidade. A manifestação cultural, literalmente, abre as portas da comunidade quilombola para um banquete de alimentos e saberes no contexto das histórias de origens africanas. As figuras dos Caretas, Boi, Burra, Jaraguá, Ema, Véia do Fogo, Rei e Rainha representam a vida da Comunidade Quilombola da Custaneira.

“Se nós não tivéssemos esse sangue da cultura nas nossas veias o que seria do nosso povo? Essa cultura é o que faz com que o povo se apegue a esse Semiárido, a esse torrão, aprendendo a viver, inclusive bem”, destaca Arnaldo Lima, conhecido como Naldinho da Custaneira, presidente da Associação Comunitária da Custaneira e integrante da Coordenação Estadual das Comunidades Negras, Rurais e Quilombolas do Piauí.

A experiência de Custaneira reflete o pensamento de Paulo Freire que coloca o binômio da cultura e da conscientização como matrizes de pedagogia libertadora. Por outro lado, projetar uma educação “despartidarizada” em Custaneira seria prognosticar uma quebra de metodologia incompleta com os saberes e vivências dos terreiros.

“Todos os rituais até hoje – sagrados e profanos – estão colados à cultura da terra. Se toda a nossa socialização – até nas festas e nas músicas – é colada com os ritmos da terra, que especificidades há para o Semiárido? Para a produção? Para a vida no Semiárido? Uma pergunta muito importante é: qual cultura específica do Semiárido vai servir de educação para a infância e a juventude? Não é só plantar uma hortinha. É algo muito mais radical. O ser humano nasce colado na terra, a nossa cultura nasce enraizada da terra, em nossa forma de produzir. Então a especificidade da nossa forma produzir no Semiárido cria qual cultura? Quais manifestações culturais? Quais saberes? Quais valores? Essa é a preocupação da pedagogia”, questiona Miguel Arroyo, defendendo a concepção de uma “pedagogia da terra”.

Uma resistência pela educação popular e libertadora – A história de luta pelo direito à educação no Brasil, que atravessou décadas entre ditadura e redemocratização, é a esperança do sociólogo Miguel Arroyo contra o processo de despolitização das escolas. Arroyo lembra que o conservadorismo que decretou, por exemplo, a proibição do termo ‘gênero’ em algumas escolas estaduais não está vingando na prática por ser um atropelo diante da essência política consolidada nas escolas do país. Ao mesmo tempo, os movimentos estudantis que ocupam as escolas exigem o reconhecimento de identidades e temas como raça, diversidade sexual e classes sociais, por conta da consciente apropriação do espaço escolar por todos e todas.

“A nossa reflexão, os nossos processos de formação devem saber beber nas fontes do povo, nas fontes das experiências populares para a gente poder alimentar as nossas esperanças e construir o futuro diferente do qual os golpistas estão querendo impor para nós. É preciso alimentar em todas as pessoas que participam dos processos educativos, a consciência de que a força está nas nossas mãos. A capacidade de mudança, de transformação está nas nossas mãos. Já superamos situações anteriores com muita união e muita luta e esse é o momento de mostrarmos a nossa capacidade. E a educação popular e libertadora tem essa função”, avalia Cleusa Alves.

 

Texto: Danil Lamir- Asacom / Foto: Ana Lira

 

Notícias

Trabalho doméstico ainda é invisível na zona rural

Campo continua sendo espaço com divisão sexual do trabalho bastante evidente.

20-09josefa-cuidandodosanimaisApesar de fundamental na dinâmica da vida social da família, o trabalho doméstico realizado pela mulher rural não é valorizado, nem remunerado e tampouco visto como esforço, mas como algo natural. A questão principal é que o campo continua sendo um espaço com uma divisão sexual do trabalho bastante evidente. Enquanto homens são responsáveis pelo trabalho produtivo, que resulta em ganhos monetários, as mulheres ficam responsáveis pelo trabalho reprodutivo com o cuidado das crianças e produtivo com os quintais produtivos, isto é, tudo o que está ligado ao ambiente interno da casa, o chamado trabalho doméstico. O que se configura em uma dupla jornada de trabalho.

Exemplos como é o caso da agricultora Josefa Lima, 59 anos, que acorda às 4h da manhã, coloca o café no fogo, tira o leite da vaca, coloca a comida para os porcos, põe o feijão no fogo, varre e passa pano na casa, e depois prepara o almoço, cuida do quintal produtivo, vai alimentar as galinhas de novo, e todos os outros bichos – é mais comum do que se pensa. E quando o sol se põe, ainda tem o jantar e assim é a última a dormir. Enfrentar todos os dias essa jornada faz parte da maior parte das mulheres no campo. “Eu gosto demais de trabalhar com a terra. Não quero parar de fazer o que gosto. A terra dá o milho, o feijão, a batata, dá tudo. E preciso fazer as tarefas de casa também. Não paro um segundo.”, falou.

É a primeira vez que Josefa recebe uma assessoria técnica na sua comunidade, através do projeto Mulheres na Caatinga, realizado pela Casa da Mulher do Nordeste, com o apoio do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS), gerenciado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). O trabalho de conscientizar as mulheres sobre sua autonomia, fez com que ela enxergasse as desigualdades, mas o diálogo ainda é difícil, principalmente porque envolve costumes e cultura.

“Aprendi que a mulher tem direito igual ao homem. Como a gente trabalha no campo, temos que combinar tudo. Dividir as tarefas é importante, não tem ninguém mais no campo, não tem trabalhador, e ai sou eu e meu marido pra fazer. Eu colho só pra consumo próprio. Mas cuidar de animal e da casa não tem descanso. É o dia todo de trabalho”, contou. Já o marido trabalha o dia todo na roça.

Visibilizar e tornar as tarefas dentro e fora de casa divididas igualmente entre todos e todas é o primeiro passo para minimizar as desigualdades existentes entre homens e mulheres. E deixar de serem apenas “esposas de”, e passarem a ter nome próprio.

 

Texto: Emanuela Marinho – comunicadora da Casa da Mulher do Nordeste

Foto: Casa da Mulher do Nordeste

http://www.irpaa.org/noticias/1501/trabalho-domestico-ainda-e-invisivel-na-zona-rural

Crítica em Movimentos

Governo Temer ameaça chamar de volta o Brasil para o Mapa da Fome

“No Semiárido, a sociedade civil e a democracia venceram a fome e a sede, transformando-a numa região produtora de alimentos”

pb-lagoa-seca-vladia-limaHá quase 2 anos, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciou em Roma um feito de imensa repercussão social no Brasil: a saída do país do Mapa da Fome. Segundo a ONU, no intervalo de 2002 a 2013, a cada 100 pessoas subalimentadas, 82 delas passaram a acessar alimentos para saciar sua fome. Assim, o percentual de brasileiros e brasileiras em situação de subalimentação foi para menos de 5% da população do país.

Para além dos números, essa situação é bem visível na região semiárida brasileira, que representa 18,2% do território nacional e concentrava, em 2011, 50% das pessoas em situação de miséria mapeadas pelo programa Brasil Sem Miséria do governo Dilma Rousseff. Hoje, muitas famílias da região conjugam num passado não muito distante a expressão passar fome. Um tempo que eles demarcam não pelos anos ou décadas, mas pelas gestões dos governantes à frente do país.

“Antes do governo Lula e Dilma, havia muitos saques no Mercantil [mercado da região]. Era muito difícil conseguir alimento. Tinha que ir pras frentes de serviço em troca de um saco de feijão que nem cozinhava”, conta dona Antônia Valdira Coelho, que vive no assentamento Menino Jesus, situado nos municípios de Chorozinho e Cascavel, na região metropolitana de Fortaleza já na parte semiárida do Ceará. “Antes, era uma raridade comer carne. Hoje, comemos bem. Estamos no céu”, enfatiza ela.

A vizinha de dona Valdira, Maria da Glória Santos da Silva, nem dá cabimento para relembrar o período da fome. A sua boca só anuncia os alimentos produzidos no seu quintal: “Acerola, manga, caju, seriguela, ata, banana, limão, graviola, mexerica, cheiro verde, pimentão, alface, tomate, pimentão”. E ainda tem as criações de porco e galinha. “O que nos salva é que a gente tá podendo plantar mesmo com cinco anos sem chuva, porque se fosse comprar não daria por causa da inflação. A gente está aprendendo a plantar e tirar produção a partir dos conhecimentos que os técnicos do Cetra e do Esplar dão”, diz ela fazendo referência às organizações da sociedade civil que fazem parte da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

Seu Expedito Jacobina, da comunidade Água Suja, na zona rural de Jacobina do Piauí, também não dá muito espaço para falar dos tempos tristes da fome. Desde 2013, ele armazena a água de produção da cisterna-calçadão. Nestes últimos três anos, inseridos num período de forte estiagem, ele passou a produzir macaxeira, batata e mamão sem parar. “A manga e a pinha tá florindo”, orgulha-se ele, que também cria ovino, abelha e galinha. A carne para consumo da família, ele não compra. “Quanto mais a gente puder produzir para consumo, a gente já está no lucro. Vai comprar um pacote de arroz… é R$ 6,00. Pra muitas pessoas é complicado”, diz ele que além de trabalhar na roça é funcionário de uma escola pública municipal.

“No início da década de 1980, havia no Semiárido um quadro de fome, de crianças morrendo. No início da década de 1990, [existiam] situações críticas pela não garantia do direito à água. A região passou por uma mudança radical dos anos 2000 pra cá, com a participação ativa da sociedade, organizada na ASA, e com políticas que garantiram direitos. A sociedade civil e a democracia venceram a fome e a sede no Semiárido. Uma região tida como uma região de fome e miséria passou a ser uma região produtora de alimentos em vários territórios. Não podemos retroceder”, assegura Denis Monteiro, secretário executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

Um viés da estratégia de combate à fome construída desde o governo Lula e mantida nas gestões de Dilma foi estimular a produção de alimentos pela população vulnerável que vive na zona rural do país. Segundo o Relatório de Insegurança Alimentar no Mundo, publicado pela FAO em 2014, o fomento à produção agrícola articulado com as políticas de proteção social foram fundamentais para a saída do Brasil do Mapa da Fome. Essa estratégia foi sustentada pela priorização da agenda de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) a partir de 2003 pelos governos federais e por mecanismos de participação da sociedade civil nas políticas públicas que convergiam para esse resultado, como a política de convivência com o Semiárido.

E o que dizer agora desta estratégia diante de um governo que não visa a proteção social da população mais vulnerável e anuncia constantes medidas que ferem direitos já conquistados?

“Nós estamos vivendo, em grande medida, momento de um estado de exceção. Infelizmente, não temos como dizer que temos políticas asseguradas. O governo Temer já demonstrou que ele é capaz de desconstruir direitos mesmo aqueles que estão assegurados na Constituição de 1988. O risco de retrocesso é enorme. Agora, nos últimos anos, não foram criados não só leis, mas também espaços que a sociedade teve oportunidade de participar ativamente para construir estas políticas. O Consea [Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional], um exemplo neste sentido, foi recriado pelo governo Lula e tem um papel importantíssimo na construção de leis promotoras do direito humano à alimentação e na construção de políticas públicas, como por exemplo, as políticas voltadas para o Semiárido. É um espaço que continua vigente. Esperamos que este espaço continue tendo um protagonismo com a participação ativa da sociedade civil na cobrança e na defesa dos direitos e das obrigações do estado”, adverte Denis.

Conselheira do Consea, Elza Braga, diz que para enfrentar a fome é preciso enfrentar a pobreza, que é um quadro dotado de complexidade. “Pra melhorar os indicadores da segurança alimentar tem que ter uma conjugação de ações, não só a água, mas o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], o Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], a economia solidária, toda política voltada para os assentamentos, educação alimentar, é uma série de medidas além das políticas de aumento de renda – bolsa família e aumento do salário mínimo”, assegura ela que também é professora da Universidade Federal do Ceará.

Segundo a professora, a tática do governo Temer para negar direitos não se concretizará só através da redução de recursos, mas através da alteração na metodologia de algumas políticas para “subtrair o protagonismo e a participação da sociedade civil. Porque fica mais fácil retomar as relações clientelistas que perpassam as relações políticas no Brasil, especialmente, no Nordeste e Norte. É um cenário muito preocupante”, dispara Elza.

O que a conselheira do Consea prevê já acontece no Semiárido quando o governo Temer envia os recursos, que deveriam ser investidos na região, para a Codevasf, o DNOCS, governos estaduais. “[Essa opção] nada mais é do que voltar a ideia de injetar os recursos onde tem os apadrinhados políticos”, diz Alexandre Pires, coordenador executivo da ASA Brasil pelo estado de Pernambuco e coordenador do Centro Sabiá, referindo-se aos R$ 700 milhões direcionados para o DNOCS.

Segundo ele, quando os governos Lula e Dilma decidiram dialogar com a sociedade civil, por meio da ASA, para pensar numa forma participativa de construir o projeto de convivência com o Semiárido, tirou das mãos de vereadores, prefeitos e governadores a barganha política e isso fortaleceu a sociedade civil na participação de construção de um projeto político para o Semiárido.

Rio Pardo de Minas_MG, 17 de Junho de 2015 ASA - Projeto Um Milhao de Cisternas Cisternas instaladas em residencias da comunidade de Peixe Bravo. Na foto, Jandira Gomes da Silva e sua filha Janaina Foto: LEO DRUMOND / NITRO
Rio Pardo de Minas_MG, 17 de Junho de 2015
ASA – Projeto Um Milhao de Cisternas
Cisternas instaladas em residencias da comunidade de Peixe Bravo. Na foto, Jandira Gomes da Silva e sua filha Janaina
Foto: LEO DRUMOND / NITRO

“O que nós construímos ao longo dos anos, no âmbito da participação da sociedade civil, na construção deste projeto de convivência com o Semiárido, o foco estava na necessidade das famílias e não no interesse político-eleitoral, que compromete a eficiência e a eficácia de qualquer iniciativa de promoção da segurança alimentar e a melhoria de suas condições de vida”, assegura Alexandre.

Para a professora Elza, é lastimável que exista uma ameaça de ruptura do governo Temer com a ASA. “A Articulação fez um trabalho muito bom porque incidiu não só na política da água, mas também de produção de alimentos, de incentivo aos quintais produtivos, às feiras, à agroecologia. A gente sabe que falar de segurança alimentar e nutricional é falar de alimentação saudável. E a ASA fez esse meio de campo de articular essas políticas e incentivar o associativismo, que é fundamental para que as populações vulneráveis tenham políticas que atendam às necessidades das famílias. Construir um país democrático passa, necessariamente, pela afirmação de direitos que as populações têm. E a gente quer um país forte, democrático e soberano.”

 

Texto: Verônica Pragana – Asacom

Fotos: Arquivo Asacom