Coluna K

Pastor Djalma de Ogum, presente!

Que relação estaria presente na expressão “Pastor Djalma de Ogum”? O que seria um pastor de Ogum? Trata-se de uma blasfêmia? Quem, afinal de contas, seria esse Djalma que congregaria duas pertenças religiosas tão díspares? 

imagem da internet

 

 

Delcides Marques, antropólogo

 

Que relação estaria presente na expressão “Pastor Djalma de Ogum”? O que seria um pastor de Ogum? Trata-se de uma blasfêmia? Quem, afinal de contas, seria esse Djalma que congregaria duas pertenças religiosas tão díspares? 

Faleceu ontem, aos 79 anos, um personagem cuja memória não pode ser esquecida. Trata-se do pastor batista Djalma Rosa Torres, um homem cuja vida foi dedicada ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

Sua trajetória foi valorizada em vida, particularmente quando ele conquistou o Prêmio Direitos Humanos 2012, recebendo das mãos da presidente Dilma Rousseff uma digna congratulação na categoria Diversidade Religiosa. 

Dessa vez, e imediatamente ao anúncio de seu falecimento, a Câmara Municipal de Salvador (Bahia), a pedido do vereador Sílvio Humberto (PSB), prestou um minuto de silêncio em pesar por esse homem que seria “um dos símbolos em nossa cidade do ecumenismo e combate à intolerância religiosa”. 

Além disso, desde ontem circulam notas de pesar e homenagem a ele, incluindo instituições religiosas e educacionais, como a Faculdade de Direito da UFBA.

Eu participo de um grupo de Whatsapp onde também estava o Pastor Djalma. Assim, eu não o conheci pessoalmente, mas já o admirava por seus posicionamentos. E nem sabia toda a sua relevância. Tudo mudou com a fatídica notícia e com a comoção geral acompanhada de gratidão pela grandeza desse líder. Eu fiquei tão impactado que pedi alguns depoimentos sobre ele, e vou indicar três.

Suely Melo, Conselheira de Cultura do Estado da Bahia e Membro do Grupo Baobá, registrou: “Pastor Djalma era cativante, inter-religioso convicto e atuante, capaz de respeitar a religião e a postura de todos. Sorriso largo, gentil e falante; agregava sua personalidade a seus projetos de espalhar o bem”.

Disse-nos o padre Lázaro Muniz em seu Instagram: “Pastor Djalma viverá para sempre na graça de Deus e nos corações daqueles que com ele aprenderam a amar e tudo fazer para tratar com dignidade toda pessoa. Viva na luz de Deus”.

A expressão do professor Júlio Cesar de Sá da Rocha, da UFBA, foi igualmente tocante: “Pastor Djalma Torres pregava a paz e o diálogo inter-religioso, combatendo fortemente a intolerância religiosa e o racismo. Grande perda!”.

Mesmo diante desses enternecidos elogios, eu espero também prestar um breve tributo a esse pastor cujo aporte humano e religioso deveria ser cantado aos quatro ventos. E torço para que esse artigo seja uma singela contribuição nessa direção.

É preciso começar destacando que esse pastor angariou admiravelmente amizades fora do círculo protestante e cristão. Num artigo de Jaime Sodré, historiador, professor e religioso do candomblé, o pastor é destacado por sua disposição para caminhar com o povo-de-santo: “solícito e amigo dos fiéis do candomblé”. O Pastor Djalma e sua comunidade, a Igreja Batista Nazareth, são elogiados pela recepção de um fiel do candomblé na comemoração do aniversário do templo protestante. Em suas palavras: “Só emoção. Acolhidos, estávamos em casa, sem restrições ou olhares de intolerâncias. Só respeito e carinho”.

Devido a atitudes como essas, o líder batista passou a ser conhecido como Pastor Djalma de Ogum pelos povos de terreiro. Nas belíssimas palavras de Jaime Sodré: “O Pastor Djalma Torres, pela sua seriedade e apoio às nossas causas, tornou-se um irmão especial, e para retribuir este seu carinho e solidariedade, o povo-de-santo, reconhecendo a sua coragem, sinceridade, em um tom alegre, jocoso, mas respeitoso, desejando ter a honra de integrá-lo em nosso meio, resolveu chamá-lo de Pastor Djalma de OGUM”.

Mais do que merecida láurea pelas quatro décadas de atuação pastoral e militância em defesa da diversidade religiosa, com destaque para Salvador, na Bahia. Local que ele exaltou como uma cidade sagrada com seus templos e expressões religiosas que encantavam e cantavam a diversidade.  Esse elogio a Salvador é uma forma de explicitar a dedicação de seu ministério pastoral à luta contra toda forma de preconceito e intolerância.

Numa certa entrevista, o Pastor Djalma destacou diversos momentos de sua trajetória, desde uma formação teológica em Recife até a sua militância pela diversidade em Salvador. Sua atuação começou ecumênica, se aproximando dos diversos segmentos evangélicos, mas principalmente da cristandade católica e anglicana. Sua militância se estendeu ao diálogo mais amplo na possibilidade de abraçar religiões diversas, extrapolando o universo cristão tradicional. 

Trata-se, portanto, de um líder evangélico aclamado nos terreiros; amado e não temido. Repito: amado. Assim, o respeito e a admiração que ele alcançou entre os povos de terreiro em Salvador lembram um Jesus que caminhava com os pobres, oprimidos, silenciados. E o caso dos samaritanos é sempre emblemático nesses momentos, quando Jesus não apenas falava com eles (vale aprofundar quem eram os samaritanos), como utilizou um deles como exemplo de crítica aos religiosos judeus.

Em vida, o Pastor Djalma sofreu bastante com os grupos religiosos exclusivistas (assim como Jesus, não se pode esquecer). Por isso mesmo, sua atuação tratou de pensar formas de superação do medo de se perder a fé, o que poderia ocorrer diante de um pedido de silêncio para se ouvir as experiências de outros religiosos. Ele mostrou que quando se consegue parar de falar com finalidades proselitistas e combativas, pode-se desenvolver a habilidade de captar a mensagem essencial que as outras religiões ensinam.

Desse modo, o diálogo inter-religioso não o fez abandonar sua vivência pastoral, pelo contrário, ele nunca deixou de atuar como pastor de uma comunidade batista local. E mais: continuamente se apresentava como pastor protestante, antes de evidenciar qualquer outra de suas credenciais. Ao invés dos receios da cooptação e do proselitismo, ele prezava pela defesa da convivência e do respeito. Nem ele precisaria deixar de ser protestante ao se tornar amigo de um pai-de-santo ou um padre, nem as pessoas de outras religiões deveriam abandoná-las devido a essa aproximação.

A defesa do diálogo inter-religioso era uma forma de exaltação da pluralidade como uma benção. Uma busca de superação daquela ignorância que impediria perceber a riqueza da experiência religiosa do outro. Esse outro não mais tratado como primitivo ou demonizado. Pelo contrário: os cultos de matriz africana seriam agora valorados como sagrados. O Pastor Djalma demonstrou como existe um preconceito latente nas disposições que demonizam essas religiões. Preconceito que passa pela doutrina fundamentalista da salvação ou presença divina apenas nas igrejas cristãs, mas que também evidencia algo ainda mais perverso: o racismo vigente e disfarçado de boa-fé.

O Pastor Djalma se empenhou na defesa de que o mundo cristão precisaria aprender com as outras religiões, principalmente a partir da ideia de diálogo e de convivência, quando se poderia perceber a humanidade como uma irmandade generalizada. Para ele, havia muita coisa bonita nas religiões, fosse o catolicismo, o candomblé ou o protestantismo. E essa beleza seria justamente a presença de Deus. Ele reiterou diversas vezes que Deus é maior que nossas manifestações religiosas ou confissões doutrinárias específicas. Ele enalteceu a convivência com o diferente como uma riqueza, uma vez que “Deus não é Deus de nenhuma religião, de nenhum povo, de nenhum sistema de governo, mas Deus de todo o mundo, de toda a humanidade, de todas as crenças”. 

Sua abordagem pode causar um enorme incômodo em algumas pessoas. Ainda mais em tempos tão adversos, quando proliferam discursos de ódio à diferença, quando abundam líderes religiosos asquerosos, narcisistas e ambiciosos, quando personagens soberbos e difamadores são enaltecidos publicamente e seguidos como modelo de vida. Nesse mundo religioso comprometido com interesses próprios, o Pastor Djalma soube definir e defender uma pertinente concepção de diálogo inter-religioso e combate à intolerância. A intolerância, por exemplo, seria “o resultado de ignorância, do fundamentalismo e do desejo de poder prevalecentes em algumas igrejas e por parte de muitos eclesiásticos”. Contrariamente a isso: “o diálogo pressupõe o respeito e o acolhimento ao outro, com as suas peculiaridades e acatamento das diferenças”.

E termino com outras de suas apropriadas palavras: “Sinto-me imensamente feliz por reconhecer a beleza de cada religião e poder sentir que Deus está presente em cada uma delas”. 

Isso se chama amor ao próximo. Sem mais, somos todos irmãos, amém, axé.

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Celebração Ecumênica de Combate à Intolerância Religiosa acontece no próximo sábado (25) em Petrolina

Para o CONIC, as experiências já vividas pela Humanidade sobre as possibilidades de amor e ódio guardadas nas relações entre Religião e Democracia justificam a importância de celebrar essa data

Foto: Divulgação

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC convida toda a população a marcar este dia 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Em resposta local ao desafio lançado pelo CONIC, comunidades religiosas (de povos de santos e cristãs), partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais de Petrolina/PE realizarão, no próximo dia 25, sábado, às 10h, na Praça do Bambuzinho, uma Celebração Ecumênica e Inter-religiosa de Combate à Intolerância Religiosa em nossa cidade. “Estamos numa das regiões nacionais mais fortemente marcadas pelas iniquidades promovidas pela Invasão Colonial europeia e não podemos, como Gente de Esperança, nos silenciar diante das formas que, entre nós, a religião tem sido utilizada para legitimar violências e preconceitos incompatíveis com a sociedade democrática que desejamos para nosso país”, disse a Comissão Organizadora.

Para o CONIC, “as experiências já vividas pela Humanidade sobre as possibilidades de amor e ódio guardadas nas relações entre Religião e Democracia justificam a importância de celebrar essa data. Ainda mais em nosso país marcado pela herança dos inaceitáveis massacres e escravização de povos originários e africanos subsaarianos, hoje presentes nos preconceitos étnico-raciais, homofobias e machismos bem como na ausência, explícita, de políticas públicas capazes de reparar os danos historicamente infligidos a seus remanescentes, que têm negados e roubados, até o presente, seus humanos direitos à alimentação, saúde, moradia, educação e liberdade civil plena”.

 

VIA: Comissão organizadora

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Vergonha! Mais uma vez o terreiro de Mãe Adelaide foi apedrejado e não se faz nada em Juazeiro! Vergonha!!!

Terreiro Ilê Abasy de Oiá Gnan, de Mãe Adelaide, no Quidé/Juazeiro/BA, volta a ser apedrejado e denuncia foi registrada no Conselho Nacional de Direitos Humanos.

Foto: Reprodução

Neste domingo (26.8), o terreiro Ilê Abasy de Oiá Gnan, liderado pela Yalorixá Adelaide Santos, 66 anos, localizado há 42 anos no bairro Quidé, em Juazeiro/BA, voltou a ser apedrejado, nos horários da manhã, tarde e noite. Por volta das 20 horas Mãe Adelaide, precisou ser retirada do local, por filhos e filhas da religiosa, temerosos/as por sua saúde. Afinal, Mãe Adelaide tem de pressão alta e estava muito tensa. Desde o último mês de maio que o terreiro tem sido alvo de apedrejamentos.

Ontem mesmo o caso foi denunciado ao Conselho Nacional de Direitos Humanos, em Brasília, e hoje representantes do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade (Compir) e a Rede Sertão do São Francisco de Combate ao Racismo Institucional, irão tomar novas medidas, como retornar ao Ministério Público, às policias Civil e Militar, acionar as secretarias estaduais de Promoção da lgualdade (Sepromi) e da Segurança Pública. Também pretende ver meios legais de formular a denúncia em âmbito internacional.

Mas esse caso de intolerância religiosa não iniciou agora. Em 2015 o terreiro Ilê Abasy de Oiá Gnan, foi arrombado, apedrejado várias vezes e seu telhado foi parcialmente destruído. As paredes do terreiro foram todas danificadas e marcadas com cruzes. Quadros e fotografias foram destruídas. Em 14 de junho deste ano o Conselho de Promoção da Igualdade Racial (Compir), que têm atuado ao lado da religiosa, realizou uma vigília no local. Nem mesmo com a presença de pessoas não ligadas ao terreiro no local inibiu o/a agressor/a que continuou arremessando várias pedras no telhado.

Texto Céres Santos – Jornalista DRT 6156/RS

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Constesf discute combate à intolerância religiosa com representantes do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial

Durante a reunião foram expostos vários casos de agressão aos terreiros de Juazeiro e debatidos novos encaminhamentos de combate à violência.

Foto: Reprodução

O Consórcio Sustentável do Território do São Francisco (Constesf) recebeu, nesta segunda-feira (16), membros do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR), da Rede Sertão do São Francisco de Combate ao Racismo Institucional e representantes de terreiros de Juazeiro para discutir estratégias de combate à violência que as casas religiosas de matrizes africanas estão sofrendo na cidade.

Durante a reunião, que contou com a presença do advogado Jorge Torres, representando a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (Sepromi) e da delegada da polícia civil de Juazeiro, Licelma Gomes, foram expostos vários casos de agressão aos terreiros de Juazeiro, esclarecidos o andamento de denúncias já realizadas e debatidos novos encaminhamentos de combate à violência.

Emerson Oliveira, babalorixá do Terreiro de Candomblé Abaça Caiango Macuajô de Juazeiro, relatou que desde março o seu terreiro vem sofrendo agressões e ameaças.  “Eles quebraram os assentamentos dos exus e deixaram uma placa ameaçando derrubar minha casa. A gente precisa encontrar esses agressores e puni-los para que a sociedade veja que não somos cão sem dono. Nós somos religião, somos povos de terreiro e queremos respeito”, contou.

O coordenador de projeto do Constesf, Mauro Macêdo, ressaltou a importância da união dos seguimentos sociais na luta contra o racismo e intolerância religiosa. “O Constesf tem o objetivo de estar inserido em debates para construção de políticas públicas em nosso território, dentro de redes de combate a intolerância religiosa, racismo, machismo e homofobia. Assim como estamos inseridos em outras lutas, estamos aqui para que sejamos uma porta para a chegada de políticas para essas minorias. É um absurdo o que está acontecendo em Juazeiro e esperamos que, a partir dessas reuniões, medidas mais efetivas sejam tomadas”, declarou.

 

Ascom Constesf

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Religiões de matriz africana e o racismo no Brasil

Foi assunto na imprensa nacional, no último dia 5 de abril, a condenação de duas emissoras de TV pela Justiça Federal de São Paulo. De acordo com a decisão, as emissoras deverão conceder direito de resposta às entidades que representam as religiões de matriz africana. Constantemente, as emissoras que foram condenadas veiculavam, em suas respectivas grades de programação, conteúdos ofensivos e pejorativos dirigidos a praticantes de Umbanda e Candomblé. *Por Júlio Ribeiro Xavier

A vitória é simbólica e cabe recurso, porém representa uma resposta ao que a mídia noticia como “intolerância religiosa”.

A “intolerância religiosa” tem objetivos bem definidos, pois tem sido conveniente adotar um termo “generalista” para minimizar as perseguições que vêm ocorrendo em praticamente todo o território nacional, voltadas exclusivamente para as religiões de matriz africana. Essa “intolerância religiosa”, massivamente veiculada, não contempla as reais particularidades dos ataques a terreiros e praticantes de religiões de matriz africana.

Em um passado não muito longe, o Estado brasileiro, já republicano, através da aplicação do Código Penal de 1890, proibia a prática da religiosidade afro-brasileira, definindo-a como xamanismo e magia negra. As repressões eram sustentadas também por denúncias feitas pelos jornais, e as autoridades invadiam os terreiros e confiscavam seus objetos.

Mas foi esse mesmo Estado, que em nome da Modernidade, através da “solução” com a miscigenação e políticas imigratórias, buscou embranquecer a população.

O médico João Baptista de Lacerda, nosso representante no I Congresso Internacional das Raças, realizado em Londres, em 1911, foi enfático em suas teses, ao afirmar que, em cem anos, os negros desapareceriam da população brasileira, e os mestiços ficariam reduzidos a três por cento entre os nacionais.

Havia coerência entre embranquecer a população e eliminar qualquer vestígio da presença da cultura africana em solo brasileiro, e a religiosidade afro-brasileira também estava incluída no “pacote”. É o racismo brasileiro e as suas nuances que se manifestam de várias formas. Na cor da pele, na “textura” do cabelo e na prática religiosa.

É um racismo sorrateiro de eficácia perniciosa, que também se expõe através da “intolerância religiosa”, tendo como seu alvo predileto, desde sempre, a população negra e a sua religiosidade.

 

* Júlio Ribeiro Xavier – historiador

http://www.geledes.org.br

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Saravá das Crianças

As crianças precisam ser incentivadas a lidar com a diversidade que existe entre as pessoas, não só na fé, mas na vida, por elas representarem a continuidade, por isso são consideradas a maior riqueza dos grupos e tribos.

Por Jaqueline Santos

Significativa e expressiva manifestação sociocultural negra, o candomblé é palco de vários estudos, uma manifestação da fé e do divino que nasce da resistência preta no Brasil e se mantém até hoje também com muita fé e perseverança.

Segundo dados da Associação Espírita e de Cultos Afro-brasileiro, fundada em 17 de dezembro de 2007, Petrolina e Juazeiro, possuem mais de 400 terreiros envolvendo Candomblé, Umbanda, tendas, casas brancas, casas de sessão, centros espíritas de orientação umbandista, mesas brancas, casas de orações, entre outras.

Dentre esses tantos ylês, o Bandalecongo, nome do barracão da nação Angolana, quer dizer “Terreiro de Angola”. O Orixá da casa é Tempo. Situado no bairro Palmares I na periferia de Juazeiro, Bahia, que foi fundado em 2000 por Tempo Zará Lenbúracinguê de Umzambe, mais conhecida como Mãe Maria de Tempo, que em 2004 se tornou Ialorixá (uma sacerdotisa e chefe de um terreiro de Candomblé).

No Bandalecongo, Mãe Maria de tempo tem como base, os filhos e filhas biológicas para contribuir na organização das festas e ritualista, mas também conta com filhos e filhas de axé. O filho biológico de Mãe Maria, Naian dos Santos Pereira, iniciado com sete anos de idade, Ogam Mirim de Ogum, conta ter sentido vergonha de compartilhar com os colegas da escola o processo pelo qual estava passando. “Eu tinha vergonha, por que os meninos ficavam ‘zuando’ o cara”. Segundo Naian, a escola que ele estudava promoveu uma atividade em sala para falar sobre as religiões de matriz africana, o que contribuiu para ele se sentir mais seguro e diminuir a vergonha e desconforto.

Arquivo Pessoal

A Ialorixá e mãe biológica de Naian, a mãe Maria de Tempo, relatou os problemas enfrentados no processo de iniciação. Onde o conselho tutelar foi acionado para questionar as ausências dele na escola e a inserção dele na religião. “Graças à diretora que era muito compreensiva e aberta, ela ajudou muito, conversou com os professores, fez atividade na escola e me ajudou a proceder juridicamente para defender a tradição da família. Graças a ela e a Makota Ioná, minha neta já não precisou passar pelas mesmas coisas que passamos com Naian”, afirma Maria de Tempo.

Filha de Iansã, se iniciou aos 06 anos de idade, “eu não tenho vergonha, eu acho tudo lindo, eu gosto da festa, de dançar aqui com minha família” relata Kerlen Victória dos Santos Pereira. Nascida e criada dentro do candomblé, neta da Ialorixá Maria de tempo, cresceu vendo a família cuidar da tradição. O pai Alabê, Ogam que comanda os outros Ogans além de cantar o xirê e a mãe é Kota do terreiro da nação Ketu e tem o cargo de Ya Jibonã, que é a mãe que cria os/as Yaos no roncó (camarinha), além do irmão mais novo que já dança e vibra ao som dos atabaques. Victória se diz feliz por poder participar, vestir as roupas, dançar, cantar e viver isso com a família unida.

Arquivo Pessoal

As marcas da colonização podem ser vistas a distância, pois a educação pública nasceu da catequese jesuíta e essa forma de educar se mantém até hoje. É lamentável que alguns grupos ainda precisem esconder sua fé para evitar casos de violência física, pessoas de axé são apedrejadas, hostilizadas, marginalizadas e expostas.

Para as crianças e adolescentes, a escola é o ambiente mais cruel do preconceito, que parte dos alunos e também de professores. Os professores confundem o público com privado, esquecem que a escola é Laica e não são raras situações de abuso e violência com outras formas de acreditar e exercer a fé que é privada, se mistura com o espaço público da escola.

É preciso falar sobre intolerância religiosa, é preciso falar sobre liberdade, diversidade e racismo e dessa forma, tentar construir um convívio social equilibrado e livre de preconceitos e violências. As crianças precisam ser incentivadas a lidar com a diversidade que existe entre as pessoas, não só na fé, mas na vida, por elas representarem a continuidade, por isso são consideradas a maior riqueza dos grupos e tribos. Eis que é daí que vem a permanência, é daí que vem o futuro e a certeza de que a ancestralidade será mantida, não esquecida e celebrada.

Salve as Crianças! Saravá as Crianças!

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Denúncias de intolerância religiosa no Disque 100 crescem 3.706% em cinco anos

Desde 2011, quando o disque-denúncia passou a registrar esse tipo de violência, o número passou de 15 denúncias para 556 no ano passado; para secretário, número representa maior consciência sobre o crime.

2885dc45-9c68-4578-9f59-e5154efd299aO Disque 100, principal canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos para registro de denúncias, contabilizou no ano passado o total de 556 denúncias de intolerância religiosa, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, vinculada ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.

Há cinco anos, quando o serviço começou a registrar denúncias de discriminação por religião, foram contabilizados apenas 15 casos. Dessa forma, o canal teve  aumento de 3.706% nos registros de denúncias por intolerância religiosa no Brasil.

O ritmo de crescimento de denúncias deste tipo tem sido subido a cada ano. Somente em relação à 2014, foram registradas no ano passado 273% mais casos de violações em intolerância religiosa.

O aumento, segundo a ouvidora Nacional de Direitos Humanos, Irina Karla Bacci, não representa o número de casos reais, que passam por investigação, mas de denúncias por parte da população. Ela também ressalta que aumentou muito o número de denúncias de intolerância religiosa na internet.

“Muitas das violações que nós da Ouvidoria recebemos ocorrem no âmbito da internet, com divulgação de vídeos que associam por exemplo religiões de matrizes africanas a culto do diabo e as pessoas se sentem ofendidas e denunciam. Também há um crescente número de casos de terreiros que foram invadidos e queimados, com toda sua história apagada por esses atos de vandalismo”, explica.

O disque-denúnica junto com a Ouvidoria Online e o Clique 100 realizaram 324.892 atendimentos em 2015, dos quais 42% se referiu ao registro de denúncias de violações de direitos humanos. Mais de 270 mil atendimentos foram para encaminhar denúncias aos órgãos da rede de proteção integral de direitos humanos e ao sistemas de justiça. Com isso, os serviços da Secretaria de Direitos Humanos recebeu a média de 376 denúncias por dia.

Fonte: Portal Brasil, com informações da SDH