Entrevistas

“Estamos vivendo um dos piores momentos do racismo brasileiro”, afirma escritor

Oswaldo Faustino fala sobre as polêmicas em torno da Lei Áurea e o retrocesso na promoção da igualdade racial

O jornalista e escritor Oswaldo Faustino reforça a importância do fortalecimento do movimento negro nos dias de hoje / Foto: Laísa Gabriela de Sousa

A Lei Áurea, que decretou o fim da escravidão legal, após três séculos de trabalho forçado, foi promulgada às pompas no dia 13 de maio de 1888 como a lei mais popular e a última do Brasil Imperial (1822-1889). Mesmo assim, o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravatura.

A assinatura da Lei nº 3.353 pela princesa Isabel libertou e, ao mesmo tempo, abandonou pessoas em condições desumanas. Para o jornalista e escritor Oswaldo Faustino, a data não deve ser lembrada ou comemorada pela figura da filha de Dom Pedro II como benfeitora dos negros.

Faustino, que atuou em diversos veículos de comunicação e integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), se destaca na área de literatura afro-brasileira para crianças. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele destaca a luta e a resistência dos próprios escravizados pela liberdade e lamenta que, atualmente, algumas pessoas se vangloriem de serem racistas.

“Os comediantes acham divertido fazerem piadas racistas e se sentem no direito de fazerem essas piadas, ‘porque eu estou apenas fazendo rir’. Então, nós estamos vivendo um dos piores momentos do racismo brasileiro, porque, hoje, já há pessoas orgulhosas disso. Então, não é uma luta negra, é uma luta de todos, é uma luta que a sociedade vai sofrer muito se a gente não acabar com o racismo”.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato: O que é o 13 de Maio e por que existe essa controvérsia em relação ao fim da escravidão, que é marcada pela assinatura da princesa Isabel nessa data?

Oswaldo Faustino: O maior problema do 13 de Maio é [esse entendimento] da Lei Áurea chegar quase como uma caridade, uma coisa dada, uma liberdade dada, quando, na verdade, no século 19, naquele momento, você já tinha um movimento muito grande de libertação. Você já tinha muitos alforriados, você já tinha muitos rebelados, você já tinha quilombos espalhados pelo país inteiro.

Agora, de qualquer forma, você ainda tinha a escravidão institucionalizada. Então, eu sou de um grupo de pessoas que não é contra pensar a Lei Áurea, é contra pensar a Lei Áurea como ela foi realizada. Mas, não contra admitir a importância dela. A lei é importante, mas não é resultado de uma luta de abolicionistas caridosos, bondosos. Não, muitos negros participaram da luta abolicionista também, apesar de não serem reconhecidos pela história.

Então, o 13 de Maio não é uma data de toda inútil, tanto não é que as religiões de matriz africana, particularmente a umbanda, fazem suas festas de Preto Velho, recordam. Tem aquela música maravilhosa cantada pela Clementina de Jesus que era: “tava durumindo, cangoma me chamou, tava durumindo, cangoma me chamou, disse levanta povo, o cativeiro acabou”.

Ora, festejar o fim do cativeiro é fundamental, é muito importante, está na raiz do nosso povo, são festas populares. E o 13 de Maio não pode ser negado nesse sentido.

Agora, pensá-lo como uma caridade da princesa ou uma caridade do Congresso, porque, na verdade, a princesa recebe a decisão do Congresso e avaliza, assina em baixo, apenas. E diz: “a partir dessa data, acabou”. Agora, acabou como? Em que condições ficaram aqueles que até aquela data eram cativos? O que receberam? Como foi o 14 de Maio? Então, o 13 de Maio, para nós, passa a ser, sim, uma data de reflexão, uma data de que “Opa, peraí, como ficou esse 14 de Maio infindável na nossa vida?”.

O problema não é reconhecer que, a partir do 13 de Maio, foi assinada uma lei que libertou os escravos, mas, sim, não reconhecer o papel que os próprios negros tiveram de protagonismo na luta e associar isso, como a gente acaba aprendendo nas escolas, que foi uma benevolência do branco em relação ao negro, como se o negro simplesmente aceitasse isso passivamente. É isso?

É, isso. Na verdade, é o que nos ensinam as escolas. É o que ensina a sociedade. É o que nos jogam na cara, quando o branco quer fazer piadinha, ele diz que a Lei Áurea foi assinada a lápis. Em 1988, próximo de maio de 1988, saiu uma história de que a Lei Áurea só valia por 100 anos e que todos nós voltaríamos… Enfim, nada disso.

Essa “liberdade” anunciada, o que nós temos que refletir sobre ela? Tem um samba da Mangueira que diz: “moço, não esqueça que o negro também construiu a riqueza do nosso Brasil”. E, eu digo, o samba está errado. O negro não “também construiu”, o negro construiu. Foi o trabalho negro, foi o sangue negro, que construiu essa riqueza, durante quase quatro séculos, com certeza. Então, o protagonismo na construção dessa riqueza não é reconhecido, o protagonismo na luta pela liberdade não é reconhecido.

As revoltas, os quilombos, as ações, tudo que se trouxe do continente africano, inclusive, a tecnologia para produção etc., não tem nenhum reconhecimento. Então, 13 de Maio é um dia ótimo para se pensar, é um dia de reflexão. Fazer reverências, aplaudir os que querem que a princesa seja canonizada, essas coisas, isso é coisa que a gente ri, quando eles falam.

Mas, por outro lado, eu não posso negar a importância de que é a liberdade, porque a liberdade nós sempre tivemos. Nós tivemos a nossa liberdade criando nossos cultos, nós tivemos a liberdade criando nossos conceitos, nossas famílias, nossas culturas. A gente, mesmo acorrentado, teve formas de viver liberdade.

Agora, o importante é a lei dizer que a escravidão não existe. É com ela que nós brigamos, agora, quando a gente vê trabalhadores em situação análoga à escravidão. É com ela na mão que a gente diz: “opa, peraí”.

Trazendo um pouco para os dias atuais, quais são os desafios, como a gente pode trazer isso para o dia a dia das pessoas de uma forma mais prática, para as pessoas entenderem o que é o racismo no cotidiano, o que já melhorou daquela época para cá, mas o que ainda não melhorou também e o que ainda é preciso ficar atento para evitar esse tipo de situação?

Oswaldo Faustino: O maior problema do negro é o negro que não se reconhece como oprimido. Ora, se a gente conhecesse a história e a cultura do nosso povo, se a gente conhecesse um pouco de história da África, a gente não iria aceitar uma série de afirmações que fazem sobre nós e uma série de ações que fazem sobre nós, ações racistas frontais e mesmo as que não são frontais.

Então, é preciso, sim, que recomecemos a nos organizar novamente. Você teve um movimento muito grande no início do século, nas três primeiras décadas. Mas, quando chega em 1937, a ditadura de Getúlio [Vargas] fecha a nossa mais importante entidade, que era a Frente Negra Brasileira, uma entidade que virou um partido político em 1936.

O movimento começa a reascender na década de 1960 com algumas ações, com os clubes sociais… Nós, ainda adolescentes, jovens, íamos para os bailes e a gente não ficava só dançando e paquerando, a gente usava os clubes sociais para mostrar os livros que a gente estava lendo. Então, essa coisa toda reascendeu para estourar no final dos anos 1970 com a nossa manifestação na frente do Theatro Municipal e a criação do Movimento Negro Unificado.

Então, tudo isso é uma forma de tomada de consciência, o que nós temos que fazer no 13 de Maio é sempre alimentar essa consciência. Eu não sou o da tendência do sectarismo, eu acredito na convivência boa, natural, amorosa, afetiva entre todos, eu acredito nessa possibilidade.

Agora, é preciso que eles entendam que, ao participar, eles entram como coadjuvantes, não podem ser os personagens principais, eles não podem ser os protagonistas. Os protagonistas dessa luta somos nós, somos nós que a vivemos, somos nós que temos que pensá-la. Aceitamos opinião, aceitamos colaboração, aceitamos a energia e o apoio, mas não permitimos que tomem a nossa bandeira da nossa mão e saiam eles como heróis.

Eu acho que as pessoas que tomam consciência dessa questão começam a entender que o racismo não é uma doença do negro, o racismo é uma doença da sociedade. Uma sociedade racista é uma sociedade doente e ela precisa ser curada. E ela é curada muitas vezes por ações de não-negros, por pessoas que tomam consciência dessa questão e que começam a dizer para seus pares: “parem com isso”.

Para encerrar, por incrível que pareça, o Brasil era um país sem racistas. Olha, que bonito! Mas não é porque tinha democracia racial, o Brasil era um país sem racistas porque, qualquer pessoa a quem você perguntasse “você é racista?”, ela sentia vergonha de dizer que era. Todas as pessoas diziam que não. Então, ninguém era racista, mas todo mundo conhecia pelo menos um: é o meu pai, é o meu vizinho… Todo mundo conhecia um, mas ninguém era.

Hoje, em consequência inclusive desses personagens que estão no poder, as pessoas têm orgulho de se dizerem racistas. Os comediantes acham divertido fazerem piadas racistas e se sentem no direito de fazerem essas piadas, “porque eu estou apenas fazendo rir”. Então, nós estamos vivendo um dos piores momentos do racismo brasileiro, porque, hoje, já há pessoas orgulhosas disso. Então, não é uma luta negra, é uma luta de todos, é uma luta que a sociedade vai sofrer muito se a gente não acabar com o racismo.

 

*Tayguara Ribeiro*

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Notícias

Lula: “Fico preso cem anos. Mas não troco minha dignidade pela minha liberdade”

O ex-presidente Lula falou com exclusividade ao EL PAÍS e à ‘Folha’ na superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Ex-presidente Lula. Foto: Reprodução.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entra em um pequeno auditório da superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Lá dentro, é esperado pelos jornalistas do EL PAÍS e do jornal Folha de S. Paulo. Chega de tênis, camisa social, calça jeans e paletó cinza, e um calhamaço de papeis embaixo do braço. Senta-se numa mesa ao centro com alguns poucos microfones. Não está feliz nem triste. Nem tampouco envelhecido. Mas está diferente. “Tudo bem? ”, diz ele aos presentes, ainda com o rosto um pouco fechado, e se dirige para uma mesa improvisada ao centro, onde fica de frente para o repórter do EL PAÍS e para Mônica Bergamo da Folha, que vão conduzir a entrevista. “Antes de vocês fazerem a primeira pergunta… quero fazer um micro pronunciamento para tratar especificamente do meu caso, e depois do caso do Brasil”, diz ele, em tom grave.

Suas mãos tremem um pouco quando começa a ler. Seu rosto fica vermelho olhando para o texto que traz um rosário de críticas contra seus julgadores. “Sei muito bem qual lugar que a história me reserva. E sei também quem estará na lixeira. ” Lula critica o ex-juiz Sergio Moro, responsável pela sua condenação, a Operação Lava Jato, e o procurador Deltan Dallagnol. “Reafirmo minha inocência, comprovada em diversas ações”. O silêncio é absoluto, apesar da presença de delegados da Polícia Federal e de três oficiais armados, todos a serviço da PF, que está sob o guarda-chuva do Ministério da Justiça, conduzido por Sergio Moro.

Lula está engasgado e sabe que esta entrevista é a oportunidade para falar depois de um ano silenciado pela prisão em abril de 2018. A conversa tem início e o ex-presidente ainda mantém um semblante sério. Mas uma pergunta quebra a rigidez. Quando é questionado sobre a morte do irmão Vavá, em janeiro deste ano, e o neto, Arthur Araújo Lula da Silva, de 7anos, dois meses depois.  “Esses dois momentos foram os mais graves”, lembra ele, citando também a perda do ex-deputado Sigmaringa Seixas, morto no final do ano passado. “O Vavá é como se fosse um pai para a família toda. E a morte do meu neto foi uma coisa que efetivamente não, não, não… [pausa e chora]. Eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Porque eu já vivi 73 anos, eu poderia morrer e deixar meu neto viver.”

Lula diz que há outros momentos que o deixam triste, com uma mágoa profunda. “Quando vejo essa gente que me condenou na televisão, sabendo que eles são mentirosos, sabendo que eles forjaram uma história, aquela história do powerpoint do Dallagnol, aquilo nem o bisneto dele vai acreditar naquilo. Esse messianismo ignorante, sabe? Então eu tenho muitos momentos de tristeza aqui. Mas o que me mantém vivo, e é isso que eles têm que saber, eu tenho um compromisso com este país, com este povo”, completa.

O ex-presidente Lula, durante a entrevista desta sexta-feira, na superintendência da PF em Curitiba.. Foto: Reprodução.

Começa a entrevista, que virou caso de Justiça. Só foi realizada após a interferência do Supremo Tribunal Federal. Uma conversa que vai durar duas horas. E o ex-presidente começa a relaxar. É o Lula de sempre. Ele está igual. Quem esperava vê-lo envelhecido ou derrotado, se frustra. Ele tem fúria. E obsessão para provar sua inocência. “Não tem problema que eu fique aqui para o resto da vida. Quem não dorme bem é o Moro, Dallagnol e o juiz do TRF-4 [que confirmou sua condenação em segunda instância]. ”

 

 

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Entrevistas

“O império dos EUA vai acabar até 2020”

Johan Galtung, fundador da disciplina de Estudos da Paz nos curriculos académicos e que já mediou mais de uma centena de conflitos, diz que já só três países estão dispostos a fazer o trabalho por Washington: Reino Unido, Dinamarca e Noruega. Confira a entrevista completa concedida a Rita Siza.

“Os EUA pensam demasiado bem de si próprios e chamam a isso”excepcionalismo”, e vêem ameaças à sua segurança em todo o lado” MANUEL ROBERTO

O norueguês Johan Galtung é habitualmente apresentado como o fundador dos estudos da paz: foi ele que há quase 60 anos introduziu a disciplina no currículo académico de uma das principais universidades dos Estados Unidos (Columbia, em Nova Iorque), ao mesmo tempo que lançava o Instituto de Pesquisas da Paz em Oslo. No âmbito da sua investigação, elaborou modelos e desenvolveu teorias que serviram para prever – correctamente – a revolução iraniana ou o colapso da União Soviética. E fora das portas da academia, participou na intermediação de mais de uma centena de conflitos – na antiga Jugoslávia, no Médio Oriente ou no Afeganistão. Actualmente, dirige a Transcend International, uma rede sem fins lucrativos para a paz, desenvolvimento e meio ambiente.

Esteve em Braga num seminário na Universidade do Minho com o tema “Cinco décadas de investigação da paz – passado e futuro”. Pode explicar-nos como tudo começou?

Na verdade eu comecei em 1958, por isso são seis décadas! Duas coisas aconteceram nesse ano. Eu era professor de Sociologia na Universidade de Columbia, e a minha intenção era estudar, publicar. Com os meus alunos de doutoramento, fui a Charlottesville, na Virginia, para entrevistar duas mil pessoas, mas depois de chegar lá o xerife e o mayor vieram ter comigo: “Sabe, o Supremo Tribunal decidiu acabar com a segregação nas escolas. Como podemos fazê-lo de forma pacífica?” A pergunta pareceu-me mais importante do que escrever um livro, e foi assim que despertei para a mediação de paz. A outra coisa que aconteceu foi que estabeleci a distinção entre a paz negativa e paz positiva. Fazia isso de forma teórica, por isso a teoria da investigação da paz e a prática da intermediação juntaram-se em 1958.

Ao longo dessas seis décadas, o mundo passou por transformações profundas. A sua abordagem também mudou?

Sim, está sempre a mudar. Quando não se faz só a teoria, mas também a prática, descobrem-se problemas em que antes não tínhamos pensado. Isso enriquece a teoria. Ao mesmo tempo, exige que a teoria venha a ser indicativa da prática, ou seja, perante uma determinada situação indicar uma determinada resposta. Já fiz isso mais de 150 vezes: perante situações muito concretas, propus soluções.

Essa experiência levou-o a desenhar um modelo matemático para a mediação de paz e resolução de conflitos. Como funciona?

Não lhe chamaria exactamente um modelo, diria antes que é uma indicação de quatro coisas que devem ser feitas para alcançar esse objectivo. Apresento-a sob a forma de uma fracção, com duas coisas positivas no numerador e duas negativas no denominador. A primeira coisa positiva é crítica, e tem a ver com a cooperação para um benefício mútuo e igual entre as partes. A segunda, vamos chamar-lhe harmonia ou empatia, significa que somos capazes de entender o outro lado, ou todos os lados, a partir do interior. Isto é, se eu for uma parte num conflito, tenho de me entender a mim próprio e ao outro lado. E se sou o mediador, tenho de entender todos os lados.

Depois, no denominador dessa fracção temos o trauma multiplicado pelo conflito. O que quero dizer em relação ao trauma é que pode levar à vingança, e o conflito pode levar à agressão. Para diminuir o trauma e o conflito, tem de se fazer conciliação e resolução. Portanto, nessa equação matemática temos quatro tarefas. E ainda poderia acrescentar uma quinta, a que chamo de “aprofundamento cultural”, e que passa pela compreensão do guião invisível que motiva a acção das partes, o seu código genético. No caso dos Estados Unidos da América, chamo-lhe mesmo DNA, as iniciais de Dualismo, Nuclear e Armagedão. Dualismo porque os EUA estão sempre a dividir o mundo em duas partes, uma boa e outra má, e Armagedão porque uma dessas opções é tão má que não se considera o diálogo, e o risco é sempre de acabar em batalha. A política externa americana adequa-se a esse dualismo.

Esse seu modelo pode aplicar-se a todos os casos e em todas circunstâncias?

Precisamente. Não vou dizer que é fácil, mas pode fazer-se. Vou dar um exemplo concreto: um casal em que o marido era um homem de negócios que levava os seus livros de contabilidade para casa e a mulher se converteu ao budismo. Ela levava a religião muito a sério e ficava zangada com o marido porque achava que ele só se preocupava com dinheiro e era a riqueza interior que importava. Ele respondia que todo o conforto de que ela gostava exigia o dinheiro que ele ganhava. Estavam sempre a discutir. Ora, quando falo em empatia, refiro-me a encontrar algo de positivo que as duas partes possam fazer. A primeira regra é falar com um de cada vez, para perceber o que querem. E eu digo: não há nada de errado em ser budista, e não há nada de errado em ser um homem de negócios. A minha estratégia, depois de falar com os ambos, foi perguntar: conseguem-se imaginar gerir juntos uma livraria budista? O “truque” é combinar a bondade das partes e fazer um projecto comum. Essa livraria ainda existe.

Acredita que em cada conflito se pode encontrar esse ponto comum e que as partes podem sempre chegar a compromisso?

Não se trata de compromisso. Isso seria se ela ficasse um pouco menos budista e ele deixasse de trazer a contabilidade para casa. O que eu proponho é uma coisa diferente, que passa por transcender, por ir além para construir algo novo: ela continua a ser budista e ele continua a ser empresário mas os dois deixam de se excluir. A mediação é criar algo de novo em ambos os lados. Com algum treino é possível encontrar um meio de dar esse passo e construir essa ponte. Já o fiz muitas vezes, quer ao nível micro, para resolver conflitos entre pessoas; ao nível médio, entre sociedades; ao nível máximo, quando tratei de problemas entre estados; e ao nível mega, entre regiões e civilizações.

Nesses níveis macro e mega, enfrentamos desafios, do terrorismo às alterações climáticas e à proliferação nuclear. Ao mesmo tempo, os indicadores mostram que o mundo nunca conheceu tão poucos conflitos como agora. Como explica esta aparente contradição na nossa percepção aguda dos riscos e ameaças no mundo em que vivemos?

A nossa percepção está totalmente errada. É verdade que o mundo está melhor do que nunca. Mas temos um mundo multipolar. Isso significa que lidamos com situações que são muito diferentes. Lidamos com conflitos entre o Ocidente e o islão, mas também lidamos com conflitos em África e na América. Temos a questão de Israel e da Palestina, ou se quisermos a questão do mundo judaico-cristão e do mundo árabe. Na Ásia Central temos o Afeganistão, que é muito complicado. Temos a China a assumir um novo papel preponderante no mundo. E temos uma política mundial que é pacífica mas com armamento.

Os EUA que geriam o mundo em nome do Ocidente. Sem nunca terem pedido autorização intervieram militarmente mais de duas mil vezes desde 1801. Esse é um número que as pessoas não conhecem. Como também não sabem que, desde 1945, os EUA mataram mais de 20 milhões de pessoas em mais de 47 países. Os EUA são um grande problema, tal como Israel. São as duas grandes fontes de guerras. A razão por que hoje temos terrorismo é, em grande parte, uma resposta à violência dos EUA e Israel. É verdade que não temos guerras entre Estados, elas quase desapareceram. Agora temos outro fenómeno, a que chamo terrorismo de Estado, e que é largar bombas em cima da população civil. Em relação ao outro terrorismo é 99 para 1. As pessoas ou andam a dormir ou fizeram-lhes uma lavagem cerebral.

Mas com tudo isto que se passa no mundo, o que eu digo é o mesmo: encontrem a raiz do conflito e tentem resolvê-lo, através de três fases: mapeamento, legitimação e construção de pontes. Isto é, onde estão as partes, como justifico o que pretendo e como construo uma ponte entre objectivos legítimos.

Quer dizer que mesmo que por vezes não seja possível evitar o conflito é possível encontrar uma solução não violenta?

De forma dogmática diria que é sempre possível, o que não quer dizer que essa solução possa ser encontrada imediatamente. É preciso procurá-la, e pode não ser fácil. O momento crítico é dar esse passo criativo – é o momento em que pensamos: que tal uma livraria budista? Temos de ver o valor que existe em ambos os lados.

As lideranças políticas de hoje, a quem compete resolver tantos conflitos complexos, têm essa criatividade?

As lideranças ocidentais não têm mostrado criatividade alguma. Mas encontro enorme criatividade na China, por exemplo na ideia que tiveram de convidar todo o mundo a usar a nova rota da seda, a infraestrutura de estradas e caminhos-de-ferro e portos que estão a construir. Com esse projecto eles conseguiram abrir a África muito mais do que em todo o período do colonialismo. Claro que não estão a fazê-lo só por generosidade, estão à espera de recolher os seus lucros. Mas estão a mostrar como se podem encontrar novas oportunidades. E os africanos estão gratos. A China tem a vantagem de tratar os africanos de uma maneira muito diferente e melhor do que fizeram os britânicos, os franceses, os belgas, os portugueses. O que se passou [no período colonial] não foi nada bonito.

Tem teorias influentes sobre a ascensão e a queda de impérios – e que o levaram a prever a revolução iraniana, o colapso da União Soviética, a revolta da Praça de Tianamen. Como olha para a situação actual desses países?

Para começar, temos de ver o que significavam esses impérios: havia um país, um cliente, que tinha uma elite local a fazer o trabalho por si. Pensemos por exemplo em Angola e Moçambique, e na elite local a produzir para os portugueses. Quando esses países se tornaram independentes, essa elite local deixou de fazer esse trabalho. Isso é o fim do imperialismo. E isso aconteceu muitas vezes no último século. O império soviético, que como eu previ acabou por volta dos anos 90, foi o último. A minha nova previsão é que até 2020 acabe o império dos Estados Unidos, que já só têm três países que estão dispostos a fazer o trabalho por eles: o Reino Unido, a Dinamarca e a Noruega. E porquê? Porque são evangélicos. Não são católicos, estes distanciaram-se. Na União Europeia, a mensagem foi muito clara: não vamos continuar a lutar nas guerras dos EUA. Mas o Reino Unido ainda está a lutar as guerras dos EUA. A Dinamarca e Noruega estão a bombardear na Líbia – enquanto por exemplo a França e a Alemanha não. E por isso esses países foram recompensados, com os primeiros-ministros a ser nomeados secretário-geral da NATO. Essa é a maneira que o sistema funciona.

A sua previsão do fim do império dos EUA já tem em conta o impacto da eleição de Donald Trump e os possíveis efeitos das políticas da sua Administração?

Com Trump a situação está a deteriorar-se muito rapidamente. Donald Trump é incapaz de conceber relacionamentos recíprocos. Ele é narcisista e paranóico, não acolhe ideias e reage com violência à crítica. Os países aliados dos EUA estão desesperados e não sabem o que fazer. Estou certo que no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Lisboa, como em muitos outros, estão desejosos que Trump possa desaparecer o mais depressa possível para poderem voltar a lidar com uma Administração normal. Mas também poderia dizer que se os EUA aceitaram ter uma pessoa como Donald Trump na presidência, então é porque também há o mesmo tipo de narcisismo e de paranóia nos EUA. Os EUA pensam demasiado bem de si próprios, e chamam a isso “excepcionalismo”, e vêem ameaças à sua segurança em todo o lado. Talvez fosse melhor olharem para os restantes países do mundo e pensar no que podem fazer e conseguir juntos: é isso que fazem os directores das empresas, e fazem-no bem, estabelecem parcerias e fazem negócios muito melhores do que os políticos.

Em entrevistas referiu os conceitos de nação e Estado, e a confusão que existe entre os dois, para explicar crises que nos estão distantes, como o Afeganistão, ou que nos são próximas, como a Catalunha.

Sim, o jornal El País até sugeriu o meu nome como possível mediador para a crise. Então vejamos: a posição de Madrid é “um Estado” e a posição dos independentistas da Catalunha – minoritária— é “dois Estados”. Mas entre um e dois estados há muitas alternativas. Antes da solução dois estados, que é um passo dramático, ainda temos a federação e a confederação. A federação seria uma solução simples: seria uma nação diferente com a sua própria língua, e talvez com a sua própria gestão do fundo de pensões. E quando fizerem isso terão um grau mais elevado de autonomia, fazendo na mesma parte de Espanha. E mesmo se quisessem chamar-se independentes, fariam parte de uma comunidade de nações em Espanha.

É uma questão de dois modelos: o modelo de Franco, “una grande libre”, e o oposto, “una comunidade de naciones”. Penso que a segunda hipótese é muito mais realista. Há seis nações em Espanha: os catalães, os bascos, os galegos, os castelhanos, os andaluzes e os baleares e os canários. Uma Espanha viável seria uma federação desses nações, com autonomia local mas na mesma um Estado. Penso que é um belo modelo.

Agora são precisas ideias concretas de como fazer isso. O que eu diria é para se ter cuidado com as hierarquias da Catalunha, com os mais ricos que querem explorar os trabalhadores eles próprios sem ter de partilhar a riqueza com Madrid. Foi assim que se fez a independência dos EUA, quando os colonos decidiram que era melhor serem eles próprios a explorar os escravos sem partilhar com Londres.

Ao mesmo tempo, os catalães têm todo o direito de querer governar o seu próprio país, com a sua língua e a sua cultura. Vai tudo dar a 1640 que é também quando Portugal entra nesta equação: Filipe II tinha agitação na província de Portugal e na Catalunha, mas só tinha Exército para conter uma das duas rebeliões. E foi assim que Portugal se tornou independente, com a supressão da revolta da Catalunha. Por isso penso que os portugueses, porque beneficiaram em 1640, deviam ter compaixão da Catalunha e pronunciar-se a favor, não da independência, mas de uma maior autonomia.

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“O grande desafio é ampliar a presença de mulheres negras nas empresas”

Cida Bento: “Os programas de pró-equidade de gênero conseguiram acelerar a inclusão das mulheres brancas, mas não das negras”.

O abismo racial no ambiente corporativo brasileiro continua profundo, apesar dos recentes esforços de algumas empresas de deixarem de ser apenas brancas. Segundo dados de pesquisa do Instituto Ethos, realizada em 2016, pessoas negras só ocupam 6,3% dos cargos de gerente e 4,7% do quadro de executivos nas empresas analisadas pelo estudo.

A situação é ainda mais desigual para as mulheres negras: 1,6% são gerentes e só 0,4% participam do quadro de executivos. São só duas, entre 548 diretores.

Após observar muitos casos de discriminação nos processos seletivos em empresas, a psicóloga social Cida Bento, então executiva na área de Recursos Humanos, resolveu enfrentar diretamente o tema da discriminação racial e das dificuldades de inclusão de homens e mulheres negras nas empresas.

Atual coordenadora executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), Cida Bento, que também é colunista do site de CartaCapital, dedica-se há 30 anos ao campo da promoção da diversidade no ambiente corporativo.

Assim como a sociedade brasileira como um todo, o ambiente empresarial tem imensas dificuldades em avançar no combate ao racismo, explica ela, que aponta, por exemplo, o fato de programas de equidade de gênero serem bem sucedidas em promover a inclusão de mulheres brancas, mas não das mulheres negras. “Esse é o grande desafio. As mulheres brancas estão quatro, cinco vezes a mais do que as negras nesse processo de inserção dentro das empresas”.

Leia a íntegra:

Carta Capital: Por que a senhora resolveu se dedicar à questão da desigualdade racial no mercado de trabalho?

Cida Bento: Eu era executiva da área de Recursos Humanos e resolvi sair para trabalhar com esse tema porque eu via muita discriminação nos processos seletivos. Meu mestrado e doutorado foram focados em processos de recursos humanos. A tese de doutorado, defendida na USP, chamou-se Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresarias e no poder público.

CC: Segundo pesquisa do Instituto Ethos de 2016, pessoas negras só ocupam 6,3% dos cargos de gerente e 4,7% dos executivos. O quadro é ainda pior quando se olha para as mulheres negras e só se inverte quando se observam as vagas de início de carreira ou baixa exigência profissional, como aprendizes ou trainees. Muito tem sido falado sobre ações afirmativas ou de inclusão nas empresas, mas ainda não se atingiu o patamar adequado, tendo em vista que negros e pardos são mais da metade da população brasileira. O mundo empresarial ainda resiste em enxergar e enfrentar o racismo? O que já mudou nesse sentido?

CB: Como toda a sociedade brasileira, o mundo empresarial também tem dificuldade deavançar nesse tema. Em geral, há uma tendência a tentar identificar qual é o problema para localizar negros ou se comunicar com eles, mais do que perceber que há também uma perspectiva branca que dificulta a inclusão e a permanência de negros nas empresas. De perceber que se tratam de relações raciais, e não de um problema do negro no Brasil. O branco também está implicado nisso.

CC: Como assim?

CB: Em qualquer processo de recursos humanos, de seleção em geral, recrutamento, promoção, mentoria, é preciso buscar entender não só o que pode ser algum desafio envolvendo os negros, mas também um desafio envolvendo os brancos para lidar com essa questão da maior presença negra qualificada dentro das instituições.

Não é só eu ter dificuldade nos processos de recrutamento para encontrar negros, mas é perceber que os processos precisam ser olhados para serem mais inclusivos e que as formas de comunicação e os ambientes do interior da instituição têm de se abrir para ser mais diversos. É pensar negros em cargos de liderança, de vanguarda, entender que eles têm de ter oportunidades de ser treinados e de encarreiramento mesmo. Enfim, isso tudo exige reconhecer que as empresas, assim como as grandes instituições brasileiras, não percebem o negro nesse lugar.

CC: É possível apontar a raiz desse problema?

CB: O racismo e o esforço na manutenção de privilégios. Eu sou uma das grandes estudiosas de branquitude no Brasil. Eu trato com o conceito de pactos narcísicos, a ideia do narcisismo, do fortalecer e escolher os iguais. Os recursos, as informações, os networkings são entre os iguais, que são os brancos.

CC: Você escreveu que profissionais que atuam no campo das políticas de diversidade em empresas destacam que a dimensão racial da diversidade é aquela que traz mais desafios para ser abordada e implementada. Quais os motivos dessa dificuldade maior?

CB: Em geral, as empresas têm mais um pacto de brancos entre brancos. Os programas de pró-equidade de gênero e raça conseguiram acelerar a inclusão das mulheres brancas, mas não das mulheres negras. Então, você tem mais um pacto entre brancos. As empresas têm dificuldade muitas vezes na relação com os próprios especialistas negros e com as organizações negras em geral. Às vezes, é mais fácil para uma empresa se relacionar com uma organização branca que começa a trabalhar com o tema racial do que com organizações negras que existem no Brasil inteiro e trabalham com isso há muito tempo.

Eu tenho recebido seis, sete, oito pedidos por semana de consultorias brancas que nunca mexeram com esse tema e agora querem entender para começar a trabalhar. E, às vezes, elas têm muito mais sucesso do que outras organizações, negras, que estão espalhadas pelo Brasil.

CC: Os desafios parecem ser ainda maiores para as mulheres negras, que preenchem apenas 1,6% das posições na gerência e 0,4% no quadro executivo. Por outro lado, mulheres brancas avançaram nesse sentido. As oportunidades são diferentes para mulheres brancas e negras? De que forma?

CB: Eu tenho feito um censo de diversidade em bancos e o grande desafio que se encontra é ampliar a presença das mulheres negras no setor, assim como em outras empresas. Esse é o grande desafio, as mulheres brancas estão quatro, cinco vezes a mais do que as negras nesse processo de inserção dentro das empresas. Isso é o que eu tenho observado nos censos de diversidade e nos processos de formação que tenho desenvolvido no interior das empresas. Eu trabalho com grandes empresas e a presença das mulheres negras é quase nenhuma.

CC: Como explicar esse quadro?

CB: Acho que as mulheres em geral sofrem uma exigência de aparência para ocupar posições dentro das empresas. E as mulheres negras têm uma exigência maior, com relação aos cabelos lisos e a um perfil meio de “Barbie”, magra, comprida e com o cabelo bem liso e claro, se possível.

CC: Você escreveu que uma mulher jovem, negra e qualificada ouviu de uma consultora de RH que sua roupa e cabelo não eram os mais adequados ao ambiente corporativo. Esse tipo de relato ainda é comum?

CB: Acho que não se ouve mais esse tipo de relato. As pessoas vão aprimorando os seus processos de exclusão. Elas não vão falar que é por isso. Nesse caso, o currículo dela estava sendo analisado por uma consultora de RH que era sua amiga. Isso em geral não é verbalizado. Agora, você também tem que ver que isso também tem mudado. Muitas empresas hoje falam que querem ampliar a equidade racial. Cresce o número de empresas que querem fugir dessa reputação de serem empresas brancas apenas. Isso é um indicativo de que a gente pode ter mudanças. As mudanças estão chegando, mas é necessário que a empresa tenha uma vontade política de mudar essa situação e invista mesmo nesses processos.

CC: Na sua opinião, como as empresas e o mercado de trabalho podem atuar para reduzir essa desigualdade?

CB: O censo é fundamental. Ele ajuda a identificar as diferenças de cargos, de salários, de inserção, promoções. E ajuda a identificar onde é que estão os problemas e ajuda a desenhar um plano de ação que envolve levar essa discussão para o interior das empresas e para as altas lideranças, para as áreas jurídicas e outras. É preciso uma decisão política da empresa. E isso é algo bem delicado e importante.

CC: Há bons exemplos?

CB: Algumas empresas que são líderes em seus ramos têm avançado bastante, procurando trazer mulheres negras para cargos de direção, procurando entender porque mulheres negras que estão lá há bastante tempo, e com escolaridade e experiência, não têm sido promovidas, procurando desenhar produtos para mulheres negras, procurando fazer um marketing que considere as famílias negras, contratar prestadores de serviço dentre as organizações de mulheres negras. Há algumas empresas fazendo esforços nessas direções.

Por Tory Oliveira

Da Carta Capital

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Vídeos

Fruto de Espinho: um olhar estrangeiro sobre o cotidiano de Juazeiro/BA

Confira a primeira produção do Grupo de Investigação Fílmica (G.I.F), uma entrevista feita com Sara de Jesus Bento, fotógrafa, luso-francesa, que veio desenvolver uma residência artística pela Univasf, culminando numa exposição fotográfica sobre o cotidiano da cidade.

O Grupo de Investigação Fílmica (G.I.F) é um grupo de estudo orientado pelo professor Wainer Tristão da Universidade Federal do Vale do São Francisco, que tem o objetivo de elaborar produtos do universo audiovisual: documentários, ficções, animações, live actions e tudo o que este mundo de criação de imagens permitir, além de realizar estudos teóricos sobre cinema.

Fruto de Espinho foi a primeira produção do grupo, que consiste em uma entrevista feita com Sara de Jesus Bento, fotógrafa, luso-francesa, que veio desenvolver uma residência artística pela Univasf, culminando numa exposição fotográfica sobre o cotidiano da cidade de Juazeiro, Bahia, a partir de um olhar estrangeiro.

As imagens e a edição do vídeo foram produzidas por estudantes de artes visuais da Univasf e de jornalismo da Uneb, tudo sob a orientação do professor. As produções do grupo podem ser acompanhadas pelo canal GIF no Youtube.

Assista:

Entrevistas

A declaração de Laura Cardoso que ‘quebrou a internet’

Aos 89 anos, declaração da atriz Laura Cardoso sobre o feminismo e sobre o assédio sexual envolvendo o ator José Mayer viralizou na internet

Laura Cardoso, 89, uma das melhores atrizes brasileiras

Uma declaração de Laura Cardoso sobre o feminismo ganhou as redes sociais nesta semana e o nome da atriz figurou entre os assuntos mais comentados da internet.

Em entrevista publicada pela revista Veja, a atriz de 89 anos disse que é “feminista desde menina” e que a luta representada pelo feminismo precisa seguir adiante.

“É a luta da mulher pela sua liberdade, pela sua vida, pelo que ela quer, sonha. O feminismo é uma luta que tem que ser apoiada, registrada. Já foi muito ruim para a mulher, ela era posta de lado em todos os sentidos. O feminismo é uma luta que vale a pena e deve prosseguir. Já se conquistou muita coisa, mas acho que ainda falta dar mais crédito, respeito de verdade à mulher”, declarou.

Considerada uma das melhores atrizes brasileiras e referência para mulheres do seu tempo, Laura Cardoso provocou espanto com o seu depoimento justamente porque ela faz parte de uma geração em que o conceito de feminismo ainda não havia sido muito trabalhado e estava envolto de preconceitos.

Na mesma entrevista, a atriz também foi questionada a respeito da denúncia de assédio sexual envolvendo o ator José Mayer, seu colega de Rede Globo. Sobre o caso, Laura disse:

“Foi infeliz e estou do lado das colegas, ‘mexeu com uma, mexeu com todas’”, diz, citando o lema de uma campanha que funcionárias da emissora criaram para conscientizar sobre o assédio sexual após o episódio que veio à tona após acusação da figurinista Susllem Meneguzi Tonani.

“Apoio a iniciativa. Como não vou apoiar? Se eu estivesse no Rio de Janeiro (quando a campanha começou), estaria ao lado delas, com a camiseta, apesar de já estar velha e cansada para essas coisas”, afirmou.

Laura ainda considerou ingênuo o pedido de desculpas divulgado pelo ator. “Foi uma desculpa ingênua. Achei uma desculpa meio esfarrapada [de José Mayer], sem consistência”.

Confira trechos da entrevista:

— A senhora acompanhou a segunda onda feminista, nos anos 1960? Como via o movimento naquela época?

Sempre acompanhei a luta da mulher, desde menina. De modo geral, as mulheres da classe artística sempre viveram essa luta, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. A gente lutou e brigou porque queria esses direitos que a mulher deveria ter e que lhes foram negados durante muito tempo. O feminismo é necessário. O que está acontecendo no Brasil, essa sujeira, esse massacre sobre o povo, quantas mulheres tem nesse movimento, fazendo mal a esse país? A maioria é homem. Acho que isso é um resultado da premissa de que homem sabe mais e fala mais. Não é isso. Acho que eles erram mais do que as mulheres.

— A senhora se considera feminista?

Eu me considero desde menina. Antigamente, a mulher era aquela que cuidava da casa e dos filhos, mesmo que trabalhasse fora. Hoje em dia, ela tem um companheiro que vai passar uma roupa, trocar uma criança, dar a mamadeira para o filho. Que é justamente como deve ser. Antigamente, imagina se o homem ia varrer a casa, arrumar o quarto. Não, porque senão ele não era considerado macho, homem. Hoje ele ajuda a companheira, que trabalha dentro de casa e fora dela.

— A senhora já sofreu assédio?

Toda mulher já sofreu, é bobagem dizer que não. É horrível, não devia acontecer. Não me lembro de nenhuma situação, mas claro que fui. A mulher é assediada em todo lugar, pelo médico, pelo professor. Você passa na rua e vão mexer com você, vão falar do seu cabelo, das suas pernas. Com a luta da mulher, talvez tenha diminuído, mas ela continua sofrendo assédio. Vai ter sempre um homem burro querendo assediar uma mulher grosseiramente. A mulher gosta de ser elogiada, mas sem grosseria. Não sei como fazer para acabar com isso. Leva muito tempo, esse assunto precisa ser tratado nas escolas e a família, principalmente, tem que falar.

— Como é sua relação com as redes sociais e a internet?

Não entendo nada. Como chama isso? Isso aqui. (Celular). Sei falar “alô” e “tchau”. Tenho celular, mas às vezes até esqueço o número. Admiro a tecnologia, o avanço da ciência em todos os sentidos, principalmente na medicina. Mas de eletrônica não sei nada. E também não quero aprender. Estou muito velha para isso.

— A senhora continua trabalhando bastante, mas pode ser considerada uma exceção na TV – poucos são os atores mais velhos que continuam ativos. Por que isso acontece? Há preconceito de idade no meio?

É ruim e triste, porque tem muita gente que já está aposentada e tem muito valor. Tenho sorte nesse sentido, junto com Fernanda (Montenegro), Nicette (Bruno), Nathalia (Timberg). Queria que tivesse mais oportunidade para todos – se a pessoa está produzindo, bem de saúde, merece trabalhar. Não acho que seja preconceito, mas talvez um esquecimento.

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Entrevistas

A transposição do Rio São Francisco é um “ralo de dinheiro público”. Entrevista especial com Ruben Siqueira

Rubem Siqueira defende que uma solução à transposição seria a adoção de “um conjunto de várias pequenas e médias soluções descentralizadas e adaptadas às diversidades geoclimáticas”, já que o Sertão Semiárido é composto por “72 sertões diferentes”.

Foto: Racismo ambiental

As delações dos executivos da Odebrecht para a Operação Lava Jato “vieram comprovar as suspeitas de que um dos objetivos da transposição era a transferência de grandes montantes de recursos públicos para empresas em ‘caixa um’ e ‘caixa dois’ e para políticos em campanhas eleitorais”, diz Ruben Siqueira, coordenador da Comissão Pastoral da Terra – CPT, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Segundo ele, para dar conta dos 14 lotes de construção envolvendo a transposição do Rio São Francisco, “vários consórcios foram constituídos entre empreiteiras”, mas a “Polícia Federal desencadeou investigações que comprovaram fraudes e superfaturamentos em alguns destes consórcios, com envolvimento de políticos e mediação de doleiros”.

Na entrevista a seguir, Siqueira comenta a inauguração do Eixo Leste da obra, e frisa que “é possível conferir e confirmar as principais críticas ao projeto”. Além disso, critica, a obra que era prevista para ser realizada em três anos, a um custo de 4,6 bilhões de reais, “está completando 10 anos e a um custo de 10 bilhões”. E dispara: “As denúncias de corrupção envolvendo empreiteiras e governos, com superfaturamentos e propinas, que atingem também a obra, corroboram a crítica de que seria um ‘ralo de dinheiro público’”.

Uma solução à transposição, defende, seria a adoção de “um conjunto de várias pequenas e médias soluções descentralizadas e adaptadas às diversidades geoclimáticas”, já que o Sertão Semiárido é composto por “72 sertões diferentes”.

Ruben Siqueira (Foto: Racismo Ambiental)

Ruben Siqueira é graduado em Filosofia e em Pedagogia e mestre em Ciências Sociais. Foi coordenador da CPT Diocesana de Juazeiro, entre 1988 e 1994, quando assumiu em Goiânia a assessoria sociológica da CPT Nacional. Posteriormente foi coordenador da CPT Regional da Bahia até 2005, quando assumiu a articulação geral do Projeto São Francisco, parceria da CPT MG, BA e NE2 com o Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP. Foi eleito para a coordenação executiva nacional na XXVII Assembleia Nacional da CPT, que aconteceu em Luziânia (GO), em março de 2015.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que avaliação faz da transposição do Rio São Francisco? Que mudanças na distribuição de água foram prometidas por conta da construção da obra e o que de fato acontece neste momento no Nordeste Setentrional?

A população efetivamente a ser beneficiada corresponde a 0,3% da população do Nordeste, que é de 54 milhões

Ruben Siqueira – Mesmo ainda inconclusa, mas já com inaugurações festivas, e em vista da permanência dos vícios de origem e trajetória da obra até aqui, é possível conferir e confirmar as principais críticas ao projeto. Previsto para três anos, a um custo de 4,6 bilhões de reais, está completando quase 10 anos e a um custo de 10 bilhões. As denúncias de corrupção envolvendo empreiteiras e governos, com superfaturamentos e propinas, que atingem também a obra, corroboram a crítica de que seria um “ralo de dinheiro público”. As duas “inaugurações”, na verdade “showmícios”, um do governo golpista, outro do governo golpeado, ambos atrás de apoio popular para as eleições de 2018 — o golpista desesperado atrás de fatos positivos, pois pelo desmonte dos direitos é o mais impopular da história —, revelam mais uma vez o caráter eleitoreiro da transposição. O arrastar da obra serve a objetivos inconfessos, faz render dividendos eleitorais. O projeto tem menos a ver com seca e sede de água do que com fome de poder.

Mudanças significativas na distribuição de água, não houve nenhuma. O que houve foi grande alarde, gente celebrando com banhos a secularmente ansiada chegada das águas do São Francisco, apregoada como solução definitiva para a seca nordestina. Mudanças reais vão ser sentidas quando toda a água da região subir de preço, com impacto nas contas domésticas dos 12 milhões de alegados beneficiários. O projeto real atinge menos que 5% do Semiárido. A população efetivamente a ser beneficiada corresponde a 0,3% da população do Nordeste, que é de 54 milhões. Mas todos pagarão a conta, para que ela feche, compensando os usos econômicos de uma água que é a mais cara do mundo.

O Eixo Leste “inaugurado” é o que teria uma maior porção de água para consumo humano e há quem o defenda, mesmo entre críticos do projeto. Mas a água do São Francisco que chegou à Paraíba quase nada acrescentou, pois “concorreu” com as chuvas que caíram em mais de 60 municípios.

IHU On-Line – Como combinar a transposição com a situação crítica do Rio São Francisco?

Estudos da NASA sobre os rios do mundo constataram que o São Francisco tem o pior quadro, perdeu 35% de vazão constante em 50 anos e vai perder em torno de 25% nos próximos 50 anos

Ruben Siqueira – Na pior crise hídrica da história, o Rio São Francisco não está dando conta dos múltiplos e concorrentes usos já instalados em sua bacia. Sua vazão em torno de 70% está comprometida com a produção de hidroeletricidade — 95% da energia de todo o Nordeste. Seguidas reduções de vazões de Sobradinho e reservatórios a jusante vêm sendo implementadas; dos até então inéditos 600 m3/s propõe-se agora que desçam para 540 a partir de junho, em Sobradinho e Xingó. Cresce a irrigação agrícola — dos anos 1960 para cá, já foram irrigados 800 mil hectares em empreendimentos privados e 180 mil nos perímetros públicos. Nos recentes períodos de seca, a disputa entre estes usuários tem sido mais intensa e preocupante. E ainda tem o abastecimento humano de 16 milhões de habitantes na bacia e o industrial. Sem contar os usos não humanos.

As perspectivas futuras são ainda piores. Estudos da NASA sobre os rios do mundo constataram que o São Francisco tem o pior quadro, perdeu 35% de vazão constante em 50 anos e vai perder em torno de 25% nos próximos 50 anos, devido também ao aquecimento global. Tal é a penúria do São Francisco que, em recente reunião do Comitê da Bacia do São Francisco (Recife, 19/05/17), pela primeira vez a Agência Nacional de Águas – ANA propõe redução das captações para irrigação. Seria o “Dia do Rio”, um dia por semana, possivelmente às segundas-feiras, em que as captações seriam suspensas.

É um paliativo. Este enorme problema dos múltiplos e concorrentes usos, de difícil equação e solução, vai se estender para a região setentrional do Nordeste com a transposição e se agravar, virando um conflito entre estados da Federação, inclusive. Conforme o Plano de Bacia, elaborado nos marcos da Lei de Águas (no 9433/97), da vazão máxima possível de retirada no São Francisco (360 m³/s) já estão outorgados 335 m³/s e sendo gastos 91 m3/s em usos consuntivos nos sete estados da bacia. As retiradas previstas para a transposição são, pois, não de 1% do rio “desperdiçado no mar”, mas de 24% da vazão média e 47% da vazão máxima. Desta forma, o saldo para usos consuntivos de 25 m³/s (360 – 335) irá todo para a transposição. Armado está o campo de batalha.

Mapa da Transposição (Foto: O Cafezinho)

E a dimensão dos canais da transposição é para muito mais do que os 25m3 legalmente aprovados, inclusive pelo Comitê, para consumo humano. É uma estrutura para quatro vezes mais, 127 m3/s, quando Sobradinho estiver com 94% de preenchimento, o que quase nunca acontece, e 65 m3/s em média, indo muito além do que e como foi aprovado. Pois a finalidade principal do projeto é irrigação agrícola — 70% da água, seguida de 26% para uso urbano-industrial e 4% para o abastecimento da população difusa, na verdade, para “perdas e outros consumos”, conforme consta no projeto. O potencial de conflito da disputa pela água será muito maior do que já acontece na bacia doadora.

IHU On-Line – A inauguração do Eixo Leste da transposição foi comemorada, em parte, pela esquerda, com as chamadas “festas-comícios”. Por que, na sua avaliação, parte da esquerda vibra com a realização de uma obra desse tipo?

Ruben Siqueira – A obra era estratégica para o marketing político de Lula e para o lulismo. O pobre retirante nordestino, que passou sede na infância, realiza a sonhada transposição do São Francisco, que desde o imperador Pedro II nenhum governo conseguiu fazer. O lado populista do lulismo tinha aí, no Nordeste mais pobre e onde está seu maior eleitorado, a marca definitiva.

Esta “festa-comício” alimentou o confronto com o Governo Golpista e foi praticamente o lançamento da candidatura de Lula para a presidência em 2018. Crenças político-ideológicas e a situação política polarizada com o Golpe e o pós-Golpe, levam a que boa parte dos movimentos sociais camponeses e organizações da sociedade civil continue atrelada ao projeto lulista. Lula prometeu a “maior reforma agrária da história” ao longo dos canais e levou à frente os programas de construção de cisternas e pequenas obras de água para produção.

No fundo, há em parte desta esquerda — com exceções importantes — muita ignorância sobre o Nordeste e o Semiárido, ao se alimentar ainda daquela visão idealizada, criada nas artes, do solo gretado, animais morrendo e pobre se retirando, mão de obra barata nos centros urbano-industriais do Sudeste… Não percebe que aqui se dá hoje uma das mais avançadas experiências de mudança para o paradigma ecológico.

IHU On-Line – Como a conclusão de parte da transposição do Rio São Francisco tem repercutido entre a população na região?

Ruben Siqueira – A população da região receptora está entre eufórica e desconfiada. Há aqueles, maioria talvez, que, crentes no secular discurso da seca como único problema e da transposição como única solução, comemoram o que lhes parece o fim do seu problema, ainda que muitos estejam irritados pela demora da construção. É quem tende a mais se decepcionar quando tomar consciência da realidade por trás do projeto escondida até agora. Aqueles acostumados a ver a manipulação operada pela “indústria da seca” desconfiam de que se trata de mais do mesmo, ou seja, que não será “água para seu bico”.

Ainda hoje é grande a população, nas margens do próprio Rio São Francisco, sem água e sem tratamento da água e com índices de pobreza e miséria dos piores

Há descontentamento também entre os que foram relocados, perderam suas posses e não estão tendo as compensações devidas e acordadas. A maioria das chamadas Vilas Produtivas Rurais, onde muitos foram reassentados, não estão concluídas e suficientes. Novas áreas de plantio e criatório, por exemplo, continuam sem condições de trabalho.

Na região “doadora” a preocupação aumenta, frente à calamidade da seca do rio. Os transtornos já são grandes com as dificuldades de acesso à água, mais distantes, de qualidade e quantidade pioradas, a lavoura de vazante minguada, a falta do peixe etc. E a ideia de que não é solução “desvestir um santo para vestir outro”. Até porque a propalada revitalização do rio não deslancha.

IHU On-Line – Em quais regiões há crise de abastecimento de água e quais as causas dessa falta de abastecimento?

Ruben Siqueira – A crise de abastecimento que há, foi atribuída à escassez de chuva. Mas se trata de outra escassez: de ética e vontade política. O potencial pluviométrico do Semiárido é de 800 milímetros por ano, irregular e variável conforme as configurações geoclimáticas diferentes — mas é o semiárido mais chuvoso do mundo. O problema é que com cerca de 3.000 horas de sol por ano, a evaporação chega a ser três vezes maior que a precipitação.

A “indústria da seca” levou o Brasil a construir a maior rede de água acumulada em regiões semiáridas do mundo — 70 mil reservatórios, com capacidade para 37 bilhões de m3. Com esta insolação tornaram-se “evaporatórios”, “cemitérios de água”, como disse alguém. Quer dizer, tem se que usar esta água antes que evapore. Mas a obra dos açudes nunca foi completada pela rede de adutoras de distribuição da água acumulada. Falam que a transposição dará “segurança hídrica” para uso dos açudes, mas é tão pouca água acrescentada, muito menos do que a evaporada em alguns dos açudes receptores. Levando água para onde já tem, é “chover no molhado”. A opção pela transposição — a obra pela obra — é a continuidade da “indústria” da seca e de votos, a mesma de sempre.

Como se vê, o problema do chamado Nordeste não é a falta de água, é muito mais de terra e justiça, e o mau gerenciamento e a prioridade equivocada no uso da água disponível. O problema não é falta, mas sim acesso à água, que é mal distribuída e mal aproveitada. Ainda hoje é grande a população, nas margens do próprio Rio São Francisco, sem água e sem tratamento da água e com índices de pobreza e miséria dos piores.

IHU On-Line – O que seria uma alternativa à transposição, de modo a garantir o acesso à água para a população do Nordeste?

Ruben Siqueira – A alternativa é um conjunto de várias pequenas e médias soluções descentralizadas e adaptadas às diversidades geoclimáticas (a Embrapa fala de 72 sertões diferentes no Sertão Semiárido). Armazenar e fazer uso manejado das águas disponíveis, quando se fazem disponíveis. A rede de adutoras para disponibilizar a água dos açudes é importante. Talvez seja ainda mais importante a captação de água de chuva, por exemplo, através das cisternas de placa para consumo humano e produção, que já mostrou sua eficiência e largo alcance socioambientais. As “mandalas” são uma forma racional e ecológica de usar a água em pequenas culturas alimentares consorciadas, de grande valor para a segurança e soberania alimentar.

Uma reforma agrária adaptada às condições geoambientais do bioma Caatinga e do clima Semiárido teria muito mais efeito sobre a fome e a sede do que uma megaobra hídrica

Caxios, barreiros-trincheira, caldeirões, cacimbas são maneiras antigas e consagradas de captar e conservar água. Águas dos riachos e veredas intermitentes podem ser guardadas em barragens de pedra, sucessivas e “barragens subterrâneas”, que retêm a água no próprio solo e possibilitam o plantio. As águas subterrâneas têm sua importância — são em torno de 21 bilhões de m3. O próprio São Francisco será fonte para muitas dessas soluções. A Agência Nacional de Águas publicou um Atlas que identifica as necessidades e apresenta as soluções para as áreas urbanas e rurais de todos os municípios do Nordeste. Muitas são obras que terão que ser feitas para distribuir a água dos canais da transposição. Lançado o Atlas em 2006, às vésperas do início do projeto de transposição, suas soluções custavam a metade e beneficiariam três vezes mais pessoas. Foi solene e incomodamente relegado pelo Governo Lula.

Claro que não são opções para monoculturas hidrointensivas, voltadas para o mercado de exportação, como certas fruticulturas irrigadas, a siderurgia de ligas finas de aço e a criação de camarão, que demanda 50 mil litros de água para um quilo.

No Nordeste está cerca da metade da população rural do Brasil, que é de 30 milhões. No entanto, nos últimos anos a terra concentrou-se ainda mais na região, numa verdadeira antirreforma agrária. E, sem terra, não se tem água e tudo o mais. Uma reforma agrária adaptada às condições geoambientais do bioma Caatinga e do clima Semiárido teria muito mais efeito sobre a fome e a sede do que uma megaobra hídrica.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a transposição do Rio São Francisco à luz das delações feitas pelos executivos da Odebrecht, que denunciam as ilegalidades entre os políticos e a empreiteira na realização de grandes obras? O que se comenta sobre o tema em relação à transposição do Rio São Francisco?

Ruben Siqueira – As delações vieram comprovar as suspeitas de que um dos objetivos da transposição era a transferência de grandes montantes de recursos públicos para empresas em “caixa um” e “caixa dois” e para políticos em campanhas eleitorais. Com 14 lotes de construção, vários consórcios foram constituídos entre empreiteiras, um “prato feito” para boa parte do setor. A Polícia Federal desencadeou investigações que comprovaram fraudes e superfaturamentos em alguns destes consórcios, com envolvimento de políticos e mediação de doleiros. Trechos de obras foram interrompidos em consequência e novas licitações tiveram que ser feitas e empresas substituídas.

IHU On-Line – Recentemente o senhor publicou um texto comentando que a transposição do Rio São Francisco se assemelha ao projeto norte-americano implantado em 1930, com a transposição do Rio Colorado para o rio Big Thompson. Que semelhanças vislumbra nesses projetos e como esse projeto foi desenvolvido nos EUA?

Ruben Siqueira – Na verdade, o projeto do Rio Colorado é inspiração e modelo da transposição do São Francisco, que promete aqui uma “Califórnia Brasileira”. No pós-guerra, os EUA, armando seu imperialismo, o Brasil como satélite, nos marcos da Aliança para o Progresso, mapearam as condições naturais do Vale do São Francisco e identificaram as manchas de solo irrigável e exportaram para cá seu modelo e tecnologia de irrigação e a ideologia do desenvolvimentismo.

Sua experiência mais consolidada era a do Colorado/Big Thompson, que possibilitou o abastecimento de dezenas de cidades e centros urbanos em expansão, como Los Angeles e San Diego, a irrigação de milhares de hectares principalmente de frutas, produção de energia, turismo e complexos industriais, como o Vale do Silício. Os impactos socioambientais, porém, tais como poluição, assoreamento, salinização, conflitos de interesse e entre estados e com o México, onde a água do Colorado quase não chega mais, levam a rever o sucesso alcançado, devido aos altos custos. Um modelo que se degradou e não resiste às secas atuais. A ponto de o governador da Califórnia no ano passado proibir a irrigação e apostar na “beleza paisagística da seca”.

Seminário recente foi realizado pelas Federações da Indústria do Rio Grande do Norte e da Paraíba com assessoria de especialistas do Colorado, para discutir “gestão e precificação da água”. “Califórnia Brasileira” é como é chamado o Di-polo Juazeiro/Petrolina, às margens do Rio São Francisco, na fronteira Bahia/Pernambuco. Encanta quem só vê água jorrando o tempo todo, o verde das monoculturas e as frutas vistosas sendo exportadas — uva e manga são as mais viáveis porque mais rentáveis. Menos alardeados são os altos volumes de agrotóxicos, a poluição e assoreamento do lago de Sobradinho e do próprio rio, a precariedade dos empregos sazonais, a pobreza e a violência nas periferias urbanas e bairros rurais, além do subsídio público sustentando o sucesso.

Estudos do Banco Mundial avaliam muito mal quase todos os perímetros irrigados do Nordeste que ele mesmo financiou. Talvez, com base nisto, na conta desfavorável de custo/benefício, não tenha querido financiar o projeto da transposição.

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Entrevistas

Professor Pinzoh revela-se em O mesmo outro

O Doutor em Educação, Josemar da Silva Martins, lança livro onde revela suas insônias, ao tempo em que rascunha os principais traços de sua inquieta produção intelectual através das letras e da poética transcendência do ser em exercício de nudez.

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Josemar Martins Pinzoh é Professor Ajunto do Departamento de Ciências Humanas (DCH III), em Juazeiro, Bahia, da UNEB com Especialização em Gestão de Sistemas Educacionais pela PUC de Minas Gerais; tem Mestrado em Educação e Desenvolvimento Sustentável pela UQAC (Québec, Canadá) e Doutorado em Educação pela FACED/UFBA.  Na Universidade do Estado da Bahia, o Poeta Pinzoh como é mais conhecido, está a cargo de uma importante missão: promover discussões literárias e lançar-se com o intuito de eleger as primícias culturais da sua poética transversal, na tentativa de recriar-se na idílica travessia do Poeta em desalinho impondo-se num rascunho de si para o outro. Saiba mais na entrevista concedida a Gênesis Naum.

Gênesis Naum – Por que reunir textos com idades diferentes no livro O mesmo outro?

Josemar Martins Pinzoh – Porque é o que eu tenho para mostrar. A poesia não é minha atividade rotineira, é meu espaço de evasão. Durante muito tempo me dediquei ao trabalho acadêmico, à leitura conceitual e teórica, à escrita acadêmica. Mas sempre escrevi poemas, quando me apaixonei, quando me entusiasmei, quando me desiludi, quando me cansei, quando me indignei, quando perdi o sono. A poesia e outros formatos de escrita literária são o meu espaço de excedência, como eu digo no livro, é minha inscrição rupestre no fundo da minha caverna.  Não sou um escritor. Mas agora resolvi juntar o que eu tinha, mostrar para algumas pessoas e, com o aceno positivo da maioria delas, resolvi publicar. Por esta razão há poemas com idades muito diferentes, inclusive consta no livro o meu primeiro poema, “A Mão”, escrito em 1984, e que nunca havia sido publicado.

A expectativa está sendo interessante?

A minha expectativa não é a de que este livro vire um Best-Seller. Apenas vou mostrar o que escrevo, não estou preocupado com a crítica, principalmente não estou preocupado com a crítica ressentida, que sei que há muito por aí. Mas me interessa a recepção, porque isto me dirá até onde o que escrevo pode interessar e pode ser aceito como poesia. Eu sei que existem círculos literários com nomes diversos, muitas vezes restritos, que acham que você tem que pedir a benção a eles. Mas este livro não é um pedido de inscrição nesses círculos. Não estou pedindo licença ou desculpa para escrever e publicar.

A ideia do livro é importante porque procura mostrar a outra face do Poeta que adormece isento de badalações, ao tempo em que evidencia uma produção artística derivada de uma busca pessoal pela palavra escrita…

É isso. Veja, não há poesia apenas no poema. Muitas vezes um texto conceitual também tem poesia. A poesia me interessa, não apenas a que escrevo, mas a que consumo. Então o livro mostra também o que sou e o que consumo, é resultado dessa trituração daquilo que eu acesso como poesia.

Você é um Poeta que discute com freqüência os efeitos da chamada “Pós-Modernidade”. Como a Obra “O mesmo outro” dialoga com os escritos de Lacan?

Não há Lacan em meu livro – a não ser que seja inconscientemente. Sei que o livro 16 de O Seminário de Lacan chama-se “De um Outro ao Outro”. Mas eu não sou leitor assíduo de Lacan. Eu apenas folheei algumas coisas dele. Minha praia é outra. Talvez, como obra literária o meu livro O Mesmo Outro está mais próximo do livro “O Outro, O Mesmo”, de Jorge Luis Borges, uma vez que este livro de Borges é de poesia, mas Borges se notabilizou como escritor de prosa e não de poesia. Por esta razão talvez esteja mais próximo deste. Mas não apenas pelo título: é que em “O Outro, O Mesmo” Borges também fala de si, da cidade que lhe habita, Buenos Aires.  No fundo os poetas falam muito de si mesmos. Mesmo os vários heterônimos de Fernando Pessoa ainda são Fernando Pessoa. Em relação à “Pós-Modernidade” há apenas um poema que entra neste tema, mas passa rápido. Há outros que talvez encenem um pouco este tempo turvo, fractal ou “fracticídico”. Mas eu acho que, no geral os poemas estão próximos da poesia moderna. A minha discussão da pós-modernidade eu exerço mais no campo conceitual, mas claro que isso cruza o campo da criação poética.

Por que trabalhar com o fenômeno da poesia quando a falência dos valores sociais deforma uma geração inteira atingidos pelo consumo desenfreado e pela banalização da cultura nas cidades?

Talvez por isto mesmo! Plantar poesia na bagunça do dia. Talvez seja um modo de resistência. Mas a poesia não casa bem com esses compromissos, sob risco de virar mero engajamento. As cidades em geral são sem poesia, constituídas de todos os tipos de iniqüidades, entre elas o lixo, o fícus e a fuleiragem. Um dos poemas expõe isso. Mas eu procuro levar a poesia para outro lugar, onde ainda podemos, talvez, saborear aquilo que a palavra pode oferecer, em seu turbilhão cores, sabores e avessos.

Que importância tem a poesia na sua formação?

Eu sempre li poesia, embora pouco. Confesso que durante muito tempo li mais livros conceituais. Tampouco li os considerados clássicos, que todo mundo vive estufando a boca para dizer que leu. Eu li poetas nem tão conhecidos assim como Alex Polari, Ledusha, Eduardo Alves da Costa, e li Drummond, Vinícius, Leminski, o próprio Borges, Ferreira Gullar. Li também os poetas mais próximos, Pedro Raimundo, Joseph Bandeira, Ângelo Roncalli, Expeditinho, Lupeu.

Qual a principal abordagem do livro “O mesmo outro”?

Não há uma abordagem. É um livro de poesias, com temas variados, formatos variados, motivações variadas.

Quais as características e particularidades de sua Obra. Fale de suas influências, amigos, parceiros e projetos para o futuro…

Se você ler O Mesmo Outro você vai me ler. Vai entrar em mim, de certo modo, talvez para encontrar um outro que você ainda não conhecia. Esta é uma característica. As influências são essas que eu já mencionei na resposta anterior.

Qual a proposta do seu trabalho em “O mesmo outro”? Comente a relação existente com a vida acadêmica, portanto, os significados deste enredo nos caminhos da descoberta para re-significar sua existência?

A proposta do trabalho é simplesmente mostrar o que eu escrevo. Não há uma relação direta com a minha vida acadêmica, é outra coisa, outro trabalho, outra viagem. Como eu disse é meu espaço de evasão e de excedência. Vou continuar fazendo o meu trabalho na academia e vou continuar escrevendo as minhas poesias sem que ninguém me mande ou me peça relatórios disso. São coisas diferentes. Elas podem até se encontrar, podem se cruzar, mas são coisas diferentes.

Qual a metodologia usada para a construção desses enredos poéticos? Se é que existe uma metodologia para o trabalho poético. Quem são seus heróis?

Não há nem método nem heróis.

Quais os maiores desafios ao se pensar em publicar um livro? É preciso prevalecer, sobretudo com a fluência da sensibilidade?

JMP – O primeiro desafio é, antes de tudo, ter o que publicar. Ter um trabalho escrito que você ache que vale a pena publicar. Ou outro desafio é encontrar onde publicar, ou seja, uma editora. Aqui nós não temos editoras nem know-how. Eu quis fazer uma publicação com uma padronização que eu considero razoável, com um papel edequado para o miolo, com um acabamento razoável para a capa, com creditação adequada, com ISBN, depósito legal na Biblioteca Nacional, com opção de inclusão em catálogo para venda pela internet. Isso você não acha por aqui. Eu tive que buscar isso em São Paulo. O último desafio é decidir se você banca a publicação ou se você contará com um editor. São esses os desafios!

O que você aborda no livro que dá sentido ao reconhecimento do eu e do outro em O mesmo outro? O que essa relação representa na sua poesia?

Acho que, muito longe desta pretensão de explicar qualquer coisa, ou de dar reconhecimento de nada, o livro chama O Mesmo Outro porque expõe, por um lado, um trabalho que muita gente que me conhece não sabe que eu faço, e por outro lado porque, este que se mostra nos poemas, também está em processo de permanente transformação. Por isso é o mesmo, mas é, ao mesmo tempo, outro.

As Universidades valorizam, de forma adequada os escritores locais?

Nem sempre – inclusive porque nem sempre os escritores locais oferecem à Universidade as suas obras, ou quando oferecem, não é com a qualidade que esperamos. Ou então é porque não interessa mesmo. Eu não escrevi este livro para a Universidade. Não acho que O Mesmo Outro interessa à Universidade. A não ser daqui a uns 200 anos, caso haja algum estudante curioso que se dedique a uma espécie de arqueologia da poesia e encontre lá, soterrado, o livro em forma de fóssil. Eu não escrevi este livro para a Universidade. Se ela se interessar, menos mal. Se algum gestor público quiser colocá-lo nas prateleiras de suas bibliotecas, menos mal. Vai ser ótimo! Mas eu o escrevi sem essas pretensões.

“O mesmo outro é, antes um trabalho de desobrigação…” O que representa esse misterioso mundo da matéria poética que se faz escrito, diante da sua busca sempre e em permanente estado de transcendência?

Quando eu digo que é um trabalho de desobrigação, estou dizendo que é algo que eu precisava mostrar, mas isso não é um trabalho de obrigação, é de desobrigação. Como diria Jánio Quadros, “fi-lo porque qui-lo”.

Você já passou por situação idêntica? Isto é, já duvidou em algum momento da veracidade de sua existência?

Eu sempre pareci um maluquinho, mas eu sempre fui muito na linha. Sempre vivi nessa fronteira entre o instituído e o instituinte, entre o legal e o ilícito, entre o mocinho e o bandido. Esses são meus outros. Mas eu não cheguei ainda a este estágio de loucura de duvidar da minha própria existência. Não tenho tempo pra isso.

Que mundo é esse? O mundo da desconstrução, da reflexão, da síntese… Por que as descobertas continuam presas dentro de cada ser humano, bastando que o mesmo simplifique sua busca existencial, canalizando-a para a objetividade, para a luz, para a verdade, quebrando assim o medo do desconhecido?

JMP – Não sei se estou à altura do que você solicita nesta pergunta. Para mim o mundo é cada vez mais a aceleração da frase de Caetano que diz que “aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.  Agora eu não sei como fazer para simplificar a busca existencial de cada um, tampouco sei como fazer para liberar as descobertas que estão presas dentro de cada um. Tem gente que busca isso no divã. Tem gente que procura o padre e se confessa. Tem gente que escreve diários íntimos. Tem gente que escreve poesia, tem gente que faz da poesia uma música. Tem gente que se droga.  Tem gente que se mata. Entre as minhas opções está a poesia.

O que nos liberta nesse mundo?

Como ia dizendo… o advogado, o psicólogo, o padre, a polícia, a droga, o sexo, a leitura, a música, a criação… Depende de qual é a sua prisão.

No mundo dos “ciborgues” será preciso repensar a condição do ser humano nesta globalidade de situações que o envolve e o exclui. Como pensar o Eu com o Mundo?

Acho que depende o tipo de atrito do seu Eu com o mundo.

Você acredita que a cultura pode salvar os jovens desse marasmo e projetá-los para outro universo?

A cultura é uma palavra-armadilha. Tanto liberta como aprisiona. Este marasmo que você fala é também um marasmo na cultura e da cultura. A cultura de massa também é cultura. O consumo é uma forma de cultura, das mercadorias, do fetiche. Acho que, neste sentido, é preciso oferecer outras possibilidades de expressão. Para salvar eu não sei, mas para ter opções de escolha. É preciso ainda investir numa educação dos sentidos. Por exemplo, falando da poesia, tem gente que só consegue ler poesia “água-com-açúcar” ou “pensamento de FM”, essas traduções idiotas das músicas internacionais ou essas babaquices da estupidez romântica. E por que só conseguem entender isso? Porque só tem acesso a isso. Por não temos biblioteca, cultura de leitura, somos ainda uma população iletrada. Não sei se isso salva ninguém de nada, mas prefiro acreditar que estaríamos melhor se houvesse um lastro mais largo na formação das pessoas, para que elas fossem capazes, inclusive, de ler poesia.

Por Gênesis Naum

 

 

 

 

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O universo romanesco do escritor Gênesis Naum de Farias interpretado pela força da leitura

“Leiam, e leiam muito, até suas almas transformarem seus corações de leões em corações valentes, prontos para vencer os desafios do mundo como almas de gigantes…”

Naum de FariasOntem, 23, foi comemorado o dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. A data foi criada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) com intuito de suscitar nas pessoas o prazer da leitura, bem como o reconhecimento e a enorme contribuição de milhares de autores de livros através dos séculos. Para destacar a importância da data o Ponto Crítico entrevistou o escritor Gênesis Naum de Farias, confira:

Ponto Crítico – Em sua opinião, qual deve ser o papel do escritor?

Gênesis Naum de Farias – O papel do escritor ou da pessoa que se arvora pelo campo da escrita, deve ser o de formador de novas alusões. Não dá para mais para isentar o formador de opinião dos problemas que se tem percebido nestes dias de treva, em que a humanidade vivencia. As questões reais são tão urgentes que ao longo do processo, o escritor deve se ater a pensar de forma prudente para saber colocar suas ideias a serviço de causas maiores, que urgem pela necessidade de se falar e refletir sobre as possibilidades reais para o enfrentamento dessas mesmas problemáticas. A humanidade tem se afastado de uma percepção prática do fazer intelectual, no que tange a resolução dos problemas e, não há solução que não esteja alojado justamente neste mesmo homem. Só há transformação se pensarmos todos juntos, se pensarmos coletivamente, se estivermos juntos… A transformação da realidade esta no próprio homem, quando em função dos problemas da sociedade, este se compromete em formar outra mentalidade para a coletividade.

Ponto Crítico – Como foi que se tornou um escritor?

Gênesis Naum de Farias – Ao longo da minha formação como sujeito esse lugar ia se colocando e ia me definindo como pessoa. Desde muito jovem minha ambição sempre se direcionava para o campo do lúdico, e nesta ludicidade fui me constituindo como um pensador livre, que se atinha a tudo, que se renovava, que se bricolava com o real, que transformava seu universo pessoal nessa leva de sentidos… Era natural que a literatura tivesse um papel fundamental! Comecei escrevendo para os principais jornais desta região ainda quando era estudante universitário e, já naquela época as grandes temáticas eram carreadas para o campo da reflexão crítica; claro que quando adolescente, a escrita estava ali presente, mas não possuía totalmente os enleios semânticos para a construção de uma obra, mas ao longo do que se vivenciava e com o amadurecimento estético, fui ganhando pujança para saber o que ler, como escrever e de que forma se colocaria no mundo. As ideias iam se formando e me formando como sujeito… A presença e a influencia dos grandes escritores ia dando cabo a um processo que de certa forma constituiria o escritor que sou no futuro, mas também porque a leitura lançava as bases para se melhorar os textos e sua relação com a escrita numa perspectiva crítica. O dia em que me senti escritor foi também tomado pelas influências dos grandes Mestres que tive, pois fui aluno de grandes professores, principalmente àqueles que eram da língua portuguesa; estes exerceram um papel fundamental na minha escrita e no remodelamento do meu universo. Eu comecei a escrever em 1996 por força destas influências, foi quando cheguei a Petrolina para morar e encontrei no Espaço Cultural Sebo Rebuliço amigos como os Poetas Maurício Ferreira e Virgílio Siqueira e, com eles fui aprendendo a me colocar diante desta situação nova, porque querer ser um escritor é antes de tudo, saber que as portas da percepção estarão abertas para outras realidades, e percebe-las faz parte desta construção.

Ponto Crítico – Como o professor Gênesis Naum se vê diante de quem o percebe como um intelectual? O professor se torna uma pessoa importante para a sociedade, por conta da relação estreita que estabelece com os dilemas do mundo?

Gênesis Naum de Farias – Eu diria que me tornei educador por acreditar justamente nesta força que possui as palavras, quando delas renascem outras sendas para se esperançar num mundo cada vez mais vazio de sentidos. A palavra intelectual sempre me causou muito assombro, tendo em vista a importância do contexto da própria palavra “intelectual”. Mas eu sempre acreditei no professor como um intelectual transformador, porque é isto que ele deve ser e, é nesta seara que ele deve se colocar… O professor é antes de tudo um formador de opinião, se ele não coloca as suas competências a serviço de uma causa ou de uma luta social, não há transformação. Eu tenho tido que já não se propagam por esses tempos escusos, intelectuais com o vigor de outras épocas e, tenho feito muitas críticas sobre o seu papel na sociedade, mas tenho que reconhecer que os cenários mudaram e outro tipo de intelectual tem ocupado o lugar daqueles que ao longo das décadas foram dando forma a uma identidade de luta… Estamos vivendo em tempos de um intelectual maduro, focado na pesquisa, porém muito especialista demais nas suas alusões sobre os problemas; que ainda vive sob a égide de um regionalismo enciumado, quando norteado por um localismo ressentido, porem vivendo um relativismo complacente. Portanto, o papel do professor por esses dias é o de retomar as bases do enfrentamento social, fazendo do seu discurso uma arma de luta para saber conceituar e não somente classificar as questões mais urgentes por que passa os dilemas da sala de aula, quando no processo de desaparelhamento das estruturas das escolas, estas se colocam para o mundo vivido, com bastante perda de sentido.

Ponto Crítico – Você ainda se recorda do primeiro livro que leu?

Gênesis Naum de Farias – O primeiro livro que li não me aparece em recordação, mas posso apontar uma lista de livros que foram formando o leitor Gênesis Naum. Já na infância uma obra de José Mauro de Vasconcelos foi extremamente importante para toda esta ludicidade. Eu me refiro ao livro Meu Pé de Laranja Lima. Minhas recordações sobre o período que li este livre ainda me são muito carregadas de bastante alumbramento; chego a dizer que este livro de José Mauro de Vasconcelos, foi a primeira obra que me tocou profundamente… É um livro lindo, cheio de sentimentos, mágico por natureza, porque me fez fazer uma de minhas primeiras grandes viagens pelo universo do conhecimento, isto porque, a mesma toma de assalto qualquer ser que um dia pretenda empreender-se por entre àquelas páginas. Gosto de dizer que os primeiros livros na formação de um leitor são muito marcantes, mesmo quando de forma despretensiosa ele mergulha naquele mundo de palavras e quer vive-las como se escritor fosse… Todo leitor tem um primeiro livro e tem seus livros prediletos! Ao me tornar um leitor, impulsivo, fui descobrindo o melhor dos mundos… “O Mundo é minha Representação”. Com esta frase, Schopenhauer, filósofo e pai do pessimismo histórico, inaugurou o século XIX e suas influências modernas. Mas o que é a Representação Social, se não uma profícua visão de Homem numa sociedade cada vez mais engessada pelo medo e pelo pragmatismo multicultural. Portanto, o resumo aqui exposto, das minhas primeiras escolas como leitor e seus principais autores mostra que a visão dos Sapiens se transforma a partir do que o próprio Homo-Sapiens pensou e registrou como reflexo para a evolução de sua espécie no contexto do pensamento complexo, idealizado pela sociedade global quando tenta negar ou explicar a razão da representação, tendo como parâmetro o Ser diante do Nada e do Caos no mais autêntico niilismo, determinado pela força de transitoriedade, proposto pelo aniquilamento e pela descrença política nas Representações Sociais… O leitor mergulha nesse universo e vai se descobrindo; um dia lê um livro infantil e torna-se criança novamente, outro dia, descobre o pragmatismo da realidade e se transforma…

Ponto Crítico – Qual é sua relação sentimental ao terminar de ler uma Obra?

Gênesis Naum de Farias – O escritor Paul Auster costuma sentir-se muito deprimido quando termina um livro. É como me sinto ao concluir a leitura de qualquer livro. Chego a ficar três dias ruminando aqueles arroubos, criados como itinerários de transformação… Que roteiriza um ponto de partida sem qualquer pressa em decifrar enredos ou os momentos de puro hermetismo na experiência concreta com a sensibilidade no universo de um autor… Um dia Carlos Drummond achando chato ser moderno, saiu do seu mundo gauche para se tornar eterno. Levou consigo a infinita confiança no homem do seu tempo, como a matéria prima para a sua lavra. Nos dizeres de sua modernidade tardia, ele nos encorajava dizendo: “Não sou poeta de um mundo caduco,/ Também não cantarei o mundo futuro. (…) O tempo é a minha matéria,/ O tempo presente, os homens presentes, a vida presente”. A arqueologia dos meus saberes se fundamenta na busca permanente pelos caminhos do conhecimento; às vezes embrutecido pelo frio arpejo de suas descobertas, às vezes desencontrados, mas com a firme certeza de que o que busco sempre estará permeado pelo tom e a destreza da aprendizagem. A busca pelo conhecimento se soma a uma grande viagem que se faz pelo passado para se afirmar o presente, portanto trilho com a convicção de uma descoberta sem malícia, na certeza da construção dos pilares deste mesmo aprendizado. É compreendendo a nossa realidade que seremos construtores de outro mundo; menos vazio e mais cheio da espiritualidade oferecida pelo outro quando nos pede ajuda, consolo e clemência. A minha busca intelectual se permeia por estes pressupostos filosóficos, porque sei que a realidade deste universo pós-humano é bem desumana e, soma o meu sonhar aos dos grandes poetas e filósofos que tentavam acordar a humanidade do sono funéreo da especulação e da desordem moral… Não me compreendo se não compreendo o outro, dizia Paulo Freire em seus escritos de posteridade, por isso sou um ser inquieto que escreve também para a posteridade, com a firme convicção de que um dia trilharemos e entraremos nas cidades cantando hinos de humanidades. Outro dia me dizia um autor inglês, do qual sou leitor arvorado, que os tempos mudariam quando as pessoas passassem a escrever suas próprias histórias dialogando com o presente, sem hedonismos, sem preconceitos e sem as maldades e vaidades do cotidiano…

Ponto Crítico – Quando criança já pensava em se tornar escritor?

Gênesis Naum de Farias – Não! Fui me descobrindo ao longo do caminho formativo, mas desde muito novo sempre achava o escritor um ser luminoso, cheio de ideias, que recria personagens e às vezes, os vive de forma tão plena que passa para o leitor a noção de outro mundo possível. A figura do escritor sempre me causou muita alegria e quando conhecia um pessoalmente, fazia daquele encontro, mesmo que apenas no âmbito da leitura, um grande momento. Claro que nos caminhos do amadurecimento vamos também com o tempo nos afastando do reino imaginário e nos colocamos na vida de forma mais engessada, mas a descoberta da leitura faz de qualquer criança um ser carregado de muita esperança… As escolas e seus educadores, bem como os intelectuais precisam se ater a este importante momento na construção do conhecimento e dos sujeitos, quer seja na infância ou na universidade, fazendo com que o conhecimento chegue ao aluno, em processo de formação, de forma lúdica, amorosa, sensitiva… Somente ai, teremos uma sociedade mais justa, feliz e esperançosa que ressurgirá dos escombros nos quais ela mesma tem enxovalhado suas relações…

Ponto Crítico – E o escritor Gênesis Naum, tem algum método especial de trabalho?

Gênesis Naum de Farias – Geralmente trabalho o pensamento margeado pelas ideias que se criaram com os grandes autores. Não há como não incorrer pelos métodos, pela disciplina e principalmente pelo fator da criticidade… Geralmente gosto de temáticas mais romanescas, e, nas palavras de um professor muito importante para a minha formação, ele diz que sou ser medieval… Gosto de temáticas seculares e tenho uma preledição pelo século XVIII. Costumo dizer que de lá nunca sai, mas a leitura é isto mesmo, um elemento de transposição, onde cada sujeito se transporta para onde quer e como quer, bastando adentrar pelo campo da imaginação e de forma luminosa encontrar nas palavras o conforto para a viagem ancestral da leitura… Quanto aos rituais, posso dizer que sou bastante metódico, a ponto de ser bastante irreverente, mas intensamente organizado!

Ponto Crítico – Como foi sua infância. Que papel exerceu a figura da sua Mãe para a sua formação?

Gênesis Naum de Farias – Minha infância se arrastou pela adolescência e foi bastante alegre e feliz, porem bastante agoniada porque tenho a impressão que fui uma criança muito agitada e intensamente imperativa. Somente na transição do ensino fundamental para o ensino médio me descobri como sujeito leitor, e ai entra novamente o papel da Educação. Lembro-me que na finalização da oitava série para se encaminhar para o próximo ciclo de formação, ao me ser apresentado a ideia de um trabalho com a leitura, percebi a importância daquele processo. Naquele momento fui me dando conta que diante de tantas deformidades, impostas pela realidade, a leitura me libertou e me fez sentir de forma plena o ato da absorção dos saberes… Claro que quando se é adolescente, tem-se pressa para tudo; o adolescente quer escrever um poema, quer escrever um livro, quer fazer uma revolução, quer a qualquer preço transformar o mundo… É natural! Comigo não foi diferente; queria fazer tudo no mesmo espaço de tempo em que as aprendizagens estavam se dando… O jovem tem pressa de viver e por isso às vezes, atropela os processos e se perde, mas a boa orientação familiar e educacional o traz de volta ao chão da realidade… De minha infância posso dizer que foi recheada de muitas descobertas amorosas, pois logo cedo fomos, eu e meus irmãos, estudar música clássica e tínhamos em nossa casa muitos livros. O fato de nunca termos possuído uma televisão, dada às circunstancias da filiação religiosa dos meus pais numa Igreja Cristã, fez com que nossa infância sofresse um alargamento, adentrando nas outras fases da psicologia da infância. O fato da ausência da TV na infância de todos os meus irmãos, nos fez leitores em potencial, ampliando as habilidades para sentir o mundo de forma imaginária, e isto só foi possível porque minha Mãe se organizou para manter firme essa orientação pedagógica, mesmo sem saber que estava empregando uma boa orientação de aprendizagens simbólicas, assim o fez e nos colocou distantes da ferramenta perversa que é a TV. Minha Mãe exerceu um papel fundamental nesta fase da formação porque disciplinava, mas oferecia algo a mais… Éramos formados para sermos Apanhadores no Campo de Centeio.

Ponto Crítico – Vamos falar de sua vocação literária. Desde criança, havia uma inclinação para a escrita? Como aconteceram os primeiros arroubos poéticos?

Gênesis Naum de Farias – Como disse há poucos instantes, os primeiros arroubos poéticos se deram com a convivência com outros escritores, observando como lidavam com outros aspectos da escrita poética… Esses momentos me ensinaram muito! Outro elemento importante foi à escolarização… Fator este, que me colocou em contato com os estudos da língua portuguesa nos ciclos de formação… Fui aluno de bons professores de literatura, mas dou destaque especial a uma professora chamada Cibele Lima, que foi minha professora de literatura e que deixou marcado em minha alma a vontade de gostar de alguma coisa. Esta professora em especial marcou as minhas referências, isto porque, além de ser uma apaixonada pela leitura, nos provocava a amar… Era natural que minha geração se apaixonasse… Eu não fiquei fora desse contexto de formação, e me tornei um amante da língua.

Ponto Crítico – Qual seria a sua definição de um bom livro? O que caracteriza um bom livro?

Gênesis Naum de Farias – Um bom livro é capaz de nos fazer desenvolver uma visão espiritual sobre o mundo; nos cobra caminhar na direção de uma ressignificação do espírito… Propõe-nos diversificar o etéreo, silenciando-nos diante da natureza… O que caracteriza um bom livro é a capacidade de reinventar os sujeitos, transportando-o para um lugar que não nunca é comum.

Ponto Crítico – Em que momento escreve? Existe um instante para isso, ou o instante acontece com o rigor da disciplina?

Gênesis Naum de Farias – O instante é muito livre porque tenho que dá conta de muitas obrigações no cotidiano como, por exemplo, a sala de aula, que toma muito tempo, mas escrevo quando sou tomado pela energia do próprio instante ou quando me interesso por uma temática… Enfim, o processo acontece.

Ponto Crítico – Sendo escritor, poeta e professor universitário, você se julga uma pessoa sensível? Em tempos de conflito e crise e incerteza como o que a humanidade vive na contemporaneidade, como definiria a sensibilidade?

Gênesis Naum de Farias – Eu me considero temperamental… E quando defendo algo ao alguém, vou bem fundo nos perímetros estratigráficos. Abomino injustiças, e como professor tento fazer pelos meus alunos aquilo que outros não fizeram por mim; tento ser o mais amável possível para que ambos percebam que o processo formativo exige isso; sensibilidade, esperança, humildade e perseverança… Como Poeta defino a sensibilidade como um ponto de convergência para outras tantas formas de se perceber o mundo, quando somos impelidos para respeitar o outro nas suas deficiências, respeitando o tempo e as limitações de cada sujeito… Essas atitudes transformam! Tenho sempre pensado nos reflexos formativos que obtive na academia, convivendo com intelectuais vaidosos e intolerantes, que muitas vezes nem conseguem lembrar que vivem num País subdesenvolvido, com uma mentalidade subdesenvolvida… É quando penso em Sartre ao inquerir que o mais importante não saber o que fizeram do homem, e sim, saber o que ele faz daquilo que fizeram dele… A sensibilidade é algo que se constrói na coletividade!

Ponto Crítico – Existe uma temática sobre a qual se sente mais à vontade para escrever?

Gênesis Naum de Farias – Certa vez Goethe advertiu a humanidade com uma afirmação que era o reflexo de sua vida como intelectual, sempre engajado e pronto a pensar o futuro como a interface de um presente vivido pela força de um sofrimento: Gritar o poético para se fazer liberto dos males da existência. Assim ele disse: “A terra não está muda para quem trabalha com força e vive… Assim, todos juntos continuavam sua vida cotidiana, cada um com seu modo, com ou sem reflexão; tudo parecia seguir o seu rumo habitável, como em situações extremas, nas quais tudo está em jogo e a vida continua como se nada acontecesse”. A poesia que busco se parece com a alcunha impressa por este escritor, que procurou encontrar no rebento mais fecundo, a imposição do ímpeto e da tempestade. Neste flâneur pelos caminhos da poética, mapeio encantos e descrevo com fúria os recantos mais felizes da minha infância, nas perturbadoras insolências da minha mocidade –; legadas pela profícua convivência com a diversidade, marcada sempre pelo trágico ato do pensar… Sempre penso que ainda não consegui escrever uma grande obra, mas transito por entre o ímpeto e a tempestade e, quero muito um dia alcançar com muita humildade a alma humana… Eu estou escrevendo atualmente um romance intitulado Romanceiro do Sertão Profundo que me segue nesta rota do tempo perdido…

Ponto Crítico – Como é o leitor Gênesis Naum de Farias?

Gênesis Naum de Farias – Romântico… Apaixonado, impulsivo, amoroso, decadente, irreverentes… Atencioso!

Ponto Crítico – Que recomendação daria para os novos leitores?

Gênesis Naum de Farias – Leiam, e leiam muito, até suas almas transformarem seus corações de leões em corações valentes, prontos para vencer os desafios do mundo como almas de gigantes…

 

Entrevistas

“Capitalismo militariza-se a cada dia e não é possível vencê-lo pela força”, diz Nobel da Paz

Adolfo Pérez Esquivel fala sobre o conceito da não violência ativa. Por Daniel Santini

adolfo-768x432Desde 2013, três estados da região Norte do Paraguai encontram-se em estado de exceção permanente, ocupados por tropas das forças armadas. Designados originalmente para combate emergencial ao Exército do Povo Paraguaio (EPP), grupo guerrilheiro que tem como estratégia a realização de sequestros, os militares instalaram-se e passaram a policiar de maneira contínua os estados Amambay, Concepción e San Pedro. A ação de “pacificação” do território, que não tem data para acabar, não só não resolveu o problema com o EPP, como gerou outros, não faltando denúncias, por parte da população, de violações graves de direitos humanos. Na lógica de guerra instalada, quem vive na região passou a lidar com medo e estigmatização – em Assunção, as pessoas olham diferente quem vive no norte.

A tática de repressão pura e simples não foi adotada apenas no Paraguai. A mesma lógica subsidiou ações em diferentes partes do mundo, da ocupação dos morros do Rio de Janeiro por Unidades de Polícia “Pacificadora” às intervenções militares internacionais apresentadas como Missões de “Paz” e “estabilização” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Via de regra, tal política, que ganha espaço em meio à ascensão do conservadorismo em diferentes partes, tem se revelado pouco eficiente em termos de paz efetiva – como comprova a permanência de graves índices de homicídios no Rio de Janeiro e o colapso total de países inteiros no Oriente Médio ou a instabilidade política e social ainda presente no Haiti.

É contra essas políticas de guerra que Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, defende a importância de desarmar consciências. Nesta entrevista concedida em meio ao Fórum Social do Norte*, em Horqueta, município de Concepción no epicentro das zonas em estado de exceção, o ativista argentino de 85 anos argumenta em favor da Não Violência Ativa como melhor caminho para resistir à militarização do mundo. Realizado pelo Serviço de Paz e Justiça (Serpaj), organização fundada por ele, o evento de caráter pacifista reuniu cerca de 1.500 pessoas, incluindo camponeses e camponesas de todo o país. A seguir, a entrevista.

Repressão e militarização ganham força no mundo como parte de um discurso bastante conservador. Como contrapor essa lógica a partir do conceito de Não Violência Ativa?

Primeiro, a violência que estamos vendo é um problema cultural, incrementado muitíssimo pelos meios de comunicação. Por meio dos filmes, pelo jornalismo, mas também pelas condutas, temos uma cultura da violência. Desde criança, se aprende que a violência é algo natural, que é viável. Para mudar isso há um eixo fundamental, que é desarmar a razão armada. A violência baseia-se no poder, na dominação. Quem a exerce quer se impor ao outro que é mais fraco pela força e, como diz Dom Hélder Câmara, esse arcebispo amigo de caminhada pela América Latina, a mãe de todas as violências é a mentira. A mentira exerce a violência porque faz crer o que não é.

Nesse sentido, falar de uma Missão de “Paz” da ONU ou uma Unidade de Polícia “Pacificadora” é algo emblemático, não? É semântica para minimizar ações que são simplesmente intervenções militares.

Sim, Missões de “Paz” não têm nada de paz. Trata-se de justificar a violência por meio da mentira. Foi o que George Bush, ex-presidente dos EUA fez com as Torres Gêmeas, com a invasão do Iraque. Porque ele precisava da justificativa e da mentira, e foi uma mentira coletiva, com os meios de comunicação, com toda a propaganda. É como agora com Síria, Líbia, Afeganistão. Está tudo baseado em mentiras. Lógico que houve reação de alguns setores, que reagiram violentamente e trataram de justificar essa reação por meio de fanatismos religiosos, segundo os quais todos aqueles que se opusessem teriam que ser combatidos porque isso seria anti-islâmico.

A Não Violência não tem nada a ver com passividade, é uma dinâmica permanente de uma transformação social, cultural, política e econômica. Não se deve reagir a uma violência com outra violência porque isso não resolve o problema. Ficamos com duas violências, mas não a solução do problema. Para saber desarmar a razão armada é preciso saber escutar o outro, antes de mais nada escutar. Depois ver se há possibilidade de abrir uma instância de diálogo. Se não se consegue, é preciso buscar um intermediador, um moderador que ajude a resolver o conflito. Isso acontece com os casais, com as famílias, as relações sociais e políticas, e até nas relações entre países.

Há algum contexto em que a luta armada é válida?

Não creio na guerra justa, por mais que os teólogos, os grandes professores teólogos como Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino falem em guerras justas. Para mim, nenhuma guerra é justa, todas as guerras levam à destruição e à morte. Acredito, isso sim, em causas justas, não em guerras justas. Um povo oprimido tem direito a rebelar-se contra o opressor e há razão para isso. Há muitos caminhos, alguns que recorrem à violência. Por exemplo, em Cuba, Fidel Castro, de Sierra Maestra, começa todo um trabalho de resistência para se opor à ditadura de Fulgêncio Batista e ao final triunfa. Cuba, depois de vários anos e de ver isso com claridade, não recorre à violência para se sustentar, mas sim ao desenvolvimento cultural, social, político. A economia, mesmo com o bloqueio dos Estados Unidos, segue com dificuldade mas se sustenta por mais de cinquenta anos. Fazem não violentamente, mas quando uma potência como os Estados Unidos de Kennedy  tratam de invadir a Baía dos Porcos, Cuba reage com as armas. Pense nas forças invasoras dos Estados Unidos, há uma dinâmica entre as relações de forças. Muitas vezes, fala-se de situações extremas. O que alguém faria ao ver um agressor está para matar um filho? Por aí pode ser que se recorra a uma ação violenta, mas esse não é um eixo central, é um momento que por aí encontrou esse caminho, não algo definitivo. O que fez Mahatma Gandhi pela liberação da Índia tem vários aspectos. Tem o conteúdo ético, religioso, social, mas também uma estratégia na relação de forças. Se Ghandi se opusesse ao Império Britânico pelas armas, perderia.

Falando em extremos, pensando em um caso hoje, o que fazer se Trump começar a concretizar muito do que disse que faria durante sua campanha em termos de perseguições, de políticas claramente racistas? Já estão ocorrendo marchas anti-Trump. Há um limite contra as ações fascistas?

Fundamentalmente a Não Violência, é ação coletiva. É quando um povo toma consciência e diz “tenho que resolver esse conflito, mas de outra forma, não com o mesmo método do opressor”. Sem isso, muitos oprimidos, quando triunfam, tornam-se opressores. Tratam de repetir os mesmos mecanismos. Por exemplo, a revolução, de que tanto se fala, é uma roda. Estão abaixo os oprimidos, quando gira, os debaixo terminam em cima. Mas, se não há mudanças, se não se avança, repete-se o mesmo.

Em meio à crise de democracia no mundo, muita gente questiona os formatos de poder. Em sua apresentação no Fórum Social Norte, você defendeu uma democracia mais participativa do que representativa, com mais transparência sobre as estruturas de poder. Trata-se de fazer com que a democracia se radicalize?

A democracia é um sistema que significa direito e igualdade para todos, mas que hoje não atende a todos, e sim a alguns. Depois que votamos, ficamos em um estado de indefesa jurídica total. Não temos a capacidade de modificar absolutamente nada e o governante sabe disso e aproveita. O governante tem que ser um servidor do povo e não se servir do povo para seus interesses. Na democracia representativa, o povo não tem capacidade de mudar isso; mas em uma democracia participativa sim. Por meio de plebiscitos, consultas populares e representações de diversos tipos, pode-se chegar a controle ou mesmo revogar o mandato, quando necessário. Por isso digo, a violência sempre se baseia no poder e na mentira.

Rosa Luxemburgo dizia que não existe democracia sem socialismo e não existe socialismo sem democracia.

Claro, estou totalmente de acordo com o socialismo de redistribuição dos bens, da participação social, cultural. Que tipo de democracia queremos? Falei hoje das utopias. Thomas Morus, quando fala dessa famosa ilha chamada Utopia [nome do livro de Morus], descreve os utopianos organizados por meio de uma participação interativa. Creio que é isso, e o socialismo tende a isso. Não é fácil porque requer uma tomada de consciência através da educação. Nós fomos educados para uma cultura de violência. Os protótipos que nos apresentam são todos heróis e guerreiros. Quando nos ensinam História, as épocas se dividem pelas guerras e revoluções, não pelos avanços sociais, culturais, políticos. A cultura que temos é de violência. Desarmar a consciência armada é gerar consciência crítica e valores nos jovens, para que possam discernir, não é impor-lhes um modelo.

Uma educação Não Violenta não tem nada a ver com a passividade, é uma dinâmica permanente de relações humanas entre as pessoas e os povos. O ser humano tem necessidades básicas – saúde, educação, habitação, trabalho – para poder ser feliz, e tem também o sentimento de pertencimento, uma identidade, valores, religião. Existe uma diversidade de pensamentos filosóficos, culturais, políticos, religiosos e temos que alcançar a convivência na diversidade e não na uniformidade. A riqueza dos povos é a diversidade. A mais perigosa dos monoculturas é a monocultura das mentes. Nós temos parâmetros que a sociedade nos impõem, que cortam a liberdade de decidir.

Quando fala em diversidade, há relação com o conceito do Bem Viver, não?

Sim, claro. Exatamente.

Em pelo menos dois países, Equador e Bolívia, onde houve uma aproximação com esse discurso, onde foram adotados Estados Plurinacionais e toda uma linha de institucionalização da diversidade, depois de um momento inicial, os governos se afastaram dos princípios. Mantiveram o discurso, mas adotaram práticas que não tem nada que ver com Bem Viver. E há também casos como os dos governos progressistas que entraram em crise e há críticos que relacionam o fracasso de muitas estratégias a partir das políticas baseadas muito mais em consumo do que em cidadania. Há os que fazem essa mesma crítica à União Soviética, por exemplo.

São processos de aprendizagem. Por exemplo, quando se fala de desenvolvimento, trata-se do uso justo das necessidades do ser humano. A gente precisa da mineração, dos combustíveis, mas, quando há consumismo, existe um abuso. Recordo do meu tio, que era correntino [de Corrientes, na Argentina], que, nas Cataratas do Iguaçu, me ensinava a pescar os dourados, peixes lindos. Ele me ensinou a pescar com miolo de pão, fazer bolinhas de pão, jogar na água e depois com um anzol tirar o dourado. Mas ele me dizia: não se esqueça que tem que pescar o que vai comer. Não mais que isso. Se vai comer um, pesca um. Se dois, dois. Não mais. Porque dos mesmos peixes dependem outros pescadores. Uma coisa é o desenvolvimento, outra a exploração. O que fazem as grandes corporações com a soja ou com as megamineradoras é exploração, é privilegiar o capital financeiro em detrimento da vida dos povos. Isso prejudica a vida dos povos. Veja os agrotóxicos. Os agrotóxicos rompem a biodiversidade, a cadeia da vida. É curioso ver que na monocultura não há pássaros, não há sapos, não há mosquitos, não há nada. Não há alimento.

Quem defende agrotóxicos argumenta que, em termos de eficiência, eles permitem produzir mais rápido, com velocidade.

Creio que é isso que está provocando hoje danos mundiais. Porque os agrotóxicos esgotam a terra, contaminam a lavoura, a vida, os animais, os vegetais. Na Argentina uma empresa de mineração, a Barrick Gold contaminou diferentes rios, mas isso não interessa às empresas [mais informações sobre esse caso e outros relacionados disponíveis na publicação Na Justiça]. As empresas querem ganhar dinheiro, o ser humano não conta. O ser humano, como diz o Papa Francisco, está submetido a uma cultura de descarte. O ser humano já não conta, cada vez é menos necessário pela tecnologia. A fábrica que antes necessitava de cem operários hoje faz o mesmo com dois.

Com a situação política atual mais dura, com os avanços conservadores, com esse contexto econômico, como falar de utopia? Como manter a esperança?

Dentro de todo esse caos mundial há lugares em que as pessoas trabalham com alternativas. Alternativas agrícolas, por exemplo, agroecologia, criação de bancos de sementes naturais, as chamadas sementes crioulas. Esse processo ainda não tem uma dimensão política, mas tem sim uma dimensão social. É preciso traduzir tudo isso em alternativas políticas. Hoje os dirigentes políticos não estão preparados para isso como os cientistas, por exemplo. Fritjof Capra, um físico, começa a descobrir como a ciência está unida à espiritualidade e escreve O Tao da física. E há um livro em que ele fala sobre a medicina holística que se chama O ponto de mutação. Na medicina tradicional, se te dói o fígado, te curam o fígado mas destroem todo o resto. O médico não se preocupa em ver que a dor no fígado tem a ver com todo o organismo. Nós temos um pensamento cartesiano, analítico, que aportou muito, mas que é muito fragmentado. Hoje temos que ter um pensamento holístico, integrador. Nós somos parte de um todo, e esse todo é parte da gente. É como compreendemos não só a mãe terra, mas o cosmos. Havia um paleontólogo francês, Teilhard de Chardin, que falava da evolução do ser humano. Ele trata da biogênese, da antropogênese e da cosmogênese. Ou seja, o ser humano não está limitado e completo, nós estamos em um processo de construção. Se estamos destruindo a biogênese com tudo isso que falamos, estamos nos prejudicando. A evolução não vai ser natural, mas sim forçada, como uma semente da Monsanto. Na antropogênese, o ser humano está em um processo evolutivo, não só fisicamente, mas de consciência. A cosmogênese é quando um se considera parte do todo. Por isso, quando alguém diz, somos filhos das estrelas, faz sentido. O ser humano é filho das estrelas, tudo que existe é filho dessa famosa explosão mundial. Chardin sintetiza a espiritualidade também. O ser humano evolui espiritualmente também, com todas as suas contradições. Más há uma consciência que é de toda humanidade.

Quando fala em espiritualidade, sua perspectiva é diferente da do fundamentalismo, não só do islâmico, mas do fundamentalismo cristão também. No Brasil, temos hoje avanços de linhas religiosas fundamentalistas. Há quem analise esse fenômeno a partir dapercepção de que os políticos ignoraram e deixaram de fazer trabalho de base e na política não existe vácuo. Grupos muito fundamentalistas ganharam espaço entre o povo.

Sim, existe isso, lamentavelmente. É o que eu designo como monocultura das mentes. É o absoluto e depois o abismo. Se sai disso, não há nada. Os fundamentalismos são como agrotóxicos, contaminam-se uns aos outros. É isso que se vê também nas forças armadas, na polícia. Eu muitas vezes tento imaginar que um ser humano torture, mate e depois lave as mãos, chegue em casa e ame a mulher, os filhos? Isso é a suspensão da consciência. É o que acontece quando todo um grupo faz o mesmo. É o que aconteceu com os nazistas, com as ditaduras latino-americanas, com os soldados que vão combater no Oriente Médio. São fundamentalismos. Se todos fazem o mesmo, violam, matam, torturam, a culpabilidade se dilui no coletivo. É incrível como isso se dá. Uma tomada de consciência, uma compreensão da Não Violência, não é somente quando se está diante de um conflito, mas na forma de viver, na forma de compreender a realidade. A Não Violência não se aplica somente nos conflitos; quando se chega a um conflito a pessoa já se sabe o que fazer.

Viver é um ato político.

Sim, e isso tem a ver com o olhar que cada um tem para com os demais e consigo mesmo. É preciso colocar em prática tudo isso. Eu muitas vezes falo de Henry David Thoreau, que escreveu A desobediência civil, ele é o Não Violento que inspirou Gandhi, Luther King. Ele, em algum momento, diz que toda pessoa amante da liberdade deve ser respeitosa com a lei. Porque a lei em uma sociedade é necessária. Porém, em seguida, Thoreau diz: cuidado, nem toda lei é justa. Devemos resistir às leis injustas, é preciso rebelar-se contra as leis injustas até sua total nulidade. Ele negou-se a pagar os impostos da guerra de Estados Unidos contra México, porque dizia que não poderia dar aval a uma guerra injusta. Por isso foi preso, mas manteve a posição de não aceitar uma injustiça.

Para finalizar, quais são as suas principais referências?

Para mim, a espiritualidade. Quando alguém lê o Evangelho, vai descobrindo as coisas. Além disso, há os exemplos de vida de muita gente que conheci e que também estudei como Gandhi, Luther King, Cesar Chavez [líder sindicalista de trabalhadores rurais mexicanos nos Estados Unidos], Hélder Câmara. Há Leônidas Proaño, bispo dos índios do Equador. E há o trabalho com as comunidades de base, indígenas, camponeses, homens, mulheres. É com essas vivências que uma pessoa aprende. Se a gente não muda e aprende, acaba entrando nesse caminho de autodestruição. O apocalipse está sendo gerado pelo próprio ser humano quando destrói a natureza, a vida, o próximo. A gente pode ser feliz, não estamos aqui para sermos desgraçados, mas para sermos homens e mulheres livres. Como transformamos a cultura de violência em uma cultura de paz? A cultura de paz não é ausência de conflitos, mas sim a cultura das relações. É preciso trabalhar, estudar, aprender, sempre respeitando a diversidade. Se não respeitamos, entramos nesse caminho sombrio que não sabemos onde vai dar.

Pela história sabemos, não?

Claro. Há um escritor argentino Leopoldo Marechal que diz que muitos se metem nos labirintos e depois não podem sair. Mas dos labirintos a gente sai por cima. Genial. Así es.

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