Cosmopolita

Ontem eu fui assassinada, mas hoje eu ainda luto.

‘Ontem eu morri no corpo de dezenas de outras mulheres que são estupradas, espancadas, dadas de comer aos cachorros’. Edianne Nobre

Ontem eu fui assassinada. Arrebentaram meu crânio com uma furadeira. Os golpes atingiram não só a cabeça, mas meus braços, meus seios, meu estômago. Jorraram de mim lágrimas e sangue. «Então eu vou te cortar a cabeça, Maria  Chiquinha / Que cocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem? / Que cocê vai fazer com o resto? / O resto? Pode deixar que eu aproveito» [1]

Ontem eu fui perseguida na rua por dois homens. Eles assoviavam e me diziam: «Gostosa! Quero te provar, cozida a vapor, quero te provar. Sem medo e sem amor, quero te provar» [2].

Ontem ejacularam na minha cara em um ônibus lotado enquanto eu repousava meu corpo cansado de uma longa jornada de trabalho. Ele, um desconhecido, foi para casa e, eu, chorei o leite que escorria na minha face. Contra a vontade. «Se fosse mulher feia tava tudo certo, mulher bonita mexe com meu coração» [3]

Ontem me mataram numa maca de hospital. Me abriram as pernas para tirar o feto que eu não podia ter, que eu não queria ter. Me abriram com violência. “Não grita! Quando foi pra fazer não doeu não é?!”. «Tudo que é perfeito a gente pega pelo braço, joga ela no meio, mete em cima, mete embaixo» [4]

Ontem meus “amigos” me embebedaram e me estupraram repetidamente. Eu, inconsciente, sentia as estocadas, como em um sonho ruim. Não sabia direito o que tinha acontecido, mas depois eu vi. Eles filmaram tudo e colocaram na internet. «Joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni». [5]

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/ Blogueiras feministas

Ontem meu namorado me espancou porque eu estava trocando mensagens de trabalho pelo W com alguém, e ele achou que era traição. «Mas você não dá, ou melhor, dá, mas pra todo mundo! Merece era uma surra de espada de São Jorge.» [6]

Ontem me sequestraram do hotel onde eu estava porque segundo ele, “mulher não pode viajar ‘sozinha”. Tentei explicar que eu não estava sozinha, que viajava com uma amiga, mas ele contestou, mulher sem homem é sozinha. «Não é machismo, fale o que quiser, o que é, é, verme ou sangue bom tanto faz pra mulher» [7]

Ontem eu fui esfaqueada porque disse não às investidas dele. Ele insistia, mas amor por ele, não tinha. Eu não o queria e ele não queria ouvir. «Tô a fim de você, e se não tiver, você vai ter que ficar. Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada e dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca. Vai namorar comigo, sim! Vai por mim, igual nós dois não tem. Se reclamar, cê vai casar também!» [8]

Ontem eu fui atacada na sala de aula por um aluno que me disse: Você não sabe de nada! Só porque eu sou mulher! «Se ele te bate, é porque gosta de ti, pois bater-se em quem não se gosta, eu nunca vi»[9]

Imagem: CUT Brasília

Ontem eu morri no corpo de dezenas de outras mulheres que são estupradas, espancadas, dadas de comer aos cachorros. Ontem eu morri no corpo de dezenas de mulheres que tem seus corpos vilipendiados, humilhados, rasgados pelos desejos de homens que não sabem ouvir NÃO. «Você precisa é de um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja eu…» [10]

Hoje eu queria não morrer de novo, mas eu sei que vou. São 13 feminicídios diários no Brasil. 503 mulheres são espancadas a cada hora. Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Dados A violência está no cotidiano, na televisão em horário nobre, nas músicas, nos comportamentos, nas redes sociais, na omissão da família.

Quantas mais precisarão morrer para que isso acabe? Quanto de luto ainda há para viver? Quanta luta ainda é necessária para vencermos o machismo nosso de cada dia?

Músicas citadas:

[1] Maria Chiquinha, Sandy e Junior. [2] Garota Nacional, Skank. [3] Amiga da minha mulher, Seu Jorge. [4] Pau que nasce torto, É o Tchan. [5] “Geni e o Zepelim” – Chico Buarque. [6] Trepadeira, Emicida. [7] Estilo Cachorro, Racionais Mc’s. [8] Vidinha de Balada, Henrique e Juliano. [9] Amor De Malandro – Francisco Alves. [10] “Mesmo Que Seja Eu” – Roberto e Erasmo Carlos.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

 

 

Cosmopolita

A amiga genial

“Isso me fez pensar no quanto estamos dispostos a construir relações duradouras e honestas. E o quanto isso é difícil.” Por Edianne Nobre

O tempo, como em todas as coisas, era decisivo.

Elena Ferrante

Nos últimos dois meses imergi na tetralogia da autora Elena Ferrante: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e quem fica e A menina perdida. Elena e Lila, protagonistas da história, são amigas desde a infância. Compartilham não só histórias peculiares de vida, como também, várias tragédias pessoais.

Eu, que não tenho amigos de infância, alguns mais antigos, fizeram parte da minha adolescência, fui seduzida pela história. Em parte, porque o romance é muito bem escrito e Ferrante sabe como conduzir a narrativa, em parte, porque este ano tive uma experiência dolorosa envolvendo uma amizade.

Revendo minhas notas cotidianas <isto não é um diário>, percebi o quanto quis negar para mim mesma como perder essa amiga mexeu comigo. Depois do rompimento, chorei rios e no outro dia decidi não me importar mais. Mentira. A presença dela ficou ali no meu quarto, nos meus textos, nos filmes e séries que eu assistia e me lembravam ela, nos memes do Instagram que compartilhávamos como duas adolescentes, no café que eu deixei de frequentar porque foi ali que começamos nossa amizade, no sushi que eu deixei de comer porque não tinha graça ir sem ela. Nos cruzamos algumas vezes, e sempre me partia o coração, mas eu fingia não sentir. Ela sempre sorria quando me encontrava. Eu nunca.

Romper essa amizade me fez pensar na minha capacidade de manter relacionamentos. Me senti impotente e culpada. Minha terapeuta insistia que algumas relações têm data de validade, <Que o pra sempre, sempre acaba>. Isso me fez pensar no quanto estamos dispostos a construir relações duradouras e honestas. E o quanto isso é difícil. O quanto estamos dispostos a ceder, a entender o outro e seus limites, a entender nossos próprios limites. Nossa conduta não é sempre medida pela aprovação dos outros? Como Elena que dependia de Lila e vice-versa. Eu que sempre fui ciumenta e possessiva como uma criança de 7 anos, aprendi muito sobre mim mesma com esse rompimento. Talvez, amizade seja isso: ela me ajudou mesmo quando não estava presente.

Lendo a história de Elena e Lila, às vezes, eu me sentia Elena: totalmente dependente do amor de Lila, insegura, carente, precisando de alguém que me suportasse (em vários sentidos). Às vezes, eu era Lila: autoritária, rigorosa, inflexível, determinada a esquecer. De algum modo, as duas se completavam, mas também criaram um relacionamento abusivo de co-dependência, uma consumindo a outra com seu desespero. <É preciso saber viver>.

Ferrante nos ensina que o que falta neste mundo é equilíbrio e <tem coisas que só sai da gente por escrito>. Eu demorei a escrever sobre isso porque não podia assumir a minha fragilidade. Não conseguia assumir a falta que sentia e o vazio no peito. É mais fácil culpar o outro do que olhar para dentro de si e lidar com as feridas abertas. <O prefixo do amargo é amar>.

A boa notícia é que conversamos e nos entendemos.

Quem sabe, seja esse mesmo o sentido da amizade ou de qualquer relação. Quando perdemos, temos a chance de repensar nossa própria conduta e nos colocarmos no lugar do outro. Nos curarmos de nosso próprio ego e orgulho, relativizar. Recomeçar.

Não é voltar atrás, ao contrário, é olhar para frente.

 

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

Cosmopolita

Gypsy ou a terapia como descoberta da cigana que mora em mim

Estar fora de si é, na verdade, olhar para o âmago e permitir aflorar tudo o que a sociedade reprime. Por Edianne Nobre*

So I’m back to the velvet underground
Back to the floor that I love
To a room with some lace and paper flowers
Back to the gypsy that I was to the gypsy that I was.

Fleetwood Mac, 1982.

Semana passada estreou uma nova série na Netflix: GYPSY.

A sinopse, como sempre, é tão malfeita que não dá conta do que a série trata, ao menos, na minha interpretação. Estrelada pela maravilhosa-deusa-diva Naomi Watts (vejam Mulholland Drive, David Lynch, 2001), o roteiro traz uma terapeuta, Jean, que se envolve intimamente nas histórias de seus pacientes através de um alter ego: Diane. Estas duas personas (do grego, máscara) funcionam, alternadamente, no sentido de ajudar a protagonista a lidar com a sua vida pessoal e com a vida de seus pacientes. Não pretendo aqui esmiuçar a história, então no spoilers.

Meu interesse hoje é refletir mais sobre a terapia como forma de conhecer as personas que carregamos dentro de nós. Algo que já me inquieta há algum tempo e que não tinha tido oportunidade de falar sobre. Queria começar com algumas premissas: 1. Uma pessoa cosmopolita é alguém <que faz muitas viagens, adaptando-se rapidamente ao modo de vida dos locais onde passa>. 2. Gypsy, por sua vez, é a palavra inglesa para cigano ou <para significar uma pessoa que não gosta de morar no mesmo lugar durante muito tempo, como os ciganos nômades>. Todo cosmopolita é Gypsy. Todo Gypsy é um viajante.

Para o filósofo Jean-Luc Nancy, o viajante sempre leva o sentimento de intrusão dentro de si. O medo constante de não se adaptar, de ser expulso ou rechaçado na sociedade em que busca se inserir. Ser aceito significa também ser assimilado e ser assimilado é não ser visto, é tornar-se comum. Assim, toda a discussão sobre a aceitação das diferenças leva justamente à eliminação das diferenças. O sonho de todo viajante-cosmopolita-gypsy (não falo de turistas) é ser aceito, passar como alguém do lugar, respirar o mesmo ar, comer a mesma comida, ter as mesmas sensações do nativo. É usar a máscara do outro.

A terapia, tem sido para mim, uma forma de imersão em um mundo completamente desconhecido, um mundo estranho como o <através do espelho> de Alice. Todos nós carregamos mais sombras, fantasmas, medos e desejos do que podemos supor. Como historiadora, a linguagem tem muita importância para mim. Mas, por vezes, me deparo com experiências que não podem ser narradas. Por exemplo, como falar das experiências que você não consegue lembrar? Ou como falar de experiências extremamente dolorosas para serem recordadas? Como contar sonhos que se evanescem ao acordar? Isso me leva também a outras questões: Como lidar com situações que fogem do seu papel social? Quem nunca quis ser outra pessoa, alguém diferente? Mais seguro de si, mais decidido, mais sexy?

Quem você é quando ninguém está olhando? / Imagem promocional Netflix.

Nos deparamos com dois reinos bem distintos, mas bem próximos: de um lado, Mnemósine, a Memória, que carrega consigo o véu da lembrança e a capa do esquecimento; de outro, o domínio de Clio, musa da História, sempre uma narrativa produzida que se pretende coerente, que é sempre intencional e, muitas vezes, é também, um discurso de poder.

Voltando à série. Para mim, Jean e Diane, representam a História e a Memória, a primeira, sob controle, que eu desejo contar; a segunda, uma cigana, aquela que sou no meu íntimo. A primeira, que cria uma imagem social-aceitável de si. A segunda, viajante estrangeira composta de sonhos, desejos, vontades que não ouso manifestar, a não ser, em estado de persona, isto é, quando não sou o sujeito histórico e social que devo ser, quando não estou seguindo as regras do jogo e obedecendo as convenções sociais.

Quando estou <fora de mim>.

A própria expressão é bem curiosa. Estar fora de si é, na verdade, olhar para o âmago e permitir aflorar tudo o que a sociedade reprime. <No próximo milênio seremos todos insanos>, dizia Harper no filme Angels in America. Vivemos em um estado de eterna confusão mental proporcionado pelo excesso de promessas da modernidade, pelo apelo comercial, pelas propagandas de felicidade, pela sedução do corpo fitness, do amor perfeito e modelos de beleza e status que nos são vendidos diariamente. Rivotril Society. <Acabei de tomar meu Diempax, Meu Valium 10 e outras pílulas mais. Duas horas da manhã recebo nos peito um Triptanol 25. E vou dormir quase em paz>. Anormal é não tomar. Somos uma sociedade de viciados: em café, açúcar, pílulas, tecnologia e sexo.

Nos preocupamos tanto em contar a História que os outros querem ouvir, que nos esquecemos da nossa cigana interna, aquela que quer ser livre e aventurar-se. A destemida, a amoral, a impulsiva. Este tempo que vivemos nos afasta de nós mesmos. A terapia é uma forma de contato com a parte mais obscura de nossos pensamentos. Talvez, a chave cognitiva para entendermos nossas ações no cotidiano, para acessar o porão do inconsciente, metáfora freudiana.

O problema é que mergulhar no mundo do inconsciente é assustador demais. Fácil é manter tudo na superficialidade. Aceitar que somos mais que um, aceitar que carregamos outras personas dentro de nós, pode ajudar a viver nesse mundo louco?! Quantas de mim eu carrego como uma boneca russa em loop infinito?

E talvez, a pergunta mais importante, eu sou capaz de me aceitar como sou?

 

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

Cosmopolita

Sou bi e… meu corpo não é invisível

“Vistos como indecisos, promíscuos e/ou infiéis, os bissexuais sofrem bifobia dentro e fora da comunidade LGBT”. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre

Eu gosto de homens e de mulheres.
E você o que prefere?
E você o que prefere?
Homens que dançam tango
Mulheres que acordam cedo
Homens que guardam as datas
Mulheres que não sentem medo.  

– Angela Rô Rô

 

No final de semana passado a Associação Sertão LGBT organizou um evento na orla de Juazeiro com o tema: Bissexuais: corpos invisibilizados. A iniciativa foi interessantíssima, <cabelo ao vento, gente jovem reunida> e me fez pensar em muitas questões (sim, sou dessas, preciso problematizar).

A primeira vem do fato que a sigla LGBT vem responder historicamente à uma ausência, mas ela mesma, cria divisões. Me explico: antes, a sigla usada para se referir às pessoas que não se enquadravam na sexualidade heteronormativa era GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), uma sigla excludente porque colocava todas as demais orientações sexuais em uma única categoria, a de simpatizante. A sigla foi sendo substituída, aos poucos por outra que pretendia abarcar um público mais amplo. Assim, em uso desde a década de 1990, a sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros foi oficializada no Brasil em 2008. Atualmente essa sopa de letras é maior, incorporando o Q de Queer e o I de Intersex, ou mesmo, um sinal de + ao final, para indicar outras formas de sexualidade.

Bandeira do Orgulho Bissexual desenhada por Michael Page em 1998.

Voltando ao que interessa, ou seja, aos Bissexuais, a questão se complica um pouco. O B da sigla continua sendo uma grande controvérsia. Vistos como indecisos, promíscuos e/ou infiéis, os bissexuais sofrem bifobia dentro e fora da comunidade LGBT. <Todo mundo quer saber com quem você se deita, nada pode prosperar>, como diria o Caetano. Eu, na verdade, assumo que sofri mais bifobia por parte de gays e lésbicas (melhorem, amigos) do que de heterossexuais.

A bissexualidade é, muitas vezes, atribuída à homens que “querem disfarçar a homossexualidade” ou “mulheres curiosas”. <I kissed a girl and I liked>. Alguns dados do Journal of Public Health, mostram que “mulheres bissexuais sofrem mais problemas de saúde mental do que mulheres lésbicas; por isso, mulheres bissexuais têm 64% mais probabilidade de enfrentar distúrbios alimentares, 37% mais chances de ter comportamentos de automutilação e são 26% mais vulneráveis a depressão.

O estereotipo é tão forte que os bissexuais são alvo constante de piadas (não, não somos unicórnios), objetificação (não somos um objeto para o seu prazer), convites para sexo à três (não nos interessa fazer parte da sua fantasia), vistos como incapazes de manter um relacionamento monogâmico (eu nunca traí, mas já fui traída por goldstar lésbicas**, vai saber, né?), como pessoas que só querem relacionamento aberto ou poliamoroso (o que é perfeitamente aceitável, mas não é regra, arrisco dizer que é exceção) ou ainda, como pessoas hiper-sexualizadas ou fetichizadas (não, não saímos transando com todo mundo que aparece na nossa frente, muito menos, vivemos fazendo ménage ou swing por aí).

Se é difícil para as mulheres bissexuais, os homens também sofrem com a questão. Tidos como covardes por não assumir uma homossexualidade inexistente ou como incapazes de serem fieis em uma relação afetiva. Esse tipo de preconceito é reforçado inclusive na mídia. Várias séries mostram personagens bissexuais como pessoas promíscuas ou propensas à traição. Na série Orange is the New Black, por exemplo, a personagem Piper sempre me incomodou, pois sempre foi mostrada como alguém instável e insegura com a própria sexualidade. Apesar de assumir seu romance com Alex, a personagem é apresentada muitas vezes como uma “lésbica incompleta”, pois, claramente, sente atração sexual e afetiva por homens.

Como lembra a Lívia Reginato, << As representações de pessoas bissexuais na mídia propagam a concepção que bissexualidade é uma escolha imoral, uma depravação, um tipo de diversão ou até experimento, o que ajuda que essa sexualidade siga no patamar de mito. A mídia, quando não simplesmente se nega a reconhecer a atração por mais de um gênero como válida, distorce a imagem dos personagens bissexuais objetivando dar material para o imaginário do público. Os despersonaliza e os coloca na categoria de simples devassos de caráter duvidoso.>> Leiam o texto dela sobre representações dos bissexuais nas séries de tv: ma.ra.vi.lho.so.

Mas… HELLOW! Bissexual é uma pessoa cuja orientação (não, não é uma escolha) afetiva e sexual pode ser direcionada à ambos os sexos. O American Institute of Bisexuality , em uma pesquisa sobre preconceito sexual mostrou que 72% dos bissexuais não assumiam sua sexualidade publicamente, ou então, declaravam-se “sem rótulo”, o famoso clichê: “eu gosto de pessoas”, pois é mais fácil assumir-se enquanto gay ou lésbica, do que como bi. Recentemente ouvi de uma lésbica, que eu não deveria contar sobre minhas experiências nos meus relacionamentos com homens porque ela <sentia nojo>. É justamente disso que se trata. Muitas vezes, bissexuais são obrigados a esconder sua sexualidade para não perder um parceiro/a ou para se poupar de algum comentário constrangedor como esse.

Eu não me torno lésbica se saio com uma mulher ou hétero se saio com um homem. O ponto é que me torno mais livre e compreensiva com meu corpo, sentimentos e desejos. <I’m beautiful in my way. ‘Cause God makes no mistakes. I’m on the right track, baby. I was born this way>.

 

*Goldstar é um termo gay para pessoas que nunca ficaram ou tiveram relações sexuais com pessoas do sexo oposto.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

Cosmopolita

Sobre apego e o vazio nas relações contemporâneas

“Mas cada pessoa traz uma bagagem e o medo de que experiências do passado se repitam não vão resolver nossa solidão no presente.” Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

|A solidão passou a constituir o único
meio de furtar-se à sensação opressiva de
estar constantemente falhando,
por não saber viver como os outros viviam.|

– Elisa Lispector

 

<<Não quero relacionamento sério>> é, provavelmente, a frase mais dita pelas pessoas neste milênio. Segundo experiência própria e relatos de vários amigos (e olha que eu conheço muita gente), quase ninguém quer relacionamento sério. Por que se amarrar se é preferível ficar flanando por aí de pessoa em pessoa, de corpo em corpo, de uma relação vazia à outra? Pior ainda é quando a frase acima vem acompanhada do bordão: <<O problema não é você, sou eu>>. Dá vontade de rir e dizer: <<Realmente, o problema é você>>. Em um contexto de amor líquido ninguém quer se comprometer. Para viver neste mundo <<tem que ter habilidade>>. As questões da vida a dois se tornam cada vez mais difíceis. <<Queria que o intenso não viesse com o tenso>>, como diz minha amiga Maíra.

Eu não sou contra o “amor livre”, só quero viver o amor-livre- com-alguém.

Será que estamos nos abandonando, paulatinamente, ao vazio? Será que as relações se tornarão cada vez mais insignificantes e fluidas, com corpos famintos deslizando continuamente por outros corpos famintos sem se deixar amparar ao cuidado do outro? <<Poderia ser twogether but it’s just alone>>. Minha terapeuta diz que eu tenho uma imagem idealizada do que é um relacionamento amoroso. E, para meu temor, talvez ela tenha razão. Conheço casais que estão juntos há 15, 25, 40 anos. É errado querer isso para mim também? Eu não sou contra o “amor livre”, só quero viver o amor-livre- com-alguém.

Sem apego mas com amor. O apego talvez seja o maior empecilho hoje. As pessoas confundem posse com cuidado, ciúme com carinho, cobrança com dedicação. Na verdade, tenho a sensação que procuramos no outro uma cópia de nós mesmos, ainda quando somos incapazes de lidar com nossas próprias fobias e dores. O erro é depositar essa carga no outro. Mas cada pessoa traz uma bagagem e o medo de que experiências do passado se repitam não vão resolver nossa solidão no presente. É difícil. Toda relação envolve sofrimento, em maior ou menor medida, para todas as partes envolvidas.

– Descreva nossa relação em duas palavras? – Nossa o que? Fonte: Wink Magazine

A maioria busca um amante perfeito, aquele que suprime a carência temporária de sexo e suor. Aquele que cumpre seu papel e vai embora. Aquele que promete não esperar (para não se apegar). Aquele que não acaricia seu cabelo (enquanto você dirige). Aquele que não quer te ver (numa segunda à noite). Aquele que não pensa nos beijos (dados, roubados, queridos). Aquele que não diz coisas românticas (cliché de enamorados que contam os minutos para rever o outro). Aquele que não ri das piadas (que você faz sobre sua altura). Aquele que não conta segredos (que não compartilha). Aquele que não te liga às três horas da madrugada (perguntando se você tem saudades; quando vamos nos ver? Dorme aqui em casa hoje?). Aquele que não tem esperanças nem ilusões ou expectativas <<porque meu coração se cansou de emoções equivocadas>>. O amante perfeito não existe e a gente acaba magoando muitas pessoas nesse processo de proteger o coração com uma armadura anti-amor.

Anti-amor. O que falta é equilíbrio. Bobagem. Para mim, o amante perfeito é aquele que passou por tantas frustrações quanto eu, e, ainda assim, não tem medo de ficar.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

Cosmopolita

Do direito à tristeza

Não precisa ser um gênio para perceber a tristeza no outro, mas precisa muita coragem para chegar perto e oferecer um ombro.

Por Edianne Nobre*

Tris.te.za. s. f.
1. qualidade ou estado de triste;
2. estado afetivo caracterizado
pela falta de alegria; 3. pela melancolia.
4. caráter do que desperta esse estado.

 

Cheguei de viagem ontem. Por aqui coração batendo forte, mais que tambor de escola de samba. Tenho uma percussão dentro de mim. Dói. Me perguntaram porque parei de escrever. Nunca parei de escrever. Parei de publicar. Por que? Primeiro, porque sinceramente penso que ninguém está interessado no que escrevo. Eu sou a personagem da minha história. Eu sou Edi-Anne with an E. Segundo, porque tenho tendências a refletir sobre assuntos que me incomodam, quase sempre temas muito melancólicos, meu humor predominante, segundo Hipócrates, e muitas pessoas acham que me exponho demais.

As pessoas têm medo de se expor. Quer dizer, têm medo de expor o “real”. O que sentem de verdade, lá no fundo daquele órgão estúpido que temos no peito. Eu tenho medo de sufocar. <Angústia é fala entupida>, dizia Clarice Lispector.

Nenhum problema em expor a “felicidade”, claro. Ser feliz é bom, saudável e rende curtidas no facebook twitter instagram. Vejamos um perfil ideal: pode uma selfie na academia #vidasaudavel; pode selfie sozinha no quarto, maquiagem no rosto, roupa nova, uma taça de vinho ou cerveja, para mostrar que <pensaram que eu estava na pior> #nottodaysatan. Pode foto de família feliz, mesmo que internamente eles se odeiem, o que importa é ficar bem na foto, principalmente durante o dia das mães, do pais, aniversários, e, claro, no Natal #familiatop. Pode foto de “amigos” do trabalho ou da universidade. Melhor foto é aquela com todos levantando alguma bebida para o ar #amigosprasempre. Pode foto da namorada ou namorado, de preferência dando beijinho, com um olhar enviesado para a câmera de quem quer olhar para foto mas não quer perder o amor de vista #amorverdadeiro. Pode foto de viagem na praia ou no campo, de preferência perto de água corrente e em pose de contemplação #viagemabençoada.

Mas foto triste, não. Ser triste é feio. Gente triste é feia. Ter depressão pode, afinal é a doença do século. Mas não pode mostrar. O mundo contemporâneo é cruel com quem sofre. As pessoas não se permitem mais demonstrar o que sentem e <<no geral, eu finjo bem>>. Não tenho nada contra as imagens de felicidade que citei acima <hapiness is a warm gun>. Só reivindico meu direito de sentir-me blue.

No filme Divertida Mente, a personagem Tristeza (Sadness) ganha destaque por mostrar que estar triste não é necessariamente algo ruim. Não precisa ser autodestrutivo e pode ajudar a lidar melhor com as dificuldades.

Personagem Tristeza em Divertida Mente.

Mas eu dizia no começo do texto que voltei de viagem ontem…  e viajar é minha saída nesse mundo louco. Já conheci muitos lugares, <<já morei em tanta casa que nem me lembro mais>>. Fui ao sul maravilha, um friozinho bom de outono, minha estação preferida. Com chuva e folhas de castanheiro espalhadas por todo lugar. Em Porto Alegre fiquei num Airbnb (melhor invenção ever depois do Uber) de uma senhora de sessenta anos. Aposentada e sem filhos, ela decidiu começar a receber pessoas. Um lugar lindo, de frente para o Rio Guaíba (que não é mais bonito que o São Francisco, mas…). No sábado, passei o dia com amigos: comida, risos, conversas maravilhosas #friendsforever. Eu estava feliz. Aí vem a novela.

Sabe aquele tipo de pessoa que não pode ficar feliz porque acha que tem algo errado? Bate logo um pressentimento de que algo não vai dar certo, coração bate mais rápido, taquicardia e a porra toda? Sou eu. Pois é. No domingo, provocada por uma situação que não convém registrar aqui, estive triste todo o dia. Uma tristeza daquelas que você quase pega com as mãos de tão palpável que é. Daquelas que as lágrimas ficam constantemente ameaçando cair. Tem coisa que é de uma violência incrível. Que toca na gente. Fundo. E eu sou uma empata (não sabe o que é? Veja aqui).

A senhora da hospedagem percebeu. (Culpa da intensidade transparência clareza que trago em mim.) Não precisa ser um gênio para perceber a tristeza no outro, mas precisa muita coragem para chegar perto e oferecer um ombro. Não é todo mundo que faz isso porque tristeza é uma doença que pode contaminar. E no mundo moderno ninguém quer ficar doente. Ninguém gosta de gente doente, de gente triste. As pessoas toleram. Tolerar é diferente de respeitar.

Dona A., vamos chamá-la assim, percebeu minha inquietude e me ofereceu seu ombro. E me disse algo que eu nunca vou esquecer na vida: < curta a sua tristeza, não a despreze, não pense que ela é feia. Sua infelicidade é parte de você também. Não tenha vergonha de se sentir assim. As pessoas esqueceram-se como sofrer e não aguentam mais a pressão, mas se você acolher a sua tristeza, deixá-la entrar e procurar entendê-la, cada dia mais você aprenderá a conviver com ela e, um dia, ela poderá partir tranquila >. Carpe Diem ainda que triste.

Neste dia, não teve foto no Instagram. Não teve hashtag. Eu fiz o que sempre faço quando sofro. Desativo minhas contas no mundo virtual para não me desativar no mundo real. E escrevo. <Insisto na maldade de escrever>. E a tristeza pode ser um patinho feio, mas eu tenho direito a senti-la. Todos temos. Eu acolho esta tristeza e tento transformá-la em algo bom. Tento aprender uma lição. Tento não repetir os mesmos erros. Me desconecto do mundo virtual para me reconectar a mim mesma e aos meus sentimentos.

Sinta. Escreva. Publique. São as palavras de ordem.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

Cosmopolita

Cultura surda e a necessidade de quebrar as barreiras na comunicação

‘Nós, seres humanos, tendemos a reforçar uma imagem distorcida de quem é diferente da norma estabelecida, é difícil aceitar a diversidade’. Por Edianne Nobre

Em meio a mil palavras
Um único gesto molda toda a expressão do sentimento
O corpo se expressa com desenvoltura
E as mãos seguem graciosamente cada movimento
Ouvidos trocados pelos olhos em uma escuta atenciosa
E o balé das mãos segue incansável e incessante.
– O balé das mãos, Alexis Pier Aguayo

Nós que nascemos com a habilidade de ouvir temos imensa dificuldade de imaginar o mundo sem seus sons, barulhos, rumores. É difícil imaginar acordar no silêncio, comer em silêncio, viver em silêncio. Aliás, no mundo contemporâneo, as pessoas odeiam o silêncio. Acordam com o despertador do celular tocando uma música estridente, ligam a TV para dirimir a sensação de estarem sozinhos, ligam o som do carro, falam alto, mandam áudios pelo whatsapp, tudo para esquecer a possibilidade do silêncio.

E se você tivesse nascido sem poder ouvir?

12751174_138569696529160_339132973_n

[Imagem: Prosa de Cora]

Neste ano, tive a oportunidade de iniciar um curso de Libras – Língua Brasileira de Sinais*, no Centro Auditivo Municipal de Petrolina**. Era uma vontade antiga e embora eu não tivesse contato com surdos, sempre me interessei pela dinâmica da língua.  Fazer esse curso me inseriu em um novo universo de possibilidades e posso dizer sem medo de errar: é apaixonante!

Nós, seres humanos, tendemos a reforçar uma imagem distorcida de quem é diferente da norma estabelecida, é difícil aceitar a diversidade. Os ouvintes tendem a ver os surdos como pessoas nervosas ou agitadas e não é bem assim. Imagine você chegando em um país, no qual, você não fale a língua local, como faria para se comunicar? Seria confuso e, provavelmente, você ficaria nervoso, gesticularia e tentaria de todos os modos se fazer entender. Eu lembro que quando morei na Argentina, fiquei arrasada um dia em que, indo a um restaurante, não sabia pedir um guardanapo de papel, e, o garçom não fez nenhum esforço para tentar me entender. Acabei sem guardanapo e tive que esperar chegar em casa para procurar no dicionário a palavra correta: servilleta. Nunca mais esqueci.

A Língua de Sinais assusta porque utiliza instrumentos, os quais não estamos familiarizados. Por mais que usemos as mãos para falar algumas coisas, como para dizer “tchau” ou “legal”, ou mesmo apontar para alguém, ouvintes se comunicam essencialmente pela voz/escuta. O surdo, por sua vez, empreende uma comunicação espaço-visual. Assim, é importante lembrar que a designação “surdo-mudo” é incorreta. O fato de uma pessoa ter deficiência auditiva não significa que ela seja muda. A mudez é outra deficiência que não tem relação direta com a surdez e é raro encontrar um surdo que também seja mudo. Se o surdo não consegue falar é porque, provavelmente, ele não foi oralizado quando criança.

O neurocientista Oliver Sacks no livro “Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos” (recomendo muito!!!!), estuda a introdução da pessoa surda na sociedade ouvinte e ressalta que antes de 1750, os surdos eram vistos como aberrações, incapazes de se comunicar, eram abandonados pela sociedade e obrigados a viverem sozinhos, muitas vezes, na miséria, chegando inclusive, a serem perseguidos pela Inquisição Católica.

O problema nasce quando pais ouvintes tem um filho surdo, e, não sabem lidar com essa diferença. Hoje em dia, no entanto, não há mais desculpa para o preconceito e para a ignorância, pois temos alternativas para inserir a pessoa surda na sociedade. A criança surda deve ser acompanhada por um fonoaudiólogo e oralizada através da “terapia da fala”, a fim de que ela possa se comunicar melhor e aprenda a regular o tom da voz, bem como interpretar a língua dos ouvintes. Daí a importância de um órgão público que atenda às necessidades de famílias de classe social mais baixa que pela falta de informação ou de dinheiro, não conseguem lidar com este tipo de dificuldade.

[Imagem: Web]

Para entender o universo das pessoas surdas precisamos mergulhar nele, entender o que chamamos de Cultura Surda, ou seja, um espaço onde a comunicação flui de outras maneiras, um modo dos surdos se moverem e transformarem o mundo em um lugar acessível. A Língua de Sinais, além de tudo, é poética e um símbolo de resistência em uma sociedade que exclui. É de suma importância que busquemos quebrar as barreiras da falta de comunicação, que busquemos nos integrar. Você não precisa ser surdo ou conhecer algum surdo para ser sensível às dificuldades que eles enfrentam diariamente.

O curso básico de Libras para Iniciantes, aqui em Petrolina, vem sendo promovido trimestralmente no Centro Auditivo Municipal e, hoje, uma grande preocupação é que o curso deixe de ser oferecido. Por isso, esse texto é, também, um apelo às autoridades locais, principalmente, ao Senhor Prefeito eleito, para que esteja na pauta de governo dos próximos anos, a manutenção do curso gratuito de Libras no Centro Auditivo Municipal. Aprender a Língua Brasileira de Sinais é importante para a socialização e a integração na sociedade, seja você, surdo ou não.

É importante ressaltar que este texto parte de uma iniciativa minha, enquanto estudante de Libras, na qual, os gestores do Centro Auditivo Municipal não possuem nenhuma responsabilidade.

 

* Cada país possui uma língua de sinais própria, assim, a Libras é a Língua Brasileira de Sinais, existindo outras como: a Língua de Sinais Americana, a Língua de Sinais Francesa, a Língua de Sinais Portuguesa, etc.. Leia um pouco sobre a história da Língua de Sinais aqui no Portal da Educação. Vejam também o site Acessibilidade Brasil.

** O Centro Auditivo de Petrolina fica localizado na Rua Tobias Barreto, nº 240, Zona Central da cidade. O telefone para contato é o (87) 3863.3129. O horário de funcionamento é das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira.

 

* Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

Cosmopolita

Sobre como se recuperar de uma ressaca

‘Ressaca braba de tantas coisas ruins que aconteceram este ano’. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

Um dia, quando olhares para trás,
verás que os dias mais belos
foram aqueles em que lutaste.
– Sigmund Freud

Muitos amigos me perguntaram porque deixei de escrever neste espaço, e agora, antes que o ano acabe, e eu me arrependa de não ter respondido a essa pergunta, te digo, my friend: eu estava de ressaca. Ressaca braba de tantas coisas ruins que aconteceram este ano; ressaca de ver nossa democracia tão frágil e descuidada ser vilipendiada sem remorso; ressaca de ver uma presidenta eleita legitimamente ser deposta por essa gente careta e covarde que sabe, no entanto, que <<ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável>>; ressaca de ver essa piscina cheia de ratos, essas ideias que não correspondem aos fatos.

Desativei whatsapp, facebook e quase desativo a vida. Depressão, pulsão de morte, dirão os psicólogos. Eu digo novamente: uma ressaca. Do meu coração partido, <<quando ele foi embora, eu chorei por uma semana>>; de tanta falsidade: falsos amigos, falsos amores, das esperanças quebradas, da solidão, da fé que eu perdi. Tudo doía no meu corpo anestesiado. Um desses paradoxos inexplicáveis da vida.

so-cliche-banksy

[So cliché – Bansky]

Aí um dia eu viajei. Decidi pegar a estrada e me afastar de tudo isso. Conheci uma nova cidade e um rio que corre ao contrário, vi uma Super Lua do alto de uma montanha, reencontrei um amigo importante que me ensinou a perdoar, amei um poeta, recuperei a confiança em mim mesma. O remédio talvez seja esse: partir. Às vezes, é preciso ir e olhar tudo de longe. <<A vida só confisca o que sobra sem proveito>>, diria Damário Dacruz.

Voltei a escrever. Mergulhei lentamente no reino das palavras e elas me disseram que é cliché desejar que um ano acabe, esperando que o próximo seja diferente. <<Quem sabe faz a hora, não espera acontecer>>.

Então, tomei um Engov e aqui estou, enfrentando o papel em branco. Everything is temporary e a vida é muito frágil. <<Vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir>>. Outros clichés, eu sei, mas mais vale um cliché no presente do que dois no futuro incerto. Novamente, encaro de frente essa roda viva, encaro de frente a vida, e, se 2017 não for diferente, ao menos, eu serei.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

Cosmopolita

Eu também vou reclamar: um desabafo sobre intolerância, sobrevivência e a utopia de uma sociedade alternativa

O negócio agora é fazermos o que sabemos melhor: sobreviver. Se é de batalhas que se vive a vida, tentemos outra vez.

Por Edianne Nobre*

Eu vi Cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo
Pra pagarem seus pecados
Eu vi!

– Raul Seixas, Eu nasci há dez mil anos atrás, 1976.

Tem uma música do Raul que diz: “essa noite eu tive um sonho de sonhador, maluco que eu sou. Eu sonhei com o dia em que a Terra parou” (O dia em que a terra parou, 1977). Essa noite eu também tive um sonho, mas o contrário do sonho de Raul, o mundo não parou para que as pessoas percebessem que o que elas faziam não tinha mais sentido.

No meu sonho-pesadelo a Terra se abriu e libertou todos esses absurdos que estamos vivenciando no nosso cenário político e social. Eu sei que não é algo que surgiu de um dia para outro e que tudo o que estamos vendo é resultado de anos de corrupção, anos de concentração de renda nas mãos de algumas famílias, anos de injustiça, mesmo assim é difícil de acreditar.

Vivemos um momento assustador, marcado pela intolerância e pela libertação de preconceitos, antes sufocados pelas diversas lutas sociais do final do século XX. A internet, espaço virtual que propicia uma circulação imensurável de informações, muitas vezes, também se torna uma terra sem lei onde as pessoas acreditam que podem propalar aos quatro ventos tudo o que vem em suas cabeças. Há uma confusão geral no que diz respeito à chamada “liberdade de expressão” e parece óbvio, mas cada vez mais precisamos enfatizar que nossa liberdade de expressão acaba no momento em que se torna ofensiva ao outro, tipo os tweets abaixo publicados horas após a consolidação do processo de impedimento da presidenta Dilma Roussef:

odio odio10

[Imagens: Revista Fórum]

A internet com seu poder de aproximar as pessoas, curiosamente, promove também um afastamento dos princípios básicos da ética e do respeito. Supostamente protegidos pelo espaço virtual, agressores de todos os tipos revelam suas facetas machistas, misóginas, homofóbicas e racistas. Fico surpresa de ver pessoas que no convívio cotidiano se mostram respeitosas e doces, usarem a internet como forma de extravasar todo o preconceito que não têm coragem de manifestar ao vivo.

Então, eu também sonhei que barulhentas botas entravam na minha sala de aula e me detinham por dizer aos meus alunos que eles podiam refletir. Reflexão. Justamente a habilidade que nos diferencia de outras espécies. Nós, seres humanos, somos capazes de pensar, de refletir e racionalizar sobre os nossos atos. Imagina um professor sendo preso por dizer a seus alunos que eles podem pensar. Na verdade, nem precisar imaginar, olha para trás um pouco, lê um livro de História e você vai saber que já aconteceu: a censura, a educação de um partido só, escutas nas salas de aulas, “alunos” contratados para vigiar professores foram elementos presentes nas escolas e universidades brasileiras durante a vigência da Ditadura Militar no Brasil (1964 a 1985).

Quantos professores não foram presos e torturados por estimular seus alunos a refletir sobre o que viviam? Porque ensinavam sobre esse mal acumulado, sobre as pessoas que só querem tudo para si e nada para os outros?

11904673_1041820522509255_940260755117956184_n

Quando eu era criança, cansei de ouvir que pobre só tinha futuro se estudasse. Eu estudei. Me matei de estudar, “queimando pestana” dia e noite, como dizem no Ceará. Hoje eu sou professora doutora e devia estar contente “por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhada que eu estou decepcionada” (Ouro de Tolo, 1973). Diante deste retrocesso que estamos vivendo, como poderei dizer a meus sobrinhos e alunos que eles precisam estudar, se os programas de educação estão sendo dilacerados, filmes estão sendo censurados e uma mulher digna que não cometeu crime algum foi julgada e condenada por um bando de pessoas que possuem uma ficha que deixaria Al Capone envergonhado?

Vivemos uma sociedade alternativa por 13 anos, na qual apesar dos vários problemas administrativos, pudemos nos encantar com a possibilidade de sonhar: com um prato de comida na mesa, com mobilidade e igualdade social, com um mundo melhor e com a liberdade de se expressar respeitosamente. Tudo isso foi por água abaixo nesta semana. A Democracia morreu.

O negócio agora é fazermos o que sabemos melhor: sobreviver. Se é de batalhas que se vive a vida, tentemos outra vez.

 

* Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, saltar de paraquedas e dançar um tango em público.

Cosmopolita

Pequeno glossário do machismo nosso de cada dia

Se você é do tipo que acha que mulher que usa roupa curta, sai à noite para beber com as amigas ou rejeita uma cantada está pedindo para ser violentada, então você compactua e estimula a cultura do estupro. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre

Cadê meu celular?
Eu vou ligar pro 180
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
[…]
Você vai se arrepender
de levantar a mão pra mim.

– Douglas Germano, Maria da Vila Matilde

No mês que comemoramos os 10 anos de existência da lei Maria da Penha (11.340 /2006), os dados relativos à violência contra a mulher ainda são alarmantes. Segundo informações da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, 38,72% das mulheres sofrem agressões diariamente, lembrando que estes são relativos às denúncias. Muitos outros casos não são denunciados. Dos casos denunciados, cerca de 67,38% das mulheres foram violentadas por homens que possuíam vínculo afetivo com a vítima, ou seja, alguém do convívio cotidiano: namorados, amantes, maridos, ex, etc., sendo que em 27% dos casos a violência partiu de vizinhos, colegas de trabalho ou conhecidos.*

Eu que já fui chamada de “feminista diabólica” por conta de um texto anterior, gostaria de falar aberta e tranquilamente sobre estas questões que me incomodam, embora hoje não seja militante de nenhum movimento. A violência que nos cerca se apresenta em várias facetas: física, emocional, psicológica e virtual. Gostaria de me deter aqui nas investidas de tipo virtual, chamando atenção para o fato que muitas mulheres assassinadas e violentadas todos os dias podem ter sido vítimas de um ataque virtual. A linha que separa esses tipos de violência é muito tênue e uma agressão verbal pode facilmente tornar-se física. Obviamente, como uma amiga me chamou atenção, não existe uma hierarquia entre as violências, muitas se intercruzam e causam ainda mais danos à vida das mulheres.

Tomo como primeiro exemplo, os ataques aos diversos grupos feministas e ativistas LGBT atuantes nas redes sociais que defendem os direitos igualitários na sociedade entre homens e mulheres cis e trans**, hetero e homossexuais.

Estes grupos são, geralmente, acusados de tentar impor uma “ideologia de gênero”, conceito imaginário, sem fundamento e suporte de qualquer teoria que, segundo os agressores, configura uma “incitação ao homossexualismo ou gayzismo” e uma afronta à “família brasileira”. Obviamente, segundo estas pessoas, só existe um tipo de família: branca, cis, heteronormativa, cristã, de classe média ou alta.

Nessa mesma linha de pensamento, mulheres militantes dos direitos civis básicos são chamadas de “feminazis”, uma junção entre as palavras “feminismo” e “nazismo” em alusão ao suposto caráter autocrático do movimento de mulheres. Segundo a Bruna Leão do site Não me Khalo, o termo foi cunhado e difundido nos anos 1990 por um comentarista político conservador chamado Rush Limbaurg, de acordo com ele, uma feminazi é: “uma feminista a quem a coisa mais importante da vida é assegurar que o maior número possível de abortos ocorra” (Pausa para um “Annhh??!!”).

Estes mesmos defensores da moral e dos bons costumes não acreditam na existência de uma cultura do estupro, promovida cotidianamente em diversos espaços e situações. Bem, a cultura do estupro existe e endossa a ideia de que as mulheres são violentadas porque “não se deram ao respeito”, porque “são fáceis”, porque “pediram”. (Really?) Quando pergunto à uma mulher qual seu maior medo, 10 entre 10 respondem: ser estuprada. Ninguém, jamais, nunca na história da humanidade pediu por isso.

Se você é do tipo que acha que mulher que usa roupa curta, sai à noite para beber com as amigas ou rejeita uma cantada está pedindo para ser violentada, então você compactua e estimula a cultura do estupro. O agravante é que hoje temos no Congresso Nacional, vários políticos que incitam a prática, muitos deles, respondendo à processos por violência contra a mulher. Então o que fazer quando a violência parte daqueles que supostamente deviam assegurar nossos direitos?

13260255_957842534336878_8897032861160219507_n

[Imagem: Giovanni Vieira, Traço do Arquiteto.]

A cultura do estupro se dá também quando a mulher é objetificada em um papel de submissão e quando serviria somente para dar prazer ao homem, como na campanha de cerveja do Carnaval passado cujo slogan era: “Esqueci o não em casa”, sugerindo que mulheres quando bebem ficam mais disponíveis aos avanços masculinos.

Recentemente, tivemos dois casos emblemáticos dentro de Universidades, ambos dentro do curso de Medicina. Em 2014, o hino do curso da USP narrava como mulheres brancas, morenas e negras se comportavam na hora do sexo. Trigger Warning: o hino em questão dizia: “a morena gostosa/ abrindo as pernas/ querendo me dar/ […] crioula da b&@#$ fedorenta/ que eu não como nem lavada/ com água benta”. Sim, estes são os nossos futuros médicos!***

Mais perto da gente, aqui no Vale do São Francisco, a torcida da Atlética de Medicina daUnivasf cantou um hino que dizia que os futuros médicos estariam: “Comendo um bode assado e torando as meninas/ Bebemos como loucos/ trepamos como poucos”, segundo matéria publicada no Diário de Pernambuco de 23 de maio do ano passado.

Ambos os casos foram arquivados. É, dá pra ter medo do futuro, mesmo!

Como eu sou uma pessoa que gosto de escrever e, portanto, gosto das palavras em seus mais diversos idiomas, decidi trazer aqui um pequeno glossário dos termos, os quais, se referem às inúmeras ofensas que as mulheres sofrem diariamente nas redes sociais. Antes que alguém pergunte, os termos estão em inglês, pois os primeiros estudos sociais destes tipos de agressão surgiram nos Estados Unidos. Infelizmente, ainda não temos palavras em português que sintetizem tão bem a ideia que estes termos dão. Além disso, inglês é o idioma é predominante na linguagem virtual. Bom, vamos lá:

– Revengeporn: A “pornografia da vingança” é uma prática de humilhação que consiste em expor virtualmente imagens ou vídeos íntimos da mulher sem autorização da mesma. Aqui, você pode perguntar se vale para a mulher que expõe um homem nas redes e a resposta é sim. Vale. O problema é que, segundo o site CyberJustiça, 80% das vítimas da pornografia da vingança são mulheres. Além disso, os efeitos dessa exposição sempre são mais violentos nos casos em que mulheres são expostas. Geralmente, são obrigadas a responder porque se deixaram filmar ou fotografar, têm que mudar seus hábitos, rotina, sair das redes sociais, pois lá os ataques continuam e se multiplicam e até casos mais graves, nos quais a vítima comete suicídio.

– Slutshaming: Algo como “envergonhar a vadia”, é o ataque ou culpabilização feitos, publicamente ou não, à mulher que expressa sua sexualidade de uma forma que não corresponda às expectativas patriarcais da sociedade. Geralmente, diz respeito às mulheres que usam roupas curtas ou decotadas. Um caso famoso é o da expulsão da Geisy Arruda da Universidade, a qual estudava, por conta de um vestido curto. O que se segue é a classificação dessa mulher como “puta”, “vadia” etc. Há casos mais graves como o da exposição da carioca de 16 anos, que, além de estuprada por 34 homens sofreu revengeporn e slutshaming. Muita gente nas redes dizia que o comportamento da moça teria justificado a violência. Então, dá pra ter fé na humanidade?

img010

[Imagem: GÉLEDES – Instituto da Mulher Negra]

– Gaslighting: Algo como “à meia luz” ou “luz baixa”. O termo foi forjado a partir do filme Gaslight de 1944, dirigido por George Cukor e conta a história de uma mulher, interpretada pela belíssima Ingrid Bergman, que vive com seu marido, um abusador interessado em sua fortuna que usa várias técnicas sádicas fazendo ela pensar que está louca, por exemplo, programando uma lâmpada a gás (gaslight) para que se ligue e desligue repetidamente, causando medo na vítima; escondendo objetos que ela tinha guardado e fazendo-a duvidar se eles realmente estavam ali. Em resumo, é um abuso emocional, no qual há uma manipulação psicológica da vítima, levando-a a acreditar que ela perdeu a razão. O agressor usa frases do tipo: “Você é tão dramática!”, “Você deve ter se confundido”, “Você está exagerando”.

– Manterrupting: Um neologismo a partir dos termos “man” (homem) e interrupting (interromper), algo como “homens que interrompem”. Além de extrema falta de educação, a prática revela o desdém pelo que uma mulher teria a dizer. Acontece constantemente em reuniões de colegiado nas universidades, por exemplo (se liguem, professores!), quando uma professora tenta falar e é constantemente interrompida. “Como eu estava dizendo…” vira frase constante.

Bropriating: Mescla “brother” (irmão, no sentido slang cria uma intimidade inexistente) e “appropriating” (apropriação). Se dá quando um homem se apropria indevidamente de uma ideia posta por uma mulher, tomando-a para si e ganha os créditos: “É exatamente o que eu disse”, é uma frase típica que exemplifica o conceito.

Esses são só alguns exemplos do que nós mulheres passamos every single day. A luta é cotidiana e a ideia aqui é fomentar o debate. Lembrando que os ataques virtuais são enquadrados como violência psicológica na Lei Maria da Penha e os responsáveis pelas injúrias devem ser punidos juridicamente. Fica o recado: agressores não passarão!

 

*Nos dez primeiros meses de 2015, do total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, 31.432 corresponderam a denúncias de violência física (49,82%), 19.182 de violência psicológica (30,40%), 4.627 de violência moral (7,33%), 1.382 de violência patrimonial (2,19%), 3.064 de violência sexual (4,86%), 3.071 de cárcere privado (1,76%) e 332 envolvendo tráfico (0,53%).Os atendimentos registrados pelo Ligue 180 revelaram que 77,83% das vítimas possuem filhos (as) e que 80,42% desses (as) filhos(as) presenciaram ou sofreram a violência. Fonte: http://www.compromissoeatitude.org.br/dados-nacionais-sobre-violencia-contra-a-mulher/

** A violência contra as mulheres trans, no entanto, é registrada no Relatório sobre a Violência Homofóbica no Brasil, e, embora eu não seja estudiosa do tema, discordo sobre a ausência das mulheres transgênero no Mapa da Violência contra a Mulher, considerando que a identidade de gênero é a mesma, mas assumo que preciso estudar e me informar melhor sobre isso.

*** Chamo atenção também, para o fato que no referido hino, as “mulheres preferidas” são as brancas e as morenas, sendo as mulheres negras depreciadas. Segundo o Mapa da Violência contra a mulher de 2015, 54% das mulheres assassinadas são negras. O mesmo Mapa aponta que no Brasil uma mulher é estuprada a cada 11 minutos (11 minutos!!!) e destas, 51% das vítimas são negras.

Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, saltar de paraquedas e dançar um tango em público.