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Resistência negra brasileira, o 20/11: Dia Nacional da “Consciência Negra”

É preciso lembrar de Zumbi dos Palmares e também da importância das lutas das mulheres no espaço palmarino.*Por Danilo Santos da Silva, do Brasil de Fato

“[…] Levante, resista: lute pelos seus direitos!

[..] Levante, resista: não desista da luta!

[…]” (Bob Marley, 1973).

 

Foto: Reprodução

Estamos no mês de novembro, ocasião na qual os temas relacionados à população negra ganham mais repercussão, sobretudo, no Brasil. Embora esse texto tenha sido produzido no referido período, não tem a pretensão de expor uma perspectiva eventual, mas apresentar uma reflexão sobre a “consciência negra” como fruto da memória coletiva de luta da população negra na sociedade brasileira.

Ter como parâmetro esse horizonte, nos ajuda a pensar o 20 de novembro e nos aproxima da ideia de memória coletiva de resistência da população negra, a partir da experiência dos quilombos que se espalharam por todo território brasileiro e tem como maior exemplo o Quilombo dos Palmares (c. 1605-1695), representando, quase cem anos de resistência contra o sistema de colonização escravista europeu.

Com base nessa experiência, no ano de 1971, no Rio Grande do Sul, o Grupo Palmares, utilizou a data da morte de Zumbi dos Palmares, 20 de novembro de 1695, como marco simbólico da luta coletiva da população negra no Brasil. Sete anos mais tarde, com a criação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, aconteceu o processo de nacionalização da data, como Dia da Consciência Negra: “[…] eu quero ver quando Zumbi chegar, o que vai acontecer. Zumbi é senhor das guerras, é senhor das demandas. Quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda […]” (Jorge Ben Jor, 1974).

Embora o dia 20 de novembro esteja relacionado com a morte de Zumbi dos Palmares, não podemos esquecer que o propósito do dia da “Consciência Negra”, deve ser compreendido no plano da luta coletiva da população negra no passado e no presente. Isso significa dizer, que ao mesmo tempo que precisamos lembrar da memória de Zumbi dos Palmares, também, é fundamental, registrar a importância das lutas das mulheres no espaço palmarino, que cada vez mais passam a ser referência de luta nos dias atuais: “Brasil, o teu nome é Dandara […] não veio do céu e nem das mãos de Isabel, a liberdade é um dragão no mar de Aracati […]” (Enredo da Mangueira, 2019 – “História pra ninar gente grande”).

No enredo, Dandara é apresentada para questionar o pressuposto da liberdade concedida pela Princesa Isabel, no dia 13 de maio de 1888, mostrando ainda uma resistência negra ancestral. Além disso, se reconhece a participação feminina negra na formação da sociedade brasileira. Dentro da mesma perspectiva, o poeta Silveira faz duras críticas a produção da história: “[…] Senhor historiador oficial, deixe o sobrado, a casa-grande, recue na linha do tempo, mergulhe no espaço geográfico, […] meta-se no bucho do Palmar, […]. Veja num lado história, noutra escória. Depois comece a contar […]” (SILVEIRA, 1987).

Nesse sentido, a institucionalização do dia da consciência negra foi uma vitória importante, representou o reconhecimento do direito à memória e história da população negra, com a promulgação, em 2003, da Lei nº 10.639 (Educação das Relações Étnico-raciais, História da África e Cultura Afro-brasileira), inserindo no calendário escolar o 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”. Se no passado a população negra teve que recorrer a essa memória coletiva para substanciar as reivindicações dos seus/nossos direitos, atualmente (2019), tem se utilizado para manutenção (e ampliação) dos direitos sociais conquistados nas últimas décadas.

Em uma conjuntura que a questão econômica e política – capitalismo neoliberal e governo de extrema-direita – são supervalorizadas e sobrepõem as questões sociais e para justificar as reformas neoliberais, que atingirão diretamente a população negra, empurrando-a cada vez mais para uma situação de precariedade, aumento de exclusão e vulnerabilidade social, pois há cresce a informalidade do trabalho, o subemprego e desemprego, tornando quase impossível que a maioria da população tenha o direito a uma aposentadoria na velhice. Ao mesmo tempo, um governo de tendências neofascistas, que deliberadamente ataca o direito à memória da população negra, os programas de ações afirmativas e os direitos quilombolas, entre outros.

Esse contexto atual, apresenta novos desafios para os movimentos socioculturais negros, mais do que nunca, a memória coletiva de resistência se apresenta como instrumento importante para a auto-organização política da população negra. É preciso, “por menos que conte a história […]. Se Palmares não vive mais, faremos Palmares de novo […]” (LIMEIRA, 2011/2012).

Fazer Palmares de novo, tem a ver em dar continuidade a luta do passado, como foi as lutas contra a escravidão e pela dignidade humana e , mais recentemente, no século XX, buscamos a cidadania republicana e no tempo presente, persistimos em defesa de uma plena cidadania, em torno da manutenção dos direitos quilombolas, das ações afirmativas, da luta antirracista e de políticas de Estado para população negra e povos excluídos historicamente, como os povos originários/indígenas, entre outros.

Então no próximo dia 20 de novembro, dia da “Consciência Negra”, é momento de comemorar, mas, acima de tudo, denunciar a configuração do racismo estrutural e institucional na sociedade brasileira. É momento, como diria o cantor Mano Brown, de fazer com que “a fúria negra ressuscite outra vez […]” (Racionais MC’s, 1997).

Que essa “fúria” negra continue sendo fonte para memória coletiva das próximas gerações, ou seja, que Dandara, Aqualtune, Acotirene, Zumbi e outros símbolos da resistência negra possam continuar inspirando a constituição de um país multicultural e plurirracial, que não só respeite, como também, valorize as diferenças como ponto para desenvolvimento da sociedade brasileira.

 

*Pesquisador colaborador do NEABI-CCHLA/UFPB; Ativista do Movimento Negro e Assessor de Projetos do Fundo Brasil de Direitos Humanos

https://www.geledes.org.br/

 

20 de novembro, artigos e reflexões, Consciência Negra, Dandara, Zumbi dos Palmares

Espaço do Leitor

A Negação do Ser e o Extermínio dos Corpos Negros

‘… é insuportável lidar com cada cenário ao qual se configura e se dificulta pelo simples fato de ser negro. É aí que esbarramos na solidão. E esbarrar-se na solidão por ser isolado, diante de uma conjuntura tão agressiva, é avassalador. ‘ Por Emanuel Lucas*

Acho tão chique quem tem a vida sob controle. Controle de quem? É preciso encarar a vida com serenidade e com passos firmes, mas o modo que lidamos com essa realidade precisa ser afirmada ou reafirmada quando não se trata de uma vida ‘senso comum’. Afirmar que precisamos ter para ser é uma loucura que implantaram no psicológico dessa sociedade desde quando usurparam uma história que não pode nem deve ser contada. Reafirmar isso segue contrariando todas as ordens. Nós somos o que somos e quem somos pelo simples fato de decidirmos isso.

Engraçado é como as reações desencadeiam cada vez que reafirmamos nossa voz. A falta de pressa de quem não pede perdão é uma das formas de continuar a acorrentar nossas mentes, a machucar nossas almas e a limitar nossas vidas. Essas correntes estão presentes na vida de muitos irmãos e irmãs que, ao passo que tentam reinventar-se num cotidiano hostil acaba por entrar num lop infinito de não querer mais existir. Isso é extremamente perigoso. Uma vez que sabemos que são corpos negros que continuam sendo violentados e aprisionados.

Eu só serei feliz se minha vida estiver sob controle. Sob o meu controle. O tempo que gastamos tentando viver o tempo do outro é totalmente desnecessário e insignificante que parece de nada ter valido a pena. O dia ele só é completo quando você faz exatamente aquilo que você quer fazer ou tem que fazer porque precisa ser cumprido à sua medida, à sua necessidade. É certo que vivemos coletivamente e precisamos estar em comunhão e harmonia plena, porém as regras pré-estabelecidas são generalizadas ao ponto de nos desrespeitar enquanto humano, pois, em vez de nos tornar livres e fazer com que nos reconheçamos iguais, nos aliena ao ponto de nos vermos como inimigo a ser combatido. Ou no mínimo, evitado.

Isso que o poder hegemônico social faz com nossos corpos negros, com nossas vidas negras e com nossas almas em chamas é nada mais que simplificar nossa existência ao sublugar. Quando menos espera você não consegue mais ter força para encarar à Universidade, porque ela já se tornou um lugar óbvio onde o espistemicídio toma conta e se reafirmar nesse espaço se torna cansativo, porque parece que preto e índio não produzem conhecimento. Preparar uma aula é quase que um martírio, pois eis que em tempos de austeridade, denunciar o colonizador é ter se tornado um doutrinador; esquecem dos enfrentamentos diários e dos desdobramentos cotidianos que o educador passa para ocupar e reinventar-se diante da precarização do ensino básico; um desmonte. E não bastasse isso, ainda tem o fato de que para se chegar a algum lugar, o sujeito precisa de uma forragem no estômago para dar conta de manter-se ao menos em pé. Aí é onde entra o feijão e arroz que nem de longe é o suficiente para continuar a ser forte. Ser forte, né? Afinal, negro é forte, negro aguenta.

Contudo, é insuportável lidar com cada cenário ao qual se configura e se dificulta pelo simples fato de ser negro. É aí que esbarramos na solidão. E esbarrar-se na solidão por ser isolado, diante de uma conjuntura tão agressiva, é avassalador. Destrói tua mínima vontade de descer as escadas, atravessar a rua e comprar o pão. Viver num contexto que ao abrir qualquer rede social você é engolido por notícias que atravessam o estômago, é nocauteado por mensagens infames de ódio e tantas coisas desnecessárias, é viver no lugar para onde se atiram as coisas inúteis. É viver no ócio onde não se cria nada. É não ter vontade de sair da cama. Sim. Nem sempre tenho força para levantar da cama. Um ser vegetativo. Tenho vegetado diante do âmago.

Parece que a gente não acredita mais nos nossos sonhos. Fizeram até isso conosco. Olhe ao seu redor. Basta olhar. Os sonhos que estamos lutando são os sonhos que querem que nós sonhemos. Não tenho sonhos de uma grandeza baseada na exploração e na opressão. Meus sonhos não são melhores que eu. Somos proporcionais à medida que nos realizamos. Eu sou o que eu penso, o que eu falo e o que eu sinto. Eu sinto muito.

Eu sinto muito por não dar conta da vida. Eu sinto muito por não conseguir fazer mais porque me sinto acorrentado pelos silêncios da hegemonia dominante que ecoam na minha mente e provocam uma grande inflamação do labirinto e que se transforma numa erosão crônica da mucosa estomacal. Sinto muito por não corresponder a uma expectativa que não sou obrigado e que me fora imposta. Sinto muito por você não ter conseguido que eu ficasse prostrado em estado vegetativo pra sempre. Porque a cada vez que sou enterrado, eu germino. Sou semente, viva. Eu sinto muito!

Um banho de mar seria pedir muito para limpar a alma e revigorar as forças?

Como um filho que ainda falta muito pra ser bom, mas que tem grande e singelo respeito às águas, cabe a mim somente agradecer a cada encontro Oxum, que me apanha no colo e recebe meu pranto. Aqui, sou apenas riacho que corre pro rio. Mas, ainda bem que nos encontramos no mar. E no mar da vida é preciso estar atento às nuances que se desenrolam a partir dos pequenos gestos praticados, das acolhidas recebidas e dos afetos distribuídos em cada passo dado. Dito isso, é preciso manifestar enfaticamente o exercício da escuta e da nossa ação cotidiana.

Escutar a tua consciência e apresentar-se diante de um espelho no qual é necessário se olhar diante de uma perspectiva de fuga, de não se fazer mais presente no cotidiano que não é seu e que não lhe pertence. Escutar tua consciência é despertar-se para ouvir aqueles e aquelas que suspiram em nossos ouvidos a voz da sabedoria, ensinamentos e caminhadas. E pasmem, não há um caminho específico a seguir. O caminho se faz caminhando. Escutar os mais velhos e as mais velhas. Escutar é tão importante, que quando a voz da matriarca preta lhe afaga diante do desespero ou te dá uma pagação quando necessário. Escutar e saber receber as críticas da sua mãe, do seu pai, e da sua irmã, e continuar amando-as incondicionalmente. Escutar os mais novos também é importante para se perceber inocente e de coração puro, mesmo quando tudo está tão depravado. Os caminhos que percorremos dizem exatamente quem fomos, porém não define quem somos. A nossa ação é o nosso caminhar.

É preciso não ter medo da escuridão. ~ não tenha medo, medo, medo, medo da escuridão. nem tudo que é negro, negro, negro, remete à escravidão. ..nem tudo que é preto, preto, preto, remete ao medo não. ~ Na escuridão o sujeito se forja a ser luz. Luz que ilumina o seu próprio caminhar. E ainda assim, seja luz na escuridão.

Eu queria me alongar falando da importância de cada pessoa apresentada no cotidiano e o quanto essa presença desperta um encorajamento de continuar mesmo não sabendo “como”, mas a verdade é que eu não fazia a mínima ideia de como começar uma escrita que tenta externar cada angústia e toda eloqüência dentro de uma lógica sapiente, contudo, sei que o que foi dito até aqui será muito bem compreendido (ou não, sua cabeça seu guia) por aquelas pessoas que sentem e vivem especificidades parecidas, e sei que por ora, o tempo será dedicado a caminhar. Caindo. Levantando. Seguindo.

Por fim, o que fica então é o registro – que traz consigo uma ampla conexão com outras realidades, estruturas, e atenuantes – e o convite, que há tempos vem me sendo feito, a ouvir, caminhar, e escrever.

Escrevamos juntas nossas reinvenções cotidianas!

* Emanuel Lucas é Educador Popular e Estudante de História na UPE

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20 de novembro: Dia de chamar a atenção para o extermínio de jovens negros

O Atlas da Violência 2017 mostra que jovens negros de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no País. A população negra corresponde à maioria, 78,9%, dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Durante muito tempo, até os anos 1970, comemorou-se no 13 de maio a Libertação dos Escravos, data em que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Isabel era lembrada até então como a Redentora. No entanto, com o surgimento dos movimentos negros e as pesquisas históricas ficou claro que a Lei Áurea não foi um gesto de bondade, mas fruto de um processo de lutas dos escravizados e de parte da sociedade. Fixou-se, então, a imagem de Zumbi, o último dos líderes do Quilombo do Palmares, uma das primeiras e a mais importante experiência de luta organizada dos negros pela liberdade no Brasil. Assim, foi criado O Dia da Consciência Negra. Além da luta dos negros, o que acabou mesmo com a escravidão brasileira foi o avanço do capitalismo internacional, que queria gente capaz de comprar produtos, consumir – coisas que os escravos não faziam. Nada de achar que a princesa Isabel era boazinha.

O Quilombo dos Palmares resistiu a ferro e fogo por mais de 80 anos. Em 1694, foi completamente destruído por uma milícia comandada por bandeirantes paulistas, contratados pelos senhores de terras de Pernambuco. Palmares tinha então cerca de 20 mil habitantes. Depois de Palmares, embora os quilombos tenham se espalhado por todas as regiões do Brasil, nenhum teve a mesma força e organização.  E apesar da luta permanente dos escravizados pela liberdade, o Brasil foi um dos últimos países do mundo a acabar com a escravidão, em 1888. Esse período tão longo deixou feridas abertas na nossa sociedade e alimentou o racismo, o preconceito e a desigualdade social.

O sociólogo Jessé Souza, que pesquisa as causas da desigualdade no Brasil, afirma que a chave para entender o racismo é a herança da escravidão. Fazendo as contas, temos apenas 129 anos sem sermos escravizados. É pouco tempo para apagar marcas tão profundas. A partir dessa constatação é possível entender que certos comportamentos e atitudes que registramos hoje são reflexo de um outro tempo, que embora pareça distante está mais presente que nunca.

No livro A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato, lançado recentemente, Jessé de Souza diz que a escravidão, enquanto existiu, até 1888, era a instituição que influenciava todas as outras. Ou seja, justiça, polícia, negócios, educação, comércio e, até mesmo, o contato entre as pessoas que não eram escravas, afinal era um sistema econômico perverso, mas um sistema econômico que regia a vidas de todos. Um exemplo: mesmo quem não tinha muito dinheiro – os chamados “escravos de ganho” – viviam em relativa liberdade e, em troca, pagavam uma taxa diária ou semanal ao seu “senhor”.  Muitos “escravos de ganho” juntaram o suficiente para comprar a carta de Alforria. Mas, ao mesmo tempo, ficaram sem recursos para começar a nova vida. Da mesma forma, eram as “escravas de ganho” que, em geral, vendiam quitutes pelas ruas da cidade, uma tradição que se mantém até os dias de hoje.

Herança incômoda

Essa herança de uma sociedade que estava dividida entre quem tudo pode e quem não tem direito algum não foi apagada. Basta lembrar as condições de trabalho das empregadas domésticas até bem pouco tempo e a famosa Proposta de Emenda à Constituição, PEC das domésticas, que deu direitos trabalhistas integrais a essas profissionais, mas gerou muita polêmica e enfrentou muitas resistências.

Se o sistema é ruim para as empregadas domésticas, ele é ainda pior para as trabalhadoras domésticas negras. Elas são maioria, têm escolaridade menor e ganham menos. Em 2014, 10% das mulheres brancas eram domésticas, índice que chegava a 17% entre as negras, segundo dados do Ministério do Trabalho e Previdência Social.

É comum e muitas vezes desrespeitosa a abordagem policial em negros, pobres e favelados que são detidos sem justificativa | Foto: AF Rodrigues

Entre as heranças do escravismo estão o preconceito e a discriminação, presentes nos padrões de beleza, na publicidade, nas palavras e expressões como “denegrir”, “a coisa tá preta”, entre outras; nos quartos de empregada, nos elevadores de serviço, nos uniformes das babás, no comportamento dos seguranças com os negros, mesmo de classe média; nas blitzes policiais, nas ações das PMs nas favelas.

O Atlas da Violência 2017 mostra que jovens negros de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no País. A população negra corresponde à maioria, 78,9%, dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Em relação às mulheres, enquanto a mortalidade de não negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4%, entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu 22%.

Exército e Polícia

Segundo o antropólogo Luiz Eduardo Soares, um estudioso da questão da Segurança, com vários livros sobre o tema, “a tendência é que os militares ajam como se estivessem em guerra e atuem com força extrema, identificando o outro como inimigo a ser abatido e é justamente pelo fato de as polícias militares estarem atuando como réplicas do Exército, em desvio de função, que nossa situação é tão dramática, é por isso que há mais de seis mortes provocadas por ações policiais, no País, todos os dias, e é também por esse motivo que tantos policiais são assassinados – em números crescentes. No fundo, é como se o Brasil, e o Rio em particular, estivessem abdicando de promover a segurança cidadã, tal como determinado pela Constituição, e se rendessem à Força, exclusivamente, em especial à força letal dos braços repressivos do Estado”. Ainda segundo o antropólogo, “dos cerca de 60 mil homicídios dolosos ocorridos por ano no Brasil apenas 8% são investigados. Por investigados, quero dizer: eles são acolhidos pelo Ministério Público e considerados suficientemente instruídos a ponto de que se formule uma denúncia que passe à Justiça, dando início a um processo”. Ou seja: 92% destes crimes permanecem inteiramente impunes.

A farsa da abolição da escravatura

A escravidão chegou ao fim em 1888 apenas no papel, pois na prática foi criado o cidadão de segunda classe: sem direitos, sem garantias, sem educação formal. Boa parte permaneceu com os antigos “senhores”, trabalhando em troca de casa e comida.

Houve exceções, uns poucos tinham uma especialidade: pedreiro, sapateiro, marceneiro, ourives, alfaiate, músico. Esses foram beneficiados. A massa, no entanto, tinha apenas as mãos para ganhar a vida e nenhum tipo de apoio. Como negociar com o empregador nessas condições extremamente adversas? Que margem de manobra tinha uma pessoa nessas condições? O negro foi aceito para fazer o trabalho que os brancos não consideravam adequados para eles. Data daí o surgimento das primeiras favelas, em áreas de difícil acesso, como morros e mangues. A desigualdade é a herança do escravismo. Na Lei Áurea não havia reforma agrária nem reforma urbana, nem um único programa de formação de mão de obra. As primeiras leis de proteção ao trabalhador, por exemplo, só surgiram com Getúlio Vagas, que assinou a CLT – Consolidação das Leis do Trabalho, em 1º de maio de 1943.

http://redesdamare.org.br

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Saiba como identificar e denunciar crimes de racismo

Racismo não tem graça

Famosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo - Foto: ReproduçãoFamosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo Reprodução
Famosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo – Foto: ReproduçãoFamosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo Reprodução

Famosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo – Foto: ReproduçãoFamosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo Reprodução

O ano ainda não acabou, mas 2016 pode ser lembrado pela quantidade de casos de racismo que tomou conta dos noticiários e das ‘timelines” nas redes sociais. Famosas como Taís Araújo, Preta Gil, Ludmilla, Cris Vianna, Sheron Menezes, Maria Júlia Coutinho, a Maju, e até mesmo Titi, a criança africana adotada pelo ator Bruno Gagliasso, foram atacadas pelo mesmo motivo: são negras, o que demonstra que o sucesso não blinda ninguém de ser vítima de racismo.

No caso de ‘pessoas comuns’, o que fazer? Será que a situação é a mesma? Em maio deste ano, a antropóloga Naira Gomes, 32, foi discriminada durante uma discussão no mundo virtual. Entre as ofensas que recebeu, um ‘ditado’ antigo: “Preto quando não caga na entrada, caga na saída”.

“Quando eu passei por um episódio de racismo virtual, o que mais me machucou foi o ‘não direito’ de sofrer pela ofensa à minha dignidade, de sofrer pelo entendimento que racismo é um instrumento que exclui não só a mim, mas a um povo”, conta.

De acordo com a cientista social Ângela Guimarães, é preciso compreender que o racismo é um fenômeno real e, portanto, faz parte do cotidiano. Desta forma, se expressa em manifestações diárias e que, para muita gente, podem passar despercebidas.

“As manifestações diárias (de casos de discriminação) nos permite afirmar que, muitos de nós, somos sim racistas”, afirma.

Para a cientista social, a explosão das redes sociais traz a possibilidade de expressar desejos e opiniões sem ser identificado – daí a explosão de casos de racismo na internet.

“Muitas pessoas se sentem à vontade para discriminar sem acreditar que serão implicadas legalmente, pois podem se esconder sob perfis falsos e, por isso, cometem uma série de crimes”, explica Ângela Guimarães.

Ainda que na Bahia não exista uma delegacia especial para crimes de racismo e para crimes que aconteçam no mundo virtual, há uma legislação específica que coíbe essas manifestações de racismo e de ódio. Quem se sentir agredido deve denunciar a situação na delegacia mais próxima de onde ocorreu o episódio e acionar outros órgãos.

Defenda seus direitos

Vai rolar O Artigo 79 do Estatuto da Igualdade Racial, que está em processo de regulamentação, prevê a criação de Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, mas a Bahia ainda não tem essa especializada.

A advogada Aline Moreira explica que, ao ser vítima de algum crime de racismo ou de intolerância religiosa, a pessoa deve procurar a Delegacia de Polícia Civil mais próxima, registrar o Boletim de Ocorrência, para que seja aberto o inquérito policial e a prática do crime seja investigada.

A pessoa vítima de racismo deve se manter firme na busca dos seus direitos de cidadão, procurar a orientação de uma advogada ou da Defensoria do Estado e o Ministério Público da Bahia para formalizar a denúncia e fazer o inquérito criminal.

“Combater e enfrentar o racismo é tarefa de toda a sociedade e não apenas da população negra. O exercício da cidadania e a igualdade de direitos impõe que toda pessoa que presencie ou tenha conhecimento de situações de racismo, busque os órgão e instituições competentes para realizar a denúncia”, afirma a advogada Aline Moreira.

Perceba a discriminação

Dar apelidos de acordo com as características físicas da vítima

Inferiorizar as características estéticas da etnia em questão

Considerar a vítima inferior intelectualmente, podendo até negar-lhe determinados cargos no emprego. Ofender verbal ou fisicamente a vítima

Desprezar os costumes, hábitos e tradições da etnia

Duvidar, sem provas, da honestidade e competência da vítima

Procure ajuda

Ministério Público – Procurar o Grupo de Atuação Especial de Proteção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação (GEDHDIS) – Avenida Joana Angélica, 1.312, prédio principal, térreo, sala 22 – Nazaré – Salvador – Bahia – Tel: (71) 3103-6434

Centro de Referência Nelson Mandela – Avenida 7 de Setembro (mesmo prédio da Fundação Pedro Calmon), edifício Brasil Gás, nº 282. E-mail: cr.racismo@sepromi.ba.gov.br Tel: (71) 3117-7448/7438

Defensoria Pública da Bahia Ouvidoria cidadã – Rua Pedro Lessa, nº 123, Canela, Salvador – BA. CEP: 40.110-050 Tels.: (71) 3117-6936 | 6952 – Disque Defensoria: 129 – Opção 2 – e-mail: ouvidoria@defensoria.ba.gov.br

 

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Racismo não tem graça

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Ficam surpresos quando descobrem que falo quatro idiomas. São brincadeiras diminutivas quando diz respeito à pessoa negra. Sem falar no modo em que pedem as coisas. Esquecem das palavrinhas mágicas, como se fôssemos servos deles, e por aí vai.

Renata Sena, 34, turismóloga

Trabalhava como psicólogo em uma unidade de serviço pública, e a usuária questionou quem era o psicólogo. Quando me apresentei, ela não acreditou. Apenas quando uma terceira pessoa confirmou, ela acreditou que era eu o profissional, e  nunca voltou para ser  atendida.

Rodrigo Márcio, 31, psicólogo

Estava na porta, quando se aproximou uma senhora, olhou para dentro da sala e perguntou: ‘Você trabalha aqui?’  Respondi que sim. E ela: ‘Faz a limpeza da sala?’

Sílvia Helena, 50 anos, secretária executiva

Milito na Justiça do Trabalho. Há cerca de quatro  anos, vou ao TRT diariamente e ainda escuto: ‘Você é a reclamante?’ Me perguntam com estranhamento se eu sou mesmo formada, e exigem ver minha carteira de sócia da Associação dos Advogados Trabalhistas da Bahia.

Laíse Freitas, 29, advogada

Todos os dias recebo olhares, perguntas sobre qual minha função. Mesmo estando toda ‘fantasiada de médica’, perguntam se eu sou a plantonista mesmo, ou a enfermeira, a técnica. Até o ponto de ser barrada no hospital! Afinal, sou a exceção e, como exceção, eu comprovo a regra.

Kênia Fernandes, 31, médica

Trabalho com intercâmbio e, muitas vezes, durante o atendimento, o cliente pergunta: ‘Você não conhece esse lugar não, né?’ Respondo sorrindo que já fiz cinco intercâmbios e conheço mais de 20 países! Sei que, se eu fosse loira, automaticamente me perguntariam para onde eu fui.

Sauanne Bispo, 30, empresária

Uma das mais irritantes humilhações que já sofri foi ouvir de alguém, que pensava que iria me elogiar: ‘Olha que talento! Não compõe como negro, parece o Chico Buarque’. É como se a gente não fosse capaz de produzir cultura, como se fôssemos inferiores.

Betho Wilson, 36, músico

Já fui chamada de monstro por uma equipe de gaúchos dentro da Secretaria de Saúde, expulsa de sala de trabalho… Fora a diferença de tratamento nos setores administrativos. As pessoas não percebem ou fingem não perceber como suas maldades causam dor.

Liah Santê, 48, secretária

Basta colocar uma roupa social e pegar o elevador que  alguém entra, não cumprimenta com um ‘bom dia’ ou ‘boa tarde’, e diz o andar que quer ir. Já aconteceu comigo em shopping e hospital.

Leandro de Assis, 32, bombeiro

Por Maíra Azevedo

http://atarde.uol.com.br/

Espaço do Leitor

O sangue e a consciência do: preto Nilton… Por Marcos Cesário

Em apoio ao professor da Univasf, Nilton de Almeida, vítima de agressão por um PM, o fotógrafo e escritor Marcos Cesário escreveu esse texto, e encaminhou para o nosso blog. Vale apena conferir.

foto Marcos Cesário

Dia 28 de novembro, o professor da UNIVASF e representante dos movimentos pela consciência negra, Nilton de Almeida, homem negro, saía de sua casa para o trabalho, e, foi abordado por policiais militares que mandaram, com aquela delicadeza conhecida de certos policiais, ele descer da moto, e, depois de abusarem das grosserias verbais, um dos policiais deu um tapa no rosto de Nilton, e, achando pouco: os policiais levaram Nilton para a delegacia por desacato à autoridade. Nilton foi preso porque quis saber o porquê dos insultos e das agressões.

Nilton: teve a infeliz ideia de não abaixar a cabeça e não se intimidar com os covardes que o agrediram e tentavam intimidá-lo.

Nilton: teve a infeliz ideia de desacatar a estupidez e a covardia…

Bem, Nilton está, como é seu direito e dever, mobilizando a sociedade para que a justiça seja justa, e, puna estes covardes agressores. Vamos ficar atentos.

Estes dias, meio por acaso, conheci a letra da música “Eu só peço a Deus”, de Renan Inquérito, e um trecho da música retrata, com convicção, como nossa sociedade ainda é tão desafinada com a coerência : “Quem não tem sangue de preto na veia deve ter na mão”.

Isto: ninguém pode discordar.

Notícias

Celebração da Consciência Negra acontece hoje em Juazeiro

A programação conta a apresentação do Cortejo Afro, com a banda Nego Nagô e Balé Afro Drí Bení, além de desfiles de Beleza Negra, Samba de Véio, Afoxé Filhos de Zaze e outros.

Cortejo AfroA primeira Caminhada em comemoração ao 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, está prevista para começar às 16:oo h, na Praça Dedé Caxias, no Centro de Juazeiro. A programação conta a apresentação do Cortejo Afro, com a banda Nego Nagô e Balé Afro Drí Bení, além de desfiles de Beleza Negra, Samba de Véio, Afoxé Filhos de Zaze e outros.

O evento objetiva promover a igualdade racial em Juazeiro, e faz parte das realizações do Calendário Novembro Negro 2015, que tem como tema “Juazeiro discutindo da intolerância ao genocídio”.

Notícias

7 filmes para entrar de cabeça no Mês da Consciência Negra

Filmes para fazer refletir sobre a condição do povo negro.

12 Anos de Escravidão (2013): baseado na história verídica de Solomon Northup (1808 – 1863), um homem negro livre que foi raptado e vendido como escravo, no século 19, nos EUA. Vencedor de três Oscar – melhor filme, melhor atriz (Lupita Nyong’o) e melhor roteiro adaptado. Diretor: Steve McQueen. 134 minutos. (Foto: Reprodução)

12 anos de escravidão

Amistad (1997): inspirado no motim ocorrido a bordo do navio La Amistad, em 1839. Os africanos escravizados mataram a tripulação branca. O grupo desembarcou nos EUA, onde foi julgado e libertado. Indicado a quatro Oscar. Diretor: Steven Spielberg. 155 minutos. (Foto: Reprodução)

amistad

Corina, Uma Babá Perfeita (1994): com nível superior completo e sem emprego, Corrina Washington (Whoopi Goldberg) se torna empregada doméstica do viúvo Manny Singer (Ray Liotta) e de sua filha, em 1959, nos EUA. Com a convivência, Corrina e Manny acabam se apaixonando. Diretor: Jessie Nelson. 115 minutos. (Foto: Reprodução)

Corina, uma babá perfeita

Faça a Coisa Certa (1989): o ítalo-americano Sal (Danny Aiello) é dono de uma pizzaria, localizada em um dos bairros mais pobres de Nova York, nos anos 1980. Com a clientela majoritariamente negra e latina, o comerciante acaba envolvido em um conflito inter-racial. Indicado a dois Oscar. Diretor: Spike Lee. 120 minutos. (Foto: Reprodução)

faça a coisa certa

A Cor Púrpura (1985): drama baseado no romance homônimo da escritora norte-americana Alice Walker. A partir da história de Celie Johnson (Whoopi Goldberg), o filme discute questões como discriminação racial e sexual no início do século 20, no sul dos EUA. Onze indicações ao Oscar. Diretor: Steven Spielberg. 154 minutos. (Foto: Reprodução)

A cor purpura

Adivinhe Quem Vem Para Jantar (1967): a universitária branca Joey Drayton (Katharine Houghton) apresenta à sua família o seu mais novo namorado, o renomado médico negro John Prentice (Sidney Poitier). O filme se centra na reação dos pais, então liberais, da jovem. Vencedor de dois Oscar – melhor atriz (Katharine Hepburn) e melhor roteiro. Diretor: Stanley Kramer. 108 minutos. (Foto: Reprodução)

adivinhe quem vem para jantar

Um Deslize Perigoso (2015): ambientado nos dias de hoje, narra o cotidiano de Malcolm (Shameik Moore), um adolescente geek fissurado pelo hip-hop dos anos 1990. Sem querer, o jovem e seus amigos se envolvem com o traficante barra-pesada do bairro. Com criatividade e tecnologia, o trio arruma um jeito para se livrar dessa roubada. Exibido no último Festival do Rio. Diretor: Rick Famuyiwa. 103 minutos. (Foto: Reprodução)

um deslize perigoso

Conteúdo originalmente produzido pela jornalista Debora de Lucas em seu “blog” pessoal, Mondo Debo.