Ciência & Sertão

O dia em que o Brasil ficou nu

“O Brasil que volta ao mapa da fome e vê novamente suas crianças dormirem com essa dor horrível em seus estômagos é o mesmo Brasil que vê os ricos receberem a sua bolsa cerveja no prostíbulo. Que país é este, hein?”. Por Helinando P. de Oliveira

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07 de abril de 2018. Não foi final de copa do mundo, desfile de carnaval, final de reality show. Nenhuma cirurgia no dedo mindinho transmitida ao vivo… Apenas mais um sábado no país da festa e do pão. Era, no entanto, o aniversário de dona Marisa. Ela completaria 68 anos. E milhares de pessoas choraram junto com Lula na sede do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo. Ele foi abraçado e carregado nos braços do povo em um afago que precisa ser eternizado em sua alma. E dali partiu voluntariamente em direção à Curitiba. As imagens remetiam-nos à mesma sensação de dor em ver o avião com o caixão de Ayrton Senna chegando ao Brasil. O povo estava arrasado e em vigília por seu líder. Era um dia triste até a chegada do helicóptero com Lula à Curitiba. A partir daí a comoção deu lugar ao estarrecimento. Naquele momento explodiu (literalmente) o ódio. Separados em alas, os opositores de Lula pareciam estar em Copacabana celebrando o réveillon, ao torrar seu rico dinheiro em pirotecnia. Do outro lado, os apoiadores receberam bombas de efeito moral e o avanço da polícia com escudos e rifles. As mães seguiam na linha de frente com as mãos erguidas em sinal de paz. O momento de tristeza dera espaço ao ódio, definitivamente. Enquanto a esquerda voltava para casa, de cabeça baixa, os homens recatados celebravam a prisão no prostíbulo, recebendo cerveja grátis.

O Brasil que volta ao mapa da fome e vê novamente suas crianças dormirem com essa dor horrível em seus estômagos é o mesmo Brasil que vê os ricos receberem a sua bolsa cerveja no prostíbulo. Que país é este, hein?

Este é o Brasil do escárnio, da classe média que quer ser burguesia e de uma burguesia que quer ver a desgraça de todo o resto. Por ser tão rico, este país não se incomoda em perder suas riquezas e jogar suas crianças no berço da criminalidade. Não perceberam a venda do pré-sal e nem tão pouco de nossos aquíferos, não viram a escalada da violência e da corrupção. É esta a sociedade que transforma em mito quem tem ódio a ofertar.

Esta história, no entanto, é uma reedição do que já aconteceu a grandes líderes. Jesus curou e realizou milagres para ser enviado pelo povo à morte, pregado na cruz. Mandela e Ghandi seguiram à prisão. Cada um à sua forma se levantou contra o poder dominante. E o sistema os castigou.

Lula é cidadão do mundo, o maior líder político vivo da história deste planeta. E isso não pode ser apagado por uma prisão. Ele fez o povo sonhar, acreditar que poderia sair da miséria, viajar de avião, ter casa, comida, energia elétrica, ser doutor! Há 30 anos atrás, qual o pobre que imaginaria ter um filho com doutorado? Sair do Brasil, estudar em Universidades no exterior? Era impossível. Lula acendeu esta chama em nós. Lula vive, respira e pulsa nos sonhos dos pobres que buscam dias melhores. E a força do povo (que bom que internalizássemos isso) é muito maior do que o próprio povo imagina. Só assim o povo teria orgulho de ser a cada dia mais povo.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

Marielle, presente!

‘O Brasil não é o país da paz e amor. Nunca estivemos livres da cultura escravocrata’. Por Helinando P. de Oliveira

Eu poderia falar da nanotecnologia, das estrelas, da gravitação ou da teoria de Einstein. Montar um texto lindo sobre o Big Bang ou sobre o futuro dos grafenos na terra. Afinal esta é uma coluna que trata de ciência. Só que a ciência é feita por gente, gente como a gente, que nasce, vive e morre. Gente que tenta ser eterno pelos seus artigos e legados tal qual os faraós do antigo Egito… E termina esquecendo que irremediavelmente será uma foto na estante e depois disso, nem mais isso… Hoje não quero falar de ciência, perdoem-me os leitores. Quero falar das pessoas que não tiveram a oportunidade de fazer o que queriam. Quantos potenciais cientistas que nunca cruzaram os portões da Universidade, tantos outros que viram seus sonhos frustrados… E não falo aqui de oportunidade, bolsa permanência ou restaurante universitário. Falo de violência.

Esta guerra diária que ceifa a vida dos jovens no trânsito e pelo fogo das armas. Arma que cala as vozes, como a de Marielle Franco, covardemente assassinada no Rio de Janeiro. Arma que teima em silenciar os pobres, negros e favelados, como se a vida deles valesse menos que a vida da burguesia, que entende que a classe média é convencida pela mídia enquanto que a pobre é assassinada. E ainda assim se negam a ouvir que a carne negra é a carne mais barata do mercado. Santa hipocrisia!

O Brasil não é o país da paz e amor. Nunca estivemos livres da cultura escravocrata. As pessoas que saíram as ruas em 2016 lutaram contra os pobres e não contra a corrupção. Incomoda a elas saber que o filho de seu Fernando (eletricista que não concluiu a Escola Técnica e que morava na entrada da favela da Tieta) daria aula de eletricidade na Inglaterra.

Elas prefeririam cruzar com o cadáver do jovem cravado de balas por qualquer esquina. Afinal, o mal habita o peito dos incapazes.

E a forte Marielle, mulher, negra, lésbica que levantou sua voz para defender os oprimidos foi morta e tripudiada nas redes sociais. Hoje é símbolo da luta do povo pobre contra essa gente esnobe que dança sobre poças de sangue.

O Brasil não pode se render à bancada da bala e aderir à violência gratuita que as pessoas sem conteúdo pregam. Nós precisamos de amor, este mesmo amor que a companheira de Marielle guarda em seu peito, daquele amor que seu Fernando demonstrou ao pensar no alimento dos filhos enquanto seguia para a uti de um hospital… O amor que Lula doou ao Brasil ao fazer os pobres sonharem… Este mesmo amor que o impede neste momento de chamar os pobres para as ruas em sua defesa.

Já dizia Renato Russo: “mas é claro que o sol vai voltar amanhã”. Que ele volte, então. E encontre sobras de amor pelos cantos da casa, suficientes para fazer erguer um novo jardim. E nele, haverá uma flor chamada Marielle, que se abrirá ao mundo para mostrar que a boa luta não acaba.

Marielle, presente!

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

Fatos, factoides e superficialidade: a cortina de fumaça

‘Chomsky associa a perda de credibilidade da população com os fatos com o momento atual, em que os veículos de comunicação dedicam suas atenções aos objetivos dos governos’. Helinando P. de Oliveira

A entrevista recente de Noam Chomsky ao El Pais “As pessoas já não acreditam nos fatos” é esclarecedora e digna de nota.

Nela se vê a figura do maior pensador vivo (próximo aos 90 anos) saindo dos holofotes do MIT em busca do calor e da luz natural do deserto de Sonora – Arizona… A entrevista revela uma clareza de ideias estonteante.

Chomsky associa a perda de credibilidade da população com os fatos com o momento atual, em que os veículos de comunicação dedicam suas atenções aos objetivos dos governos.

E para isso há uma avalanche de factoides e fatos menos relevantes que insistem em manter os holofotes bem longe daquilo que de fato interessa. Enquanto as pessoas discutem e buscam futilidades, as direitas cortam direitos, privatizam o que ainda é estatal e tratam de manter o neoliberalismo cada vez mais vivo entre os pobres.

Chomsky justifica esta afirmação: ao invés de aumentar os impostos para os mais ricos, a solução encontrada é tornar o Estado o inimigo da vez. E isso faz com que o mercado (favorecido com os cortes de investimento do Estado) seja exclusividade dos pobres. A proteção econômica é toda voltada às grandes empresas, a partir de subvenções. A grandeza do Deus mercado é mantida por fundos públicos removidos dos pobres.

E é neste sentido que o governo tenta provar que a reforma da previdência é tão necessária quanto o perdão às dívidas bilionárias das grandes corporações. Os pobres podem morrer de fome, já as grandes empresas não! Com isso, no Estado mínimo, os impostos passam a ser fundo para manutenção das detentoras do poder financeiro.

E para jogar uma cortina de fumaça sobre toda esta triste realidade estão as ferramentas digitais à disposição de nossa sociedade, difundindo individualismo e sectarismo a uma geração que não consegue ir além das fotos e sua respectiva legenda, das pessoas que “não curtem textão” e normalmente desistem de ler para além dos 255 caracteres iniciais.

E esta superficialidade tem chegado inclusive àqueles que fazem ciência. Excluindo a parcela (já perdida) dos que publicam para ter progressão funcional e dos que fazem da plataforma Lattes uma rede social, tem sido difícil mostrar aos mais jovens que a ciência não se conjuga na primeira pessoa. A coletividade precisa suplantar o ego, da mesma forma que a busca por respostas para grandes problemas precisa estar acima de qualquer métrica individual.

O neoliberalismo que agora aponta exclusivamente para a cabeça dos pobres não pode ser dominante também no meio acadêmico. A produção de conhecimento com recursos públicos não pode chagar, por exemplo, gratuitamente à iniciativa privada. O conhecimento precisa estar voltado à solução dos problemas de seu financiador, o povo.

E a luta continua, cada vez mais complexa, difusa, turva… Com muitas falsas notícias, anticiência e maldade. O conforto é estarmos do mesmo lado de pessoas como Chomsky, que sempre usou e usa as palavras para ser luz na escuridão.

Viva Chomsky!

Veja a entrevista completa em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/06/cultura/1520352987_936609.htm

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

Intervenção

‘Só que o povo do morro e de todo o país precisa é de uma intervenção artística, cultural, educacional… Precisamos abrir o coração do povo para a sua terra, suas raízes, seu passado.’ Por Helinando P. de Oliveira

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Eles viviam em paz e da terra tiravam todo o suprimento necessário para passar adiante seus costumes e tradições. Foi quando surgiu a primeira intervenção… E eles foram levados a trocar de língua e de religião… E por ironia do destino aquele dia terminou registrado nos anais da história como sendo o do descobrimento. Mas que descobrimento seria este? Os índios já estavam aqui. Esta terra era deles… E assim foram empurrados para o interior. E morreram de morte matada e de morte morrida.

No entanto, seus genes continuaram neste povo sofrido que foi também empurrado para os morros. Povo que continua a trabalhar como escravo para a mesma elite que sempre controlou o país.

E eis que mais uma intervenção toma corpo na vida do povo. Soldados com metralhadoras sobem os morros, ficham os habitantes e tentam manter a ordem.

A mesma ordem que é ditada pelo sistema econômico, que rasga os direitos, aniquila os sonhos, que mantem pobres cada vez mais pobres, estrutura populistas de direita e constrói a marginalidade, mantendo o povo cada vez mais próximo da criminalidade e do tráfico.

Só que o povo do morro e de todo o país precisa é de uma intervenção artística, cultural, educacional… Precisamos abrir o coração do povo para a sua terra, suas raízes, seu passado.

Há de se voltar para antes da primeira intervenção e reconstruir um vínculo da mulher e do homem com o seu lugar a partir da relação entre as pessoas.

Há a necessidade iminente de praticar o amor ao próximo, sair desta caixinha que insiste em nos imbecilizar alimentando o ódio nosso de cada dia.

Precisamos quebrar a matrix!
Utopia? Não!
Isto é postura.
E postura é assim, basta começar.
Que tal desligar a TV hoje à noite?
Acesse a informação por outro meio de comunicação…
Abandone a novela…
Saia e converse com alguém na rua…
Olhe para o céu, contemple as estrelas…
Tal qual faziam os índios…
Vamos começar tudo de novo?

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

Carnaval e apologia à violência

‘Se o carnaval é alegria, que a motivação seja a celebração da vida, sem apologia à violência’. Por Helinando P. de Oliveira

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E lá vem mais um carnaval. É hora de tirar a fantasia do armário e sair às ruas para pular atrás do bloco. Momento de ser feliz e comemorar. O carnaval tem sido carnaval mesmo em tempos de ditadura, democracia e pós-democracia. E em comum a todas estas épocas é percebido um aumento absurdo nos índices de criminalidade, mesmo que a mídia continue a entoar o mantra “carnaval e paz” (como forma de garantir os lucros das fábricas de cerveja, rede hoteleira e toda uma rede de lucros).

Se vivêssemos uma guerra civil declarada certamente precisaríamos decretar um período de cessar-fogo de duas semanas para ver o bloco passar. No entanto, não precisamos dessa burocracia. Já vivemos nossa guerra diária a céu aberto e que serve de grande pano de fundo para a festa popular. Nela, cidadãos do bem portam metralhadoras invisíveis e tremem ao som de trá trá trá trá. Eles simulam a própria morte, como se fossem vítimas de armas de fogo (de onde veio este tiro?). Neste carnaval será importante verificar se o cidadão não está representando uma coreografia antes de acionar o socorro. É estranho pensar que as pessoas pratiquem e curtam coisas do tipo. E ainda mais que no mês passado elas mesmas estavam sentadas na ceia ouvindo “Então é Natal” e que na quarta-feira estarão (algumas delas) com cinzas na testa após a missa.

Banalizar a violência que mata milhares de brasileiros todo ano é torná-la nossa malvada favorita. É seguir na coerência daqueles que aplaudiram o golpe, dizendo que eram milhões de Cunhas e que frequentaram igrejas para ouvir seus líderes pregarem o ódio. A contradição tem sido tão comum em nosso país quanto o feijão com arroz de todo dia.

É neste clima que as pessoas circulam em seus carros blindados e frequentam os shopping centers cravados no meio das favelas. São estas pessoas que fazem cruzeiro pelas ilhas gregas e jogam moedas de 10 centavos para os lavadores de carros. E entendem ser parte de uma elite que permanecerá como elite por muitas gerações. Daquelas que pagam pelo camarote, pelo abadá, pelo segurança particular, pelo plano de saúde e por isso pensam ser mais importantes que os outros… Mas a violência é violência para todos. E que tiro foi este? E não mais que de repente mais um brasileiro entra nesta estatística trágica que destrói sonhos. Não, ele não estava brincando. Foi a sua última queda. Morreu.

E nesta vida Severina partem também os ricos junto aos pobres e miseráveis. Se em vida todos querem ter uma noite de patroa, na morte todos são iguais, friamente iguais.

Se o carnaval é alegria, que a motivação seja a celebração da vida, sem apologia à violência. Adoraríamos ouvir marchinhas que façam nosso povo sonhar outra vez, que tragam esperança, que sejam luz. Precisamos ver a luz no fim do túnel. E isso é urgente.

Bom carnaval para quem é de carnaval. Abaixo a violência e toda e qualquer apologia à desgraça humana.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

Brasil F.C.

‘Já passou da hora de exigirmos educação de qualidade em todos os níveis. E isso vale muito mais que qualquer copa do mundo, pão e festa. Vamos sair deste 7 a 1 eterno’. Por Helinando P. de Oliveira

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Chegamos mais uma vez a um ano de Copa do Mundo. As camisas da CBF que foram às ruas, que dançaram e pediram pelo impeachment de Dilma sairão das gavetas. As praças serão pintadas mais uma vez de verde e amarelo, bandeiras serão hasteadas nas janelas… Todos cantarão mais uma vez o hino nacional com lágrimas nos olhos…As crianças sonharão mais uma vez com um futuro de ostentação e glamour que o futebol oferece. A mágica quadrienal do amor incondicional à nação estará solta mais uma vez e permanecerá até a eliminação ou o título. Neste período seremos a pátria de chuteiras, discutiremos o futuro das próximas gerações de jogadores, sonharemos como uma nação que deu certo. E após o apito do juiz, o que dizer à nossa juventude? Vale mesmo a pena investir em uma nação de jogadores de futebol?

Um estudo realizado pela CBF em 2016 revelou que 82,4% dos jogadores em atividade no Brasil ganham menos de 1000 reais por mês. 96,08% dos jogadores ganham menos de 5000 reais! Jogadores como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo estariam da faixa dos 0,12% mais bem pagos. Por outro lado, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) demonstrou em 2014 que 75% dos mestres e doutores do país estavam empregados e que a diferença salarial devido a qualificação poderia chegar a 5,6 vezes mais que trabalhadores sem a formação correspondente. A comparação entre os dois perfis mostra que apostar exclusivamente na carreira esportiva pode ter retorno tão certo quanto a possibilidade de levar sozinho a mega sena da semana que vem. Os dados mostram que a nação precisa promover incentivo massivo em educação, cujo retorno é garantido e o impacto social extremamente relevante.

Isso não significa que nossas crianças não possam sonhar com a carreira esportiva. Elas devem sonhar! Mas isto precisa acontecer dentro das escolas! Além da paixão pelas Copas do Mundo precisamos aprender a amar também as Olimpíadas de Física, Matemática, Química e Ciências. Nossa nação precisa aproveitar seus talentos (não apenas no futebol) evitando com que eles se percam para as drogas, para a fome, para a criminalidade…

Formar jogadores pode nos encher de orgulho, porém formar cidadãos comprometidos nos enche de dignidade.

Já passou da hora de exigirmos educação de qualidade em todos os níveis. E isso vale muito mais que qualquer copa do mundo, pão e festa. Vamos sair deste 7 a 1 eterno. Ser brasileiros todo dia, e não apenas quando a TV mandar. Lutar pelos brasileiros e não apenas por nós mesmos. Ser menos brasileiros classe média de Miami e mais brasileiros da periferia. Ser menos preconceituosos e mais humanos. É isso o que desejo para 2018. Copa do mundo? Tanto faz. Precisamos mesmo é falar em reforma da previdência, violência contra as mulheres, direitos dos trabalhadores e democracia. Que tal começar agora?

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

A escravidão e o conhecimento

‘Todas estas mãos constroem o mesmo planeta, a mesma casa’. Por Helinando P. de Oliveira

As mãos que manipulam o lápis são as que fazem a lei

As mãos pintadas de pó de carvão manejam o machado e fazem o papel

As mãos que escrevem são aquelas que podem buscar soluções para o planeta

As mãos calejadas que trabalham incessantemente buscam alimento, esperança

As mãos limpas que digitam no teclado sem fio podem resolver os problemas dos que não tiveram oportunidade de escrever

Mas preferem outras mãos propor por ironia ou insensatez que todas as mãos sejam consideradas iguais

Para tanto, bastaria olhar para os pés, estejam eles calçados ou não, sejam eles rachados ou não

As mãos do poder decidiram: todas as mãos são iguais desde que os pés não estejam amarrados

Não importa se as mãos têm acesso ao caviar ou a ração humana….

Está decidido: sem correntes nas pernas ninguém é escravo

Não importa qual a sua alimentação, a condição de trabalho ou de saúde

As mãos dos detentores do poder querem marcar para sempre as mãos dos sem-oportunidade

Definindo-os como iguais, por mais desiguais que sejam

Educando os seus nas melhores escolas, para garantir que as mãos dos filhos dos oprimidos permaneçam maltratadas e sem esperança

Quanta ironia…

Todas estas mãos constroem o mesmo planeta, a mesma casa

E elas ainda não perceberam que todas têm o mesmo destino

E assim decidiram as mãos do poder que para os olhos do mundo os sem oportunidade são iguais aos com oportunidade

A ração humana parece polvilho, que maravilha

Não importa o que esteja ali dentro

As mãos calejadas não têm hábitos alimentares

Não precisam lavar as mãos para comer este troço

Afinal, julgam eles, todos são não-escravos

São iguais em sua desgraça

Quem diria que as panelas que bateram outrora contra o comunismo

Aquelas que foram o fruto de uma harmonia desafinada

São as mãos que contribuíram para a sinfonia da demagogia do míope, que vê igualdade no diferente

Das mãos que julgam ser justo não dar oportunidade

Das mãos que dão o que não é seu

As mãos que destroem o futuro de diversas outras mãos que ainda não se ergueram para lutar contra as arbitrariedades dos corruptos que apagaram o futuro de um país.

Mas mãos calejadas ainda escrevem

E a esperança, assim como o pulso, ainda pulsa.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

O Brasil que deseja exilar (mais uma vez) as ideias de Paulo Freire

‘Abrir os olhos do povo para o seu papel desagrada excessivamente às elites de plantão, e desta forma, mesmo depois de 30 anos de sua morte, os conceitos trabalhados por Paulo Freire continuam mais vivos do que nunca’. Por Helinando P. de Oliveira

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O patrono da educação brasileira foi uma mente brilhante e destacada de seu tempo. Sua obra, reconhecida como patrimônio da humanidade pelo Programa Memória do Mundo da Unesco, joga luz sobre a importância de uma educação crítica e emancipadora, em contraposição à doutrinária educação “bancária”.

Abrir os olhos do povo para o seu papel desagrada excessivamente às elites de plantão, e desta forma, mesmo depois de 30 anos de sua morte, os conceitos trabalhados por Paulo Freire continuam mais vivos do que nunca. Vejamos um trecho daquela que possivelmente foi a última entrevista dada por ele:

“Eu morreria feliz se eu visse o Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. Marcha dos que não têm escola, marcha dos reprovados, marcha dos que querem amar e não podem, marcha dos que se recusam a uma obediência servil, marcha dos que se rebelam, marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser… O meu sonho… é que outras marchas se instalem neste país, por exemplo, a marcha pela decência, a marcha pela superação da sem-vergonhice que se democratizou terrivelmente neste país.”

Embora tenha mais de 30 anos, este discurso encaixa perfeitamente à realidade vivida em 2017. Vimos nesta semana a reintegração de um senador impedido pelo STF ao Senado Federal, por votação entre os pares, que discutiam se tal votação poderia ou não ser “secreta”.

Este é apenas mais um capítulo desta longa novela brasileira que começou por um “acordo nacional” que envolvia “todos” e que terminou por destituir toda uma nação de seus direitos conquistados após anos de luta.

Ao contrário das marchas sonhadas por Paulo Freire, o movimento artificialmente sustentado de panelas (por parte das mídias) alimentou o ódio que desarticulou por completo o povo brasileiro. Por ódio a um partido, os trabalhadores admitem perder seus direitos, férias, hora do almoço… Admitem ver pela TV o desfile da corrupção praticada pelos mesmos corruptos que votaram “sim” pelo “grande acordo nacional”. Não há palavra que melhor caracterize este momento, como a “sem-vergonhice” dita por nosso patrono.

Não bastasse o caos instalado, uma proposta é lançada para análise do senado, que seria em sua essência o segundo exílio para Paulo Freire. Sob o argumento de caracterizar a “filosofia da esquerda” e do “fracasso retumbante” de sua teoria é feita a solicitação da remoção de seu nome do posto de patrono da educação brasileira.

No entanto, Paulo Freire extrapola as fronteiras de uma nação e é uma referência mundial em educação. Sendo ou não patrono da educação brasileira, a sua obra empodera aqueles que o neoliberalismo quer calar. E Paulo Freire, convenhamos, não merece ser patrono de uma nação que prega a Escola sem Partido. Se o Brasil quiser, de fato, entrar nesta seara, melhor que escolha um novo patrono. Paulo Freire está em outro nível. No nível daqueles que respeitam as minorias, respeitam os sonhos e lutam contra os poderosos detentores do poder econômico global. Talvez tenhamos retrocedido tanto em nossa história nos últimos dois anos, que Paulo Freire esteja novamente adiantado por alguns séculos. Como outrora dissera, Jesus: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Que decepção seria neste momento apresentar este novo Brasil aos olhos de Paulo Freire e Darcy Ribeiro. Que vergonha, que vergonha.

Ciência & Sertão

Como será o amanhã da ciência no Brasil?

‘Está claro que o problema de nosso país não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de prioridade no investimento do dinheiro. A ciência definha e morre por um teto orçamentário e uma PEC de conveniência. É inaceitável que a comunidade científica e a sociedade permaneçam inertes.’ Por Helinando P. de Oliveira

O corte de 44% no orçamento federal para a ciência (anunciado desde o início de 2017) foi comparado a uma grande bomba atômica jogada nos laboratórios de pesquisa no país, com consequências até então pouco imaginadas pela própria comunidade acadêmica. O corte de 2,2 bilhões de reais remeteu o total de investimentos ao menor orçamento dos últimos 12 anos, como pode ser visto no infográfico apresentado abaixo.

 

O orçamento de 3,3 bilhões de reais remonta o total de recursos disponíveis em 2005. Para simplicidade de comparação, façamos tal qual o governo e imaginemos que a economia de um país possa ser resumida à economia doméstica (uma comparação inaceitável e chocante). Usando este minimalismo, se o MCTIC fosse um pai de família que ganhasse um salário mínimo em 2005, ele estaria agora sendo obrigado a reduzir sua renda dos atuais 937 reais (atual salário mínimo) para míseros 300 reais (salário mínimo em 2005). Com o crescimento no número de doutores, universidades e centros de pesquisas no país é óbvio que este corte representa o fim do investimento público em ciência e tecnologia. O orçamento do CNPq, previsto para 2017 foi reduzido de 1,3 bilhão de reais para 730 milhões. É claro com que esta medida o teto orçamentário seria atingido antes do final do ano. Como esperado, uma grande inquietação foi observada pelo meio acadêmico quando foi anunciada a possiblidade de não-pagamento das bolsas a partir de setembro. O argumento inaceitável para a destruição dos fundos de ciência e tecnologia do país é a necessidade de um pacote de ajustes para barrar o déficit fiscal no país. E da redução de 42 bilhões do orçamento federal, a restrição de 2,2 bilhões de reais veio da ciência e tecnologia. Para manter as contas do país, o governo decidiu fechar a sua fábrica de produção de conhecimento. Sem dinheiro, sem ciência.

No entanto, na câmara de deputados, o teto orçamentário parece ter um pé direito mais alto. Cada deputado pode apresentar até 25 emendas individuais. Apenas no mês de junho, o governo empenhou 1,8 bilhão de reais em emendas enquanto que o valor esperado para todo o ano chega ao patamar de 6,3 bilhões!!!

Está claro que o problema de nosso país não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de prioridade no investimento do dinheiro. A ciência definha e morre por um teto orçamentário e uma PEC de conveniência. É inaceitável que a comunidade científica e a sociedade permaneçam inertes. A primeira marcha pela ciência levou cientistas às ruas, mas não foi suficiente para estabelecer um clamor da sociedade por um bem tão raro quanto a sua capacidade de produzir conhecimento.

O amanhã pode encontrar um país sem ciência, sem cientistas, mergulhado em suas mazelas, sem esperanças…

Antes deste amanhecer de caos e desesperança, ainda temos tempo para salvar este bem tão precioso. Depende de todos nós.

No próximo dia 14 de setembro às 16 horas ocorrerá uma mesa redonda na Univasf – Campus Petrolina com o tema: Como será o amanhã da ciência no Brasil?

Venha, participe!!!

Deixe sua contribuição antes que seja tarde demais.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

Ciência & Sertão

Privatizando: mode on

‘A privatização da Eletrobrás, dos portos e aeroportos, Casa da Moeda, Universidades e tudo mais que for estatal é, na proporção certa, uma entrega dos nossos bens a terceiros.’ Por Helinando P. de Oliveira

Era uma vez um jovem chamado Joaquim. Seu pai deixou como herança um pequeno sítio, carinhosamente chamado Brasil. Pelo sítio corria um riacho de águas limpas, havia uma horta muito bem cuidada e um galinheiro que supria de ovos e carne a família do Joaquim. No entanto, a monotonia da lida com o campo desagradava o jovem, que resolveu ouvir os conselhos dos amigos do bar e vendeu o galinheiro. Com o que recebeu poderia comprar as galinhas e os ovos que necessitasse para alimentar os filhos. Além disto, ainda teria a vantagem de não mais cuidar dos animais, entregando-os nas mãos de uma empresa experiente que saberia fazer todo o manejo de uma forma muito mais eficiente. E as galinhas caipiras de Joaquim passaram a tomar hormônios e ficarem mais gordas e caras. Pouco tempo após o negócio Joaquim já estava sem dinheiro, pois nem só de ovos e galinha vive o homem. Para tentar recuperar o prejuízo do negócio mal feito ele resolveu fazer o mesmo com sua horta. Repassou a outra empresa que passou a fertilizar seu terreno e produzir tomates quatro vezes maiores. Só que desta vez Joaquim foi mais inteligente: colocou todo o seu dinheiro em fundos de investimento e passou a viver dos juros. No entanto, seus filhos cresceram e precisavam de mais dinheiro para estudar na Universidade. E as finanças do Joaquim quebraram mais uma vez. Nada mais lembrava o pedaço de paraíso onde Joaquim nasceu. As empresas continuaram a produzir e até o tomate que crescia em sua janela não mais entrava em sua casa. Restou ao Joaquim, agora alcóolatra, vender o seu último bem. A sede do sítio, casa levantada pelas mãos dos avós era tudo o que restava para a família. As empresas ofereceram um bom valor pela casa, que seria demolida para construção de um novo galpão, para criação de suínos. E foi assim que Joaquim, a esposa e os filhos saíram pela porteira dos fundos do Brasil. Estava encerrado o sonho que outrora o trouxe àquele terreno fértil. Hoje vivem em um barraco de madeira de uma invasão que foi iniciada às margens de uma rodovia federal. Joaquim não tem dinheiro, seus filhos largaram a Universidade e toda a renda da família vem de quentinhas que são preparadas diariamente por ele mesmo. Em sua porta está instalado um quadro sobre o qual está escrito com giz: feijão, arroz, salada e bife ao molho – apenas 10 reais. Desde a semana passada o frango assado saiu do cardápio, pois o preço acabava com o mísero lucro das marmitas de Joaquim.

E assim segue a vida deste brasileiro que decidiu promover no âmbito familiar o que o governo está a fazer com toda a nação.

A privatização da Eletrobrás, dos portos e aeroportos, Casa da Moeda, Universidades e tudo mais que for estatal é, na proporção certa, uma entrega dos nossos bens a terceiros. Ao final, quando nada mais restar, teremos a opção única de sair pela porta dos fundos, como fez Joaquim e sua família.

A propaganda que passa aos brasileiros a noção de que estatal é obra de interesses políticos, corrupção e mal desempenho é a mesma que apaga os bilhões de dólares cedidos em perdão do governo para as empresas privadas.

Se as empresas privadas são bem mais eficientes, porque precisam figurar nas listas de inadimplência do governo?

Ou será que a adimplência para com os impostos é premissa para os pobres? Como admitir um governo que anseia pela desoneração de órgãos públicos enquanto trabalha pela elevação na carga tributária?

Lembre-se, a eficiência nas empresas que se apoderam de órgãos públicos é medida pelo lucro que estas retornam aos seus proprietários. Que o brasileiro não seja o primeiro povo a comemorar lucro de hospitais privados enquanto morre na porta dos hospitais públicos.

Que o brasileiro não seja o povo calado que assiste o entreguismo desmedido que estamos vivendo, pois já dizia Martin Luther King “O que me preocupa não é o grito dos maus mas sim o silêncio dos bons”.

É passado o tempo das panelas e do ódio. É chegado o momento de convencer Joaquim de que ele pode ser muito mais que vendedor de quentinhas. Não precisamos conviver eternamente com o complexo de vira-lata. Posso vestir vermelho, amarelo, roxo ou verde, colocar a bandeira do Brasil nas costas e gritar: Isto é meu!

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.