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Brasil chega a 400 mil mortos por Covid-19 36 dias após atingir 300 mil óbitos

Com vacinação lenta, país pode enfrentar a terceira onda da pandemia já nos próximos meses

Enterro de Covid-19 no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Marcio James/AFP (Marcio James/AFP)

O Brasil atingiu a marca de 400 mil mortos pela Covid-19 com um patamar ainda alto de óbitos diários e índices de mobilidade crescentes, o que, para especialistas, aumenta o risco de o país ter uma terceira onda da pandemia antes de atingir a imunidade de rebanho pela vacina. A marca negativa chega 36 dias após o país chegar a 300 mil óbitos.

Para cientistas especializados em epidemiologia e virologia ouvidos pela reportagem, a reabertura precipitada das atividades econômicas antes de uma queda sustentada de casos, internações e mortes favorece que as taxas de transmissão voltem a crescer, com risco maior do surgimento de novas variantes de preocupação. Com isso, o intervalo entre a segunda e uma eventual terceira onda seria menor do que o observado entre o primeiro e o segundo picos.

“Nos níveis em que o vírus circula hoje, esse período entre picos pode ser abreviado, sim. Já vimos esse efeito em algumas localidades na virada do ano. A circulação em níveis altos favorece isso”, diz o virologista Fernando Spilki, coordenador da Rede Coronaômica, força-tarefa de laboratórios faz o monitoramento genético de novas cepas.

Em 2020, o número de casos e mortes começou a cair entre julho e agosto para ter novo aumento a partir de novembro. O surgimento de uma nova cepa do vírus (P.1) em Manaus colapsou o sistema amazonense em janeiro e provocou a mesma catástrofe em quase todos os Estados do País entre fevereiro e março.

Os últimos dois meses foram os piores da pandemia até aqui. No ano passado, o país demorou quase cinco meses para atingir os primeiros 100 mil mortos, outros cinco meses para chegar aos 200 mil e dois meses e meio para alcançar as 300 mil vítimas. A triste marca dos 400 mil óbitos veio apenas 36 dias depois.

E os dados dos últimos dias indicam que a queda das internações e mortes iniciada há três semanas já estagnou. O mais provável agora é que os índices se estabilizem em níveis elevados, com 2 mil a 3 mil mortes diárias, ou voltem a crescer, projeta o estatístico e pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Leonardo Bastos.

“Agora era a hora de segurar mais, fazer uma reabertura mais lenta e planejada. Esse aumento de mobilidade e contato entre as pessoas pode levar a uma manutenção do número de hospitalizações em um patamar super alto, o que é péssimo, porque sobrecarrega o sistema de saúde. Do jeito que está, a questão não é se vai acontecer uma nova onda, mas quando”, diz o especialista.

Como exemplo de como uma nova variante pode provocar grandes surtos em um intervalo curto de tempo, o especialista da Fiocruz cita o caso do Rio. Ele considera que o Estado já viveu três ondas. Além da primeira, entre maio e junho de 2020, os municípios fluminenses sofreram um segundo pico em dezembro, com o surgimento da variante P.2, e uma nova alta em março deste ano com a emergência da P.1. “Talvez a próxima onda não seja síncrona em todo o País, mas poderemos ter surtos em diferentes locais”, opina Bastos.

Para Spilki, o aumento nas taxas de mobilidade e relaxamento das medidas de proteção não só elevam as taxas de transmissão como facilitam o surgimento de variantes mais transmissíveis ou letais. “A variante P.1 e outras não são entes estáticos, podem evoluir e se adaptar a novos cenários com o espaço que vem sendo dado para novos casos”, diz ele. Desde novembro, relata o especialista, já foram identificadas oito novas variantes originadas no Brasil.

O epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), também destaca que, mesmo com a queda de casos e mortes nas últimas três semanas, o Brasil está longe de vislumbrar um controle da pandemia.

“Houve arrefecimento do número de casos e mortes pelas medidas de distanciamento social realizadas às duras custas. No momento, o retorno às outras fases de distanciamento é preocupante, principalmente na próxima semana, com aumento da procura de lojas pelo Dia das Mães e, também pela frequência maior de encontros sem a proteção necessária, como já aconteceu no Natal” alerta.

Os especialistas acham improvável que a imunização consiga contemplar a maioria da população antes de uma nova onda. “A vacinação segue lenta, com interrupções e falhas de esquema, como falta de doses para reforço, o que é mais um complicador no que tange a frear a disseminação e evolução de variantes”, comenta o virologista.

Para os cientistas, as medidas necessárias para minimizarmos o risco de um novo tsunami de casos e mortes são as mesmas preconizadas desde o início da pandemia: uso de máscara (de preferência PFF2), distanciamento social, preferência por ambientes ventilados, rastreamento e isolamento de pessoas infectadas, além da aceleração da campanha de vacinação, que esbarra na escassez de doses.

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Brasil supera 340 mil mortes por covid-19 em dia com 3.829 vítimas

Fiocruz alerta para aumento da letalidade da covid-19 no Brasil e pede por lockdown de 14 dias

O Brasil ultrapassou a marca de 340 mil mortos por covid-19. Nas últimas 24 horas, foram registradas 3.829 vítimas, um dos dias mais letais do surto.

Na terça-feira (6) foram registradas mais de 4 mil mortes, um recorde no país. O pior momento da pandemia continua se agravando, enquanto medidas para a contenção do vírus seguem tímidas ou inexistentes.

Em relação ao número de novos infectados, foram 92.625 no último período, totalizando 13.193.205 doentes desde o início do surto, em março de 2020.

Trata-se de um valor elevado diante do registrado nos últimos cinco dias, o que revela o descontrole da transmissão da covid-19 no Brasil.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou um boletim extraordinário que atesta esse descontrole e pede por medidas duras de isolamento, o lockdown.

“Ao longo da última semana foram registrados valores recordes de óbitos por covid-19 superando-se a marca de 3 mil mortes diárias (…) Na última semana observou-se um novo aumento da taxa de letalidade, de 3,3% para 4,2%, o que pode ser consequência da falta de capacidade de se diagnosticar correta e oportunamente os casos graves, somado à sobrecarga dos hospitais”, afirma a Fiocruz, que alerta para uma subnotificação dos dados, mesmo em valores elevados.

Outra voz que alerta para a necessidade de intensificar medidas de isolamento é a de Anthony Fauci. Líder da força-tarefa contra a pandemia nos Estados Unidos, Fauci é uma das maiores autoridades em epidemiologia do mundo. Ele disse, em entrevista coletiva, que “todos reconhecem que há uma situação muito grave no Brasil” em relação à covid-19.

“Não há dúvida de que medidas severas de saúde pública, incluindo lockdowns, têm se mostrado muito bem-sucedidas em diminuir a expansão dos casos. Então, essa é uma das coisas que o Brasil deveria pensar e considerar seriamente dado o período tão difícil que está passando”, alertou o especialista.

Indicações

A Fiocruz, desde o início do ano, avisa sobre a iminência de um colapso na rede hospitalar de todo o país, o que de fato ocorreu. Hoje, faltam leitos de UTI em todas as regiões do país; pessoas morrem sem conseguir atendimento médico necessário.

Os apelos da instituição e de um grande número de cientistas foram ignorados desde o início da pandemia pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.

O político, ao contrário, sempre adotou uma postura negacionista; minimizou a pandemia, ridicularizou o uso de máscaras, promoveu e incentivou aglomerações e chegou a atacar vacinas com informações falsas e imprecisas.

Diante do cenário caótico, a Fiocruz reforça as recomendações. Entre elas estão: “proibição de eventos presenciais, como shows, congressos, atividades religiosas, esportivas e correlatas em todo território nacional; a suspensão das atividades presenciais de todos os níveis da educação do país; o toque de recolher nacional a partir das 20h até as 6h da manhã e durante os finais de semana; o fechamento das praias e bares; a adoção de trabalho remoto sempre que possível, tanto no setor público quanto no privado; a instituição de barreiras sanitárias nacionais e internacionais, considerados o fechamento dos aeroportos e do transporte interestadual; a adoção de medidas para redução da superlotação nos transportes coletivos urbanos; a ampliação da testagem e acompanhamento dos testados, com isolamento dos casos suspeitos e monitoramento dos contatos”.

Colapso

O boletim pede que essas medidas sejam tomadas por 14 dias para reduzir a pressão sobre o sistema de Saúde e reduzir o elevado número de mortes diárias. Das 27 unidades da Federação, 19 estão com os sistemas hospitalares colapsados.

São elas: Rondônia (96%), Acre (95%), Amapá (91%) e Tocantins (95%); Piauí (97%), Ceará (96%), Rio Grande do Norte (97%), Pernambuco (97%) e Sergipe (95%); Minas Gerais (93%), Espírito Santo (94%), Rio de Janeiro (91%) e São Paulo (91%); Paraná (95%), Santa Catarina (99%) e Rio Grande do Sul (90%); e no Centro Oeste, Mato Grosso do Sul (106%), Mato Grosso (98%), Goiás (96%) e Distrito Federal (99%).

Enquanto isso, a aposta do país para a superação da crise reside na vacinação. Entretanto, o ritmo é lento. De acordo com dados do governo federal, foram entregues e distribuídas 42.956.226 doses, sendo que 21.997.737 já foram aplicadas.

Somente 10,33% da população já receberam a primeira dose e 2,27% a segunda. Do total de doses aplicadas, 80% são da CoronaVac, vacina atacada e rejeitada por Bolsonaro, produzida à revelia do governo federal pelo Instituto Butantan, em São Paulo.

A RBA utiliza informações fornecidas pelas secretarias estaduais, por meio do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass).

Eventualmente, elas podem divergir do informado pelo consórcio da imprensa comercial. Isso em função do horário em que os dados são repassados pelos estados aos veículos. As divergências para mais ou para menos são sempre ajustadas após a atualização dos dados.

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Morosidade da vacinação pode comprometer redução das mortes por Covid-19

Estima-se que cerca de 127 mil vidas seriam poupadas até o fim de 2021 se o Brasil tivesse começado em 21 de janeiro a vacinar em massa

Vacinação contra Covid-19 (Divulgação/Prefeitura de Olinda)

Dois estudos recentemente divulgados na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares, evidenciam como a morosidade da vacinação contra a Covid-19 no Brasil pode comprometer a eficiência da campanha em termos da redução do número de mortes pela doença no atual pico epidêmico.

Em um dos artigos, cujo autor principal é o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) Eduardo Massad, estima-se que cerca de 127 mil vidas seriam poupadas até o fim de 2021 se o Brasil tivesse começado em 21 de janeiro a vacinar em massa – algo em torno de 2 milhões de doses aplicadas ao dia. A média atual tem sido de 2 mil pessoas imunizadas diariamente, ou seja, 10% do considerado ideal pelos pesquisadores com base no potencial demonstrado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em campanhas anteriores.

Se os esforços de imunização tivessem ganhado corpo um mês depois, em 21 de fevereiro, o número de mortes evitadas cairia para 86,4 mil até o final do ano. À medida que o tempo passa a estimativa diminui para 54,5 mil (21 de março), 30,3 mil (21 de abril) e 16,4 mil (21 de maio).

“Ao que tudo indica, a vacinação em massa no Brasil só deve começar de fato em agosto. E isso se o Instituto Butantan e a Fiocruz cumprirem a promessa de entregar 150 milhões de doses até julho. Nem estou contando com vacinas de outros laboratórios, como Pfizer, Moderna ou Janssen, porque se chegarem ao país no primeiro semestre será a conta-gotas. Para que um cenário diferente fosse possível, essa negociação deveria ter sido feita já no ano passado”, afirma Massad em entrevista à Agência FAPESP.

Por meio de modelagem matemática e com base nas tendências observadas em dezembro de 2020 (taxa de transmissão e número diário de novos casos – sem considerar a nova variante brasileira), o grupo liderado pelo professor da FM-USP calculou que, se nenhum esforço de vacinação fosse feito ao longo de 2021, o país chegaria ao fim do ano contabilizando 352,9 mil vítimas da Covid-19.

“Trata-se de uma subestimativa, pois com a chegada das novas cepas do SARS-CoV-2 a curva epidêmica tornou-se muito mais acentuada. Essa projeção [de mortes até 31 de dezembro de 2021 em um cenário sem vacinação], no atual contexto, provavelmente ultrapassaria 400 mil óbitos. Ou seja, todos os números apresentados no artigo agora passam a ser o mínimo, o piso”, avalia Massad.

Para o pesquisador, o Brasil já vive a terceira onda da Covid-19, que teria começado após o pico de casos observado em janeiro deste ano. “A segunda onda nem chegou a cair substancialmente quando emergiu a nova variante [P.1.] e o número de casos voltou a acelerar. De quatro semanas para cá temos quebrado recorde atrás de recorde”, diz.

Considerando o atual contexto, Massad calcula que devem morrer mais 100 mil brasileiros até o fim do ano por conta do atraso da vacinação. Se fosse possível antecipar o início da imunização em massa para maio, esse número seria reduzido pela metade, aproximadamente.

“Devemos ter entre 30 e 40 milhões de doses para o primeiro semestre e isso não dá para atender nem metade do grupo considerado de risco, que abrange 77 milhões de pessoas. Com 40 milhões de doses só vacinaremos 20 milhões de indivíduos nesse período, ou seja, menos de um terço do necessário”, aponta o pesquisador.

Na avaliação de Massad, portanto, o impacto da vacinação no curso da epidemia será praticamente nulo no primeiro semestre de 2021. “Se os casos começarem a cair certamente será pelo curso natural da doença ou pelas medidas de isolamento social, que estão cada vez mais difíceis de serem implementadas”.

Todas as estimativas descritas no estudo foram feitas considerando uma vacina com 90% de eficácia, número superior ao dos imunizantes já disponíveis no Brasil (Covidshield, da AstraZeneca/Fiocruz e CoronaVac, da Sinovac Biotech/ Instituto Butantan). No entanto, Massad afirma que todos os imunizantes já aprovados para uso emergencial ou definitivo têm se mostrado igualmente eficazes na prevenção de mortes por Covid-19, que é o principal parâmetro avaliado na pesquisa.

A velocidade faz diferença

O segundo estudo sobre o tema foi conduzido por Thomas Vilches, pós-doutorando no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e teve a colaboração de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu.

Também por modelagem matemática, o grupo projetou 18 cenários relacionados ao impacto da campanha de vacinação no número de internações e mortes por Covid-19 em São Paulo no atual pico epidêmico.

Entre os fatores que se modificam nos diferentes cenários estão: a vacina utilizada (CoronaVac ou Covidshield), a velocidade na distribuição das doses (630 mil ou 1,2 milhão ao dia em todo o país), a proteção de cada imunizante contra sintomas severos (que variou entre 0% e 100%), a proteção das vacinas contra a infecção (que também variou de 0% a 100%) e o grau de percepção de risco de cada indivíduo vacinado, ou seja, o quanto ele respeita as medidas de isolamento.

Ao ajustar o modelo, os pesquisadores consideraram que em torno de 20% da população paulista já havia sido infectada e apresentava anticorpos contra o SARS-CoV-2. Além disso, considerou-se uma taxa de transmissão do vírus de 1,04 (cada 100 infectados sintomáticos geram outros 104 sintomáticos). Esse foi o valor reportado para São Paulo em janeiro pelo Observatório Covid-19 BR.

“No cenário que chamamos de basal [baseline], consideramos que 0,3% da população do país seria vacinada diariamente e isso dá algo em torno de 630 mil doses ao dia. Essa velocidade de distribuição seria possível de ser alcançada somente com as doses fornecidas pelo Instituto Butantan, quando a produção alcançar a ‘velocidade de cruzeiro’ [1 milhão de doses ao dia]. Já no cenário que chamamos de ‘velocidade dobrada’, 0,6% da população seria vacinada por dia, o que seria possível de ser feito somando as doses produzidas por Butantan e Fiocruz”, avalia Vilches.

O pesquisador ressalta, no entanto, que mesmo o cenário considerado basal no estudo é mais célere que o ritmo atualmente registrado em todo o país. “O Brasil tem uma grande capacidade de fazer a distribuição das doses, graças à estrutura do SUS. Nosso problema é a produção”, afirma.

As projeções indicam que com a CoronaVac, no melhor cenário – ou seja, considerando 100% de proteção relativa (o que equivale a dizer que a proteção contra infecção é de 50,3%, valor equivalente ao da eficácia global) e 100% de proteção contra sintomas severos -, seria possível, na velocidade basal de distribuição, reduzir em 45,3% o número de óbitos por Covid-19 no atual pico epidêmico. Com a Covidshield, também no melhor cenário, a redução seria de 57%.

Caso a velocidade na distribuição das doses fosse dobrada, os percentuais (referentes à redução dos óbitos) saltariam para 65,7% com a CoronaVac e 74% com a Covidshield.

“Com a velocidade dobrada, mesmo no pior cenário [aquele em que a vacina oferece 0% de proteção contra sintomas severos e 0% contra infecção], a CoronaVac poderia reduzir em 30% o número de mortes e, a Covidshield, em 46,8%”, estima Vilches.

Segundo o pesquisador, a mensagem principal do trabalho é que, para que a campanha tenha um impacto significativo na redução das mortes, todo esforço possível deve ser feito para acelerar o ritmo da vacinação no país, inclusive a compra de imunizantes de outros laboratórios. “Quanto mais vacinas forem adquiridas, melhor. Não há justificativa para não fazê-lo. Vacinar rápido é fundamental para evitar mortes e também para barrar o surgimento de novas cepas ainda mais agressivas”, diz.

Agência FAPES

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Lula adota discurso de estadista e afirma: “O Brasil não é dos milicianos”

Sobre as eleições de 2022, petista adota cautela e defende unidade da esquerda. Para Huck e Ciro Gomes, sobraram ironias

Ex-presidente discursa na sede do Sindicato dos Metalúrgicos – Foto: Vanessa Nicolav

Durante as mais de três horas em que falou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, São Paulo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discorreu sobre temas da política nacional, criticou o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e ironizou possíveis presidenciáveis das eleições de 2022.

Assista ao discurso aqui

Sobre uma possível candidatura sua, Lula preferiu adiar a decisão, mas defendeu que a esquerda se mantenha unida para enfrentar Bolsonaro: “Nós vamos discutir se vai ter candidato de frente ampla [de esquerda], se vai ter um candidato do PT, mas aí é mais para frente. Nós temos muita coisa para fazer antes de pensar em nós mesmos.”

O petista também comentou as chances de uma aliança para além do campo progressista. “Quando chegar o momento, vamos decidir se será possível uma candidatura única e se será possível alianças só na esquerda. Quando eu fui candidato em 2002, eu tive como vice o companheiro José Alencar, do PL. E foi a primeira vez nesse país que fizemos uma aliança entre o capital e o trabalho, para governar esse país”, disse.

Ainda de acordo com Lula, a polarização não deve ser encarada como um problema: “O PT polariza desde 1989. O PT sempre vai disputar as eleições para polarizar. Com Bolsonaro, com PSDB, não importa. Em qualquer circunstância, estaremos com a esquerda. Podemos polarizar com quem quer que seja, desde que seja de esquerda contra alguém de direita. Duro é quando era gente de direita contra outro de direita.”

Lula teve seus direitos políticos restabelecidos após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que anulou todas as sentenças contra o ex-presidente, em julgamentos da 13ª Vara Federal de Curitiba, no Paraná. Dessa forma, de acordo com a Lei da Ficha Limpa, o petista pode ser candidato novamente a qualquer cargo eletivo.

A decisão do STF, comemorada por Lula e seus aliados, gerou críticas em possíveis candidatos à Presidência em 2022. Luciano Huck, apresentador de TV, e Ciro Gomes receberam respostas do ex-presidente.

“Seria melhor que ela [imprensa] dissesse ‘olha, temos um candidato do PSDB, vamos desenterrar aquele Doria?’ Que dissessem isso textualmente. O Huck? O Huck tá jogando bafo, falando de figurinha. Pô, eu fiquei tão chateado. Um cara que eu considero um cara bom de televisão, um menino que progrediu na vida. Mas ele não conhece figurinha, porque ele falou que figurinha repetida não vale nada, mas ele não sabe que uma figurinha repetida carimbada vale pelo álbum inteiro”, ironizou Lula.

Sobre Ciro Gomes, Lula disse que ele “precisa se reeducar”. “Se ele não melhorar, não vai ter apoio de ninguém. Humildade não faz mal a ninguém, é preciso respeitar as pessoas e tratar elas com carinho. Se chegar aos 70 com essa intolerância, não vai aprender mais nada”, completou o ex-presidente.

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Ministério da Defesa diz que vai apurar compra de picanha e cervejas especiais para militares

Em tempos de extrema restrição de orçamento, as Forças Armadas usaram dinheiro público, ao longo de 2020, para bancar a compra de mais de 700 mil quilos de picanha e 80 mil cervejas

Além do gasto em tempo de pandemia, há fortes indícios de superfaturamento nas aquisições. (Isac Nóbrega/PR)

O Ministério da Defesa e as Forças Armadas garantem que ‘eventuais irregularidades’ na compra de 700 mil quilos de picanha e 80 mil cervejas com dinheiro público em 2020 serão ‘apuradas com rigor’. É o que diz nota do Ministério da Defesa (MD), que informou aguardar notificação da Procuradoria-Geral da República. As Forças Armadas argumentam que a representação de deputados do PSB se baseia em “informações absolutamente equivocadas” e que o tema foi objeto de nota de esclarecimento, mas o órgão não explicou as razões que levaram à aquisição de cervejas e de picanha.

Conforme já publicamos, as Forças Armadas brasileiras usaram dinheiro público, ao longo de 2020, para bancar a compra de mais de 700 mil quilos de picanha e 80 mil cervejas. E não se trata de itens quaisquer. Picanha de R$ 84,14 o quilo. Cervejas especiais, de puro malte, a R$ 9,80 cada.

As despesas com bebidas alcoólicas e carne de churrasco foram tema de uma representação que deputados do PSB enviaram na terça-feira, 9, ao procurador-geral da República, Augusto Aras, para que investigue os gastos militares. O levantamento foi feito diretamente pela equipe dos parlamentares. A representação levada à PGR foi divulgada pelo site Congresso em Foco. Os questionamentos não se limitam ao tipo de item que foi comprado. Há fortes indícios, de acordo com os parlamentares, de superfaturamento nas aquisições.

O levantamento utilizou informações do Painel de Preços do Ministério da Economia, a mesma ferramenta pública que revelou as compras milionárias de leite condensado. Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro justificou que se tratava de um item “necessário” aos militares, dado seu alto teor energético e calórico.

A reportagem questionou as Forças Armadas sobre quais seriam as justificativas e motivações para a compra dos 714.700 quilos de picanha e 80.016 garrafas e latas de cerveja em pleno ano de pandemia. Em nota, o Ministério da Defesa (MD) informou que aguarda a notificação da Procuradoria Geral da República. “O Ministério da Defesa e as Forças Armadas reiteram seu compromisso com a transparência e a seriedade com o interesse e a administração dos bens públicos. Eventuais irregularidades são apuradas com rigor”, diz a pasta.

O deputado Elias Vaz de Andrade (PSB-GO), que está entre aqueles que assinam a representação, afirma que os dados são oficiais e que se trata de preços devidamente registrados e aprovados pelas Forças Armadas, para que possa solicitar os alimentos. “Estamos denunciando esses processos licitatórios. Essas empresas tiveram suas propostas aprovadas, por esses valores. Há processos de compra concluídos e, inclusive, já efetivamente pagos. Todos eles foram homologados pelas Forças Armadas”, disse o deputado. “Falam que fazem uma alimentação balanceada, mas não explicam por que essa alimentação deve incluir itens como picanha e cerveja.”

Marcas famosas

Na relação detalhada de compras de cervejas anexada à denúncia dos deputados estão, por exemplo, 500 garrafas da bebida, da marca Stella Artois, ao preço unitário de R$ 9,05. Há ainda a aquisição de 3 mil garrafas de Heineken, a R$ 9,80 cada.

O comando da 23ª Brigada de Infantaria de Selva preferiu 3.050 garrafas de Eisenbahn, ao custo de R$ 5,99. Já a Brigada de Infantaria Motorizada do Rio de Janeiro optou por 1.008 latas de Bohemia Puro Malte, pelo valor de R$ 4,33 cada. Em supermercados aponta a representação, o preço médio desse item é de R$ 2,59.

A lista de cervejas inclui ainda 2 mil garrafas de 600 ML de Bohemia Puro Malte, pelo valor de R$ 7,29, quando essas garrafas são encontradas por R$ 5,79. Para comprar mais 1.600 latas de Skol Puro Malte, de 350 ML, os militares pagaram R$ 4,00 pela unidade, item que é encontrado a R$ 2,69 em redes de varejo.

“O superfaturamento é evidente. Além disso, a grande quantidade que os órgãos solicitaram via processo licitatório deveria favorecer a negociação e proporcionar preços muito menores que os oferecidos no varejo. A realidade, todavia, demonstra que os preços contratados são superiores aos praticados pelos supermercados”, afirmam os deputados, na representação.

As informações revelam ainda que Marinha, Aeronáutica, Exército, Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) e a administração interna do Ministério da Defesa são grandes consumidores de picanha. Só em 2020, foram concluídos 76 processos de compra do corte, somando 714.700 quilos da carne nobre.

O Comando do Exército Brasileiro é o campeão em processos de compras do produto, tendo consumido 569.215 quilos do total.

Os dados revelam uma licitação de 13.670 quilos, na qual o valor de cada quilo pago foi de R$ 84,14. A se basear no preço que os militares estavam dispostos a pagar pela carne, até que saiu barato. O valor médio estimado pela equipe que conduziu a fase interna da licitação, de acordo com os documentos do certame, foi de R$ 118,25 o quilo.

“Sinceramente, é preciso investigar qual foi o corte de carne usado para se chegar a esse preço médio irreal”, informa a representação.

“Em um ano de pandemia, com crise sanitária, econômica e social devastando nosso país, é inacreditável que os cofres públicos tenham custeado gastos com cerveja”, declaram os deputados. “Enquanto nosso povo padece por falta de recursos para sobrevivência, nossos militares usaram dinheiro público para custear bebidas alcoólicas. Tal conduta fere de morte o Princípio Constitucional da Moralidade Pública.”

Não se quer afirmar que os militares “não podem comer carne”, argumentam os parlamentares, mas, sim, questionar “o grau de sofisticação empregado” nas compras de cortes nobres e específicos. “O episódio narrado nesse item revela que houve ostentação e os privilégios direcionados para alguns, conduta que destoa do discurso de humildade e simplicidade usado pelo Presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais.”

Diferenças

Segundo a nota do Ministério da Defesa, “existe sempre uma significativa diferença entre processos de licitação e a compra efetivamente realizada, cuja efetiva aquisição é concretizada conforme a real necessidade da administração”. Assim, “é imprescindível que se faça essa segmentação adequada, quando se faz a totalização dos valores, interpretação e principalmente a divulgação pública destes dados, de modo a evitar a desinformação”. De acordo com a pasta, “apresentar valores totais de processos licitatórios homologados como sendo valores efetivamente gastos constitui grave equívoco”, afirma a nota, referindo-se aos dados incluídos na representação. No documento apresentado à PGR, entretanto, os deputados trazem os dados detalhados com a identificação da compra realizada e seu referido fornecedor.

Agência Estado

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Traído pelo DEM, Maia pode abrir impeachment de Bolsonaro nesta segunda

Bolsonaro queima R$ 3 bilhões para comprar votos na Câmara e provoca racha no bloco de Baleia Rossi. PSDB e Solidariedade também podem negar apoio ao MDB

Presidente da Câmara ameaçou até mesmo deixar o DEM após racha promovido por Bolsonaro (Najara Campos/Câmara)

A decisão da Executiva do DEM de desembarcar do bloco de apoio à candidatura do deputado Baleia Rossi (MDB-SP) e a disposição do PSDB e do Solidariedade de seguir o mesmo caminho levaram o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a ameaçar aceitar um pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro. A eleição que vai escolher a nova cúpula da Câmara e do Senado está marcada para esta segunda-feira, 1.º.

Ao ser informado pelo presidente do DEM, ACM Neto, na noite desse domingo (31, de que a maioria dos deputados do partido apoiaria a candidatura de Arthur Lira (Progressistas-AL) para o comando da Câmara, e não Baleia, Maia ficou irritado. O presidente da Câmara ameaçou até mesmo deixar o DEM. A reunião ocorreu na casa dele, onde também estavam líderes e dirigentes de partidos de oposição, como o PT, o PC do B e o PSB, além do próprio MDB.

Maia encerra o mandato à frente da Câmara nesta segunda-feira, 1º, e, segundo apurou o Estadão, afirmou que, se o DEM lhe impusesse uma derrota, poderia, sim, sair do partido e autorizar um dos 59 pedidos de afastamento de Bolsonaro. Integrantes da oposição que estavam na reunião apoiaram o presidente da Câmara e chegaram a dizer que ele deveria aceitar até mais de um pedido contra Bolsonaro.

ACM Neto passou na casa de Maia antes da reunião da Executiva do DEM justamente para informar que, dos 31 deputados da legenda, mais da metade apoiava Lira. Pelos cálculos da ala dissidente, 22 integrantes da bancada estão com Lira, que é líder do Centrão.

O PSDB e o Solidariedade têm reuniões marcadas para esta segunda-feira, 1º e, diante da fragilidade da candidatura de Baleia, também ameaçam rifá-lo. “Ou mostramos força e independência apoiando claramente o Baleia ou adeus às expectativas de sermos capazes de obter alianças e ganhar as próximas eleições. Se há algo que ainda marca o PSDB é a confiança que ele é capaz de manter e expressar. Quem segue a vida política estará olhando, que ninguém se iluda”, disse recentemente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em um grupo de WhatsApp da bancada tucana.

O ex-senador José Aníbal foi na mesma linha. “O PSDB assumiu compromisso com Baleia. Espero que cumpra. De outro modo, é adesão ao genocida”, afirmou Aníbal neste domingo, 31. Maia lançou a candidatura de Baleia à sua sucessão em dezembro, com o respaldo de uma frente ampla, que incluiu partidos de esquerda. Na ocasião, o líder do DEM, Efraim Filho (PB), assinou um documento no qual o partido avalizava o nome do MDB.

Planilha mostra repasses

O governo do presidente Jair Bolsonaro inovou na prática de trocar verbas por votos no Congresso. Enquanto seus antecessores direcionavam esforços para cooptar o chamado baixo clero, o atual governo privilegiou “caciques” na Câmara e no Senado, dando ainda mais poder a esses políticos. É o que mostra uma planilha de controle de recursos do Ministério do Desenvolvimento Regional, revelada anteontem pelo Estadão, que beneficiou 285 congressistas com R$ 3 bilhões de dinheiro extra, além dos recursos a que eles já têm direito para direcionar por meio de emendas.

Até mesmo quem não tem mandato, como o presidente do PSD, Gilberto Kassab, pôde indicar valores para obras. Um dos nomes fortes do Centrão, Kassab se tornou um conselheiro de Bolsonaro, mesmo tendo sido secretário da Casa Civil – pasta da qual permaneceu praticamente todo o tempo licenciado – do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), arqui-inimigo do presidente da República.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), é quem recebeu a maior fatia do dinheiro “extra” destinado a redutos eleitorais por indicação política. No comando da Congresso, Alcolumbre se tornou um fiel escudeiro do presidente e evitou que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) fosse alvo do Conselho de Ética após ser acusado de comandar um esquema de rachadinha quando era deputado estadual no Rio.

A divisão da bolada tem sido negociada pelo ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. A planilha, informal e sem timbre, inclui repasses de recursos do Orçamento que não são rastreáveis por mecanismos públicos de transparência. A “caixinha” paralela das obras do Ministério do Desenvolvimento Regional soma R$ 3 bilhões e, de acordo com a planilha, embora atenda a indicações de 285 parlamentares, há uma concentração de R$ 1,77 bilhão apenas entre dez senadores e 15 deputados.

Ramos negou que as planilhas reveladas pelo Estadão sejam da Secretaria de Governo. “Seria até ofensivo, de minha parte, negociar voto em troca de cargos e emendas”, disse ele.

Na condição de líder do Progressistas, Arthur Lira (AL), candidato de Bolsonaro na Câmara, aparece como tendo indicado R$ 109,6 milhões para obras em São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.

No topo da lista, Alcolumbre teve aprovadas 44 indicações de repasses do governo federal em valores que totalizam R$ 329 milhões, considerando apenas as verbas extras do Desenvolvimento Regional. Numa comparação, o montante supera, com folga, os R$ 289 milhões que o governo reservou para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos em 2021.

Presidente do PSD, Kassab pôde direcionar R$ 25 milhões para três obras. Uma parte desse valor (R$ 10 milhões) aparece na lista como tendo sido indicada por ele em conjunto com o deputado Domingos Neto (PSD-CE), relator do Orçamento no ano passado. Kassab consta na planilha a que o Estadão teve acesso como “deputado”, cargo que não ocupa mais desde 2005. Ele e parlamentares do PSD destinaram ao todo R$ 608 milhões da planilha.

Fiador

Até parlamentares que não têm proximidade com o governo foram beneficiados após encontrarem um “fiador”. E o maior deles é o presidente do Senado. Das verbas cujo destino ele pôde apontar, oito transferências, com valores somados de R$ 51,6 milhões, são listadas como de Alcolumbre ao lado de algum senador de oposição – a lista inclui nomes do PT e do PDT. O Estadão apurou que o valor corresponde a um acerto do próprio Alcolumbre com líderes do Senado feito no meio de 2020. Mesmo na oposição a Bolsonaro, as duas siglas anunciaram apoio a Pacheco na disputa no Senado. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Churrasco, fonoaudióloga e reuniões fechadas

Com churrasco em área nobre de Brasília, fonoaudióloga para caprichar no discurso de agradecimento, jantar e telefonemas para garantir votos dos colegas, os deputados na disputa pela presidência da Câmara passam o domingo de sol em Brasília. A votação para a escolha do presidente para os próximos dois anos está marcada para 1º, e deve começar às 19h.

Em sua segunda tentativa de comandar a Câmara, o deputado Fábio Ramalho (MDB-MG), candidato independente, treina um discurso de agradecimento pelo apoio que recebeu durante a campanha. Em seu apartamento funcional, conta com a ajuda de uma profissional da voz. Ramalho deve ainda gravar um vídeo institucional para disparar aos colegas pelo Whatsapp e, só mais tarde, pretende receber aliados para uma pequena reunião.

Um dos favoritos na disputa, o deputado Arthur Lira (PP-AL), líder do Centrão e apoiado pelo Palácio do Planalto, foi convidado a passar a tarde de sol e calor deste domingo em um churrasco, no Lago Sul, área nobre da capital federal. A festa é organizada pelo PL, partido comandado por Valdemar da Costa Neto e deve servir também para aparar as últimas arestas da campanha. O evento também serve de apoio ao deputado Marcelo Ramos (PL-AM), que deve ter um espaço na Mesa Diretora amanhã, dependendo da formação dos blocos.

Às vésperas da eleição, o adversário de Lira, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP) passará o fim de semana em ligações e encontros com congressistas em busca de votos. À noite, ele tem jantar marcado com a bancada feminina da Câmara dos Deputados. Organizado com a ajuda de Perpétua Almeida (PCdoB-AC), o evento tem como mote “mulheres que acreditam na Câmara livre e na democracia viva”. A expectativa na campanha de Baleia é contar com o apoio de 59 das 76 colegas dele na casa, como mostrou a Coluna do Estadão.

Entre os senadores, também houve um “esquenta” antes da eleição. O líder do PDT, Weverton Rocha (MA), convidou aliados para um churrasco com a presença de Rodrigo Pacheco (DEM-MG), candidato à presidência da Casa apoiado pelo atual chefe do Legislativo, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e pelo presidente Jair Bolsonaro.

 

Agência Estado

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Após afirmar que país está quebrado, Bolsonaro diz que Brasil está ‘uma maravilha’

Presidente volta a se contradizer e coloca culpa na imprensa e até em Paulo Freire

Bolsonaro segue discursando para apoiadores, sem se importar com as consequências (Evaristo Sá/AFP)

Um dia depois de dizer que Brasil estava “quebrado”, o presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmou que o país está uma “maravilha” e responsabilizou a imprensa por uma “onda terrível” sobre sua fala na terça-feira (5). Em conversa com apoiadores, o chefe do Executivo minimizou a declaração anterior sobre a situação do Brasil, que repercutiu negativamente no meio político e no mercado financeiro.

“Confusão ontem, viu? Que eu falei que o Brasil estava quebrado. Não, o Brasil está bem, está uma maravilha. A imprensa sem vergonha, essa imprensa sem vergonha faz uma onda terrível aí. Para imprensa bom estava Lula, Dilma, que gastavam R$ 3 bilhões por ano para eles”, afirmou para um grupo de pessoas na saída do Palácio da Alvorada.

Na terça, Bolsonaro também disse que não conseguia “fazer nada” e atribuiu à pandemia da Covid-19 o motivo para não conseguir ampliar a isenção da tabela do Imposto de Renda, uma de suas promessas de campanha. A fala sobre a situação do país vai na direção oposta da mensagem que a equipe do ministro Paulo Guedes busca passar sobre a recuperação da economia.

Na manhã desta quarta, na conversa com apoiadores, Bolsonaro, ainda em reforço às críticas à imprensa, negou ter conversado por telefone com o ex-presidente Michel Temer, como noticiado pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo. “De vez em quando eu falo com ele, mas tem mais de 30 dias que eu não falo com o Temer”, disse. De acordo com o colunista, Temer ligou para Bolsonaro para tranquilizá-lo caso o deputado Baleia Rossi (MDB), seu aliado, vença a eleição para a presidência da Câmara.

De acordo com o presidente, a notícia foi “inventada” e seria uma forma de influenciar nas eleições para as mesas do Congresso. O mandatário chegou a dizer que a imprensa brasileira “não é nem lixo né, lixo é reciclável” e que “não serve para nada, só fofoca e mentira o tempo todo”.

Desemprego de 14,2%

Bolsonaro também voltou a falar sobre a situação de desemprego no país, que atingiu 14,2% em novembro de 2020, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad Covid-19), que é mensal e realizada desde maio. Na terça-feira, no retorno ao Palácio da Alvorada, o chefe do Executivo afirmou que “uma parte considerável não está preparada para fazer quase nada”, em referência à formação dos brasileiros.

Nesta quarta, Bolsonaro também minimizou a fala e reforçou críticas ao educador Paulo Freire, patrono da educação brasileira. “Ontem falei que parte dos brasileiros não estão preparados (sic) para o mercado de trabalho. Pronto, a imprensa falou que eu ofendi todos os empregados do Brasil. Agora, nós importamos serviços porque não tem gente habilitada aqui dentro. Porque há 30 anos é destruída a educação no Brasil, a geração Paulo Freire né?”, declarou.

Após a conversa com apoiadores na saída da residência oficial, Bolsonaro se encontrou com ministros no Palácio do Planalto para uma reunião que não constava nas agendas oficiais no início do dia. O ministro Paulo Guedes, que ainda está em período de férias, foi um dos 17 ministros que participaram da reunião.

 

Agência Estado/Dom Total

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Notícias

Três últimos presidentes eleitos criticam Bolsonaro por ironizar tortura a Dilma

Lula, FHC e a própria Dilma Rousseff repudiaram as declarações feitas na última segunda-feira (28)

Dilma Rousseff é alvo de interrogatório em 1970, em plena ditadura militar – Reprodução

Jair Bolsonaro (sem partido) questionou, na última segunda-feira (28), a veracidade das torturas sofridas por Dilma Rousseff (PT) durante a ditadura civil-militar (1864-1985). Em conversa com apoiadores, ele questionou a ausência de um “raio x da mandíbula” que comprovaria as agressões. Imediatamente, os três últimos presidentes eleitos do país se manifestaram pelas redes sociais e criticaram a postura do capitão reformado.

As torturas a que Dilma foi submetida pelos militares estão comprovadas em documentos do Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG) e da Comissão Nacional da Verdade.

Bolsonaro é apoiador dos crimes cometidos pela ditadura, além de ser admirador confesso do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que torturou Dilma.

Reações

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), expressou solidariedade a Dilma e disse que Bolsonaro passou dos limites. “Brincar com a tortura dela –ou de qualquer outra pessoa– é inaceitável”, escreveu em suas redes sociais.

Amigo e companheiro de partido de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também repudiou as declarações do capitão reformado. “O Brasil perde um pouco de sua humanidade a cada vez que Jair Bolsonaro abre a boca”, escreveu o ex-presidente, que também foi preso pela ditadura.

Dilma Rousseff se pronunciou sobre o caso por meio de nota, intitulada “Índole de torturador”. Confira na íntegra:

“A cada manifestação pública como esta, Bolsonaro se revela exatamente como é: um indivíduo que não sente qualquer empatia por seres humanos, a não ser aqueles que utiliza para seus propósitos. Bolsonaro não respeita a vida, é defensor da tortura e dos torturadores, é insensível diante da morte e da doença, como tem demonstrado em face dos quase 200 mil mortos causados pela covid-19 que, aliás, se recusa a combater. A visão de mundo fascista está evidente na celebração da violência, na defesa da ditadura militar e da destruição dos que a ela se opuseram”.

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Entrevistas

‘Whatsapp de Robinho é um exemplo ruim e verdadeiro da masculinidade brasileira’

Segundo pesquisadora Valeska Zanello, para combater o estupro e o feminicídio, do ponto de vista da saúde pública, é necessário encarar o vetor: a masculinidade violenta

Professora da UnB e pesquisou durante seis meses, com a ajuda de voluntários ‘espiões’, mensagens trocadas em grupos masculinos dentro do Whatsapp (Reprodução)

Muito se fala sobre a desinformação que circula pelas redes sociais, em especial pelo Whatsapp. Mas além de fake news, as trocas de mensagens nessas redes também reforçam comportamentos sexistas e violentos, segundo uma pesquisadora que tem se debruçado sobre o assunto. 

Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB) e autora do livro Saúde mental, gênero e dispositivos pesquisou durante seis meses, com a ajuda de voluntários “espiões”, mensagens trocadas em grupos masculinos dentro do Whatsapp. E o que ela mais encontrou foram memes e imagens que objetificam sexualmente as mulheres. Coisas como uma imagem do goleiro Bruno, condenado por feminicídio, abraçado a uma mulher. Ao lado da foto aparece uma fila de cachorros segurando, na boca, potes vazios à espera de comida. O texto diz apenas: “Bruno está de namorada nova”.

Esse foi um dos exemplos de imagens recorrentes que apareceram na pesquisa.

Embora ela não tenha encontrado nenhum caso de estupro na pesquisa, Zanello diz que a troca de mensagens nos grupos se assemelha às conversas que vazaram do jogador Robinho, condenado em primeira instância por ter participado de um estupro coletivo em 2014, com seus colegas.”O que aconteceu ali [no caso Robinho] tem o funcionamento do grupo”, constata.

Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB) (Arquivo pessoal)

Em entrevista, a pesquisadora explica que há uma ligação entre esses grupos fechados de conversas masculinas – que ela chama de “Casa dos Homens” – à ascensão de Jair Bolsonaro ao poder. “Bolsonaro é a encarnação dessa masculinidade adoecida e infelizmente encontra eco e representa grande parte dos homens do nosso país”, lamenta. Leia a entrevista na íntegra:

Por que você decidiu investigar grupos de WhatsApp masculinos?

Eu trabalho com saúde mental e gênero há 15 anos, e o meu foco inicial era saúde mental das mulheres. Só que nas minhas pesquisas foi aparecendo cada vez mais a necessidade de se trabalhar as masculinidades. O Brasil é o quinto país em feminicídio, a gente tem uma média de 180 estupros por dia. A gente é campeão em morte de população LGBT, tem um genocídio da população negra, e uma coisa começou a me incomodar: Todas as vezes que a gente tem um problema de saúde pública, como por exemplo a dengue, a gente não fica só na população alvo, a gente sempre procura pelo vetor e combate o vetor. E quando a gente fala de violência no Brasil isso não acontece. A gente sempre fica no público alvo, mulheres vítimas de violência, pessoas negras vítimas de violência, trans vítimas de violência. Começou a me chamar a atenção que era cada vez mais necessário a gente se perguntar pelo vetor. E quem é esse vetor? São os homens. A masculinidade.

A gente tem um histórico de machismo que se configurou no nosso país e que é profundamente adoecedor para os homens, mas principalmente extremamente violento para quem convive com eles.

O que significa ser homem hoje no Brasil? Ser homem se afirma de forma imperativa e negativa, ser homem é não ser uma mulherzinha. Então os homens têm que performar, demonstrar o tempo inteiro um repúdio às mulheres e às qualidades femininas.

Além disso, desse ponto central na afirmação da masculinidade que é a misoginia, o repúdio às mulheres e às qualidades femininas, é importante a gente pensar os processos pelos quais essa masculinidade se conforma. E ela se conforma, de acordo com o Daniel Welzer-Lang, que é um autor francês que estuda masculinidades, ele criou uma metáfora que é a “Casa dos Homens”. É uma “casa” simbólica. Imagine uma casa em que você, um homem, precisa ir atravessando de um cômodo para o outro. E existem homens que já atravessaram, e que te testam, para permitir que você atravesse. Então, a masculinidade se constrói de forma homosocioafetiva nessa “casa”.

Quem avalia as mulheres no nosso país, física e moralmente, são os homens. Mas quem avalia os homens são eles mesmos. Isso é muito importante, não são as mulheres.

E nessa Casa nunca existe um cômodo final. Os homens sempre têm que dar a ver aos seus pares performances masculinas, dentro do que é considerado o ideal da masculinidade, que passa por um embrutecimento. Embrutecimento dos afetos, embrutecimento da relação com o próprio corpo, embrutecimento das relações com os homens e com as mulheres.

E aí eu fiquei pensando como pesquisar a Casa dos Homens, porque a gente não tem acesso à ela. Só quem entra na Casa dos Homens são os próprios homens. Por isso que a gente precisa dos homens para desconstruir o sexismo no Brasil.

E eu falava isso, que eu queria arrumar espiões na casa dos homens pelos grupos de WhatsApp. É uma curiosidade que algumas mulheres têm: “O que os homens tanto falam? Por que quando eu chego meu marido fecha o WhatsApp?”. Então eu consegui espiões, homens que vieram no final das minhas palestras, homens de lugares e regiões diferentes do Brasil, que se propuseram, se dispuseram, a ser esses espiões. E aí foram seis meses recolhendo o material, e muitos dos materiais que chegavam, dos memes, eram repetidos. E foi impressionante.

Valeska Zanello é autora do livro ‘Saúde Mental, gênero e dispositivos’ (Ethel Rudnitzki)

Quais eram os tipos de mensagens e memes mais comuns?

Eu fiz a análise de conteúdo, e peguei as seis categorias mais frequentes nos grupos. A principal foi a objetificação sexual das mulheres, como prova para “dar a ver que se é homem”. Por exemplo, tem uma imagem que era um cirurgião e ele estava costurando metade para baixo de um tronco de uma mulher com metade para baixo de outro tronco. E aí tem escrito “criando a mulher perfeita”. Ou seja, a mulher perfeita é aquela que não tem rosto. É horrível. É podre.

Outro exemplo, tem escrito assim “A esposa propôs ao marido que ambos listassem as pessoas com quem mais gostariam de ter uma aventura sexual. Ela escolheu George Clooney, Brad Pitt, Cristiano Ronaldo, David Beckham. Ele escolheu a prima dela, a professora de dança da filha, a vizinha do 501, a melhor amiga dela, a moça da padaria. Homens são assim, simples, humildes e sem ostentação.”

E homens que não falavam quando se postavam muitas fotos de mulheres nuas, de pedaços de mulheres, sofriam bullying. Tinha uma reportagem lá em um dos grupos que eles postaram que era assim “chupar buceta faz bem à saúde”. Eu acho que era fake, mas era uma reportagem aparentemente. E aí vinha com um comentário “coisa que o fulaninho de tal não vai entender”, porque esse fulaninho nunca falava nada.

Essa objetificação sexual teve três interseccionalidades importantes. A lipofobia, muitos memes com mulheres obesas, tinha um que eu recebi de vários homens, que era uma mulher bem gorda e um homem bem magrinho, fininho, tipo transando em cima dela. E aí de repente faz “pow”, a mulher estoura, e isso é motivo de muito riso. A ideia é de escárnio com as mulheres gordas, e a ideia também de que as mulheres gordas servem para serem comidas como última opção. Se você não pegou ninguém e está no final da festa, ela é um buraco, entendeu? E elas têm que agradecer se algum homem quiser transar.

Outra interseccionalidade que apareceu foi o racismo: muitas fotos de mulheres negras. E, assim, tinha uma ambiguidade em relação às mulheres negras. Ou colocando apenas a objetificação sexual extrema, ou pegando mulheres negras que você identifica claramente que são de uma classe social mais pobre, e servindo como escárnio.

A terceira interseccionalidade foi com etarismo, a ideia de que mulheres velhas não são desejáveis, e que se algum homem quiser comer é para a gente agradecer. Tem uma foto que é um desenho de uma velhinha, e tem escrito assim: “Uma velhinha chega na cadeia e fala com o guarda ‘vim para uma visita íntima'”, aí o guarda pergunta “Qual o nome do detento?”, aí ela “Qualquer um, sou voluntária”.

Essa objetificação sexual se amplia para tudo. Por exemplo, eles estão lá discutindo queimada na Amazônia no ano passado, e aí tem a foto de uma sueca e da Greta, e tem escrito “isso sim é destruição”. Em cima da sueca, gostosona, loira, tem escrito “a sueca da minha juventude”, e em cima da Greta “a sueca de hoje”. Aí tem uma foto por exemplo de uma mulher branca, gostosona, com a barriga toda travada, malhadérrima, mas pintada de índia, e tem escrito assim “apoiamos as causas indígenas”. No Dia da Consciência Negra tinha álbuns e álbuns de mulheres negras escrito “Somos a favor da consciência negra”. E no mês do Combate ao Câncer de Mama, várias fotos de mulheres, principalmente mulheres brancas mas também mulheres negras, com algum tipo de detalhe, uma calcinha fio dental rosa, segurando um lenço rosa, uma camisola transparente rosa, e aí escrito “Total apoio ao Outubro Rosa”. É muito violento, é podre.

Uma coisa que apareceu também na pesquisa era rir de forma cúmplice de violências contra as mulheres. Tinha uma imagem – essa eu achei a pior – que era o Bruno, feminicida, abraçado com uma mulher, e ao lado uma foto com uma fila de cachorro com bacia de comida na boca. E escrito assim: “Bruno está de namorada nova”. E isso era motivo de muito riso.

Nossa. Deve precisar de muito estômago pra ver essas coisas.

Com certeza. É de um nível de violência horrível. Mas eu acho que tem que trazer à luz do dia, trazer a público é muito importante.

Muitos homens me escreveram depois disso me agradecendo e dizendo “ah eu sempre achei ridículo essas coisas mas nunca soube reagir. Agora estou vendo que preciso fazer alguma coisa”. Outros me mandaram prints dizendo que já começaram a reagir. Outros também me xingaram. Eu consegui uns haters dizendo “Que absurdo! Isso não acontece!”.

Mas acho que é importante saber nomear, porque quando você nomeia, alguma coisa tem que ser feita.

E de que forma esses memes se concretizam como um ato de violência de fato?

É que não existe essa separação. É como você pegar um iceberg que aparece em cima do mar sem ver a base. Se não existir a base, a ponta não existe.

Então esse sexismo que é entranhado na nossa cultura, é base para coisas muito graves como feminicídio, como a violência contra a mulher, como o estupro. O que é um estupro? É a transformação total de uma pessoa em uma coisa.

Então tratar das masculinidades e falar desses memes que entre muitas aspas são “brincadeiras”, faz-se urgente. Brincadeira que machuca os outros não é brincadeira. É violência.

Puxando agora para o caso recente do Robinho, vazaram transcrição de áudios da investigação do caso em que ele fala com amigos com naturalidade sobre o crime. Essas conversas se aproximam do que você viu no seu estudo de grupos de Whatsapp masculinos?

O que aconteceu ali [no caso Robinho] tem o funcionamento do grupo. Por que veja, o que é um estupro coletivo? É subjugar uma mulher em conjunto. E, se quem avalia a masculinidade é outro homem, esse subjugar em conjunto funciona como a afirmação de uma masculinidade.

Então o tipo de conversa que eles [Robinho e os amigos] tiveram e essa cumplicidade mostra muito sobre o funcionamento da Casa dos Homens. Muito próximo do que eu observei na pesquisa dos grupos de Whatsapp.

A diferença é que eu nunca peguei uma mensagem sobre um estupro coletivo cometido, mas eu vi várias violências que vinham representadas em memes e as conversas sobre essas memes. Muito parecidas com Robinho. O Robinho, na verdade, é um exemplo muito ruim mas muito verdadeiro da masculinidade brasileira.

E porque existe essa cumplicidade? Por que os homens se sentem confortáveis em falar essas coisas entre eles? Eles têm 100% de confiança de que os outros não vão denunciá-los?

Com certeza. Uma coisa importante no funcionamento dessa Casa é a cumplicidade. Existe uma lealdade, uma brodagem entre os homens. E que homens saíram em apoio a Robinho? Neymar – que já foi acusado de estupro. Teve também o técnico [Cuca] – que também foi investigado e condenado de estupro.

Então existe uma cumplicidade além dessa lealdade e desse silêncio na Casa dos Homens que é “hoje é ele, amanhã sou eu”. Isso é muito importante.

E por que vemos tantos casos de abusos cometidos dentro do meio do futebol?

A masculinidade no Brasil é pautada e isso tem a ver com a especificidade do futebol, dentro do dispositivo da eficácia. Quer dizer que os homens se tornam homens tendo como parâmetro duas bases, a virilidade sexual e a virilidade laborativa. Um homem precisa ser trabalhador, provedor e comedor.

O futebol é uma porta de entrada que realiza isso muito bem. Por que qual é a chancela de sucesso na virilidade laborativa? O status e o dinheiro. E isso o futebol, exatamente porque é extremamente valorizado no Brasil, traz. E o segundo ponto do dispositivo da eficácia é a virilidade sexual. Quanto maior a chancela do homem nesse dispositivo da eficácia, maior o acesso às mulheres.

Isso é um ponto muito importante porque no meio do futebol as mulheres não têm a mesma visibilidade. Não têm o mesmo salário. Então há uma intensificação do desenvolvimento desses valores. Os homens são incitados a desempenhar isso pra mostrar que são homens e eles se sentem mais homens assim. Isso é tão naturalizado que eles não acham isso um problema. Isso é mais sério.

Desnaturalizar tem que ser um objetivo imediato e a possibilidade de construir outras masculinidades.

O Whatsapp incentiva essa construção de masculinidade misógina?

Eu acho que traz uma outra forma de realização. O problema não é o Whatsapp, a tecnologia. Ela só traz novas formas de realizar a violência. Antes, se o homem transava como uma mulher e contava no bar, hoje qualquer pessoa tem um celular que tira foto, que grava áudio. Então a chance de você refinar e pulverizar as formas de violência aumentou.

O Whatsapp só traz uma nova possibilidade porque continua acontecendo em outras esferas também. No bar, na casa, na festa.

Eu gosto de sentar em bar ao lado de mesa de homem pra escutar. É o Whatsapp ao vivo. Eles tiram foto com a mulher e mostram, classificam as mulheres.

Isso prum homem falar pra uma mulher, ou denunciar para uma pesquisa é muito difícil.

Essa reunião de homens em grupos de Whatsapp me remeteu aos grupos bolsonaristas que também são marcados por muito machismo. Você vê um paralelo?

Praticamente todos os grupos que eu tive acesso eram bolsonaristas. Aquilo que eu falei da primeira categoria, da objetificação sexual, o modo como se tratavam as mulheres na política era pela objetificação sexual – ou falando das mulheres bonitas e gostosas, ou mulheres que eram importantes mas que eram ridicularizadas pela questão estética. Pela questão racial, gordas ou velhas, a Dilma, a própria Joice Hasselmann. Em relação à objetificação sexual pouco importava se era de direita ou de esquerda. O sexismo se mostrou geral.

Grande parte dos grupos replicava desinformação relacionada ao bolsonarismo. Isso foi no segundo semestre do ano passado. E não é a toa, porque o Bolsonaro é a encarnação dessa masculinidade adoecida e infelizmente encontra eco e representa grande parte dos homens do nosso país. É deprimente.

E como a gente pode combater isso?

Primeira coisa eu acho que a gente tem que trabalhar na base numa perspectiva de gênero nas escolas. Trabalhar com prevenção porque, infelizmente, a escola acaba sendo um mecanismo reprodutor desses valores de gênero, ensinando pras meninas que a coisa mais importante na vida delas é o amor e a maternidade, encontrar um homem que as escolha para casar. E para os homens esse tipo de masculinidade pautado no sucesso profissional e, me desculpe a palavra, foder todo mundo.

Não é a toa que as pessoas que estão no poder combatem tanto a perspectiva de gênero e construíram essa história de “ideologia de gênero”, que não existe. Porque o Brasil é um país profundamente sexista e racista e se a gente quer ter uma democracia esses são problemas que a gente tem que enfrentar muito abertamente.

Não existe democracia se a gente não trabalhar esses pontos.

Dois: a gente tem que refinar as leis para dar conta da pulverização dessas formas de violência que se complexificaram em função das tecnologias, e fazer valer essas leis. E aí tem um outro problema que é que grande parte do judiciário é composta por homens brancos, infelizmente, pouco desconstruídos em relação a essas masculinidades.

Então a gente vê decisões judiciais tratando de estupro, por exemplo, que são extremamente machistas. Precisamos também, na minha opinião, ter mais cotas para pessoas negras e mulheres no judiciário para termos outras perspectivas.

E isso é um movimento que eu acho que os feminismos têm feito – inclusive eu adorei o que o Robinho falou [“Infelizmente existe esse movimento feminista”]. Que bom que ele achou ruim. Quer dizer que estamos indo no caminho certo.

Então temos que ter campanhas de conscientização das mulheres – mas a gente não vai contar com o apoio desse governo, porque ele é machista -E também temos que conseguir trazer homens pro nosso lado porque sem eles trabalhando dentro da Casa dos Homens vai ser difícil.

 

Publicado originalmente pela Agência Pública.

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“Monstruoso”, “absurdo”, “arbitrariedade”: Bolsonaro manobra para privatizar SUS

Mundo político reagiu a decreto de sobre privatização da atenção básica; Câmara já tem projetos para sustar medida

Vacinação, coleta de exames laboratoriais , atendimento de pediatria e clínica geral estão entre os serviços ofertados pelas UBSs do país – Arquivo/Agência Brasil

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) reagiu ao Decreto 10.350, editado na terça (27) pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para abrir caminho para a privatização das Unidades Básicas de Saúde (UBSs). O texto, que também é assinado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, autoriza que sejam feitos estudos sobre o modelo de venda a ser adotado. A ideia do governo é que a desestatização ocorra por meio do Programa de Parcerias de Investimento (PPI). Em manifestação pública junto à imprensa, o presidente do CNS, Fernando Pigatto, disse que a medida é uma “arbitrariedade”. 

“Estamos encaminhando para a nossa Câmara Técnica de Atenção Básica fazer uma avaliação mais aprofundada e tomarmos as medidas cabíveis. Neste momento, o que precisamos é fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS), que tem salvado vidas”, afirmou o dirigente.

Atores políticos também não pouparam críticas ao decreto do presidente. Pelo Twitter, o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (AP), disse que a medida “é um absurdo, especialmente agora, quando o SUS é a principal ferramenta de combate à pandemia, principalmente para as pessoas mais necessitadas”.

Na mesma rede social, o deputado federal Ivan Valente (Psol-SP) afirmou que o decreto “é monstruoso”. “A intenção de Bolsonaro é nada menos que privatizar as UBSs, um golpe avassalador contra o SUS”, completou, acrescentando que o Psol prepara um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) para tentar sustar a medida por meio de autorização do Congresso.

Os deputados Jandira Feghali (RJ), Alice Portugal (BA) e Márcio Jerry (MA), do PCdoB, apresentaram um PDL para batalhar pela invalidação do texto. “Trata-se de uma medida que seria impensável num momento de pandemia, onde o SUS se mostrou vital para cuidar da saúde dos brasileiros. Mas, partindo da lavra de gente como Bolsonaro e Guedes, outra coisa não podia se esperar. Que eles não se preocupam com a saúde do povo já é sabido há tempos. Porém, as UBSs são parte do SUS, sua porta de entrada, e o decreto baixado fere a Constituição brasileira ao estabelecer mecanismos para a privatização das UBSs”, apontam os parlamentares.

“Desvirtuamento da política de saúde”

A mesma iniciativa foi adotada pela bancada petista, que apresentou o PDL 453/2020. “É um ataque à saúde da população e não permitiremos esse retrocesso autoritário”, disse a deputada Maria do Rosário (PT-RS), pelo Twitter. 

As Unidades Básicas de Saúde (UBS) constituem os postos que fazem o primeiro atendimento dos pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS). Espalhadas em municípios dos diversos pontos do país, elas tratam de promoção e proteção à saúde, diagnósticos, tratamentos, reabilitação, entre outros. Atendimentos de pediatria, clínica geral e enfermagem estão entre os serviços ofertados, que incluem ainda, vacinação, coleta de exames laboratoriais e encaminhamento para atendimentos especializados, etc.  

No texto do PDL 453, os parlamentares afirmam que privatizar as UBSs “é condenar a população ao não acesso à saúde básica, aos medicamentos e ao atendimento médico”. Eles também apontam que o decreto não explica como será a operação dessas unidades em parceria com a iniciativa privada.

“Se por ‘operação’ entender-se prestação direta do serviço de saúde pela iniciativa privada, corre-se o risco de um total desvirtuamento da política de saúde pública. Tampouco há, no decreto, referência à legislação sobre licitações, o que pode dar margem à burla ao princípio da impessoalidade”, argumentam os petistas, acrescentando que o texto de Bolsonaro é genérico e por isso cria ainda “incerteza jurídica sobre o seu alcance”.

A deputada Erika Kokay (PT-DF) destacou que o decreto não foi previamente debatido com os gestores municipais de Saúde. “O SUS salvando vidas e o governo da morte querendo fragilizar o sistema e vender UBS? Só um governo genocida pode propor privatizar o SUS em plena pandemia. Não vamos permitir”, disse a parlamentar em diferentes mensagens pelo Twitter. 

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