Colunas

A educação precisa de você

“Quando uma nação abre mão de sua soberania, ela está também arrancando os sonhos de seu povo, ou seja, aquilo que lhe é mais caro: a educação”.*Por Helinando Oliveira

A estratégia primária dos negacionistas é omitir e atacar a verdade, substituindo-a por aquilo que seja conveniente para aqueles que os controlam. E a construção do negacionismo é feita nos escombros do que foi a sociedade e todos os seus sonhos, a partir de um ataque incessante contra a educação. Este caminho de subserviência (e inviabilização do processo educativo) é a base para os novos (e amargos) tempos que provamos de neocolonialismo.

Quando uma nação abre mão de sua soberania, ela está também arrancando os sonhos de seu povo, ou seja, aquilo que lhe é mais caro: a educação. E o discurso que se aplica às estatais que estão na fila da privatização também segue em curso para a educação. Primeiro vem a falta de investimento, o sucateamento e na sequência a venda ao preço de uma quase entrega. No último domingo, um famoso apresentador falou em alto e bom som: “Já que o Brasil não tem educação…”. Ora, não ter educação é tudo o que os negacionistas desejam para este momento. É a expressão maior do caos que se espalha pelos quatro cantos do país.

Só que a educação não acabou! Diante desta situação, o que nós, povo brasileiro, podemos fazer para evitar que este desmonte aconteça? Como fazer isso, em plena pandemia? Precisamos usar as ferramentas que temos. Falar, falar muito. Construir um texto curto e compartilhar em nossas redes sociais…

Conte o que a educação fez para a sua vida. Fale com os vizinhos e amigos, conte aos estranhos. Vamos construir uma grande rede espontânea em prol da educação. Temos uma coisa que não está à disposição dos bots: a inteligência natural.

É importante lembrar que esta bandeira de todos é fundamental para as próximas gerações. Precisamos garantir que as meninas e os meninos pobres da periferia tenham o direito de sonhar com um futuro melhor pelos estudos. Com educação pública, gratuita e de qualidade isso é possível.

A partir de uma educação de qualidade são construídas grandes universidades por todos os cantos. Delas saem soluções para todo o povo, feitas pelo próprio povo. Por suas portas entram jovens e saem doutores que mudam o rumo de suas famílias, trazem dignidade e provam que o investimento em educação é o mais importante para uma nação que se diz capaz de ser independente.

Sendo assim, cara leitora e caro leitor que até chegou, deixo lançado o desafio: conte para o mundo o que a educação fez com a sua vida. Jogue nas redes sociais. Compartilhe geral. Por um Brasil de educação. O futuro agradece.

 

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

 

 

Opinião

O sertão e a caatinga

“A caatinga como um grandioso laboratório a céu aberto precisa ser preservada e entendida como fonte de solução biotecnológica para todo o planeta”. Por Helinando Oliveira

Foto: André Pessoa

A caatinga é única, um bioma exclusivamente brasileiro que precisa ser olhado por vários ângulos e em diversos momentos. A escassez de água por grande parte do ano confere um aspecto singular à mata branca (significado de caatinga em tupi-guarani) que é formada por uma vegetação de árvores baixas com troncos retorcidos e espinhos, que tornam o gibão uma segunda pele para o vaqueiro nordestino.

Com uma vegetação que perde praticamente todas as folhas para sobreviver à seca, a caatinga ensina ao seu povo o real significado da palavra resiliência, ao armazenar água para suportar a longa estiagem.  E assim ela permanece até o primeiro sinal do período de chuvas, quando explodem as folhas em sinal de vitalidade, transformando completamente a imagem da mata como que em uma incrível explosão de vida. E é da beleza da florada da caatinga que surge a esperança no sertão nordestino. E neste bioma tão único, muito da riqueza biotecnológica ainda está por ser explorada sob forma de extratos, óleos essenciais e metabólitos secundários que estão à disposição de uma ciência que chegou recentemente ao sertão.

E esta associação de ciência e caatinga agrega extremo valor à sociedade, dada a diversidade de soluções que este bioma reserva em termos de agentes antibacterianos, fármacos e compostos ainda inexplorados.

Aquele sertão tão sofrido e retratado na década de 80 do século passado pelo chão rachado, com o êxodo do nordestino para o sudeste do país, de fome e de falta de esperança passa agora a exercer outro papel: este agora precisa ser o lugar da ciência e do retorno.  Dos troncos retorcidos (que serviam para produção de carvão) agora saem conceitos e inovação. A caatinga como um grandioso laboratório a céu aberto precisa ser preservada e entendida como fonte de solução biotecnológica para todo o planeta. É chegada a hora de fazer retornar o sertanejo, fazer seus filhos mestres e doutores no conhecimento, dar dignidade e esperança para todo um povo. E isso vem apenas das gotas sagradas de uma chuva chamada educação.

Sim, é verdade que vivemos tempos de tristeza e dor, fome e falta de compaixão, ódio e anticiência. A caatinga nos ensinou, no entanto, a resistir. Somos estes galhos retorcidos e espinhosos prontos para explodir em viço na primeira chuva.

Vem chuva, vem…

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

 

https://nossaciencia.com.br/

Opinião

O PT, Haddad e os caminhos para derrotar a direita

“O PT deve e precisa ter candidatura em 2022, essa não é a questão. A questão é que para termos uma candidatura em 2022 com mais viabilidade e para derrotarmos a direita o ambiente do país precisa ser outro, Lula precisa ter recuperado seus direitos políticos, a extrema direita precisa estar sob constante pressão e o centrão ameaçado”. *Por Patrick Campos

Desde que Fernando Haddad concedeu entrevista para a TV 247 na quinta-feira (08.02) e afirmou que o ex-presidente Lula lhe pediu para colocar “o bloco na rua”, o assunto da candidatura do PT para as eleições presidenciais de 2022 foi alçado ao topo das análises e debates nos jornais e redes sociais.

Há opiniões de todos os gostos, sabores, odores e cores. Mas no fundamental, há quem tenha comemorado o “anúncio” como a solução para todos os problemas e há quem tenha aberto as comportas do antipetismo para escorrer as críticas contra a hipótese de uma candidatura do PT em 2022. Convenhamos: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Mas para falar sobre esse assunto é importante retomar uma discussão que estava presente há poucas semanas em alguns círculos de esquerda: a abertura ou não de uma “janela de oportunidade” na luta pelo fim do governo Bolsonaro. Ou seja, se esta janela, que existiu em 2020 no começo da pandemia, teria voltado a existir com o aprofundamento da crise sanitária, econômica e social que marcou o mês de janeiro, com a falta de oxigênio no Amazonas, o fim do auxílio emergencial e o crescimento brutal do desemprego.

Em janeiro, o país voltou a registrar manifestações espontâneas com panelaços e carreatas realizadas em centenas de cidades. Além disso, todas as pesquisas de opinião indicaram uma queda significativa da popularidade do governo, que chegou ao patamar semelhante aquele do início da pandemia.

Verificou-se concretamente uma mudança no comportamento de um setor da classe média e dos setores populares que vinham, desde o início do segundo semestre de 2020, com uma postura menos ativa e menos combativa no enfrentamento ao governo Bolsonaro.

Foi, portanto, nesse momento do mês de janeiro de 2021 que para muita gente abriu-se, ou começou a se abrir, uma janela de oportunidade para avançar na luta pelo fim do governo Bolsonaro, sendo que uma das formas disso acontecer seria através da abertura do processo de impeachment.

No entanto, apesar dessa mudança concreta no comportamento de parcela da classe trabalhadora, a maioria dos partidos de oposição (inclusive do PT), adotou na disputa pela mesa diretora da Câmara e do Senado uma tática que foi justamente na contramão dessa mudança. No lugar de lançar candidaturas que tivessem como eixo de seu programa a aceitação de um dos pedidos de impeachment, tanto na Câmara quanto no Senado, as bancadas petistas aprovaram (no Senado por unanimidade e na Câmara por uma pequena maioria) o apoio à candidatos que eram contra o impeachment.

Este é um dos elementos que não podemos deixar de fora ao analisarmos o que aconteceu e ainda está acontecendo nesse momento, em que parte daqueles que achavam que existia uma janela, agora consideram que ela se fechou.

Sobre isso, dois comentários.

Primeiro: assim como foi um erro o PT e os demais partidos de oposição não terem lançado uma candidatura e constituído um bloco de esquerda, foi um erro alimentar a noção equivocada de que com Baleia Rossi o impeachment poderia avançar. Isso nunca existiu. Afinal, se existisse mesmo essa possibilidade, não seria Baleia Rossi (que verbalizou que não faria), mas sim Rodrigo Maia quem deveria ter dado início ao processo de impeachment. E não fez, pelo contrário. Sentou em cima de mais de 60 pedidos de impeachment, sendo cumplice da continuidade e estabilidade do governo Bolsonaro.

De tal forma que a tática errada adotada pela maioria do PT e dos demais partidos de oposição contribuiu para alimentar esta miragem junto a uma parcela da militância, que ao ver Arthur Lira eleito e Baleia Rossi massacrado já no primeiro turno, passou imediatamente a questionar a validade da luta pelo impeachment, quando a reação deveria ser exatamente a oposta.

A luta pelo impeachment, ou seja, umas das formas de mobilização pelo Fora Bolsonaro, continua e deve ser ainda mais incentivada. A luta pelo impeachment, que deveria ter sido potencializada com uma candidatura de esquerda e um bloco de esquerda na eleição da Câmara, mesmo agora, ajuda na mobilização pois é uma bandeira concreta e permite um mínimo de acumulação de forças, que é algo fundamental se quisermos, em algum momento, alterar a atual correlação de forças.

Ela ajuda a desgastar o governo Bolsonaro em diversas camadas e tem como uma de suas consequências, inclusive, favorecer as forças de esquerda agora e em 2022 se a disputa for levada até lá. Além disso o impeachment é uma pauta ofensiva num ambiente geral de defensiva, em que parcela das organizações de esquerda estão impedidas de se mobilizar ou atuando apenas de forma reativa.

Agora, uma segunda coisa: É evidente que há uma piora brutal nas condições de vida de milhões de pessoas, que estão desempregadas, passando fome, sem auxílio, adoecendo e morrendo. E, portanto, a percepção da responsabilidade da política genocida de Bolsonaro tende a crescer. Isso significa que aquela “janela” não é tão abstrata. Mas ela também não está totalmente aberta, pelo contrário. É preciso forçar sua abertura, com muita luta e mobilização.

Nesse sentido, a discussão sobre as candidaturas presidenciais de 2022 devem cumprir que papel? Ora, justamente o papel de reforçar a urgência de mobilizar e lutar pelo fim deste governo desde já.

Acontece que tem muita gente utilizando as entrevistas dadas pelo companheiro Fernando Haddad para espancar o PT, como se o partido não tivesse o direito de lançar uma candidatura para a presidência da República, quando na verdade devemos incentivar que o Haddad que teve 47 milhões de votos em 2018 e que centenas de outros companheiros e companheiras cumpram com o papel de se projetar no debate político nacional e levantar a urgência do fim do governo Bolsonaro, agora e/ou em 2022.

Por isso que não devemos ficar “comendo fixa” de quem, seja pela direita, seja pela esquerda, fica de forma cínica e oportunista falando agora aquilo que pensa desde sempre: que o PT deve fazer consigo aquilo que a direita tenta fazer a quarenta anos, que é anular o maior partido de esquerda da disputa presidencial. Devemos fazer justamente o contrário.

Agora, não podemos cometer o erro de depositar todas as nossas fichas na eleição de 2022, sem considerar o que precisa ser feito em 2021. O PT deve e precisa ter candidatura em 2022, essa não é a questão. A questão é que para termos uma candidatura em 2022 com mais viabilidade e para derrotarmos a direita o ambiente do país precisa ser outro, Lula precisa ter recuperado seus direitos políticos, a extrema direita precisa estar sob constante pressão e o centrão ameaçado. Isso só será atingido se mudarmos a política que hoje tem prevalecido.

A linha política que levou ao voto desastroso da maioria dos parlamentares de esquerda a votar em baleia Rossi e que tinha levado as centrais sindicais a chamar, para o 1º de maio de 2020, FHC e Rodrigo Maia, precisa mudar. Mas essa mudança, como está demonstrado, não ocorrerá espontaneamente. Por isso, devemos dedicar todas as nossas energias na luta que acumule forças para mudar essa política, pois ela é uma das responsáveis por parte das derrotas sofridas até agora.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

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A eleição na Câmara, o PT e o impeachment. E agora?

“É por isso que, ao contrário do que parece ser o sentimento de parte da esquerda que apalavrou seu apoio à candidatura de Baleia Rossi, não faz nenhum sentido abandonar esta luta agora, muito pelo contrário. O que não fazia sentido era achar que para lutar pelo impeachment a esquerda deveria votar em Baleia Rossi”. *Por Patrick Campos

Foto: Ponto Crítico

Na noite desta segunda-feira (1º de fevereiro) aconteceu a eleição para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. O resultado foi que os dois candidatos apoiados por Bolsonaro foram eleitos, ambos no primeiro turno. No Senado, por 57 votos a 21, venceu Rodrigo Pacheco (DEM) e na Câmara ganhou Arthur Lira (PP), que obteve 302 votos, cerca de cem votos a mais do que a soma da votação obtida por todos os outros oito candidatos.

Apesar da surpresa expressa por muitos com a decisão no primeiro turno e a vitória dos dois candidatos apoiados por Bolsonaro, esse resultado não foi um raio em céu azul. O governo Bolsonaro atuou intensamente para eleger seus candidatos, seja por meio da compra de votos via liberação de emendas parlamentares, seja diretamente por meio da oferta de cargos no governo Federal.

Mas essa ação organizada do bolsonarismo foi potencializada por um elemento: a unidade existente entre as diversas frações da direita quando o assunto é impor derrotas a esquerda e principalmente ao PT. Evidente que a maioria fisiológica que compõe a Câmara dos Deputados e o Senado Federal embarcariam, mais cedo ou mais tarde, nas candidaturas que oferecessem mais, no entanto, a ausência de uma candidatura e de um bloco de esquerda facilitou a vida daqueles que queriam valorizar seu passe numa disputa que se consolidou entre duas candidaturas de direita.

É nesse sentido que os partidos de esquerda, e o PT em particular, precisam fazer uma importante avaliação da tática adotada. Com relação ao PT, a bancada do partido na Câmara decidiu por uma maioria de 27 a 23, apoiar a candidatura do candidato do MDB, Baleia Rossi, e não apresentar ou construir uma candidatura própria ou com os demais partidos de esquerda.

Essa decisão esteve sustentada, principalmente, no argumento de que a esquerda deveria entregar seus votos ao candidato com maior viabilidade de derrotar o candidato de Bolsonaro. Dessa forma, o espantalho da candidatura bolsonarista foi empurrando o conjunto dos partidos de esquerda para as cordas, numa condição defensiva em que questões como o auxílio emergencial ou o impeachment de Bolsonaro não foram assumidas pela candidatura apoiada.

Vale lembrar que Baleia Rossi (MDB) era não apenas o candidato apoiado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que ficou sentado em cima de mais de sessenta pedidos de impeachment, mas também um apadrinhado político de Michel Temer e uma das figuras que teve importante atuação para que ocorresse o golpe de 2016. Ou seja, um golpista de carteirinha que também contribuiu para a eleição de Bolsonaro em 2018 e na aprovação das reformas trabalhista e da previdência.

Não obstante tudo isso, prevaleceu entre a maioria dos partidos de oposição a crença de que não tinha outro jeito que não apoiar Baleia Rossi, seja para enfrentar o candidato de Bolsonaro, seja para obter uma melhor condição na ocupação de espaços na mesa diretora e nas comissões da Câmara.

Sustentou também este discurso, uma análise matemática do tamanho das bancadas dos partidos de oposição. Somados, PT, PCdoB e PSOL possuem cerca de 72 deputados. Se acrescentadas as bancadas do PSB, PDT e REDE, esse número chega em 129. Para eleger o presidente da Câmara no primeiro turno, caso todos os parlamentares estejam presentes, são necessários 257 votos. Em diversos momentos esta conta de padaria, com quase nenhuma política, foi utilizada para justificar que os partidos de esquerda não deveriam apresentar uma candidatura própria.

Pesou também neste lado da balança um argumento, no mínimo esquisito, de que caso toda a esquerda não se comprometesse com a candidatura de Baleia Rossi, ocorreria um “efeito manada” em que parte dos deputados de direita migrariam para a candidatura de Lira, pois veriam nele mais chances de vitória.

Esse argumento foi intensamente repetido, por exemplo, pela deputada Sâmia Bonfim, daquela que se reivindicada como uma das mais radicais correntes da esquerda do PSOL, o MES. Por este raciocínio, a direita golpista apenas conseguiria manter o apoio em seu próprio candidato, se a esquerda que ela age diariamente para derrotar, apalavrasse integralmente seu apoio. Convenhamos que é, no mínimo, curioso.

Acontece que estas análises, baseadas em lógicas extremamente duvidosas e com imensas fragilidades do ponto de vista político, prevaleceram e obtiveram como resultado a vitória do candidato de Bolsonaro no 1º turno, com o dobro de votos de Baleia Rossi, que obteve 145 votos.

Ou seja, a tática avestruz que foi adotada por quase toda a esquerda parlamentar não só contribuiu para que a eleição se resolvesse no primeiro turno em favor da candidatura bolsonarista, como fez com que a pauta do impeachment, do auxílio emergencial, da vacinação e do emprego ficassem extremamente secundarizadas diante da discussão sobre a ocupação de espaços na mesa diretora.

Pior que isso, enquanto a situação sanitária, econômica e social do país pirou ainda mais e que setores populares começaram a se mobilizar em defesa do impeachment, a tática adotada na disputa pela presidência da Câmara e do Senado foi totalmente na contramão, pois estava baseada no apoio a candidatos que eram contra o impeachment.

De tal forma que, ao invés de acumular forças, a tática adotada na disputa da Câmara e do Senado contribuiu, direta e indiretamente, para uma diminuição do papel da esquerda no parlamento e também para a diminuição do potencial das mobilizações que vinham num crescente desde o começo de janeiro.

É por isso que não podemos passar pano nem relativizar o que aconteceu. A tática adotada foi errada e sua aplicação em outras lutas tende a promover novas e piores derrotas. E talvez o ponto mais sensível sobre os desdobramentos dessa tática, agora, seja a discussão sobre os rumos da luta pelo fim do governo Bolsonaro.

Está evidente que cada dia a mais que Bolsonaro, seu governo e suas políticas continuam, pioram as condições de vida da maioria do povo, são ameaçadas as liberdades democráticas, perde a soberania nacional, o meio ambiente e a saúde pública. Ou seja, é imperativo que este governo que nunca deveria ter começado, termine o mais rápido possível e não somente em 2022.

No entanto, como ficam as condições do impeachment com o resultado da eleição para a Câmara e o Senado? Ora, os deputados e senadores são exatamente os mesmos. As mesmas pessoas que elegeram Lira e Pacheco são os que votarão qualquer pedido de impeachment. Ou seja, do ponto de vista da luta pelo impeachment, as condições internas da Câmara e do Senado continuam muito parecidas.

É por isso que, ao contrário do que parece ser o sentimento de parte da esquerda que apalavrou seu apoio à candidatura de Baleia Rossi, não faz nenhum sentido abandonar esta luta agora, muito pelo contrário. O que não fazia sentido era achar que para lutar pelo impeachment a esquerda deveria votar em Baleia Rossi.

A possibilidade do impeachment nunca esteve restrita as condições mais ou menos favoráveis na Câmara, pois estas sempre foram e continuam sendo muito desfavoráveis. A possibilidade do impeachment e do fim do governo Bolsonaro antes de 2022 está diretamente ligada as condições de luta e mobilização fora do parlamento.

É preciso ter nítido que, até para termos uma vitória em 2022 a situação precisa ser de muita luta e mobilização agora, em 2021. As pessoas precisam ser convencidas de que vai caber a elas tirar Bolsonaro, uma vez que isso não acontecerá pelas mãos dos deputados e senadores e que, tampouco, ele cairá de maduro.

Mas para isso acontecer, é preciso que exista um processo de luta permanente pelo fim do governo e não apenas uma atuação parlamentar. Nesse sentido a palavra de ordem do impeachment deve seguir firme e junto a ela uma mudança no conjunto da linha política que vem guiando a maioria dos partidos de esquerda e a maioria do PT ao longo do último período.

Evidente que essa mudança não vai acontecer espontaneamente, afinal de contas, se mesmo com o golpe, com a prisão, condenação e interdição de Lula e com a eleição de Bolsonaro seguiu prevalecendo a mesma estratégia e as mesmas ilusões, por exemplo, de constituição de frentes amplas com golpistas, não deve ser a derrota de Baleia Rossi que vai promover essa mudança.

Mas considerando que ela é imprescindível para a classe trabalhadora brasileira vencer os desafios que estão colocados, devemos seguir agindo para que ela ocorra o mais rápido possível. Por isso, é preciso continuar lutando por uma outra estratégia para o PT, disputando as posições do partido e compreendendo que quanto maior o desafio, maior deve ser nossa disposição de vencer, na certeza permanente de que dias melhores virão, e que nem esses deixarão de ser de muita luta.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

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Nem Lira nem Baleia, nem Bolsonaro nem Mourão: Luta e mobilização!

“Neste momento a classe trabalhadora brasileira precisa e, principalmente, merece ter um conjunto de representações com capacidade de organizar a luta em defesa de seus interesses e de suas necessidades”. *Por Patrick Campos.

O ano de 2021 começou com o agravamento da crise sanitária no Brasil. A falta de oxigênio nos hospitais de Manaus e em diversas outras cidades do Amazonas, o aumento no número de óbitos diários com o retorno da média móvel para mais de mil mortes, e a ausência de um plano nacional de vacinação por parte do governo federal escancararam a política genocida de Bolsonaro e seus apoiadores.

Não por acaso, portanto, parece ter início uma pequena inflexão no ambiente político do país. Diferente de como terminou 2020, esta primeira quinzena de 2021 é marcada pela retomada de mobilizações virtuais e panelaços pelo impeachment de Bolsonaro, algo semelhante ao movimento que marcou os primeiros meses da pandemia e quando a aprovação do governo registrou seus piores índices.

Essa possível mudança na atitude de parte de setores populares e médios, diferente de como aconteceu em 2020, precisa ser incentivada e acompanhada de rápidas e organizadas medidas por parte dos partidos de esquerda e das entidades representativas, com destaque para o movimento sindical e o movimento social de esquerda.

Não podemos esquecer do enorme erro que foi a demora, nos primeiros meses da pandemia, em tomar atitudes como o ingresso com pedidos de impeachment, o apoio mais substancial aos atos antirracistas e das torcidas organizadas ou ainda a insistência na natimorta ideia de uma frente ampla contra o bolsonarismo, envolvendo os setores da direita que ajudaram a eleger Bolsonaro e que deram sustentação à aprovação das políticas ultraneoliberais de Paulo Guedes.

A consequência, como é sabida, foi a recomposição e o fortalecimento do bolsonarismo, que mesmo nos piores momentos da pandemia e após a prisão de Queiroz, conseguiu retomar e elevar suas taxas de aprovação, sustentadas principalmente nos resultados do auxílio emergencial.

O mais incrível nesse caso é que, ainda agora, depois de tudo que significou 2020, assistimos uma reedição de todos aqueles erros no debate em torno da eleição para a presidência da Câmara e do Senado Federal. Sob o argumento de que é preciso reduzir danos e evitar o pior (que seria a eleição do candidato de Bolsonaro na Câmara), a maioria dos partidos de esquerda aprovaram em suas bancadas o apoio ao candidato golpista apoiado por Rodrigo Maia.

Esse imenso erro, cometido de forma precipitada, faz com que a maioria dos partidos de esquerda se coloque voluntariamente nas cordas. Afinal, num momento em que a direita “não bolsonarista” tampa o nariz para os crimes do governo genocida e que setores da classe trabalhadora se abrem para uma possível mudança de posição, a esquerda se vê albergada no guarda-chuva de uma candidatura golpista para a presidência da Câmara e de outra apoiada por Bolsonaro para a presidência do Senado.

Ou seja, todo o movimento que parece ganhar vida nas redes e nas janelas por meio dos panelaços em torno do impeachment, esbarra na política da direita que parte da esquerda decidiu apoiar para “reduzir danos”. No entanto, ao contrário do que alguns se esforçam em fazer parecer, a batalha ainda está em curso. Há tempo e há condições para uma mudança na linha adotada pala maioria dos partidos de esquerda na disputa pela presidência das casas do Congresso Nacional.

É justamente nessa a hora, quando a direita que tenta se camuflar de centro evidencia ainda mais seu compromisso com a política bolsonarista e evita o avanço do impeachment, que a esquerda deve organizar e expressar a justa indignação popular e transformar a disputa pela presidência da Câmara e do Senado em disputas públicas e não corporativas em defesa da vida e da mudança da política do país.

Até as cortinas do Congresso Nacional sabem que não será por meio de cadeiras nas mesas diretoras das casas ou de maior presença em comissões que a luta contra o bolsonarismo irá avançar. Quem se ilude com esse tipo de ideia expressa uma covardia que nesse momento é absolutamente incompatível com a luta pela sobrevivência de quem está morrendo sufocado pela falta de oxigênio ou passando fome pelo fim do auxílio emergencial.

Neste momento a classe trabalhadora brasileira precisa e, principalmente, merece ter um conjunto de representações com capacidade de organizar a luta em defesa de seus interesses e de suas necessidades. A esquerda brasileira tem setores capazes de expressar essa política, por exemplo, em parcela da esquerda do Partido dos Trabalhadores. Lutemos, incansavelmente, para que essa política possa prevalecer.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

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Em 2021 precisamos lutar por um PT melhor que o de 2020

“É fundamental disputarmos, pela esquerda, as posições do Partido dos Trabalhadores, pois ele possui um papel estratégico na luta pelas transformações populares e democráticas que o país necessita”. *Por Patrick Campos

O ano de 2020 vai terminando, para a maioria das trabalhadoras e dos trabalhadores, pior do que começou. Evidente que após um ano de governo Bolsonaro, em 2019, com a aprovação da reforma da previdência e de ataques contra a educação pública, o meio ambiente e à democracia, só para citar alguns exemplos, as expectativas nunca foram muito altas. Mas 2020 certamente conseguiu superar as previsões até daqueles mais pessimistas.

Até agora mais de 191 mil brasileiros e brasileiras morreram em decorrência da covid-19 (ao menos os casos notificados) e o desastre sanitário é apenas uma das faces da moeda. Junto com ela, os país mergulhou ainda mais na crise econômica e social que tem como marca o golpe de 2016 e a implantação das políticas neoliberais como a reforma trabalhista, a lei da terceirização, a lei do teto de gastos e o congelamento dos investimentos públicos, além do desmonte das políticas sociais.

O fato é que milhões de trabalhadores e de trabalhadoras que terminaram o ano de 2019 com uma carteira assinada, estão terminando 2020 sem saber como irão pagar as contas. Milhões de trabalhadoras e de trabalhadores informais, que já tinham perdido seus empregos ao longo dos anos anteriores e que conseguiram sobreviver de alguma maneira em razão do auxílio emergencial, não contarão com nenhum auxílio em 2021.

É por isso que as perspectivas para o próximo ano são tão terríveis quanto a do atual, principalmente quando analisamos o resultado das eleições municipais e quais forças políticas começarão ou continuarão a governar a maioria da população nas cidades do país. 

Apesar da situação vivida ao longo deste e dos últimos anos, a maioria dos eleitores que compareceram às urnas em 2020 votaram em candidaturas de direita. Ou seja, foi a direita, que é diretamente responsável pela situação que vive o país, que saiu vitoriosa nas eleições, obtendo a “legitimidade das urnas” para aprofundar ainda mais as políticas neoliberais em curso.

Mas então, o que pode acontecer? Tudo, inclusive nada.

Uma opção é tudo continuar como está. A crise se aprofunda; os novos governos municipais, em sua maioria de direita, não vão promover políticas de assistência e auxílio para o povo, que estará cada dia mais pobre e o país irá rapidamente regredindo para uma condição de miséria e desemprego semelhante àquela existente na primeira metade do século passado.

Outra opção é a das coisas melhorarem momentaneamente, em decorrência de algum voo de galinha na economia que permita a direita (Bolsonaro e os demais governos locais) segurarem a onda com vistas a eleição de 2022. Mas esse cenário tem poucas probabilidades, dadas as condições reais da economia brasileira e mundial, a continuidade da pandemia e a ausência de uma campanha de vacinação.

Uma outra opção, que é a aquela que devemos agir para que ocorra, é a do país viver um novo período de mobilizações sociais. Isso também não é algo fácil de acontecer, pois tem inúmeras variáveis para considerar, como a própria continuidade da pandemia, mas se setores da classe trabalhadora entrarem em luta, pode ser aberta uma janela para algum avanço no campo da luta política que permita vitórias pela esquerda.

Mas em todos esses cenários, e até para que esse último aconteça, é preciso que a esquerda em geral e o Partido dos Trabalhadores em particular, tenham uma conduta totalmente diferente daquela que prevaleceu em 2020. Ou seja, que vá para além da atuação institucional e parlamentar.

Pela própria condição imposta pela pandemia, fora o período eleitoral, a principal arena de combate em 2020 foi o campo institucional, com prioridade para o parlamento. Isso não pode se repetir em 2021. As forças de esquerda precisam dedicar a maior parte de suas energias na organização e mobilização popular, na disputa cultural e no enfrentamento a todos os setores da direita.

Isso, evidentemente, não é uma tarefa fácil. Mas se 2020 não foi fácil e 2021 não tende a ser diferente, a opção é lutar incansavelmente.

Mas como dizem por aí: E o PT?

É fundamental disputarmos, pela esquerda, as posições do Partido dos Trabalhadores, pois ele possui um papel estratégico na luta pelas transformações populares e democráticas que o país necessita. Como as próprias eleições municipais demonstraram, sem o PT, a esquerda brasileira que tem priorizado a atuação institucional, é reduzida a quase nada de substancial. Mas mesmo com o PT, a arena institucional é absolutamente insuficiente.

Se prevalecer a atual linha política e as atuais táticas que orientam a maioria do PT e também a maioria dos demais partidos e organizações de esquerda, 2021 pode ser um ano de mais derrotas e ainda menos acumulo de forças.

Como dito, setores da classe trabalhadora podem ou não se mobilizar e entrar em luta, mas até para que esse cenário possa ocorrer ou, se caso ocorram mobilizações e lutas espontâneas sem a participação direta dos partidos e organizações, estes possam ter alguma influência, a linha política precisa ser totalmente diferente desta existente em 2020.

Infelizmente os sinais não provocam otimismo, como aqueles relativos a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A maioria da bancada dos partidos de oposição e a maioria da bancada do PT adotaram uma tática desastrosa, de se colocar na condição de ter que escolher qual setor da direita cheira menos a enxofre. Um erro imenso, que é revelador do que pode vir de 2021.

No entanto, apesar dos sinais ruins, outros bons sinais devem animar todas e todos que acreditam que a classe trabalhadora pode dar uma resposta pela esquerda. As mobilizações dos trabalhadores por aplicativos e as lutas antirracistas e das torcidas organizadas que ocorreram no Brasil entre os meses de maio e junho; os bons ventos que sopram de países vizinhos como Argentina e Bolívia; e a presença de vozes contundentes e jovens na disputa de rumos do PT como a da deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), demonstram que a luta ainda está sendo travada.

É por isso que, nesta última semana deste fatídico ano de 2020, estas e outras preocupações não devem desaparecer da cabeça daquelas e daqueles que não veem a hora de derrotarmos o governo Bolsonaro, colocarmos um fim em suas políticas e darmos um passo a diante na luta pela construção de um outro modelo de sociedade no Brasil.

Devemos torcer, mas principalmente devemos agir e dedicar todas as nossas energias para que a década que se inicia seja uma década em que os ventos da luta socialista soprem sobre todas e todos nós.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

Opinião

Racismo e morte no Carrefour são a ponta de um iceberg envolvendo multinacionais

As cadeias produtivas globais que operam no Brasil estão intimamente imbricadas em problemas tão graves quanto o racismo. *Por Marques Casara

Registro de uma loja da multinacional Carrefour após protesto em SP; Em seus países de origem, o comportamento dessas empresas é muito diferente – Vitor Shimomura

No Brasil, o hipermercado Carrefour adota comportamento racista desde 2009. Naquele ano, funcionários de uma unidade em Osasco espancaram um homem negro, Januário Alves de Santana. A alegação do Carrefour foi de que Januário estava tentando roubar um carro. Detalhe: o carro era do próprio Januário.

Em 2018, Luís Carlos Gomes, homem negro, deficiente físico, foi espancado no banheiro do Carrefour em São Bernardo do Campo. Acusação: abrir uma lata de cerveja dentro da unidade.

O caso mais recente foi neste fatídico 2020. Na véspera do Dia da Consciência Negra, dois seguranças brancos espancaram, até a morte, João Alberto Silveira Freitas, homem negro. Acusação: discutir e gritar com uma funcionária, em uma unidade da empresa em Porto Alegre.

Essa morte é uma tragédia anunciada. Basta olhar o histórico do Carrefour. Entre o espancamento de 2009 e o assassinato de 2020, são 11 anos de descaso e uma série de outras ocorrências. Entrou para a história, por exemplo, o comportamento da empresa no dia 14 de agosto de 2020. Para não fechar uma unidade em Recife, quando um terceirizado caiu morto nos corredores da loja, o Carrefour simplesmente escondeu o cadáver atrás de meia dúzia de guarda-chuvas abertos. E a loja seguiu funcionando “normalmente”.

Os casos seguem vindo à tona. Após a repercussão do assassinato de João Alberto, a juíza Cristina Cordeiro, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), resolveu tornar público outro episódio envolvendo a rede francesa, que teria ocorrido entre 2017 e 2018.

Uma mulher negra, lésbica, pobre e dependente química, presa por suspostamente furtar alimentos em uma filial do Carrefour no Rio de Janeiro, foi espancada e estuprada por funcionários do supermercado.

O que fazer?

O que devemos fazer? Boicotar o Carrefour e comprar em outro supermercado? Lamento informar: não há muita diferença.

No setor de alimentos, as cadeias produtivas globais que operam no Brasil estão intimamente imbricadas em problemas tão graves quanto o racismo. Os casos são de trabalho escravo, trabalho infantil, contaminação por agrotóxicos, tortura, ameaça, invasão de terras indígenas, grilagem de terras, fraudes tributárias, falsificação de títulos de terra, desmatamento, queimadas.

Seria inviável detalhar tantas ocorrências neste artigo, mas é possível apresentar alguns exemplos. Focaremos em três. São casos que demonstram a gravidade do cenário, no que diz respeito às corporações transnacionais que atuam no país.

Carrefour, Pão de Açúcar e Big-Walmart

As três maiores redes de supermercados do Brasil  – Carrefour, Pão de Açúcar e Big-Walmart  – vendem frutas produzidas mediante sofrimento humano. Pesquisas conduzidas por este autor em 2019, em parceria com a Oxfam Brasil, mostram que os trabalhadores que produzem as frutas das redes de supermercados estão entre os 20% mais pobres do Brasil. É uma cadeia produtiva marcada por desrespeito às mulheres trabalhadoras, contaminação por agrotóxicos e condições laborais degradantes em diversas áreas produtivas.

São pessoas que produzem as frutas que comemos e que têm sua dignidade ceifada pelo comportamento predatório da cadeia produtiva. Mais de 75 mil pessoas assinaram a petição pedindo para os supermercados tomarem providências. Ainda é possível assinar.

Coca-Cola

A cadeia produtiva do açúcar tem a Coca-Cola como principal financiadora de usinas e engarrafadoras de refrigerantes envolvidos em uma série de crimes, dentre eles tortura, ameaça de morte, trabalho escravo, invasão de terras indígenas, fraudes e grilagem de terras.

O caso mais recente é de março de 2020. A pescadora Maria de Nasareth, líder comunitária em uma área ilegalmente ocupada pela usina Trapiche  – que tem a Coca-Cola como sua principal financiadora –, foi torturada por policiais a serviço da usina, que tentavam expulsá-las das áreas de extrativismo existentes no local.

A Coca-Cola também está à frente de manobras fiscais que levam o setor de refrigerantes a deixar de pagar, todos os anos, R$ 3 bilhões em impostos. Os detalhes da operação podem ser conhecidos em artigo publicado por este autor.

A multinacional está envolvida em operações de superfaturamento do preço do xarope de açúcar produzido no Amazonas, com o objetivo de gerar créditos tributários ilegais, para as próprias engarrafadoras da Coca-Cola em outras regiões do país, de acordo com levantamento da Receita Federal.

Engarrafadoras vinculadas a essa empresa estão entre as líderes de inadimplência no pagamento de impostos. Apenas uma delas tem mais de R$ 1 bilhão em impostos não pagos, inscritos na Dívida Ativa da União.

Nestlé

Mês passado, a empresa deu início a uma gigantesca operação de marketing com o objetivo de dar à marca uma aparência de sustentabilidade. Por intermédio de um alimento chamado Mucilon, prometeu plantar um milhão de árvores da Mata Atlântica. Sob o mote “Mucilon: Cuidando do Planeta para o Seu Filho”, a empresa diz que se trata de “uma operação global de sustentabilidade” com o objetivo de “construir um futuro cada vez melhor para todos e, principalmente, para as nossas crianças”.

Trata-se de uma operação de greenwashing, como é conhecida a técnica de criar uma imagem positiva para esconder práticas predatórias ou violações aos direitos humanos.

A Nestlé é a principal financiadora do trabalho infantil na cadeia produtiva do chocolate vendido no Brasil. Pesquisas realizadas por esse autor, em parceria com o Ministério Público do Trabalho e a Organização Internacional do Trabalho, mostram que a Nestlé, junto com

outras quatro multinacionais, usa o trabalho infantil de oito mil crianças e adolescentes em atividades danosas à saúde e à formação escolar.

O caso é de conhecimento público desde 2019. Até o momento, a Nestlé mantém ruidoso silêncio sobre o caso, que envolve não apenas trabalho infantil mas também trabalho escravo.

As outras empresas envolvidas são Mondelez, Barry Callebaut, Cargill e Olam Brasil, igualmente patrocinadoras do trabalho escravo e infantil.

O papel das empresas

Assassinato, racismo, trabalho infantil, tortura, ameaças, trabalho escravo, violência contra povos indígenas. Essa lista de problemas está intimamente ligada as maiores empresas de alimentos do mundo.

Todas elas têm suas matrizes fora do Brasil. Em seus países de origem, o comportamento dessas empresas é muito diferente.

Na Suíça, onde a Nestlé e uma das maiores empresas, o trabalho infantil é intolerável. Por que é aceito nas operações da Nestlé no Brasil?

Na França, país sede do Carrefour, o racismo é inaceitável dentro das lojas da empresa. Por que no Brasil ainda é tolerado, pelo menos desde 2009, a ponto de culminar em assassinato?

Na matriz da Coca-Cola, nos Estados Unidos, não há registros de vínculo com empresas ligadas à tortura e invasão de terras. Por que no Brasil é tolerado?

Empresas, governos, sociedade civil e consumidores se tornaram reféns de suas próprias hipocrisias. Sem uma união de esforços que dê um basta a tanta condescendência, nada vai mudar.

O exemplo poderia vir do Carrefour, que é a bola da vez. Quem sabe fechando para sempre a loja de Porto Alegre e financiando ali um centro de estudos sobre direitos humanos, gestão pública responsável e consumo saudável.

É preciso mudar. A mudança precisa ser para ontem. A começar pela postura do governo, que há meses assume ares claramente neofascistas, sob os olhares complacentes de bancos, indústrias, parlamentares e grandes investidores. Eles se merecem.

 

*Marques Casara é jornalista e pesquisador especializado em investigação de cadeias produtivas, com foco em direitos humanos e meio ambiente.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

https://www.brasildefato.com.br/

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PARABÉNS PETROLINA! 125 anos de história municipal

Aos 74 anos de idade, em tempos pandêmicos, ainda continuo a me pensar nesta cidade, em posicionamentos e olhares críticos. Pois bem, hoje, aniversário da cidade, analiso um quadro bastante esclarecedor sobre as desigualdades sociais que aqui fincaram e são visíveis além da arquitetura da orla. *Por Elisabet Moreira.

Foto: Acervos da Abajur Soluções

Moro aqui, em Petrolina, há 44 anos, sou “cidadã petrolinense” oficialmente e nesta cidade construí minha vida profissional e familiar, com todos os percalços do viver, consciente de minha inserção em sua história. Aos 74 anos de idade, em tempos pandêmicos, ainda continuo a me pensar nesta cidade, em posicionamentos e olhares críticos.

Sim, Petrolina é uma bela cidade, diferente de quando aqui cheguei, carente e na expectativa de desenvolvimento, representada pelo represamento das águas deste rio São Francisco, que só é chamado de Velho Chico por uma nostalgia de poucos.

Hoje Petrolina, quase metropolitana em sua área de influência, abarcando outros municípios, como Lagoa Grande por exemplo, é referência regional seja pelo pólo médico, seja pelo universitário, seja pela produção e exportação de frutas do vale. E daí pode-se enumerar a grandeza de uma cidade que cresce sem parar. Quase não saio de casa, mas fico atenta em informações locais e me admiro dos nomes de tantos bairros novos, loteamentos, condomínios, projetos de irrigação, assentamentos, invasões…

No espaço e no tempo desta cidade, homens e mulheres que permanecem e não ficam só de passagem, como de sua origem histórica. A realidade contemporânea nos desafia, pois, além destas margens, da caatinga, das verdes áreas irrigadas, situa-se num Estado nacional e de sua interação.

Pois bem, hoje, aniversário da cidade, analiso um quadro bastante esclarecedor sobre as desigualdades sociais que aqui fincaram e são visíveis além da arquitetura da orla.

Você pode conferir e talvez refletir… eu faço algumas constatações. Pode ser acessível neste link:

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/09/confira-renda-e-patrimonio-medios-em-sua-cidade.shtml

Ou ir diretamente ao site da FGV. Os dados, organizados pela FGV Social, a partir do IRPF de 2018, incluem todos os rendimentos declarados, inclusive aplicações financeiras, muitas vezes pessoas físicas que recolhem impostos menores por meio do Simples.

https://www.cps.fgv.br/cps/bd/docs/ranking/TOP_Municipio.htm

Analisar ou comentar dados estatísticos não é tarefa fácil. Mas me chamou muito a atenção, em primeiro lugar, o número de declarantes do Imposto de Renda na cidade. Esse dado me impactou. Apenas 10, 05%. E os outros 90% que não declaram… quem são ou por que não declaram?

Pessoas sem renda suficiente para declarar, pobres, desempregados, pequenos empresários rurais e urbanos e/ou… sonegadores?? Segundo a matéria da Folha de São Paulo, as cidades com mais declarantes de IRPF tendem a ser menos desiguais. Óbvio, significa que há mais distribuição de renda.

Agora, vejam a renda média da população.  Segundo estes dados, das declarações do IR do ano de 2018:  R$ 691, 96, mas a renda média dos declarantes é de R$ 6.884,44.

A diferença não passa desapercebida. A renda média dos declarantes é quase 10 vezes superior à renda média da população.  A desigualdade é gritante.

Essas diferenças se concretizam na comparação entre o Patrimônio Líquido Médio da População: R$ 11.512,33 para o Patrimônio líquido médio dos declarantes: R$ 114.537,71.

O que sabemos, em linhas gerais, é que a economia brasileira tende a aprofundar a desigualdade, quanto mais dependente de empregos informais e de baixa produtividade. Não vamos discutir aqui possíveis soluções ou alternativas, apenas quis destacar a desigualdade social em nossa cidade, cotidianamente visível.

Não posso deixar de frisar também que se tributa muito o consumo e pouco a renda e o patrimônio. Enfim, justiça social está na base de um governo realmente comprometido com a população, e não com estes representantes que aí estão.

Vamos refletir e nos posicionar…

 

 

Por Elisabet Gonçalves Moreira – professora, escritora e pesquisadora em cultura. Mora há 44 anos em Petrolina. 

 

Petrolina PE R$ 692 R$ 11.512 R$ 6.884 R$ 114.538 10,05
  % da população posição no Brasil
Declarantes na População 10,05% 1.865º
  Média posição no Brasil
Renda média da população R$ 691,96 1.347º
Patrimônio Liquido Médio da População R$ 11.512,33 2.265º
Renda média dos declarantes R$ 6.884,44 671º
Patrimônio liquido médio dos declarantes R$ 114.537,71 2.554º
Colunas

O bolsonarismo avançou, mas até onde ele irá?

“A luta contra o neofascismo e o ultraliberalismo não é uma luta de curto tempo, pelo contrário. É uma luta de médio e longo prazo. Para vencermos, é fundamental não perdermos a perspectiva de longo prazo. Nossos inimigos não perdem e estão agindo olhando o presente e o futuro. Portanto, não é hora de cair no catastrofismo e tampouco de fazer qualquer subestimação. É hora de continuar lutando”. *Por Patrick Campos

Uma pesquisa do instituto Data Folha realizada entre os dias 11 e 12 de agosto, e divulgada no dia 14, apresentou um cenário que deixou muita gente de orelha em pé: o crescimento da aprovação de Jair Bolsonaro e o seu melhor índice desde o início do governo.

A comparação da pesquisa é feita com outra do mesmo instituto divulgada em 24 de junho, quando 32% dos entrevistados avaliavam que Bolsonaro estava fazendo um governo ótimo ou bom, frente 44% que avaliavam que ele estava fazendo um governo ruim ou péssimo e 23% que consideravam que ele estava fazendo um governo regular.

Essa nova pesquisa apresentou uma tendência de inversão. O percentual de pessoas que avaliam que Bolsonaro está fazendo um governo ótimo ou bom cresceu para 37%, enquanto aqueles que consideram que ele faz um governo ruim ou péssimo caiu para 34% e aqueles que acham que o governo de Bolsonaro é regular cresceu dos 23% para 27%.

O resultado da pesquisa de junho praticamente repetiu o que já havia se constatado em maio (43% de ruim/péssimo, 33% de ótimo/bom e 22% de regular). E esta, por sua vez, tinha revelado um crescimento da reprovação com relação à pesquisa de abril, quando o índice de ruim/péssimo era de 38%, ótimo/bom 33% e regular 26%.

A questão que se coloca, portanto, é: o que mudou? O que foi que aconteceu no país e/ou no governo que explique essa tendência de mudança na percepção sobre Bolsonaro?

No país a situação geral piorou. A taxa de desocupação, que vem sendo medida periodicamente pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) do IBGE, cresceu. Em junho, na semana da pesquisa Data Folha, o percentual de pessoas desocupadas estava em 12,3%. Já na quarta semana de julho (período mais recente da pesquisa, divulgada também no dia 14 de agosto), o percentual cresceu para 13,7%, o que corresponde a 12,9 milhões de pessoas.

A situação da pandemia se agravou ainda mais. Junho foi o mês em que o Brasil atingiu a marca de 1 milhão de casos e 50 mil mortes. Menos de dois meses depois, nessa primeira metade do mês de agosto, o país já ultrapassou os 3 milhões de casos e mais de 105 mil mortes, “estabilizando” a média diária acima de mil mortes pelo novo coronavírus.

Enquanto cresceu o desemprego e as mortes pela covid-19, aumentou o lucro dos grandes capitalistas. O setor ligado ao agronegócio tem vivido um período de grande acumulação. O país registra uma safra recorde (principalmente de grãos como soja e milho) no momento em que as exportações e os preços atingem valores históricos. O oligopólio do setor financeiro, por sua vez, manteve altas taxas de lucro e alguns deles chegaram a aumentar seu faturamento, como no caso do Santander, que anunciou o lucro de 3,9 bilhões em três meses.

Apesar desse cenário, de desemprego e morte para os mais pobres e aumento do lucro para os mais ricos, entre os meses de maio, junho e julho o governo Bolsonaro conseguiu equacionar e capitalizar um fator extremamente importante: o auxílio emergencial. Com inúmeros problemas no primeiro um mês e meio (abril e parte de maio), houve uma regularização do auxílio e até o momento cerca de 65 milhões de pessoas já receberam parcelas dos R$ 600,00.

O impacto do auxílio emergencial na vida das pessoas é imenso, sendo quase três vezes superior ao valor da maior faixa do Bolsa Família e chegando em ainda mais pessoas. A ponto de algumas pesquisas indicarem que, nos últimos dois meses (julho e agosto), apesar da imensa crise, o Brasil teve a maior taxa de redução da desigualdade da história.

É um fato significativo, portanto, na percepção sobre a situação do país. Apesar do crescimento do desemprego, do aumento das mortes e do lucro dos mais ricos, tudo isso potencializado pelas ações do governo Bolsonaro, milhões de trabalhadoras e de trabalhadores estão conseguindo sobreviver em razão do auxílio emergencial que também é creditado politicamente ao governo (mesmo que o próprio governo de Bolsonaro tenha sido contra o valor de R$ 600,00).

Mas será que o auxílio emergencial é o único ou o principal fator que explica essa mudança na percepção sobre o governo? As mudanças ocorridas na política bolsonarista não podem ser desconsideradas, pois a partir da segunda metade do mês de junho Bolsonaro e seu governo mudaram de atitude.

Entre abril, maio e a primeira metade de junho, havia uma tendência de crescimento da reprovação, com o agravamento da crise sanitária, os problemas no pagamento do auxílio emergencial, a demissão de dois ministros da saúde, a saída de Sérgio Moro, a divulgação do vídeo da reunião ministerial, o avanço do inquérito das Fake News e um certo “protagonismo” do STF contra o bolsonarismo.

Até aquele momento o governo de Bolsonaro vinha respondendo com uma escalada autoritária, com ameaças constantes contra a democracia, com a participação direta do presidente em atos que pediam o fechamento do congresso e do STF, artigos do vice-presidente nos jornalões, notas ameaçadoras dos ministro-generais e dos clubes militares. Tudo isso, no entanto, mudou a partir da prisão de Fabrício Queiroz na casa do advogado da família Bolsonaro no dia 18 de junho, seguida da fuga do ministro da educação, Abraham Weintraub, para os Estados Unidos no dia 19.

A partir de então, apesar do país viver alguns dias de importantes mobilizações como os atos antifascistas e antirracistas e as paralisações dos trabalhadores por aplicativo, que noutro momento teriam atiçado o bolsonarismo, agora começaram e terminaram com o governo voltado para uma espécie de recomposição com setores do chamado centrão, indicando novos ministros (como Fábio Faria do PSD-RN e genro de Silvio Santos para o ministério das comunicações) e iniciando uma agenda de distribuição de emendas parlamentares, recursos e inauguração de obras, principalmente no nordeste.

Coincide com esse “novo momento” a flexibilização das políticas de isolamento social em todo o país, inclusive nos estados e municípios governados pela esquerda, apesar do número de mortes não apresentar nenhum sinal de diminuição. A retomada do funcionamento do comércio, a diminuição da quantidade de pessoas afastadas do trabalho devido ao distanciamento social (que caiu de 16,5 milhões no começo de maio para 5,8 milhões na última semana de julho) e a discussão sobre a retomada das aulas presenciais, criam um ambiente que veio sendo defendido por Bolsonaro desde o começo da pandemia, que é a de uma naturalização das mortes e da crise.

Fazendo esse exercício de olhar em perspectiva, a pesquisa Data Folha não deveria causar tanta surpresa nem espanto. Afinal de contas, até nos piores momentos do governo ele manteve uma taxa de aprovação em torno dos 30%. Ou seja, o bolsonarismo possui base popular e nessa base um setor muito militante (e parte armada, não podemos esquecer).

O enfrentamento parlamentar e nas redes é absolutamente insuficiente para promover algum tipo de mudança nessa situação. Assim como já era alertado antes da pandemia, quando o bolsonarismo seguia avançando com seu programa ultraliberal, somente com muita mobilização junto aos setores populares seria possível fazer a balança pender para outro lado.

Infelizmente, antes e principalmente durante a pandemia, prevaleceu em amplos setores da esquerda e da oposição a compreensão de que a luta contra o bolsonarismo só poderia ser ganha com uma ampla frente democrática, reunindo setores do centro e da centro-direita. Esse jeito parlamentar de pensar e analisar as coisas não poderia dar em outra coisa que não o que aconteceu: nada.

A centro direita e a direita não só fizeram movimentos peristálticos para essa ideia de frente ampla com a esquerda, como conduziram todo o processo de recomposição e o acordo por cima para garantir a manutenção do bolsonarismo com Bolsonaro. Esse sempre foi, inclusive, o objetivo de grande parte da centro direita: ter o bolsonarismo sem Bolsonaro, mas se preciso, com ele sob “controle”, para fazer avançar o programa ultraliberal sem colocar em risco seus próprios interesses.

Nesse sentido, não passou de pura perda de tempo a demora em pedir o Fora Bolsonaro, em entrar com pedidos de impeachment, em ficar oferecendo a bola para gente como FHC e Rodrigo Maia, como ocorreu no 1º de maio, no lugar de ter aproveitado o momento em que o bolsonarismo esteve mais fragilizado para executar uma potente campanha pelo Fora Bolsonaro.

Ainda assim, o que está acontecendo neste momento está longe de ser a batalha final. A recomposição feita por Bolsonaro é um dos sinais de que ele sabe que as coisas não vão bem. A crise sanitária segue se agravando, o auxílio emergencial não terá como ser compatibilizado com o programa ultraliberal por muito tempo e o acordo por cima que garante sua sustentação momentânea prescinde de muito dinheiro, um dinheiro que figuras como Paulo Guedes resiste em utilizar.

Ou seja, se antes da tempestade vem a calmaria, devemos nos preparar para uma tempestade ainda maior em breve. É por isso que não pode haver vacilações entre as forças de esquerda acerca da luta pelo Fora Bolsonaro. Depois da pesquisa Data Folha tem gente querendo jogar a toalha e outros oferecendo tábuas de salvação (olhando para as eleições municipais).

Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. A luta contra o neofascismo e o ultraliberalismo não é uma luta de curto tempo, pelo contrário. É uma luta de médio e longo prazo. Para vencermos, é fundamental não perdermos a perspectiva de longo prazo. Nossos inimigos não perdem e estão agindo olhando o presente e o futuro. Portanto, não é hora de cair no catastrofismo e tampouco de fazer qualquer subestimação. É hora de continuar lutando. 

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

Opinião

O sistema das artes e seu colapso

“E os artistas? Estão preparados para os novos tempos? Especialmente se mal sabemos quanto durarão esses tempos? Embora nem todos reconheçam, a arte enquanto trabalho, enquanto força de trabalho, é também um veículo expressivo, cuja lida tem um efeito sobre o artista, cria um corpo, conforma uma subjetividade, dá forma a certos estados afetivos”. Por Elson Rabelo

Que a pandemia causada pelo novo coronavírus não tem precedentes históricos similares, em sua escala planetária; que ela foi agravada pelo acirramento do autoritarismo e do descaso político no Brasil; e que ela está deixando em seu encalço o agravamento de uma crise econômica que chegará sobretudo para os mais vulneráveis socialmente, são temas recorrentes no noticiário cotidiano, além da perturbadora presença da morte ao nosso redor.

Entre esses grupos vulneráveis, estão os artistas das mais diversas linguagens – o que não é novidade, mas que ainda é tema de pouca reflexão para aqueles de fora dos circuitos da arte. Assim como o sistema de saúde, o sistema das artes colapsou. E para completar nosso assombro, as iniciativas dos gestores culturais, sejam eles privados ou públicos, ainda parecem tímidas, o que se explica pelas novas prioridades que se desenham, na vida do cidadão comum, no contexto de uma pandemia – consumir arte não está entre essas prioridades. Aqui, nenhuma comparação com países tido como desenvolvidos é possível, em uma sociedade como a nossa, que viu, nos últimos anos, a escalada da censura e do corte de verbas chegar à extinção do Ministério da Cultura e à redução de sua pasta a ocupantes aleatórios e ao esvaziamento.

Enquanto escrevo, o projeto de lei Aldir Blanc, que prevê o auxílio para os trabalhadores da cultura, depois de ter passado pela Câmara e pelo Senado, está às vésperas de ser sancionado por aquele que está no cargo da presidência da República, restando a dúvida se quem sempre atacou a produção cultural aprovará que se lhe destine verba pública com respeito à liberdade de expressão e ao direito universal que todos têm de acessar os bens culturais.

Os editais têm se mostrado brutalmente emergenciais, numa delicada negociação que passa pelos valores a serem destinados para cada artista ou grupo, pelo formato da produção a ser submetida (parafraseando Mallarmé, tudo existe para terminar em vídeo?), pela abrangência geográfica de um processo de descentralização e interiorização que não se completou, e pelos prazos, especialmente quando se pondera o caso daqueles que, há três meses já, perderam seus públicos, sua renda, sua perspectiva. Além disso, ainda que as agências atentem para a incluir as variáveis de classe, de cor, de gênero, de diversidade de corpos, não sabemos se, por seu turno, esses indivíduos estão conseguindo pagar os boletos para manter sua conexão com a internet.

Obra expressionista alemão O Grito. de Edvard Munch, 1893.

E os artistas? Estão preparados para os novos tempos? Especialmente se mal sabemos quanto durarão esses tempos? Embora nem todos reconheçam, a arte enquanto trabalho, enquanto força de trabalho, é também um veículo expressivo, cuja lida tem um efeito sobre o artista, cria um corpo, conforma uma subjetividade, dá forma a certos estados afetivos. Como a maioria de nós, os artistas também se perturbaram com a pandemia, com a morte, com a dor, com a doença. Talvez mais do que muitos de nós, muitos artistas estejam padecendo psicologicamente com a falta de exercer seu ofício, de encontrar pessoas, de colocar seu corpo em seus processos de criação, e, importante reiterar, com a falta da dignidade de obter seu ganha-pão. Não à toa, sempre é preciso voltar a cantar essa pedra, no Brasil: a arte não é um enfeite, complemento espontâneo, inspirado, ornamental que brota das cabeças geniais dos artistas. É uma profissão em permanente batalha por justo reconhecimento.

Os artistas cuja expressão se centra diretamente no corpo – dançarinos, atores, capoeiristas, performers, artistas circenses – parecem os mais atingidos. Para quem busca chegar à forma minimamente aprimorada, nessas linguagens, quem agora define a diferença entre o ensaio e o definitivo são os ritmos da câmera, da edição, da mediação, da conexão e mesmo do delay. Na falta do olhar e do ouvir diretos do público, de sua energia e de sua interação também diretamente física e imediata, o próprio conceito de presença é recomposto, a duras penas.

Há um tempo atrás, certos setores das artes visuais proclamavam sua desmaterialização, sua redução ao conceito, ao gesto, ao puro símbolo. Mas eis que não nos sentimos completamente à vontade em estar apenas nas nuvens, quando isso não é somente uma escolha e quando, mesmo que ainda se tome isso como escolha, já não há a certeza de um público. O desconforto é maior, quando lembramos que essas mesmas artes visuais vinham redescobrindo sua carnalidade, dentro de e para além dos cânones ocidentais, seu compromisso com forças sociais de estratos diversos. Ainda teremos de verificar o quanto os públicos, também eles heterogêneos frequentam as exposições que se tornaram virtuais, quando se sabe que o cubo branco já sofria seus abalos, e não era de hoje.

Ironia estética: na crise das demais linguagens, a música segue como a mais tolerável de se consumir; na impossibilidade de Apolo, Dioniso canta nos mais diversos gêneros, embriaga na sofrência, embala a tragédia da política, o choro da falta de celebração do São João no Nordeste, o caos de nossa desorientação, o luto pela cifra crescente de mortos que têm nome para quem os amava.

Há pouco pensávamos que a internet franquearia o acesso à informação, à liberdade de expressão e de opinião. Mas eis que vieram as fake news, esse fenômeno empresarial da história política recente, a cultura do ódio, da destruição de reputações, do cancelamento, do ataque virtual, numa sociedade que levou sua herança mais agressiva da oralidade ao mundo escrito, desde a época do Orkut. Parece que a internet não é bem uma praça democrática. E isso é decisivo para a forma e o conteúdo do que os artistas pretendem veicular.

Também se abateu sobre nós a percepção de que entre o mundo real, as nossas bolhas sociais e a internet há muito mais camadas do que julgam nossos vãos perfis de redes sociais. Entre essas camadas, a falta de acesso, e mesmo de manejo, dos dispositivos tecnológicos, das ferramentas das redes sociais, dos códigos próprios de cada plataforma, em constante atualização.

Enquanto não sabemos se a live se tornará o principal entretenimento, e honestamente esperamos que não, são essas transmissões ao vivo, de corpos vivos atrás da tela para outros corpos vivos espectadores, que lembram aos corpos que ainda não sucumbiram que há uma vida pela qual vale a pena viver.

Um sinal para os artistas: atuem em coletivo, na medida do possível do isolamento social. É mais estratégico, amortece os impactos, divide tarefas. Outra: também com apoio coletivo, procurem a todo custo formalizar seu trabalho, desde o registro de documentos até a aquisição de expertise, da câmera emprestada do colega, da escrita e da revisão de outro colega, de uma orientação sobre orçamentos, tabelas, cronogramas. Por difícil que pareça entrever esperança, as formas de linguagem do futuro ainda estão em suas mãos.

 

*Elson Rabelo, historiador, professor do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e pesquisador colaborador do Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Email: elson_rabelo@hotmail.com

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