Colunas

Democracia ou Golpe? O 7 de setembro e a luta contra o autoritarismo

O 7 de setembro de 2021 precisa ser maior que todos os atos que realizamos até agora. Que travemos o bom combate, lado a lado, em defesa da vida, da soberania e da democracia e contra o a fome e o autoritarismo. *Por Patrick Campos

Mais de 583.628 pessoas mortas em decorrência da covid-19. Quase 20 milhões de famintos. 40 milhões de desempregados e desalentados. Metade da população do país em situação de insegurança alimentar. O litro da gasolina custando em média R$ 7,00, o botijão de gás mais de R$ 100,00 e o risco iminente de um apagão elétrico, com o povo pagando a conta com aumento nas tarifas energéticas. Será nessas condições que o Brasil chegará no 7 de setembro de 2021.

É diante desse cenário que a extrema-direita, uma das responsáveis diretas por essa situação, convoca mobilizações golpistas em todo o país. Bolsonaro e seus aliados sabem que nos aproximamos de uma situação limite, quando as condições de vida da maioria do povo pioram brutalmente em decorrência da política negacionista e do programa ultraneoliberal, sendo o autoritarismo o caminho para dar seguimento a essa política entreguista, privatista e de morte.

Como vimos há poucas semanas, na votação da PEC do voto impresso, o Partido Militar (que hoje é uma das principais vigas de sustentação do bolsonarismo) colocou tanques nas ruas de Brasília para dar uma demonstração de força e ameaçar os parlamentares. O objetivo foi parcialmente alcançado, afinal, mesmo derrotada, a PEC teve o apoio da maioria entre aqueles que votaram e catalisou a ânsia golpista dos setores mais extremistas do bolsonarismo, como aqueles que pedem um novo AI-5 e intervenção militar.

Diante das quedas em todas as pesquisas de opinião e da iminência de uma derrota eleitoral, Bolsonaro faz aquilo que a direita tem feito desde 2016: não pagar pra ver. Em 2016, deram o golpe contra a presidenta Dilma, depois prenderam o presidente Lula, tiraram seus direitos políticos, o impediram de concorrer nas eleições de 2018 (quando Lula, assim como agora, também liderava todas as pesquisas), e conjuraram do esgoto o neofascismo bolsonarista.

Enquanto faziam isso, impuseram o programa ultraneoliberal, com a criação do teto de gastos, o congelamento dos investimentos, a privatização de setores estratégicos, o desmonte da previdência social, da legislação trabalhista, do Bolsa Família e um ataque sem precedentes ao meio ambiente, as políticas de cultura e de educação. Não é absurdo afirmar que em cinco anos, a direita fez o Brasil retroceder décadas, tudo isso, entre outros motivos, para não pagar pra ver.

O objetivo é fazer do país aquilo que ele foi no passado, um estado dependente, exportador de matérias primas, controlado pelo latifúndio e o agronegócio, onde a questão social era caso de polícia e em que a classe dominante possuía uma taxa de lucros que a permitia acumular riquezas com o máximo de exploração da classe trabalhadora. Além disso, reforçando por meio da violência, todos os tipos de racismo, o machismo e as estruturas de opressão e dominação que por séculos foram erguidas contra o povo brasileiro, especialmente a população pobre, negra e as mulheres.

Para a direita dar seguimento a esse programa e atingir esses objetivos é cada vez mais necessária uma mudança nas regras do jogo. Por isso, as constantes tentativas de mudar o sistema político e eleitoral, com propostas como semi-presidencialismo e parlamentarismo. No entanto, Bolsonaro e seus aliados já demonstraram mais de uma vez, em diversos ensaios, que não vão pagar pra ver. De tal forma que o 7 de setembro está sendo tratado por eles como uma possibilidade de virar a mesa.

É por isso que toda a mobilização popular neste 7 de setembro, organizada principalmente nos atos do Grito dos Excluídos, precisa ser para enfrentar essa ofensiva que possui um caráter golpista. É a democracia, assim como a vida e as liberdades, que está em risco diante dessa escalada autoritária.

Há diversos setores receosos de enfrentamentos diretos, com a realização de atos simultâneos com aqueles convocados pela direita. Mas não devemos temer. A classe trabalhadora brasileira possui um histórico de luta e mobilização que já foi capaz de derrotar as elites e seus asseclas por mais de uma vez. Se não os enfrentarmos agora, corremos o risco de desacumular num momento que crescemos.

Desde a recuperação dos direitos políticos de Lula, e dos diversos atos nacionais realizados a partir do dia 29 de maio, cada vez mais setores do campo democrático-popular se colocaram em luta, enfrentando o vírus e seus principal aliado que é o governo Bolsonaro.

A direita não pode ocupar as ruas e muito menos achar que nos tiraram delas. O 7 de setembro de 2021 precisa ser maior que todos os atos que realizamos até agora. Que travemos o bom combate, lado a lado, em defesa da vida, da soberania e da democracia e contra o a fome e o autoritarismo.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

 

 

 

Opinião

Novos gritos do povo excluído

A independência política tem de ser completada por verdadeira libertação de todas as pessoas que vivem no país. * Por Marcelo Barros

Cartas do 27º Grito dos Excluídos e Excluídas (Divulgação)

Mesmo em meio à pandemia que ainda nos ameaça com novas cepas, os movimentos sociais se unem às pastorais de Igrejas na organização do 27º Grito dos(as) Excluídos(as). Durante esta semana, na qual o Brasil recorda a sua independência de Portugal, de norte a sul do país, as manifestações populares nos dizem que a independência política tem de ser completada por verdadeira libertação de todas as pessoas que vivem no país. Por isso, é importante que todos e todas escutem o grito das multidões de brasileiros e brasileiras ainda excluídos/as dos seus direitos básicos. O tema deste 27º Grito resume gritos novos e antigos em um só assim formulado: “Vida em primeiro Lugar! – Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda, já!”.

Este tema com seus diversos gritos se insere na campanha Fora Bolsonaro que não é apenas dos excluídos e excluídas. Abrange pessoas de todas as categorias que não querem compactuar com a barbárie. O Brasil vive sob constantes ataques à nossa soberania e democracia. Cada dia, o presidente e sua base ameaçam o povo brasileiro com novo golpe, ora com palavras, ora com tanques das Forças Armadas, ora com chantagens ao Congresso. Desgasta a relação entre as instituições, como nos últimos dias, com notícias falsas e estímulo ao ódio aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Em um momento no qual o mundo inteiro está alarmado com as consequências dramáticas do aquecimento global e a ONU prepara duas conferências sobre mudanças climáticas, o governo brasileiro privilegia o modelo depredador, favorece queimadas e aposta na destruição da natureza. Toma como inimigos os povos originários e, a cada dia, aprova medidas para lhes roubar terra e direitos adquiridos.

O povo brasileiro amarga um dos piores índices de desemprego da nossa história e um aumento descomunal do trabalho informal e mal remunerado. Por tudo isso e para dar um basta nesta situação, toda pessoa de boa vontade e que ama a Vida é convidada a se manifestar nesta semana e especialmente no dia 7 de setembro, no 27º Grito dos Excluídos e Excluídas e nesta campanha Fora Bolsonaro!

Juntos por um país verdadeiramente independente, sem genocídio da população pobre, negra e indígena, com justiça social e oportunidades para que o povo volte a sonhar e ter orgulho de ser brasileiro.

É urgente mobilizar as comunidades excluídas dos direitos básicos, para que participem nas etapas de formação e mobilização social, especialmente pelo direito à vacina, ao auxílio emergencial e Fora Bolsonaro, assim como nos mutirões pela Vida da 6ª Semana Social Brasileira, promovida pela CNBB e por vários organismos da sociedade civil e que está em processo de construção.

Ainda há quem pense que religião nada tem a ver com Política. Os profetas da Bíblia nunca pensaram assim. Mostraram que a atitude fundamental para adorar a Deus é lutar pacificamente pela justiça e pelo direito de todos. Jesus Cristo tomou como missão testemunhar o reino de Deus e nos ensinou a orar: Venha a nós o teu Reino. Isso significa que

Deus tem um projeto para o mundo e esse projeto inclui a organização social e política da sociedade a partir da justiça eco-social e da Paz.

O próprio termo Igreja que o apóstolo Paulo usou para denominar as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus era o nome das assembleias de cidadãos nas cidades do Império. Portanto, o próprio fato de se constituir como assembleias (Igrejas) revela que a vocação das comunidades cristãs é serem células de um mundo transformado. Por isso, para quem tem fé, participar do Grito dos Excluídos e Excluídas é não só ato de cidadania mas também de fé e espiritualidade. O próprio Jesus está nesse grito e nos chama recordando suas palavras: “Eu vim para que todos e todas tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

 

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: “O Evangelho e a Instituição”, Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

https://domtotal.com/

 

 

Espaço do Leitor

A verdade não é o que costumava ser

“A proximidade das eleições nacionais brasileiras parece tornar interessante e necessária a discussão acerca das fake news nas eleições, inclusive em função do avançado estágio de propagação de notícias falsas já em período pré-eleitoral”. * Por Kalline Laira

Reprodução

Basta um político dizer que o tempo está bom para uma parte do público dizer que está chovendo. Ou que um oponente diga preto para que a versão oficial diga branco. Quando atrapalha, é propaganda, quando convém, é informação! A verdade não é mais o que é, depende de quem a fala e do que cada um quer ouvir. Até agora, esperava-se que os governantes eleitos, os meios de comunicação e as instituições dissessem a verdade no interesse do interesse geral. Hoje, nestes tempos de não diálogo, cada um espera que fale a “verdade” do seu ponto de vista. Mesmo que isso signifique trapacear com a realidade. Daí o sucesso de Orbàn, Salvini, Johnson, Bolsonaro, Trump … Por que a percepção do fato importa mais do que o próprio fato? A falta de cultura histórica ou o desconhecimento do assunto de que falamos não são suficientes para explicar esta revolução “cultural”, ainda que sejam o seu fundamento.

Sempre existiram notícias falsas, especialmente na forma de boatos. Mas tornou-se um gigantesco empreendimento intencional de desestabilização.  O uso de mentiras e narrativas dúbias sempre esteve presente na estratégia de propaganda de regimes, partidos e candidatos, não só para autopromoção, como também para ataques a concorrentes. Para não ir muito longe em tempo e lugar, lembre-se das eleições de 1989, nas quais Collor, então presidenciável, já no segundo turno, disse que o também então presidenciável Lula, se vencedor, lançaria uma investida contra as cadernetas de poupança. No segundo turno das mesmas eleições, a Rede Globo foi acusada pelo Partido dos Trabalhadores de editar os debates finais para favorecer Collor. Embora o questionamento não tenha sido bem sucedido na Justiça Eleitoral – o PT queria que a emissora transmitisse uma nova edição, a título de direito de resposta, mais recentemente a própria Rede Globo admitiu que a edição buscou privilegiar Collor.

O que mudou, então? Em 2013, sem usar a expressão “fake news”, o Fórum Econômico Mundial classificou a massiva desinformação digital como um risco global. Bom, para nós brasileiros o risco resultou em um governo devastador para nossa democracia e população. A difusão de fake news nas eleições de 2018 gerou o caos entre os eleitores e a opinião pública. Segundos os dados do relatório digital seis em cada 10 brasileiros tem WhatsApp no seu celular. São 120 milhões de pessoas a uma mensagem de distância. Para chegar a tantas pessoas como Bolsonaro chegou é necessário ter uma estrutura forte, com grande financiamento por trás. Publicidade, marketing e virtual têm sua parcela de responsabilidade nessa desconfiança generalizada: querem nos convencer de que comprar um carro é comprar silêncio ou ar puro. Que votar fulano de tal, apresentado sob o perfil artificial que a opinião pública espera, é votar um vencedor. Pagamos caro pela adição e interação desses fenômenos. 

Quando repetida, a notícia falsa “Fake News” acaba soando como verdadeira. Ainda mais porque é muito difícil negar o improvável, especialmente se a negação vier de uma fonte que se tornou suspeita. Assimilada a poderes, a noção de verdade é tão contestada quanto esses poderes. A falsa notícia é tanto mais audiência nas redes “sociais” que permanece impune. E faz tanto barulho que os profissionais de notícias não conseguem mais ignorá-lo. Saudamos o talento dos acrobatas da mentira! Porque, martelado, ele instila a dúvida, o que basta para modificar nossa percepção, para aceitar outra versão, falsa mas plausível, de acordo com nossas emoções ou nossas fantasias. Como a teoria da conspiração aplicada aos ataques, e a segurança do voto eletrônico. A verdade é golpeada pela torrente contraditória dos eventos atuais: um dia orgânico é bom, no dia seguinte é tão ruim quanto não orgânico; um dia o aquecimento é devido ao homem, no dia seguinte é apenas um ciclo natural; um dia aumenta o poder de compra, no dia seguinte tudo aumenta. As pesquisas reforçam o fenômeno. Observe o quanto eles não se relacionam com um projeto explicado, mas com a opinião que se tem de um sujeito ou de uma pessoa que geralmente não se conhece.

A verdade não é mais uma referência moral, a subjetividade se torna adoração. Portanto, rigor, honestidade, a caça à falsificação, embora essencial, corre o risco de ter pouco efeito. Democracia, é a liberdade de todos expressarem qualquer coisa, apesar da realidade? Ou é a capacidade de pensar, debater e decidir coletivamente para não nos jogarmos da estupidez ou da raiva nas armadilhas ilusórias e radicais que nos são armadas? Enquanto a opinião pública tiver essa necessidade de acreditar em falsidades, um fenômeno específico de períodos conturbados da história, como ficará o futuro da democracia? A proximidade das eleições nacionais brasileiras parece tornar interessante e necessária a discussão acerca das fake news nas eleições, inclusive em função do avançado estágio de propagação de notícias falsas já em período pré-eleitoral.

 

Por Kalline Laira, Historiadora e Mestra em Educação

 

Espaço do Leitor

Eu estava nas ruas

“Já são mais de 461 mil mortes no Brasil. Mesmo com esses dados alarmantes decidi ir as ruas, pois além do vírus estamos lidando com o governo de Jair Messias Bolsonaro, que tem na necropolítica seu projeto estruturante de governabilidade”. *Por Antônio Carvalho

Foto: Lizandra Martins

Escrevo esse pequeno texto para dizer os motivos que me levaram as ruas neste último sábado, mesmo ciente dos riscos das aglomerações na potencialização da pandemia da COVID 19, esta que já dura mais de um ano e que não cessa de ceifar vidas. Sua cartografia da morte está cada vez mais perto de todas/os nós: são amigos, vizinhos, conhecidos, parentes, homens, mulheres, idosos, jovens, crianças, negros, negras, do campo, da cidade, LBTQIA+. O vírus funciona como uma roleta russa, pois não temos a certeza da sua ação nas particularidades dos corpos. O distanciamento social tem funcionado assim como mecanismo de frear o avanço das contaminações e desse modo evitar formas graves da manifestação da doença, não sobrecarregado com isso o nosso sistema de saúde que, infelizmente, não está preparado para tratar a grande quantidade de casos que se apresentam todos os dias nas unidades públicas e privadas de saúde. Agora, no momento mesmo da feitura desse texto, muitos estão morrendo em casa ou leitos de hospitais vítimas da contaminação por esse vírus; temos uma média diária de mortes que já ultrapassou em alguns momentos o número de três mil. Já são mais de 461 mil mortes no Brasil.

Mesmo com esses dados alarmantes decidi ir as ruas, pois além do vírus estamos lidando com o governo de Jair Messias Bolsonaro, que tem na necropolítica seu projeto estruturante de governabilidade. Assim como age um miliciano que extermina aquele e aquelas que se apresenta como empecilho para seu enriquecimento ilícito. Este homem tem conduzido um projeto político de extermínio em massa em nosso país, especialmente da população mais pobre, de maioria negra, que desde muito enfrentam dificuldades no acesso as políticas de cuidados e saúde. O desemprego e a fome voltam a assolar ainda mais ferozmente as nossas periferias, as criança estão nas ruas pedindo esmolas e realizando trabalhos que as deixam ainda mais vulneráveis ao conjunto de violências que precarizam suas infâncias. O ministério da educação não tem apresentando soluções para a nova realidade que se instaurou em nossas escolas e universidades, politicas estruturante de acesso à tecnologia e internet não tem sido viabilizadas pelo governo, ao invés disso assistimos atônicos a retirada sistemática dos recursos públicos nesta área, universidades estão fechando por falta de orçamento. Além de tudo isso, estamos também morrendo lentamente em nos lares, acometidos do adoecimento metal que se potencializou com o estado de coisas do momento.

Por tudo isso eu fui as ruas, como no grito de revolta, mas também de esperança por me sentir vivo e capaz de mudar o vivido na retirada desse genocida do poder. Peço desculpas aos /as que não puderam e/ou não se sentiram confiantes e seguros para estar nesse ato. Peço também o apoio de vocês, pois o que mais precisamos nesse momento difícil é: acolhimento e solidariedade.

Aos que estiveram comigo nesse momento:

Obrigado pelo re/encontro na rua, esta luta sempre foi nossa.

Vacina, Pão, Moradia, Escola!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

*Por Antônio Carvalho do Santos Junior (professor da educação básica, mestre e doutorando em educação)

Patrick Campos

Para parar o vírus, é preciso ir às ruas parar o governo

“A alternativa para as milhões de pessoas que, por conta das ações desse governo assassino, vivem a encruzilhada de tentar sobreviver sem se contaminar, é se mobilizar para colocar um fim no governo que é um aliado do vírus”. *Por Patrick Campos

Esta semana o Brasil deve ultrapassar a marca de 450 mil pessoas mortas em decorrência da covid-19. Ao longo dos próximos dias a perspectiva é de avanço de uma terceira onda da pandemia, colocando a média diária novamente acima das três ou até mesmo dos quatro mil óbitos. Chegaremos no São João com mais de meio milhão de vidas perdidas.

As ações do governo Bolsonaro são as principais responsáveis por esse assassinato em massa. Ações que impediram e continuam impedindo o acesso às vacinas, que incentivou a contaminação (afirmando se tratar apenas de uma gripezinha) e que não permitiu que a maioria do povo pudesse tomar medidas de isolamento social.

A grande maioria dos mortos são trabalhadores e trabalhadoras. Pessoas que tiveram que enfrentar a exposição ao vírus em ônibus lotados, nos camelódromos, mercados, comércios informais e que nunca puderam parar, pois o auxílio nunca chegou ou sempre foi insuficiente para colocar comida na mesa e pagar todas as contas do mês.

São mais de 40 milhões de desempregados e cerca de 20 milhões de pessoas passando fome. Que alternativa resta a elas, mesmo sem vacina, que não sair de casa todos os dias para tentar conseguir um emprego ou comida para sua família? E que alternativa tem aquelas outras milhões de pessoas que para manter o emprego e o salário (cada dia mais insuficiente para pagar as contas), mesmo sem vacina, precisam sair de casa todos os dias para trabalhar?

Por conta de Bolsonaro e seus aliados, as vacinas não chegarão para todos este ano. Até o momento, das mais de duzentas milhões de pessoas que vivem no Brasil, pouco mais de dezessete milhões conseguiram tomar as duas doses dos imunizantes. Por isso, ainda por vários meses, milhões de trabalhadores e de trabalhadoras serão obrigados a lutar pela sobrevivência sem ter a melhor proteção contra o vírus.

E está mais do que provado que quanto mais tempo Bolsonaro e seus aliados continuarem governado, pior ficará a vida do povo, mais o vírus se espalhará, mais cepas e variantes irão surgir e mais pessoas ficarão desempregadas, passarão fome e morrerão. De tal forma que, a alternativa para as milhões de pessoas que, por conta das ações desse governo assassino, vivem a encruzilhada de tentar sobreviver sem se contaminar, é se mobilizar para colocar um fim no governo.

E essa mobilização precisa ocorrer nas ruas do país. As mesmas ruas que estão ocupadas por trabalhadores lutando para sobreviver, precisam ser ocupadas por estes mesmos trabalhadores e tantos outros na luta para derrotar Bolsonaro.

Essa afirmação não é negadora da defesa das políticas de isolamento social, tão necessárias para a proteção contra o vírus. E não é porque a maioria do povo que está sofrendo com o desemprego, com a fome e com a exposição ao vírus já está na rua e sendo impedida de praticar medidas de isolamento. É justamente para conseguirmos as condições políticas que permitam medidas sanitárias corretas, que precisamos mobilizar contra o governo aliado do vírus.

Em alguns países da região, como Paraguai, Chile e Colômbia, tem sido a mobilização popular que tem permitido ao povo vislumbrar uma alternativa real de enfrentamento a pandemia, uma vez que isso passa por enfrentar as políticas dos governos que como tem sido afirmado em alguns casos, são tão perigosos quanto o próprio vírus.

Aqui no Brasil a baixa mobilização dos setores populares, associada a ação assassina do governo e a mera atuação parlamentar e institucional da oposição de esquerda, ficou longe de frear o crescimento do número de mortes, de ampliar a vacinação ou de garantir melhores condições de sobrevivência.

E nessa equação a variável que pode e precisa ser alterada é a mobilização popular. Sem ela seguiremos para uma terceira onda em condições que podem ser ainda piores dos que as vividas até agora.

É por isso que o dia 29 de maio precisa representar uma virada no atual estado de coisas. Uma parcela das organizações populares, sindicais, estudantis e partidos de esquerda estão finalmente convocando para a mobilização. Assim como ocorreu no dia 13 de maio em diversas cidades, os setores populares devem se preparar para ir às ruas no dia 29.

Ou assumimos que essa é uma mudança necessária na conduta de enfrentamento da política do Bolsonaro, ou seguiremos assistindo a direita usar a pandemia para ocupar as ruas, ampliar e incentivar a violência e o morticínio, e se preparar para as eleições de 2022 enquanto implementa o programa de reformas ultraliberais, privatizando as empresas públicas e desmontando as legislações social, ambiental e trabalhista.

Contra tudo isso e em defesa da vida, que façamos um dia 29 de lutas!

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

Espaço do Leitor

Carta de Solidariedade à professora Camila Roseno

“Professores e professoras LGBTQIA+ sofrem assédio moral de alunos/as e gestores/as cotidianamente, quase sempre acionam nossas sexualidades e identidades de gêneros numa tentativa de nos desqualificar profissionalmente, como se quisessem nos envergonhar daquilo que somos, nos causar constrangimento diante da comunidade acadêmica/escolar”. Por Antônio Carvalho

Não atura, fecha a firma, bonde das femininas

Que vem de strike a pose direto das revist as

Mas é revista fina, não vem de Ti-Ti-Ti

Se não aprendeu com elas, isso é cultura QUEER

Vem aplaudir

Batendo palma, eu te vi resistir

Mas vi daqui

Que enquanto você chora, eu canto pra subir

Se a minha pele é o que incomoda

Eu te convido a vir vestir

Mais quente que o Saara

Eu queimo o céu e faço o mar abrir

Prepara os doces que a festa não parou por aí

Alice Guél hitou mandando um “Deus é travesti!”

Segura o queixo que esse trecho é feito pra engolir

Mas se o efeito causou medo, é hora de fugir

Só mais um trago desse amargo que eu vivi

Contando as notas chora que hoje eu vou sorrir

De batom preto pro velório ou enterro

Vê nas manchetes e pede pra eu não ter que repetir

(quebrada queer)

 

Somos corpos precarizados, diriam autoras como Judith Butler, isso devida a toda sorte de vulnerabilidade vivida ao longo das nossas trajetórias de vida/formação docente. Professores e professoras LGBTQIA+ sofrem assédio moral de alunos/as e gestores/as cotidianamente, quase sempre acionam nossas sexualidades e identidades de gêneros numa tentativa de nos desqualificar profissionalmente, como se quisessem nos envergonhar daquilo que somos, nos causar constrangimento diante da comunidade acadêmica/escolar.

Esse tipo de assédio precarizam não só os nossos corpos, mas também o corpus da comunidade, pois somos de algum modo impedidos/as de falar sobre nós mesmos/as na construção dos conhecimentos pretendidos em nossas práticas curriculares e pedagógicas. Casos como o de Camila Roseno, professora do curso de pedagogia da UNIFAN, na cidade de Remano, no norte da Bahia, Vale do São Francisco, é representativo desse tipo de violência. Uma aluna junto com sua mãe denunciou a professora à referida instituição, alegando incompetência da profissional, pois esta seria lésbica e dizia abertamente sobre isso nas aulas de educação e corporeidade. Os argumentos utilizados por essa família partem da premissa de existência de uma anormalidade ou desvio moral da professora que gera incompetência na constituição mesma das suas preferencias sexuais. A família reclama não do comprometimento da profissional com sua atividade docente, ela chama atenção par o seu comprometimento ao sistema heteronormativo que regula a comunidade.

Hoje fique sabendo que Camila Roseno Pediu exoneração do cargo, por não suportar o modo como a questões tem sido lidada institucionalmente. É preferível perder uma pesquisadora e professora qualificada do que se comprometer com o combate aos casos de violência como este.

Minha solidariedade à Camila Roseno. Pra cima dos caretas e covardes, sem piedade!         

 

Antonio Carvalho

(viado, pesquisador, professor e amigo da vítiva)

 

Juazeiro/BA, 21/05/2021

   

Opinião

Vírus da fome

“Em fins de 2020, mais de 50 milhões de pessoas se encontravam na pobreza e 13 milhões, na extrema pobreza”. *Por Frei Betto

Só em Santana do Livramento (RS) foram doados aproximadamente 2.300 kg de alimentos produzidos por assentados da Reforma Agrária para famílias de periferias (MST-RS)

O governo Bolsonaro não apenas extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), em 2019, que havia sido criado pelo governo Lula em 2003, como fez aumentar a insegurança alimentar nos lares brasileiros, atingindo 116,8 milhões dos 212 milhões de pessoas – mais de metade da população.

Segundo o IBGE (nov. de 2020), mais de 50 milhões de pessoas se encontravam na pobreza e 13 milhões, na extrema pobreza. É considerado pobre quem tem renda per capita mensal de, no máximo, R$ 499, e miserável aquele cuja renda mensal não ultrapassa R$ 178.

Da população brasileira, 14,4 milhões estão desempregados; 40 milhões sobrevivem de empregos informais; 13,6 milhões vivem em favelas, dos quais metade está desocupada. Metade das crianças brasileiras com menos de 5 anos, que somam 6,5 milhões, vivem em lares afetados pela insegurança alimentar. No Nordeste, 51% das famílias não têm acesso regular aos alimentos e na região Norte, 57%.

Enquanto se reduz o valor do auxílio emergencial e aumentam a inflação e os preços do gás de cozinha e da gasolina, os dos alimentos subiram 19,42% nos últimos 12 meses. O menor valor da cesta básica é de R$ 445,90 (Aracaju) e o maior, R$ 639,81 (Florianópolis). Por isso, 1/3 das famílias brasileiras se encontram em insegurança alimentar.

No Brasil, a fome tem cor, gênero, nível de escolaridade e (falta de) acesso ao saneamento. Afeta 10,7% dos lares habitados por negros e pardos, contra 7,5% dos lares de brancos; 11% dos lares chefiados por mulheres e 7% chefiados por homens; os chefes de 14,7% dos lares não têm escolaridade ou não completaram o ensino fundamental. Não têm acesso à água 44,2% dos lares.

Enquanto o governo Bolsonaro “passa a boiada” e favorece o desequilíbrio ambiental ao não reduzir as queimadas, combater a derrubada de florestas e a poluição de rios pelo garimpo ilegal, o Brasil retorna ao mapa da fome. A devastação do meio ambiente provoca climas extremos (seca e frio rigorosos) e ameaças biológicas, como as ondas de gafanhotos e a Covid-19, na medida em que se interrompem os ciclos de predadores naturais.

Essas práticas trazem danos à agricultura e à pecuária. Ao converter perdas de produção agrícola em equivalentes calóricos e nutricionais, ao longo de 10 anos (2008-20018), a FAO constatou que elas atingiram o índice anual de 6,9 trilhões de quilocalorias, o que equivale ao que 7 milhões de pessoas ingerem, em calorias, por ano. Na América Latina e no Caribe, a perda por pessoa foi de 975 calorias, o que equivale a 40% da dose diária recomendada. Nosso Continente superou a África (559 calorias) e a Ásia (283 calorias).

Segundo Jean Ziegler, perito da ONU, o mundo, hoje, produz alimentos para 12 bilhões de bocas. E somos 7,8 bilhões de habitantes, dos quais 8,9% sobrevivem em insegurança alimentar e 24 mil morrem, por dia, em consequência da desnutrição. Um total de 9 milhões por ano. Portanto, o problema não é a falta de alimentos, e sim a falta de acesso a eles, ou seja, justiça. O capitalismo fez do alimento, um direito natural como o ar que se respira, uma mercadoria. Come quem pode pagar. Morre de fome quem não dispõe de renda.

Grandes corporações transnacionais se apoderaram de terras, água e sementes. Produzem transgênicos, que impedem os pequenos agricultores de replantarem e exigem mais agrotóxico, causando danos à saúde humana e ao meio ambiente. Os agricultores, impedidos de negociar diretamente sua produção, são obrigados a repassá-la às empresas que controlam as commodities agrícolas, negociadas por fundos de pensão e bancos de investimentos. Produtos como suco de laranja, milho, soja, trigo e café, provenientes de amplas áreas de monocultura, são estocados quando se faz necessário aguardar a majoração de seus preços no mercado. E a soja e o milho são prioritariamente destinados a alimentar rebanhos, e não seres humanos.

Diante desse trágico panorama, o que fazer? O mais urgente é derrubar os vetos de Bolsonaro à lei de Assis Carvalho, proposta no PL 735/2020, fundamental para ampliar a produção de alimentos saudáveis pelas agriculturas familiar e camponesa. Embora aprovado por significativa maioria da Câmara e unanimidade no Senado, Bolsonaro vetou 14 dos 17 artigos, de modo a impedir o poder público de comprar alimentos diretamente da agricultura familiar e doar às famílias mais pobres. Vetou também estender o auxílio emergencial aos pequenos agricultores.

São inúmeras as iniciativas solidárias para amenizar, em caráter de urgência, a fome agravada pela pandemia no Brasil. O MST, com suas 30 mil famílias acampadas e 450 mil assentadas, até setembro do ano passado já havia distribuído 3,5 mil toneladas de alimentos, em 24 estados, a pessoas em situação de rua, associações de moradores, abrigos, asilos, hospitais públicos e comunidades indígenas, além de incentivar a criação de cozinhas e hortas comunitárias.

Outros exemplos de iniciativas solidárias são a Ação da Cidadania, a Cufa (Central Única das Favelas), o G10 das Favelas, a Central de Movimentos Populares, os Bancos de Alimentos, o Mesa Brasil Sesc, entre outras.

O mais importante, contudo, é conquistar uma nação justa, com menos desigualdade social e uma renda básica assegurada a cada cidadão e cidadã, sem que ninguém sofra pela falta do mais elementar direito humano – o de se alimentar.

 

 

Frei Betto é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de “A Obra do Artista – uma visão holística do Universo”, “Um homem chamado Jesus”, “Batismo de Sangue”, “A Mosca Azul”, entre outros.

https://domtotal.com/

Colunas

A educação precisa de você

“Quando uma nação abre mão de sua soberania, ela está também arrancando os sonhos de seu povo, ou seja, aquilo que lhe é mais caro: a educação”.*Por Helinando Oliveira

A estratégia primária dos negacionistas é omitir e atacar a verdade, substituindo-a por aquilo que seja conveniente para aqueles que os controlam. E a construção do negacionismo é feita nos escombros do que foi a sociedade e todos os seus sonhos, a partir de um ataque incessante contra a educação. Este caminho de subserviência (e inviabilização do processo educativo) é a base para os novos (e amargos) tempos que provamos de neocolonialismo.

Quando uma nação abre mão de sua soberania, ela está também arrancando os sonhos de seu povo, ou seja, aquilo que lhe é mais caro: a educação. E o discurso que se aplica às estatais que estão na fila da privatização também segue em curso para a educação. Primeiro vem a falta de investimento, o sucateamento e na sequência a venda ao preço de uma quase entrega. No último domingo, um famoso apresentador falou em alto e bom som: “Já que o Brasil não tem educação…”. Ora, não ter educação é tudo o que os negacionistas desejam para este momento. É a expressão maior do caos que se espalha pelos quatro cantos do país.

Só que a educação não acabou! Diante desta situação, o que nós, povo brasileiro, podemos fazer para evitar que este desmonte aconteça? Como fazer isso, em plena pandemia? Precisamos usar as ferramentas que temos. Falar, falar muito. Construir um texto curto e compartilhar em nossas redes sociais…

Conte o que a educação fez para a sua vida. Fale com os vizinhos e amigos, conte aos estranhos. Vamos construir uma grande rede espontânea em prol da educação. Temos uma coisa que não está à disposição dos bots: a inteligência natural.

É importante lembrar que esta bandeira de todos é fundamental para as próximas gerações. Precisamos garantir que as meninas e os meninos pobres da periferia tenham o direito de sonhar com um futuro melhor pelos estudos. Com educação pública, gratuita e de qualidade isso é possível.

A partir de uma educação de qualidade são construídas grandes universidades por todos os cantos. Delas saem soluções para todo o povo, feitas pelo próprio povo. Por suas portas entram jovens e saem doutores que mudam o rumo de suas famílias, trazem dignidade e provam que o investimento em educação é o mais importante para uma nação que se diz capaz de ser independente.

Sendo assim, cara leitora e caro leitor que até chegou, deixo lançado o desafio: conte para o mundo o que a educação fez com a sua vida. Jogue nas redes sociais. Compartilhe geral. Por um Brasil de educação. O futuro agradece.

 

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

 

 

Opinião

O sertão e a caatinga

“A caatinga como um grandioso laboratório a céu aberto precisa ser preservada e entendida como fonte de solução biotecnológica para todo o planeta”. Por Helinando Oliveira

Foto: André Pessoa

A caatinga é única, um bioma exclusivamente brasileiro que precisa ser olhado por vários ângulos e em diversos momentos. A escassez de água por grande parte do ano confere um aspecto singular à mata branca (significado de caatinga em tupi-guarani) que é formada por uma vegetação de árvores baixas com troncos retorcidos e espinhos, que tornam o gibão uma segunda pele para o vaqueiro nordestino.

Com uma vegetação que perde praticamente todas as folhas para sobreviver à seca, a caatinga ensina ao seu povo o real significado da palavra resiliência, ao armazenar água para suportar a longa estiagem.  E assim ela permanece até o primeiro sinal do período de chuvas, quando explodem as folhas em sinal de vitalidade, transformando completamente a imagem da mata como que em uma incrível explosão de vida. E é da beleza da florada da caatinga que surge a esperança no sertão nordestino. E neste bioma tão único, muito da riqueza biotecnológica ainda está por ser explorada sob forma de extratos, óleos essenciais e metabólitos secundários que estão à disposição de uma ciência que chegou recentemente ao sertão.

E esta associação de ciência e caatinga agrega extremo valor à sociedade, dada a diversidade de soluções que este bioma reserva em termos de agentes antibacterianos, fármacos e compostos ainda inexplorados.

Aquele sertão tão sofrido e retratado na década de 80 do século passado pelo chão rachado, com o êxodo do nordestino para o sudeste do país, de fome e de falta de esperança passa agora a exercer outro papel: este agora precisa ser o lugar da ciência e do retorno.  Dos troncos retorcidos (que serviam para produção de carvão) agora saem conceitos e inovação. A caatinga como um grandioso laboratório a céu aberto precisa ser preservada e entendida como fonte de solução biotecnológica para todo o planeta. É chegada a hora de fazer retornar o sertanejo, fazer seus filhos mestres e doutores no conhecimento, dar dignidade e esperança para todo um povo. E isso vem apenas das gotas sagradas de uma chuva chamada educação.

Sim, é verdade que vivemos tempos de tristeza e dor, fome e falta de compaixão, ódio e anticiência. A caatinga nos ensinou, no entanto, a resistir. Somos estes galhos retorcidos e espinhosos prontos para explodir em viço na primeira chuva.

Vem chuva, vem…

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

 

https://nossaciencia.com.br/

Opinião

O PT, Haddad e os caminhos para derrotar a direita

“O PT deve e precisa ter candidatura em 2022, essa não é a questão. A questão é que para termos uma candidatura em 2022 com mais viabilidade e para derrotarmos a direita o ambiente do país precisa ser outro, Lula precisa ter recuperado seus direitos políticos, a extrema direita precisa estar sob constante pressão e o centrão ameaçado”. *Por Patrick Campos

Desde que Fernando Haddad concedeu entrevista para a TV 247 na quinta-feira (08.02) e afirmou que o ex-presidente Lula lhe pediu para colocar “o bloco na rua”, o assunto da candidatura do PT para as eleições presidenciais de 2022 foi alçado ao topo das análises e debates nos jornais e redes sociais.

Há opiniões de todos os gostos, sabores, odores e cores. Mas no fundamental, há quem tenha comemorado o “anúncio” como a solução para todos os problemas e há quem tenha aberto as comportas do antipetismo para escorrer as críticas contra a hipótese de uma candidatura do PT em 2022. Convenhamos: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Mas para falar sobre esse assunto é importante retomar uma discussão que estava presente há poucas semanas em alguns círculos de esquerda: a abertura ou não de uma “janela de oportunidade” na luta pelo fim do governo Bolsonaro. Ou seja, se esta janela, que existiu em 2020 no começo da pandemia, teria voltado a existir com o aprofundamento da crise sanitária, econômica e social que marcou o mês de janeiro, com a falta de oxigênio no Amazonas, o fim do auxílio emergencial e o crescimento brutal do desemprego.

Em janeiro, o país voltou a registrar manifestações espontâneas com panelaços e carreatas realizadas em centenas de cidades. Além disso, todas as pesquisas de opinião indicaram uma queda significativa da popularidade do governo, que chegou ao patamar semelhante aquele do início da pandemia.

Verificou-se concretamente uma mudança no comportamento de um setor da classe média e dos setores populares que vinham, desde o início do segundo semestre de 2020, com uma postura menos ativa e menos combativa no enfrentamento ao governo Bolsonaro.

Foi, portanto, nesse momento do mês de janeiro de 2021 que para muita gente abriu-se, ou começou a se abrir, uma janela de oportunidade para avançar na luta pelo fim do governo Bolsonaro, sendo que uma das formas disso acontecer seria através da abertura do processo de impeachment.

No entanto, apesar dessa mudança concreta no comportamento de parcela da classe trabalhadora, a maioria dos partidos de oposição (inclusive do PT), adotou na disputa pela mesa diretora da Câmara e do Senado uma tática que foi justamente na contramão dessa mudança. No lugar de lançar candidaturas que tivessem como eixo de seu programa a aceitação de um dos pedidos de impeachment, tanto na Câmara quanto no Senado, as bancadas petistas aprovaram (no Senado por unanimidade e na Câmara por uma pequena maioria) o apoio à candidatos que eram contra o impeachment.

Este é um dos elementos que não podemos deixar de fora ao analisarmos o que aconteceu e ainda está acontecendo nesse momento, em que parte daqueles que achavam que existia uma janela, agora consideram que ela se fechou.

Sobre isso, dois comentários.

Primeiro: assim como foi um erro o PT e os demais partidos de oposição não terem lançado uma candidatura e constituído um bloco de esquerda, foi um erro alimentar a noção equivocada de que com Baleia Rossi o impeachment poderia avançar. Isso nunca existiu. Afinal, se existisse mesmo essa possibilidade, não seria Baleia Rossi (que verbalizou que não faria), mas sim Rodrigo Maia quem deveria ter dado início ao processo de impeachment. E não fez, pelo contrário. Sentou em cima de mais de 60 pedidos de impeachment, sendo cumplice da continuidade e estabilidade do governo Bolsonaro.

De tal forma que a tática errada adotada pela maioria do PT e dos demais partidos de oposição contribuiu para alimentar esta miragem junto a uma parcela da militância, que ao ver Arthur Lira eleito e Baleia Rossi massacrado já no primeiro turno, passou imediatamente a questionar a validade da luta pelo impeachment, quando a reação deveria ser exatamente a oposta.

A luta pelo impeachment, ou seja, umas das formas de mobilização pelo Fora Bolsonaro, continua e deve ser ainda mais incentivada. A luta pelo impeachment, que deveria ter sido potencializada com uma candidatura de esquerda e um bloco de esquerda na eleição da Câmara, mesmo agora, ajuda na mobilização pois é uma bandeira concreta e permite um mínimo de acumulação de forças, que é algo fundamental se quisermos, em algum momento, alterar a atual correlação de forças.

Ela ajuda a desgastar o governo Bolsonaro em diversas camadas e tem como uma de suas consequências, inclusive, favorecer as forças de esquerda agora e em 2022 se a disputa for levada até lá. Além disso o impeachment é uma pauta ofensiva num ambiente geral de defensiva, em que parcela das organizações de esquerda estão impedidas de se mobilizar ou atuando apenas de forma reativa.

Agora, uma segunda coisa: É evidente que há uma piora brutal nas condições de vida de milhões de pessoas, que estão desempregadas, passando fome, sem auxílio, adoecendo e morrendo. E, portanto, a percepção da responsabilidade da política genocida de Bolsonaro tende a crescer. Isso significa que aquela “janela” não é tão abstrata. Mas ela também não está totalmente aberta, pelo contrário. É preciso forçar sua abertura, com muita luta e mobilização.

Nesse sentido, a discussão sobre as candidaturas presidenciais de 2022 devem cumprir que papel? Ora, justamente o papel de reforçar a urgência de mobilizar e lutar pelo fim deste governo desde já.

Acontece que tem muita gente utilizando as entrevistas dadas pelo companheiro Fernando Haddad para espancar o PT, como se o partido não tivesse o direito de lançar uma candidatura para a presidência da República, quando na verdade devemos incentivar que o Haddad que teve 47 milhões de votos em 2018 e que centenas de outros companheiros e companheiras cumpram com o papel de se projetar no debate político nacional e levantar a urgência do fim do governo Bolsonaro, agora e/ou em 2022.

Por isso que não devemos ficar “comendo fixa” de quem, seja pela direita, seja pela esquerda, fica de forma cínica e oportunista falando agora aquilo que pensa desde sempre: que o PT deve fazer consigo aquilo que a direita tenta fazer a quarenta anos, que é anular o maior partido de esquerda da disputa presidencial. Devemos fazer justamente o contrário.

Agora, não podemos cometer o erro de depositar todas as nossas fichas na eleição de 2022, sem considerar o que precisa ser feito em 2021. O PT deve e precisa ter candidatura em 2022, essa não é a questão. A questão é que para termos uma candidatura em 2022 com mais viabilidade e para derrotarmos a direita o ambiente do país precisa ser outro, Lula precisa ter recuperado seus direitos políticos, a extrema direita precisa estar sob constante pressão e o centrão ameaçado. Isso só será atingido se mudarmos a política que hoje tem prevalecido.

A linha política que levou ao voto desastroso da maioria dos parlamentares de esquerda a votar em baleia Rossi e que tinha levado as centrais sindicais a chamar, para o 1º de maio de 2020, FHC e Rodrigo Maia, precisa mudar. Mas essa mudança, como está demonstrado, não ocorrerá espontaneamente. Por isso, devemos dedicar todas as nossas energias na luta que acumule forças para mudar essa política, pois ela é uma das responsáveis por parte das derrotas sofridas até agora.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores