Leitura Crítica

O trabalhador no mundo do trabalho não tem o que comemorar

No dia do trabalho precisamos fazer uma reflexão densa sobre o significado do mundo do trabalho e suas perspectivas desastrosas para a maioria da população. *Por Moisés Almeida

Foto:Arquivo pessoal

Bem nessa semana em que celebramos o dia primeiro de maio, fiz uma discussão sobre Ética e Trabalho, na disciplina Filosofia e Ética do Curso de Direito na FACAPE. Apresentei alguns dados recentes do mundo do trabalho, dialogando com a crise do capitalismo, da atividade formal e dos impactos que a automação e a robotização têm causado na atividade laboral. Pelos dados apresentados, pouco temos a comemorar no dia do trabalho. Nosso desemprego no último trimestre foi de 12,7%, correspondendo a cerca de 13,4 milhões de pessoas desempregadas. Segundo dados de 2018, a quantidade de trabalhadores informais, ultrapassou o número de registrados oficialmente. Os números estimam cerca de 34,2 milhões de pessoas na informalidade e 33,1 milhão registrados.

De acordo com o IBGE “a taxa de subutilização da força de trabalho foi de 25%, a maior desde 2012. Isso representa um grupo de 28,3 milhões de pessoas que reúne os desocupados, os subocupados com menos de 40 horas semanais e os que estão disponíveis para trabalhar, mas não conseguem procurar emprego por motivos diversos”. Se esses dados representam um quadro sinistro, que determinam desalento de milhões de pessoas, o que mais me preocupa é a velocidade do processo de automação e robotização que vem ocorrendo nos últimos anos. Infelizmente, não está sendo na mesma proporção a quantidade de vagas criadas em decorrência dos postos fechados por causa da substituição do ser pela máquina inteligente. Pesquisa recente do Laboratório de Aprendizado de Máquinas e Finanças e Organizações da Universidade de Brasília (UnB), revelam que até 2026, 54% dos empregos formais poderão ser ocupados por robôs e programas de computador.

Por sua vez, a Consultoria McKinsey, estima que até 2030 15,7 milhões de trabalhadores no Brasil serão afetados pela automação. No mundo, essa estimativa gira em torno de 400 a 800 milhões de pessoas serão afetadas pela automação. Não sou eu quem está apenas preocupado com essa situação. A elite política e econômica global se mostra preocupada com o futuro do trabalho, a partir dos dados que foram divulgados no Fórum Econômico Mundial realizado em 2018 em Davos na Suíça. Pelos números, de 2015 a 2020, o planeta perderá por causa da automação 7 milhões de postos de trabalho, especialmente em funções administrativas e industriais, gerando apenas, nesse mesmo período, 2 milhões de novas vagas.

A automação segundo dados recentes está avassaladora, e terminará atingindo ocupações não só das classes operárias da indústria e do comércio, mas também das classes de serviços, incluindo aí, os contadores, administradores, advogados e médicos. Richard Baldwin, Economista especializado em comércio internacional no Graduate Institute, de Genebra na Suíça, prevê fúria da classe média, com o fenômeno que ele chama de “Globótica”, que significa globalização combinada a novas formas de robótica, de inteligência artificial à tecnologias que facilitam a terceirização de empregos em serviços. Esse grupo será atingindo concorrencialmente pelos robôs: “A concorrência de robôs de software será vista como monstruosamente injusta”, afirmou o economista.

No mundo, já temos um aumento do desemprego estrutural e países que não se prepararam para esse fenômeno, enfrentam grave crise, por exemplo, em seu sistema de previdência e de assistência social. É o desmoronamento do mundo do trabalho, ideia tão cara à modernidade, e que agora, é desfeita em razão da não certeza da inclusão. O que dizer para as pessoas que ainda têm empregos formais, e que poderão em curto prazo serem substituídas? O que dizer para os jovens, que não entraram no mercado de trabalho e poderão não ter certeza da inserção? Como dialogar com a miséria crescente no mundo, devido à concentração de renda e distribuição desigual da riqueza? Só para termos uma ideia do crescente nível de pobreza, o Banco Mundial divulgou em outubro do ano passado, que cerca de 3,4 bilhões de pessoas, vivem na extrema pobreza, lutando para sobreviver e satisfazer suas necessidades básicas. No Brasil existem cerca de 5 milhões de pessoas que vivem com 45 reais por mês.

No dia do trabalho, não temos muito a comemorar. No dia do trabalho precisamos fazer uma reflexão densa sobre o significado do mundo do trabalho e suas perspectivas desastrosas para a maioria da população. No dia do trabalho, precisamos saber que em plena crise econômica Global, os mais ricos, ficaram mais ricos, aumentando, por exemplo, sua renda em 13%. Enquanto não discutirmos a desigualdade social, provocada por esse estado de coisas, o dia do trabalho será apenas um dia qualquer, onde bilhões de pessoas, sequer sentem que este dia é um dia para comemorar.

*Moisés Almeida é Mestre e Doutorando em História do Brasil e professor Assistente da UPE Campus Petrolina e FACAPE.

Notícias

Um beijo infinito para a madrinha de todos nós

Sambista Beth Carvalho faleceu nesta terça-feira (30) no Rio de Janeiro (RJ). Por Tiaraju Pablo*

A Beth dos palcos jamais se dissociou da Beth em verde e rosa / Divulgação

Escrevo no calor da hora, como quem sangra com o coração ferido por um punhal. A notícia chegou por celular, por onde chegam as más notícias: Beth Carvalho se foi…

Em frações de segundo, um filme musicado passou pela minha cabeça. Fragmentos de lembranças se sobrepuseram, lembrando que Beth está por toda parte.

Recordei de quando quando liguei para seu empresário convidando-a para um show, e quem atendeu foi ela mesma. Ficamos um tempão batendo papo por telefone.

Se não fosse ela, aquela geração dos 1980 de Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho possivelmente não teria existido, talvez não com a mesma potência. Beth abriu portas pra rapaziada do Cacique de Ramos e foi a primeira a levar Zeca pra cantar num palco a épica “Camarão que dorme a onda leva”. Talvez Beth nem saiba, mas se não fosse ela, minha infância teria sido diferente, sem tantas rodas de samba regadas a partido alto em esquinas de ruas de terra nos confins da zona leste.

Como esquecer a Beth da Mangueira, das épicas gravações de Nelson Cavaquinho ou de uma versão irretocável de “O mundo é um moinho”, do saudoso Cartola?

A Beth dos palcos jamais se dissociou da Beth em verde e rosa, e a Beth carioca soube cantar, com respeito e altivez, sambas de São Paulo e sambas da Bahia.

E como não lembrar a Beth do amor. Do amor difícil de “1800 colinas” ao amor correspondido de “Andanças”, uma das canções mais belas já compostas neste país.

Beth foi latino-americanista. Gravou com Mercedes Sosa “Só eu peço a Deus”, versão em português do hino composto pelo argentino León Gieco.

Beth também foi a marte, privilégio de poucos, entoando “Coisinha do pai”, de Jorge Aragão.

E pra quem não sabe, Beth sempre foi povo e sempre foi luta. Se posicionou contra as injustiças em todos os momentos políticos do país. Na década de 1970, antenada com a luta das mulheres, gravou “Olho por olho”. Em 1974 desafiou a ditadura militar cantado “Pra seu governo”.

Em 1987, tempo de carestia e pobreza, perguntava: “e o povo como está?/está com a corda no pescoço”. Nos últimos anos se posicionou ferozmente contra o avanço conservador no país.

Beth madrinha…você foi múltipla e foi milhões.

Impossível te sintetizar num texto.

Você foi Artista com A maiúscula.

De maneira sensível e corajosa, cantou nosso povo, nossas alegrias, tristezas e esperanças.

Quem parte às vésperas de um primeiro de maio o faz para lembrar que trabalhadora e trabalhador não chora:  faz festa e faz luta.

Você agora deve estar com Almir Guineto e  Dona Ivone Lara cantando partido alto para os anjos.

Obrigado madrinha, obrigado.

Por onde for, quero ser seu par…

 

* Tiaraju Pablo é militante e sambista.

Colunas

O Brasil precisa mesmo reviver a miséria?

“Somos um país rico e que teve a oportunidade de declarar sua independência com relação ao mundo, mas que decidiu pela subserviência….” Por Helinando Oliveira

Depois de um longo e necessário período de silêncio, retornamos à regularidade da coluna Ciência & Sertão… Neste retorno, o tema não poderia ser outro: a fome.

Todos lembramos do tempo em que as crianças ficavam à beira da estrada com um balde de areia e pá, a pedir alguns centavos por taparem os buracos intermináveis das BRs brasileiras.  Aquela história parecia ter ficado no passado… Só que ela retornou (repaginada) e surge escancarada nas esquinas dos semáforos das cidades brasileiras. As mãos de jovens levantam cartazes com apelo por empregos. Esta é uma linguagem mundial levantada pelas grandes tragédias. Logo após as tempestades, tornados e furacões, os cidadãos sem teto vão as ruas com seus cartazes e chapéus. É o ápice da degradação humana – o limite que separa a esperança da fome extrema.

Porém mesmo em meio a tanta pobreza surgem heróis, como William Kamkwamba, cuja história virou livro e filme “O Menino que Descobriu o Vento”.

Da distante (e ao mesmo tempo tão próxima) Malauí, William foi impedido de ir à escola por não poder pagar as mensalidades. O próprio acesso à biblioteca foi cortado, e mesmo assim estes empecilhos não foram suficientes para que aquele autodidata pudesse construir uma turbina eólica à base de um dínamo de bicicleta. E assim ele fez a irrigação acontecer, trazendo comida para o seu vilarejo.

Apesar da história magnífica de superação, William não precisaria ter passado por nada disso. A maior herança de uma nação é seu povo, e como tal, o povo precisa estar no foco das atenções de seus governos. O Estado que onera e cobra impostos tem a obrigação de oferecer escolas de qualidade para suas crianças. E das escolas são estruturadas as Universidades, que como grandes aliadas do povo, trabalham como fábricas de sonhos para a conquista de soluções populares.

William Kamkwamba chegou a Universidade pelo impossível que ele plantou no solo do Malauí – por ter sonhado e criado a sua engenharia para o vento. Porém, além dele, vários outros jovens poderiam ter feito muito mais por sua terra. A eles faltou oportunidade.

E o Brasil agora tira a oportunidade de todos estes jovens, que permanecem de pé nos semáforos. Esta é uma geração que não precisa reviver a miséria. Somos um país rico e que teve a oportunidade de declarar sua independência com relação ao mundo, mas que decidiu pela subserviência.

Torço que a Universidade brasileira continue sendo o fio de esperança racional, mantendo suas portas abertas para que dentro dela os nossos Kamkwambas sejam acolhidos e exercitem a sua capacidade de fazer a diferença. Que os pobres vejam na Universidade pública a possibilidade de exercitar o verdadeiro significado da transformação social.

 

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

 

 

Notícias

Moçambique e o preço pago pelos mais pobres pelo aquecimento global. Por Alexandre Costa*

Cientista defende que países pobres, expostos ao caos climático, sejam compensados pelos países ricos e corporações.

Pessoas ilhadas aguardam resgate em Moçambique após passagem do Ciclone Tropical Idai. / Foto: Chris Sherrard (Irish Mirror)

Neste ano já tivemos enchentes devastadoras associadas a eventos extremos aqui mesmo no Brasil (com impacto bastante severo em nossas megacidades, Rio e São Paulo), nos EUA (com enormes danos e prejuízos em Minnesota e Nebraska).

Mas, como em tantas outras ocasiões, eventos similares produzem impactos maiores – e um número bem maior de mortes – quanto mais pobres e vulneráveis forem os países e as comunidades sobre os quais eles se abaterem.

Como antes nas Filipinas, em Serra de Leoa, etc., a tragédia, que finalmente parece chamar a atenção do mundo, veio na forma do Ciclone Tropical Idai, que se formou a partir de uma depressão tropical no Canal de Moçambique, entre o sudeste do continente africano e Madagascar. Três países pobres (Malawi, Zimbabwe e particularmente Moçambique) foram duramente castigados, com o número impressionante de 1,7 milhão de pessoas afetadas e, no momento em que escrevo, mais de 700 mortes confirmadas.

Aqui me sinto obrigado a fazer uma confissão sobre como têm-me incomodado os memes, tweets, textinhos e eventuais textões que batem na tecla “não tem ‘ajuda humanitária’ em Moçambique porque lá não tem petróleo”. Não é que eu discorde de maneira absoluta da ideia. Pelo contrário, entendo o sentido. É feito um contraponto ao cinismo dos governos ultradireitistas de EUA e Brasil no caso da Venezuela, em que a tese da “ajuda humanitária” certamente escondia outra agenda. Só que a repetição do meme expõe os limites de como muitas pessoas estão encarando a tragédia.

O Idai, como toda tempestade tropical formada numa atmosfera com mais de 400 ppm de CO2, tende a adquirir poder devastador maior do que nas condições, por exemplo, do clima pré-industrial

A primeira questão é que o petróleo é trazido à baila de forma totalmente deslocada. Moçambique foi vítima sim, do petróleo. Não daquele que em tese poderia haver em seu subsolo (mas que pelo visto realmente não há), mas daquele que fora tirado do subsolo de outro lugar, queimado e despejado na atmosfera como CO2. De uma vez por todas, é necessário que caia a ficha: o aquecimento global, ao elevar a temperatura dos oceanos tropicais e aumentar a capacidade da atmosfera em armazenar vapor d’água, está produzindo e produzirá cada vez mais tempestades extremamente severas e mortíferas.

Nesse contexto, o abandono da África à sua própria sorte, gritante no caso de Moçambique, Malawi e Zimbabwe, é uma amostra terrível da profunda desigualdade por trás das mudanças climáticas. Os habitantes do Zimbabwe emitem em média 0,8 toneladas de CO2-equivalente por ano. As emissões de Moçambique e Malawi são ainda menores: 0,3 e 0,1 tons/pessoa/ano. Sem indústria ou agricultura intensiva, esses países não tem responsabilidade alguma sobre o caos climático. Para se ter uma ideia, a média global per capita das emissões está em torno de 5 tons/pessoa/ano de CO2-equivalente, ou seja, 17 vezes maior que as emissões de Moçambique. E o que vem de países ricos é algo muito maior ainda!

Tirando os maiores produtores de petróleo, que por isso aparecem no topo do ranking das emissões, fica evidente que o modo de vida dos países ricos é insustentável. As emissões por habitante dos EUA chegam a 16,5 tons/pessoa/ano. Austrália e Canadá, 15,4 e 15,1, respectivamente. Em outras palavras, o “estadunidense médio” tem um impacto climático equivalente a 55 “moçambicanos médios”. O “canadense médio” conta como 151 habitantes de Malawi em termos da pegada de carbono. Carro privado, grande, de alta cilindrada, movido a combustível fóssil e trocado constantemente; consumo excessivo de bens diversos, de roupas a eletrônicos; dieta com muita carne, principalmente de ruminantes; viagens aéreas… isso não se sustenta.

Praticamente todos os cenários que limitam o aquecimento global a 1,5°C, recomendado pelos cientistas, implicam redução de ~50% nas emissões até 2030 e emissão zero em torno de 2050.

Praticamente todos os cenários que limitam o aquecimento global a 1,5°C, recomendado pelos cientistas, implicam redução de ~50% nas emissões até 2030 e emissão zero em torno de 2050.

De acordo com o último relatório especial do IPCC, o SR15, seria extremamente benéfico limitarmos o aquecimento global a 1,5°C. O suposto limite de 2°C nada tem de seguro e além dele cada décimo de grau amplifica a catástrofe. Mas para tal, seria necessário reduzir as emissões globais pela metade até 2030. Em outras palavras, o limite de emissão per capita seria 2,5 tons/pessoa/ano em CO2-equivalente (isto é, considerando outros gases, como o metano, de acordo com seu potencial de aquecimento global).

Façam as contas comigo. Numa lógica de equidade climática, isso significa que as emissões per capita dos EUA têm de ser reduzidas por um fator de 7 vezes. As dos habitantes de Moçambique poderiam até crescer por um fator de 8! Em uma década, esse crescimento permitiria a pessoas de países muito pobres da África acesso a energia, água potável, saneamento, hospitais, escolas, universidades e infraestrutura de monitoramento, prevenção e assistência em caso de eventos extremos (num mundo condenado, pelo aquecimento global, a um clima de extremos, todos precisaremos, e muito). Isso poderia ser feito a tempo inclusive antes de precisarmos encarar um desafio ainda maior, o de zerar completamente as emissões até 2050.

Mas essas iniciativas necessárias para elevar o padrão de vida dos países mais pobres precisam ser bancadas por quem se beneficiou da queima de combustíveis fósseis para acumular riqueza. Por isso, não é caridade, nem mesmo “ajuda” que os países pobres expostos ao caos climático precisam. É de compensação, de indenização. “Ajuda” é algo meio facultativo, uma decisão moral, um “ato de bondade”. O que precisamos é de mais do que isso: é obrigar quem é responsável pelo aquecimento global a arcar com os danos que ele provoca.

O problema é que o dinheiro que poderia ser usado para compensar e indenizar aqueles que não tem responsabilidade sobre a mudança do clima tem fluído ao contrário do que deveria. Desde que o Acordo de Paris foi aprovado, 33 bancos investiram 7 trilhões de reais na indústria de combustíveis fósseis. Uma fração desse dinheiro teria ajudado a descarbonizar a economia e, ao mesmo tempo, indenizar preventivamente os países com baixas emissões mas, pelo contrário, o sistema segue financiando o caos climático, a devastação e a morte. Tão destrutivo e assassino quanto a indústria de combustíveis fósseis é o capital financeiro que a alimenta!

Quem deve pagar pelos danos associados às mudanças climáticas?

Daí minha objeção ao raciocínio por trás da “ausência de ajuda humanitária em virtude da ausência de petróleo” é mesmo a falta de perspectiva da questão de fundo. Moçambique é vítima do caos climático, do petróleo (que alguns lamentavelmente ainda sonham ser usado para produzir riqueza de forma justa), do carvão e do gás. É vítima da profunda desigualdade associada às mudanças climáticas. E o que precisamos não é de “ajuda humanitária”, mas do pagamento da dívida climática, que precisa ser cobrada, pelos pobres, dos países ricos e, principalmente, das corporações fósseis e dos bancos que as financiam.

 

* Alexandre Costa é cientista do clima e professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Publicado originalmente no blog O que você faria se soubesse o que eu sei

https://www.brasildefato.com.br

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E o carnaval? Quem é que faz?

“Lutar pelo carnaval é lutar pelo povo!” *Por Leonardo Miranda

Foto: Reprodução Faceboock

Carnavalizemos mais que nunca, carnavalizai! A festa de rua mais popular do mundo, com o poder de expurgar as inúmeras derrotas e atropelos da vida contemporânea, vem ganhando cada vez mais, status de festa particular. Sou baiano, de Juazeiro, nosso carnaval há muito tempo é comemorado umas duas semanas antes da data oficial, na vizinha Petrolina, década de 90, início dos anos 2000, rolava o Petrofolia, em setembro, uma micareta para comemorar o aniversário da cidade pernambucana, uma festa nos moldes do carnaval do lado de cá da ponte, que por sua vez, sempre tentou reproduzir a festa da capital baiana, trios elétricos, axé, muito axé, muitos blocos com corda, a elite dentro e o povo fora, apertado, tomando murro da polícia e de quem tivesse vontade de bater em alguém no dia. A violência nos carnavais da Bahia parece ser crônica, quando eu era criança, mainha me levava nas tardes pra ver Pimenta Nativa, Gerasamba (é o tchan) e depois, um pouco mais velho, começamos a ir ver a saída dos trios, nosso percurso era do “shopping” Águas Center até o INSS, coisa de 300 metros, então a gente voltava pra casa, a imagem daquele caminhão gigante, o som batendo na caixa dos peitos, e os percussionistas que sempre chamavam a minha atenção, ficavam na memória, Ivete Sangalo causava um alvoroço quando vinha, eram poucas vezes, Timbalada era minha banda preferida e a primeira vez que Harmonia do Samba subiu num trio em Juazeiro, as mulheres enlouqueceram, quando ele metia as reboladas, já era, o mundo vinha abaixo.

Eu tinha vontade de seguir os trios até a orla, mas mainha me levava de volta e eu pensava: “um dia eu cresço” . Cresci e comecei a frequentar o carnaval com os brothers de infância, a galera do Joao XXIII, Alto do Cruzeiro e redondezas, descíamos a avenida adolfo viana que parecia pequena, era muita vontade, aquele monte de adolescente doido pra beijar umas bocas e curtir um carnaval de verdade, igual os que a gente via na band ou na Tv Bahia… Em meio a esse turbilhão de emoções e vontades, o medo de tomar uma “sobrada” era o sentimento mais “adrenalizante”, rapidamente compreendi por que minha mãe não me levava até o restante do percurso. A violência é muito latente no carnaval da Bahia, grande parte de quem acompanha os trios de axé e pagodão já dança com os punhos cerrados, em posição de combate, a polícia querida desce a madeira em qualquer pessoa que esteja na sua frente, desde que seja preta, claro, alguns brancos dirão: “mas eu já tomei uma cutucada de cassetete da polícia também”, certo, você é especial, parabéns!

Não tenho a intenção de encontrar a gênese dessa violência gratuita, tampouco de acusar A, B, C ou Igor Kannário por isso, o deputado disfarçado de cantor vem ganhando notoriedade depois de se declarar o inimigo número um da polícia e dos seus comandantes, além de se intitular o príncipe do gueto. Cá entre nós, o Kannário tem um timbre de voz lindo, quando canta bate tudo, uma voz grave que sabe como conduzir um trio, a banda que o acompanha tem um groove diferenciado, mas sua postura é no mínimo “contestável”, ainda mais quando usa o gueto pra se eleger, se autopromover com um discurso raso, mas que pega, tanto que de vereador para deputado foi ligeiro, bem comum no Brasil, haja visto os ex jogadores de futebol e artistas espalhados por aí que se utilizam da popularidade com as massas para alcançarem um cargo público e “cagarem” pro povo! É importante lembrar que por mais contraditório que ele seja e que algumas de suas músicas do início da carreira incitam a violência, IGOR KANNÁRIO não inventou a violência no carnaval e não é culpado por esse monte de atrocidade que rola nos circuitos pela Bahia à fora, de uns tempos pra cá, o cantor/príncipe/deputado pede mais paz nos trios que os filhos de gandhy em Salvador, chega a ser chato, mas ele sabe que precisa fazer isso, a fama de má influência, de “ “bandido” como muitos o chamam, causam muitos problemas pra ele, certeza que ele não quer ofuscar seu brilho, que tentará manter-se na política e nos palcos até onde conseguir.

Voltando aos carnavais de Juazeiro e Petrolina, de uns tempos pra cá, a cidade pernambucana vem tentando resgatar os antigos carnavais, as marchinhas, o frevo, maracatu, de maneira bem pacata, aos pouquinhos, quase parando, não tem como comparar com o carnaval de Olinda, Recife, é outra pegada, principalmente com essa influência baiana que o povo petrolinense sofre, o Petrofolia e sua micareta alá Bahia ficou pra trás, mas as bandas de pagode e axé fizeram parte massivamente nos últimos anos, mas um outro ritmo vem tomando conta, aquele que nunca se forma, que produz duplas em escala industrial Brasil à fora, o tal do sertanejo universitário, não seria diferente, é o que mais toca e mais vende no Brasil, tudo está virando sertanejo universitário, se o povo gosta, não tem muito o que fazer, tem que botar mesmo, mas pode-se ponderar, usar o bom senso e construir uma programação mais diversificada, por falar nisso, há dois anos Petrolina ganhou um pólo “alternativo”, multicultural como a prefeitura o chama e diga-se de passagem, vem salvando o carnaval de muita gente, o pólo fica localizado ao lado da sede do grupo Matingueiros e várias bandas do cenário mais “alternativo” do Vale do São Francisco tem a oportunidade de se apresentar, mas sabemos das dificuldades pra que isso aconteça, tem coisas que é melhor deixar em off.

Em Juazeiro o carnaval vem respirando por aparelhos privados, claro, a festa é particular, uma grande vilamix na Orla II da cidade, as grandes atrações, as mais caras, tocam lá, o acesso das pessoas é controlado por seguranças que não deixam as pessoas entrarem com uma garrafa plástica de água, cerveja é só de uma marca, isso também está rolando em Petrolina, mas como a festa é menor, pouco se fala, em Juazeiro a avenida está entregue a galera dos paredões que disputam decibéis por decibéis a atenção dos foliões, em cada esquina tem um paredão tocando pagodão, funk, pagonejo, funknejo, e todas essas variações contemporâneas da música popular nacional, os trios passam e arrastam o povo como sempre fizeram, depois os paredões continuam, mesmo com o enfraquecimento do percurso, a avenida continua sendo o melhor lugar da festa, isso se dá porque o carnaval é uma festa de rua, na rua, pro povo, esse negócio de botar todo mundo cercado, fechado, controlado e consumindo as bebidas dos donos do carnaval é muito baixo astral e está matando nossa festa aos pouquinhos, nossa amada gestão dirá que o orçamento é pouco, que a terceirização se dá por conta da viabilidade financeira e que a prefeitura não tem condições de tocar a festa, tá bom, mas lá no início da gestão eles conseguiam, era carnaval com Ivete e meio mundo de gente, era aniversário da cidade, vaquejada a torta e a direita, bem direita diga-se de passagem, se a única opção é a privatização, que se faça de maneira justa, baseados no que o povo deseja e não pensando-se exclusivamente no bolso dos “vencedores” da licitação, o povo merece um carnaval de verdade, POPULAR! E nosso palco alternativo? Alguém viu? Difícil garantir público quando não se divulga, quando não se garante um mínimo de verba pra se fazer um pólo alá ‘matingueiros” que está dando um banho no palco de Juazeiro. Palmas pra Petrolina!

E como serão os futuros carnavais? Em 2010 o Baiana System fez essa pergunta e eles mesmos responderam dizendo: “o carnaval ainda quem faz é o folião” … Será? Espero que as cordas deixem de existir, que pretos e brancos curtam juntos, desejo que a polícia da Bahia passe por um processo de reciclagem e banho de ervas, gostaria de ver os blocos de rua se multiplicarem pelo Brasil com a criatividade que só o nosso povo tem, com muita crítica, com muita alegria, suor e cerveja, sem sangue, adoraria ver os homens respeitando o espaço e os corpos das mulheres, queria ver as prefeituras investindo nos artistas locais, meu carnaval dos sonhos seria uma mistura do que rola no furdunço em Salvador com o carnaval de Olinda, trios sem cordas e blocos de marchinha tem lugar garantido em meu coração, o pagode, o axé, o frevo e até o rock podem dividir o mesmo espaço, somos muitos, múltiplos e adoramos uma festa, o carnaval diz muito sobre nós, não é apenas uma festa, é o retrato de uma cultura. Lutar pelo carnaval é lutar pelo povo!

 

Por Leonardo Miranda

Produtor Cultural e Conselheiro Estadual de Cultura da Bahia

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A oposição ao governo Bolsonaro precisa acelerar sua organização e pactuar ações

Não será nada fácil e os ataques se intensificarão. *Por Aristóteles Cardona Júnior

Foto: Reprodução.

O ano mal começou e parece que já vivemos meses. Tudo isso graças ao (des) governo de Jair Bolsonaro e sua trupe. É de impressionar a quantidade de besteiras que o governo faz, dia após dia, e precisa então justificar ou voltar atrás.

São tantas as trapalhadas que fica até difícil selecionar algumas. Mas quero, ainda assim, comentar a que se refere a um novo edital para confecção de livros didáticos. Entre algumas das definições, o tal edital não mais obrigava que os livros contivessem as chamadas referências bibliográficas. Para quem não está familiarizado, tais referências funcionam como provas de que estamos tratando de questões cientificamente comprovadas e não apenas meras opiniões, sem garantia de serem reais ou até mesmo possíveis. Felizmente, o governo já recuou nesta definição.

Porém, por trás de tudo, precisamos seguir estudando o que vem por aí para podermos nos preparar para agir da melhor forma possível. Não será nada fácil e os ataques se intensificarão. Como já tratei antes, o exemplo de outros países com governos que seguem uma linha parecida deve nos servir como experiência para a nossa própria condução.

Uma outra questão que rendeu debate nos últimos dias foi a declaração da ministra Damares que afirmou que “meninos devem usar azul e meninas devem usar rosa”. Tal declaração da já polêmica ministra repercutiu em vários setores e até mesmo em grandes órgãos e empresas de comunicação, como a Globo.

Houve todo um tipo de reações críticas por parte da oposição. Porém, houve também quem ache que estas questões ditas ‘morais’ não merecem maior atenção, afinal elas seriam uma suposta forma do governo de criar uma ‘cortina de fumaça’ diante de outras questões ditas ‘importantes’, como as econômicas. Eu tenho pra mim que as duas questões são fundamentais e precisam ser enfrentadas. Mas, de forma organizada e bem pensada.

A oposição, institucional ou não, precisa acelerar sua própria organização e pactuar ações minimamente alinhadas. As tais pautas ‘morais’ são importantes porque envolvem a vida, literalmente, de milhões de pessoas. Elas também são utilizadas como sustentações de um discurso de ódio que alimenta e fortalece a coalisão do lado deles. Mas as pautas econômicas também vão precisar de muita atenção. E, de certa forma, carregam em si um perigo a mais: elas unificam o lado de lá. Que nos protejamos e nos preparemos cada vez mais.

 

Via Brasil de Fato

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2018: Um ano a ser superado

Foi um ano de muitas derrotas para o povo brasileiro. Por Aristóteles Cardona Júnior

Foto: Reprodução

Olá minha gente, desta vez eu estou me dirigindo a vocês não para falar de algum novo tema ou propor algum debate. Quero apenas agradecer a companhia de todo mundo que fez este ano ficar um pouco menos pior para mim. Digo desta maneira porque foi um ano de muitas derrotas para o povo brasileiro. As maiores delas são sem dúvida a prisão política e injusta de Lula e a vitória de Bolsonaro para a presidência da República. Estes dois fatos representam muito do espaço que a direita conservadora ganhou na sociedade como um todo.

Esta é uma realidade que não está acontecendo apenas por aqui não. Tivemos a oportunidade de falar um pouco sobre isso ao longo do ano. Falamos de governos como o de Donald Trump, presidente dos EUA, que é um verdadeiro desastre, assim como de movimentos de extrema-direita e de ideologia fascista que avançam em outros locais também.

Junto a este avanço da direita na sociedade, queria destacar também que foi o ano das chamadas Fake News, que é o nome dado a estas notícias falsas que se espalham como verdades de tal forma e com tanta rapidez que é muito difícil combater. Acho que nunca falei tanto de um tema como este. Especialmente porque além do desastre que é para a política, sinto os impactos na área da saúde. Por isso que se torna tão importante e tão especial a manutenção e o fortalecimento de espaços de produção de comunicação popular, trabalhando de forma tão empenhada na produção de conteúdo de qualidade para nós, para o nosso povo.

Como disse, ter a oportunidade de contribuir tanto com o jornal impresso quanto o programa de rádio me fez ter mais forças para passar este ano. Que tenhamos muita energia para enfrentar todo o tipo de dificuldade que aparecerá em 2019. Mas que estejamos juntos e juntas. Estar próximo de quem nos faz bem é tão importante quanto a própria luta.

* Aristóteles Cardona Júnior é Médico de Família no Sertão pernambucano, Professor da Univasf e militante da Frente Brasil Popular de Pernambuco.

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Dessalinizar os cérebros

O Brasil já tem o conhecimento e as técnicas para resolver todos os problemas do Semiárido. Bastaria continuar implantando os programas de Convivência com o Semiárido e, se necessário, criar outros. Portanto, é uma questão política. Mas, parece ser mais fácil dessalinizar toda água do mar que certos cérebros que estão no comando desse país. * Por Roberto Malvezzi (Gogó)

Foto: Asa Brasil

A técnica de dessalinização em pequenas unidades está espalhada pelo Semiárido Brasileiro. Marina Silva, quando ministra do Meio Ambiente do governo Lula, criou o programa “Água Doce”, exatamente utilizando essa técnica.

A dessalinização é complicada porque gera de 40% a 60% de rejeitos altamente salinizados que é de difícil descarte. Uma das possiblidades utilizadas pelos técnicos brasileiros foi o reaproveitamento como alimento de plantas e animais. Em muitos lugares a técnica funciona.

O que mudou o Semiárido Brasileiro nos últimos anos foi a captação da água de chuva em cisternas para beber e produzir. O Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e Uma Terra e Duas Águas (P1+2) replicaram mais de 1 milhão de vezes tecnologias apropriadas para essa finalidade, principalmente as cisternas de placas. Basta fazer um gráfico da implantação dessas políticas públicas, comparando-as com a elevação do IDH da região que a tendência de alta coincide com exatidão. Claro, junto vieram as políticas de energia, telefonia, internet, outras adutoras, elevação do salário mínimo, Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família. Aqui reside a política que nenhum governo anterior jamais fez.

O presidente eleito desse país diz que vai trazer a técnica de dessalinização em um programa conjunto com Israel. Os técnicos e cientistas da Embrapa Semiárido e universidades nordestinas há décadas fazem intercâmbio com Israel. Portanto, não é novidade.

Além do mais, o Semiárido Brasileiro tem 1 milhão de Km2, enquanto Israel tem pouco mais de 20 mil km2, portanto, cabem 50 Israel dentro de nosso Semiárido. Para completar, nosso Semiárido é o mais chuvoso do planeta com uma precipitação anual em torno de 700 mm, enquanto Israel mal chega a 100 mm anualmente. Por isso, nas últimas décadas foi desenvolvido o paradigma da “Convivência com o Semiárido”, inspirado em Celso Furtado no seu discurso inaugural da Sudene em 1959, mas tirado do papel e ganhado carne com iniciativas da sociedade civil.

Junto com a captação da água de chuva a sociedade civil nordestina defendeu a distribuição da água acumulada por adutoras simples. Prevaleceu a grande obra da Transposição, que tem problema sérios de operacionalização, impacto no rio São Francisco, mas que aumentou a oferta de água na Paraíba.

Há décadas sabemos que a seca é um fenômeno natural, assim como o gelo nas regiões frias. Não se combate a seca, mas se convive com o ambiente que é semiárido. Só os ultrapassados em conhecimento e em história ainda falam em combater a seca.

O Brasil já tem o conhecimento e as técnicas para resolver todos os problemas do Semiárido. Bastaria continuar implantando os programas de Convivência com o Semiárido e, se necessário, criar outros. Portanto, é uma questão política. Mas, parece ser mais fácil dessalinizar toda água do mar que certos cérebros que estão no comando desse país.

Por Roberto Malvezzi (Gogó).

https://robertomalvezzi.com.br

Notícias

O que vão nos esconder sobre o Mais Médicos

Terminaremos na realidade com os mesmos médicos. Por Aristóteles Cardona Júnior

“Quase todo o discurso que foi construído contra o Programa Mais Médicos foi baseado em mentiras e fake news” / Araquém Alcântara

O ano se aproxima do seu final, mas os problemas na saúde pública brasileira estão bem longe de serem solucionados. Na realidade, de forma inexplicável, parece que não estão muito preocupados com esta questão. Bolsonaro, em primeiro lugar, por ter sido responsável pela saída dos médicos cubanos do Brasil. E o atual governo por ter lançado um edital às pressas e pouco compromissado com uma ocupação efetiva das vagas.

Na realidade, quase todo o discurso que foi construído contra o Programa Mais Médicos foi baseado em mentiras e fake news. Inventaram de tudo e sobre tudo. Desde falsas notícias sobre a formação médica em Cuba, reconhecida mundialmente, até sobre os motivos e razões para a saída dos cubanos do Programa. Nunca é demais reforçar que o fim da cooperação cubana se deu por todas as ameaças feitas pelo futuro presidente Bolsonaro. E se tem algo que sobra em Cuba, é a dignidade daquele povo que não esperou a expulsão para se retirar do Brasil.

Com a saída dos cubanos, o atual governo anunciou um edital extraordinário para ocupação das vagas em todo o país. Mas diferente de outros editais, especialmente os que saíram ainda no governo de Dilma, o atual governo não teve a mínima preocupação em estabelecer critérios de seleção ou de proteção para os municípios. O resultado disso é que houve uma verdadeira caça às vagas por parte dos médicos, mas sem critérios que impedissem a criação de um vazio assistencial.

O melhor exemplo para explicar ao que me refiro é o que acaba de acontecer em Petrolina-PE e Juazeiro-BA, cidades vizinhas e separadas apenas pelo Rio São Francisco. As duas cidades juntas contavam, até agora, com 4 profissionais cubanos. Com o novo edital, as 4 vagas foram preenchidas por médicos do Brasil. Porém, por conta do mesmo edital, outros 15 médicos deixaram os dois municípios. E aí está a grande farsa: no total, divulgarão, para o caso em questão, que foram 19 novas vagas ocupadas. Mas não passará de um grande engodo. Como disse um amigo, terminaremos na realidade com os mesmos médicos. Em alguns casos, como o nosso, com menos médicos.

Quero deixar claro que toda a crítica não é direcionada aos médicos e às médicas que buscam o que acreditam ser melhor para suas vidas. Ainda faltam alguns dias e espero sinceramente que o máximo de vagas sejam ocupadas. Mas espero também que não insistam em nos enganar. Precisarão de muito mais do que bravatas e dedos apontados para enfrentar os problemas de nossa população.

Aristóteles Cardona Júnior

 

 

Médico de Família no Sertão pernambucano, Professor da Univasf e militante da Frente Brasil

Popular de Pernambuco.

 

 

https://www.brasildefato.com.br

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No novembro negro um artigo para reflexão: Quem disse que a consciência não pode ser negra?

Algumas questões sobre o cotidiano e a forma como as cores são usadas para representar as relações entre pretos e brancos podem nos dizer muito sobre as desigualdades raciais e o atraso que atinge principalmente as populações afrodescendentes desse país. *Por Gilmar Santos.

Foto: Reprodução

É muito interessante quando pessoas racistas ou ignorantes criticam o “Dia da Consciência Negra” com depreciações, desdém ou preconceitos como se o movimento negro estivesse promovendo uma espécie de “racismo disfarçado”. Para essa gente seria necessário criar o “Dia da Consciência Branca”, garantindo assim uma equiparação de direitos.

Num país miscigenado, multicultural e tão desigual como o Brasil, os símbolos e representações servem tanto para demarcar posições, defender interesses ou manter privilégios. As cores vêm sempre acompanhadas de alguma explicação ou intencionalidade. Nesse sentido, pensar o Novembro Negro, o dia da Consciência Negra, é pensar na cor que representa histórias de violências, injustiças, invisibilidades contra o povo negro, mas acima de tudo, de lutas, riquezas culturais, conquistas sociais já alcançadas, assim como tantas outras ainda por alcançar.

Algumas questões sobre o cotidiano e a forma como as cores são usadas para representar as relações entre pretos e brancos podem nos dizer muito sobre as desigualdades raciais e o atraso que atinge principalmente as populações afrodescendentes desse país. Por exemplo, quando nos deparamos com expressões do tipo: “a coisa tá preta”, “lista negra”, “mercado negro”, “magia negra”, “ovelha negra”, “negra maluca”, “samba do crioulo doido”, o racista, ou quem reproduz o racismo, não se incomoda em associar a cor preta a algo ruim ou sem valor. Para essas pessoas isso é “super-normal”.

No entanto, quando pretos e pretas, resolvem utilizar a sua cor para se defenderem e até mobilizar a sociedade em busca de mais igualdade e oportunidades, os mesmos racistas ou reprodutores do racismo os acusam de serem incoerentes, segregadores, oportunistas ou “vitimistas”. Daí se compreende que a cor do racista é cor da conveniência daqueles que temem perder privilégios. Para esses o despertar da consciência do negro, a força da sua mobilização, é motivo para escândalo. Racistas odeiam ver o nosso povo ocupando lugares que até então eram ocupados apenas por brancos — já que é necessário manter as coisas como sempre quiseram: negro nasceu para servir, branco nasceu para ser servido.

Ao considerarmos a cor predominante sobre determinadas situações, cabe perguntar:  qual é a cor da população carcerária no Brasil? Qual é a cor dos cursos de medicina, engenharia civil, direito? Qual é a cor das empregadas domésticas? Qual é a cor dos que ocupam a direção das empresas milionárias desse país? Qual é a cor do extermínio de jovens nas periferias?  Qual é a cor do padrão de beleza? Qual é a cor dos catadores de uva e manga que saem do João de Deus, José e Maria e tantas outras comunidades de Petrolina, e vão para as fazendas de fruticultura do Vale do São Francisco? Qual é a cor dos seus patrões?

Quando se leva em conta as grandes fortunas, o luxo, as regalias, o sucesso, a realização pessoal e profissional, a cor, geralmente, é branca, na maior parte do ano. Quando se leva em conta a dureza da vida, a ralação, os corres, o serviço pesado, o sufoco, a humilhação, a cor, geralmente, é preta, na maior parte do ano. Como é possível, diante de tamanha desigualdade que pretos e pretas não possam reivindicar ao menos um mês para lembrar a essa sociedade o quanto de injustiças são cometidas contra o povo negro ao longo de mais de quatro séculos? Como não tirar ao menos um mês para lembrar da importância das suas lutas para o desenvolvimento da nação?

Só racista convicto ou gente muito ignorante não consegue compreender que enquanto a maior parte da população, composta por pretos e pardos, continuar excluída de direitos e violada na sua dignidade esse país será somente o país do atraso. É contra tudo isso que lutamos no dia de hoje e lutaremos todos os dias, até o dia em que não presenciemos mais violências raciais. Essa luta começou com os nossos antepassados, há mais de 400 anos. Portanto, ter consciência negra é ter consciência da luta por um país mais justo.

Viva Dandara! Viva Zumbi! Viva Marielle Franco! Viva mestre Moa do Katendê! Viva a resistência do Povo Negro!

 

Gilmar Santos – Professor de História e vereador na Câmara Municipal de Petrolina