Ciência & Sertão

Como será o amanhã da ciência no Brasil?

‘Está claro que o problema de nosso país não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de prioridade no investimento do dinheiro. A ciência definha e morre por um teto orçamentário e uma PEC de conveniência. É inaceitável que a comunidade científica e a sociedade permaneçam inertes.’ Por Helinando P. de Oliveira

O corte de 44% no orçamento federal para a ciência (anunciado desde o início de 2017) foi comparado a uma grande bomba atômica jogada nos laboratórios de pesquisa no país, com consequências até então pouco imaginadas pela própria comunidade acadêmica. O corte de 2,2 bilhões de reais remeteu o total de investimentos ao menor orçamento dos últimos 12 anos, como pode ser visto no infográfico apresentado abaixo.

 

O orçamento de 3,3 bilhões de reais remonta o total de recursos disponíveis em 2005. Para simplicidade de comparação, façamos tal qual o governo e imaginemos que a economia de um país possa ser resumida à economia doméstica (uma comparação inaceitável e chocante). Usando este minimalismo, se o MCTIC fosse um pai de família que ganhasse um salário mínimo em 2005, ele estaria agora sendo obrigado a reduzir sua renda dos atuais 937 reais (atual salário mínimo) para míseros 300 reais (salário mínimo em 2005). Com o crescimento no número de doutores, universidades e centros de pesquisas no país é óbvio que este corte representa o fim do investimento público em ciência e tecnologia. O orçamento do CNPq, previsto para 2017 foi reduzido de 1,3 bilhão de reais para 730 milhões. É claro com que esta medida o teto orçamentário seria atingido antes do final do ano. Como esperado, uma grande inquietação foi observada pelo meio acadêmico quando foi anunciada a possiblidade de não-pagamento das bolsas a partir de setembro. O argumento inaceitável para a destruição dos fundos de ciência e tecnologia do país é a necessidade de um pacote de ajustes para barrar o déficit fiscal no país. E da redução de 42 bilhões do orçamento federal, a restrição de 2,2 bilhões de reais veio da ciência e tecnologia. Para manter as contas do país, o governo decidiu fechar a sua fábrica de produção de conhecimento. Sem dinheiro, sem ciência.

No entanto, na câmara de deputados, o teto orçamentário parece ter um pé direito mais alto. Cada deputado pode apresentar até 25 emendas individuais. Apenas no mês de junho, o governo empenhou 1,8 bilhão de reais em emendas enquanto que o valor esperado para todo o ano chega ao patamar de 6,3 bilhões!!!

Está claro que o problema de nosso país não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de prioridade no investimento do dinheiro. A ciência definha e morre por um teto orçamentário e uma PEC de conveniência. É inaceitável que a comunidade científica e a sociedade permaneçam inertes. A primeira marcha pela ciência levou cientistas às ruas, mas não foi suficiente para estabelecer um clamor da sociedade por um bem tão raro quanto a sua capacidade de produzir conhecimento.

O amanhã pode encontrar um país sem ciência, sem cientistas, mergulhado em suas mazelas, sem esperanças…

Antes deste amanhecer de caos e desesperança, ainda temos tempo para salvar este bem tão precioso. Depende de todos nós.

No próximo dia 14 de setembro às 16 horas ocorrerá uma mesa redonda na Univasf – Campus Petrolina com o tema: Como será o amanhã da ciência no Brasil?

Venha, participe!!!

Deixe sua contribuição antes que seja tarde demais.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.