Ciência & Sertão

A escravidão e o conhecimento

‘Todas estas mãos constroem o mesmo planeta, a mesma casa’. Por Helinando P. de Oliveira

As mãos que manipulam o lápis são as que fazem a lei

As mãos pintadas de pó de carvão manejam o machado e fazem o papel

As mãos que escrevem são aquelas que podem buscar soluções para o planeta

As mãos calejadas que trabalham incessantemente buscam alimento, esperança

As mãos limpas que digitam no teclado sem fio podem resolver os problemas dos que não tiveram oportunidade de escrever

Mas preferem outras mãos propor por ironia ou insensatez que todas as mãos sejam consideradas iguais

Para tanto, bastaria olhar para os pés, estejam eles calçados ou não, sejam eles rachados ou não

As mãos do poder decidiram: todas as mãos são iguais desde que os pés não estejam amarrados

Não importa se as mãos têm acesso ao caviar ou a ração humana….

Está decidido: sem correntes nas pernas ninguém é escravo

Não importa qual a sua alimentação, a condição de trabalho ou de saúde

As mãos dos detentores do poder querem marcar para sempre as mãos dos sem-oportunidade

Definindo-os como iguais, por mais desiguais que sejam

Educando os seus nas melhores escolas, para garantir que as mãos dos filhos dos oprimidos permaneçam maltratadas e sem esperança

Quanta ironia…

Todas estas mãos constroem o mesmo planeta, a mesma casa

E elas ainda não perceberam que todas têm o mesmo destino

E assim decidiram as mãos do poder que para os olhos do mundo os sem oportunidade são iguais aos com oportunidade

A ração humana parece polvilho, que maravilha

Não importa o que esteja ali dentro

As mãos calejadas não têm hábitos alimentares

Não precisam lavar as mãos para comer este troço

Afinal, julgam eles, todos são não-escravos

São iguais em sua desgraça

Quem diria que as panelas que bateram outrora contra o comunismo

Aquelas que foram o fruto de uma harmonia desafinada

São as mãos que contribuíram para a sinfonia da demagogia do míope, que vê igualdade no diferente

Das mãos que julgam ser justo não dar oportunidade

Das mãos que dão o que não é seu

As mãos que destroem o futuro de diversas outras mãos que ainda não se ergueram para lutar contra as arbitrariedades dos corruptos que apagaram o futuro de um país.

Mas mãos calejadas ainda escrevem

E a esperança, assim como o pulso, ainda pulsa.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.