Contos e Crônicas

O Amor em Tempos de Cólera

“Ao descrevemos o amor em tempos de cólera é para documentar que ele nos imprime verdades nem sempre sinceras, afinal, somos o que somos porque sempre fazemos escolhas impróprias que, de forma nem sempre elegante, ressoam em ruas despedaçadas”. *Por Gênessis Naum de Farias

Aqui está descrito o que narrava um homem de estirpe lendária sobre o seu tempo, e, que pintou magistralmente o mundo que o rodeava, ao buscar respostas para as suas dúvidas metafísicas:

Eu desisto da vida, mas não desisto do amor, pois conheci o mundo e suas gentes, amei e fui amado. Nestes últimos anos vivi a margem da sedutora ascensão social e perambulei pelos eitos da vida feito um transeunte vadio, pois o sofrer que a sobrevida me forjou, foi por isso, capaz de me fazer acreditar que era preciso compreender outras proposições na relevância que me cabe na história da arte. Nestas ruas fui feliz em minhas grandes verdades. Fui planetário, elegante, eloquente, majestoso, iluminado, fragmentado, desintegrado, unificado, democrático, intolerante, amado, odiado e diferenciado. Assumo no instante presente que sou o que nunca consegui ser antes: um sonhador de palavras velhas que cansadas, pretendem parar de soletrar murmúrios tardios e, mesmo em face dos amores vividos, sinto estar velho para amar outra vez, pois o amor é mesmo um luxo caro, já dizia um poeta latino, mas também é encantador e por isso se ama para dizer e ter o que falar. É doce sentir nas palavras que o ato de amar é incontestavelmente singular. Só ama quem produz sentido, fazendo as palavras decantarem prantos, dramas, solfejarem notas, sempre insurretas e prematuramente, sofrer na intensidade do desencanto. Amar é fingir que dói; é se corroer por dentro. É, o mesmo que fingir que não dói não atingir as primícias do ato de amar. Amar nem sempre é bom, mas nos torna grandes, quando ainda somos bem pequenos para parolar sobre coisas divinas que nem sempre podemos alcançar. Quando se ama basta. Ao se perder um grande amor, perde-se de vez e se perde os rumos do norte nas canções do mar, quando em noites de lua, o seu marolar é mais intenso que as ondas do ar. O amor é fogo. Encerra-nos por dentro e nos faz destoar em pensamentos tardios, deixando-nos sem sono, sem fome, sem desejos pretensamente materiais, sem a pressa cotidiana, sem a temperança do amanhecer e, nostalgicamente, nos encanta. O encantamento das palavras ao serem afirmadas com sinceridade nos faz crer que somos maiores do que tudo e nos transporta no imaginário de alguém, fazendo lembranças se tornarem saudades redentoras. São tão complexas as causas que levam um indivíduo a amar, que ele nem mesmo sabe o porquê ama sem o contentamento do instante. Quando se ama alguém no instante antigo do desapego, tudo se faz conspiração, mas os rumores tardios, sem retoques, ampliam o acaso dos registros mais sinceros. É como ver o tempo nos adormecer com a ternura de uma criança ou nem sentir as horas que passam sem a misericórdia do controle. O relógio do tempo é mesmo o infame que nos atordoa por sofrermos ao dizer ao outro que o amamos. É um segredo revelado, porém maculado e impoluto que atinge a grandeza redentora da verdade. Já não se têm amantes como outrora, que mesmo em face de qualquer descontentamento, falam do amor com asas de mistério. Na verdade, a realidade é tão severa com quem ama, que dizer o que sente, já se tornou tão banal e impróprio, que ser verdadeiro com as palavras torna-se doloroso e penoso, pois verdades que parecem mortas, não servem para serem ditas. O amor, nestes casos, torna-se revelador a ponto de nos perguntarmos por quê escrevemos ou por quê sofremos pela verdade não revelada. O triste disso é que a humanidade se tornou enferma de si própria sem entender a ética do cuidado pessoal. Mas o dia nasce para quem ama e os primeiros dias da primavera, nascem velhos e sorumbáticos, como se não fosse a estação dos primeiros encontros, dos primeiros projetos, dos primeiros sonhos, dos primeiros olhares, das primeiras enamoradas e, por que não, dos primeiros arroubos. Quando a humanidade reaprender a amar, os dias se tornarão mais longos, as horas mais descompassadas e os passos mais lentos. O difícil é fazer esta mesma humanidade se reencontrar na amável doçura de uma certeza jeitosa, visto que sem muitos sonhos e sem muitas aspirações, caminhamos para o desfecho, sonolento, como almas tristes que não encontram paz nas coisas mais simples. Mas quem sabe minhas infindas desistências não são prematuras porque também eu nunca soube amar da forma que o concebo nos meus devaneios poéticos. Tem horas que pensamos em desistir de tudo, inclusive dos raios do sol que iluminam o dia. É quando deveremos pensar que certas incertezas servem para nos fortalecer diante das adversidades, isto porque nem sempre somos tão capazes de falar de nossas próprias fragilidades; mesmo aquelas mais recalcadas. Esse recalque que nos orienta é inaceitável e deve ser pensado assim. A vida tem se tornado intolerável porque nunca conseguimos interpretar o que deverá ser conjugado com sinceridade, e ao ser, escrito, torna-se documento. Talvez se o ato de amar alguém fosse interpretado com mais pureza, as incertezas históricas do ser humano pudessem se tornar mais explicativas. Nos velhos casarões da memória, tudo afirma uma sensação triste, porque tudo passa, inclusive a certeza de quem somos ou de quem amamos. Um dia escrevemos o nome de alguém em nosso coração e outro dia simplesmente o tiramos daquele lugar sagrado, cheio de verdades. O que não passa é a certeza de que as mais profundas horas atordoam qualquer vivente no eito dos passos lentos, nos decênios de uma cidade morta. Ao descrevemos o amor em tempos de cólera é para documentar que ele nos imprime verdades nem sempre sinceras, afinal, somos o que somos porque sempre fazemos escolhas impróprias que, de forma nem sempre elegante, ressoam em ruas despedaçadas. Mas amar é sempre bonito. Tanto para quem ama, quanto para quem é amado e, por isso suas asas de mistério são enormes e quase nunca é percebida por quem não sabe o que é o amor. Eu sempre acumulo muitas perdas porque minhas paridades são sempre intensas. Costumo sempre dizer que nos meus romances de angústia, as fatalidades são sinceras e desencontradas no isolado som da tristeza, sob a sombra distinta da partida. Vivo de dilemas infernais à espera do conforto da palavra, na toada das dores de um passado que o esteio esvoaçava no recinto dos sonhos, e, sob a visão de castelos demolidos, me reconheço sem a altivez dos profetas que a esmo se perderam nos termos da euforia. O decrepitar da timidez me consome, em clamores, vivem imersas minhas fantasias e de nostalgias, vivo preso à agonia… Mas se assim sou, como posso ao tempo de uma existência, me definir para despersonificar a essência dos contrastes que envolvem as incertezas do meu nítido silêncio de poeta? Primeiro, seria preciso dizer que sou um homem do mundo, habitado por muitos lugares e composto por uma simbologia contida de desencontros. Eis o que o tempo sempre me diz: sou no espírito deste tempo, uma esfinge de mármore… Agora, desistindo de tudo, inclusive de mim mesmo, me ponho a pensar como um doente imaginário que busca para si a extraordinária certeza da razão de que desistir de amar é como desistir de viver, na lucidez do descompasso de uma despedida distante.

*Professor e Pesquisador da Universidade Estadual do Piauí – UESPI, onde coordena o Núcleo de Estudos Foucaultiano.