Ciência & Sertão

O fim do sonho sul-americano?

‘E dentro de uma crise generalizada aquele país que sonhava compartilhar laboratórios com os membros do BRICS nem mais tem Ministério da Ciência e Tecnologia’. Por Helinando P. de Oliveira

O potencial econômico e populacional de algumas nações no início do século XXI despertou a atenção do mundo para um possível deslocamento do eixo dominante. Jim O´Neill da Goldman Sachs em 2001 publicou um artigo em que previa que Brasil, Rússia, Índia e China (resumidos no acrônimo BRIC) dominariam o mundo dadas as altas taxas de crescimento que experimentavam isoladamente.

 

E aquele texto, primeiramente teórico, que funcionava também como um alerta para o poder hegemônico mundial passou a se tornar real. O BRIC (que a partir de 2010 incorporou a África do Sul – passando a BRICS) assumiu o papel de ator político de grande envergadura em dimensões globais. A partir de reuniões de cúpula e com a definição de pautas internas e externas que visavam o desenvolvimento econômico e social do bloco, o BRICS passou a estabelecer posicionamento claro relativamente à pobreza, meio ambiente, economia e segurança.

O passo mais ambicioso e que possibilitaria maior influência do BRICS sobre instituições como o Banco Mundial e FMI foi a proposta do banco do BRICS, batizado como New Development Bank (NDB) com sede em Xangai. Com um capital inicial de US$ 50 bilhões, as ações deste banco de desenvolvimento possibilitariam investimentos nos países membros e também na correção de desequilíbrios econômicos. Em 2016 o NDB levantou uma previsão de 811 milhões de dólares em empréstimos para projetos de energia renovável, com um conceito de um banco global e não apenas um banco do BRICS. Paralelamente a isto, a China fundou um outro banco, o AIIB (Asian Infrastructure Investment Bank) focado no desenvolvimento de países asiáticos e que já conta com 57 parceiros – incluindo o Brasil. Do conceito fundamental, o NDB , por estatuto, estabelece a premissa de um poder de voto de pelo menos 80% de países emergentes e em desenvolvimento, mantendo-se ainda como contraponto ao Banco Mundial.

Além da questão econômica, um aspecto de extrema importância a ser enaltecido no BRICS (e que não teve a devida atenção de opinião pública) se deu com a pauta conjunta de financiamento à pesquisa. As metas de desenvolvimento econômico e social precisariam estar conectadas a melhores índices de produção científica e inovação tecnológica nos países membros.

Na Declaração da Cidade do Cabo, assinada em 2014, cinco áreas temáticas foram assumidas como prioritárias para o BRICS:

  • Mudanças climáticas e prevenção de desastres naturais
  • Recursos hídricos e ecologia
  • Tecnologia aeroespacial
  • Astronomia
  • Energias alternativas e renováveis

Cada nação (de acordo com sua reconhecida competência) assumiu um eixo específico com o objetivo inicial de expandir colaborações conjuntas dos membros do BRICS a partir de missões científicas e uso compartilhado de laboratórios. Para termos uma ideia, naquele momento, apenas a China contava com 3,8 milhões de pessoas envolvidas na temática em um total de 18 parques tecnológicos de ponta. Ainda a título de ilustração, se os números anteriores não foram suficientes para demonstrar o quão gigante é a junção destes gigantes, cinco das nove copas do mundo/ olimpíadas foram ou serão realizadas no BRICS.

No entanto, como esperado, o império atacaria preventivamente. Sem sombra de duvidas haveria resistência contra o estabelecimento de um novo bloco extremamente forte. E foram os problemas internos de cada membro do BRICS que serviram de combustível para obstrução do caminho deste gigante em gestação, daquele que seria o novo eixo dominante no século XXI.

Com o discurso de combate à corrupção, a elite (apoiada pela classe média) usou o inaceitável argumento das pedaladas fiscais como uma desculpa para abalar definitivamente a jovem e frágil democracia no Brasil.

O primeiro sinal claro de fragilização do BRICS, por ironia do destino, veio da própria Goldman Sachs: aquela que outrora batizara o conceito em 2001 liquidou em 2015 um fundo que mantinha no BRICS. Esta seria a declaração de óbito emitida pelos norte-americanos?

Particularmente, a desestabilização do Brasil no BRICS se deu como uma consequência de uma das piores crises da história neste país: com uma crise econômica à vista, os detentores do poder não aceitaram compartilhar a mínima parte de seus lucros com programas sociais, inaugurando a era da convicção antipovo.

Com o discurso de combate à corrupção, a elite (apoiada pela classe média) usou o inaceitável argumento das pedaladas fiscais como uma desculpa para abalar definitivamente a jovem e frágil democracia no Brasil.

E dentro de uma crise generalizada (de todos os aspectos que se possa imaginar) aquele país que sonhava compartilhar laboratórios com os membros do BRICS nem mais tem Ministério da Ciência e Tecnologia. Engolido pelo Ministério das Comunicações, o antigo MCTI convive com cortes de quase metade de seu orçamento, levando-o a operar em condições de 10 anos atrás.

Seria este o fim do sonho do gigante sul-americano?

Teria esta sido a pá de cal na participação do Brasil no BRICS?

E a ciência no Brasil, terá mesmo os dias contados?

As respostas a estas questões são complexas.

Enquanto ideal, a favor da ciência sempre versará a verdade absoluta de que sonhos não morrem e em sendo a ciência um grande sonho coletivo podemos afirmar que ela permanecerá por aí, dentro e fora das paredes das universidades, na cabeça de ricos e pobres, jovens e velhos.

Todavia, o acesso à informação, a capacidade de um povo em solucionar os seus problemas, a luta desigual contra o neoliberalismo e a escravidão moderna requer uma geração de cientistas politizados, que entendam que não ter postura é assumir o lado dos opressores. É preciso compreender que a capacidade de desvendar o misterioso universo é um direito a ser garantido para todos e que esta falácia de “elite pensante” pode e deve ser substituída por uma academia com os olhos voltados para o povo. A ciência é um direito universal. Lutemos por ela. E vida longa ao BRICS, o sonho não pode acabar.