Entrevistas

“Temos que lutar em todos os planos!”

Antônio Veronaldo fala dos 8 anos da Cia. Biruta

Cia. Biruta em 'Cenas Ribeirinhas' | foto de Rubens Henrique
Cia. Biruta em ‘Cenas Ribeirinhas’ | foto de Rubens Henrique

Oito anos poderiam ser dois mandatos de políticos que pensassem a Cultura na cidade, o que ainda não aconteceu da forma ideal, nem chegou a se cogitar. Esses oito anos que se passaram, foram anos de luta de uma companhia que vem pensando ações culturais por sua conta, investindo na comunidade enquanto espaço de efervescência e fazendo com muito pouco o que outros com o “poder” deveriam estar fazendo. Nadar contra a correnteza do Velho Chico é bem mais simples do que contra a maré de colonialismo do povo da sua margem, em todos os âmbitos, não só Cultural. Por isso, festejar quando um grupo de artistas persevera por tantos anos, é também um ato de contestação, é se mostrar presente e atuante socialmente.

A Cia. Biruta está nesse caminho, agora ainda mais voltada para as questões de sua terra, seja ela territorial ou ideológica. O Ponto Crítico bateu um papo com o diretor do grupo Antônio Veronaldo. Na conversa, questões sobre a atual cena teatral de Petrolina e suas políticas, como também o que o grupo tem feito para sobreviver em meio a tempestade política atual, no Brasil.

Confira!

Ponto Crítico: Observando essa história de 8 anos e o processo de construção enquanto grupo, você arrisca a definir quem é a Cia. Biruta hoje e qual a diferença desse momento?

 

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O diretor Antônio Veronaldo | foto do Arquivo Pessoal

AV: Eu diria que nesse momento a Cia Biruta é um grupo regido pelas forças femininas e das águas do Rio São Francisco. Digo isso por ter comigo duas companheiras de palco e vida, as atrizes Cris Crispim e Juliene Moura, que ajudaram a construir a nossa história até aqui, e falo do rio porque nós somos ribeirinhos e cada vez mais nos identificamos nessa ribeira com nosso povo e suas histórias e mistérios. Compreendemos que no início da Biruta o grupo estava na busca de fazer teatro em um âmbito mais tradicional, com textos clássicos nacionais ou não, em um palco italiano, porque as necessidades eram outras. Hoje, a partir das novas perspectivas que vem se construindo com os anos, ampliamos o que podemos chamar de território estético/poético, dialogando com nossa cultura, agregando ao nosso fazer uma estética que nos afirme como fazedores de teatro do Sertão do São Francisco, não numa perspectiva regionalista, mas local, sem dúvida, abarcando todas as contradições que o local tiver e, ao mesmo tempo, criando pontes com os saberes da tradição teatral e de outras culturas, fazendo convergir o que se sabe para emergir nessa fricção – teorias, observações e práticas – o nós sabemos e assim entender nossa identidade enquanto artistas de teatro.  O reflexo desse momento do grupo se mostra nas nossas últimas montagens: Chico e Flor contra os monstros na ilha do fogo e Cenas Ribeirinhas, resultado da pesquisa que realizamos nas comunidades tradicionais às margens do submédio do Rio São Francisco.

PC: Quais as estratégias que vocês buscaram para se manter ativos na cena?

AV: Creio que a melhor estratégia é criar as oportunidades onde se revele a necessidade dessa nossa matéria abstrata que é a arte. Então, de tudo que se pode fazer para estamos trabalhando com ela, fazemos. Oficinas, contar histórias, produção e trabalhos para os palcos, pesquisa…

PC: Os integrantes da companhia recentemente fizeram viagens para cursos, buscando formação. Como surge essa necessidade?

AV: Surge com a necessidade em dialogar, encontrar e se alimentar do nosso fazer, além da região, do que nos é oportunizado aqui. Como somos um grupo de teatro autoditada, o caminho que escolhemos foi encontrar alguns grupos e mestres do Brasil e fora dele para construir e alicerçar o nosso fazer teatral e, por isso, que nesses últimos anos fomos em busca desses encontros com o grupo Lume e Barracão de São Paulo, Moitará no Rio de janeiro, com Eugenio Barba e Julia Verne e, recentemente, tive a honra de participar da XV ISTA  The International School of Theatre Anthropology organizado pelo Odin da Dinamarca em Albino (Itália).

PC: Vejo que a Biruta sempre está realizando ações para além do centro da cidade, chegando em alguns momentos a manter atividades contínuas nos bairros São Gonçalo e Rio Corrente. Como o grupo tem pensando esse trabalho? Consideram um processo de formação de plateia?

AV: Nós somos um grupo de artistas que tem em sua origem a periferia, todos nós moramos nessas comunidades. Então, nada mais coerente que fazer teatro na nossa comunidade e apresentar nossos trabalhos para ela. Já fazíamos isso quando tínhamos a sede no Bairro São Gonçalo e agora continuamos com essas ações na Praça CEU das Águas, no Rio Corrente. Acredito que estamos a princípio fazendo com que o nosso povo tenha contato com o fazer artístico, já que é muito difícil alguém sair da periferia e ir ao centro vivenciar uma experiência artística, mas a partir do momento que se tem o encontro com esse fazer, acredito que se torna mais propício ele se tornar plateia e, no caso como também mantemos um núcleo que se propõe ter a experiência do fazer, é propício a se tornarem também artistas.

PC: Vocês também vem investindo na formação de novos atores com o Núcleo Biruta, parte da ocupação que fazem no CEU das Águas. Como surgiu esse espaço? Que sentido ele carrega para o trabalho de vocês?

 

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apresentação dos jovens do Núcleo Biruta | foto de Adriano Alves

AV: A ocupação do cine teatro, onde desenvolvemos nossos ensaios e laboratório, se dá em uma parceria com a Prefeitura Municipal de Petrolina que coordena esse aparelho, construído pelo Governo Federal via Ministério da Cultura. Como contrapartida a cessão do espaço para o trabalho do grupo, desenvolvemos as oficinas do Núcleo Biruta de Teatro e realizamos apresentações gratuitas, algo que fazemos com muito prazer. Como foi dito, já era feito quando mantínhamos de modo independente uma sede no bairro São Gonçalo. Através dessa experiência, matemos laços com nossa comunidade, no núcleo podemos repassar nossos conhecimentos, nossas vivencias enquanto grupo e assim cria-se também espaços para ver surgir ali novos artistas de teatro, mas é preciso que se diga que nesse diálogo também aprendemos muito com eles, eles nos ensinam também e assim vamos alimentando uns aos outros, como comunidade, enfim. Diria que o núcleo é uma parte muito importante para Cia Biruta hoje, e um filho que está sendo cuidado, cuidado para vida, sem que esqueçamos da necessidade do exercício da autonomia.

PC: Não há como separar a arte da política, quando feita de forma responsável. Como vocês estão vendo as perspectivas brasileiras e também o que pode acontecer com a produção artística?

AV: Não tem perspectiva com um governo golpista! Já era difícil com o pouco que se investia em cultura, imagina agora. Isso dificulta ainda mais os pequenos trabalhadores da Cultura. Mas, acredito que o povo e a classe artística não vão deixar esse governo insustentável e ilegítimo acabar com o pouco de reconhecimento e conquistas da cultura, em seu sentido amplo, que foram alcançados nos últimos anos. O que precisamos é estar fortes e lutar como disse o cacique Bertinho em uma conversa com o povo Truká, temos que lutar em todos os planos!

PC: Petrolina é marcada pela ausência de políticas públicas para a Cultura. Do seu ponto de vista, como está a cena local? O que seria necessário repensar?

AV: Vivemos um momento peculiar na nossa região que ainda não sabemos ao certo como ler. Uma coisa é muito clara, é que temos uma força criadora muito grande nos setores artístico-culturais, como dança contemporânea e teatro. Estão aí as últimas indicações a prêmios importantes como Janeiro de Grandes Espetáculos e circulações em âmbitos nacionais, e também na literatura e na música, com reconhecimento por parte da crítica especializada, nas artes visuais que pela universidade é um campo em pujante desenvolvimento na região e sem falar na grande força das manifestações populares mantidas pelos povos tradicionais. Porém, o poder público não vê isso como importante, a grande maioria da classe política se comporta com um olhar retrógrado sobre os artistas locais, um engano tremendo! Ao mesmo tempo nós artistas temos que fortalecer nosso discurso e ações, já que nosso fazer artístico já é reconhecido e respeitado além da região, mas isso é uma luta muito grande, porque passa pela educação e valorização de quem somos e fica difícil quando quem nos representa na câmara de vereadores e executivo se comporta ainda como colonizador, onde o que presta e merece respeito é o que vem de fora. E, enquanto classe, o que resta é se organizar e lutar, se pôr a disposição para esse processo que exige empoderamento nosso. Só quem pode pensar a cultura é quem faz! Se poderes do setor público fecham diálogo com a gente, que criemos os espaços diálogo pelo menos entre nós para pensar o futuro e mudar as coisas.

PC: O oito pode ser também o infinito. Como pensar a Biruta daqui pra frente?

público no CEU das Águas | foto de Adriano Alves
público no CEU das Águas | foto de Adriano Alves

AV: Que isso seja uma profecia! Vejo a Biruta como uma árvore de umbuzeiro que está em uma serra de frente para o rio observando o vai e vem dos barcos e nós membros somos tropeiros que precisam de sua sombra para descansar, se alimentar e chegar até o rio e seguir viagem em um desses barcos que tem que ser remados por nós. E o que tem planejado para viagem? Fazer teatro!