Opinião

“Por que você está chorando, papai?”

– Por que choramos? O que significa viver um luto? O que é morrer? Por que pessoas boas morrem? Como entender a tragédia do covid? Não vou responder, mas estou tocado por essas questões. Por Delcides Marques

Delcides Marques

– Por que choramos? O que significa viver um luto? O que é morrer? Por que pessoas boas morrem? Como entender a tragédia do covid? Não vou responder, mas estou tocado por essas questões. Esse é o tom do texto abaixo -. 

* * *

Maria Flor chegou a mim, apreensiva.

No auge de seus dois anos e sete meses,

perguntou: “Por que você está chorando, papai?”.

Ela nunca tinha me visto chorar.

E mesmo com a surpresa dela, eu precisava desabafar.

Não podia abafar aquela dor.

Sempre que se depara com o desconhecido, Flor nos questiona:

“O que é isso?”;

“Qual o nome disso?”; e

“O que está acontecendo?”.

Eu não conseguia expressar as razões de meu choro e dor.

 

Naquele momento não saberia falar de morte.

Sim, esse era o tema.

Vivemos um tempo trágico.

Mais de trezentas mil pessoas mortas.

Esse é o tempo da pandemia do novo coronavírus.

Tantas famílias foram devastadas.

Tantos entes queridos que se foram.

Mas isso estava relativamente distante.

Lamentava, mas não sentia na pele.

Até que chegou a fatídica última semana de março.

Os números se tornavam exorbitantes.

 

Uma pessoa em específico foi hospitalizada:

diagnosticada, internada, monitorada e intubada.

Isso me tirou do lugar.

Foram dias de muita apreensão.

A distância foi um agravante, mesmo no isolamento social.

Ele estava em São Paulo e eu em Pernambuco.

Meu pai foi acometido pelo vírus.

No início parecia que não seria nada demais.

Sintomas leves e corriqueiros.

Mas surgiram problemas respiratórios mais graves.

Ele foi levado ao Hospital de Santana de Parnaíba.

 

Estava com 75% do pulmão comprometido.

Ele ficou inicialmente recebendo oxigênio pela máscara.

Não foi suficiente.

Ele passou a ter crises de ansiedade, apesar da medicação.

O ambiente era completamente triste.

Muitas pessoas sofrendo próximas a ele.

E isso de alguma forma o abalou.

O passo seguinte foi a intubação.

No dia seguinte, a informação do falecimento.

Parada cardiorrespiratória.

Quanta dor envolvida nisso tudo.

 

Eu havia acabado de receber essa notícia quando Flor me pegou aos prantos.

Seu avô havia partido.

Ela não tinha noção do que isso representava.

O avô que a havia pegado no colo apenas aos três meses.

E agora não pegaria mais.

Eu chorava porque não poderia mais contemplar sua luz.

Porque Flor não se lembraria do avô.

Porque ele era um homem forte.

Era o choro da inaceitação.

Era um protesto de indignação.

Eu não admitia a notícia.

 

Havia uma ampla corrente de vibrações por ele.

Havia muita gente de fé fazendo preces.

Havia muito amor por ele envolvido.

Jamais poderia aceitar que acabasse assim.

Eu chorava por não acreditar.

Meu pai fosse vítima fatal dessa doença?

Não vou fazer elogios apenas pela convenção do momento.

Sempre repeti para todos que meu pai era um homem incrível.

Era o exemplo de ser humano.

Era a estrutura da família.

Era um sujeito de fé

 

Não era um santo, mas possuía algumas qualidades de beato:

de uma humildade maravilhosa,

de uma sensacional capacidade de servir aos outros,

de uma dedicação ímpar aos compromissos,

de uma honestidade admirável,

de um cuidado com a família digno de nota.

Tantos covardes, canalhas e pilantras por aí.

Por que meu pai?

Por que um homem dessa natureza?

Esse é o grande problema da justiça divina no mundo.

Não temos respostas definitivas.

 

E eu não queria uma resposta.

Eu queria que aquilo não tivesse acontecido.

Queria meu pai vivo, rindo, feliz.

 Queria ele, como ele era.

Ao lado de sua companheira de vida.

Com seus filhos e netos.

Com seu sonho de aposentaria.

Com sua vontade de viajar.

Mas essa doença é avassaladora, traiçoeira.

Ah, se a vacina tivesse chegado até ele

Quando parecia que as coisas se estabilizariam.

 

Veio a tragédia.

Justamente com um justo.

Resta para nós a dor imensa,

que espero que se transforme em memória perpétua.

Resta chorar a saudade,

torcendo pelo dia que a lembrança seja leve, agradável.

Resta o luto e o lamento de amor e carinho infinitos.

Ele acaba de ser enterrado como todos os mortos por covid:

sem os rituais necessário de um velório.

É o mais triste funeral: praticamente solitário.

Estou aqui, absolutamente distante fisicamente.

Mas numa conexão profunda com ele e com quem está lá.

 

Maria Flor e Antônio, seus netos, saberão quem foi ele.

Jamais deixaria se apagar suas histórias.

Ele será perpetuamente enaltecido pelo que deixou.

As fotografias, áudios e vídeos serão preservados.

Quando eles crescerem, conhecerão seu avô.

Ele estará vivo nas memórias e nesses registros.

Quero que eles amem seu avô, mesmo sem a presença física.

É a mínima homenagem que posso lhe render por todo amor.

Pelo que amor ele nos deixou.

Pelo amor que lhe retribuímos.

Nós te amamos infinitamente.