Colunas

Em 2021 precisamos lutar por um PT melhor que o de 2020

“É fundamental disputarmos, pela esquerda, as posições do Partido dos Trabalhadores, pois ele possui um papel estratégico na luta pelas transformações populares e democráticas que o país necessita”. *Por Patrick Campos

O ano de 2020 vai terminando, para a maioria das trabalhadoras e dos trabalhadores, pior do que começou. Evidente que após um ano de governo Bolsonaro, em 2019, com a aprovação da reforma da previdência e de ataques contra a educação pública, o meio ambiente e à democracia, só para citar alguns exemplos, as expectativas nunca foram muito altas. Mas 2020 certamente conseguiu superar as previsões até daqueles mais pessimistas.

Até agora mais de 191 mil brasileiros e brasileiras morreram em decorrência da covid-19 (ao menos os casos notificados) e o desastre sanitário é apenas uma das faces da moeda. Junto com ela, os país mergulhou ainda mais na crise econômica e social que tem como marca o golpe de 2016 e a implantação das políticas neoliberais como a reforma trabalhista, a lei da terceirização, a lei do teto de gastos e o congelamento dos investimentos públicos, além do desmonte das políticas sociais.

O fato é que milhões de trabalhadores e de trabalhadoras que terminaram o ano de 2019 com uma carteira assinada, estão terminando 2020 sem saber como irão pagar as contas. Milhões de trabalhadoras e de trabalhadores informais, que já tinham perdido seus empregos ao longo dos anos anteriores e que conseguiram sobreviver de alguma maneira em razão do auxílio emergencial, não contarão com nenhum auxílio em 2021.

É por isso que as perspectivas para o próximo ano são tão terríveis quanto a do atual, principalmente quando analisamos o resultado das eleições municipais e quais forças políticas começarão ou continuarão a governar a maioria da população nas cidades do país. 

Apesar da situação vivida ao longo deste e dos últimos anos, a maioria dos eleitores que compareceram às urnas em 2020 votaram em candidaturas de direita. Ou seja, foi a direita, que é diretamente responsável pela situação que vive o país, que saiu vitoriosa nas eleições, obtendo a “legitimidade das urnas” para aprofundar ainda mais as políticas neoliberais em curso.

Mas então, o que pode acontecer? Tudo, inclusive nada.

Uma opção é tudo continuar como está. A crise se aprofunda; os novos governos municipais, em sua maioria de direita, não vão promover políticas de assistência e auxílio para o povo, que estará cada dia mais pobre e o país irá rapidamente regredindo para uma condição de miséria e desemprego semelhante àquela existente na primeira metade do século passado.

Outra opção é a das coisas melhorarem momentaneamente, em decorrência de algum voo de galinha na economia que permita a direita (Bolsonaro e os demais governos locais) segurarem a onda com vistas a eleição de 2022. Mas esse cenário tem poucas probabilidades, dadas as condições reais da economia brasileira e mundial, a continuidade da pandemia e a ausência de uma campanha de vacinação.

Uma outra opção, que é a aquela que devemos agir para que ocorra, é a do país viver um novo período de mobilizações sociais. Isso também não é algo fácil de acontecer, pois tem inúmeras variáveis para considerar, como a própria continuidade da pandemia, mas se setores da classe trabalhadora entrarem em luta, pode ser aberta uma janela para algum avanço no campo da luta política que permita vitórias pela esquerda.

Mas em todos esses cenários, e até para que esse último aconteça, é preciso que a esquerda em geral e o Partido dos Trabalhadores em particular, tenham uma conduta totalmente diferente daquela que prevaleceu em 2020. Ou seja, que vá para além da atuação institucional e parlamentar.

Pela própria condição imposta pela pandemia, fora o período eleitoral, a principal arena de combate em 2020 foi o campo institucional, com prioridade para o parlamento. Isso não pode se repetir em 2021. As forças de esquerda precisam dedicar a maior parte de suas energias na organização e mobilização popular, na disputa cultural e no enfrentamento a todos os setores da direita.

Isso, evidentemente, não é uma tarefa fácil. Mas se 2020 não foi fácil e 2021 não tende a ser diferente, a opção é lutar incansavelmente.

Mas como dizem por aí: E o PT?

É fundamental disputarmos, pela esquerda, as posições do Partido dos Trabalhadores, pois ele possui um papel estratégico na luta pelas transformações populares e democráticas que o país necessita. Como as próprias eleições municipais demonstraram, sem o PT, a esquerda brasileira que tem priorizado a atuação institucional, é reduzida a quase nada de substancial. Mas mesmo com o PT, a arena institucional é absolutamente insuficiente.

Se prevalecer a atual linha política e as atuais táticas que orientam a maioria do PT e também a maioria dos demais partidos e organizações de esquerda, 2021 pode ser um ano de mais derrotas e ainda menos acumulo de forças.

Como dito, setores da classe trabalhadora podem ou não se mobilizar e entrar em luta, mas até para que esse cenário possa ocorrer ou, se caso ocorram mobilizações e lutas espontâneas sem a participação direta dos partidos e organizações, estes possam ter alguma influência, a linha política precisa ser totalmente diferente desta existente em 2020.

Infelizmente os sinais não provocam otimismo, como aqueles relativos a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A maioria da bancada dos partidos de oposição e a maioria da bancada do PT adotaram uma tática desastrosa, de se colocar na condição de ter que escolher qual setor da direita cheira menos a enxofre. Um erro imenso, que é revelador do que pode vir de 2021.

No entanto, apesar dos sinais ruins, outros bons sinais devem animar todas e todos que acreditam que a classe trabalhadora pode dar uma resposta pela esquerda. As mobilizações dos trabalhadores por aplicativos e as lutas antirracistas e das torcidas organizadas que ocorreram no Brasil entre os meses de maio e junho; os bons ventos que sopram de países vizinhos como Argentina e Bolívia; e a presença de vozes contundentes e jovens na disputa de rumos do PT como a da deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), demonstram que a luta ainda está sendo travada.

É por isso que, nesta última semana deste fatídico ano de 2020, estas e outras preocupações não devem desaparecer da cabeça daquelas e daqueles que não veem a hora de derrotarmos o governo Bolsonaro, colocarmos um fim em suas políticas e darmos um passo a diante na luta pela construção de um outro modelo de sociedade no Brasil.

Devemos torcer, mas principalmente devemos agir e dedicar todas as nossas energias para que a década que se inicia seja uma década em que os ventos da luta socialista soprem sobre todas e todos nós.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores