Ciência & Sertão

Brasil F.C.

‘Já passou da hora de exigirmos educação de qualidade em todos os níveis. E isso vale muito mais que qualquer copa do mundo, pão e festa. Vamos sair deste 7 a 1 eterno’. Por Helinando P. de Oliveira

imagem da internet

Chegamos mais uma vez a um ano de Copa do Mundo. As camisas da CBF que foram às ruas, que dançaram e pediram pelo impeachment de Dilma sairão das gavetas. As praças serão pintadas mais uma vez de verde e amarelo, bandeiras serão hasteadas nas janelas… Todos cantarão mais uma vez o hino nacional com lágrimas nos olhos…As crianças sonharão mais uma vez com um futuro de ostentação e glamour que o futebol oferece. A mágica quadrienal do amor incondicional à nação estará solta mais uma vez e permanecerá até a eliminação ou o título. Neste período seremos a pátria de chuteiras, discutiremos o futuro das próximas gerações de jogadores, sonharemos como uma nação que deu certo. E após o apito do juiz, o que dizer à nossa juventude? Vale mesmo a pena investir em uma nação de jogadores de futebol?

Um estudo realizado pela CBF em 2016 revelou que 82,4% dos jogadores em atividade no Brasil ganham menos de 1000 reais por mês. 96,08% dos jogadores ganham menos de 5000 reais! Jogadores como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo estariam da faixa dos 0,12% mais bem pagos. Por outro lado, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) demonstrou em 2014 que 75% dos mestres e doutores do país estavam empregados e que a diferença salarial devido a qualificação poderia chegar a 5,6 vezes mais que trabalhadores sem a formação correspondente. A comparação entre os dois perfis mostra que apostar exclusivamente na carreira esportiva pode ter retorno tão certo quanto a possibilidade de levar sozinho a mega sena da semana que vem. Os dados mostram que a nação precisa promover incentivo massivo em educação, cujo retorno é garantido e o impacto social extremamente relevante.

Isso não significa que nossas crianças não possam sonhar com a carreira esportiva. Elas devem sonhar! Mas isto precisa acontecer dentro das escolas! Além da paixão pelas Copas do Mundo precisamos aprender a amar também as Olimpíadas de Física, Matemática, Química e Ciências. Nossa nação precisa aproveitar seus talentos (não apenas no futebol) evitando com que eles se percam para as drogas, para a fome, para a criminalidade…

Formar jogadores pode nos encher de orgulho, porém formar cidadãos comprometidos nos enche de dignidade.

Já passou da hora de exigirmos educação de qualidade em todos os níveis. E isso vale muito mais que qualquer copa do mundo, pão e festa. Vamos sair deste 7 a 1 eterno. Ser brasileiros todo dia, e não apenas quando a TV mandar. Lutar pelos brasileiros e não apenas por nós mesmos. Ser menos brasileiros classe média de Miami e mais brasileiros da periferia. Ser menos preconceituosos e mais humanos. É isso o que desejo para 2018. Copa do mundo? Tanto faz. Precisamos mesmo é falar em reforma da previdência, violência contra as mulheres, direitos dos trabalhadores e democracia. Que tal começar agora?

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.