Ciência & Sertão

Por que a casa grande pira quando a senzala entra na Universidade?

‘Se as classes D e E estão chegando à Universidade, porque ela iria cobrar mensalidades? Seriam as classes D e E indesejadas? ‘ Por Helinando P. de Oliveira

Um estudo recente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) revelou que dois em cada três estudantes (66,19%) matriculados nas Universidades Federais Brasileiras são provenientes de famílias com renda inferior a 1320 reais (1,5 salários mínimos). E este número demonstra uma tendência de crescimento na ascensão das classes D e E às Universidades: em 2010 este percentual era de apenas 44%.

Ao mesmo tempo em que recebemos esta informação animadora temos publicado pela mídia o velho e já conhecido relatório do Banco Mundial, dizendo que para cortar gastos, o Brasil deveria acabar com a gratuidade do ensino superior…

Mas… Se as classes D e E estão chegando à Universidade, porque ela iria cobrar mensalidades? Seriam as classes D e E indesejadas?

imagem da internet

É evidente que o acesso das classes D e E ao ensino superior público se deu pela política sólida em assistência estudantil. Estes estudantes precisam de transporte, bolsa de fixação, restaurante universitário… Sim… A vida não é fácil para eles. E eles, como cidadãos brasileiros têm todo o direito de sonhar. E a Universidade Pública provê este ambiente para eles. E a Universidade Pública é a grande fábrica de transformação social que este país injusto carece. É de lá que saem os doutores filhos de faxineiros, engraxates, agricultores e ajudantes de pedreiro. E estes doutores que já sentiram a dor da fome são diferentes. É por isso que a casa grande teme tanto pela ação destes doutores.

Doutor filho de pobre entende (antes de qualquer outro) que um diploma é só uma folha de papel. Ele também sabe que da arrogância surge a humilhação. De tão humilhado pela vida, ele não segue pelas vias da arrogância acadêmica. E entende que o diploma é apenas um passaporte para transformar as vidas de outros filhos de pobres. E o resultado disto é um mundo mais justo, em que a miséria e a negligência são enfrentadas por uma comunidade que produz e transforma conhecimento em soluções. A Universidade Pública Brasileira, jovem e frágil tem em suas costas uma missão importantíssima: a de transformar a vida do povo brasileiro pelo conhecimento. E isso começa pela oportunidade: trazendo o povo para dentro de seus muros, acolhendo, estimulando, sendo gente…

As elites desejam permanecer onde sempre estiveram. E a desgraça do povo é música para seus ouvidos. O Brasil, de fato, não se livrou da cultura escravocrata. E nesta versão atual, escravos são todos os trabalhadores. De seus filhos, então, resta arrancar o último suspiro: os sonhos.

Mas o que o Brasil precisa é inundar os corredores de suas Universidades de classes D e E. E a cobrança de mensalidades, o desmonte da Universidade Pública vai na contramão de tudo isso. Somos um país tão rico e bondoso para com as empresas quando entregamos o nosso pré-sal, nossos rios, nossa energia, nossas florestas. Somos tão bondosos com nossos deputados e suas emendas milionárias. Somos tão elite nos jantares de gala, quando decidem acabar com as aposentadorias de quem não suporta mais quebrar pedras nas ruas… Somos tão injustos quando achamos que tudo o que pobre precisa é de um jantar na noite de Natal…

Mas na mais humilde casa, no mais escondido recanto do país, enquanto dorme de barriga vazia, uma criança sonha. E no seu sonho, seus pais usam roupas novas e jantam felizes. A mesa está farta: ela quase sente o sabor do pernil de porco, do queijo, do suco. Ela acorda sorrindo e pelo furo no teto vê a luz que entra no seu quarto. De joelhos ela pede a Deus que abençoe o seu dia. Coloca o caderno nas costas e sai para a Escola. Lá ela será servida com a merenda. Lá ela aprenderá matemática, português e ciências. Ela sabe que depois da escola há um outro lugar, longe dali que a espera. E é deste lugar que ela deseja sair e trazer o conforto que seus pais nunca tiveram. O Brasil não tem direito de apagar o sonho desta criança. Pois não há crise que possa justificar a morte do nosso futuro. A Universidade Pública precisa continuar sendo este ambiente inclusivo e de transformação, uma chama de esperança para o futuro de uma nação escravizada e silenciada pelas elites.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

  • Roberto Garcia

    Parabens Dr Helinando P de Oliveira ,que sua voz ecoe por todo o planeta,que os doutores dessa Republica de Bananas,e também todo meio acadêmico façam permear essa consciência de um País mais justo ,menos desigual,menos desumano,respeitando seu povo tão sofrido de séculos de escravidão.

    • Helinando Oliveira

      Isso mesmo, Roberto Garcia. A Universidade como ferramenta para construção da igualdade social. Basta de escravidão.