Espaço do Leitor

A Negação do Ser e o Extermínio dos Corpos Negros

‘… é insuportável lidar com cada cenário ao qual se configura e se dificulta pelo simples fato de ser negro. É aí que esbarramos na solidão. E esbarrar-se na solidão por ser isolado, diante de uma conjuntura tão agressiva, é avassalador. ‘ Por Emanuel Lucas*

Acho tão chique quem tem a vida sob controle. Controle de quem? É preciso encarar a vida com serenidade e com passos firmes, mas o modo que lidamos com essa realidade precisa ser afirmada ou reafirmada quando não se trata de uma vida ‘senso comum’. Afirmar que precisamos ter para ser é uma loucura que implantaram no psicológico dessa sociedade desde quando usurparam uma história que não pode nem deve ser contada. Reafirmar isso segue contrariando todas as ordens. Nós somos o que somos e quem somos pelo simples fato de decidirmos isso.

Engraçado é como as reações desencadeiam cada vez que reafirmamos nossa voz. A falta de pressa de quem não pede perdão é uma das formas de continuar a acorrentar nossas mentes, a machucar nossas almas e a limitar nossas vidas. Essas correntes estão presentes na vida de muitos irmãos e irmãs que, ao passo que tentam reinventar-se num cotidiano hostil acaba por entrar num lop infinito de não querer mais existir. Isso é extremamente perigoso. Uma vez que sabemos que são corpos negros que continuam sendo violentados e aprisionados.

Eu só serei feliz se minha vida estiver sob controle. Sob o meu controle. O tempo que gastamos tentando viver o tempo do outro é totalmente desnecessário e insignificante que parece de nada ter valido a pena. O dia ele só é completo quando você faz exatamente aquilo que você quer fazer ou tem que fazer porque precisa ser cumprido à sua medida, à sua necessidade. É certo que vivemos coletivamente e precisamos estar em comunhão e harmonia plena, porém as regras pré-estabelecidas são generalizadas ao ponto de nos desrespeitar enquanto humano, pois, em vez de nos tornar livres e fazer com que nos reconheçamos iguais, nos aliena ao ponto de nos vermos como inimigo a ser combatido. Ou no mínimo, evitado.

Isso que o poder hegemônico social faz com nossos corpos negros, com nossas vidas negras e com nossas almas em chamas é nada mais que simplificar nossa existência ao sublugar. Quando menos espera você não consegue mais ter força para encarar à Universidade, porque ela já se tornou um lugar óbvio onde o espistemicídio toma conta e se reafirmar nesse espaço se torna cansativo, porque parece que preto e índio não produzem conhecimento. Preparar uma aula é quase que um martírio, pois eis que em tempos de austeridade, denunciar o colonizador é ter se tornado um doutrinador; esquecem dos enfrentamentos diários e dos desdobramentos cotidianos que o educador passa para ocupar e reinventar-se diante da precarização do ensino básico; um desmonte. E não bastasse isso, ainda tem o fato de que para se chegar a algum lugar, o sujeito precisa de uma forragem no estômago para dar conta de manter-se ao menos em pé. Aí é onde entra o feijão e arroz que nem de longe é o suficiente para continuar a ser forte. Ser forte, né? Afinal, negro é forte, negro aguenta.

Contudo, é insuportável lidar com cada cenário ao qual se configura e se dificulta pelo simples fato de ser negro. É aí que esbarramos na solidão. E esbarrar-se na solidão por ser isolado, diante de uma conjuntura tão agressiva, é avassalador. Destrói tua mínima vontade de descer as escadas, atravessar a rua e comprar o pão. Viver num contexto que ao abrir qualquer rede social você é engolido por notícias que atravessam o estômago, é nocauteado por mensagens infames de ódio e tantas coisas desnecessárias, é viver no lugar para onde se atiram as coisas inúteis. É viver no ócio onde não se cria nada. É não ter vontade de sair da cama. Sim. Nem sempre tenho força para levantar da cama. Um ser vegetativo. Tenho vegetado diante do âmago.

Parece que a gente não acredita mais nos nossos sonhos. Fizeram até isso conosco. Olhe ao seu redor. Basta olhar. Os sonhos que estamos lutando são os sonhos que querem que nós sonhemos. Não tenho sonhos de uma grandeza baseada na exploração e na opressão. Meus sonhos não são melhores que eu. Somos proporcionais à medida que nos realizamos. Eu sou o que eu penso, o que eu falo e o que eu sinto. Eu sinto muito.

Eu sinto muito por não dar conta da vida. Eu sinto muito por não conseguir fazer mais porque me sinto acorrentado pelos silêncios da hegemonia dominante que ecoam na minha mente e provocam uma grande inflamação do labirinto e que se transforma numa erosão crônica da mucosa estomacal. Sinto muito por não corresponder a uma expectativa que não sou obrigado e que me fora imposta. Sinto muito por você não ter conseguido que eu ficasse prostrado em estado vegetativo pra sempre. Porque a cada vez que sou enterrado, eu germino. Sou semente, viva. Eu sinto muito!

Um banho de mar seria pedir muito para limpar a alma e revigorar as forças?

Como um filho que ainda falta muito pra ser bom, mas que tem grande e singelo respeito às águas, cabe a mim somente agradecer a cada encontro Oxum, que me apanha no colo e recebe meu pranto. Aqui, sou apenas riacho que corre pro rio. Mas, ainda bem que nos encontramos no mar. E no mar da vida é preciso estar atento às nuances que se desenrolam a partir dos pequenos gestos praticados, das acolhidas recebidas e dos afetos distribuídos em cada passo dado. Dito isso, é preciso manifestar enfaticamente o exercício da escuta e da nossa ação cotidiana.

Escutar a tua consciência e apresentar-se diante de um espelho no qual é necessário se olhar diante de uma perspectiva de fuga, de não se fazer mais presente no cotidiano que não é seu e que não lhe pertence. Escutar tua consciência é despertar-se para ouvir aqueles e aquelas que suspiram em nossos ouvidos a voz da sabedoria, ensinamentos e caminhadas. E pasmem, não há um caminho específico a seguir. O caminho se faz caminhando. Escutar os mais velhos e as mais velhas. Escutar é tão importante, que quando a voz da matriarca preta lhe afaga diante do desespero ou te dá uma pagação quando necessário. Escutar e saber receber as críticas da sua mãe, do seu pai, e da sua irmã, e continuar amando-as incondicionalmente. Escutar os mais novos também é importante para se perceber inocente e de coração puro, mesmo quando tudo está tão depravado. Os caminhos que percorremos dizem exatamente quem fomos, porém não define quem somos. A nossa ação é o nosso caminhar.

É preciso não ter medo da escuridão. ~ não tenha medo, medo, medo, medo da escuridão. nem tudo que é negro, negro, negro, remete à escravidão. ..nem tudo que é preto, preto, preto, remete ao medo não. ~ Na escuridão o sujeito se forja a ser luz. Luz que ilumina o seu próprio caminhar. E ainda assim, seja luz na escuridão.

Eu queria me alongar falando da importância de cada pessoa apresentada no cotidiano e o quanto essa presença desperta um encorajamento de continuar mesmo não sabendo “como”, mas a verdade é que eu não fazia a mínima ideia de como começar uma escrita que tenta externar cada angústia e toda eloqüência dentro de uma lógica sapiente, contudo, sei que o que foi dito até aqui será muito bem compreendido (ou não, sua cabeça seu guia) por aquelas pessoas que sentem e vivem especificidades parecidas, e sei que por ora, o tempo será dedicado a caminhar. Caindo. Levantando. Seguindo.

Por fim, o que fica então é o registro – que traz consigo uma ampla conexão com outras realidades, estruturas, e atenuantes – e o convite, que há tempos vem me sendo feito, a ouvir, caminhar, e escrever.

Escrevamos juntas nossas reinvenções cotidianas!

* Emanuel Lucas é Educador Popular e Estudante de História na UPE