Notícias

Balanço: a combinação fatal que levou o Brasil ao pior momento da pandemia

Minimização dos riscos, má gestão política e abandono de medidas de proteção fazem país acumular mais de 250 mil mortes

Sepultamento de indígenas em Manaus (AM), cidade que está hoje na “fase vermelha” da pandemia; o estado, Amazonas, teve 1.572 novos casos de covid entre quinta (25) e sexta (26) e 56 mortes – Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real

O Brasil completou, nesta semana, um ano de pandemia, ao mesmo tempo em que ultrapassou a trágica marca dos mais de 250 mil mortos pela covid-19, atingida na última quarta (24). Enquanto os números de infecções e óbitos se multiplicam numa proporção geométrica, o país acumula, ao final deste período, uma série de outros problemas que se somam à estatística dos mais de 10,3 milhões de contaminados.

Covid na semana

O conjunto envolve, por exemplo, carência de leitos de UTI em diferentes estados, falta de vacina para sair do ritmo lento de imunização – apenas 3% da população foram vacinados – e dificuldade de manutenção massiva dos hábitos de prevenção. 

Nas últimas terça (23) e quarta (24), por exemplo, a taxa de isolamento social teve média de 32%. É o menor índice já registrado em um mesmo dia desde meados de março de 2020, quando a pandemia começou a se alastrar. Mensurado a partir da localização de GPS de 60 milhões de celulares no país, o dado é da startup In Loco.

Pensado a partir de referenciais sanitários e científicos, o isolamento social é considerado medida fundamental para a contenção do vírus. A médica de família Nathalia Neiva Santos, da Rede de Médicas e Médicos Populares, explica que o abandono desse hábito pode ser considerado fatal.

“Quanto mais pessoas circulando, maior é a transmissão desse vírus, e maior também é a possibilidade, como a gente tem visto, de se ter novas variantes, porque o vírus muda com muita frequência. É um vírus com grande capacidade de adaptação ao meio”.

Como consequência da baixa taxa de isolamento, a transmissão da covid no Brasil também chama a atenção. Segundo boletim do Imperial College, no Reino Unido, o índice estava em 1,02, o que significa que 100 pessoas contaminadas transmitem a doença para 102 pessoas que ainda não têm o vírus.

A marca vem combinada com uma série de outros elementos que circundam o cenário da pandemia no país. Já são, por exemplo, 37 dias consecutivos com número diário de óbitos acima de mil. É o intervalo mais longo com essa característica desde a chegada do novo coronavírus. O recorde anterior havia sido alcançado entre julho e agosto, quando o Brasil viveu 31 dias seguidos dentro desse patamar de mortes. 

Com ritmo lento de imunização contra a covid, Brasil completa um ano de pandemia tendo imunizado apenas 3% da população / Rovena Rosa/Agência Brasil

Paralelamente, gestores estaduais e municipais retornam à prática do lockdown ou de medidas semelhantes, ao mesmo tempo em que convivem com a realidade do governo federal, com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) incentivando aglomerações e fazendo apelos permanentes pelo fim das medidas restritivas.

“É uma rede de fatores que interferiram pra gente chegar nesta má gestão da pandemia, que é uma das piores do mundo. A gente sabe que o sistema de saúde vinha passando por um processo crônico de desfinanciamento, com redução de leitos de UTI, e a gente chega neste momento em que não tem leito para todos”, ressalta Nathalia Neiva Santos.

A menção da médica encontra referência nos números. Em 2019, por exemplo, primeiro ano da gestão Bolsonaro e ano anterior ao da pandemia, a área da saúde perdeu R$ 20 bilhões. A redução é consequência direta do Teto de Gastos, aprovado em 2016 com previsão de enxugamento das despesas sociais durante 20 anos.

Com um ano da chegada do novo coronavírus ao território nacional, Brasil acumula mais 10,3 milhões de casos de contaminação pela covid-19 / Itamar Crispim/Fiocruz

A política vem sendo mantida pela gestão Bolsonaro, que, em novembro de 2020, nove meses depois da chegada oficial do coronavírus ao país, não havia executado cerca de R$ 5,6 bilhões previstos para a contenção da pandemia naquele ano. A denúncia partiu do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que vem fazendo seguidos alertas e pedindo a queda do ajuste fiscal.

“Por isso o que a gente precisa neste momento é aumentar os investimentos em saúde. São varias estruturas que precisam receber mais recursos como medicações eficazes, sedativos, que estão em falta, etc. Sem esses recursos, se fortalece ainda mais o caos”, afirma Nathalia Santos.

O Brasil no mundo

Ao final desta jornada de um ano da pandemia em terras nacionais, a médica compara ainda a situação do Brasil com a do mundo. Uma pesquisa do Lowy Institute, da Austrália, apontou o país como o pior em termos de gestão da pandemia. A conclusão vem após a análise de seis critérios, como número de infecções e mortes e capacidade de contenção do vírus. Ao todo, o levantamento estudou a situação de quase 100 países.

Para a profissional da Rede de Médicas e Médicos Populares, é inevitável falar do comportamento do presidente da República e seus aliados. Ela destaca a minimização da pandemia, o desestímulo às medidas de proteção, a falta de um lockdown federal e ainda os conflitos entre Bolsonaro e governadores por conta das divergências sobre as medidas de contenção.

“O que chama mais atenção não é nem como não se operou um sistema de saúde pra conduzir a pandemia, mas como o comportamento de determinados gestores foi muito mais favorável à explosão dos casos e da má condução. Isso chama atenção porque é [algo] do nível de responsabilidades, de crime mesmo”.

https://www.brasildefato.com.br/