Ciência & Sertão

Privatizando: mode on

‘A privatização da Eletrobrás, dos portos e aeroportos, Casa da Moeda, Universidades e tudo mais que for estatal é, na proporção certa, uma entrega dos nossos bens a terceiros.’ Por Helinando P. de Oliveira

Era uma vez um jovem chamado Joaquim. Seu pai deixou como herança um pequeno sítio, carinhosamente chamado Brasil. Pelo sítio corria um riacho de águas limpas, havia uma horta muito bem cuidada e um galinheiro que supria de ovos e carne a família do Joaquim. No entanto, a monotonia da lida com o campo desagradava o jovem, que resolveu ouvir os conselhos dos amigos do bar e vendeu o galinheiro. Com o que recebeu poderia comprar as galinhas e os ovos que necessitasse para alimentar os filhos. Além disto, ainda teria a vantagem de não mais cuidar dos animais, entregando-os nas mãos de uma empresa experiente que saberia fazer todo o manejo de uma forma muito mais eficiente. E as galinhas caipiras de Joaquim passaram a tomar hormônios e ficarem mais gordas e caras. Pouco tempo após o negócio Joaquim já estava sem dinheiro, pois nem só de ovos e galinha vive o homem. Para tentar recuperar o prejuízo do negócio mal feito ele resolveu fazer o mesmo com sua horta. Repassou a outra empresa que passou a fertilizar seu terreno e produzir tomates quatro vezes maiores. Só que desta vez Joaquim foi mais inteligente: colocou todo o seu dinheiro em fundos de investimento e passou a viver dos juros. No entanto, seus filhos cresceram e precisavam de mais dinheiro para estudar na Universidade. E as finanças do Joaquim quebraram mais uma vez. Nada mais lembrava o pedaço de paraíso onde Joaquim nasceu. As empresas continuaram a produzir e até o tomate que crescia em sua janela não mais entrava em sua casa. Restou ao Joaquim, agora alcóolatra, vender o seu último bem. A sede do sítio, casa levantada pelas mãos dos avós era tudo o que restava para a família. As empresas ofereceram um bom valor pela casa, que seria demolida para construção de um novo galpão, para criação de suínos. E foi assim que Joaquim, a esposa e os filhos saíram pela porteira dos fundos do Brasil. Estava encerrado o sonho que outrora o trouxe àquele terreno fértil. Hoje vivem em um barraco de madeira de uma invasão que foi iniciada às margens de uma rodovia federal. Joaquim não tem dinheiro, seus filhos largaram a Universidade e toda a renda da família vem de quentinhas que são preparadas diariamente por ele mesmo. Em sua porta está instalado um quadro sobre o qual está escrito com giz: feijão, arroz, salada e bife ao molho – apenas 10 reais. Desde a semana passada o frango assado saiu do cardápio, pois o preço acabava com o mísero lucro das marmitas de Joaquim.

E assim segue a vida deste brasileiro que decidiu promover no âmbito familiar o que o governo está a fazer com toda a nação.

A privatização da Eletrobrás, dos portos e aeroportos, Casa da Moeda, Universidades e tudo mais que for estatal é, na proporção certa, uma entrega dos nossos bens a terceiros. Ao final, quando nada mais restar, teremos a opção única de sair pela porta dos fundos, como fez Joaquim e sua família.

A propaganda que passa aos brasileiros a noção de que estatal é obra de interesses políticos, corrupção e mal desempenho é a mesma que apaga os bilhões de dólares cedidos em perdão do governo para as empresas privadas.

Se as empresas privadas são bem mais eficientes, porque precisam figurar nas listas de inadimplência do governo?

Ou será que a adimplência para com os impostos é premissa para os pobres? Como admitir um governo que anseia pela desoneração de órgãos públicos enquanto trabalha pela elevação na carga tributária?

Lembre-se, a eficiência nas empresas que se apoderam de órgãos públicos é medida pelo lucro que estas retornam aos seus proprietários. Que o brasileiro não seja o primeiro povo a comemorar lucro de hospitais privados enquanto morre na porta dos hospitais públicos.

Que o brasileiro não seja o povo calado que assiste o entreguismo desmedido que estamos vivendo, pois já dizia Martin Luther King “O que me preocupa não é o grito dos maus mas sim o silêncio dos bons”.

É passado o tempo das panelas e do ódio. É chegado o momento de convencer Joaquim de que ele pode ser muito mais que vendedor de quentinhas. Não precisamos conviver eternamente com o complexo de vira-lata. Posso vestir vermelho, amarelo, roxo ou verde, colocar a bandeira do Brasil nas costas e gritar: Isto é meu!

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.