Contos e Crônicas

Romanceiro do Sertão Profundo ou O Inventário das Notas de Cavalaria nos Tempos da Escravidão

“Seu contexto resenha fatos de um tempo perdido e se mostra determinante para expressar a solidão do mundo, até chegar ao destino pretendido. É o lugar onde habita os desassossegos existenciais”. *Por Gênesis Naum de Farias

Joaquim Argos é um personagem transgressor que subverte a ideia de um sertão caricaturado pelo discurso gutural dos romanceiros. Ele recorre aos recursos da memória para expandir suas fronteiras, suas desforras, seus dilemas e conflitos. Sua alma é tão inventiva que consegue transpor seu destino e avançar pelo sertão adentro até alcançar o Arraial da sua infância. Nesta caminhada, sente a necessidade de comunicar sua experiência, quando essa orientação, quase profética, é feita por outra personagem ao adverti-lo de que a ele seria dada a responsabilidade de ser o portador da boa nova, e este foi o procedimento, embora se perceba que já há muito vinha fazendo esse papel sem mesmo tomar consciência da façanha de pensar que um dia descreveria os descontentamentos da sua própria saga.

É neste período que o solitário caminhante percorre o seu estradar para se descobrir na dualidade de outras Cruzadas. O fidalgo desta trama é um reformador argentário que não desanima diante das dificuldades, mas olha-as nos olhos, supera-as e vai em frente, sem medo. Possuí dentro de si uma impetuosidade rara, qualidade dos homens de uma época que a qualquer tempo se impõe, fixando seu pensamento no relevo do seu próprio entusiasmo para não se ver perdido diante do esquecimento.

O romanceiro sobre o sertão, em geral, faz parte de uma tradição oral que se desenvolveu para o aspecto folhetinesco e foi se revelando no seu processo de amadurecimento para formalizar uma literatura digna da mais humana psicologia. Joaquim Argos, neste aspecto, tece de forma convicta uma espiritualidade extremamente ativa ao seguir a arte dos caminhos como se pressentisse o fim próximo para um desfecho assustador, ao projetar-se numa fantástica revelação mística, empreendida pela ecologia da paisagem num novelo de anseios e novos enleios.

Essa é uma odisseia que revela as muitas evidências da força imaginativa e o poder da compreensão do ser humano sobre os seus próprios achados no seu desterro interior, ao impelir descobertas e desagravos. A imagem do Arraial do Sertão Profundo não é estática, mas dinâmica. Seu contexto resenha fatos de um tempo perdido e se mostra determinante para expressar a solidão do mundo, até chegar ao destino pretendido. É o lugar onde habita os desassossegos existenciais.

Nesta viagem literária pelos Sertões de Dentro, a aposta é feita pela narrativa secular e carreia tudo para o vão cego da imensidão, ao criar uma imagem sugestiva, sociológica e antropológica para documentar as possíveis crenças no humano, demasiadamente desejável. Para Joaquim Argos, o portal é o próprio sertão em que ele se aprofundará, não um sertão estigmatizado pela seca, feio, pobre e até mesmo decadente, mas um sertão íntimo, estando muitas vezes desolado, esquecido, fragmentado.

Esse passeio pelos sertões profundos não pode ser feito sem um guia, pois a proposta é navegar pelo Brasil colonial, onde os aspectos econômicos e sociais são importantíssimos. Por isso, o uso frequente de notas de rodapé que ajudam na descoberta de tais e tais aparições conceituais, recolhidas em outras fontes autorais a esmerar uma numerosa e exaustiva pesquisa documental, frente ao romanesco espírito da aventura.

Nisto, a obra apresenta-se cheia de símbolos que servem para explicar o que acontece na natureza, tornando mais acentuado o perfil desse inventário ao alinhá-lo ao realismo fantástico.

Joaquim Argos é um sujeito agitado, inquieto, profundo. Sua juventude expansiva e engenhosa reflete muitas dúvidas filosóficas como homem de virtudes e ideias. A certa altura chega a se confundir com a personalidade do Fausto. Atinado e proativo vai se tornando incansável no rumo da sua existência sentimental, apesar de ser atormentado pelas incertezas, como àquelas impostas pelo Mefistófeles, em clara alusão aos escritos de Goethe.

Para compreender todos os percursos do Romanceiro do Sertão Profundo é preciso estar ciente sobre a ideia primeira do livro, embora as outras intermediárias também se façam necessárias. Sem o ponto de partida do herói ao se envolver com a Revolução dos Alfaiates na Capitania da Baía de Todos os Santos não é possível amarrar os fatos nem as mudanças à alma do enredo. Mas é importante, ao mesmo tempo, ter uma clareza factual e precisa sobre o divórcio entre a escravidão e o senhorio colonial. Já esta empreitada, não é coisa fácil de fazer porque deverá remeter a quem o ler à fusão emocional entre a casa-grande e a senzala, tendo em vista os liames transpostos pela sociedade patriarcal para permanecer imponente diante da prepotência cultural mergulhada nos eitos da escravidão. Isto não quer dizer que não tenha havido um processo de adocicação da mestiçagem. No entanto, uma transformação muito tardia estava por ser anunciada com a chegada dos fortes ventos do norte e a centrifugação do Arraial inteiro, ao revelar que a fuga daquele universo se fazia importante e necessária.

Nesta novela de cavalaria a imagem da intensa fuga dos negros ilustra o desequilíbrio e os tormentos encontrados naquele século, pois se fazia compreensível que ao procurar nos quilombos a paz que tanto buscavam, os escravos estavam sedentos de uma maior e mais relevante redenção.

Os caminhos pelos sertões, neste livro, devem ser percorridos com muita paciência e o leitor deve entender certas limitações, porque o sertão é muito vasto e o objeto pretendido fora alcançado, porque o cerne principal era singularizar o enredo para que o desfecho assim se apresentasse como uma retórica cavalheiresca. O iniciado na leitura deve seguir em frente até chegar ao Arraial que tantos desassossegos congregavam em sua ordinária linhagem ancestral. Trata-se de começar a ler e não parar pelos estreitos deste antológico Lunário Perpétuo, até perceber que suas origens se perderam no nevoeiro do tempo, sob o peso dos séculos…

 

*Gênesis Naum de Farias. Pesquisador e Professor da Universidade Estadual de Piauí – UESPI/ Coordenador do Núcleo de Estudos Foucaultiano. Quinta dos Inválidos, Março de 2019.