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O Brasil precisa mesmo reviver a miséria?

“Somos um país rico e que teve a oportunidade de declarar sua independência com relação ao mundo, mas que decidiu pela subserviência….” Por Helinando Oliveira

Depois de um longo e necessário período de silêncio, retornamos à regularidade da coluna Ciência & Sertão… Neste retorno, o tema não poderia ser outro: a fome.

Todos lembramos do tempo em que as crianças ficavam à beira da estrada com um balde de areia e pá, a pedir alguns centavos por taparem os buracos intermináveis das BRs brasileiras.  Aquela história parecia ter ficado no passado… Só que ela retornou (repaginada) e surge escancarada nas esquinas dos semáforos das cidades brasileiras. As mãos de jovens levantam cartazes com apelo por empregos. Esta é uma linguagem mundial levantada pelas grandes tragédias. Logo após as tempestades, tornados e furacões, os cidadãos sem teto vão as ruas com seus cartazes e chapéus. É o ápice da degradação humana – o limite que separa a esperança da fome extrema.

Porém mesmo em meio a tanta pobreza surgem heróis, como William Kamkwamba, cuja história virou livro e filme “O Menino que Descobriu o Vento”.

Da distante (e ao mesmo tempo tão próxima) Malauí, William foi impedido de ir à escola por não poder pagar as mensalidades. O próprio acesso à biblioteca foi cortado, e mesmo assim estes empecilhos não foram suficientes para que aquele autodidata pudesse construir uma turbina eólica à base de um dínamo de bicicleta. E assim ele fez a irrigação acontecer, trazendo comida para o seu vilarejo.

Apesar da história magnífica de superação, William não precisaria ter passado por nada disso. A maior herança de uma nação é seu povo, e como tal, o povo precisa estar no foco das atenções de seus governos. O Estado que onera e cobra impostos tem a obrigação de oferecer escolas de qualidade para suas crianças. E das escolas são estruturadas as Universidades, que como grandes aliadas do povo, trabalham como fábricas de sonhos para a conquista de soluções populares.

William Kamkwamba chegou a Universidade pelo impossível que ele plantou no solo do Malauí – por ter sonhado e criado a sua engenharia para o vento. Porém, além dele, vários outros jovens poderiam ter feito muito mais por sua terra. A eles faltou oportunidade.

E o Brasil agora tira a oportunidade de todos estes jovens, que permanecem de pé nos semáforos. Esta é uma geração que não precisa reviver a miséria. Somos um país rico e que teve a oportunidade de declarar sua independência com relação ao mundo, mas que decidiu pela subserviência.

Torço que a Universidade brasileira continue sendo o fio de esperança racional, mantendo suas portas abertas para que dentro dela os nossos Kamkwambas sejam acolhidos e exercitem a sua capacidade de fazer a diferença. Que os pobres vejam na Universidade pública a possibilidade de exercitar o verdadeiro significado da transformação social.

 

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

 

 

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