Ciência & Sertão

Carnaval e apologia à violência

‘Se o carnaval é alegria, que a motivação seja a celebração da vida, sem apologia à violência’. Por Helinando P. de Oliveira

Imagem da internet

E lá vem mais um carnaval. É hora de tirar a fantasia do armário e sair às ruas para pular atrás do bloco. Momento de ser feliz e comemorar. O carnaval tem sido carnaval mesmo em tempos de ditadura, democracia e pós-democracia. E em comum a todas estas épocas é percebido um aumento absurdo nos índices de criminalidade, mesmo que a mídia continue a entoar o mantra “carnaval e paz” (como forma de garantir os lucros das fábricas de cerveja, rede hoteleira e toda uma rede de lucros).

Se vivêssemos uma guerra civil declarada certamente precisaríamos decretar um período de cessar-fogo de duas semanas para ver o bloco passar. No entanto, não precisamos dessa burocracia. Já vivemos nossa guerra diária a céu aberto e que serve de grande pano de fundo para a festa popular. Nela, cidadãos do bem portam metralhadoras invisíveis e tremem ao som de trá trá trá trá. Eles simulam a própria morte, como se fossem vítimas de armas de fogo (de onde veio este tiro?). Neste carnaval será importante verificar se o cidadão não está representando uma coreografia antes de acionar o socorro. É estranho pensar que as pessoas pratiquem e curtam coisas do tipo. E ainda mais que no mês passado elas mesmas estavam sentadas na ceia ouvindo “Então é Natal” e que na quarta-feira estarão (algumas delas) com cinzas na testa após a missa.

Banalizar a violência que mata milhares de brasileiros todo ano é torná-la nossa malvada favorita. É seguir na coerência daqueles que aplaudiram o golpe, dizendo que eram milhões de Cunhas e que frequentaram igrejas para ouvir seus líderes pregarem o ódio. A contradição tem sido tão comum em nosso país quanto o feijão com arroz de todo dia.

É neste clima que as pessoas circulam em seus carros blindados e frequentam os shopping centers cravados no meio das favelas. São estas pessoas que fazem cruzeiro pelas ilhas gregas e jogam moedas de 10 centavos para os lavadores de carros. E entendem ser parte de uma elite que permanecerá como elite por muitas gerações. Daquelas que pagam pelo camarote, pelo abadá, pelo segurança particular, pelo plano de saúde e por isso pensam ser mais importantes que os outros… Mas a violência é violência para todos. E que tiro foi este? E não mais que de repente mais um brasileiro entra nesta estatística trágica que destrói sonhos. Não, ele não estava brincando. Foi a sua última queda. Morreu.

E nesta vida Severina partem também os ricos junto aos pobres e miseráveis. Se em vida todos querem ter uma noite de patroa, na morte todos são iguais, friamente iguais.

Se o carnaval é alegria, que a motivação seja a celebração da vida, sem apologia à violência. Adoraríamos ouvir marchinhas que façam nosso povo sonhar outra vez, que tragam esperança, que sejam luz. Precisamos ver a luz no fim do túnel. E isso é urgente.

Bom carnaval para quem é de carnaval. Abaixo a violência e toda e qualquer apologia à desgraça humana.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.