Cosmopolita

Soberba acadêmica, um pecado capital

‘Muitos de nós, acadêmicos, passamos a vida assim: construindo degraus de ascensão na Plataforma Lattes e afundando nossas chances de mantermos boas relações pessoais.’ Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

“Se a gente faz uma coisa bem demais,
aí, depois de algum tempo,
se não tiver muito cuidado, começa a se exibir.
E aí a gente deixa de ser bom de verdade.” –
D. Salinger, O apanhador no campo de centeio

 

O cara sempre fala de si mesmo em terceira pessoa e é rude com o porteiro, pois mede o valor das pessoas pelos gráficos de produção da Capes. Já tentou o casamento duas vezes sem sucesso, mas é professor titular. No divórcio abriu mão do gato, mas ficou com os livros. Reprime o desejo pela colega de trabalho se masturbando três vezes por dia no banheiro da Universidade, mas publicou a tese de doutorado. Ninguém foi para o lançamento. Orgulha-se da quantidade de artigos no prelo, mas nunca teve um amigo. Gosta de cinema de arte e ouve Vivaldi, mas humilha os alunos só por diversão. Nunca olha para o filho e culpa o próprio pai pelos seus fracassos diários, mas fez o pós-doutorado em Harvard. Ele é o perfeito cidadão do mundo contemporâneo.

Eu vejo esses egos inflados em alguns aduladores, digo, estudantes, que perpetuam os comportamentos de seus respectivos orientadores; nos professores que adoram pisar nos alunos; nos colegas de trabalho que torturam uns aos outros em meio a citações de autores que talvez nem tenham lido; nos bacharéis que se gabam do título de “doutor” sem ter feito doutorado; naqueles que não suportam um comentário ou uma crítica no trabalho; nos que tratam os outros como subordinados ou inferiores porque, supostamente, estes não possuem o mesmo nível intelectual… Quando me deparo com esse tipo de gente, percebo o quanto esse mundo acadêmico pode ser perverso, criando esses perigosos monstros indiferentes aos sentimentos dos outros.

vaidade

Imagem: Montt

 

Certa vez, conheci um professor, um desses caras bam-bam-bam, super famosos no minúsculo mundo acadêmico, que debochou do fato de uma ex-colega de trabalho ter deixado a Universidade para casar com um norte-americano e criar búfalos nos Estados Unidos. Fiquei pensando nas réguas de medição de felicidade de ambos: ele preferia ser um solitário intelectual reconhecido a ser uma feliz anônima criadora de búfalos.  Em outro momento, presenciei um professor que eu estimava muito, menosprezar o trabalho de uma colega por ser “excessivamente popular” e pouco erudita (na verdade, quase todos os historiadores sentem certo despeito por ela conseguir vender livros de História nos dias de hoje), portanto, nessa lógica, medíocre.

Muitos de nós, acadêmicos, passamos a vida assim: construindo degraus de ascensão na Plataforma Lattes** e afundando nossas chances de mantermos boas relações pessoais. Durante muito tempo, também estive contaminada pela doença do produtivismo exagerado e egoísta, mas foi no doutorado que tomei meu primeiro grande choque de realidade: era pressionada a escrever e publicar artigos, ao mesmo tempo, em que escrevia uma tese! Era constantemente ameaçada de perder a minha bolsa de estudos caso reprovasse em alguma disciplina. Quase não dormia, comia super mal, engordei oito quilos, tinha crises de ansiedade, terminei um relacionamento de quatro anos com alguém que amava, perdi o nascimento de dois sobrinhos, desenvolvi hipoglicemia, gastrite e paranóias: medo de fracassar, medo de não ser perfeita.

Conheci professores que me mandavam e-mails às 2hs da manhã de um sábado ou domingo e me perguntava se eles não tinham vida social quando eu mesma não tinha. Tive contato com um professor maravilhoso que faleceu repentinamente, jovem e no auge da sua carreira. Em sua ânsia pelo reconhecimento de seus pares, ele vivia para “produzir”. Mais de 30 anos de trabalho, de noites mal dormidas e extensa produção que não faziam sentido diante da fatídica visita da morte.

Para que? Para que viver em função do trabalho? Por que deixar essa ânsia pelo reconhecimento público corroer nossos desejos e nossas possibilidades de criarmos relações verdadeiramente honestas? Por que querer ser melhor do que o outro?

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A origem da Tese. PHD Comics por Jorge Cham.

 

O que mais me impressiona nesse universo acadêmico (e material) é a falsa sensação de que se você é bem sucedido na vida afetiva e social, provavelmente, você é um fracasso na carreira e vice-versa. Não, não é possível ter os dois. Amizades são desfeitas por discordâncias teóricas, vínculos são rompidos por diferenças intelectuais ou por falta de tempo. Consequentemente, essa perversidade soberba, destrói relações que poderiam ser de mútuo respeito e diálogo.

Outro exemplo são os professores temidos pelos alunos. Aquele professor ou professora que só consegue a atenção da turma através de uma inóspita e medieval “pedagogia do terror”, na qual fazem questão de dizer que o estudante está errado, ameaçam com a uma prova surpresa ou mesmo com a reprovação. Esses anti-professores, chamados assim, pela cientista social Rosana Pinheiro-Machado em um ótimo artigo na Carta Capital de fevereiro deste ano: coagem para serem citados e abusam moral (e até sexualmente) de seus subalternos […] não estimulam o pensamento criativo: por que não Marx e Weber? Anti-professores acreditam em lattes e têm prazer com a possibilidade de dar um parecer anônimo, onde a covardia pode rolar às soltas”.

É dessa covardia perversa que eu tenho medo, afinal, como as crianças se espelham nos adultos, os alunos também se inspiram em nós, professores. Que tipo de alunos estamos ajudando a criar? Alguém que se importa com o outro ou que pretende subir os nefastos degraus acadêmicos a qualquer custo? Neuróticos solitários sem tempo e sem afeto? Pessoas sensíveis às dificuldades dos colegas ou pequenos sádicos que clamam por atenção em seus insignificantes círculos de vaidade?

Creio que é nossa obrigação enquanto pensadores e professores exercermos e estimularmos um olhar mais humano e atento ao outro. Prezemos por mais sensibilidade e por menos visualizações do Currículo Lattes.

 

* Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, saltar de paraquedas e dançar um tango em público.

**Plataforma Lattes é uma base de dados virtual do CNPq responsável pelo cadastro de pesquisadores, grupos de pesquisa e instituições acadêmicas.