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Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia

O que vai nascer do veredito desta quarta, 24 de janeiro de 2018?*Por Nilton de Almeida.

Certa feita – pessoas do sindicato conhecem essa história – estava numa das principais bancas de Juazeiro e Petrolina para comprar revistas.

E um rapaz que eu nunca tinha visto, do nada, pega uma capa de revista semanal com o Juiz Sérgio Moro na capa, mostra para mim e exclama: “esse será o futuro presidente do Brasil”.

“Espero que não”, respondi.

“E você acha que o que ele está fazendo é errado?” – falou ele, projetando o corpo para a frente. Sustentei.

“Sim, o que ele está fazendo é errado. E não só aqui no Brasil. Juiz é juiz, promotor é promotor. Cada um tem sua função. O que ele está fazendo é errado! Fosse na Índia, na Bélgica, no Japão, na China, na Nigéria, no México, em Angola, no Canadá, seja onde for! Um juiz não pode e não deve vazar elementos de um processo em que ele é responsável!”

Contextualizo:

Em março de 2016 um áudio de conversa entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Roussef foi divulgado pelo magistrado do Paraná de forma irregular e ilegal, mas ficou por isso mesmo. Reconheceu-se depois que não havia base para tal conduta, mas o objetivo final para os artífices do golpeachment foi alcançado: impedir que o governo Dilma se recompusesse a partir da ação de Lula como ministro.

Retorno para a conversa na banca:

“Moço” – eu disse – “você está vendo essa rua aqui? Seguindo direto aqui na avenida do Paraíso o senhor vai dar no meu serviço. Sou professor. É duro para mim dizer o que vou falar agora, mas passei a maior parte do meu tempo como militante do movimento sindical combatendo e questionando a política econômica e educacional de Lula, e, principalmente, de Dilma. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Não vale tudo. Os fins não justificam os meios. Para que a pressa? Vocês vão ganhar a próxima eleição. Calma. Vocês vão ganhar. Depois de quatro eleições seguidas é muito difícil emplacar uma quinta. Vocês quase levaram. A próxima é de vocês. Agora, uma coisa: em 1989, nós perdemos. E resignamos. 1994, perdemos. E aceitamos. 1998, perdemos. A esquerda perdeu. Chiamos, mas a vida seguiu. Façam igual”.

Ele, mais murcho: “Rapaz! Esqueci uma coisa ali no caminhão. Até logo!”

Poucos dias depois dessa conversa, a Diretoria Executiva da SindUnivasf lançou uma nota – “Não vale tudo. Não vai ter golpe”. Mas o golpe veio.  E continua.

Nesse até logo, os áudios do presidenciável dos donos do poder – envolvendo suborno, conspiração e cogitação de homicídio – não o condenaram na Justiça. Mas o inviabilizaram até como candidato a vereador em Minas Gerais.

Do outro lado, quase quatro anos depois de campanha contrária incessante – Manhã, tarde e noite. Manhã, tarde e noite – um dos alvos principais do golpeachment segue inconteste como líder nas pesquisas de intenção de voto.

Isso dá muito o que pensar.

Isto dá muito no que pensar.

Amanhã, independente do resultado no TRF 4, e apesar de o golpeachment ter deposto sem provas e sem respaldo jurídico ou ético uma presidente da república, e seguir na pilhagem dos direitos sociais e do patrimônio público, o golpe não conseguiu desconstruir a projeção e o simbolismo do ex-presidente Lula. Falharam. Resta o tapetão.

Carlos Lacerda publicara no jornal A Tribuna da Imprensa, em  junho de 1950: “O Sr. Getúlio Vargas senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Soa familiar?

Que essa lógica seja exposta por um partícipe inveterado EM GOLPESé de assustar, mas não é de admirar.

Que um país inteiro cogite que magistrados podem se orientar por lógica similar…

É mais que assustador. É espantoso.

A que ponto trouxeram o país por não aceitarem o resultado das urnas?
Terceiro turno para cima da gente! Até hoje, 2018.
O “pior” – como diz a expressão em Feira de Santana – o pior (para os donos do poder no Brasil) é que independente do resultado, Lula é o maior candidato ou o maior eleitor.

A República de Curitiba pariu um rato.

Depois de quatro anos! E pessoas e segmentos que depois de quatro eleições estavam esgotadas com Lula e/ou o PT, graças ao terceiro turno, estão novamente abertas a uma quinta votação, para o bem e para o mal.

O que vai nascer do veredito desta quarta, 24 de janeiro de 2018?

É o imponderável.

Mas não tenhamos receio.
Amanhã – “o” amanhã grande, o futuro – a de ser outro dia.
Apesar de “vocês” sabem quem: racistas, fascistas, machistas – NÃO PASSARÃO!

*Nilton de Almeida Araújo é professor de História do Brasil, presidente da SindUnivasf (2016-2018), integrante dos Movimentos Antirracistas do Vale e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro.