Patrick Campos

Memórias, surpresas e o 55º Congresso da UNE

“Este Congresso, sem nenhuma dúvida, entra para a história”, Por Patrick Campos*

De 14 a 18 de junho, na cidade de Belo Horizonte – MG, ocorreu o 55º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Foram mais de dez mil estudantes de todos os estados que se reuniram para debater os rumos do país, e elegeram a nova direção da entidade para um mandato de dois anos, tendo a baiana Mariana Dias como nova Presidenta.

Este Congresso, sem nenhuma dúvida, entra para a história. Primeiro, porque representou os 80 anos de existência da entidade, uma das mais antigas organizações do país. Segundo, porque teve como resultado a consolidação da hegemonia política do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) a sua frente, em condições nunca antes vista.

O PCdoB, por meio de seu braço jovem a União da Juventude Socialista (UJS), vêm reelegendo sucessivamente as presidentas e os presidentes da UNE a mais de vinte e cinco anos, mas sempre polarizando com outros setores da esquerda brasileira.

A juventude do Partido dos Trabalhadores, que havia dirigido a entidade no final dos anos oitenta, polarizou a disputa de seus rumos durante os anos noventa. Na virada nos anos dois mil e durante a década que se estendeu outras forças políticas, como o PSOL, passaram a também se apresentar como oposição a linha majoritária.

Os motivos? Estes sempre foram variados. Passavam desde a avaliação dos limites da política do PCdoB, por ter principalmente com início do Governo Lula se tornado mais moderado e menos combativo, até os métodos de eleição das direções e da crítica a burocratização da entidade. A UNE se manteve, assim, sempre polarizada entre uma maioria concreta, mas oscilante, e uma oposição minoritária, mas permanente.

No ano de 2013, fruto de uma articulação de quase dois anos de forças políticas da juventude do Partido dos Trabalhadores com a Consulta Popular, foi constituído o chamado Campo Popular da UNE, reunindo estes setores do PT e o recém-surgido Levante Popular da Juventude (braço jovem da Consulta).

O Campo, materializado no Conselho Nacional de Entidades de Base ocorrido no Recife, tornou-se rapidamente a grande novidade da UNE e do Movimento Estudantil brasileiro. Com posições distoantes da maioria dirigida pelo PCdoB e também da chamada Oposição de Esquerda, encabeçada pelo PSOL e aliados.

No 54º Congresso da UNE, realizado em 2015 na cidade de Goiânia, o Campo Popular voltou a surpreender consolidando-se como a segunda força da entidade, elegendo sua Secretaria Geral, feito inédito para aquele período.

No mesmo ano, a UNE foi convocada a travar inúmeras lutas. Forjava-se nas sombras do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, materializada na figura do então presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha.

A UNE teve que, simultaneamente, combinar a luta em defesa da democracia e contra o golpe que se encaminhava, com a luta contra a equivocada política econômica do segundo governo Dilma e o ajuste fiscal do Ministro Joaquim Levy.

O debate sobre o que fazer jamais foi pacífico no interior da UNE. Cada campo apresentava uma linha de ação e enfrentamento. Enquanto o Campo dirigido pelo PCdoB centrava forças na mobilização pelo “Fora Cunha”, o Campo Popular além disso, liderava as mobilizações contra o ajuste fiscal afirmando que defender a democracia passava necessariamente por mudar a política econômica. Enquanto isso, setores da Oposição de Esquerda já ventilavam suas teses de Fora Todos.

É nesse cenário, em setembro de 2015, na semana da Pátria (que no ano anterior tinha sido marcada pela realização do Plebiscito Popular pela Constituinte exclusiva e soberana do sistema político) que justamente em Belo Horizonte as forças populares se reúnem para dar concretude a Frente Brasil Popular (FBP).

A FBP, que já vinha conduzindo diversas lutas por todo o país, torna-se o principal espaço de articulação e mobilização contra o golpismo, contra o ajuste fiscal e em defesa dos direitos e da democracia, em que pese outros setores da esquerda optarem por construir outra frente nacional de luta, a Povo Sem Medo, em outubro do mesmo ano, com a linha de combater principalmente, na opinião de alguns seguimentos “o ajuste fiscal perseguido pelo governo Dilma […] representando os maiores ataques às conquistas dos trabalhadores dos últimos anos”.

Enquanto isso, na UNE, se agudizava o debate sobre o papel do movimento estudantil e principalmente da entidade diante da conjuntura. Os pontos de unidade se davam em torno da defesa da democracia e do “Fora Cunha”, e levou tempo até que a direção majoritária se convencesse que era imprescindível travar na rua a luta pela mudança da política econômica, disputando pela esquerda os rumos do Governo Dilma.

Foi com a aceitação do pedido de impeachment da Presidenta por Eduardo Cunha, em dezembro de 2015 e da sua respectiva autorização pela Câmara em abril de 2016 que os pontos de unidade ganharam maior convergência.

Apesar de ainda ter existido setores da Oposição de Esquerda a seguir defendendo o “Fora Todos”, tanto o campo dirigido pelo PCdoB quando o Campo Popular, ambos tendo seus integrantes construindo a Frente Brasil Popular, tomaram as ruas do país com as bandeiras do “Não Vai Ter Golpe”.

Essa sem nenhuma dúvida foi a toada de todo o ano de 2016, até a concretização do golpe, com o afastamento da presidenta Dilma pelo Senado Federal no mês de agosto.

Com este resultado, o debate sobre a mudança na conjuntura e os próximos passos ganhou novos elementos tanto na Frente Brasil Popular quanto no interior da União Nacional dos Estudantes. Com a chegada de Michel Temer e sua agenda de retirada de direitos, os movimentos sociais e populares não baixaram suas bandeiras.

O país viveu um período ainda maior de mobilização, com a mais importante onda de ocupações estudantis de Escolas e Universidades de toda a sua história. Mobilização fundamentalmente espontânea de inúmeros setores populares, contra a Reforma do Ensino Médio e contra a PEC 241/55.

No interior da UNE as posições defendidas ganharam elementos concretos de distinção, principalmente para que a entidade conseguisse acompanhar a onda ocupações. Sem falar, por exemplo, no impacto que as posições do PCdoB como a de votar novamente em Rodrigo Maia (DEM) para Presidente da Câmara dos Deputados (movimentação que já tinha sido feita na eleição para interino realizada após o afastamento de Eduardo Cunha pelo STF em maio de 2016) tinha para o conjunto dos estudantes.

As posições do PCdoB foram se afastando cada vez mais das posições construídas pelo Campo Popular. No momento em que o país vivia uma profunda crise política e que o Campo defendia a realização de um Conselho Nacional de Entidades de Base, para reunir a rede do movimento estudantil, a direção majoritária bancou apenas a realização da BIENAL da UNE no mês de janeiro de 2017 em Fortaleza.

É nesse cenário que em março a UNE realiza seu 65º CONEG para debater e convocar o 55º Congresso da entidade. Nesse momento, a unidade pelo Fora Temer e a luta contra as reformas Trabalhista e da Previdência é apresentada por todos os setores, mas sempre com o destaque do Campo Popular das limitações que a política do PCdoB colocava para a entidade.

A linha do Campo Popular se manteve fundamentalmente em torno da síntese de seu primeiro seminário nacional, que afirmava que:

O Campo Popular surge a partir de um vácuo existente na UNE, dos setores descontentes com os rumos do movimento estudantil nacional e com a lógica predominante dentro da UNE, que despolitiza e enfraquece a entidade. Nossa construção expõe as contradições dos dois blocos já existentes, e aponta uma nova alternativa. Queremos construir o Campo Popular como uma alternativa de direção para a UNE

Estas posições se fortaleceram no processo de eleição de delegadas e delegados para o 55º CONUNE. Enquanto as forças políticas do Campo Popular agitavam entre os estudantes as bandeiras do Fora Temer e das Diretas Já, ganhava nítidos contornos por parte do campo liderado pelo PCdoB o debate sobre a possibilidade de participação num possível Colégio Eleitoral.

As divergências políticas somaram-se ao duro processo de eleição das delegações. Em todos os Estados do país os embates em torno da organização e convencimento político dos estudantes delimitou bem os três campos da entidade, principalmente na hora da composição de chapas.

No entanto, ao contrário de tudo aquilo que se apresentava, na plenária final, momento apoteótico em que são realizadas as votações para direção e das resoluções que guiarão a UNE pelos próximos dois anos, uma movimentação inesperada.

A maioria das forças que até então polarizavam a construção da entidade por meio do Campo Popular, fizeram um giro político de 180º em sua tática, encerraram o campo e deram início ao maior movimento de hegemonia da história recente do movimento estudantil brasileiro, com a construção da chapa intitulada “Frente Brasil Popular”.

Capitaneados do PCdoB, agora o campo majoritário conta em sua base de apoio com o Levante Popular da Juventude, com a juventude do Partido Socialista Brasileiro e a quase totalidade da juventude do partido dos trabalhadores, com exceção da minoritária tendência petista Articulação de Esquerda.

Das dezessete vagas da direção executiva da entidade, quinze pertencem a este campo, sendo a presidência do PCdoB, a vice-presidência do Levante Popular da Juventude e a Secretaria Geral do braço jovem da tendência petista Democracia Socialista.

É com este formato que a entidade caminhará pelo próximo período. Os balanços e as opiniões sobre este resultado estão sendo divulgados por todas as organizações. Seu significado, no entanto, apenas o tempo poderá revelar. Enquanto isso, cabe acompanhar de perto os passos do movimento estudantil brasileiro, pois este definitivamente, não cansa de nos surpreender.

*Patrick Campos é graduando em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba. Foi diretor da União Nacional dos Estudantes, é virginiano e rubro-negro pernambucano.