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Jovem negra petrolinense, estudante do curso de medicina, desabafa nas redes sociais: “Durante a minha infância e adolescência eu tinha uma inquietação. Eu não me via”.

“Por isso, usamos datas como o 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, para relembrar e ressignificar toda a trajetória de luta, de privações e violência que meus antepassados sofreram e meus iguais ainda sofrem para que pessoas como eu possam ocupar lugares como esse”. Disse Caroline Aquino

Foto: Facebook

Estudante do curso de Medicina pela Universidade de Pernambuco – UPE, campus Garanhuns, prestes a concluir o curso, Caroline Aquino, 23 anos, jovem negra, natural da cidade de Petrolina, desabafou em seu perfil nas redes sociais, no último dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Caroline destaca o difícil caminho que a juventude negra percorre para ocupar espaços de maior privilégio na sociedade brasileira. Acompanhe no texto abaixo:

Durante a minha infância e adolescência eu tinha uma inquietação. Eu não me via. Fora do amparo do ambiente de casa, da família e vizinhança do meu bairro periférico, eu simplesmente não me via. Eu não me via nas salas de aula das escolas particulares onde estudava, sempre me sentindo deslocada sendo a única ou uma das únicas alunas negras da turma, a exceção. Eu não me via na imagem da maioria dos meus professores. Eu não me via nos papeis de protagonismo na TV, nas revistas de moda e beleza, naquilo que era considerado belo, aceito e desejável. E por fim, eu não me via naqueles que exerciam a tão honrosa e respeitável profissão médica nos atendimento pelos quais passei ou presenciei. E o motivo não é simples, mas é evidente. Eu não me via porque pessoas como eu não estavam chegando lá, não estavam sendo representadas, não na mesma proporção.

Conseguimos vários avanços. Atualmente, a filha de uma cabelereira/professora e de um técnico de enfermagem, a filha de uma FAMÍLIA PRETA, está se tornando médica e cenários como este finalmente estão se tornando mais comuns. Mas eu ainda sou uma exceção. Ainda não me vejo na grande maioria das turmas de Medicina, nos grupos de internos nos diversos rodízios pelos quais passei. Eu ainda não me vejo entre as equipes de staffs, residentes e preceptores dos serviços onde estagiei. Então posso afirmar por vivência e convicção que ainda estamos muito longe. Longe de recuperar todo o tempo, dignidade e oportunidades que nos foram negadas. Longe de ocupar plenamente espaços onde por séculos fomos barrados, excluídos e humilhados.

Por isso, usamos datas como o 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, para relembrar e ressignificar toda a trajetória de luta, de privações e violência que meus antepassados sofreram e meus iguais ainda sofrem para que pessoas como eu possam ocupar lugares como esse. Para somar forças e seguir resistindo a tudo e a todos que insistem em diminuir nossa existência. Para reafirmar que não aceitaremos nada menos do que aquilo que já deveria ser nosso por direito. E para desejar profundamente que toda criança preta e periférica tenha igual oportunidade de sonhar e de realizar seus sonhos!

A família de Caroline reside na periferia de Petrolina, no bairro Santa Luzia, região norte da cidade.