Ciência & Sertão

O ensino de engenharia e o compromisso social

‘A carga horária excessiva em sala de aula afasta o estudante de engenharia das bancadas de experimentos e é um fator que contribui fortemente com a alta taxa de reprovação’. Por Helinando P. de Oliveira

O estereótipo de alienado social e político vem sendo ao longo dos anos atribuído aos estudantes de engenharia. Embora seja um atributo injusto para a maioria dos estudantes, este isolamento é fortalecido por uma matriz extenuante de disciplinas, que tipicamente chega ao número de nove por semestre. Com um turno que tem início no período da manhã e fechamento no final da tarde, o estudante se vê mergulhado em uma rotina que o impede de viver com intensidade o campus, realizar projetos de extensão e pesquisa, frequentar palestras, estudar… A carga horária excessiva em sala de aula afasta o estudante de engenharia das bancadas de experimentos e é um fator que contribui fortemente com a alta taxa de reprovação. E uma vez reprovados, perdem prioridade na fila de espera pelas disciplinas, transformando seus semestres letivos em verdadeiros queijos suíços. Mesmo assim, o fator mais grave de todo este processo não se resume ao excesso de disciplinas, mas principalmente à separação entre estas. A formação do estudante se assemelha à construção de uma parede feita de blocos que são entregues ao concluir cada disciplina, não havendo, na maioria das vezes, orientação sobre a conexão entre os mesmos. E o engenheiro segue sua formação como quem está caçando níqueis, quando os créditos são prêmios concedidos ao final de um semestre de sofrimento.

A questão básica é de que a formação de engenheiros precisa estar focada em projetos, que servem aos estudantes como ferramenta de integração de saberes, até então pouco conectados pelos blocos disciplinares. E este processo se torna ainda mais complexo quando se leva em conta o “apartheid” entre os ciclos profissional e básico. Desta separação histórica surge a velha e danosa questão: “nunca usarei isto na minha vida profissional”. Ao considerarmos todos estes ingredientes vemos quão complicada é a formação de recursos humanos em engenharia.

No entanto, soluções alternativas podem motivar os estudantes desde o início da graduação. Em tempos de youtube e internet 3G, é inocente a ação de esperar que o estudante precise de pré-requisitos para fazer engenharia desde o primeiro período. Note que defino o ato de fazer engenharia de uma forma completamente diferente da premissa de cursar disciplinas: engenheirar é aplicar a ciência, desenvolver protótipos e produtos tecnológicos. E no fundo, é isso que todo estudante espera fazer desde o começo. Os cinco anos de formação são longos e normalmente acompanhados de desilusões, mas se forem semeados de bons desafios podem resultar em profissionais altamente capacitados e motivados.

E justamente neste ponto em que o compromisso social e o sentimento de pertencimento do estudante com a instituição e região podem ser adequadamente trabalhados. A formação profissional em uma Universidade Pública e Gratuita requer o comprometimento em retornar melhor condição de vida à comunidade que financia os estudos. E este deve ser um sentimento coletivo na Universidade, sem distinção de curso.

Deste retorno, a questão ambiental é um aspecto universal e que requer engajamento de toda a comunidade acadêmica. Em nosso caso, por exemplo, a condição de degradação do rio são Francisco atingiu um nível alarmante, sendo sua revitalização um tema que carece de discussão ampla, interdisciplinar, e completamente desprovida de pudores por parte dos profissionais que detenham conhecimento do tema. E com este intuito levantamos uma discussão entre estudantes de Física 1 (segundo período de todas as engenharias da Univasf). Com o tema “Soluções para o Velho Chico” buscamos deslocar os olhos e os cérebros dos jovens das velhas questões dos livros texto (e seus solucionários) para problemas reais e sem solução trivial. A inevitável questão: “eu não estudei ainda este assunto” vem acompanhada da inevitável resposta: “Será que o Velho Chico resiste até que você estude? Que tal aprender você mesmo, do seu jeito e agora?”

E assim praticamos o empreendedorismo acadêmico, formando pessoas que buscam aprender para resolver os problemas universais, pois antes de engenheiros todos são habitantes de uma mesma casa, chamada planeta Terra.

As disciplinas continuarão a existir após esta abordagem, porém uma mente aberta jamais volta ao tamanho normal, já dizia Einstein. Que os estudantes entendam que os melhores problemas são aqueles que não tem resposta pronta. Eles estão logo ali, fora dos muros da Universidade, aguardando por gente de coragem que saiba enfrentá-los.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.