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Sob os escombros do coronavírus

“Somente com um Estado forte, sob a condução de um governo democrático-popular, a preocupação com a vida e a sobrevivência da maioria do povo será uma prioridade”. *Por Patrick Campus

Vivemos uma crise. Provavelmente uma das maiores crises de nossa geração, até agora. Em muitos de seus aspectos, com poucos precedentes. Uma crise que chega a colocar em dúvida a capacidade que a humanidade possui de dar respostas coletivas para situações limites, em que milhares de vidas são colocadas sob ameaçada. Um cenário até então presente mais em telas de cinema e visto como possível num longínquo e talvez nunca realizável futuro.

Não que não convivamos há décadas ou séculos com doenças que ameaçam imensos contingentes populacionais. Pelo contrário. As doenças, assim como as guerras, foram e continuam sendo responsáveis pelo extermínio cotidiano de uma quantidade imensa de seres humanos.

Mesmo dominando cada dia mais a tecnologia, a manipulação e o controle da natureza, milhões de pessoas seguem morrendo de doenças cuja cura já existe, cujo remédio já foi desenvolvido, mas que entre os doentes e a cura, encontra-se um mórbido intermediário chamado mercado. O mesmo intermediário que ocasiona a morte cotidiana de milhares, por meio do abandono, da miséria e da fome, num mundo em que há superprodução de alimentos que estragam diariamente nas prateleiras.

Nada de novo até aí. Mas a crise do coronavírus, por sua vez, tem certo ineditismo para nossa geração. A quarentena global em que vive neste momento mais de 1 bilhão de pessoas é um exemplo disso. Assim, esta crise tem colocado sobre a mesa um elemento que permite visualizarmos de conjunto algo já dito, comprovado e demonstrado. Trata-se da insuficiência e da incapacidade que o mercado possui de resolver problemas que ele e seus defensores, diziam ser capazes.

Imaginemos: como seria se diante da situação que estamos vivendo, dependêssemos exclusivamente das habilidades humanitárias da mão invisível? É bem provável que outras cenas vistas até então somente em películas cinematográficas, se concretizassem. Se alguns bilionários já estão enfurnados em seus bunkers e oásis particulares esperando a poeira baixar, noutra condição, estariam facilmente decolando em suas espaçonaves para o outro lado da orla exterior.

Mas, como os chineses e os cubanos (apenas para citar exemplos) já estão demonstrando, a humanidade possui meios para enfrentar este tipo de situação. Nestes e noutros lugares do planeta, os povos estão encontrando formas de vencer a propagação do vírus e, enquanto se busca uma cura, conter uma catástrofe ainda maior.

Ou seja, é possível vencer. A questão que se coloca, portanto, é como. Entre as possibilidades existentes, devemos contar com a ação privada de grandes corporações e do mercado, ou com a ação pública de fortes Estados e de governos populares?

Sob os escombros do coronavírus, esta é uma questão essencial para ser discutida, pois diz respeito ao mundo que teremos quando a poeira baixar.

Neste momento, a mão invisível do mercado (que já surrupiou a maior parte do álcool em gel disponível e aumentou o preço dos itens básicos de proteção individual), esconde embaixo do travesseiro a maior parte dos recursos financeiros disponíveis, se preparando para o que virá depois e deixando nas mãos dos Estados (justamente eles) a responsabilidade pelo enfrentamento da pandemia.

Em todo o mundo são os Estados, por meio de políticas públicas, que estão tendo que tomar medidas para proteger as populações. No entanto, aqueles que não trataram a crise como histeria e fantasia, estão encontrando justamente nas medidas tomadas sob a orientação do mercado, os grandes entraves. As políticas neoliberais e de austeridade, que em muitos países destroçaram os sistemas públicos de saúde e proteção social colocam sob ameaça a sobrevivência de milhões de trabalhadoras e de trabalhadores.

Para conter a expansão da pandemia, e, portanto, salvar vidas, é preciso reduzir ao máximo a circulação de pessoas. Com isso, entre outras coisas, é preciso parar diversas cadeias de produção. Quem arcará com os custos? Se depender do mercado, a solução será a que Paulo Guedes e Bolsonaro estão apresentando para o Brasil: cortes nos salários dos trabalhadores, cortes nos recursos dos programas sociais (como o Bolsa Família) e logo mais, auxílio para grandes empresas e para o sistema financeiro.

Nada muito diferente do receituário utilizado quando da crise de 2008, em que Estados do centro do capitalismo abriram seus cofres para sair em socorro dos bancos privados e salvar o sistema financeiro com cifras que ultrapassaram os muitos trilhões. Anos depois, salvo e fortalecido, o sistema (que possui um apetite ilimitado) submeteu diversos Estados da periferia do capitalismo a reformas brutais, que acabaram de desmontar os sistemas de proteção social, os direitos trabalhistas e previdenciários.

Esta é justamente a situação brasileira. Não bastasse ter um governo de extrema direta, miliciano, fundamentalista, neofacista e comprometido até o talo com um programa ultraliberal, o Estado brasileiro sofreu ao longo dos últimos anos (principalmente após o golpe de 2016) um desmonte de sua rede de proteção social.

Para enfrentar a pandemia do coronavírus, que ao que tudo indica provocará uma situação pior que a vivida neste momento na Itália e outros países europeus, seria preciso, além de todas as medidas preventivas (e até para garanti-las), políticas sociais robustas de transferência de renda, que permitisse que os trabalhadores e as trabalhadoras fossem para casa e que o Estado mantivesse seus salários; que fossem suspensas as cobranças de alugueis e tarifas de água, energia e gás; sem falar na proteção dos desempregados, autônomos, precarizados, sem teto e sem terra.

Ocorre que, como já mencionado, o caminho seguido pelo bolsonarismo é exatamente o oposto. Com isso, o que a direta prepara é um Brasil “pós-coronavírus” ainda pior para a maioria da classe trabalhadora. Diversos pequenos proprietários, sem recursos, não terão como reabrir seus negócios após a suspensão da quarentena; os postos de trabalho, portanto, diminuirão, justamente no momento em que mais serão necessários; o teto de gastos, impedirá que qualquer política social seja capaz de suportar a demanda crescente; os índices de violência deverão aumentar, com o aumento do desespero, da miséria e da fome.

Enfim, com a condução dada pela direita para a crise, o que se avizinha é um cenário terrível para a maior parte do povo pobre. Sob a orientação da cartilha neoliberal, além da pressão pela queda de sua popularidade, Bolsonaro reage com mais propostas de reformas, usando a crise como justificativa para mais maldades. É nesse ambiente que também surgem propostas de adiamento das eleições municipais e de novas políticas de encarceramento.

Diante desta situação, é preciso que a esquerda brasileira apresente alternativas concretas para as trabalhadoras e os trabalhadores. E alternativas, neste momento, passam por demonstrar como a política da direita é uma política de morte e que o governo Bolsonaro, com toda a coalizão golpista, precisa ser derrotado imediatamente. Ao contrário de adiar as eleições, precisamos antecipar as eleições de 2022 e fazer delas eleições livres, em que Lula possa participar.

Somente com um Estado forte, sob a condução de um governo democrático-popular, a preocupação com a vida e a sobrevivência da maioria do povo será uma prioridade. É o que estamos vendo neste exato momento. A direita, cada vez mais tosca, terraplanista e antivacina é um problema que precisa ser eliminado, sob pena de eliminar milhões para proteger o dinheiro de poucos.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores