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Sobre perdas e dores

Dor, perda e sofrimento estão certamente entre os mais cruéis dos castigos infligidos a humanidade. Mas como sabemos fazer, devemos enfrentar cada um deles, como enfrentamos os mais difíceis inimigos. *Por Patrick Campos

Me arriscarei a começar este texto sendo acusado de clichê, mas justamente por isso reforço o ensinamento do velho barbudo ao afirmar que “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Assim como a brevidade da vida, breve também são os momentos de felicidade e alegria. Assim, estes tornam-se ainda mais importantes e belos, dignos se serem lembrados e celebrados. No entanto, a busca constante pela felicidade não pode ter como corolário o esquecimento e a fuga dos momentos ruins. Destes, por mais que queiramos que não existam, e quando ocorrem que nos esforcemos para esquecê-los, devemos deles retirar todas as lições.

Precisamos aprender a lidar com a dor e com a perda. Momentos que nada têm de agradáveis ou aprazíveis, mas que assim como os momentos de alegria e felicidade, precisam ser registrados como necessários para nosso aprendizado e nossa melhora enquanto seres humanos. Evidente que as dores de alguns são completamente diferentes de outros. Algumas dores, por pior e mais brutais que sejam, são suportáveis pela esperança da recompensa. Como acontece com os atletas de alto desempenho, que levam o corpo ao limite do suportável, pois sabem que se resistirem a dor extasiante, sairão vitoriosos ao final.

Outra dor que invariavelmente sentimos, mas que nos convencemos de que trata-se de dor necessária, é aquela que nos acomete quando pisamos em um espinho. Quantas vezes não pensamos em deixá-lo ali e nunca mais pisarmos no chão, pelo medo da dor de um simples toque? E sempre acabamos respirando fundo e decidindo suportar a dor fina e rápida de sua retirada, pois sabemos que depois que acaba tudo voltará ao normal.

Sabemos, portanto, lidar com determinadas dores, com certas formas e manifestações físicas da dor, na maioria das vezes por acreditar que ela em breve passará, como a ardência do mertiolate sobre a ferida. Mas estas não são as únicas. E há quem diga que também não são as piores. Tão terríveis quanto ou possivelmente piores, são aquelas dores que analgésico nenhum é capaz de aliviar. Que dói aonde apenas quem sente é capaz de achar.

A dor do vazio deixado pela ausência de alguém que repentinamente não está mais. Que deixou-se e nos deixou. A dor da perda de um amor, que pela distância, por um erro, ou pela própria morte, tornou-se impossível. A dor do arrependimento, pelo feito e pelo não feito. A dor da injustiça causada injustamente. A dor da opressão sob bota do opressor. A dor da impotência diante do mal.

São dores que como o castigo de Atlas, não nos dão descanso e jamais cessam. É por isso e para que não sejam letais, que precisamos lidar com elas, sob pena de sermos vencidos por nossos próprios demônios, fraquejando naquilo que somos essencialmente fortes: nossa potência de ser e de agir.

Há quem diga que devemos aprender a conviver com a dor. Discordo. Acredito que precisamos entendê-la, compreendê-la, justamente para não sermos suas eternas vítimas. Para que não sejamos algozes e para que saibamos enfrentar os nossos próprios, pois a dor é arma potente, capaz de arrancar os mais bem guardados segredos e de causar horror no mais insensível ser.

Mas há ainda outra dor. Uma modalidade sutil, atenuada, perene e por isso mesmo, avassaladora. Aquilo que André Comte Sponville definiu como “Angústia”. A espera na incerteza. A dúvida que chega de surpresa. Mas que terrível sensação é a angústia, quando sabemos o fim inevitável de todos, mas fomos condenados a não saber quando, nem como e muito menos o porquê.

Sofremos. Sofremos dolorosamente pela injustiça da perda, pela desnecessária dor sentida por quem amamos e pela falta que já sentimos antecipadamente. Sofrimento puro, in natura e exatamente por isso, que deve ser acolhido. Acolhido junto a toda indignação e revolta que ele merece. É sobre ele que devemos estender as nossas reflexões. Tal sentimento não existe atoa, não nos abala tão profundamente para que não o encaremos em todas as suas faces. Devemos senti-lo e entendê-lo.

Não se trata aqui da moral cristã deturpada de se resignar diante do sofrimento e aceitá-lo como designo de Deus. Este empobrece o espírito e permite que os poderosos oprimam e massacrem os mais fracos enquanto estes, em vez de lutar e resistir, aceitam com comiseração a tragédia que lhes abate. Esta forma de encarar o sofrimento deve ser afastada. E a melhor forma de conseguir isso é refletir profundamente sobre ele.

Dor, perda e sofrimento estão certamente entre os mais cruéis dos castigos infligidos a humanidade. Mas como sabemos fazer, devemos enfrentar cada um deles, como enfrentamos os mais difíceis inimigos. Encarando-os nos olhos e tendo a certeza de que quando tudo acabar, de um jeito ou de outro, eles também terão um fim.

*Patrick Campos é graduando em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba. Foi diretor da União Nacional dos Estudantes, é virginiano e rubro-negro pernambucano.