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Saiba como identificar e denunciar crimes de racismo

Racismo não tem graça

Famosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo - Foto: ReproduçãoFamosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo Reprodução
Famosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo – Foto: ReproduçãoFamosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo Reprodução

Famosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo – Foto: ReproduçãoFamosas como Ludmilla, Maria Júlia Coutinho, a Maju, Cris Vianna, Preta Gil e Taís Araújo foram vítimas de racismo Reprodução

O ano ainda não acabou, mas 2016 pode ser lembrado pela quantidade de casos de racismo que tomou conta dos noticiários e das ‘timelines” nas redes sociais. Famosas como Taís Araújo, Preta Gil, Ludmilla, Cris Vianna, Sheron Menezes, Maria Júlia Coutinho, a Maju, e até mesmo Titi, a criança africana adotada pelo ator Bruno Gagliasso, foram atacadas pelo mesmo motivo: são negras, o que demonstra que o sucesso não blinda ninguém de ser vítima de racismo.

No caso de ‘pessoas comuns’, o que fazer? Será que a situação é a mesma? Em maio deste ano, a antropóloga Naira Gomes, 32, foi discriminada durante uma discussão no mundo virtual. Entre as ofensas que recebeu, um ‘ditado’ antigo: “Preto quando não caga na entrada, caga na saída”.

“Quando eu passei por um episódio de racismo virtual, o que mais me machucou foi o ‘não direito’ de sofrer pela ofensa à minha dignidade, de sofrer pelo entendimento que racismo é um instrumento que exclui não só a mim, mas a um povo”, conta.

De acordo com a cientista social Ângela Guimarães, é preciso compreender que o racismo é um fenômeno real e, portanto, faz parte do cotidiano. Desta forma, se expressa em manifestações diárias e que, para muita gente, podem passar despercebidas.

“As manifestações diárias (de casos de discriminação) nos permite afirmar que, muitos de nós, somos sim racistas”, afirma.

Para a cientista social, a explosão das redes sociais traz a possibilidade de expressar desejos e opiniões sem ser identificado – daí a explosão de casos de racismo na internet.

“Muitas pessoas se sentem à vontade para discriminar sem acreditar que serão implicadas legalmente, pois podem se esconder sob perfis falsos e, por isso, cometem uma série de crimes”, explica Ângela Guimarães.

Ainda que na Bahia não exista uma delegacia especial para crimes de racismo e para crimes que aconteçam no mundo virtual, há uma legislação específica que coíbe essas manifestações de racismo e de ódio. Quem se sentir agredido deve denunciar a situação na delegacia mais próxima de onde ocorreu o episódio e acionar outros órgãos.

Defenda seus direitos

Vai rolar O Artigo 79 do Estatuto da Igualdade Racial, que está em processo de regulamentação, prevê a criação de Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, mas a Bahia ainda não tem essa especializada.

A advogada Aline Moreira explica que, ao ser vítima de algum crime de racismo ou de intolerância religiosa, a pessoa deve procurar a Delegacia de Polícia Civil mais próxima, registrar o Boletim de Ocorrência, para que seja aberto o inquérito policial e a prática do crime seja investigada.

A pessoa vítima de racismo deve se manter firme na busca dos seus direitos de cidadão, procurar a orientação de uma advogada ou da Defensoria do Estado e o Ministério Público da Bahia para formalizar a denúncia e fazer o inquérito criminal.

“Combater e enfrentar o racismo é tarefa de toda a sociedade e não apenas da população negra. O exercício da cidadania e a igualdade de direitos impõe que toda pessoa que presencie ou tenha conhecimento de situações de racismo, busque os órgão e instituições competentes para realizar a denúncia”, afirma a advogada Aline Moreira.

Perceba a discriminação

Dar apelidos de acordo com as características físicas da vítima

Inferiorizar as características estéticas da etnia em questão

Considerar a vítima inferior intelectualmente, podendo até negar-lhe determinados cargos no emprego. Ofender verbal ou fisicamente a vítima

Desprezar os costumes, hábitos e tradições da etnia

Duvidar, sem provas, da honestidade e competência da vítima

Procure ajuda

Ministério Público – Procurar o Grupo de Atuação Especial de Proteção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação (GEDHDIS) – Avenida Joana Angélica, 1.312, prédio principal, térreo, sala 22 – Nazaré – Salvador – Bahia – Tel: (71) 3103-6434

Centro de Referência Nelson Mandela – Avenida 7 de Setembro (mesmo prédio da Fundação Pedro Calmon), edifício Brasil Gás, nº 282. E-mail: cr.racismo@sepromi.ba.gov.br Tel: (71) 3117-7448/7438

Defensoria Pública da Bahia Ouvidoria cidadã – Rua Pedro Lessa, nº 123, Canela, Salvador – BA. CEP: 40.110-050 Tels.: (71) 3117-6936 | 6952 – Disque Defensoria: 129 – Opção 2 – e-mail: ouvidoria@defensoria.ba.gov.br

 

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Racismo não tem graça

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Ficam surpresos quando descobrem que falo quatro idiomas. São brincadeiras diminutivas quando diz respeito à pessoa negra. Sem falar no modo em que pedem as coisas. Esquecem das palavrinhas mágicas, como se fôssemos servos deles, e por aí vai.

Renata Sena, 34, turismóloga

Trabalhava como psicólogo em uma unidade de serviço pública, e a usuária questionou quem era o psicólogo. Quando me apresentei, ela não acreditou. Apenas quando uma terceira pessoa confirmou, ela acreditou que era eu o profissional, e  nunca voltou para ser  atendida.

Rodrigo Márcio, 31, psicólogo

Estava na porta, quando se aproximou uma senhora, olhou para dentro da sala e perguntou: ‘Você trabalha aqui?’  Respondi que sim. E ela: ‘Faz a limpeza da sala?’

Sílvia Helena, 50 anos, secretária executiva

Milito na Justiça do Trabalho. Há cerca de quatro  anos, vou ao TRT diariamente e ainda escuto: ‘Você é a reclamante?’ Me perguntam com estranhamento se eu sou mesmo formada, e exigem ver minha carteira de sócia da Associação dos Advogados Trabalhistas da Bahia.

Laíse Freitas, 29, advogada

Todos os dias recebo olhares, perguntas sobre qual minha função. Mesmo estando toda ‘fantasiada de médica’, perguntam se eu sou a plantonista mesmo, ou a enfermeira, a técnica. Até o ponto de ser barrada no hospital! Afinal, sou a exceção e, como exceção, eu comprovo a regra.

Kênia Fernandes, 31, médica

Trabalho com intercâmbio e, muitas vezes, durante o atendimento, o cliente pergunta: ‘Você não conhece esse lugar não, né?’ Respondo sorrindo que já fiz cinco intercâmbios e conheço mais de 20 países! Sei que, se eu fosse loira, automaticamente me perguntariam para onde eu fui.

Sauanne Bispo, 30, empresária

Uma das mais irritantes humilhações que já sofri foi ouvir de alguém, que pensava que iria me elogiar: ‘Olha que talento! Não compõe como negro, parece o Chico Buarque’. É como se a gente não fosse capaz de produzir cultura, como se fôssemos inferiores.

Betho Wilson, 36, músico

Já fui chamada de monstro por uma equipe de gaúchos dentro da Secretaria de Saúde, expulsa de sala de trabalho… Fora a diferença de tratamento nos setores administrativos. As pessoas não percebem ou fingem não perceber como suas maldades causam dor.

Liah Santê, 48, secretária

Basta colocar uma roupa social e pegar o elevador que  alguém entra, não cumprimenta com um ‘bom dia’ ou ‘boa tarde’, e diz o andar que quer ir. Já aconteceu comigo em shopping e hospital.

Leandro de Assis, 32, bombeiro

Por Maíra Azevedo

http://atarde.uol.com.br/