Cosmopolita

Professor, preciso de 1,71 para passar na sua disciplina

‘Não é que na minha época de faculdade (nem faz tanto tempo assim) não houvessem procrastinadores especializados em desculpas esdrúxulas, mas lembro que entrar na Universidade era uma conquista para poucos.’. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

“Lágrimas não são argumentos.”- Machado de Assis,
Memórias póstumas de Brás Cubas

Chega o final do semestre e é sempre a mesma coisa, os professores estão lá, atolados com dezenas de trabalhos para corrigir, cadernetas para preencher, notas pra colocar no sistema, reuniões de conselho e, como se não bastasse, a caixa de e-mails enche com correspondências desesperadas de alunos preocupados com as notas finais.

Ser professor é difícil. Ser professor no Brasil, em turmas superlotadas, com um programa educacional básico deficiente como o nosso, é mais difícil ainda. Escolhi ser professora universitária porque para falar a verdade, tenho consciência de que não saberia lidar com crianças e adolescentes. É eu sei. Nesse momento, olhos se arregalam e algumas pessoas que estão me lendo vão se incomodar bastante com essa afirmação. Mas é a verdade. Fazer o que? Eu pensei que na Universidade trabalharia com adultos, seres responsáveis e capazes de lidar com a liberdade promovida pelo ambiente universitário. Doce ilusão!

Obviamente, não quero, nem pretendo generalizar. Tenho ótimos alunos: esforçados, que se esmeram nas provas e nos trabalhos e fazem questão de tirar notas boas. Também não falo aqui de alunos que, por algum motivo sério, não conseguem obter um bom desempenho. Eu, por exemplo, tenho alunas que moram no trabalho, e, ainda assim, tiram um tempo para as aulas; que fazem jornada dupla, no trabalho e em casa com os filhos; alunos que trabalham o dia inteiro e ainda moram em outras cidades, enfrentando assim, horas de estrada para chegarem à Universidade. Tudo isso poderia ser usado como desculpa para um mau desempenho, mas, por incrível que pareça, destes alunos, nunca recebi nenhuma justificativa, ao contrário, a maioria se esforça ainda mais para melhorar na avaliação seguinte.

Indo ao ponto, desejo tratar aqui de um perfil de aluno muito específico, mas que, infelizmente, pela minha experiência e de outros colegas, tem se reproduzido como gremlins debaixo d’água: o tipo “arredonda aí”.

Caio

Sabe o Seu Madruga que nunca tinha dinheiro para pagar o aluguel e sempre tinha alguma desculpa descabida para dar ao Sr. Barriga? Esse tipo, famoso pela procrastinação, chega no final do semestre com mau rendimento, notas baixas e andando na corda bamba (são mestres no slackline). Geralmente, são alunos faltosos que nunca leem os textos, nunca sabem as datas das avaliações, enfim, nunca se interessam por nada da disciplina até a semana final. Quatro meses depois do início das aulas, eles aparecem do nada, chorando os pontos que faltam para completar a média (isso se já não estiverem reprovados por falta, a choradeira, nesse caso, é maior ainda).

Como, por exemplo, o rapaz que para se isentar das péssimas notas do semestre afirmou que havia engravidado a namorada, portanto, não conseguia se concentrar nas avaliações. Outra moça, tirou zero por plagiar um trabalho e pediu clemência, alegando que um colega também tinha feito o mesmo e eu não tinha percebido.

Tudo bem, não vamos ser injustos, alguns elaboram argumentos dignos de um roteiro de novela mexicana (vale um ponto pela criatividade), capaz de derreter os corações do professor mais terrível, como o rapaz da imagem abaixo:

Alison1

Na época de avaliações finais, nós, professores convivemos com várias epidemias: alto de índice de fertilidade das namoradas dos alunos (ou das próprias alunas!), fugas maternas para países vizinhos, mortalidade altíssima de avós, tios e animais de estimação e, claro, infecções intestinais repentinas que impedem nossos queridos alunos de comparecerem às provas ou de não se concentrarem o suficiente. Até Walter White teve que ouvir esse chororô na segunda temporada de BreakingBad e sabe o que ele respondeu? “Don’t bullshit a bullshitter”, ou como minha avó dizia, “Não se faça de esperto que enquanto você plantava o milho, eu já tinha comido a canjica”.

Não é que na minha época de faculdade (nem faz tanto tempo assim) não houvessem procrastinadores especializados em desculpas esdrúxulas, mas lembro que entrar na Universidade era uma conquista para poucos. Pessoas que como eu, pobres e do interior, davam muito valor à suada conquista que era passar no vestibular. Não estávamos ali para brincar.

Hoje, eu vejo jovens adultos recém-saídos do ensino médio, a maioria, vindos de escolas particulares ou de escolas públicas de referência, treinados para pontuar no ENEM, mas que não fazem ideia do que realmente querem da vida. Muitos deles acham que a Universidade é a casa da mãe Joana e não se dão conta que essa liberdade traz um encargo muito grande. A questão é: estão nossos discentes preparados para essa liberdade ou vão continuar usando desculpas e justificativas, tentando ganhar cada semestre aos 45 do segundo tempo?

Claro que, da mesma forma, nós estamos sujeitos a sermos considerados vilões, como se sentíssemos prazer em “reprovar” alguém. Não é o caso, acreditem. Nosso trabalho na sala de aula não consiste somente em apresentar e discutir conteúdos, mas também em avaliar a forma como estes conteúdos foram apreendidos e isso inclui o compromisso e o desempenho no cotidiano da sala de aula e não só as respostas corretas na hora da prova.

Nesse caso, se o aluno não consegue obter a média, ele indica que não atingiu o objetivo da disciplina, e, ao meu ver, quebra um compromisso importante consigo mesmo. No fim, talvez seja essa percepção que está em falta: o compromisso de “passar” na disciplina, não deve ser feito com o professor ou com a universidade, mas individualmente.

Assim, eu deixo uma dica para você, meu caro procrastinador: você que conseguiu entrar na Universidade em tempos tão difíceis, valorize essa conquista, se esforce mais e lembre que o professor tem seus próprios problemas para dar conta: ele também termina relacionamentos, tem contas para pagar e nem por isso, deixa de dar aulas, corrigir avaliações e prestar contas à coordenação do curso.

Enquanto isso não muda, vamos colecionando as histórias-desculpas de final de semestre. Afinal, ser professor no Brasil é muito, muito difícil, mas, pelo menos, a gente se diverte.

 

* Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, saltar de paraquedas e dançar um tango em público.

**Os prints apresentados no texto não são verídicos, mas brincadeiras feitas por professores a partir de histórias reais ouvidas em sala de aula.