Espaço do Leitor

Carta de Solidariedade à professora Camila Roseno

“Professores e professoras LGBTQIA+ sofrem assédio moral de alunos/as e gestores/as cotidianamente, quase sempre acionam nossas sexualidades e identidades de gêneros numa tentativa de nos desqualificar profissionalmente, como se quisessem nos envergonhar daquilo que somos, nos causar constrangimento diante da comunidade acadêmica/escolar”. Por Antônio Carvalho

Não atura, fecha a firma, bonde das femininas

Que vem de strike a pose direto das revist as

Mas é revista fina, não vem de Ti-Ti-Ti

Se não aprendeu com elas, isso é cultura QUEER

Vem aplaudir

Batendo palma, eu te vi resistir

Mas vi daqui

Que enquanto você chora, eu canto pra subir

Se a minha pele é o que incomoda

Eu te convido a vir vestir

Mais quente que o Saara

Eu queimo o céu e faço o mar abrir

Prepara os doces que a festa não parou por aí

Alice Guél hitou mandando um “Deus é travesti!”

Segura o queixo que esse trecho é feito pra engolir

Mas se o efeito causou medo, é hora de fugir

Só mais um trago desse amargo que eu vivi

Contando as notas chora que hoje eu vou sorrir

De batom preto pro velório ou enterro

Vê nas manchetes e pede pra eu não ter que repetir

(quebrada queer)

 

Somos corpos precarizados, diriam autoras como Judith Butler, isso devida a toda sorte de vulnerabilidade vivida ao longo das nossas trajetórias de vida/formação docente. Professores e professoras LGBTQIA+ sofrem assédio moral de alunos/as e gestores/as cotidianamente, quase sempre acionam nossas sexualidades e identidades de gêneros numa tentativa de nos desqualificar profissionalmente, como se quisessem nos envergonhar daquilo que somos, nos causar constrangimento diante da comunidade acadêmica/escolar.

Esse tipo de assédio precarizam não só os nossos corpos, mas também o corpus da comunidade, pois somos de algum modo impedidos/as de falar sobre nós mesmos/as na construção dos conhecimentos pretendidos em nossas práticas curriculares e pedagógicas. Casos como o de Camila Roseno, professora do curso de pedagogia da UNIFAN, na cidade de Remano, no norte da Bahia, Vale do São Francisco, é representativo desse tipo de violência. Uma aluna junto com sua mãe denunciou a professora à referida instituição, alegando incompetência da profissional, pois esta seria lésbica e dizia abertamente sobre isso nas aulas de educação e corporeidade. Os argumentos utilizados por essa família partem da premissa de existência de uma anormalidade ou desvio moral da professora que gera incompetência na constituição mesma das suas preferencias sexuais. A família reclama não do comprometimento da profissional com sua atividade docente, ela chama atenção par o seu comprometimento ao sistema heteronormativo que regula a comunidade.

Hoje fique sabendo que Camila Roseno Pediu exoneração do cargo, por não suportar o modo como a questões tem sido lidada institucionalmente. É preferível perder uma pesquisadora e professora qualificada do que se comprometer com o combate aos casos de violência como este.

Minha solidariedade à Camila Roseno. Pra cima dos caretas e covardes, sem piedade!         

 

Antonio Carvalho

(viado, pesquisador, professor e amigo da vítiva)

 

Juazeiro/BA, 21/05/2021