Espaço do Leitor

A verdade não é o que costumava ser

“A proximidade das eleições nacionais brasileiras parece tornar interessante e necessária a discussão acerca das fake news nas eleições, inclusive em função do avançado estágio de propagação de notícias falsas já em período pré-eleitoral”. * Por Kalline Laira

Reprodução

Basta um político dizer que o tempo está bom para uma parte do público dizer que está chovendo. Ou que um oponente diga preto para que a versão oficial diga branco. Quando atrapalha, é propaganda, quando convém, é informação! A verdade não é mais o que é, depende de quem a fala e do que cada um quer ouvir. Até agora, esperava-se que os governantes eleitos, os meios de comunicação e as instituições dissessem a verdade no interesse do interesse geral. Hoje, nestes tempos de não diálogo, cada um espera que fale a “verdade” do seu ponto de vista. Mesmo que isso signifique trapacear com a realidade. Daí o sucesso de Orbàn, Salvini, Johnson, Bolsonaro, Trump … Por que a percepção do fato importa mais do que o próprio fato? A falta de cultura histórica ou o desconhecimento do assunto de que falamos não são suficientes para explicar esta revolução “cultural”, ainda que sejam o seu fundamento.

Sempre existiram notícias falsas, especialmente na forma de boatos. Mas tornou-se um gigantesco empreendimento intencional de desestabilização.  O uso de mentiras e narrativas dúbias sempre esteve presente na estratégia de propaganda de regimes, partidos e candidatos, não só para autopromoção, como também para ataques a concorrentes. Para não ir muito longe em tempo e lugar, lembre-se das eleições de 1989, nas quais Collor, então presidenciável, já no segundo turno, disse que o também então presidenciável Lula, se vencedor, lançaria uma investida contra as cadernetas de poupança. No segundo turno das mesmas eleições, a Rede Globo foi acusada pelo Partido dos Trabalhadores de editar os debates finais para favorecer Collor. Embora o questionamento não tenha sido bem sucedido na Justiça Eleitoral – o PT queria que a emissora transmitisse uma nova edição, a título de direito de resposta, mais recentemente a própria Rede Globo admitiu que a edição buscou privilegiar Collor.

O que mudou, então? Em 2013, sem usar a expressão “fake news”, o Fórum Econômico Mundial classificou a massiva desinformação digital como um risco global. Bom, para nós brasileiros o risco resultou em um governo devastador para nossa democracia e população. A difusão de fake news nas eleições de 2018 gerou o caos entre os eleitores e a opinião pública. Segundos os dados do relatório digital seis em cada 10 brasileiros tem WhatsApp no seu celular. São 120 milhões de pessoas a uma mensagem de distância. Para chegar a tantas pessoas como Bolsonaro chegou é necessário ter uma estrutura forte, com grande financiamento por trás. Publicidade, marketing e virtual têm sua parcela de responsabilidade nessa desconfiança generalizada: querem nos convencer de que comprar um carro é comprar silêncio ou ar puro. Que votar fulano de tal, apresentado sob o perfil artificial que a opinião pública espera, é votar um vencedor. Pagamos caro pela adição e interação desses fenômenos. 

Quando repetida, a notícia falsa “Fake News” acaba soando como verdadeira. Ainda mais porque é muito difícil negar o improvável, especialmente se a negação vier de uma fonte que se tornou suspeita. Assimilada a poderes, a noção de verdade é tão contestada quanto esses poderes. A falsa notícia é tanto mais audiência nas redes “sociais” que permanece impune. E faz tanto barulho que os profissionais de notícias não conseguem mais ignorá-lo. Saudamos o talento dos acrobatas da mentira! Porque, martelado, ele instila a dúvida, o que basta para modificar nossa percepção, para aceitar outra versão, falsa mas plausível, de acordo com nossas emoções ou nossas fantasias. Como a teoria da conspiração aplicada aos ataques, e a segurança do voto eletrônico. A verdade é golpeada pela torrente contraditória dos eventos atuais: um dia orgânico é bom, no dia seguinte é tão ruim quanto não orgânico; um dia o aquecimento é devido ao homem, no dia seguinte é apenas um ciclo natural; um dia aumenta o poder de compra, no dia seguinte tudo aumenta. As pesquisas reforçam o fenômeno. Observe o quanto eles não se relacionam com um projeto explicado, mas com a opinião que se tem de um sujeito ou de uma pessoa que geralmente não se conhece.

A verdade não é mais uma referência moral, a subjetividade se torna adoração. Portanto, rigor, honestidade, a caça à falsificação, embora essencial, corre o risco de ter pouco efeito. Democracia, é a liberdade de todos expressarem qualquer coisa, apesar da realidade? Ou é a capacidade de pensar, debater e decidir coletivamente para não nos jogarmos da estupidez ou da raiva nas armadilhas ilusórias e radicais que nos são armadas? Enquanto a opinião pública tiver essa necessidade de acreditar em falsidades, um fenômeno específico de períodos conturbados da história, como ficará o futuro da democracia? A proximidade das eleições nacionais brasileiras parece tornar interessante e necessária a discussão acerca das fake news nas eleições, inclusive em função do avançado estágio de propagação de notícias falsas já em período pré-eleitoral.

 

Por Kalline Laira, Historiadora e Mestra em Educação