Cosmopolita

Sou bi e… meu corpo não é invisível

“Vistos como indecisos, promíscuos e/ou infiéis, os bissexuais sofrem bifobia dentro e fora da comunidade LGBT”. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre

Eu gosto de homens e de mulheres.
E você o que prefere?
E você o que prefere?
Homens que dançam tango
Mulheres que acordam cedo
Homens que guardam as datas
Mulheres que não sentem medo.  

– Angela Rô Rô

 

No final de semana passado a Associação Sertão LGBT organizou um evento na orla de Juazeiro com o tema: Bissexuais: corpos invisibilizados. A iniciativa foi interessantíssima, <cabelo ao vento, gente jovem reunida> e me fez pensar em muitas questões (sim, sou dessas, preciso problematizar).

A primeira vem do fato que a sigla LGBT vem responder historicamente à uma ausência, mas ela mesma, cria divisões. Me explico: antes, a sigla usada para se referir às pessoas que não se enquadravam na sexualidade heteronormativa era GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), uma sigla excludente porque colocava todas as demais orientações sexuais em uma única categoria, a de simpatizante. A sigla foi sendo substituída, aos poucos por outra que pretendia abarcar um público mais amplo. Assim, em uso desde a década de 1990, a sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros foi oficializada no Brasil em 2008. Atualmente essa sopa de letras é maior, incorporando o Q de Queer e o I de Intersex, ou mesmo, um sinal de + ao final, para indicar outras formas de sexualidade.

Bandeira do Orgulho Bissexual desenhada por Michael Page em 1998.

Voltando ao que interessa, ou seja, aos Bissexuais, a questão se complica um pouco. O B da sigla continua sendo uma grande controvérsia. Vistos como indecisos, promíscuos e/ou infiéis, os bissexuais sofrem bifobia dentro e fora da comunidade LGBT. <Todo mundo quer saber com quem você se deita, nada pode prosperar>, como diria o Caetano. Eu, na verdade, assumo que sofri mais bifobia por parte de gays e lésbicas (melhorem, amigos) do que de heterossexuais.

A bissexualidade é, muitas vezes, atribuída à homens que “querem disfarçar a homossexualidade” ou “mulheres curiosas”. <I kissed a girl and I liked>. Alguns dados do Journal of Public Health, mostram que “mulheres bissexuais sofrem mais problemas de saúde mental do que mulheres lésbicas; por isso, mulheres bissexuais têm 64% mais probabilidade de enfrentar distúrbios alimentares, 37% mais chances de ter comportamentos de automutilação e são 26% mais vulneráveis a depressão.

O estereotipo é tão forte que os bissexuais são alvo constante de piadas (não, não somos unicórnios), objetificação (não somos um objeto para o seu prazer), convites para sexo à três (não nos interessa fazer parte da sua fantasia), vistos como incapazes de manter um relacionamento monogâmico (eu nunca traí, mas já fui traída por goldstar lésbicas**, vai saber, né?), como pessoas que só querem relacionamento aberto ou poliamoroso (o que é perfeitamente aceitável, mas não é regra, arrisco dizer que é exceção) ou ainda, como pessoas hiper-sexualizadas ou fetichizadas (não, não saímos transando com todo mundo que aparece na nossa frente, muito menos, vivemos fazendo ménage ou swing por aí).

Se é difícil para as mulheres bissexuais, os homens também sofrem com a questão. Tidos como covardes por não assumir uma homossexualidade inexistente ou como incapazes de serem fieis em uma relação afetiva. Esse tipo de preconceito é reforçado inclusive na mídia. Várias séries mostram personagens bissexuais como pessoas promíscuas ou propensas à traição. Na série Orange is the New Black, por exemplo, a personagem Piper sempre me incomodou, pois sempre foi mostrada como alguém instável e insegura com a própria sexualidade. Apesar de assumir seu romance com Alex, a personagem é apresentada muitas vezes como uma “lésbica incompleta”, pois, claramente, sente atração sexual e afetiva por homens.

Como lembra a Lívia Reginato, << As representações de pessoas bissexuais na mídia propagam a concepção que bissexualidade é uma escolha imoral, uma depravação, um tipo de diversão ou até experimento, o que ajuda que essa sexualidade siga no patamar de mito. A mídia, quando não simplesmente se nega a reconhecer a atração por mais de um gênero como válida, distorce a imagem dos personagens bissexuais objetivando dar material para o imaginário do público. Os despersonaliza e os coloca na categoria de simples devassos de caráter duvidoso.>> Leiam o texto dela sobre representações dos bissexuais nas séries de tv: ma.ra.vi.lho.so.

Mas… HELLOW! Bissexual é uma pessoa cuja orientação (não, não é uma escolha) afetiva e sexual pode ser direcionada à ambos os sexos. O American Institute of Bisexuality , em uma pesquisa sobre preconceito sexual mostrou que 72% dos bissexuais não assumiam sua sexualidade publicamente, ou então, declaravam-se “sem rótulo”, o famoso clichê: “eu gosto de pessoas”, pois é mais fácil assumir-se enquanto gay ou lésbica, do que como bi. Recentemente ouvi de uma lésbica, que eu não deveria contar sobre minhas experiências nos meus relacionamentos com homens porque ela <sentia nojo>. É justamente disso que se trata. Muitas vezes, bissexuais são obrigados a esconder sua sexualidade para não perder um parceiro/a ou para se poupar de algum comentário constrangedor como esse.

Eu não me torno lésbica se saio com uma mulher ou hétero se saio com um homem. O ponto é que me torno mais livre e compreensiva com meu corpo, sentimentos e desejos. <I’m beautiful in my way. ‘Cause God makes no mistakes. I’m on the right track, baby. I was born this way>.

 

*Goldstar é um termo gay para pessoas que nunca ficaram ou tiveram relações sexuais com pessoas do sexo oposto.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

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